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Portal Amazônia responde: qual a extensão da costa amazônica?

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Manguezais na margem do estuário do rio Mojuim, no Pará. Foto: Divulgação/Observatório da Costa Amazônica

A Amazônia, o maior bioma do Brasil, cobre cerca de 49% do território nacional, sendo a maior floresta tropical do mundo e abrigando a maior biodiversidade do planeta, com uma vasta área que se estende pela região Norte e outros estados, de acordo com dados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mas além da imensa floresta, a Amazônia também possui uma costa litorânea rica em manguezais, estuários e florestas de várzea, caracterizada pelo encontro do grande volume de água doce do rio Amazonas com o Oceano Atlântico, formando um sistema único de ambientes costeiros. 

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Para o geólogo Caiubi Kuhn, a extensão costeira da Amazônia é importante para assegurar a soberania do Brasil.

“A costa amazônica tem uma importância muito grande para o país, por vários aspectos. Ela possui uma série de recursos, desde recursos pesqueiros, como também recursos naturais, como é o caso dos recursos minerais. Então, nos últimos anos, tem se avançado cada vez mais as pesquisas sobre depósitos minerais existentes na plataforma continental. E essa expansão do domínio brasileiro, ela representa um ganho para o país em termos de recursos naturais. E também auxilia na proteção, em especial, do litoral brasileiro”, explica Caiubi. 

Mas afinal, qual a extensão da costa amazônica?

De acordo com a Revista da Gestão Costeira Integrada, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a zona costeira amazônica brasileira possui características meteorológicas e oceanográficas bastante peculiares quando comparadas a outras regiões costeiras do Brasil.

A revista universitária aborda que, esta faixa costeira se encontra entre o rio Oiapoque (AP) e a baía de São Marcos (MA), local onde estão inseridos diversos ambientes marinhos como praias, planícies de marés, pântanos salinos e doces, manguezais e muito mais.

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Ilha de São Luís na Baía de São Marcus (MA). Foto: NASA / Wikipédia

De acordo com o geógrafo Cleberson Ribeiro, o Brasil ocupa 47% da área da América do Sul e possui uma linha de costa de, aproximadamente, 8.500 km de extensão, dos quais 35% são ocupados pelo litoral amazônico brasileiro, ou seja 2.975 km de tamanho.

Nesta faixa territorial encontram-se ainda as regiões metropolitanas de Macapá-Santana (AP), Belém (PA) e São Luís (MA), municípios com moderada densidade demográfica e grandes extensões territoriais que são difíceis de acessar, pouco habitadas por populações tradicionais ou são inabitadas.

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Trecho do imenso litoral paraense, que abriga Reservas Extrativistas Marinhas. Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará

Nas três cidades abrigadas pela zona costeira, segundo a revista, estão concentrados, aproximadamente, 2,8 milhões de habitantes e a economia está baseada, principalmente, nas atividades industriais, portuárias, metalúrgicas, imobiliárias, pesqueiras, turísticas, comerciais, extrativistas e pecuaristas. 

Zona costeira da Amazônia. Fonte: Souza Filho et al. (2005)

Já nas pequenas comunidades que vivem na área costeira, a economia local é amparada pela agricultura e a pesca. Em algumas cidades litorâneas, os centros históricos, os encantos da música, culinária, artesanato são responsáveis pelo turismo local.

Além disso, outros meios de renda são localizados nessa área, como a exploração de minério, a carcinicultura, e piscicultura, a apicultura, entre outras, também são desenvolvidas ao longo do litoral amazônico brasileiro, de acordo com a Univali. 

As mudanças climáticas e as zona costeira amazônica

O geógrafo Cleberson, afirma que a zona costeira amazônica é uma região bastante específica, com um clima local e reduzido, e ambiente particularmente sensíveis e influenciados pelas condições climáticas locais. “Essa área, caracterizada por uma extensa floresta e um rio de grande volume, está próxima à linha do Equador e apresenta condições microclimáticas e ambientais singulares, tanto em relação à fauna quanto aos microssistemas”, explica o pesquisador. 

Para o geógrafo, diante das mudanças climáticas, pode-se observar impactos significativos nas condições que caracterizam esse sistema costeiro, incluindo períodos de estiagem mais prolongados e estresse hídrico. “A análise dessa região exige a consideração da fauna, flora e das populações tradicionais que nela habitam, todos elementos integrados em um contexto específico”, pontua. 

A zona amazônica possui uma condição peculiar e única, diferenciando-se das demais porções costeiras do Brasil.  Essa particularidade é causada, exclusivamente, pela sua posição geográfica, já que fica distinta da influência de massas de ar polar ou outros fenômenos climáticos observados em outras regiões.

Segundo Ribeiro a costa amazônica é influenciada pelo processo de vazão do Rio Amazonas. Com isso, essa costa está direcionada, diretamente, com a grande proporção de vazão do rio Amazonas e como consequência, ela vai ter também outras condições, tanto climáticas quanto de temperatura.

“Então, nós vamos ter um limite muito relacionado a essa base. Lembrando que o rio Amazonas, por exemplo, vai representar um pouco mais de 15% de toda a água doce descarregada nos oceanos, elevando muito essa quantidade de sedimentos que é depositado no rio Amazonas até dentro da parte ocidental. Temos uma dimensão muito específica dessa parte, dessa seção da nossa costa derivado principalmente em relação ao rio”, disse o geógrafo ao Portal Amazônia.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Por que Cuiabá é conhecida como “cidade verde”?

Cuiabá ocupa o ranking das cidades que possuem mais avenidas arborizadas do país. Foto: Divulgação/IPHAN

Capital de Mato Grosso, Cuiabá é considerada uma das capitais mais arborizadas do país. Famosa pelos quintais com mangueiras e cajueiros, a cidade é abraçada por três biomas principais do Brasil – a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal – e ocupa o 8° lugar no ranking nacional de arborização urbana entre as capitais, segundo dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025.

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Com 74,23% de suas ruas e avenidas arborizadas, a capital mato-grossense supera grandes cidades como São Paulo. Veja o ranking das capitais mais arborizadas (%) – por trecho de via com pelo menos uma árvore (dados do Censo Demográfico IBGE/2022):

CapitalRanking NacionalCapitalRanking Amazônia Legal (recorte)
1. Campo Grande (MS)91,41. Palmas (TO)88,7
2. Goiânia (GO)89,62. Cuiabá (MT)74,5
3. Palmas (TO)88,73. Porto Velho (RO)64,9
4. Curitiba (PR)85,24. Macapá (AP)62,9
5. Brasília (DF)84,25. Boa Vista (RR)52,6
6. Porto Alegre (RS)76,56. Manaus (AM)44,8
7. Belo Horizonte (MG)75,37. Belém (PA)44,6
8. Cuiabá (MT)74,58. Rio Branco (AC)39,9
9. São Paulo (SP)66,29. São Luís (MA)34,3
10. Porto Velho (RO)64,9

Segundo pesquisadores, a cidade tem o toque verde por uma série de fatores, sendo eles sociais, culturais e ambientais.

Vista da Ponte Sérgio Motta, entre as cidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Vista da Ponte Sérgio Motta, entre as cidades de Várzea Grande e Cuiabá. Foto: Mtur Destinos / Wikipédia

Cuiabá é a “cidade verde” do Brasil?

De acordo com o geólogo Caiubi Kuhn, o título de “cidade verde” está relacionado com a existência de grandes árvores frutíferas, como a mangueira e o cajueiro, e a região hídrica de Cuiabá, que apesar de ser fraca, tem papel importante na titulação da cidade.

“Áreas que possuem aquíferos, com melhor disponibilidade de água, acabam favorecendo o desenvolvimento da vegetação. Mas, em geral, a área de Cuiabá não é uma área onde tem uma boa disponibilidade hídrica. Então, por isso que a gente acaba observando áreas que possuem uma vegetação mais concentrada, normalmente próximo de rios como o Rio Coxipó”, disse Kuhn. 

Para o Engenheiro Florestal Marcelo Pissurno, a idealização de Cuiabá ser uma cidade verde veio da cultura local, através da letra do rasqueado ‘Cabeça de Boi’, de autoria de Henrique, Claudinho e Pescuma, em que se canta: “Oh Cuiabá, cidade verde, ai, ai, ai / com cheiro de pequizá, ai, ai, ai”.

“Essa letra criou uma memória afetiva e uma identidade associadas à paisagem da cidade, somadas às artes plásticas produzidas por artistas cuiabanos, que retratavam o cotidiano e a paisagem urbana do início do século XX”, explica o engenheiro. 

Além dessa música, Pissurno ressalta que as praças e jardins, os quintais, as festas de santo e a culinária compunham esse cenário esverdeado em Cuiabá: “Os quintais, em especial, sempre foram formados por árvores e plantas frutíferas exóticas, como caju e manga, retratadas nas letras das músicas e nas telas dos artistas, fazendo parte da cultura e da dieta cuiabana. O verde sempre esteve presente”. 

Porém, com a ascensão da urbanização e o desmatamento, Cuiabá tem perdido seus tons verdes. Pissurno destaca que onde antes havia quintais, surgiram prédios, principalmente na área central, e as praças foram perdendo o uso e o verde. ”Assim, o verde permaneceu apenas na memória”, analisa o engenheiro.

Cidadãos ajudam a arborizar Cuiabá. Foto: Divulgação / Poder Judiciário de Mato Grosso

O apagamento do verde na área urbana de Cuiabá

Por isso, de acordo com Pissurno, o título de “cidade verde” é uma denominação antiga, que acredita ter perdurado até meados da década de 1990. “A cidade ainda era pequena, sem um crescimento populacional expressivo. Seu crescimento rápido e desordenado agravou a perda desse título”, comenta.

Segundo dados do IBGE, a área urbanizada de Cuiabá em 2019 era de 160,59 km². Marcelo explica que devido ao crescimento urbano da cidade, há 10 anos, o espaço verde tem se perdido.

“A cidade cresceu muito nos últimos 10 anos, especialmente no período pós-Copa do Mundo. Muitas obras e intervenções foram realizadas, como o sonhado VLT, que nunca saiu do papel, e agora as obras do BRT [referentes ao trânsito]. Nesse período, perdemos muitos indivíduos arbóreos em terrenos baldios, áreas verdes e, principalmente, na malha viária — calçadas e canteiros. Árvores que foram retiradas, morreram por diversos motivos e que nunca foram substituídas”, disse o engenheiro ao Portal Amazônia.

Mesmo com a urbanização se expandindo por Cuiabá, a cidade possui projetos de lei que ajudam a valorizar o meio ambiente que resiste na urbanidade. O “Programa Verde Novo”, por exemplo, é um projeto de autoria do Poder Judiciário, em parceria com a Prefeitura de Cuiabá, do qual o Marcelo participou por dois anos.

O programa é voltado para a educação e conscientização ambiental, além de promover o plantio de árvores em espaços públicos e a distribuição de mudas à população.

Leia também: Cuiabanos que inspiram: cinco personalidades que ajudaram a escrever a história da cidade

Programa Verde Novo atua para arborizar a capital. Foto: Divulgação / Poder Judiciário de Mato Grosso

O “Plano Diretor de Arborização Urbana”, um estudo elaborado a partir do levantamento de todas as questões relacionadas à arborização urbana de Cuiabá, com propostas de melhoria e recuperação, também é uma medida que ajuda a melhorar a área verde da região. “É um documento que realmente precisa ser implementado, criando e executando um projeto efetivo de arborização urbana para a cidade”, defende.

O engenheiro pontua ainda algumas alternativas que os cuiabanos podem adquirir para manter o título de “cidade verde”. Ele propõe que educação ambiental, conscientização e um plano de arborização urbana que todos sigam – moradores, construtoras e condomínios – respeitando suas normas e diretrizes, desde o plantio até o manejo. A poda e a conservação dos indivíduos arbóreos são medidas alcançáveis que a população pode tomar. Além disso, defende o engenheiro florestal, é importante a existência de uma secretaria que realize o monitoramento, o controle e a curadoria da arborização da cidade.

“É frustrante ver a atual arborização de Cuiabá. Temos muitas pessoas preocupadas e interessadas no assunto, mas falta reunir forças e fazer acontecer, como ocorre na grande maioria das cidades brasileiras. Ainda assim, não podemos perder a fé e a esperança”, finaliza Marcelo Pissurno.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Barcellar

Bromélias da Amazônia: como essas plantas ajudam no ecossistema amazônico? 

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Bromélia Guzmania lingulata. Foto: Reprodução/ Reserva da Biosfera da Mata Atlântica

As bromélias são plantas pertencentes à família das bromeliáceas, a qual se divide em 56 gêneros subdivididos em mais de 3 mil espécies. Algumas bromélias podem ser terrestres, conseguem crescer diretamente sobre rochas, mas principalmente se desenvolvem escoradas em outras plantas, como as árvores. A Amazônia não apresenta uma variedade tão grande de bromélias, quando comparado com outros biomas tropicais, mas você sabia que elas também são essenciais para o meio ambiente amazônico?

As flores da bromélia são simétricas, com sépalas (partes externas e geralmente verdes de uma flor, que envolvem e protegem as estruturas reprodutivas enquanto a flor está em botão) que contrastam com as pétalas, numerosas e muito coloridas. Os frutos têm forma de baga, às vezes de cápsula, e raramente são múltiplos e carnosos. Algumas bromélias são comestíveis: o abacaxi, por exemplo, é uma bromélia muito comum.

Leia também: Curauá: bromélia da Amazônia pode ser alternativa ao plástico do petróleo

A beleza das bromélias é destacada por suas cores e formatos, tornando-as atrações em jardins e como plantas de interior (decoração). Elas podem ser plantadas em vasos ou então presas a troncos e xaxins. No Brasil, é encontrada uma grande diversidade de bromélias, mas você pode encontrá-las com mais facilidade nos biomas da Mata Atlântica e Cerrado.

Na Amazônia, elas podem ser vistas em regiões perto dos igarapés, em areais e áreas de igapó. Em Presidente Figueiredo, município do estado do Amazonas, é muito comum encontrá-las, por ser uma região rochosa e arenosa.

Leia também: Igapó ou Igarapé? Entenda a diferença

bromélias
Bromélias amazônicas (abacaxi curauá). Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Por que as bromélias são importantes para a Amazônia?

O professor de biologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e mestre em botânica, João Victor Rodrigues, explicou ao Portal Amazônia que as bromélias são fundamentais para o funcionamento da natureza devido à suas habilidades como planta na natureza.

As bromélias, por se utilizarem de outras plantas, como as árvores, para se fixar, são vistas de forma equivocada como parasitas. Porém, elas não retiram nenhum nutrientes da planta suporte, como as parasitas verdadeiras. Elas, pelo contrário, atuam como micro-habitat para diversas espécies, e geram diversos benefícios, segundo o pesquisador.

O biólogo informa que na estrutura em formato de roseta das bromélias, normalmente existe um acúmulo de água que é muito importante para a ecologia e que essas plantas coletam umidade pelas folhas, com suas características anatômicas específicas, e assim absorvem os nutrientes.

“A forma de roseta facilita a concentração de água, servindo de abrigo para diversos componentes da natureza, como larvas de insetos, nematóides (vermes microscópios), sapos e outros pequenos insetos aquáticos. A bromélia também serve como um bebedouro para os animais, já que absorvem muita água e, eles usufruem desse benefício para hidratação”, informou. 

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De acordo com Rodrigues, as bromélias auxiliam na manutenção da cadeia alimentar, pois muitas espécies possuem relações ecológicas com aquelas que dependem diretamente das bromélias.

O biólogo exemplificou quatro espécies de bromélias encontradas na Amazônia, sendo duas conhecidas e duas raras:

Guzmania lingulata. Foto: JF Gaffard/Wikimedia Commons

Bromélias comuns:

Guzmania lingulata

A estrela-escarlate é uma planta de caule verde, de porte pequeno, vive sobre outra planta. Da família do abacaxi (Bromeliaceae), nativa de habitats de floresta tropical nas Américas tropicais e nas Índias Ocidentais. A palavra latina lingulata significa “em forma de língua” e se refere às folhas.

Ela apresenta características diferentes das demais Bromeliaceae da Floresta Nacional (FLONA) de Caxiuanã, no Pará, pois:

  • Formam-se em hastes de diferentes comprimentos e são densamente agrupadas e muito próximas umas das outras;
  • Folhas em formato de língua;
  • Flores amarelo-pálidas;
  • Estames que ficam situados sobre as pétalas, com filetes reduzidos;
  • e sementes específicas que as ajudam na dispersão, na cor castanho-avermelhados.
Araeococcus micranthus. Foto: R.A Pontes / Flora e Funga do Brasil

Araeococcus micranthus

Essa bromélia pode ser encontrada nas florestas úmidas e nas bacias dos rios Orinoco e Amazonas, distribuindo-se em vários tipos de florestas, entre 80–470 metros de altitude. Na Amazônia, são comuns no Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso e Pará.

Pode ser facilmente distinguida das demais Bromeliaceae de Caxiuanã por apresentar:

  • Roseta cilíndrica, delgada (fina);
  • Folhas com formato linear;
  • Com espinhos quase invisíveis e esparsos nas margens.

Além disso, as flores chamam bastante atenção por seu formato característico. Elas se organizam em um tipo de cacho mais solto, com hastes levemente onduladas. As flores têm pétalas separadas, de cor amarela, com três linhas bem visíveis no centro, e são sustentadas por uma haste longa, de tom castanho-avermelhado.

Bromélias raras:

Pitcairnia. Foto: Reprodução/ Bio Diversity 4 all

Pitcairnia

Quase todas as espécies de Pitcairnia vivem no solo ou sobre rochas, geralmente em locais úmidos e com pouca luz. No Brasil, essas plantas apresentam uma distribuição bem definida, ligada às diferentes regiões de vegetação do país.

Estudos iniciais feitos a partir de herbários e da literatura científica mostram que, na Floresta Amazônica, existem 18 espécies de Pitcairnia, sendo a maioria praticamente exclusiva dessa região.

Brocchinia hechtioides

É uma das poucas espécies de bromélias carnívoras do mundo, sendo a outra espécie a Brocchinia reducta. O cheiro, a cor e o formato atraem insetos que, ao serem capturados, são absorvidos como nutriente para a planta.

Leia também: Plantas carnívoras: como são as que se escondem na Amazônia?

Brocchinia hechtioides. Foto: Reprodução/ Bio Diversity 4 all

*Com informações da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica; do artigo ‘Pitcairnia L’Hér. (Bromeliaceae): uma nova espécie, P. azouryi Martinelli & Forzza, e observações sobre P. encholirioides L. B. Sm.’, de Gustavo Martinelli e Rafaela Canpostrini Forzza (Herbário Barbosa Rodrigues, Rio de Janeiro); e do biólogo mestre em botânica João Victor Rodrigues.

**Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

3 doces clássicos adaptados ao paladar amazônico que você precisa provar

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Brigadeiro é o doce mais famoso do Brasil. Imagem mostra a versão de castanha-do-brasil. Foto: Reprodução/Sabores da Amazônia/Amazon Sat

Quando receitas de outras regiões encontram os ingredientes únicos da Amazônia, como castanha-do-brasil, cupuaçu, açaí e tapioca, surgem novas identidades gastronômicas, que respeitam a tradição e ao mesmo tempo refletem a criatividade local.

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Em conversa com a equipe do Portal Amazônia, a chef e empresária Talita Avelino, dona de uma confeitaria na cidade de Manaus (AM), exemplifica três doces que são populares na Amazônia e ganharam versões adaptadas ao paladar regional.

“Esses doces conquistaram o paladar amazônico por serem doces afetivos e festivos. Eles são fáceis de preparar e compartilhar em festas, aniversários e celebrações. Além disso, têm uma identidade afetiva que conecta gerações, assim como os doces tradicionais da Amazônia”, disse a chef ao Portal Amazônia.

Confira os três doces elencados pela chef:

Brigadeiro

Brigadeiro - doce clássico brasileiro, feito com chocolate e leite condensado.
Brigadeiro clássico brasileiro, feito com chocolate e leite condensado. Foto: Mayra/Wikipédia

De acordo com o artigo ‘O mais popular dos doces brasileiros: História crítica do brigadeiro’ (2019), de Pedro von Mengden Meirelles, o brigadeiro, doce mais famoso do Brasil, tem uma história “nebulosa”.

Uma versão popular sobre a origem do brigadeiro é que ele teria sido criado em meio à campanha do político Brigadeiro Eduardo Gomes, em meados do século XX, e vendido por suas eleitoras para arrecadar fundos ou distribuídos para angariar votos.

A versão conta que uma das senhoras participantes da equipe do candidato teria levado a curiosa sobremesa para uma reunião. Heloisa Nabuco de Oliveira apresentou ao restante do grupo o doce que fez um sucesso imediato e, para homenagear Gomes, deu ao doce o nome de “brigadeiro”.

A receita “original”, é composta por:

1 lata ou caixinha de 395 g de leite condensado
3 colheres (sopa) de chocolate em pó
1 colher (sopa) de manteiga
1 xícara (chá) de chocolate granulado

Junta-se todos os ingredientes em uma panela. Leve a panela ao fogo e mexa sem parar até atingir um ponto em que ele desgruda do fundo da panela. Deixa-se esfriar em recipiente untado e, depois, “enrola” a massa em pequenas bolinhas que devem ser passadas em granulados (da sua preferência) para formar os tradicionais brigadeiros.

Mas, claro, a receita foi sendo adaptada ao longo dos anos e tem ganhado versões diferentes, como a que incorpora um sabor típico da Amazônia: a banana frita. Confira:

Beijinho de coco

Doce beijinho é famoso nas festas de criança
Beijinho é um doce de coco com leite condensado e açúcar também muito consumido em festas infantis. Foto: Yardena / Wikipédia

Apesar da fama no Brasil, o doce é originário dos conventos de Portugal e, a princípio, a receita levava amêndoas e calda de açúcar. Ele chegou ao Brasil durante o período de colonização, junto com a família real portuguesa e, como o coco era uma fruta abundante aqui, foi incluído ralado na receita, no lugar das amêndoas, mudando o nome para beijinho de coco. Além disso, na calda de açúcar, foi acrescentado o leite.

Tempos depois, em meados do século XX, o doce ganhou mais uma adaptação: o uso do leite condensado, assim como outros doces da época e o popular brigedeiro.

O cravo também foi adicionado na composição visual do doce e o beijinho, já com este nome, espalhou-se por todo o país e continua sendo um dos mais tradicionais até hoje.

Inspirados tanto no brigadeiro quanto no beijinho, outros docinhos com sabores amazônicos já foram criados, como estes:

Leia também: Doces, salgados e mais: 9 lanches que fazem sucesso na Amazônia

Quindim

O Quindim é doce à base de gema de ovo, açúcar e coco, típico de outras regiões do Brasil, mas amplamente apreciado no Norte. Foto: Leonardo “Leguas” Carvalho / Wikipédia

De acordo com a tese ‘Influência portuguesa no preparo do quindim’, de Ilana Santos, da mesma maneira que outros doces populares no Brasil, o quindim também teve sua origem em Portugal. E foi nos conventos portugueses que este doce surgiu.

As freiras que viviam no convento tinham o hábito de usar claras de ovos para engomar as suas roupas, e com as gemas que sobravam elas faziam doces diversos como o bom-bocado, papo de anjo e brisas do lis.

Antigamente o brisas do lis tinha o nome de “beijinho”, mas como na época não era apropriado pedir um beijinho a uma religiosa o nome precisou ser mudado e esse doce deu origem ao quindim.

O brisas do lis era feito basicamente com açúcar, gemas e amêndoas. Na dificuldade de encontrar amêndoas no Brasil, elas foram substituídas pelo coco, dando origem ao quindim. Essa substituição veio das mulheres africanas que vieram ao Brasil escravizadas.

A popularidade desses doces ocorre porque o paladar amazônico é receptivo a novas experiências, especialmente quando essas receitas podem ser adaptadas aos ingredientes locais, como castanhas, frutas e especiarias. No caso do quindim, uma receita criada por um chef acreano incorporou o açaí:

A fusão entre tradição local e receitas de outras regiões cria uma familiaridade afetiva, tornando-os presentes em festas e encontros familiares. Para Talita, esses doces trouxeram diversidade e inspiraram a criatividade da culinária local.

“Eles convivem com os ingredientes amazônicos, e muitas vezes ganham versões regionais, incorporando frutas, castanhas e sabores típicos da região. Isso não apenas enriquece o repertório de sobremesas, mas também nos inspira a criar novas combinações e releituras que valorizam a cultura amazônica”, conclui a chef.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

‘Amazônia Negra: Expedição Amapá’: documentário destaca resistência da cultura afro-brasileira na região

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Obra vai mostrar a tradições da ancestralidade dos amapaenses. Foto: Veve Milk/Dvulgação

O documentário ‘Amazônia Negra: Expedição Amapá’, que destaca a resistência da cultura afro-brasileira na região e a força do Marabaixo, manifestação tradicional do estado, estreia nesta sexta-feira (12) no Globoplay e em canais de TV.

A obra acompanha o cantor e compositor Carlinhos Brown em uma jornada ancestral de descobertas e reencontros no Amapá. Brown, que é embaixador do Marabaixo no estado, diz ter vivido um reencontro com suas origens.

“Foi uma alegria conhecer de perto essas tradições e ser recebido com tanto respeito. Me senti integrado, pois estava me defrontando com as minhas origens afro-ameríndias. Dar luz a essas histórias nos ajuda a compreender melhor o legado ancestral”, disse ao grupo Rede Amazônica.

Leia também: Conheça história do Marabaixo, manifestação cultural ancestral do Amapá

Documentário vai mostrar tradição dos povos originários e ancestralidade no Amapá — Foto: Veve Milk/Dvulgação
Documentário vai mostrar tradição dos povos originários e ancestralidade no Amapá. Foto: Veve Milk/Dvulgação

A produção será exibida no Canal Bis na sexta-feira (12) à meia-noite, e no Globonews em 20 de dezembro, às 23h. Após a primeira exibição, ficará disponível para assinantes do Globoplay.

Sobre a produção no Amapá

O diretor do documentário Marcel Lapa, disse em entrevista ao Grupo Rede Amazônica, que o objetivo é mostrar amplamente a diversidade cultural do estado.

“O documentário foi pensado para mostrar ao mundo o lado cultural do Amapá, um estado muito rico, com muitas frentes e ideias. Nosso objetivo foi representar o máximo possível dessa diversidade cultural […]O documentário é vivo nas pessoas — não é apenas uma história que eu conto, mas a representação de todo o estado”, explicou o diretor.

Carlinhos Brown guia expedição no Amapá — Foto: Veve Milk/Dvulgação

A obra mistura conteúdo didático e informativo com uma pegada musical. O diretor disse ainda que o ponto de vista do marabaixeiro, artesãos e mestres de toque, possuem um destaque especial.

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São apresentados espaços como o Museu Sacaca e o quilombo do Patuazinho, além de quilombos como o Groove, Curiaú, Mazagão e a Aldeia do Manga.

“Apresentamos os ladrões do Marabaixo e lugares importantes do estado. Além dos espaços, mostramos seus representantes, porque acreditamos que o conteúdo precisa ser retratado pelo próprio povo amapaense”, disse Marcel.

Ele explicou que a ideia surgiu em diálogo com o governo do Amapá e a Secretaria de Cultura (Secult) O trabalho contou com acompanhamento de historiadores indicados pela secretaria.

O diretor também ressaltou a importância de Carlinhos Brown na produção. Para o artista, dar visibilidade nacional às tradições amapaenses é essencial. Ele destaca que o estado guarda riquezas culturais que ajudam o Brasil a compreender melhor sua própria formação.

“O Amapá faz com que um lugar muito simples, mas muito rico, convide o Brasil a se conhecer […] Foi como atravessar a alma num sonho, forte como o que sinto nos candomblés de Oxumarê na Bahia”, contou Brown.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Produções cinematográficas revelam o potencial dos estados da Amazônia no cinema 

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Filme acreano ‘Noites Alienígenas’ é um dos sucessos do cinema amazônida. Foto: Divulgação

O cinema da Região Norte do Brasil passa por um momento de crescimento ainda que enfrente problemas rotineiros de financiamento, algo comum ao audiovisual de um país que não compreende seu potencial. A observação é do jornalista e editor-chefe do site Cine Set, Caio Pimenta.

Segundo Caio, um dos pontos interessantes no cinema nortista é a liderança de mulheres nas produções, como as amazonenses Christiane Garcia e Keila Sankofa; as paraenses Adriana de Faria e Jorane Castro; e a amapaense Rayane Penha. “Temos uma nova geração que se une àquela com décadas de estrada trazendo nossas histórias para as telas”, reforça Caio sobre o cenário crescente com novos cineastas.

Cinema regional em foco

À convite do Portal Amazônia, Caio Pimenta separou uma lista de filmes nortistas que mostram o potencial do cinema regional.

“São filmes que transitam nos mais diversos gêneros – drama, comédia, documentário, animação – mostrando o potencial tanto dos atores na frente das câmeras como também das equipes técnicas nos bastidores. Caso os governos de todos os âmbitos vejam o talento existente e decidam investir, o potencial de crescimento será gigantesco”, justifica o jornalista que também é apaixonado por cinema.

Amazonas: ‘Manaus Hot City’ (2020)

O curta-metragem ‘Manaus Hot City’ conta o enredo de três jovens na capital amazonense. A trama se concentra quando os amigos se encontram para comer um bodó – espécie de peixe típica da região. A conversa entre eles percorre as cores e os cheiros das casas, no calor da cidade de Manaus.

O filme Manaus Hot City é uma produção do diretor Rafael Ramos, que possui pouco mais de 10 anos na direção de curtas-metragens de ficção. O filme tem cerca de 15 minutos e, além da direção, Rafael escreveu o roteiro e cuidou da direção de fotografia.

O curta ganhou o Coelho de Ouro (prêmio do Júri da Mostra Competitiva de curtas-metragens) no Festival Mix Brasil 2021, além do prêmio de melhor curta de ficção no Mammoth Lakes Film Festival na Califórnia (EUA), e o Prêmio Canal Brasil de melhor curta do CINE-PE em edições anteriores. O filme também foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Onde assistir: Vimeo e Youtube

Acre: ‘Noites Alienígenas’ (2022)

O drama acompanha a história de três amigos de infância e da periferia que se reencontram em Rio Branco, capital acreana, em uma situação caótica.

O longa apresenta a periferia da Amazônia urbana, as fronteiras entre cidade e floresta e, a partir do realismo fantástico, aborda o impacto da chegada das facções criminosas do sudeste do Brasil para a Amazônia.

O longa representou a região Norte no Festival de Gramado de 2022, na categoria ‘Melhor Longa-Metragem’, e o ator Adanilo recebeu uma menção honrosa do júri, no mesmo festival em 2022, pelo trabalho na obra.

A obra conquistou cinéfilos de todo o Brasil. A direção é de Sérgio Carvalho, com duração de 1h31min.  

Onde assistir: Netflix e Globoplay

Amapá: ‘Solitude’ (2021)

O curta-metragem de animação amapaense é uma obra dirigida por Tami Martins e Aron Miranda, com 13 minutos de duração. Disputou o prêmio de ‘Melhor Curta-Metragem Brasileiro’ no Festival de Gramado 2022. 

A história se passa na Amazônia, onde Sol encara a solidão e carência depois do término de uma relação abusiva. Enquanto isso, no Deserto do Atacama (Chile), sua sombra, em fuga, busca independência.

Onde assistir: Itaú Cultural Play e Vimeo

Pará: Boiuna (2025)

A obra conta a história de Jaque, uma mãe solo que retorna com a filha adolescente, Mara, para uma ilha no Pará. O filme aborda as experiências de Mara ao se mudar, a relação mãe-filha e a descoberta de uma realidade com mistérios e ameaças, inspirando-se na lenda da Cobra Grande da Amazônia. 

‘Boiuna’ é uma produção cinematográfica de apenas 20 minutos, dirigido por Adriana de Faria. O Festival Olhar do Norte 2025 premiou a produção paraense com: Melhor Filme do Júri Oficial, Melhor Atuação com Jhanyffer Santos, Melhor Direção de Fotografia com Thiago Pelaes e Melhor Som com Lucas Coelho na Mostra Amazônia. A obra ainda recebeu uma menção honrosa do Júri Jovem e o Prêmio Itaú Cultural Play.

Boiuna não está disponível em nenhum streaming no Brasil

Roraima: Rabiola(2022)

‘Rabiola’ conta a história de Bernardo, um garoto brasileiro, e Jeferson e Joisiris, duas crianças venezuelanas, que travam uma batalha no céu para ver quem derruba o “papagaio” (brinquedo também conhecido como pipa) de quem. Quando isso acontece, uma nova disputa começa.

A produção ganhou na categoria de ‘melhor filme’ por votação popular na 4ª edição do Festival Olhar do Norte (2022). A obra produzida e dirigida pelo cineasta Thiago Briglia também recebeu do júri oficial o prêmio de ‘melhor roteiro’, feito que o diretor partilha com o também roteirista Elder Torres, e o prêmio de ‘melhor atuação’ para a atriz venezuelana Ixemar Camacho, que interpretou a personagem Isabel.

Onde assistir: Cinebrac

Rondônia: ‘Nazaré: Do Verde ao Barro’ (2022)

Na história de ‘Nazaré: do Verde ao Barro’, uma família embarca em busca de nova vida. É na comunidade de Nazaré que a viagem ganha destino e onde eles constroem relações de afeto, respeito e amor com a Amazônia. A jornada se transforma ao longo do tempo, conforme as águas de um rio.

É um curta dirigido e roteirizado por Juraci Júnior. Sua característica principal é ter passado por um processo de ilustração em aquarela feito por Roberta Marisa e, posteriormente, animados em rotoscopia por Rone Mota. Tudo isso a partir do material filmado com atores e locações reais.

Onde assistir: Box Brazil Play

Tocantins: ‘O Barulho da Noite’ (2023)

Maria Luíza é uma criança de sete anos que leva uma vida feliz com sua família. Sua ingenuidade é golpeada quando ela descobre que sua mãe é apaixonada pelo sobrinho, que é ajudante da roça do pai.

O possível desmonte de sua família a coloca em um estado de melancolia e medo, conforme o intruso vai se aproximando do núcleo e as estruturas familiares vão se dissolvendo. Eva Pereira é a diretora e roteirista dessa obra, que contém 97 minutos de duração.

Onde assistir: Mubi

Mato Grosso: ‘Anel de Eva’ (2023)

Misturando os gêneros de thriller e drama, o longa-metragem foi filmado em diversas locações da região de Cuiabá e em Cáceres. O roteiro é assinado por Eduardo Ribeiro e Pedro Reinato, a direção é de Duflair Barradas e a produção da Latitude Filmes.

Após a morte de seu pai adotivo, Eva Vogler é surpreendida ao receber um relicário acompanhado de um bilhete: “abra-o somente se achar necessário”. Ao revelar o conteúdo da pequena caixa, Eva depara-se com objetos incomuns que remetem às suas origens: um anel com um brasão nazista com a inscrição “Eva, 1945” e fotos que podem ser de sua mãe biológica – uma mulher negra cercada por crianças brancas no alpendre de uma fazenda. 

Onde assistir: Mubi

Maranhão: ‘Betânia’ (2024)

‘Betânia’ retrata a história de uma mulher de 65 anos – que leva o nome do filme. A matriarca de uma grande família que trabalha como parteira. Depois da morte do marido, suas filhas a convencem a voltar para a aldeia onde nasceu e onde o resto da família ainda vive, na orla das dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Movida pelo som ancestral do Bumba Meu Boi e pela força da comunidade, Betânia tenta reconstruir sua vida e renascer, deixando para trás uma vida simples e agrária e encontrando uma sensação de pertencimento nesse lugar marcado pela mistura da modernidade e da tradição.

Em meio a essa nova realidade, a mulher encara os desafios e os confortos de uma existência com internet e energia elétrica, uma mudança que também a coloca no caminho de uma transformação pessoal. A produção é do diretor e roteirista Marcelo Botta, com duração de duas horas.

Onde assistir: disponível para aluguel no AppleTv

380 mil filhotes de iaçá, tracajá e tartaruga são reintroduzidos na natureza em Carauari

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Filhotes de iaçá, tracajá e tartaruga. Quelônios. Foto: Divulgação/Sema

Cerca de 380 mil filhotes de iaçá, tracajá e tartaruga à natureza em 19 praias de tabuleiro localizadas nas comunidades Xibauá, Morro Alto, Santo Antônio de Brito, Bauana e Nova Esperança, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, no município de Carauari (a 788 quilômetros de Manaus).

A soltura ocorreu entre os dias 25 e 29 de novembro, desenvolvida em articulação com a Associação de Moradores e Usuários da Reserva Extrativista do Médio Juruá (Amecsara), Associação dos Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari (Amaru), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Prefeitura de Carauari.

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Filhotes de quelônios
Filhotes de quelônios na Amazônia. Foto: Divulgação / Sema

“A soltura de quelônios aqui é resultado direto do compromisso das comunidades com a conservação. É um trabalho construído ao longo de três décadas, com organização social, ciência cidadã e dedicação de quem vive no território. Cada filhote devolvido aos rios representa esse esforço coletivo”, afirmou o gestor da RDS Uacari, Gilberto Olavo.

Metodologia e história

Com mais de 30 anos de atuação, o monitoramento de quelônios no Médio Juruá se consolidou como uma das principais iniciativas comunitárias de conservação da fauna no Estado. A metodologia utilizada envolve etapas como a seleção de monitores pelas próprias comunidades, oficinas de capacitação, acompanhamento sistemático dos tabuleiros e troca de formulários, além da gincana ecológica e da soltura dos filhotes.

O trabalho incorporou os protocolos do Instituto Pé de Pincha, que orienta práticas de proteção de ninhos, padronização dos registros, manejo sanitário e procedimentos que aumentam a taxa de sobrevivência dos filhotes após a soltura.

Leia também: Infográfico – Saiba quantas e quais espécies de quelônios existem na Amazônia

Animação na promoção da soltura dos quelônios. Foto: Divulgação/Sema

Os resultados alcançados ao longo dos 30 anos de monitoramento permitiram consolidar a criação legal de quelônios, regulamentada pelas Resoluções nº 24 e 25 do Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Cemaam). Em 2019, as comunidades Manarian, Vila Ramalho e Xibauazinho receberam autorização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) para implementar o manejo comunitário experimental de quelônios, por meio da Associação dos Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari (Amaru).

Em maio de 2025, o município de Carauari promoveu a venda de 1 mil quelônios legalizados, todos com lacres e recibos oficiais, vendidos a R$ 20 o quilo. A ação beneficiou diretamente 50 famílias, gerando uma renda estimada em R$ 80 mil, movimentando a economia local com responsabilidade socioambiental.

Parceiros

Parceiros que ajudaram na soltura dos quelônios. Foto: Divulgação/Sema

Além da Sema, ICMBio, Amecsara e Amaru, a agenda também recebeu apoio da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), Cooperativa de Desenvolvimento Agroextrativista e de Energia do Médio Juruá (Codaemj), Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (Asmamj), Instituto Juruá, empresa Sitawi Finanças do Bem, Fórum do Território Médio Juruá e Fundação Amazônia Sustentável (FAS), além das comunidades envolvidas.

*Com informações da Agência Amazonas

Tapyra’yawara, uma figura espiritual de grande poder e influência na Amazônia

Lenda Tapyra’yawara foi representada este ano no Festival Folclórico de Parintins. Imagem: Beatriz Loris/Portal Amazônia

A Tapyra’yawara é um ser encantado conhecido desde a antiguidade nas cosmologias de povos originários da PanAmazônia. O nome é originado da soma de duas palavras na língua indígena Tupi: o prefixo “tapir” significa anta e “-iauara”, é definido como onça. Esta lenda, dependendo da comunidade ou território onde é contada, pode ter várias versões.

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A pesquisadora e membro imortal da Academia Amazonense de Música, Karine Aguiar, diz que não se sabe ao certo o local onde nasceu a lenda.

“Não é possível indicar com precisão de qual localidade ou de qual povo esta lenda é originária, porém, durante as pesquisas que realizei encontrei maior quantidade de menções na literatura existente a região do Baixo e Médio Amazonas (correspondente aos municípios fronteiriços entre Amazonas e Pará como Maués, Parintins, Santarém incluindo também a extensa zona rural de cada um destes municípios) e também no Rio Madeira. No Amazonas, é uma lenda contada entre a comunidade indígena Sateré-Mawé”, explicou a cientista para o Portal Amazônia.

Fantasia criada inspirada na Tapyra’yawara. Foto: Karine Aguiar/Arquivo pessoal

Na versão do Baixo Amazonas, Tapyra’yawara é descrita como uma criatura com corpo de anta, cabeça de onça, podendo também ter os “pés” de pato, já que é anfíbia, ou ainda patas de cavalo.

Performance da Dança da Tapiraiauara durante a Festa de São João na comunidade de Santa Maria do Maués-açu. Foto: Reprodução / Artigo de Karine Aguiar do XXXI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música

Diversas narrativas ouvidas por Karine Aguiar nas comunidades apontam que a Tapyra’yawara produz um som perturbador de frequência insuportável aos ouvidos humanos, além de andar sempre em dupla ou em bandos.

Estas narrativas ribeirinhas da zona rural de Maués (AM) também mencionam que a Tapyra’yawara possui um odor específico muito forte quando aparece e que pode “inebriar” e causar alucinações.

A lenda da Tapyra’yawara é transmitida, atualmente, por meio da literatura indígena e da transmissão oral por parte dos povos originários e ribeirinhos, sempre com a função educativa no cuidado com o ambiente e também como um símbolo cultural e de pertencimento a um território, como no caso do folguedo junino “Dança da Tapyra’yawara” que acontece na comunidade de Santa Maria do Maués-açu na zona rural de Maués.

A história de Tapyra’yawara

A história contada na região de Santa Maria, em Maués-Açu, zona rural do município de Maués, mostra uma fantasia com corpo de anta e cabeça de onça, encarado como um ser encantado e guardião das florestas e das águas. Tapyra’yawara atua como um protetor da natureza, punindo todos aqueles que exploram as florestas com ganância.

A versão de Maués-Açu tornou-se uma festa popular junina, um dos símbolos da identidade local. Todos os anos, durante a festa de São João, um grupo de artistas de Santa Maria do Maués-açu, liderado por Mestre Daio, se reúne naquela comunidade e em comunidades ribeirinhas do entorno para apresentar o folguedo Dança da Tapyra’yawara.

Os personagens centrais dessa lenda são a própria Tapyra’yawara, o caçador e a natureza que também tem sua “voz” já que esta é uma lenda cuja mensagem central é a proteção do bioma amazônico e dos seres não-humanos que vivem nele.

No folguedo, este ser encantado se “materializa” e dança ao som de um repertório musical totalmente autoral criado por Mestre Ercílio (também cantor oficial deste grupo) narrando a lenda, descrevendo os ecossistemas naturais que cercam a comunidade e atuação dos personagens dentro de um enredo: o macaco, o caçador, a Tapyra-yawara e a “índia guerreira”.

“A depender de quem narra a lenda, podem haver variações neste número de personagens. Na comunidade de Santa Maria do Maués-açu, quando foi criado o folguedo junino, outros personagens foram criados e inseridos para “engrossar” a narrativa e produzir também o repertório musical que orienta as apresentações. Entre os Sateré-Mawé que habitam os municípios de Parintins, Barreirinha e Maués, no estado do Amazonas, a Tapyra’yawara (espírito das onças) é mencionada como um dos seis espíritos que protegem a Mãe-Terra”, esclareceu Karine Aguiar.

Representação da Tapyra’yawara na concepção do artista Mestre Daio. Imagem: Karine Aguiar/Arquivo Pessoal

Leia também: Yurupari e Tapiraiauara: do que se tratam as lendas que inspiram toadas de Caprichoso e Garantido em 2025?

Tapyra’yawara, em consenso, é uma protetora da natureza

A Tapyra’yawara é um ser protetor da natureza como tantos outros na Amazônia, pois pune o caçador, o pescador ou o madeireiro que retira das águas e florestas além daquilo que necessita para sua sobrevivência. Sua lenda, por tanto, trata-se de um alerta.

“A história da Tapyra’yawara busca nos ensinar uma relação de cuidado mútuo entre seres humanos e não-humanos habitantes da Terra, além de nos alertar constantemente sobre a noção de finitude do que a natureza generosamente nos dá todos os dias para que possamos continuar existindo”, concluiu Karine Aguiar.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar