Chapada dos Guimarães e Domo de Araguainha estão em destaque na geologia de Mato Grosso. Foto: Reprodução/Obra
A Chapada dos Guimarães e o Domo de Araguainha são duas áreas de Mato Grosso que são destaque em uma obra que trata do patrimônio geológico do Brasil. “Geopatrimônio em Geoparques no Brasil” é uma obra que trata de riquezas geológicas e potencial turístico de cada um dos geoparques a partir do objetivo de fomentar a divulgação científica. Ao todo são 13 capítulos que envolvem áreas de diferentes regiões do Brasil com particularidades geológicas.
“O livro reúne 13 capítulos, que abordam territórios das cinco regiões do país. Todos os seis Geoparques Mundiais da UNESCO (UNESCO Global Geopark) existentes no Brasil — Araripe (CE), Seridó (RN), Caminhos dos Cânions do Sul (RS/SC), Caçapava (RS), Quarta Colônia (RS) e Uberaba (MG) — são retratados na publicação, além de outros locais que podem vir a ser reconhecidos como geoparques em um futuro próximo, como Chapada dos Guimarães, Costões e Lagunas, Corumbataí, Serra de Sincorá e Cachoeira do Amazonas”, conta o professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Caiubi Kuhn que organiza o livro junto com o professor Marcos Nascimento, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Parque nacional da Chapada dos Guimarães, destaque na geologia de Mato Grosso. Foto: Milena Florim
Há ainda no livro capítulos especialmente dedicados a Mato Grosso. “O livro também retrata os geossítios brasileiros reconhecidos pela International Union of Geological Sciences (IUGS), como os Cânions do Peruaçu (MG), o Quadrilátero Ferrífero (MG), o Pão de Açúcar (RJ), as Cataratas do Iguaçu (PR) e o Domo de Araguainha (MT/GO), entre outros. As áreas de Mato Grosso retratadas no livro são a Chapada dos Guimarães e Araguainha, dois locais com uma geologia fantástica”, relata o docente.
Livro mostra que geologia tem potencial para turismo e educação
O professor Caiubi Kuhn explica que o livro possui o potencial de contribuir em diferentes pesquisas que tratem tanto de locais de Mato Grosso, como Chapada dos Guimarães e o Domo de Araguainha.
“O livro é uma obra que apresenta o cenário atual desses territórios e reúne informações de todo o país sobre locais com geologia excepcional. Dessa forma, o livro pode servir como referência para disciplinas, estudos temáticos e como material de apoio para o turismo e a educação”, pontua o professor a respeito da importância da publicação.
Domo de Araguainha. Foto: Joana Sanchez/UFG
Inclusive está nos planos de divulgação do livro promover a divulgação da geodiversidade também em Chapada dos Guimarães.
“A UFMT, em conjunto com outras instituições, como o IFMT, tem realizado diversos projetos de pesquisa e de extensão relacionados às áreas com geodiversidade excepcional em Mato Grosso, em especial no município de Chapada dos Guimarães. As ações envolvem desde a formação de professores e de guias de turismo até exposições e atividades de divulgação científica em escolas. Trabalhos de pesquisa em geologia e fósseis também estão sendo realizados e podem proporcionar, nos próximos anos, descobertas fantásticas”, finaliza Caiubi Kuhn.
*Com informações da Universidade Federal do Mato Grosso
Jardim de esponjas no fundo do mar amazônico. Foto: Reprodução/INCT-BAA e Rodrigo Moura (UFRJ)
“É como se fossem os Lençóis Maranhenses, mas debaixo d’água”.
É assim que o professor Eduardo Paes, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) descreve o registro pioneiro de um campo de dunas submarinas de 10 metros de altura e que alcançam várias milhas paralelas à costa amazônica.
O registro científico é um dos resultados inéditos encontrados por pesquisadores a bordo do Ciências do Mar II, uma expedição científica nacional liderada pela Ufra na região Norte. Coordenada pelo professor Eduardo Paes, o objetivo é mapear e estudar de forma aprofundada a biodiversidade existente na chamada “Amazônia azul”, como é chamada a extensão de quilômetros de mar amazônico que vai do Amapá ao Piauí.
O navio Ciências do Mar II faz parte de uma frota nacional de quatro embarcações idênticas, parcialmente financiadas pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia -Biodiversidade da Amazônia Azul (INCT-BAA) criado através de um edital do CNPq.
As quatro embarcações foram adquiridas pelo Ministério da Educação em parceria com a Marinha Brasileira com o objetivo de apoiar o ensino e as pesquisas em Ciências do Mar. Pela primeira vez, esses quatro navios realizaram os cruzeiros no mesmo período, com a mesma metodologia, mesmo tipo de coleta de dados, imagens de satélite, medidas de corrente, coletas de água, em toda a costa brasileira.
Essa foi a primeira expedição científica do Ciências do Mar II pelo projeto do INCT-BAA e ocorreu de 24 de outubro a 07 de novembro, partindo de Belém. Em 15 dias no mar amazônico, os pesquisadores também registraram um jardim de esponjas centenárias e cânions gigantes. Tudo embaixo da água. Tudo ainda novo para a ciência.
Para o professor Eduardo Paes, doutor em oceanografia, um dos registros mais impactantes foi a identificação de um vasto campo de dunas submarinas.
“Nós apelidamos de megadunas, são formações ativas, movendo-se não pelo vento, mas pela força de marés altíssimas características da região, já que a Amazônia azul é uma região de macromarés”, explica.
Com equipamentos de hidroacústica de última geração e câmeras de alta precisão, os resultados são uma série de registros que vão preencher lacunas deixadas por cartas náuticas antigas. Segundo o pesquisador, toda a equipe ficou impressionada com os resultados obtidos pelos aparelhos.
Dunas foram encontradas no fundo mar. Foto: INCT-BAA e Rodrigo Moura (UFRJ)
“É uma novidade para todos nós. Por isso fizemos o possível para mapear, ainda de maneira piloto, mas para alertar que os estudos que vierem daqui para a frente têm que se ocupar de estudar esse ambiente, que é muito interessante. Na borda dessas dunas se aglomeram cardumes de peixe”, alerta.
Ele diz que existem menções à dunas no Piauí, que são relíquias. “Agora, desse tamanho e ativas dessa magnitude não tem em lugar nenhum, nem na carta náutica”, diz. De acordo com o Centro de Hidrografia da Marinha Brasileira, as Cartas Náuticas são documentos cartográficos que resultam de levantamentos de áreas oceânicas, mares, baías, rios, canais, lagos, lagoas, ou qualquer outra massa d’água navegável e que se destinam a servir de base à navegação.
Mapeamento vai auxiliar pesquisas futuras na Amazônia Azul. Foto: INCT-BAA e Rodrigo Moura (UFRJ)
Além da geologia, a expedição se deparou com o que chamou de “estação de tratamento”, algo já registrado em mares do Caribe, Austrália e outras regiões brasileiras. Segundo o pesquisador, nas bordas dessas dunas, a equipe observou cardumes e uma quantidade inusitada de rêmoras solitárias.
“Rêmoras são peixes conhecidos por se fixarem em tubarões e outros grandes animais marinhos. Rêmora é um peixe que come os parasitas dos outros”, diz. Segundo o pesquisador, a presença desses animais parados nas dunas sugere a existência de uma espécie de “estação” ou acoplamento.
Ele explica que esse é um fenômeno já documentado em recifes de corais, mas nunca em um ambiente de dunas dessa forma.
“Uma das hipóteses é que esse ambiente seja uma estação em que as rêmoras ficam paradas lá esperando os tubarões para grudarem neles. Ainda é uma hipótese que precisa ser melhor investigada”, diz.
Outra surpresa foi o rastro deixado por antigos rios no fundo do mar. Esses rios ajudaram a escavar a plataforma continental e formaram cânions gigantescos, que não constavam nos mapas. Em um dos trechos, a profundidade saltou abruptamente de 100 metros para 600 metros. Diferente de outras partes da costa brasileira, onde esses canais antigos foram cobertos por sedimentos, na Amazônia eles permanecem abertos devido à dissolução do carbonato de cálcio presente na região, criando vales submarinos ricos em peixes e corais.
De acordo com o professor, toda a costa brasileira tem um degrau, tem uma plataforma, onde ela afunda. “Na beira chama-se talude. Na beira desse talude, em vários lugares, tem esses cânions antigos. Só que a gente viu que esses cânions amazônicos vão ainda bem para dentro, enormes. E o que tem lá dentro? Muitos peixes e corais. É uma biodiversidade absurda, que também não sabíamos da existência disso”, diz.
Necessidade de mais investimentos
No mapeamento também foi encontrado um Jardim de esponjas centenárias, além de um campo de rodolitos, que são algas calcárias que parecem pedras. “Parece uma pedrinha, mas está viva, cresce e vai adquirindo calcário”, diz. “Coletamos muito material, que será registrado e analisado. Como o mar amazônico ainda é pouco estudado, é possível que, inclusive, tenhamos coletado novas espécies que ainda não tem registro”, diz. O material servirá de base para artigos e publicações científicas, que podem incentivar o financiamento de ainda mais pesquisas na região.
Equipe também reúne pesquisadores e alunos de outras instituições brasileiras. Foto: INCT-BAA e Rodrigo Moura (UFRJ)
“Sabemos que conhecer o Mar Amazônico não é simples e nem barato. Não dá para pôr uma mochila nas costas e fazer uma trilha no mar. Em alto mar não é possível ir com barcos pequenos, porque é perigoso, há muitas correntes. Não é qualquer barco e não é qualquer cientista. Por isso nós precisamos de cientistas especializados no mar. Os cientistas de alto nível que a Amazônia tem são mais especializados na floresta, na Amazônia verde e suas populações. O que é importantíssimo. Mas o mar também é absolutamente surpreendente”, diz.
Para o pesquisador, há uma interdependência vital entre a floresta e o oceano, e ambos são essenciais para a vida no planeta. Ele descreve o mar amazônico como o “irmão azul” da floresta verde. “O mar é o irmão siamês da floresta. Existe o irmão verde e o irmão azul. E eles estão colados um no outro e um depende do outro”, afirma.
Próximas navegações
Ainda estão previstas mais três expedições científicas a bordo do Ciências do Mar II na região Amazônica. A próxima viagem deve ocorrer entre abril e maio de 2026, durante o “máximo da pluma”, após o período de chuvas, para capturar a dinâmica do oceano sob influência máxima das chuvas amazônicas. As outras expedições ainda não possuem data definida.
Na comunidade São João do Ipecaçu, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (AM), as mulheres do Teçume d’Amazônia do Setor Coraci, que compõem o grupo Teçume d’Amazônia, realizaram um evento de comemoração aos seus 25 anos entre os dias 6 e 7 de dezembro. Os dois dias foram imersos nas memórias da construção do grupo, e reuniu parceiros como o Instituto Mamirauá, a Fundação Amazônia Sustentavel (FAS), Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (FEMAPAM) e Universidade Paulista (UNIP).
O encontro iniciou com a retomada da história do Teçume d’Amazônia, seguida de dinâmicas em grupo, palestras e rodas de conversa que abordaram temas como empreendedorismo, saúde da mulher, manejo de pesca e ações socioambientais na Amazônia, promovendo troca de experiências entre os participantes e instituições parceiras. Além disso, o álbum de memória Teçume d’Amazônia, que registrou a trajetória e o legado do grupo ao longo de seus 25 anos, foi distribuído para os participantes do evento.
A programação também ofereceu atendimentos voltados ao bem-estar, com a realização de exames preventivos e a oferta de procedimentos estéticos conduzidos por enfermeiras e esteticistas da UNIP, fortalecendo o cuidado integral com a saúde.
Durante o evento, foi exibido um filme tratando da memória e força do grupo, cuja produção contou com a colaboração da assessoria de comunicação do Instituto Mamirauá.
À noite, o centro comunitário foi palco de uma noite cultural agitada. A comunidade e os parceiros se reuniram para a exibição de um documentário abordando a trajetória do grupo das mulheres Teçume d’Amazônia, apresentações musicais, bingo e um desfile que destacou as tinturas e os grafismos do teçume, com roupas confeccionadas pelas artesãs Geovana da Silva de Souza e Silene da Silva Cardoso.
A dimensão coletiva e intergeracional do encontro do Teçume d’Amazônia também foi destacada por Dávila Corrêa, diretora de Manejo e Desenvolvimento do Instituto Mamirauá, que acompanhou a celebração. Para ela, o evento reafirmou a força das memórias compartilhadas e o envolvimento amplo da comunidade na construção dessa trajetória:
“Foi muito mais do que uma comemoração. O encontro foi carregado de significado, de anos de história e de emoção. Era nítido o clima de pertencimento e orgulho coletivo, com homens, mulheres, crianças e jovens participando ativamente das atividades culturais, falando, se emocionando e trocando experiências. Esse envolvimento mostrou o quanto as memórias coletivas seguem vivas e pulsantes na comunidade”.
Segundo Dávila, a participação dos homens e das crianças reforçou o caráter comunitário da celebração e o reconhecimento do trabalho das mulheres. “Foi bonito ver o olhar de admiração entre eles, as crianças acompanhando o documentário e o álbum de memórias, e as diferentes gerações reunidas em torno dessa história. É um momento que reafirma a cooperação, o trabalho solidário e a transmissão desse legado para o futuro”, completou.
Foto: Reprodução/Instituto Mamirauá
Durante os dois dias, os relatos marcantes e emocionados das artesãs rememoraram desafios e conquistas de mais de duas décadas de trabalho coletivo. Expressões como “25 anos não são 25 dias” e “foram 25 anos de muita luta, mas também de muita conquista” foram recorrentes.
As falas evidenciaram o orgulho compartilhado entre gerações de netas, filhas, irmãs e sobrinhas que partilham de um mesmo conhecimento, reforçando a transmissão contínua do saber tradicional, associado ao manejo do cauaçu e à produção artesanal. Além disso, o papel dos homens da comunidade se destacou diante da mobilização dos maridos e filhos para fazer o evento acontecer, bem como fazem no dia a dia da família, ajudando as mulheres na cadeia produtiva do teçume, na colheita do cauaçu e nos cuidados do lar.
Uma das falas que marcou o evento das mulheres do Teçume d’Amazônia foi a de Maria Marly das Chagas de Oliveira, que relembrou a trajetória coletiva das mulheres do Teçume:
“Quando eu entrei no Teçume, eu nem sabia direito como caminhar sozinha. A gente aprendeu juntas, errando, acertando, correndo até de onça quando precisava. No começo, eu passei dez anos na coordenação sem saber me organizar, mas o grupo me segurou. Foi como família: compramos nosso primeiro batom, nossa primeira roupa para viajar, choramos, rimos e crescemos lado a lado. Tudo o que vivemos valeu a pena. Foram 25 anos difíceis, mas 25 anos conquistados”.
Outro destaque no evento das mulheres Teçume d’Amazônia foi o depoimento da jovem artesã Daniele da Silva da Mota, que há cinco anos participa do coletivo: “Quando fui convidada a fazer parte do Teçume, eu fiquei muito feliz, porque sempre admirei essas mulheres. E era um momento que eu precisava de uma renda. Eu não sabia tecer nada, e elas me ensinaram. E hoje tenho essa profissão de artesã, que eu amo muito”.
Teçume d’Amazônia
O Teçume d’Amazônia surgiu nos anos 2000, inicialmente como coletivo de mulheres do setor Coraci, e contou com o apoio do Programa de Artesanato do Instituto Mamirauá. As 32 mulheres que iniciaram o grupo, representantes das comunidades Iracema, Matuzalém, Nova Canaã, Vila Nova do Coraci, São Paulo do Coraci e São João do Ipecaçu, participaram de oficinas, vivências e capacitações em parceria com Instituto Mamirauá e SEBRAE-AM, aprendendo técnicas de manejo e beneficiamento da fibra de cauaçu para produzir peças artesanais. Ao longo de sua trajetória, arrecadou muitas outras parceiras institucionais e comerciais.
O Teçume d’Amazônia transformou profundamente a vida das mulheres e de suas comunidades. O artesanato garantiu novas fontes de renda, ampliou a autonomia financeira e abriu oportunidades que antes não existiam, permitindo que muitas mulheres contribuíssem diretamente para o sustento familiar. Essa renda movimentou a economia local, fortaleceu a circulação de produtos e serviços nas próprias comunidades e estimulou novas iniciativas de organização e empreendedorismo.
O grupo também promoveu mudanças nas relações familiares e comunitárias, aumentando o reconhecimento do trabalho feminino e inspirando jovens que passaram a aprender e valorizar o conhecimento transmitido entre gerações.
Foto: Reprodução/Instituto Mamirauá
Com o amadurecimento do trabalho, o grupo conquistou reconhecimento institucional e comercial, ampliando sua atuação e representatividade para além da região e alcançando mercados nacionais. Tornou-se referência em artesanato de origem florestal, marcado pela habilidade, pela criatividade e pela força coletiva das mulheres da Amazônia.
Dentre suas conquistas mais significativas estiveram as diversas premiações que receberam durante os anos, e a participação na COP30, quando apresentaram sua experiência de manejo sustentável do cauaçu e sua trajetória de organização comunitária no principal debate global sobre clima. A presença do Teçume nesse espaço reforçou o valor dos conhecimentos tradicionais para soluções ambientais e evidenciou que enfrentar a crise climática exige fortalecer territórios, promover justiça social e reconhecer o protagonismo feminino.
A consolidação do grupo Teçume d’Amazônia transformou a organização comunitária, ampliou a participação das mulheres na conservação da floresta e nos espaços de tomada de decisão e fortaleceu a identidade artesanal da região, reafirmando o teçume como símbolo de resistência, criatividade e futuro.
Desenho industrial do Tabuleiro Maia inspirado na matemática ancestral. Foto: Reprodução/UFT
A Universidade Federal do Tocantins (UFT) registrou seu segundo desenho industrial, intitulado “Tabuleiro Maia”, criado pelos professores Adão Lincon Bezerra Montel, Warley Gramacho da Silva e Rafael de Oliveira Ribeiro, vinculados às áreas de Engenharia Civil e Ciência da Computação. O registro foi realizado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), sob o número BR 30 2025 005410-9.
Claudia Auler, diretora de Inovação e Transferência de Tecnologia da UFT, explica que o desenho industrial é a modalidade de proteção que assegura exclusividade sobre o aspecto visual e ornamental de um produto, resguardando sua forma estética, a disposição de seus elementos e sua identidade visual.
No caso do Tabuleiro Maia, o diferencial está na distribuição geométrica dos furos, concebida para reproduzir de forma fiel o sistema numérico do povo maia, permitindo a representação de números e a realização de operações matemáticas por meio de pontos, traços e símbolos.
O professor Adão Lincon contextualiza que, ao longo da história, diferentes povos desenvolveram sistemas matemáticos próprios. Entre eles, apenas dois apresentaram, de forma clara, a representação do valor nulo (zero) com símbolo específico:
o sistema indo-arábico, amplamente utilizado atualmente,
e o sistema numérico maia, desenvolvido por povos que habitavam a região correspondente ao atual México.
“Esse sistema sofisticado possibilitou avanços significativos em áreas como astronomia, arquitetura e engenharia”, afirmou.
Desenho industrial do tabuleiro maia inspirado na matemática ancestral. Foto: Reprodução/UFT
Pensando no potencial pedagógico dessa matemática ancestral, os pesquisadores desenvolveram um tabuleiro capaz de realizar operações utilizando o sistema maia. Segundo Adão Lincon, a ferramenta amplia significativamente as possibilidades educacionais:
“Pensando no potencial de aplicação da matemática maia no ensino, desenvolvemos um tabuleiro que funciona como uma calculadora. Enquanto o ábaco permite apenas operações de soma e subtração, o Tabuleiro Maia possibilita realizar soma, subtração, multiplicação, divisão e até raiz quadrada para valores pequenos. Por possuir peças discerníveis ao tato, o tabuleiro também tem sido utilizado com sucesso por estudantes com deficiência visual. O registro desse tabuleiro pela UFT permitirá sua exploração econômica no campo educacional, especialmente na alfabetização matemática”.
Desenho industrial do tabuleiro maia inspirado na matemática ancestral. Foto: Reprodução/UFT
O professor destaca ainda que, ao contrário do sistema indo-arábico, que apresenta maior nível de abstração, o sistema numérico maia é mais intuitivo, permitindo a obtenção de resultados por caminhos alternativos aos tradicionalmente utilizados. Ele é composto por apenas três símbolos: o ponto (unidade), o traço (cinco unidades) e um símbolo semelhante a uma concha, que representa o zero.
“O estudo da etnomatemática, que investiga os sistemas matemáticos desenvolvidos por diferentes culturas, contribui para ampliar a compreensão dos conceitos quantitativos e viabiliza práticas pedagógicas inclusivas, adequadas a distintos perfis de aprendizagem”, pontuou Adão Lincon.
Claudia Auler ressalta que, diferente do primeiro desenho industrial registrado pela UFT, voltado ao ensino da propriedade intelectual, o Tabuleiro Maia tem como principal diferencial a valorização de saberes ancestrais por meio do design, integrando matemática, engenharia, cultura e educação em uma solução visual inédita. O arranjo dos orifícios organiza-se em padrões de linhas e colunas que refletem a lógica da contagem maia, permitindo sua aplicação em atividades pedagógicas e experimentais.
Desenho industrial do tabuleiro maia inspirado na matemática ancestral. Foto: Reprodução/UFT
Para ela, do ponto de vista institucional, o registro reforça a estratégia de diversificação do portfólio de propriedade intelectual da UFT, ampliando o escopo de proteção para além de patentes e softwares:
“O registro do Tabuleiro Maia como desenho industrial representa um avanço importante na diversificação do portfólio de ativos de propriedade intelectual da UFT. Ao proteger soluções baseadas em design, a Universidade amplia suas possibilidades de transferência de tecnologia, fortalece a gestão estratégica da inovação e reconhece o valor de criações com potencial educacional, cultural e mercadológico”.
Boletim Agropecuário Paraense 2025 consolida protagonismo do estado no cenário nacional do setor. Foto: Divulgação/Fapespa
Segundo maior produtor de bovinos do Brasil, o estado do Pará encerra o ano de 2025 reafirmando o protagonismo no setor agropecuário nacional. Com avanços significativos na pecuária bovina e bubalina, na aquicultura, na produção agrícola e nas exportações, o estado nortista manteve resultados expressivos no Boletim Agropecuário Paraense 2025.
O documento, lançado no último dia 18 de dezembro pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), confirma o fortalecimento do campo como um dos principais vetores da economia paraense. Os dados consolidaram o Pará como o segundo maior produtor de bovinos do país, com um rebanho de 25,6 milhões de cabeças em 2024, o equivalente a 10,7% do total nacional.
Em um cenário de retração geral no Brasil, o Pará registrou crescimento de 2,1%, impulsionado pela expansão da fronteira pecuária e a presença de grandes polos produtivos. Na criação de búfalos, o estado manteve a liderança nacional, concentrando 42,9% do rebanho brasileiro, com 775,1 mil cabeças, majoritariamente localizadas no arquipélago do Marajó. O município de Chaves se destacou como maior produtor do país.
O setor aquícola também apresentou crescimento expressivo. A produção triplicou entre 2013 e 2024, atingindo 16,7 mil toneladas. O Pará manteve um ritmo de crescimento acima da média nacional, com destaque para o cultivo do tambaqui, responsável por cerca de 60% da produção estadual.
Agricultura diversificada e em expansão
Mesmo com apenas 1% da área agricultável do país, a agricultura paraense gerou R$ 35,9 bilhões em valor de produção em 2024, um crescimento médio de 8% ao ano desde 2000. Com isso, o estado saltou da 17ª para a 8ª posição no ranking nacional de valor da produção agrícola, aumentando sua participação de 2,4% para 4,6%.
Na lavoura permanente, o valor total chegou a R$ 20,6 bilhões em 2024, um aumento de 39,7% em relação ao ano anterior. Cinco culturas responderam por aproximadamente 95% do valor total: cacau (37,4%), açaí (36,1%), dendê (10,8%), pimenta-do-reino (6,1%) e banana (5,2%). Os destaques foram o salto do cacau, com crescimento de 259,3%, e da pimenta-do-reino, com 147,4% de aumento em valor.
Já a lavoura temporária somou R$ 15,3 bilhões, com leve retração de -2,9%. A soja liderou com R$ 7,2 bilhões (47,7%), seguida pela mandioca, com R$ 4,7 bilhões (30,3%). Houve queda expressiva no valor do milho, de -25,9%. A produção está concentrada: 10 municípios respondem por mais da metade do valor da lavoura temporária, com Paragominas na liderança, representando 11,9% do total.
Quatro municípios paraenses estão entre os dez maiores produtores de bovinos do Brasil: São Félix do Xingu, Marabá, Novo Repartimento e Altamira. São Félix do Xingu lidera o ranking nacional, com 2,5 milhões de cabeças (1,1% do rebanho brasileiro). Altamira e o próprio São Félix apresentaram crescimento em 2024, enquanto Marabá e Novo Repartimento registraram leve retração.
Ao todo, dez municípios concentram 41,1% do rebanho bovino estadual, com destaque para São Félix do Xingu (9,9%), Marabá (5,1%) e Novo Repartimento (4,9%). Outros municípios como Cumaru do Norte (2,9%), Santana do Araguaia (2,6%) e Altamira (1,3%) também apresentaram crescimento expressivo.
O conjunto dos demais municípios, que representam 58,9% do efetivo estadual, teve crescimento de 3,3%, desempenho superior ao dos municípios ranqueados e principal responsável pelo aumento total do rebanho paraense.
A evolução histórica do rebanho bovino em São Félix do Xingu revela um avanço notável a partir dos anos 2000, com um crescimento exponencial da atividade. O município ultrapassou Corumbá (MS) e se consolidou como o maior produtor de bovinos do país.
Criação animal
A diversidade da pecuária paraense também se reflete em outras criações. Em 2024:
São Félix do Xingu liderou o rebanho equino (29,5 mil cabeças) e ovino (18 mil cabeças);
Cametá se destacou na suinocultura, com 31,5 mil cabeças;
Chaves liderou na criação de caprinos, com 4,8 mil cabeças;
Santa Izabel do Pará concentrou a maior produção de galináceos, com 7,6 milhões de aves.
O boletim aponta que a agropecuária ocupa 18,4% do território paraense, majoritariamente com áreas de pastagens. Cerca de 70% dessas áreas foram desmatadas antes de 2008, o que reforça o papel da intensificação produtiva e da recuperação de áreas já abertas como estratégias para o desenvolvimento sustentável.
Em 2024, o Pará exportou 160,5 mil toneladas de carnes, um aumento de 51,1% em relação a 2023. O pescado também se manteve como item relevante da pauta exportadora, com o estado ampliando sua participação nas exportações brasileiras nos últimos anos.
Empregos no setor
No cenário nacional, o setor agropecuário manteve-se com mais de 8 milhões de trabalhadores. No Pará, o número de ocupados chegou a cerca de 500 mil pessoas em 2024, após pico superior a 700 mil em 2021. O estudo destaca que o emprego rural apresenta variações sazonais e conjunturais, afetadas por fatores econômicos, climáticos e mercadológicos.
Entre 2002 e 2022, o Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária no Produto Interno Bruto (PIB) do Pará apresentou crescimento expressivo, com aceleração a partir de 2019 e pico histórico em 2021. Esse desempenho superou a média nacional e reflete ganhos de produtividade, expansão das atividades e diversificação da base produtiva agropecuária no estado.
Boletim Agropecuário Paraense
Boletim Agropecuário está disponível no site da Fapespa. Foto: Divulgação
Produzido pela Diretoria de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas e Análise Conjuntural (Diepsac), o Boletim Agropecuário Paraense 2025 utiliza bases de dados oficiais como IBGE (PPM, PAM, PEVS), PNAD Contínua, RAIS, Banco Central, COMEX STAT, entre outras.
“O estudo mostra claramente o grande potencial do setor agropecuário do Pará, que vem avançando com base na ciência, tecnologia e inovação, promovendo aumento da produtividade, valorização dos produtos e sustentabilidade. Esse desempenho é resultado de um esforço coletivo e de políticas públicas estaduais, fomentadas pela Fapespa”, diz Marcel Botelho, presidente da Fapespa.
A última atualização do Boletim revela que o setor agropecuário tem desempenhado um papel estratégico na consolidação do desenvolvimento econômico do Pará, sendo um dos principais vetores de geração de renda, emprego e sustentabilidade regional. A diversidade de biomas, a vasta disponibilidade de recursos hídricos e a extensão territorial conferem ao estado condições favoráveis para a expansão de atividades como a pecuária, a agricultura familiar e o cultivo de grãos, além do fortalecimento de cadeias produtivas como as do cacau, açaí e dendê.
Disponibilizado para fins educativos, ambientais e científicos, material de coleção gratuito reúne informações sobre as espécies da bacia de Tapajós. Foto: Divulgação/Sapopema
Uma Coleção Educativa de Peixes do Tapajós foi oficialmente lançada no início de dezembro durante evento internacional promovido pela Aliança Águas Amazônicas, reunindo universidades, organizações comunitárias, representantes governamentais e instituições de conservação da Pan-Amazônia com tradução simultânea. O conjunto de seis produtos didático-pedagógicos foi desenvolvido a partir da coleção ictiológica da UFOPA e PPGSND, com o propósito de regionalizar o ensino de Ciências e fortalecer iniciativas de popularização da ciência em contextos ribeirinhos.
A mesa de abertura contou com a participação de Frank Ribeiro (UFOPA); Antônio José Bentes (SAPOPEMA); Gina Leite (AAA/WCS); Socorro Pena (Governo Brasileiro); Manoel Pinheiro (MOPEBAM); e Lucilene Amaral (The Nature Conservancy – TNC), reforçando a importância da iniciativa para a educação, a conservação e o protagonismo comunitário nos territórios do Tapajós.
Durante a abertura, o professor Frank Ribeiro contextualizou a dimensão científica e ictiológica do território, destacando que a estimativa é que o rio Tapajós possua cerca de 900 espécies de peixes, o que evidencia a relevância da bacia para a ictiofauna amazônica.
Ele também chamou atenção para a lacuna histórica de visibilidade do rio na produção científica mais difundida: “o rio Tapajós foi um rio muito negligenciado no contexto do conhecimento da sociedade oficial durante muito tempo”.
Coleção foi oficialmente lançada de forma virtual promovido pela Aliança Águas Amazônicas. Foto: Divuigação/Sapopema
Ao falar sobre a importância da coleção como estratégia de educação ambiental, ressaltou a conexão entre ciência e conhecimento local: “a população local conhece perfeitamente a fauna de peixes” e, ainda assim, “não se tem tipicamente registrado” esse saber em mecanismos formais de monitoramento, reforçando a necessidade de materiais que aproximem a escola e a pesquisa da realidade dos territórios.
Representando a Aliança Águas Amazônicas, Gina Leite enquadrou o lançamento como resultado de uma construção coletiva em rede e de longo prazo: “a Aliança de Águas Amazônicas conta com 203 organizações aliadas e seis países”, apontando Santarém como um polo de articulação e prática colaborativa. Segundo ela, a iniciativa apresentada no webinar é “um grande exemplo de como podemos operar” e de como “podemos potencializar ainda mais essa articulação” entre universidade, organizações e comunidades.
A professora Socorro Pena enfatizou o valor da proposta como devolutiva prática do conhecimento científico e como ferramenta aplicável à escola. Para ela, trata-se de “uma experiência de educação ambiental numa nova dinâmica”, capaz de articular “comunicação, novas tecnologias, ciência e educação” em um mesmo conjunto pedagógico. Socorro também ressaltou que o material ajuda a “trazer do laboratório da ciência” um conteúdo que, muitas vezes, permanece restrito.
Na mesma linha, Antônio José Bentes, da Sapopema, apontou o potencial do material para apoiar processos formativos e de mobilização social no longo prazo. Ele defendeu que é “fundamental fazer um trabalho profundo, sistemático, pedagógico, de envolvimento da juventude”, e avaliou que iniciativas como essa têm força para criar “novas energias, novas sinergias” nos territórios. Para Antônio, a coleção pode contribuir para uma “revolução pedagógica” voltada ao engajamento de jovens e adolescentes com temas ambientais e com a gestão dos bens comuns.
Coleção contribui para a prática do conhecimento científico e ferramenta aplicável à escola. Foto: Divulgação/Sapopema
Pela The Nature Conservancy, Lucilene Amaral destacou que a coleção contribui para aproximar resultados de pesquisa das comunidades: “como fazer que esses resultados cheguem realmente nas comunidades”, não apenas como devolutiva, mas como subsídio para discussões sobre “gestão dos recursos naturais, dos recursos aquáticos e dos recursos hídricos”. Ela avaliou que a iniciativa representa “um passo muito importante que a academia dá em termos de retorno para a comunidade”, com potencial de ser fortalecida por políticas públicas em parceria com escolas.
A pesquisadora e criadora da coleção, Samela Bonfim (UFOPA/Sapopema), apresentou os seis produtos: caderno de atividades multisséries, guia ilustrado, jogo da memória, livro para colorir, quebra-cabeça e mapa interativo, construídos ao longo de três anos de investigação, oficinas pedagógicas e diálogos com professores, pescadores, jovens e lideranças comunitárias.
Segundo Samela, a coleção representa a devolutiva da ciência para os territórios que inspiraram sua criação:
“Este trabalho nasce nas comunidades e volta para elas. Ele não seria possível sem a contribuição dos territórios, das escolas e dos parceiros que acreditam em uma educação que dialogue com a vida real. Tornar esse material acessível e gratuito é uma forma de retribuir e fortalecer quem vive e ensina na Amazônia”.
Acesso à coleção
A coleção está disponível no site da Sapopema e também na plataforma da Alianza Águas Amazônicas. Para acessar, é necessário preencher o formulário online. Após responder às perguntas que servem para fins de registro, acompanhamento da pesquisa e garantia de uso adequado, o usuário recebe automaticamente o link para download completo do material.
O processo de acesso controlado garante que a coleção seja utilizada exclusivamente para fins educativos, comunitários, ambientais, pedagógicos e científicos, conforme previsto na pesquisa e nos termos de uso.
Todos os produtos podem ser impressos gratuitamente pelos usuários, seguindo as recomendações descritas nos arquivos:
Materiais como jogo da memória, cartas, fichas e peças didáticas devem ser impressos em papel de maior gramatura para garantir durabilidade;
Livros, guias e cadernos podem ser impressos em formato A4 ou A3, conforme o tipo de uso pedagógico;
A comercialização dos arquivos não é permitida;
A manutenção da identidade visual e dos créditos institucionais são orientados nos termos de uso.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Sapopema
O violonista Sebastião Tapajós lançou mais de 50 discos. Foto: Reprodução/Instagram – Sebastião Tapajós
A obra musical do violonista paraense Sebastião Tapajós agora é oficialmente reconhecida como manifestação da cultura nacional. A Lei 15.319, de 2025, foi publicada nesta segunda-feira (29) no Diário Oficial da União, após sanção da Presidência da República no dia 26 de dezembro.
O músico lançou mais de 50 discos e se consagrou principalmente na Europa, onde revelou ao público internacional ritmos musicais do carimbó e do lundu — manifestações culturais indígena e afro-brasileira, respectivamente —, além do baião.
A informação é do senador Humberto Costa (PT-PE), relator do Projeto de Lei (PL) 2.577/2022 no Senado, que deu origem à lei.
A proposta, da Câmara dos Deputados, foi aprovada em votação final na Comissão de Educação (CE) do Senado em novembro.
Sebastião Tapajós teve uma carreira que durou décadas e que transitou entre a música erudita e a popular, segundo Humberto. O senador também aponta que o artista foi um educador da cultura, na medida em que participou de projetos sociais voltados à formação de jovens músicos na Amazônia.
“[O texto] não apenas honra um mestre do violão, mas também reafirma o valor da arte como instrumento de desenvolvimento humano. Trata-se de reconhecer que, em cada acorde de Tapajós, ecoa a força criadora da Amazônia”, defende Humberto no relatório.
Foto: Paulo Henrique Lima, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
Desde 1975, o Rio Acre não transbordava no mês de dezembro na capital acreana. A informação foi confirmada ao Grupo Rede Amazônica pelo coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão. O levantamento, mais detalhado foi informado na manhã desta segunda-feira (29).
Apesar de chover apenas 7 mm nas últimas 24 horas em Rio Branco, o rio continua subindo e, neste domingo (28), chegou aos 14,94 metros na medição das 9h.
Ainda conforme a Defesa Civil, 15 bairros já foram afetados e cerca de 300 residências ficaram alagadas. O número de atingidos de alguma forma pelas águas aumentou para cerca de 2 mil pessoas.
Falcão detalhou neste domingo que237 famílias precisaram ser retiradas de suas casas com a ajuda da Defesa Civil, sendo 34 levadas para abrigos e 39 para casa de parentes e amigos.
As fortes chuvas que atingiram a capital acreana entre a última quinta-feira (25) e sexta-feira (26) causaram estragos em diferentes regiões e continuam repercutindo na vida de quem mora próximo ao rio e igarapés.
Ainda segundo o órgão, o prejuízo para essas pessoas foi em decorrência da enxurrada, uma vez que o manancial que corta a cidade transbordou no início deste sábado (27). “Já estamos montando um abrigo no Parque de Exposições para atender novas ocorrências”, explicou Falcão.
De acordo com a Prefeitura de Rio Branco três escolas foram abertas como abrigos:
Escola Álvaro Rocha – Bairro: Conquista
Escola Anice Jatene – Bairro Geraldo Fleming
Escola Maria Lúcia – Bairro Morada do Sol
As chuvas, que somaram 171 milímetros de sexta para sábado, provocaram o transbordamento de igarapés, alagamentos em bairros da parte alta e baixa da cidade e outros danos à infraestrutura urbana. Também foram observados o rompimento de vias públicas, isolamento de ruas e deslizamentos de terra.
A cota alerta máximo é fixada em 14 metros. Isto significa que a partir desta marca, o manancial pode começar a inundar os bairros próximos às margens. Este é o segundo registro de transbordo em menos de um ano, uma vez que o rio também ultrapassou a marca em março.
Enchente do Rio Acre em dezembro de 2025, na capital Rio Branco (AC). Foto: Walcimar Júnior/Arquivo pessoal
Consequências das chuvas e do transbordamento do Rio Acre
Até este sábado, os estragos das chuvas foram registrados em diferentes regiões de Rio Branco. No Portal da Amazônia, na Rua Rio Negro, um buraco se abriu no asfalto após um bueiro não suportar o grande volume de água, o que provocou a interdição do trecho. O local fica sobre um córrego, extensão do Igarapé Batista, e moradores improvisaram a sinalização para evitar acidentes.
No Bairro Conquista, as chuvas causaram um desbarrancamento que resultou na queda de um poste, agravada pela cheia do Igarapé São Francisco. Já nos bairros da Paz, Parque das Palmeiras e Belo Jardim II, o transbordamento do Igarapé Batista provocou alagamentos em quintais de moradores.
Também houve registros de alagamento na entrada do Bairro Ouricuri, pela Estrada Jarbas Passarinho, com forte correnteza e presença de balseiros, além de danos no Bairro Aeroporto Velho, onde o muro de uma residência caiu.
No Bairro Preventório, o Corpo de Bombeiros constatou uma movimentação de massa após acionamento para um possível desabamento.
*Por Hellen Monteiro e Quésia Melo, da Rede Amazônica AC
Forte São Joaquim do Rio Branco vista de cima. Foto: Divulgação
Construções que chamam atenção na Amazônia são os Fortes. Locais que antes eram usados por exploradores, exército, etc, hoje são espaços históricos e culturais. Um deles, é o Forte São Joaquim do Rio Branco, construído na margem esquerda da junção do rio Uraricoera com o rio Tacutu, onde se forma o rio Branco, a cerca de 32 quilômetros ao norte da atual capital de Roraima, Boa Vista.
Ele foi construído em 1775 para defender a área portuguesa na região da Amazônia contra os espanhóis e holandeses que buscavam invadir o vale do rio Branco devido às especiarias e a mão-de-obra escrava dos povos indígenas.
No século XVII, a Coroa Portuguesa se instalava na Amazônia e, com isso, foi necessário criar estratégias que protegessem e garantissem a posse da área ocupada. Os inimigos diretos da corte, Espanha e Holanda, pensavam em maneiras de invadir o vale do rio Branco, onde os portugueses estavam se instalando.
A Amazônia era vista com destaque para os países que buscavam colonizar, principalmente na região perto do rio roraimense, devido aos seus recursos naturais, com o fornecimento de itens como madeiras, resinas, baunilha, salsaparrilha e, de forma significativa, de cacau. Até mesmo a mão-de-obra escrava dos povos indígenas era um ponto que instigava os exploradores da Amazônia.
Segundo o cronista Ribeiro de Sampaio, em “Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguesa” de 1777, o conhecimento desse rio data da expedição exploratória realizada por Pedro Teixeira ao rio Negro em 1639 e que, nesse mesmo ano, já sabiam que através do Branco teriam a chance de acessar as colônias holandesas. O descobrimento dessa área se processou inteiramente em 1670-71, ao mesmo tempo em que empreendiam o reconhecimento do rio Negro.
De todas as presenças preocupantes, a da Espanha causava mais alarde no território português, pois se tratava de uma expedição com a finalidade de ocupação territorial. De acordo com o cronista Ribeiro, os espanhóis justificaram sua presença na região a partir do mito do El Dourado, que imaginaram que iam encontrar uma terra cheia de tesouros e ouro.
Planta do Forte São Joaquim. Foto: Reprodução/Universidade Federal de Roraima
A presença espanhola no vale do Rio Branco fez com que Portugal criasse estratégias de proteção territorial. Uma dessas estratégias é a construção do Forte São Joaquim a partir de 1775 e que havia sido estipulada 23 anos antes.
Com isso, foi nomeado o capitão e engenheiro Felippe Frederico Sturm, que comandou a expedição que, no dia 3 de outubro de 1775, sai de Barcelos, capital do Rio Negro, para expulsar os espanhóis do rio Branco, os quais não ofereceram muita resistência, de acordo com Sampaio.
Segundo o artigo ‘Forte São Joaquim: Patrimônio Cultural do Brasil, de Paulina Onofre Ramalho e Carla Onofre Carvalho’, a construção do forte foi rápida. Foram utilizadas pedras avermelhadas e barro da região, com acabamento de cal e areia.
O forte se apresentava da seguinte forma por dentro: à direita da entrada localizava-se o quartel do comandante, composto de dois camarins, a capela à esquerda e o quartel da guarnição ao fundo do forte. Ao longo da capela encontrava-se disposta a cozinha particular do comandante. Duas outras casas serviam como depósito para munições de armas e de boca, além de um calabouço e da cozinha. A casa de pólvora encostava-se na muralha do lado leste.
O Forte São Joaquim do Rio Branco atualmente
O Forte de São Joaquim do Rio Branco tornou-se um patrimônio histórico e cultural do estado de Roraima, no que diz o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) cabe mencionar que o forte é tombado pelo governo do estado de Roraima desde 22 de abril de 2001, através do Decreto nº 4.241, como um sítio histórico, arqueológico e arquitetônico, cuja área perfaz um total de 25.738,47m².
Espécie não é venenosa e não oferece risco grave aos humanos. Foto: Danilo Degra/Acervo pessoal
Uma criatura que mais parece saída de uma lenda chamou a atenção em uma chácara de Cacoal (RO) nesta semana. Conhecida popularmente como “cobra-cega” ou “cobra-de-duas-cabeças”, a anfisbena foi encontrada pelo biólogo Danilo Degra. Apesar da aparência, o animal não é de fato uma cobra: trata-se de um réptil diferente, inofensivo e pouco conhecido pela maioria das pessoas.
Foto: Danilo Degra/Acervo pessoal
Segundo o biólogo, as anfisbenas são comuns na Amazônia, no Cerrado e em outras regiões do Brasil, mas raramente são vistas. Isso acontece porque passam praticamente toda a vida enterradas no solo. Embora se pareça com uma cobra, o animal é, na verdade, mais próxima do lagarto.
“Ela pertence a um grupo dos répteis e está mais próxima evolutivamente dos lagartos, embora não possua patas”, explicou o biólogo.
Outra curiosidade é que apesar de ser conhecida como “cobra-de-duas-cabeças”, a anfisbena só tem uma.
“A confusão ocorre porque a cauda é arredondada e muito parecida com a cabeça, o que funciona como estratégia de defesa contra predadores”, disse o biólogo.
Além disso, por causa do formato do corpo e da musculatura diferenciada, a anfisbena consegue se locomover tanto para frente quanto para trás com facilidade. Esse movimento incomum reforça ainda mais a impressão de que o animal teria “duas cabeças”.
A anfisbena mede, em média, entre 20 e 40 centímetros, mas algumas espécies podem chegar a 50 ou até 60 centímetros de comprimento. Ela possui pele lisa e bastante resistente, uma adaptação essencial para a vida subterrânea.
Apesar da aparência peculiar, a espécie não é venenosa e não oferece risco grave aos humanos. Segundo o biólogo, a mordida é rara e só acontece quando o animal é manipulado. Caso isso ocorra, a orientação é simples:
Lavar o local com água e sabão
Fazer a antissepsia
Observar a região, normalmente não há complicações
Procurar atendimento médico apenas se surgirem sinais de infecção
De acordo com Degra, a anfisbena tem um papel fundamental no equilíbrio do solo, ajudando no controle de insetos e na aeração da terra. Por isso, o biólogo alerta para a importância de não matar o animal caso ele seja encontrado em quintais ou áreas rurais.
“Ela não deve ser morta, e o ideal é deixá-la seguir seu caminho ou realocá-la com cuidado para uma área de solo natural”, disse.
*Por Amanda Oliveira e Luciana Kuster, da Rede Amazônica RO