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Quatro festividades do Pará são aprovadas como patrimônio cultural; descubra quais

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Festanças culturais movimentam as cidades e unem os cidadãos. Foto: Johnatan Ryder/Acervo pessoal

O estado do Pará é composto por vários elementos culturais de áreas como culinária, danças, músicas, religião e muito mais. Uma parte da cultura paraense é carregada através da ancestralidade, já que as tradições são passadas entre famílias.

Na última semana, a Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), aprovou quatro novos patrimônios culturais que unem fé, música, culinária em diferentes eventos e municípios paraenses.

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As propostas foram feitas pelos deputados estaduais Ângelo Ferrari, Luth Rebelo, Delegado Nilton Neves e Ronie Silva. Conheça agora:

Rally da Vaca

No município de Baião, o Rally da Vaca é um evento esportivo e cultural que reúne milhares de ciclistas em um grande ‘rally’ de bicicleta pelas estradas e trilhas da região em um clima de confraternização, esporte e valorização da cultura local.

Festa agora é patrimônio cultural do estado. Foto: Alex Ribeiro/Agência Pará

Segundo Bruno Bola, um dos organizadores do Rally, o evento ganhou destaque por fortalecer tradições e valorizar a identidade regional. Além disso, o rally cria um forte sentimento de pertencimento e orgulho entre os moradores, que participam da organização e recepção dos visitantes.

rally de vaca é patrimônio cultural
Foto: Instagram @victorfarcun / PASCOM

Para Bruno, o título de Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Pará destaca a relevância cultural, social e esportiva do evento, que ao longo dos anos se consolidou como uma das maiores manifestações populares da região.

“Para nós organizadores, o reconhecimento como patrimônio cultural representa a valorização de uma história construída coletivamente ao longo de quase duas décadas. O título reafirma a importância do evento como símbolo da cultura popular e do espírito de união da população”, afirma Bola.

Festival da Gurijuba

Uma grande festança toma conta da cidade de Vigia. Com mais de 30 edições realizadas, o peixe Gurijuba é o símbolo do Festival da Gurijuba, que recebeu este nome devido à fartura desse peixe na região.

A programação do evento conta com atrações musicais, barracas de comida e muito gingado paraense. O evento conta ainda com diversas atividades como mentorias de culinária especificas para os pratos do festival.

Segundo Johnatan Ryder, um dos organizadores do evento, a festança já contabilizou 68 mil reais em duas noites de evento, consagrando o festival como um movimentador da economia local. Para ele, a importância do Festival para cultura paraense é celebrar a culinária com o peixe Gurijuba.

“A Gurijuba é um peixe que tem bastante massa, é feito caldeirada, é feito em diversas formas. Então, é muito importante não só para cultura paraense, mas brasileira, porque hoje a nossa cidade é muito conhecida e reconhecida por esse pescado. Muitas pessoas vêm até aqui comprar, adquirir, provar o peixe e sempre retornam para levar para amigos e familiares”, explica.

Círio de Santo Antônio de Pádua

Fé e cultura do círio são agora consideradas patrimônio cultural. Foto: Vitor Bemerguy/ SECOM-PMO

O Círio de Santo Antônio de Pádua é a festa do padroeiro da Região do Oeste do Estado do Pará, que proporciona aos fiéis católicos da região, momentos de celebração, louvor, teatro, confraternização e muitas brincadeiras que acontecem durante toda a trezena. É ainda um momento forte de evangelização.

Todos os anos, no mês de agosto, o município de Oriximiná, cidade banhada pelo Rio Trombetas, no oeste do Pará, é transformada em um cenário de fé, devoção e cores. O Círio de Santo Antônio, padroeiro do município, é mais do que uma celebração religiosa: é um marco cultural que atravessa gerações e resiste ao tempo, reunindo milhares de fiéis em uma das mais belas manifestações de religiosidade fluvial da Amazônia.

Quer conhecer mais dessa festança religiosa? Leia AQUI.

Festa do Pau Maravilhoso

Tradição na festa do Pau Maravilhoso. Foto: Instagram: @festcanca_pau_maravilhoso

A Festa do Pau Maravilhoso é comemorada no município de Maratuba, que mistura culinária, dança e música tradicionais da região.

A programação da celebração reúne grupos de carimbó e apresentações de músicas regionais que contagiam o público com tambores e coreografias tradicionais.

O evento também conta com atividades voltadas para as crianças, arrastões culturais que percorrem as ruas da cidade e uma diversidade de pratos típicos que destacam os sabores da Amazônia.

Mais do que um momento de lazer, a festa é reconhecida pela comunidade como uma forma de resistência cultural e de valorização das tradições populares.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Cerâmica Tukano: arte, resistência e autonomia de mulheres indígenas

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Cerâmica Tukano é fonte de cultura e renda para mulheres indígenas no Amazonas. Foto: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

Na Amazônia, os povos indígenas utilizam dos saberes ancestrais para sobreviver, como a pesca, caça, culinária e até mesmo medicinal. Entre esses conhecimentos, um em específico sempre chamou a atenção, devido aos detalhes encontrados nos acessórios e peças: o artesanato, uma forma de expressão cultural feita a mão, com itens naturais como fibras, sementes, barros e madeira, elementos retirados da natureza de maneira sustentável.

Em especial, as mulheres indígenas se destacam nesse papel. Seus conhecimentos são repassados de geração em geração, ensinando a importância do trabalho manual entre os mais novos e como é uma ferramenta de autonomia financeira nas comunidades.

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No trecho da toada do Boi Garantido, ‘Artesãs Indígenas’, é resumido de forma poética a importância da arte feita por essas mulheres:

“Artesãs indígenas ensinam suas filhas, A extrair a fibra da palha do Buriti, A geometria do casco do jabuti, Em cada pele um grafismo, Contando uma história, Em cada trançado, Resistência e memória”.

O Boi-Bumbá Caprichoso também escreveu sobre a representatividade do artesanato produzido pelas mulheres, em versos na música ‘Artesã, o Saber Ancestral’.

“Com o poder das mãos, Abençoadas pelo saber ancestral, As criações são tecidas, se entrelaçam, Em fios de amor”.

Detalhes no grafismo na cerâmica. Foto: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

No Amazonas, uma associação de mulheres indígenas trabalha na produção de cerâmicas e grafismo, duas maneiras que o artesanato pode ser realizado.

O início da organização nasceu no território de Merẽ Weri Wi’i, conhecido também como Distrito de Taracuá, localizado no Baixo Rio Uaupés, na região do Triângulo Tukano, na Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).

Leia também: Grafismo indígena: a importância da arte como símbolo de resistência dos povos originários

Taracuá, no Amazonas. Foto: Juliana Radler/ISA

Essa é a Associação das Mulheres Indígenas da Região  de Taracuá (AMIRT), um grupo feminino criado com a necessidade de gerar renda às artesãs através da “Cerâmica Tukano” e pela luta pelos direitos dos povos originários. Ao todo, são 66 mulheres envolvidas na associação, que engloba as etnias Tukano, Tariana, Dessana, Piratapuia, Kotiria, entre outras.

Em conversa com o Portal Amazônia, Sileusa Monteiro, integrante da associação, pesquisadora e indígena da etnia Dessana, contou sobre o início da associação e a importância da produção de cerâmica entre elas.

O nascimento da AMIRT

A AMIRT surgiu em um contexto em que os povos indígenas lutavam pela demarcação das terras e se transformou em uma organização política, social e econômica para as artesãs. Além da questão territorial, trata-se também de garantir dignidade e autonomia das mulheres da comunidade. 

O artesanato, através das cerâmicas, tornou-se uma fonte de renda essencial, fortalecendo a independência financeira das artesãs que, por muitas vezes, ainda é limitado dentro de suas próprias comunidades.

“A criação de uma associação nasceu de uma necessidade histórica e política no contexto da luta pela demarcação de terras. Regina Lemos Duarte, filha de Anita Lemos, acompanhava os homens indígenas em suas lutas e quem trouxe a proposta de criar uma associação de mulheres para fortalecer a luta pela terra e, assim nasceu a AMITRUT – Associação de Mulheres Indígenas de Taracuá, Rio Uaupés e Tiquié. Mais tarde, em 2004, a AMITRUT foi extinta e deu lugar à AMIRT – Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá, formalmente reconhecida em 2007“, explica.

Para a presidente da AMIRT, Suzana Menezes, a cerâmica produzida pelas artesãs da organização trouxe maior visibilidade e autonomia para essas mulheres.

“A Cerâmica, ela traz uma visibilidade maior dentro da comunidade e fora da comunidade, mostrando a nossa autonomia, as nossas iniciativas, o nosso potencial como mulheres indígenas, que nós também temos nosso conhecimento e buscamos nossa autonomia financeira”, defende a líder. 

cerâmica tukano é fonte de renda para mulheres indígenas de São Gabriel da Cachoeira
Artesãs da AMIRT em feira artesanal. Foto: Ronaldo Adzaneeni

O saber geracional e a cerâmica

É claro que para o continuamento dos saberes, é preciso incentivar a comunidade a dar seguimento nas tradições ancestrais. No artesanato indígena, as mulheres ensinam o trabalho manual com os recursos da natureza para as gerações mais jovens. 

A cerâmica faz parte da tradição da AMIRT desde os tempos ancestrais. Segundo Sileusa, uma mulher muito importante na produção de cerâmicas, Anita Lemos, do povo indígena Araposo, foi uma das pioneiras no saber artesanal e ensinou tudo sobre o processo ceramista para suas filhas e noras, que futuramente, repassariam as AMIRT, em meados dos anos 2000, conforme Sileuza.

Anita também se indignava com os problemas enfrentados pelos povos indígenas, o que incentivou as mulheres do grupo a lutarem por autonomia e seus direitos. 

“Dona Anita Lemos dava vida ao fazer da cerâmica. Aprendeu com a sua mãe e quando se casou confeccionava seus próprios utensílios domésticos de cerâmica, como panelas, fornos, bacia para decantar goma, bacia para cozinhar, pratos, peerútü, entre outros utensílios que usava no cotidiano. Anita Lemos ancestralizou-se (faleceu), mas deixou um legado, o saber fazer cerâmica, os ensinamentos do conhecimento para sua filha, noras e netas. Assim, filha ou neta sempre será associada como sucessora da mãe falecida ou avó, carregando uma memória afetiva em sua habilidade e na qualidade de saber fazer cerâmica”, explica a integrante do grupo.

O saber geracional na comunidade repassado pela presidente Suzana. Foto: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

A família de Anita Lemos é conhecida e reconhecida como sucessora do seu conhecimento, ensinando as ceramistas a criarem seu próprio estilo de produção.

Mesmo com a base do conhecimento da fabricação de cerâmicas sendo ancestral, a sabedoria atual é utilizado para aprimorar a prática. 

De acordo com a presidente da AMIRT, Suzana Menezes, hoje em dia, as artesãs têm buscado outras formas de transferir seus ensinamentos.

“A gente luta para repassar em forma de oficinas. Através dessa atividade prática, a gente vai repassando os conhecimentos para as pessoas que queiram aprender. É livre hoje em dia, antigamente não, só quem conhecia repassava para os seus filhos”, conta.

Embora um dos papéis principais dessas mulheres seja repassar o conhecimento, elas também criam e inventam novas perspectivas de fazer artesanato com cerâmica.

Foto: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

“Elas são artistas que reinventam e transformam a cerâmica. Ao moldar a argila, as mulheres estão moldando modos de vida, técnicas, memória e identidade. Ao ensinar as jovens, elas garantem que esse saber não se perca, fortalecendo os laços coletivos, a autonomia financeira e o protagonismo feminino. Sempre digo que o trabalho com a cerâmica é complexo”.

Como é a produção das cerâmicas? 

Segundo Sileusa, o processo de manufatura da cerâmica é uma jornada que entrelaça vários conhecimentos desde aos conhecimentos do território, relações multiespécies até aos cuidados com o corpo. A integrante da associação explicou o passo a passo dessa produção.

De início, as mulheres coletam a argila e pedem autorização a Avó da Argila para retirá-la. Esse comportamento, faz parte do respeito entre as mulheres e a dona da argila.

De acordo com Sileuza, nesse momento, as artesãs não podem estar menstruadas, esse cuidado é importante para não contrair doenças advindas da Avó da Argila, pois o cheiro da menstruação os irrita. 

“Avó da argila” é uma figura feminina agenciadora do fazer cerâmica e dona da Argila, respeitada pelas ceramistas. As mulheres pedem a autorização dela antes de retirar a argila. Desde os tempos ancestrais, ela que ensinou a arte da cerâmica, de acordo com Sileusa. No conhecimento Tukano é nomeado de Di’i Yekõ.

Cerâmicas cruas. Foto: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

Outro processo nesse começo é a extração da casca de caraipé, árvore do gênero Licania. Essa casca é queimada, pilada e peneirada até se transformar em pó, que será misturada à argila para dar resistência e maleabilidade na cerâmica. “Com a massa preparada, inicia-se a modelagem manual, chamada de ‘acordelad’, é a técnica ameríndia mais comum de dar forma à argila, começando pela base, dando a ele um formato circular, para começar a fazer rolete e colocar em torno do círculo, formando uma borda”, explica. 

Depois as artesãs vão sobrepondo outros roletes, apertando-os levemente com os dedos, alargando as paredes até ganhar forma. Em seguida a peça passa pela secagem natural e pelo polimento, geralmente com pedras intergeracionais, repassadas de mãe para filha ou neta, utilizando ferramentas simples, para alisar a superfície. Vem então a queima, que endurece a cerâmica e exige controle cuidadoso do fogo para evitar rachaduras.

Enegrecimento da cerâmica. Fotos: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

Logo após são delineados os símbolos, através do grafismo, feitos com a própria argila formando uma crosta que irá proteger os grafismos no momento de enegrecimento. Em alguns casos, folhas específicas são usadas para impermeabilizar antes do enegrecimento e deixa as peças brilhosas. De acordo com Sileusa, o processo de enegrecimento é uma etapa desafiadora, pois as peças são submetidas à fumaça de lenhas em decomposição e específicas, o que dá a cor escura às peças.

Após o enegrecimento é retirado crostas que protegem os grafismos, e depois é feita a limpeza final. Sileusa afirma que cada ceramista tem suas próprias técnicas, habilidades e próprio modo de conduzir essas etapas, por isso nenhuma peça é igual à outra. “Cada cerâmica carrega a marca pessoal de quem a fez, representando sua técnica, sua sensibilidade e sua relação com a natureza”, disse. 

“Nesse sentido a transmissão do fazer cerâmica é intergeracional, com o passar do tempo, vão atualizando o conhecimento e buscando aperfeiçoar a prática e as técnica do fazer cerâmica, ao mesmo tempo que buscam novas técnicas para afinar o modo de fazer por meio de oficinas de cerâmicas, realizadas no âmbito do movimento indígena e no cotidiano. As mulheres são as grandes construtoras e guardiãs desse conhecimento”, afirma Monteiro ao Portal Amazônia. 

Os principais desafios que enfrentam como mulheres indígenas artesãs

De acordo com as duas artesãs, os desafios enfrentados pelas mulheres indígenas, especialistas em produção de cerâmica são muitos e a maioria deles é devido aos padrões do mercado, já que cada cerâmica tem um estilo único e diferente.

Um dos principais desafios enfrentados pelas artesãs é a exigência por padronização das peças. Ao entrarem em mercados fora das comunidades, muitas vezes há a expectativa de que os objetos sigam um mesmo modelo, com formas e acabamentos idênticos.

No entanto, a cerâmica indígena é produzida manualmente e cada peça carrega características próprias de quem a confecciona, seja no traço, no grafismo, na modelagem ou na queima. Essa singularidade, que representa identidade, trajetória e saber tradicional, nem sempre é compreendida como valor cultural, sendo por vezes interpretada como falta de uniformidade.

Mulheres artesãs que inspiram. Foto: Sileusa Monteiro/Acervo pessoal

Para Sileuza, um outro obstáculo está na logística. O transporte das peças, especialmente em regiões de difícil acesso, como no trajeto pelo rio Uaupés até o município de São Gabriel da Cachoeira (AM), exige longas viagens e cuidados redobrados. Por serem frágeis, as cerâmicas podem se quebrar durante o percurso, gerando prejuízos e retrabalho. Além do tempo investido na produção, há também o esforço físico e os custos envolvidos no deslocamento, fatores que nem sempre são considerados na comercialização.

A valorização econômica também é um ponto delicado. A produção da cerâmica envolve diversas etapas, desde a coleta da argila e do caraipé, passando pela preparação do material, modelagem, secagem e queima, até o acabamento final.

“Trata-se de um processo que exige técnica, paciência e conhecimentos transmitidos entre gerações. Ainda assim, muitas artesãs relatam dificuldades para negociar preços que correspondam ao tempo e à complexidade do trabalho. Essa desvalorização impacta diretamente a renda das mulheres e o fortalecimento das iniciativas comunitárias ligadas à cerâmica”, explica a pesquisadora.

Futuro, reconhecimento e continuidade da tradição ceramista

Sileusa Monteiro afirma que o futuro desejado para o grupo é construído a partir do respeito ao conhecimento e à arte das mulheres indígenas.

“É fundamental que a cerâmica seja valorizada em diferentes espaços — culturais, educativos e institucionais — e reconhecida como uma herança feminina transmitida de geração em geração”.

Sileusa comenta ainda que nem todas as mulheres indígenas se tornam ceramistas, pois há aquelas que “nascem com o dom”, carregando a sensibilidade e a habilidade de transformar a argila em utensílios e obras que expressam “identidade, memória e resistência”.

Do ponto de vista de pesquisadora indígena e integrante da associação, é importante que essas mulheres sejam ouvidas não apenas em espaços de exposição e venda, mas também na construção de políticas públicas que garantam valorização, autonomia e continuidade da prática.

Para as próximas gerações, o desejo é que a cerâmica siga viva como expressão cultural e fonte de fortalecimento social e econômico das mulheres indígenas.

Ficou interessado no trabalho das artesãs? Contate: 92 8552-0882, Sileusa Monteiro, associada da AMIRT

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Piracaia, a tradição em Alter do Chão que mistura sabores e gingados paraenses

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A dança no meio da praia no luau da Piracaia. Foto: Bárbara Vale/Arquivo Pirarimbó

No Pará existe um distrito que encanta por suas águas claras, é banhado pelo rio Tapajós e conhecido como o Caribe da Amazônia. Ele abriga uma tradição mágica na beira da praia de água doce. Esse lugar é Alter do Chão.

O distrito é o principal ponto turístico de Santarém, onde fica uma das praias de água doce mais famosas do mundo, segundo o jornal inglês The Guardian (2009).

E uma de suas tradições culturais é a Piracaia, uma festança que virou símbolo da cultura paraense, através dos saberes ancestrais e culinária local. Uma mistura de carimbó com muito peixe assado e partilha de experiências entre os festeiros.

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Praia de Alter do Chão, em Santarém (PA). (Foto:Bruno Cecim/Agência Pará)

A piracaia  é um peixe assado na praia, feito à beira do rio. Em tupi-guarani, a palavra significa: “peixe frito; peixe queimado” (pirá+caia) ou “o cardume” (pirá+quaia), e descreve um gesto simples e ancestral: ir até as águas do rio Tapajós, pescar e preparar o peixe na areia, com fogo, moquém e tempo para conversar. 

A tradição de assar o peixe na praia se transformou em uma grande festança com ritmos regionais, danças como carimbó, gingado paraense que nasce do batuque do tambor, do balanço das maracas e chega até o colorido das saias das mulheres.

Em conversa com o Portal Amazônia, Henrique Maia, secretário executivo do Pirarimbó, um receptivo em Alter do Chão que realiza a Piracaia, contou como funciona essa cultura.

Leia também: Conheça Alter do Chão, a vila de Santarém chamada de “Caribe brasileiro”

O que é a Piracaia? 

De acordo com Maia, a Piracaia é um encontro que acontece pela noite, que reúne os nativos na praia ao redor de uma fogueira para comer, cantar e dançar nas noites de lua cheia. “É um momento muito alegre” e que envolve diversas pessoas, segundo ele.

A experiência é tão interessante que acabou se tornando atração turística para todos que querem vivenciar, de forma mais profunda, a cultura paraense.

Assim, a Piracaia se tornou uma celebração que une gastronomia local e carimbó, é animada com dança folclórica brasileira e atrai cada vez mais interessados. 

Foto: Carol Melgaço / arquivo Pirarimbó

Não se sabe ao certo quando iniciou essa prática, mas Henrique Maia afirma que ela é muito antiga.

“Os elementos da Piracaia, que são o rio, peixe, praia e fogo, sempre fizeram parte da paisagem de Alter do Chão. Mais do que uma data de origem, a Piracaia carrega memórias: famílias reunidas, histórias contadas e acontecimentos do cotidiano que, naquele momento, já se transformam em lembrança”, assegura ao Portal Amazônia.

Atualmente, a Piracaia tornou-se uma atração turística quase “obrigatória” para quem pisa em solos do Caribe da Amazônia.

A comunidade local utiliza seus conhecimentos do rio, da floresta e da praia para oferecer aos visitantes a vivência de comer um peixe preparado com os pés na areia banhados pelo rio doce, respeitando os saberes tradicionais da região.

Leia também: Dragar a história de um rio é guerrear contra a vida

Significado cultural e simbólico da Piracaia para a comunidade local

Piracaia eo embalo da noite na beira do rio. Foto: Divulgação / Receptivo Pararimbó

A simbologia da Piracaia vem da ancestralidade e herança cultural dos povos que vivem na região do Tapajós. Para a comunidade local, a Piracaia está profundamente ligada à ideia de família. Nos encontros noturnos que diferentes gerações se juntam, como pais, avós, tios, filhos e netos, todos em volta do fogo, e enquanto o peixe assa, o conhecimento circula entre os mais novos e os mais antigos.

Mesmo que a prática tenha se desenvolvido para o turismo, o conhecimento trocado entre os familiares prevalece vivo, dando continuidade ao saber cultural e geracional.

“A Piracaia preserva saberes porque tudo acontece na prática. A criança aprende pescando com o avô, o mais novo acompanha o tio, e o conhecimento vai sendo transmitido de forma natural, no fazer cotidiano. É também nesse espaço que se aprende sobre respeito ao rio, à floresta e ao território. As histórias falam de cuidado, de entender que não estamos sozinhos nessa terra. Cada lugar tem um dono, cada lugar tem uma mãe”, explica Henrique Maia.

Noite de lua cheia anima a Piracaia. Foto: Reprodução / Instagram – @pirarimbo

Segundo o secretário, manter viva a Piracaia é manter viva essa relação de respeito com o entorno. É assim que os saberes tradicionais seguem existindo e apontando caminhos para o futuro.

Ingredientes essenciais para uma boa Piracaia

Nas Piracaias turísticas, geralmente são servidos peixes mais conhecidos do público, como tambaqui, pirarucu, filhote e tucunaré.

O Pirarimbó, receptivo onde Henrique é secretário executivo, amplia essa experiência, apresentando aos visitantes também outros peixes do rio, como acari (conhecido como bodó, no Amazonas), mapará e matrinxã, além de uma variedade de legumes assados na brasa.

Leia também: Conheça curiosidades sobre nove peixes da Amazônia

“Esses peixes fazem parte da alimentação histórica das populações ribeirinhas e expressam a diversidade do Tapajós. Na Piracaia familiar, tudo depende da pesca do dia: o que o rio oferece naquele momento é o que vai para o fogo, normalmente acompanhado apenas de sal, pimenta e tucupi. Essa relação direta com o rio é um dos pilares da culinária regional e do modo de vida local”, afirma Maia. 

Além dos sabores culinários regionais, a Piracaia precisa de um ingrediente fundamental para os visitantes: disposição para experimentar a cultura em Alter do Chão, nas beiras do rio Tapajós. 

Piracaia é memória da cultura paraense. Foto: Carol Melgaço / arquivo Pirarimbó

“Viver uma Piracaia é uma experiência profundamente autêntica. É quase um teppanyaki tapajônico, mas com identidade própria. Há uma beleza muito particular em unir conhecimentos da floresta, do rio e da gastronomia para preparar uma refeição. A Piracaia cria conexão emocional”, conclui Maia.

Para ele, o visitante não apenas consome um prato, ele participa de um modo de fazer, escuta histórias e compreende melhor o território. A partir disso, iniciativas locais passaram a agregar outras vivências culturais, fortalecendo o turismo de experiência e valorizando os saberes da comunidade.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Manaus ganha versão em Lego com ajuda de IA: “Fiquei curioso”, conta fotógrafo

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Teatro Amazonas, em Manaus (AM), retratado como brinquedo lego. Foto: Reprodução/Instagram- euorlando

Você já deve ter visto, em algum momento, pecinhas feitas de plásticos e coloridas que, quando encaixadas e montadas em conjunto formam pequenos – ou grandes – objetos, que demandam tempo e paciência de quem as monta para chegar no resultado final.

Esses bloquinhos de plástico são chamados, popularmente, de Lego. Este nome é em referência à uma linha de brinquedos de construção de plástico fabricados pelo The Lego Group, uma empresa privada internacional com sede na Dinamarca, na Europa.

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O brinquedo é usado fisicamente, mas inspirou o jornalista Orlando Camara, de Manaus (AM), a criar uma nova versão da cidade com a ajuda da Inteligência Artificial (IA).

Orlando costuma publicar fotografias do dia a dia, principalmente do Centro de Manaus, em suas redes sociais, e aproveitou elas para criar réplicas no formato do brinquedo colorido.

O Portal Amazônia conversou com Orlando Camara para saber de onde surgiu a ideia de transformar o visual da cidade em uma versão lúdica e diferente.

Como nasceu a ideia de criar Manaus em Lego

Segundo o comunicador, ele já fotografava a cidade manauara com o celular desde 2013, pois sempre foi encantado por Manaus. Orlando sempre buscou mostrar o lado mais belo da cidade, segundo ele, com a finalidade de gerar esperança, autoestima e ações positivas em favor do espaço urbano.

Para ele, Manaus, atualmente, está melhor do que naquela época.

“Eu fotografo muito Manaus, a cidade onde eu nasci, onde moro e que eu amo. Ela tem ângulos, perspectivas e momentos do dia incríveis. Adoro o centro antigo, a natureza, os muitos céus de um mesmo dia. Manaus é bem mais bela quando nos permitimos olhar com atenção. E quando a percorremos. Eu adoro passar horas andando por lugares diversos e fotografando”, afirma Orlando. 

A junção da paixão pela fotografia e por sua cidade natal fez Orlando ter uma perspectiva diferente na hora de editar as fotos que capturava, pois não gostava de filtros exagerados que tirassem a naturalidade das fotos.

Camara conta que tem estudado sobre IA e as inúmeras aplicações dela no cotidiano, e editar fotos com comandos de IA era um exercício de um curso que estava fazendo. “Queria desestressar de estatísticas, estudos científicos, dados amostrais e é um mundo completamente novo e com possibilidades inúmeras”, diz o jornalista.

Então, Orlando decidiu experimentar unir suas fotos com a inteligência artificial e sua apreciação por brinquedos de montar, desde criança.

“Fiquei curioso de uma experiência a partir das minhas fotos. E eu sempre gostei das cidades de brinquedo, daquelas lojas em que você tem o trenzinho e os prédios, seja de montar mais tradicionais, como Matchbox, Revell, etc, seja de Lego, que tem uma pegada mais infantil”, explica.

O conjunto da IA com as fotografias retratadas por Orlando atendeu as expectativas que ele tinha:

“Decidi testar um prompt [comando] em algumas IAs para transformar a cidade real das minhas fotos em Lego. No início, os produtos eram desastrosos, mas com o tempo alcancei o resultado que eu queria. E adorei. Me remeteu a um brinquedo mesmo, a uma cidade que a criança sonha para quando for grande. Brincamos com a cidade para ter amor por ela, para que ela cresça conosco”. 

Além das expectativas

O que o jornalista não esperava era a proporção que tomaria o seu experimento: a primeira versão que postou em seu perfil no Instagram (euorlando), há uma semana, já ultrapassou 3 mil curtidas.

“Eu pessoalmente adorei os resultados. E percebo que as pessoas ficam interessadas, a partir das curtidas, compartilhamentos e comentários do meu perfil no Instagram. Mas a dimensão disso tudo eu não consigo ter”, afirma.

Teatro Amazonas de Lego (de verdade!)

Apesar da capital amazonense estar sendo representada por comandos de IA no estilo dos bloquinhos coloridos, você sabia que existe uma maquete em Lego que retrata o cartão postal do Centro Histórico de Manaus, o Teatro Amazonas?

lego
Historiadores nomeiam a cor do Teatro de “cinza azulado”. Foto: Reprodução / Youtube-Secretaria de Cultura do AM

Segundo o historiador Allan Carneiro, a maquete em lego do Teatro Amazonas é uma representação em miniatura do teatro. Composto de cerca de 30 mil peças plásticas, a réplica tem medidas aproximadas de 115cm x 190cm x 105cm.

Produzido pela própria empresa dinamarquesa, que homenageou alguns monumentos arquitetônicos da história humana, a maquete é da década de 1970.

Com a instalação de uma filial da empresa Lego no Polo Industrial de Manaus (PIM), em 1986, o modelo foi enviado para a fábrica em Manaus.

De acordo com Carneiro, em outubro de 1998, a fábrica desativa sua filial na capital amazonense, encerrando assim suas atividades. Assim, a maquete foi doada para a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC) em 2001, e desde então está exposta ao público que visita o Teatro Amazonas.

Teatro Amazonas em formato de lego. Foto: Reprodução / Youtube-Secretaria de Cultura do AM

As cores das peças da maquete são diferentes da cor atual do teatro, e de acordo com a SEC, é um dos pontos que mais chama atenção. Em 1974, entre muitas reformas do teatro, a cor escolhida para colorir as paredes foi um tom de cinza azulado, conforme historiadores locais. Em 1990, o Teatro Amazonas é pintado na cor rosa imperial, que até hoje está presente nos muros teatrais.

“O Teatro Amazonas inspira releituras artísticas e tecnológicas porque reúne forte identidade histórica, estética marcante e valor simbólico, que servem como referência para novas criações sem que sua essência seja descaracterizada”, comenta o historiador.

Leia também: As cores do Teatro Amazonas: conheça a curiosa história por trás das cores que o teatro já teve

Detalhes das peças de lego. Foto: Reprodução / Secretaria de Cultura do AM

Confira mais fotos e réplicas em “Lego” criadas por Orlando Camara:

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Cãoera, a lenda do morcego gigante que vive na Amazônia

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Cãoera, o “morcegão” da Amazônia. Imagem gerada por IA

A Amazônia carrega histórias que nascem da relação entre a floresta e os povos que vivem nela. Entre essas memórias, se encontram as lendas, que são passadas de geração em geração, criadas a partir da convivência com a natureza e dos mistérios da mata. Entre esses relatos está uma lenda muito conhecida pelo povo indígena Mura, no Amazonas, que causa arrepios e amedronta quem escuta.

Essa criatura é descrita como uma espécie de morcego muito grande, da proporção de um urubu, e consegue sugar todo o sangue de quem está dormindo, sem que a pessoa acorde e, em seguida, a devora, segundo o relato registrado no livro “Mito da Amazônia”, uma coletânea de histórias sobre a mitologia da Amazônia, de Franz Kreuther.

Leia também: 6 lendas folclóricas para conhecer a cultura na Amazônia Internacional

Cãoera, o ‘morcegão’

Essa espécie de ‘morcegão’ é chamada Cãoera pelos Muras. “É homem, é fera, é criatura das trevas, com o machado de pedra pra guerra, na espreita obscura vai te devorar”, resume esse trecho da toada ‘Cãoera’, do Boi-bumbá Caprichoso, sobre o morcego. 

cãoera
Arte: Reprodução / Instagram-oreticolo

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Ainda na toada do boi preto de Parintins, os versos contam como o Cãoera ataca os indígenas do baixo Amazonas: “Maculados, muras condenados, o sangue que corre em tuas veias é saciado por vampiros da noite”.

Na música, o morcego pode ser combatido pelos caçadores Xamã, líderes espirituais e curandeiros tradicionais em culturas indígenas, agindo como intermediários entre o mundo físico e espiritual. “Caçadores Xamã, o teu canto devoto evoca o nascente para expulsar; cãoera arde, cãoera foge”, diz o verso escrito por Elton Cabral, Fellipe Cid e Mayra Cavalcante.

Segundo o livro, o Cãoera habita os buracos na terra e surge quando se faz algumas atividades chamativas, como cozinhar o jabuti com outras carnes no meio do mato, ou quando se queima pelos ou penas de animais na floresta, conforme a obra. Ele também pode surgir quando se joga espinha de peixe nos rios ou até quando se grita na mata, conforme o registro no livro.

Seu cardápio também inclui cabeças de gado, as quais ele é capaz de suspender e voar com elas até o alto dos montes, onde as devora por completo, deixando apenas seus ossos para trás.

Ouça a toada:

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Três espécies de papagaios encontradas na Amazônia que encantam e revelam a saúde da floresta

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Papagaios são animais encantadores com cores vibrantes. Foto: Thiago Silva/Semuc – PMBV

Você deve conhecer uma espécie de ave que se comunica com assobios ou até repete o que humanos falam perto dela. É conhecida por sua coloração verde, penas com detalhes marcantes e um bico bem redondo.

Serviu de inspiração para um dos pássaros mais famosos do mundo: o Zé Carioca, que representa o Brasil nos desenhos animados da Disney. E se você pensou em papagaio, acertou!

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Os papagaios se encontram em vários biomas do Brasil e costumam ser lembrados por suas características físicas, como descrito acima, e um comportamento que cativa.

O Portal Amazônia conversou com Francisco Luciano Ibiapina, funcionário público e gerente do Bosque dos Papagaios, em Boa Vista (RR), para falar sobre três espécies de papagaios comuns na Amazônia.

Bosque dos Papagaios. Foto: Divulgação/Prefeitura de Boa Vista

Papagaio-moleiro (Amazona farinosa)

Segundo Ibiapina, o moleiro é o maior papagaio do Brasil e é conhecido também como jeru, juru, ajuru, juru-açu e ajuruaçu.

Sua coloração é verde-clara, com aspecto “empoeirado”, como se suas penas fossem cobertas por um pó branco muito fino. A parte de cima de sua cabeça, geralmente, é amarela, azul e vermelho, tem o bico e anel dos olhos brancos, cauda longa com extremidade em um tom de verde claro.

O papagaio-moleiro tem uma vocalização forte e grave e costuma viver em bandos grandes. Vive principalmente em florestas densas e áreas úmidas, como a Amazônia. Andam em grupos pelos ares à procura de frutos, incluindo de palmeiras.

Sua reprodução acontece em ninhos feitos em ocos de árvores e elevações rochosas, principalmente durante os três primeiros meses do ano, de acordo com a Fundação Jardim Zoológico de Brasília.

papagaios
Papagaio-moleiro. Foto: Divulgação / Wikipédia

Papagaio-campeiro (Amazona ochrocephala / A. aestiva, dependendo da região)

De acordo com o gerente do Bosque dos Papagaios, o papagaio-campeiro mede entre 35 e 38 centímetros de comprimento e pesa entre 340 e 535 gramas.

Possui plumagem verde com coroa amarela, cauda verde com as pontas verde amareladas claras e a base das penas em tons avermelhados. Em seus olhos, a íris é vermelha no indivíduo adulto, anel ocular branco e bico cinzento-claro. 

Costuma ser encontrado em áreas abertas, cerrados, campos e bordas de mata. É uma espécie muito adaptável e possui vocalização alta e frequente.

O campeiro constrói ninho em buracos de cupinzeiros em árvores e ocos de palmeiras, a pouca altura do chão, na temporada seca, para se reproduzir, segundo a Fundação Jardim Zoológico de Brasília.

A coloração da cabeça e face pode variar individualmente, mas, de uma forma geral, possui uma área amarela maior na coroa.

Papagaio-campeiro. Foto: Divulgação / Fundação Jardim Zoológico de Brasília

Curica (Amazona amazonica ou Amazona autumnalis, conforme a região)

O papagaio-do-mangue, conhecido como curica, é menor que as outras aves citadas. Sua cor é um verde mais escuro, com detalhes coloridos (amarelo, vermelho ou azul na cabeça e em sua face).

Habita matas ciliares, áreas alagadas, comum em florestas de galeria, várzeas, alagados com árvores e manguezais. Costuma pernoitar e se reproduzir em ilhas cobertas de mata.

Reproduz-se geralmente no segundo semestre do ano e faz ninhos em cavidades, aproveitando ocos de árvores, paredões rochosos e cupinzeiros, conforme a Fundação Jardim Zoológico de Brasília. O casal permanece unido por toda vida. E por falar em casal, em voo eles mantém contato através de gritos longos e elaborados.

Papagaio-do-mangue (curica). Foto: Divulgação / Fundação Jardim Zoológico de Brasília

Diferenças entre as espécies

Para Francisco Luciano Ibiapina, de forma resumida, o moleiro é o papagaio maior e mais florestal, o campeiro é mais comum em áreas abertas e é adaptável, e a curica é menor e mais associada a matas e rios.

“O papagaio-campeiro está associado a campos naturais e florestas com araucária, dependendo muito de sementes sazonais. O papagaio-moleiro vive em florestas densas e úmidas, incluindo áreas de várzea. O papagaio-do-mangue (curica) ocorre em florestas ribeirinhas, manguezais e áreas próximas a rios. O habitat influencia diretamente na alimentação, reprodução e deslocamento dessas aves”, reforçou o especialista.

O papagaio-campeiro costuma formar grandes bandos, principalmente fora do período reprodutivo. O papagaio-moleiro é mais discreto e geralmente observado em pares ou pequenos grupos. O papagaio-do-mangue é bastante vocal, com chamados altos e repetitivos, facilitando sua identificação em campo.

Segundo o gerente, os papagaios campeiro e moleiro podem ser confundidos, por isso é preciso falar de suas diferenças. “Quando as aves voam é mais fácil de ver essa diferença, com o vermelho cobrindo uma área bem maior no campeiro enquanto no moleiro é apenas uma pequena porção da asa com essa cor”, exemplifica.

Leia também: Zé Carioca na Amazônia? Conheça o papagaio-verdadeiro

Importância ecológica e ameaças ambientais dos papagaios

Segundo Ibiapina, essas aves têm papel fundamental na dispersão de sementes, contribuindo para a regeneração florestal. Também ajudam no equilíbrio ecológico, interagindo com diversas espécies vegetais e animais. E, mesmo com um papel fundamental para a natureza, eles sofrem muitas ameaças.

“As principais ameaças são a perda e fragmentação do habitat, o desmatamento, a captura ilegal para o tráfico de animais silvestres e, em alguns casos, conflitos com atividades agrícolas. O papagaio-campeiro é especialmente sensível à perda de áreas naturais específicas”, explicou o gerente para o Portal Amazônia.

Ele indica medidas para ajudar na conservação desses papagaios:

“A comunidade pode contribuir evitando a captura ilegal, denunciando o tráfico e preservando áreas naturais. Já as políticas públicas devem fortalecer a fiscalização ambiental, apoiar programas de educação ambiental, proteção de habitats e ações de reabilitação e soltura monitorada de animais silvestres”, concluiu. 

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Saiba em quais estados da Amazônia ocorrem mais incidências de raios

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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O clima equatorial é caracterizado por ser quente, úmido e com chuvas abundantes e bem distribuídas ao longo do ano, e ele predomina os ares da Amazônia. Essas tempestades geralmente possuem companhias de ventanias, trovões e o companheiro principal, que possui uma descarga energética abundante e causa até medo em alguns cidadãos: o raio

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Os raios são mais ocorrentes em regiões com muita umidade e calor, como é o caso da Amazônia, que favorece ainda mais a formação da atividade elétrica. Essas descargas estão relacionadas com o acúmulo de eletricidade nas nuvens do tipo cumulonimbus (Cb), por vezes acompanhadas de ventanias fortes e grande volume de água.

A descarga da eletricidade presente nessas nuvens é causada pela atração entre cargas de sinais opostos: positivas e negativas. Assim o raio pode ocorrer apenas entre nuvens ou entre nuvens e solo.

raios são descargas elétricas.
Raios são descargas elétricas perigosas. Foto: Romulo Venâncio/Elat/Inpe

Leia também: Nuvens Cumulonimbus: fenômeno surpreendeu os moradores de Boa Vista

Amazônia e os raios 

Devido a localização geográfica da Amazônia, a manifestação de raios ocorre com maior frequência por dois fatores: a umidade e o calor amazônico, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Um estudo publicado pelo Grupo ELAT (Laboratório de Eletricidade Atmosférica), do Inpe, revela que entre os anos de 2081 a 2100, a ocorrência de raios deve alcançar a casa dos 100 milhões por ano. Na Amazônia, esse número já chega a 30 milhões por ano. São 13,4 descargas elétricas por quilômetro quadrado.

Ao Portal Amazônia, o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior, confirmou que a Amazônia é uma das três regiões no mundo com a maior incidência de descargas elétricas: “Isso ocorre devido a localização geográfica próxima à linha do Equador e a alta umidade por conta da floresta”. 

Além disso, o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), por meio de nota, concedeu ao Portal Amazônia um mapa que mostra a densidade de raios por ano na Amazônia:

Mapa de densidade de raios por ano no Brasil. Fonte: American Meteorological Society

De acordo com o mapa, o Amazonas, a região sul do Pará, o norte do Mato Grosso e Tocantins são as regiões com as maiores incidências de raios no país devido a alta disponibilidade de vapor d’água e altas temperaturas, que são ingredientes básicos para formação de tempestades.

O Censipam informou que o período em que mais se registra descargas elétricas na região amazônica é durante o trimestre entre setembro e novembro, período de transição entre a estação mais seca para o chuvosa.

Leia também: Amazônia influencia as chuvas no Sul e Sudeste do país

Chuvas fortes carregam com elas os famosos raios. Foto: Divulgação/Funbio

Cuidados essenciais em períodos chuvosos

Segundo a World Meteorological Organization (WMO), os raios estão entre as principais causas de mortes relacionadas a eventos meteorológicos. 

Ainda na nota do Censipam, o órgão alerta que durante eventos com possibilidade de descargas elétricas, a atenção precisa ser ainda maior, com a adoção de cuidados preventivos. Entre as medidas recomendadas estão:

  • evitar lugares abertos (campos, rios e floresta);
  • procurar um abrigo fechado (pelas laterais também);
  • afastar-se de árvores altas;
  • afastar-se da rede elétrica, postes e antenas;
  • evitar ficar descalço;
  • caso alguma pessoa esteja na rua, procurar um veículo fechado (não tocar na lataria) para se abrigar;
  • dentro de casa evitar contato com qualquer tipo de objeto que tenha uma estrutura metálica (incluindo alguns tipos de torneiras) e desligar aparelhos da tomada. 

Outros cuidados recomendados pelo Censipam são: “em caso de incidência de raio sobre uma pessoa, procurar, com urgência por profissionais de saúde. É importante relembrar que, descargas elétricas podem ocasionar parada cardíaca e respiratória, situação em que a reanimação cardiorespiratória é indispensável até a chegada dos profissionais de saúde. Ressalta-se que não se deve oferecer alimentos, líquidos ou medicamentos à vítima sem avaliação e diagnóstico médico”.

“A maioria das vítimas de descargas elétricas se encontravam em regiões abertas e perto de lugares altos como as árvores. Baseado nesse fato, observa-se que os povos originários apresentam maior vulnerabilidade à incidência de descargas elétricas atmosféricas, não por questões particulares, mas em função de condições contextuais, como a realização frequente de atividades ao ar livre, a dependência da navegação fluvial, a permanência em áreas abertas ou próximas a árvores altas e o uso de habitações tradicionais que em geral, não dispõem de sistemas de proteção elétrica e aterramento”, conclui a nota do Censipam.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Linha do tempo mostra influência portuguesa em calçadões famosos do Amazonas e do Rio de Janeiro

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Calçadões bicolores são famosos no país, mas história vai além. Foto: Reprodução

Ao conhecer vários lugares do mundo, é possível se aventurar por diversos pontos turísticos que se tornam paradas ‘obrigatórias’ em viagens, como praias, museus e outros. No Brasil, o levantamento da ONU Turismo aponta que o país registrou o maior crescimento em chegadas de turistas internacionais entre os 50 principais destinos do mundo, com alta de 48,2% no primeiro semestre de 2025.

Na Amazônia, o Centro Histórico da cidade de Manaus (AM), tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), tornou-se ponto obrigatório entre os turistas que visitam a região. O Centro abriga casarões antigos, bares e museus que ficam ao redor de um ponto muito querido pelos manauaras: o Largo de São Sebastião, que dá acesso ao Teatro Amazonas e à Igreja São Sebastião.

Mas uma de suas principais características é o chão bicolor, feito por granitos preto e branco e o famoso Monumento à Abertura dos Portos, do escultor italiano Domenico de Angelis, ao centro. A calçada da praça faz parte de um conjunto de obras viabilizado pelos magnatas da época áurea da borracha.

E o padrão que lembra o encontro das águas é famoso não só no Norte, como também na região Sudeste do Brasil, com o calçadão que expande para a praia e os edifícios de Copacabana, um dos bairros mais famosos e turísticos do Rio de Janeiro. Os granitos desse calçadão apresentam a mesma coloração que a calçada manauara: pedras pretas e brancas que formam ondas, neste caso representando as ondas do mar.

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O Portal Amazônia já contou a história que une esses dois ícones na disputa do “quem veio primeiro”: Portal Amazônia Responde: Quem veio primeiro: o Largo de São Sebastião ou o Calçadão de Copacabana?

No entanto, antes mesmo desses dois icônicos lugares brasileiros, em Portugal já existia uma calçada bicolor e com ondas que simbolizavam os oceanos.

Assim, a equipe do Portal Amazônia buscou mais informações e organizou uma linha do tempo que conta qual a ordem do “nascimento” desses locais.

Largo São Sebastião e sua calçada bicolor. Foto: Michael Dantas / SEC-AM

Contexto histórico

Segundo o jornalista Otoni Menezes, o início da cronologia começou com as técnicas de calcetaria portuguesa. Mesmo que esse procedimento já existisse em outros lugares do mundo como Londres e Paris, com desenhos diferenciados, os portugueses se destacaram pela técnica.

O estilo português de calcetaria começou no século XIX, utilizando as pedras de cor preta e branca nas calçadas das praças portuguesas, no período de reformas urbanas no país. A partir disso, Portugal levou esse estilo para suas cidades e colônias, como o Rio de Janeiro que, no período, era a capital do Brasil.

De acordo com o historiador Abrahim Baze, interpretações mais antigas definem que o desenho encontrado nos calçadões brasileiros aparece inicialmente na praça do Rossio (antiga D. Pedro IV), atualmente Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa (Portugal).

A praça foi inaugurada em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27º aniversário de Dona Maria II, em cuja inauguração foi apresentado o Ato O Magriço e os Doze de Inglaterra, do autor Jacinto Aguiar de Loureiro. O teatro português abriga áreas culturais e turísticas, como as calçadas brasileiras.

O historiador Abrahim Baze, em sua coluna no Portal Amazônia, contou a história da praça Dona Maria II: O calçadão Teatro Dona Maria II em Portugal.

O famoso calçadão de Copacabana. Foto: Divulgação/Orla Rio

Largo São Sebastião x Calçadão de Copacabana

O mesmo desenho da praça Dona Maria II, foi reproduzido, em seguida, no Largo São Sebastião, no Centro Histórico de Manaus. No final da primeira metade do século XIX, com a instalação do Monumento à Abertura dos Portos, em 1901, as ondas bicolores foram aplicadas em torno do Largo.

De acordo com a obra ‘Entidades e Monumentos do Amazonas’, de Gaitano Antonaccio, o granito em preto e branco começou a ser projetado em 1867, cerca de 17 anos antes do assentamento da pedra fundamental do Teatro Amazonas (em 1884).

Os granitos europeus chegaram na época em que Manaus estava no auge da produção da borracha, no final do século XIX, e ganhava contornos da arquitetura europeia, financiados pelos grandes empresários da borracha. Tanto que passou a ser conhecida como a “Paris dos Trópicos”.

De acordo com as datas registradas, o Calçadão de Copacabana surgiu em 1905, portanto quatro anos depois do pavimento manauara. No início, os desenhos eram diferentes, com uma faixa muito estreita em que o desenho corria de forma perpendicular ao mar, segundo Otoni.

Porém, na década de 1930, as águas do mar invadiram a orla e a calçada carioca foi destruída. Assim, eles reconstruíram um novo passeio nos anos 30 e dessa vez seguindo o modelo amazonense. As calçadas também tiveram sua orientação alterada e passaram a ser paralelas ao mar.

“É aí que vai surgir o famoso calçadão de Copacabana, que se sobrepõe a todos os outros, levando as pessoas a deduzirem que ele veio primeiro que o Largo São Sebastião e a praça Dona Maria II”, explica o jornalista Otoni.

calçada
Teatro Nacional Dona Maria II. Foto: Reprodução/Informações e serviços Lisboa

Linha do tempo

A historiadora Gisella Braga organizou em ordem cronológica as datas dos calçadões:

Lisboa e a Calçada Portuguesa (1842)

• 1842: A técnica e o desenho são criados e inaugurados na Praça do Rossio (Praça D. Pedro IV), em Lisboa. Este é o marco zero da calçada de ondas, feito com pedras de calcário (claro) e basalto (escuro).

Manaus e o Largo de São Sebastião (1901)

• Final do Século XIX (anos 1890): No auge do Ciclo da Borracha, Manaus passa por uma intensa modernização urbana, buscando replicar os padrões europeus.

• 1901: O calçamento em mosaico de ondas no Largo de São Sebastião é finalizado, em frente ao Teatro Amazonas. Manaus é a primeira cidade no Brasil a instalar esse padrão específico de ondas.

Rio de Janeiro e Copacabana (1905)

• 1905–1906: Durante a reforma urbana do Rio de Janeiro (então capital federal), o mosaico português começa a ser instalado em Copacabana e na Avenida Rio Branco. Inicialmente, o desenho de ondas era muitas vezes transversal (perpendicular) à praia.

calçadões
Procissão São Cristóvão na Praça São Sebastião, 25/07/1947. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

As influências europeias nos calçados bicolores

Com isso, as influências de Portugal são claramente significativas nas obras brasileiras. O simbolismo do desenho da calçada portuguesa – as águas do oceano – refletiram nas obras nacionais, como o encontro das águas, no Amazonas, e o mar no Rio de Janeiro. “É um desenho das águas que podia ser o movimento das ondas do oceano”, comenta Otoni.

Já a historiadora Gisella Braga explica que o avanço de Portugal e as mudanças políticas no Brasil, interferiram no estilo arquitetônico das metrópoles da época.

“Eu entendo que nós recebemos muitos portugueses em todo o Brasil. Eles se instalaram, principalmente nas principais metrópoles, como o Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus e Belém. E essas famílias portuguesas trouxeram muitos artistas para o Brasil, para que eles pudessem trabalhar na parte urbanística, de pavimentação, decoração das praças. Então era moda, na verdade, seguir ali uma moda. E também era um modo de fazer com que as grandes cidades estivessem conectadas com a sua cidade de origem”, disse Gisella.

De acordo com ela, esse período é muito marcado pela Nova República, fase de transição política que o Brasil enfrentava. “Essa nova urbanização, essa nova cara para as principais cidades do Brasil, tornou mais acessível que essas construções imitassem as principais áreas ali de Portugal”, afirma Braga.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Portal Amazônia responde: o que são plantas adaptógenas?

Unha-de-Gato, por exemplo, é uma planta adaptógena. Foto: Nils Servientis/BioDiversity4All

É de conhecimento comum que muitas plantas possuem propriedade medicinais para os seres humanos, como o combate ao estresse causado pela desregulação hormonal, por exemplo. Entre elas, existem as plantas classificadas como adaptógenas, uma classe que auxilia justamente no controle do estresse humano.

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De acordo com o farmacêutico Saulo Breves, para ser denominada como adaptógena, uma planta deve ter influência que restaure o equilíbrio do corpo, aumentar a resistência do organismo ao estresse e não deve apresentar grau de toxicidade alto.

“Dentre elas, temos por exemplo a Maca Peruana (Lepidium meyenii), que ajuda a regular os hormônios e a aumentar a disposição”, exemplifica Breves.

As adaptógenas possuem compostos químicos e substâncias ativas que atuam em uma região do sistema nervoso chamada ‘eixo hipotálamo-hipófise adrenal’, de modo que estimulam o controle do cortisol (hormônio do estresse) por meio destas substâncias.

Leia também: Planta anti-inflamatória, algodão roxo se adapta na Amazônia e ajuda parteiras

Potência das plantas adaptógenas seguem sob estudos

Segundo Saulo Breves, a comprovação científica concreta sobre os efeitos das plantas adaptógenas ainda é uma área em desenvolvimento, mas com muitos avanços significativos.

“Atualmente, muitos estudos são promissores, mas há heterogeneidade de extratos, doses e qualidade metodológica, o que limita conclusões definitivas para todas as indicações”, informou o farmacêutico ao Portal Amazônia.

Entre as adaptógenas que já possuem estudos revisados sobre a sua eficácia, existe a Withania somnifera (ashwagandha), que tem inúmeros estudos de revisões sistemáticas e ensaios clínicos que mostram redução de níveis de cortisol e melhora de sintomas de estresse e ansiedade em adultos. Também há estudos em sono e alguns efeitos em parâmetros metabólicos, segundo Breves.

Planta adaptógena Withania somnifera. Foto: Divulgação / Wikipédia

Outro exemplo dado pelo farmacêutico é a Rhodiola rósea, a qual já possui evidência, com múltiplos estudos clínicos e revisões, que mostram efeito na redução da fadiga mental e melhora de resistência ao estresse, além de auxiliar no desempenho cognitivo sob estresse.

Rhodiola rósea é uma planta adaptógena. Foto: Opioła Jerzy / Wikipédia

Exemplos de plantas adaptógenas na Amazônia

Na Amazônia, de acordo com Saulo Breves, é difícil afirmar que existem plantas adaptógenas específicas na região, uma vez que, com a definição destas, muitas espécies podem ser consideradas, mas ainda não existem estudos científicos suficientes. Entre as plantas regionais que possuem esse potencial, ele cita:

Unha-de-gato (Uncaria tomentosa)

A Uncaria tormentosa é um cipó que cresce em florestas tropicais e é consiedrada adaptógena – Foto: Vangeliq.petrova / Wikimedia Commons – CC

Da família botânica Rubiaceae, a espécie é utilizada na medicina tradicional por diversas comunidades indígenas amazônicas para processos degenerativos e inflamatórios, úlceras gástricas, contracepção, entre outros.

Uma pesquisa realizada pelo grupo da professora Carla Carvalho, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, mostrou que o consumo de extrato da unha-de-gato melhora os sintomas da obesidade em camundongos. O trabalho, que faz parte da tese de doutorado da pesquisadora Layanne Araújo, foi publicado na revista Scientific Reports.

A planta também tem sido utilizada no tratamento do HIV desde a década de 1990 e inúmeros outros trabalhos tem sido desenvolvidos por universidades como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) em busca de registrar seus efeitos anti-inflamatórios, imunoestimulantes, anticancerígenos e mais.

Além disso, no início de 2009 estudos publicados indicaram seu uso terapêutico contra a dengue. Atualmente, existem pesquisas que avaliam seu efeito neuroprotetor, considerando a possibilidade da unha-de-gato ser um candidato em potencial para o tratamento fitoterápico para o Alzheimer.

Saracura-Mirá é uma planta adaptógena da Amazônia. Foto: Divulgação / UFMG

Saracura-Mirá (Ampelozizyphus amazonicus)

Da família das plantas Rhamnaceae, esta planta tem ocorrência limitada à região amazônica e possui inúmeras propriedades etnobotânicas e farmacológicas.

Entre as propriedades farmacológicas encontradas estão as atividades antiviral, antibacteriana e antifúngica, tripanocida, antimalárica, larvicida, imunobiológica e anti-inflamatória, diurética e antidiurética, citotóxica e antitumoral, adaptogênica e imunomodulatória. Por conta de seu potencial medicinal, a planta é uma das que podem ser parte das adaptógenas.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Portal Amazônia responde: qual a extensão da costa amazônica?

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Manguezais na margem do estuário do rio Mojuim, no Pará. Foto: Divulgação/Observatório da Costa Amazônica

A Amazônia, o maior bioma do Brasil, cobre cerca de 49% do território nacional, sendo a maior floresta tropical do mundo e abrigando a maior biodiversidade do planeta, com uma vasta área que se estende pela região Norte e outros estados, de acordo com dados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mas além da imensa floresta, a Amazônia também possui uma costa litorânea rica em manguezais, estuários e florestas de várzea, caracterizada pelo encontro do grande volume de água doce do rio Amazonas com o Oceano Atlântico, formando um sistema único de ambientes costeiros. 

Leia também: Conheça os manguezais da Amazônia, o maior cinturão de manguezais do mundo

Para o geólogo Caiubi Kuhn, a extensão costeira da Amazônia é importante para assegurar a soberania do Brasil.

“A costa amazônica tem uma importância muito grande para o país, por vários aspectos. Ela possui uma série de recursos, desde recursos pesqueiros, como também recursos naturais, como é o caso dos recursos minerais. Então, nos últimos anos, tem se avançado cada vez mais as pesquisas sobre depósitos minerais existentes na plataforma continental. E essa expansão do domínio brasileiro, ela representa um ganho para o país em termos de recursos naturais. E também auxilia na proteção, em especial, do litoral brasileiro”, explica Caiubi. 

Mas afinal, qual a extensão da costa amazônica?

De acordo com a Revista da Gestão Costeira Integrada, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a zona costeira amazônica brasileira possui características meteorológicas e oceanográficas bastante peculiares quando comparadas a outras regiões costeiras do Brasil.

A revista universitária aborda que, esta faixa costeira se encontra entre o rio Oiapoque (AP) e a baía de São Marcos (MA), local onde estão inseridos diversos ambientes marinhos como praias, planícies de marés, pântanos salinos e doces, manguezais e muito mais.

Leia também: Conheça os Corais da Amazônia

Ilha de São Luís na Baía de São Marcus (MA). Foto: NASA / Wikipédia

De acordo com o geógrafo Cleberson Ribeiro, o Brasil ocupa 47% da área da América do Sul e possui uma linha de costa de, aproximadamente, 8.500 km de extensão, dos quais 35% são ocupados pelo litoral amazônico brasileiro, ou seja 2.975 km de tamanho.

Nesta faixa territorial encontram-se ainda as regiões metropolitanas de Macapá-Santana (AP), Belém (PA) e São Luís (MA), municípios com moderada densidade demográfica e grandes extensões territoriais que são difíceis de acessar, pouco habitadas por populações tradicionais ou são inabitadas.

costa
Trecho do imenso litoral paraense, que abriga Reservas Extrativistas Marinhas. Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará

Nas três cidades abrigadas pela zona costeira, segundo a revista, estão concentrados, aproximadamente, 2,8 milhões de habitantes e a economia está baseada, principalmente, nas atividades industriais, portuárias, metalúrgicas, imobiliárias, pesqueiras, turísticas, comerciais, extrativistas e pecuaristas. 

Zona costeira da Amazônia. Fonte: Souza Filho et al. (2005)

Já nas pequenas comunidades que vivem na área costeira, a economia local é amparada pela agricultura e a pesca. Em algumas cidades litorâneas, os centros históricos, os encantos da música, culinária, artesanato são responsáveis pelo turismo local.

Além disso, outros meios de renda são localizados nessa área, como a exploração de minério, a carcinicultura, e piscicultura, a apicultura, entre outras, também são desenvolvidas ao longo do litoral amazônico brasileiro, de acordo com a Univali. 

As mudanças climáticas e as zona costeira amazônica

O geógrafo Cleberson, afirma que a zona costeira amazônica é uma região bastante específica, com um clima local e reduzido, e ambiente particularmente sensíveis e influenciados pelas condições climáticas locais. “Essa área, caracterizada por uma extensa floresta e um rio de grande volume, está próxima à linha do Equador e apresenta condições microclimáticas e ambientais singulares, tanto em relação à fauna quanto aos microssistemas”, explica o pesquisador. 

Para o geógrafo, diante das mudanças climáticas, pode-se observar impactos significativos nas condições que caracterizam esse sistema costeiro, incluindo períodos de estiagem mais prolongados e estresse hídrico. “A análise dessa região exige a consideração da fauna, flora e das populações tradicionais que nela habitam, todos elementos integrados em um contexto específico”, pontua. 

A zona amazônica possui uma condição peculiar e única, diferenciando-se das demais porções costeiras do Brasil.  Essa particularidade é causada, exclusivamente, pela sua posição geográfica, já que fica distinta da influência de massas de ar polar ou outros fenômenos climáticos observados em outras regiões.

Segundo Ribeiro a costa amazônica é influenciada pelo processo de vazão do Rio Amazonas. Com isso, essa costa está direcionada, diretamente, com a grande proporção de vazão do rio Amazonas e como consequência, ela vai ter também outras condições, tanto climáticas quanto de temperatura.

“Então, nós vamos ter um limite muito relacionado a essa base. Lembrando que o rio Amazonas, por exemplo, vai representar um pouco mais de 15% de toda a água doce descarregada nos oceanos, elevando muito essa quantidade de sedimentos que é depositado no rio Amazonas até dentro da parte ocidental. Temos uma dimensão muito específica dessa parte, dessa seção da nossa costa derivado principalmente em relação ao rio”, disse o geógrafo ao Portal Amazônia.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar