Foto: Katrine Bentes/CCOM
Considerado um dos importantes vestígios arqueológicos da Amazônia, a cerâmica tapajônica revela historicamente os aspectos do cotidiano, as crenças e a organização social dos povos Tajapó, grupos originários que habitaram a região de Santarém, no Pará, antes da colonização europeia.
Embora ainda não existisse o conceito de cidade, os vestígios apontam para grande concentração populacional, com conhecimentos técnicos, artísticos e culturais avançados.
As peças tapajônicas encantam pela riqueza de detalhes, pelas decorações elaboradas com pinturas e relevos, e pelas representações antropomorfas (figuras humanas) e zoomorfas (figuras de animais) como jacarés, serpentes, rãs, macacos, urubus-reis e outras.
“A cerâmica funciona como registro histórico. Por meio dela compreendemos hábitos, crenças e a organização das sociedades que viveram aqui antes de nós. Por isso que muitos pesquisadores consideram Santarém uma das áreas de ocupação humana mais antigas do Brasil”, afirma o arqueólogo Jefferson Paiva.
Entre os objetos mais emblemáticos estão os vasos de gargalo, com abertura semelhante à de uma garrafa e braços alongados decorados com essas criaturas, e os vasos de cariátides, em formato de taça, divididos em duas partes: a inferior, sustentada por figuras femininas, e a superior, adornada com uma mistura de seres da fauna estilizada.
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Rotinas tapajônicas
As representações das peças tapajônicas estão ligadas a rituais dos povos antigos, incluindo práticas simbólicas de memória coletiva com restos mortais cremados e misturados a bebidas cerimoniais.
“Os vasos de cariátides estavam ligados a rituais funerários praticados pelos Tapajó, que incluíam práticas de endocanibalismo. Nesse processo, após o primeiro sepultamento, os restos mortais podiam ser cremados, e parte das cinzas era misturada a bebidas, colocadas nas peças de cerâmica e consumidas em cerimônias coletivas, como forma simbólica de manter a presença do ente falecido dentro da comunidade”, comenta Paiva.

Já as estatuetas retratam cenas da vida cotidiana, como mães com crianças no colo, bebês com o pé na boca, o pajé ou xamã em momentos de reflexão, mulheres segurando vasos, entre outras situações.
“A cerâmica funciona como registro histórico. Por meio dela compreendemos hábitos, crenças e a organização das sociedades que viveram aqui antes de nós”, destaca Jefferson.
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Apagamento cultural
Em documentos históricos, o padre João Felipe Bettendorf relatou em carta que os artefatos eram usados em rituais ligados à vida e à morte, como nascimentos, colheitas e cerimônias espirituais da vida tapajônica.
Na época, os Tapajó eram considerados “idólatras”, e suas peças associadas a práticas demoníacas. Durante a presença jesuítica na região, entre 1661 e 1665, muitas cerâmicas foram destruídas e sua produção proibida.
“Essas práticas foram consideradas ‘coisas do diabo’. Por causa disso, muitas peças foram destruídas e a produção foi proibida”, explica Jefferson.
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Para o arqueólogo, compreender esse processo histórico é fundamental para entender por que parte da tradição cerâmica tapajônica foi interrompida. Valorizar a memória e a ancestralidade é essencial para reconectar a população com as raízes culturais da região.

“É importante resgatar essas histórias, porque muitas delas não aparecem nos livros ou nas escolas. Houve um período de intensa destruição cultural. Muito desse conhecimento foi interrompido por conta do genocídio e do etnocídio indígena. Se isso não tivesse ocorrido, provavelmente teríamos mais histórias preservadas e saberíamos com precisão o significado de cada peça e de cada ritual representado”, afirma.
*Com informações da Prefeitura de Santarém
