Foto: Edley Oliveira/ Amazon Sat
Na comunidade São Sebastião, em Iranduba, no Amazonas, o caju ganha novos sabores, formas e possibilidades de renda. Conhecida pela produção do fruto, a comunidade se prepara para retomar uma tradição que ficou mais de dez anos sem acontecer, a antiga Festa do Caju, que agora volta repaginada e com o nome de Festival do Caju.
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O evento será realizado no dia 19 de setembro e pretende reunir aproximadamente 4 mil pessoas, segundo a organização. A programação terá música regional, gastronomia, apresentações culturais, concurso da Rainha do Caju, comercialização de produtos e atividades voltadas à valorização dos produtores e empreendedores da própria comunidade.
De acordo com o Presidente da associação responsável pela comunidade, Emerson Vasconcelos, a proposta do Festival do Caju é transformar o fruto em oportunidade de geração de renda e fortalecer a identidade de São Sebastião, que começou a ser formada em 1989, quando a área, que antes funcionava como uma fazenda, foi adquirida pela prefeitura. A partir daí, moradores passaram a ocupar o território e desenvolver atividades agrícolas, entre elas o cultivo do cajueiro.
“Há dez anos, a gente produzia para exportação dez toneladas de caju. E ano que vem, como a gente está com o retorno do Festival do Caju, a gente quer ter, em média, 12 toneladas para exportação”, contou Emerson, conhecido como “Cabeludo do Fusca”.
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Da antiga festa ao novo festival
Segundo o vice-presidente da associação, Alessandro Arruda, a mudança de nome não aconteceu por acaso. A antiga Festa do Caju tinha como principal característica a reunião dos moradores em torno de um palco, e com o novo formato, a ideia é ampliar a programação e, principalmente, transformar o fruto em protagonista da gastronomia e do empreendedorismo local.
A programação do Festival do Caju também foi ampliada. De acordo com Alessandro, o evento, que antes tinha aproximadamente oito horas de apresentações, agora terá mais de 22 horas de shows distribuídos ao longo da programação.

A expectativa da organização é que o Festival do Caju cresça a cada edição. “Nós queremos fazer um grande festival e, no outro ano, ampliar ainda mais”, afirmou.
Caju vira doce, licor e prato principal
Um dos principais atrativos do festival do caju é a gastronomia, já que, ao todo, serão 20 barracas ocupadas por empreendedores da comunidade e também por participantes de fora. A prioridade, segundo a associação, é dada aos associados que estão em dia com suas obrigações.
A ideia é que boa parte das barracas ofereça produtos derivados do caju. Entre as opções estão doces, geleias, compotas, sucos, licores e pratos salgados que utilizam o fruto como ingrediente.


De acordo com Emerson, o visitante poderá encontrar desde receitas tradicionais até preparações criadas especialmente para o festival, como pudim de caju, torta de caju, farofa de caju com camarão, moqueca de camarão ao molho de caju e caldeirada de peixe com caldo de caju.
Uma das novidades é o licor de caju. Segundo Alessandro, mais de 300 garrafas serão produzidas para o Festival do Caju.
“Novidade que nunca teve na Festa do Caju são os licores de caju. Licor de caju tradicional, licor de caju com cravinho, erva-doce. A gente quer que o pessoal venha e faça parte, traga seus produtos, traga suas inovações e traga novidades. Outra novidade nossa vai ser o licor de caju dentro da bombona, com LED, o pessoal distribuindo no meio da festa”, explicou.

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A produção também representa uma tentativa de transformar os alimentos desenvolvidos pela comunidade em produtos comercializáveis durante todo o ano. A intenção dos moradores é criar uma marca própria para os derivados do caju e levar os produtos para o mercado.
“Hoje nós estamos fazendo novos pratos com os derivados do caju. Isso não existia. Ninguém tinha feito ainda a caldeirada ao molho de caju. Hoje já chegou”, disse o vice-presidente.
Entre as experiências que ainda estão em desenvolvimento está o chamado caju crocante. Para o futuro, a associação também pretende produzir barras de cereais utilizando castanhas de caju.
Cajueiros espalhados pelas propriedades
Apesar da tradição, a comunidade não possui uma única grande fazenda destinada exclusivamente ao cultivo do caju. A produção está espalhada por pequenas propriedades e sítios pertencentes aos próprios moradores.
Segundo Alessandro Arruda, há cerca de 30 anos, a região era considerada uma única comunidade e os cajueiros foram sendo cultivados pelos moradores em diferentes propriedades.
“Não existe só uma fazenda de caju. São várias propriedades que têm plantação de caju. O pessoal da comunidade vai em cada sítio, vai colhendo os cajus e vai trazendo aqui para a associação”, explicou.

A associação também está passando por uma reforma para ampliar a capacidade de produção. Entre as melhorias previstas está a criação de uma cozinha comunitária, que deverá ser utilizada por moradores que não possuem estrutura própria para preparar os derivados do fruto.
Entre as pessoas responsáveis por transformar o caju em produto está Dona Nazaré, que trabalha na fabricação dos doces. O processo, segundo ela, começa com o corte do fruto e depois, o açúcar é levado ao fogo até atingir o ponto necessário para receber a polpa do caju. A receita simples representa uma tradição que agora ganha espaço dentro do Festival do Caju.

A lenda do Cajueiro de Ouro
Além da produção e da gastronomia, o festival do caju também pretende apresentar ao público a história que envolve o caju na cultura local. Uma das narrativas que será apresentada durante o evento é a lenda do Cajueiro de Ouro, protagonizada por uma jovem indígena chamada Caíu.
Segundo Alessandro, em um período de fome, Caíu teria entrado na mata e passado uma noite inteira chorando, e das lágrimas da jovem teria nascido uma pequena planta, que posteriormente deu origem aos cajueiros.
“Através da lágrima dela começou a nascer uma planta, uma arvorezinha, que dessa arvorezinha surgiu os cajus. E com esse cajueiro ela tirou uns cajuzinhos e levou para a tribo. Lá eles descobriram a castanha do caju, começaram a processar e dali começaram a tirar os alimentos da castanha do caju, onde sobreviveu o povo”, explicou.
A história será utilizada para aproximar o público da tradição e mostrar que o caju, para a comunidade, não representa apenas uma atividade agrícola, mas também parte da memória e da identidade dos moradores.
Melhorias para a comunidade
A realização do Festival do Caju também está relacionada a uma série de melhorias estruturais em São Sebastião. Segundo os organizadores, a mobilização em torno do festival ajudou a comunidade a buscar investimentos.
“A comunidade começou a se enxergar mais. Antes ela estava bem dispersa. Quando surgiu a conversa do festival, vieram mais benefícios para a comunidade, como obras, pavimentação e a iluminação do campo, que não tinha”, relatou Alessandro.
A própria associação está sendo reestruturada para atender à produção dos alimentos e receber os moradores durante as atividades. Para a organização, o objetivo é fazer com que o dinheiro movimentado pelo evento retorne para a comunidade e contribua para melhorias coletivas.
Música regional e valorização dos artistas
A programação musical do Festival do Caju também será marcada pela presença de artistas e bandas locais, com a proposta de valorizar a música regional.
Entre as atrações estão Leandro Costa, Ari Góes, Tome Xote e outras bandas de Iranduba. Uma das atrações é o cantor Bira Imperador, nome artístico de Edenes de Souza, que destacou a importância de participar de um evento realizado dentro do próprio município.
“Eu recebi com muita alegria o convite para fazer parte do show, ser uma das atrações do Festival do Caju aqui na comunidade de São Sebastião. Eu estou muito feliz pelo fato de ser dentro do meu município”, afirmou.

Segundo o artista, a apresentação terá um repertório diversificado, com destaque para a música regional. “A gente valoriza muito a nossa música regional, que é o beiradão, e a mistura de ritmos. O público é acostumado com o forró, o forró de beiradão, a mistura de arrocha e sofrência”, disse.
Outro momento aguardado será a escolha da Rainha do Caju. Seis candidatas foram pré-selecionadas e vão se apresentar no dia 19 de setembro. O concurso integra a programação cultural do festival e pretende reforçar a identidade do evento, que tem o caju como símbolo da comunidade.
Uma tradição que busca um novo futuro
A retomada do Festival do Caju representa, para os moradores de São Sebastião, uma tentativa de transformar uma tradição antiga em uma nova oportunidade de desenvolvimento.
Do fruto saem doces, geleias, sucos, licores e receitas salgadas. Da castanha, surgem novas possibilidades de produtos. E da própria festa nasce a expectativa de fortalecer o comércio, o turismo, a cultura e o empreendedorismo.
“O objetivo do Festival do Caju é fazer com que os comunitários consigam se autossustentar”, resume Emerson.
