O Amazonas registrou uma redução de 86,31% dos focos de calor em setembro, comparado com o mesmo período de 2024. Com menos de mil focos, o estado registrou o menor número de notificações em 23 anos. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), monitorados pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Em setembro de 2025, foram identificados 942 focos de calor no Amazonas, contra 6.879 focos notificados no mesmo período de 2024. Este foi o menor número de focos de calor registrados em setembro desde 2002, quando iniciou-se o monitoramento com o atual satélite de referência do Inpe, sendo a primeira vez que o total mensal fica abaixo de mil registros.
“Em 23 anos de monitoramento, é a primeira vez que alcançamos esse resultado, que é fruto da intensificação das ações de fiscalização e da presença constante das equipes do Governo do Amazonas em campo, somados ao impacto das chuvas, que também tiveram um papel relevante nas áreas que historicamente mais queimam”, disse o secretário de Estado do Meio Ambiente, Eduardo Taveira.
Com o resultado, o Amazonas ficou em 5º lugar no ranking de focos de calor, entre os estados da Amazônia Legal. Do total de registros, as áreas de gestão direta do Estado acumularam 144 focos – 15,27% do total. Os demais ocorreram em áreas federais e vazios cartográficos.
“O Governo do Amazonas vem atuando de forma firme, com planejamento e presença efetiva. O Ipaam intensificou a fiscalização e o monitoramento das áreas críticas, em parceria com a Sema. E o combate direto às queimadas está sob a responsabilidade do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, que atua com apoio da Defesa Civil e das prefeituras. Esse é um esforço conjunto e contínuo para proteger nossas florestas, nossa biodiversidade e a vida da população”, afirmou o diretor-presidente do Ipaam, Gustavo Picanço.
Análise anual
Conforme dados analisados pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente, a redução também foi significativa no acumulado do ano. De 1º de janeiro a 30 de setembro de 2025 foram identificados 3.282 focos de calor no Amazonas – 18.832 a menos que no mesmo período em 2024, quando 22.114 focos foram registrados.
No ranking geral anual, o estado também ficou na 5ª posição, em comparação com os demais estados da Amazônia Legal. Do total de focos para o período, apenas 13,34% ocorreram em áreas estaduais, como glebas e Unidades de Conservação (438 focos).
A Comissão de Agricultura (CRA) do Senado aprovou, nesta quarta-feira (1º), o reconhecimento da castanha-do-pará como manifestação da cultura nacional. A proposta, do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), recebeu parecer favorável do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que foi lido pelo senador Jaime Bagattoli (PL-RO). Agora o texto segue para decisão final na Comissão de Educação e Cultura (CE).
O PL 2.093/2025 a reconhece, bem como os saberes, práticas e tradições associados à sua coleta e uso, como patrimônio cultural imaterial do Brasil.
O projeto destaca seu papel cultural, social, econômico e ecológico para os povos da Amazônia, e também determina que o poder público adote medidas para sua preservação.
Para Mourão, a proposta “reconhece e valoriza o papel dos povos da Amazônia na conservação da floresta e na manutenção da sociobiodiversidade. Além disso, proporciona segurança jurídica às comunidades extrativistas e à cadeia da castanha-do-pará, reforçando seu valor econômico e cultural”.
O texto original a reconhecia como patrimônio cultural brasileiro. Contudo, o relator propôs emenda recomendando qualificá-la como manifestação da cultura nacional. Conforme salientou, a competência para o reconhecimento de bens como patrimônio cultural é atribuída ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Bagattoli acrescentou que a cultura tem grande expressão em Rondônia e cumprimentou a Embrapa pelas experiências de reflorestamento usando a espécie.
“Esse fruto da castanha, além de tudo, gera emprego e renda porque ele vem com a industrialização. (…) Ela tem que ser, realmente, considerada nacional”.
Cuidadores de animais aguardam funcionamento de hospital veterinário do Amazonas. Foto:
O primeiro Hospital Veterinário Público do Amazonas será inaugurado no dia 4 de outubro em Manaus, data em que se celebra o Dia Mundial dos Animais. O investimento total do espaço foi de R$ 3,7 milhões e agora passa pelos últimos ajustes de adaptação, instalação de equipamentos e identidade visual.
O anúncio ocorreu após vistoria do governador Wilson Lima na terça-feira (30), na reta final das obras do Hospital. O local inclui serviços de consultas de urgência e emergência, consultas especializadas em cardiologia, oftalmologia, ortopedia e oncologia, além de cirurgias diversas, anestesia, diagnóstico por imagem (raio-X, ultrassom e eletrocardiografia) e exames laboratoriais.
O governador do Amazonas reforçou, ainda, que a iniciativa contribui para a inclusão social e também reflete na saúde das pessoas, ao oferecer mais condições de cuidado com os pets.
“Esse é o primeiro hospital veterinário público do estado, com o objetivo de atender aquelas famílias que não têm condições de levar o seu pet para uma clínica particular. Essa é uma estrutura de ponta, construída do zero, com consultórios, centro cirúrgico, baias e toda a infraestrutura necessária para dar bem-estar e conforto aos animais. Isso é um marco para o bem-estar animal e também para a saúde das pessoas”, afirmou Wilson Lima.
Hospital em Manaus será entregue no Dia Mundial dos Animais, 4 de outubro. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM
O novo hospital, localizado na Avenida Mário Ypiranga, bairro Parque 10, zona Centro-Sul de Manaus, dispõe de nove consultórios, centro cirúrgico completo, sala de raio-X, sala de ultrassom, internação com mais de 100 baias, espaço específico para animais com doenças infectocontagiosas e necrotério.
Já o segundo andar inclui enfermaria, salas administrativas, auditório para mais de 50 pessoas e áreas de descanso para veterinários plantonistas.
A unidade vai contar com 66 profissionais, entre médicos veterinários, técnicos e equipe de apoio, além de funcionar como polo de formação, estágio e residência em Medicina Veterinária.
Os atendimentos serão realizados de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h às 12h. Diariamente, serão distribuídas 300 senhas para serviços como consultas, vacinação, castração e exames.
A unidade de saúde oferecerá os seguintes serviços:
Consultas em clínica geral, ortopedia, cardiologia e oftalmologia
Exames laboratoriais (hemograma, testes rápidos para cinomose, parvovirose, FIV e FeLV)
Diagnósticos por imagem (raio-X, ultrassonografia e eletrocardiograma)
Espécies de ipês. Foto: Reprodução/Prefeitura de Palmas, Prefeitura de Boa Vista e Lud Araújo
De julho a setembro, as paisagens amazônicas ganham tons vibrantes de roxo, amarelo, rosa e branco. Nesse período, os ipês florescem e transformam ruas, praças, margens de rios e áreas de floresta em belezas naturais, além de desempenharem um papel fundamental na manutenção da biodiversidade.
Embora a floração do Ipês seja rápida, durando em média 15 dias, ela atrai polinizadores e contribui para a regeneração natural das matas. A doutora em ciências agrárias Joze Melisa, explica no quadro ‘Bora entender?’ do canal do Youtube da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que os ipês são árvores nativas do Brasil, presentes em três grandes biomas: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.
“Temos características especiais, principalmente para os ipês do Cerrado, que tem um porte menor, a copa menos densa e também tem as folhas com uma certa presença de pelos, que a gente chama de pilosa”, pontuou a professora.
Conhecido por suas flores vibrantes, que podem ser amarelas, roxas, rosas ou brancas, o ipê é considerado a flor nacional do Brasil e, embora pertença à família Bignoniaceae, o ipê engloba espécies agrupadas principalmente dos gêneros Handroanthus e Tabebuia. Seu nome tem origem no tupi e significa ‘árvore cascuda’, fazendo referência à textura do tronco.
Espécies encontradas na Amazônia
Foto: rick3439 por biodiversity
Na região Amazônica, a espécie mais comum é a Tabebuia aurea, que pode alcançar de 12 a 20 metros de altura, e floresce entre os meses de julho e setembro, quando há menor incidência de chuvas. No entanto, as variações climáticas influenciam na floração, já que quando o período seco chega mais cedo, as flores desabrocham antes, e se as chuvas duram muito, a flora se atrasa.
A floração não acontece de forma simultânea entre as espécies. Segundo a professora, o ipê-roxo é o primeiro a florescer, seguido do amarelo, do rosa e, por último, do branco.
Após os 15 dias da floração, as árvores perdem as folhas, entrando em um período de frutificação. Cada espécie apresenta diferenças marcantes, como o ipê-roxo que costuma ter flores de tons mais escuros e intensos, enquanto o ipê-rosa exibe flores delicadas e claras.
Essa perda de folhas em pleno auge do calor, no fim do período seco, é um desafio para a arborização urbana.
“O ipê ajuda na qualidade ambiental porque melhora a biodiversidade do local, porém ele não traz tanto conforto térmico, porque ele perde as folhas na época mais quente do ano, que é setembro. Então, para a arborização urbana, a gente não recomenda plantar uma via somente com ipês, e a gente compensa essa falta de conforto térmico que o ipê não tem com árvores que tenham a copa mais densa”, explicou a professora.
De acordo com Melisa, o florescimento dos ipês é muito importante e benéfico para o ecossistema local porque atrai polinizadores, como as abelhas, os beija-flores e também as borboletas. Além disso, as árvores também servem de abrigo e alimento para a fauna.
O ipê é considerado uma espécie de fácil reprodução, já que suas sementes, chamadas de ‘aladas’, possuem uma estrutura membranosa que lhes permite serem carregadas pelo vento a longas distâncias. Esse mecanismo evita a competição entre as árvores da mesma espécie, garantindo uma maior dispersão.
Essa estratégia é parte de uma ‘sabedoria natural’ que favorece a propagação e a sobrevivência da espécie. Durante o período chuvoso, a planta concentra energia no crescimento e manutenção do tronco e das raízes, aguardando o próximo ciclo de reprodução.
Assista:
O ipê na gastronomia
Foto: Jhon Pacheco
Além de ser um ótimo elemento paisagístico e ecológico, os ipês, especialmente os de flores amarelas, fazem parte do grupo das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), que reúne espécies com potencial culinário pouco explorado
As flores amarelas do ipê podem ser utilizadas cruas, cozidas, refogadas, salteadas ou empanadas, e combinadas com legumes, como batata e abóbora. No entanto, o uso culinário ainda é restrito e carece de estudos, por isso especialistas recomendam colher as flores diretamente das árvores ou aproveitar recém-caídas em locais limpos.
Importância ecológica e conservação
Na Amazônia, a florada dos ipês simboliza a transição para a estação seca, e com a crescente urbanização e mudanças climáticas, a preservação dos ipês e de outras árvores nativas se torna muito importante, já que essas espécies não apenas embelezam a paisagem, como também desempenham funções ecológicas.
Equipes do Prev atuam em várias cidades do Amapá. Foto: Divulgação/Ibama
O número de incêndios florestais no Amapá cresceu 161% em uma semana, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O aumento foi registrado entre os dias 15 e 28 de setembro e está ligado à estiagem. O Estado está em alerta amarelo.
Mesmo com o crescimento recente, o Amapá teve uma redução de 52% nos focos de incêndio em 2025, comparado a 2024. O resultado é atribuído à Operação Amapá Verde, que reforçou ações de prevenção e combate.
Segundo Bernardino Nogueira, superintendente do Ibama, Macapá entrou no radar dos alertas nesta última semana, junto com Tartarugalzinho.
“Todos os anos há incêndios em áreas como Tartarugalzinho, Amapá e Calçoene. Mas nesta semana, Macapá também registrou muitos focos”, afirmou Nogueira.
Equipes do Prevfogo e do Corpo de Bombeiros atuam juntas em áreas vulneráveis de Macapá, Tartarugalzinho, Amapá, Calçoene, Serra do Navio e Mazagão. Os bombeiros combatem o fogo nas cidades e rodovias. O Prevfogo atua nas zonas rurais e em áreas de floresta.
Neste ano, o Ibama capacitou também agentes da Defesa Civil de Mazagão. Eles reforçam a base do Prevfogo na região metropolitana.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu alerta amarelo para risco de queimadas em várias regiões do país. O aviso ajuda no planejamento das equipes de combate.
“O alerta mostra que precisamos ficar atentos. O aumento foi grande de uma semana para outra. Com isso, conseguimos nos organizar melhor e unir forças para combater os incêndios”, disse Bernardino.
A baixa umidade e a vegetação seca elevam o risco de fogo em regiões como Oiapoque, Serra do Navio e Tartarugalzinho.
⚠️ Recomendações:
Não faça queimadas, mesmo em áreas pequenas
Evite jogar bitucas em locais com vegetação
Beba água e proteja-se do sol
Ações de combate as queimadas no Amapá. Foto: Divulgação/Ibama
Operação Amapá Verde
A Operação Amapá Verde começou com 8 bases e foi ampliada para 13 desde 21 de setembro. Novas unidades foram abertas em Vitória do Jari, Serra do Navio, Porto Grande, Oiapoque e Calçoene.
O número de militares subiu de 40 para cerca de 70, com viaturas preparadas para combater incêndios florestais. Cada base tem cinco bombeiros e equipamentos próprios para atuação em campo. A força-tarefa já fez mais de 70 ações de combate direto ao fogo. Tartarugalzinho é o município mais afetado.
Não são apenas as árvores que mantêm a Amazônia de pé. A floresta e seus rios são o lar de povos cuja existência se entrelaça com a natureza, em um modo de vida que defende o coletivo acima do individual. Para esses povos, a terra não é apenas um pedaço de solo a ser explorado, mas um território que abriga a vida em sua plenitude.
Andirobeiros, extrativistas e caboclos compartilham uma visão de mundo onde o conhecimento ancestral e a sabedoria da oralidade são o alicerce de sua cultura. Para apresentar a luta e vida desses povos, o Ministério Público Federal (MPF) tem produzido e divulgado ao longo do ano uma série de matérias especiais sobre as comunidades tradicionais brasileiras. Em setembro falaremos dos povos da Amazônia.
As andirobeiras e o óleo que salva vidas
Foto: Sheila Bernardes/Arquivo Pessoal
Andirobeiras. Assim se autodefinem as mulheres cujo trabalho de coleta e beneficiamento da andiroba (de origem tupi, “óleo amargo”) é o cerne das tradições comunitárias. É nas mãos dessas mulheres, com um conhecimento transmitido de geração em geração, que o fruto da andiroba se transforma em um óleo com múltiplas aplicações: repelente, combustível para lamparinas e fins medicinais, especialmente contra a artrite e infecções de garganta.
No Baixo Tapajós, no oeste do Pará, a voz de Sheila Cristina Bernardes dos Santos, filha e neta de andirobeiros, ecoa com a sabedoria ancestral. Ela é guardiã de um conhecimento milenar, um saber que não está nos livros, mas nas mãos e na memória de sua comunidade.
O aproveitamento da Carapa guianensis, nome científico da árvore, que é da mesma família do mogno, é um trabalho artesanal transmitido entre gerações, com forte protagonismo e liderança feminina. A extração do óleo de andiroba é um ritual demorado e minucioso, que Sheila aprendeu com sua avó.
Aos 51 anos, a moradora da comunidade de Alter do Chão é coordenadora do Instituto EcoVida Pará e trabalha com outras comunidades tradicionais de andirobeiras, como a comunidade da Ilha do Macaco, localizada em Ponta de Pedra.
“Meu objetivo é garantir os costumes tradicionais na extração do óleo de andiroba”, afirma.
O processo começa com a colheita dos frutos que caem no chão.Eles são cozidos em grandes tachos e, após um tempo de descanso, as sementes são socadas para extrair a pasta. O óleo, então, é coado por fios de algodão em um cocho inclinado. “Minha avó fazia uns fios de algodão que o óleo, quando ia saindo, ia escorrendo, e deixava uma cuia embaixo para esperar essa andiroba”, recorda, com um sorriso na voz.
Para os andirobeiros, o óleo é um verdadeiro tesouro medicinal. “Ele é cicatrizante, anti-inflamatório, e é altamente produtivo para a questão da saúde”, diz Sheila. Durante a pandemia de covid-19, o óleo foi essencial para salvar vidas em sua comunidade. A polpa que sobra da extração também é aproveitada para fazer repelente natural e velas, mostrando que, para essas comunidades, a natureza é uma fonte de vida completa, onde nada se perde.
Apesar de sua importância cultural e medicinal, os andirobeiros enfrentam sérias dificuldades. A falta de valorização do seu trabalho, a ausência de políticas públicas eficazes e a exploração por grandes empresas que lucram com o óleo sem beneficiar a comunidade local são alguns dos desafios. O clima também se tornou um inimigo, afetando a época de frutificação da andiroba e tornando a colheita cada vez mais escassa.
“A questão climática, ela não é nem que seja emergencial, ela existe, ela é agora”, alerta Sheila.
Historicamente, o termo “caboclo” designa a mistura de brancos e indígenas, frequentemente englobando também a miscigenação com negros. Ser caboclo significa reconhecer uma origem indígena e um modo de ser, estar e interagir com o mundo em profunda harmonia com a natureza. Distribuídos principalmente na Amazônia, são pequenos produtores familiares que vivem em coletividades, dedicando-se à pluriatividade rural — pesca, extrativismo e agricultura — em um ciclo de domínio dos conhecimentos tradicionais.
Joaquim Belo, caboclo nascido e criado em um assentamento extrativista no Amapá, conta a sua história com a convicção de quem vive e respira a luta pela Amazônia.
“A minha identidade é uma mistura muito forte da população negra, e do outro lado também tem o sangue indígena”, compartilha.
Para Joaquim, sua trajetória é inseparável da história de resistência de seu povo. Em 1993, ele entrou para a “Escola da Luta”, o Conselho Nacional dos Seringueiros, fundado nos anos 80 por Chico Mendes. Esse movimento foi pioneiro na defesa de um novo modo de vida na Amazônia, uma visão que se opunha à ideia de que a terra é apenas um bem a ser apropriado e especulado. A luta, segundo ele, não era por um pedaço de terra individual, mas por um espaço territorial que coubesse o modo de vida coletivo de comunidades extrativistas e ribeirinhas.
Para as comunidades tradicionais, a floresta não é apenas um lugar, é um ser vivo que forma as pessoas e a sua cultura. A economia local gira em torno dos produtos da sociobiodiversidade, como o açaí, o peixe, o camarão, a castanha e o mel de abelha nativa. “A maior ameaça para uma comunidade tradicional é a destruição da natureza”, conta Joaquim.
A vida dessas comunidades, que se dedicam à preservação da floresta e à produção sustentável, está sob constante ameaça. Além da luta histórica contra a grilagem de terras, o avanço do agronegócio e a falta de apoio governamental, a mudança climática, assim como para os andirobeiros, é um inimigo que tem impactado diretamente a sobrevivência do povo extrativista. A principal mensagem que Joaquim deixa é sobre a urgente necessidade de reconectar o mundo urbano com a vida rural.
Extrativistas: a fábrica do manguezal e a tríade da maré
A extração, conhecida como a atividade humana mais antiga, baseia-se na coleta de produtos naturais. No contexto da Amazônia, é exercida por povos que mantêm seus modos de vida em sintonia com o ecossistema, desenvolvendo tecnologias simples e de baixo impacto. Também chamados de “povos da floresta”, se organizaram como movimento social em torno do extrativismo de seringa e hoje possuem o Conselho Nacional dos Extrativistas (CNS).
Diretamente do litoral do Pará, Célia Nunes, uma extrativista costeira e marinha, compartilha a profunda conexão de sua comunidade com o mar e o manguezal, ecossistemas que ela chama de “fábrica”. Sua história se entrelaça com a tradição de um povo que vive em um dos maiores cinturões contínuos de manguezais da Amazônia.
O modo de vida extrativista de sua comunidade é ancestral, e o trabalho é sinalizado pelo tempo da maré. A vazante marca o início da jornada de trabalho, enquanto a preamar, a maré cheia, indica o momento de descanso.
“A vazante da maré, que é a sineta que diz, olha, começou o trabalho, e a maré, cada dia ela muda o seu horário”, conta.
A pesca é o coração do sustento de sua comunidade, e a modalidade mais forte é a pesca de curral. Célia descreve a armadilha de forma poética: uma cerca feita de bambu e madeira, trançada com paciência, que forma um grande coração. A maré cheia guia os cardumes para dentro do curral, e a maré baixa permite que os pescadores coletem os peixes.
Além da pesca, a comunidade se dedica à mariscagem e ao manejo dos frutos da mata de transição. Célia compartilha um segredo de sua comunidade sobre o manejo da matéria-prima: “a madeira para o curral, se cortada com facão, brota novamente, mas se cortada com motosserra, queima e morre para sempre”.
Célia relata que os extrativistas costeiros e marinhos enfrentam ameaças graves, como a exploração de petróleo e gás na foz do rio Amazonas. Para ela, é preciso que a sociedade entenda que o modo de vida tradicional é a base de um “bem viver” que deve ser respeitado. Apesar das dificuldades, Célia se orgulha da nova geração de sua comunidade que está acessando as universidades e se tornando médicos, engenheiros e fisioterapeutas, uma “melhor safra” para levar adiante a luta de seu povo.
A força da lei: como o MPF defende os povos tradicionais?
Além da resistência diária e da sabedoria ancestral, os Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) contam com um importante aliado institucional: o Ministério Público Federal.
O trabalho de proteção é centralizado na Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais (6CCR). Seu objetivo é garantir que a pluralidade étnica e cultural do Brasil, prevista na Constituição, seja respeitada e promovida para grupos como andirobeiros, caboclos e extrativistas.
A atuação do MPF se concentra em áreas vitais, buscando assegurar a demarcação, titulação e posse das terras tradicionalmente ocupadas, além de garantir a saúde, a educação, o registro civil e a autossustentação dessas comunidades. O órgão se orienta por estudos antropológicos e pela regra constitucional da pluralidade de culturas.
Para isso, o MPF utiliza um conjunto de ferramentas jurídicas e extrajudiciais, como as ações judiciais, termos de ajustamento de conduta e recomendações, além do diálogo e da escuta.
O Ministério Público Federal tem reforçado a importância de garantir a escuta efetiva dos povos indígenas e tribais em decisões que impactam diretamente seus modos de vida, territórios e culturas. Essa defesa se fundamenta na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura o direito à consulta livre, prévia e informada, sempre que medidas legislativas ou administrativas possam afetar essas comunidades.
Segundo o MPF, ouvir as populações tradicionais não é apenas um gesto de inclusão, mas uma obrigação jurídica que garante a participação real desses povos na formulação de políticas públicas e na condução de projetos que incidem sobre seus direitos fundamentais.
Nesse sentido, a atuação do órgão busca coibir práticas de imposição de decisões sem diálogo, que historicamente têm levado à violação de direitos e ao agravamento de conflitos. Ao exigir o cumprimento da Convenção 169, o MPF sustenta que a consulta deve ser realizada de forma transparente, em linguagem acessível e respeitando os protocolos próprios de cada povo, de modo que a manifestação das comunidades seja efetivamente considerada nos processos decisórios.
O MPF também investe em projetos inovadores para dar visibilidade e fortalecer as comunidades. É o caso da Catrapovos Brasil, que visa transformar a alimentação nas escolas indígenas, ribeirinhas e quilombolas, oferecendo alimentos tradicionais produzidos pelas próprias comunidades. Outra iniciativa é a Plataforma de Territórios Tradicionais, que reúne informações sobre territórios autodeclarados para identificar necessidades e aumentar sua visibilidade na agenda pública.
Um dos principais expoentes em defesa da floresta foi Francisco Alves Mendes Filho, um seringueiro, sindicalista e ativista ambiental brasileiro, conhecido mundialmente por sua luta em defesa da Amazônia e dos direitos dos povos da floresta. Nascido em 1944 no Acre, Chico Mendes dedicou sua vida à preservação da floresta e à melhoria das condições de vida dos seringueiros.
Ele foi um dos fundadores do Conselho Nacional dos Seringueiros e promoveu a criação das Reservas Extrativistas (Resex), áreas protegidas onde as comunidades locais podem viver e trabalhar de forma sustentável. Sua atuação e seu legado chamaram a atenção internacional, mas também o colocaram sob ameaças. Em 1988, Chico Mendes foi assassinado.
O impacto da sua luta continua reverberando. O Brasil o incluiu na Lista de Heróis da Pátria Brasileira (Lei 10.952 de 2004) e o declarou Patrono do Meio Ambiente Brasileiro (Lei 12.892 de 2013). O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) busca manter seu legado vivo desde 2007.
“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade”. – Chico Mendes, Herói da Pátria e Patrono Nacional do Meio Ambiente
O legado das reservas extrativistas (Resex)
As Reservas Extrativistas (Resex) são um dos grandes legados de Chico Mendes e dos povos da floresta para o Brasil e para o mundo. O modelo foi inspirado nas reservas indígenas, onde as terras são da União e o usufruto é das comunidades. A proposta foi apresentada por Chico Mendes como uma espécie de reforma agrária para a Amazônia em 1985.
Alter do Chão. Foto: Divulgação
As Resex passaram a integrar o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc), que define Reserva Extrativista como uma área utilizada por populações locais cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte. Os objetivos são proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais.
Hoje, na Amazônia, as Resex e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) federais e estaduais totalizam 92 unidades, cobrindo uma área de 24,9 milhões de hectares e beneficiando milhares de famílias que seguem lutando para manter seus modos de vida em sintonia com o meio ambiente, numa relação intrínseca e viva.
A luta de cada um desses povos não é apenas por si, mas pela garantia da sobrevivência de um ecossistema que é a base de sua existência e do equilíbrio climático de todo planeta. Suas histórias, embora únicas, revelam uma mesma essência: a de que a preservação da floresta e de seus recursos naturais é a única forma de assegurar o futuro das próximas gerações.
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT) analisou a qualidade da água em 41 pontos utilizados por banhistas para fins recreativos em rios e córregos localizados em 15 municípios do Estado. Do total de análise, em apenas sete locais a água foi considerada imprópria para banho.
De acordo com o boletim de balneabilidade, foram verificadas concentrações acima do permitido da bactéria Escherichia coli, que pode causar infecções, nas praias:
Bonsucesso, em Várzea Grande;
Comunidade de São Gonçalo, em Cuiabá;
Cachoeirinha, em Chapada dos Guimarães;
Vereda e Santo Antonio do Leverger;
Estação Astyanax Xavante, em Barra do Garças;
e Rio Paraguai, em Barra do Bugres.
A verificação da balneabilidade nas praias fluviais de Mato Grosso foi realizada por meio da coleta de dados em campo e análises laboratoriais, no período de 30 de junho a 4 de setembro de 2025.
Foram contemplados com a análise os municípios de Várzea Grande, Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Nobres, Santo Antônio Leverger, Barra do Bugres, Jaciara, Barra do Garças, Nova Marilândia, Nortelândia, Diamantino, Colíder, Guarantã do Norte, Matupá e Peixoto de Azevedo.
A classificação foi realizada conforme os padrões e critérios de balneabilidade determinados pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O estudo serve como subsídio para a atuação das prefeituras e dos órgãos de fiscalização.
Foto: Divulgação/Sema-MT
Praias próprias para banho
Em Cuiabá, a Sema realizou coletas de amostras em nove pontos: Comunidade Aguaçú, Ponte de Ferro da Guia, Ponte de Ferro no Rio Coxipó, Mutuca, Rio Claro, Balneário Soberbo (Coxipó Açú), Coxipó do Ouro, Comunidade São Gonçalo e Salgadeira. Com exceção da praia da Comunidade de São Gonçalo, as demais foram consideradas próprias para banho.
Já em Várzea Grande, foram realizadas amostras em dois locais: Bonsucesso (imprópria) e Passagem da Conceição (própria). Em Chapada dos Guimarães, foram realizadas coletas na Cachoeirinha, Cachoeira dos Namorados e Lago de Manso (marinas). Somente a praia da Cachoeirinha foi considerada imprópria.
Em Barra do Garças, ponto turístico de Mato Grosso, das quatro praias analisadas, estão próprias para banho a Praia da Primavera/Rio Araguaia – do Pontal do Araguaia, do Bosque Rio Garças e a Cachoeira Pé da Serra.
Na cidade de Nobres, foram analisadas coletas do Rio Estivado (Bom Jardim) e Aquário Encantado, ambas classificadas como própria. Em Jaciara, também foram avaliadas positivamente as águas da Cachoeira da Mulata e Rio Tenente Amaral (Água Jaciara).
Nos municípios de Nova Marilândia, Nortelândia, Diamantino, Colíder, Guarantã do Norte, Matupá e Peixoto de Azevedo, todas as coletas analisadas foram classificadas como própria para banho.
Colíder: Balneário Rancho Baixadão, Cachoeira Mercúrio e Cachoeira da Família;
Guarantã do Norte: Balneário Cachoeirinha, Balneário do Cláudio e Balneário Stregue;
Matupá: Cachoeirinha E-60, Ponte Peixotinho, Captação Rio Peixoto de Azevedo e Lago 1;
Peixoto de Azevedo: Cachoeira da Onze.
Orientações da Sema
A Sema orienta a população a sempre evitar a recreação de contato primário (balneabilidade) nos locais classificados como impróprios, evitar o banho depois da ocorrência de chuvas de maior intensidade, evitar ingestão de água destes locais sem o devido tratamento e redobrar atenção com crianças e idosos.
A população também pode comunicar à Sema eventos ou circunstâncias que possam levar a dúvidas quanto à manutenção da condição de balneabilidade de qualquer recurso hídrico utilizado para recreação de contato primário, para que a pasta, se necessário, adote providências de novas avaliações.
Como é feita a análise da água
A coleta da balneabilidade consiste na coleta de amostras, durante 5 semanas consecutivas, em locais utilizados por banhistas para recreação de contato primário (balneabilidade), no trecho onde é possível atingir a isóbata de 1 metro.
São coletadas amostras para análise microbiológica e medido o pH. As amostras são acondicionadas em caixas térmicas e enviadas para análise no Laboratório da Sema, em Cuiabá, onde são processadas. Esse processo vai se repetir uma vez por semana, durante 5 semanas.
Ao final, técnicos da Sema emitem um boletim informando se a praia está própria (excelente, muito boa ou satisfatória) e imprópria para banho.
Tanto a análise como a classificação de balneabilidade são importantes. Ao verificar a existência de lançamentos de esgoto sanitário, fezes de animais ou presença de microrganismos patogênicos próximos aos rios, é possível evitar doenças como poliomielite, cólera, hepatite, febre tifóide, gastroenterite, doenças da pele, entre outras. Portanto, é possível garantir a conservação dos recursos hídricos e proteger a saúde da população.
Um dos objetivos do Fundetur é investir na infraestrutura turística para gerar emprego, renda e impulsionar o desenvolvimento de Rondônia. Foto: Alex Nunes/Setur RO
Ao sancionar a Lei n° 6.145, que regulamenta o Fundo para o Desenvolvimento do Turismo do Estado de Rondônia (Fundetur), o governo de Rondônia fortalece o turismo na região, transformando o potencial turístico rondoniense em geração de emprego, renda e desenvolvimento econômico. A principal finalidade do Fundo é financiar programas, projetos e ações voltados à promoção, qualificação e infraestrutura turística.
Entre as áreas que poderão receber recursos estão:
Capacitação e qualificação de mão de obra;
Incentivo ao empreendedorismo e apoio à empreendimentos turísticos;
Infraestrutura e sinalização;
Promoção de destinos, eventos e circuitos turísticos;
Fortalecimento de produtos regionais; e
Apoio à elaboração de projetos estratégicos de turismo sustentável.
Para o governador de Rondônia, Marcos Rocha, a criação do Fundo simboliza um avanço estratégico para o estado.
“O Fundetur nasce para garantir recursos permanentes que serão aplicados de forma planejada em infraestrutura, capacitação e promoção dos destinos estaduais. A iniciativa fortalece toda a cadeia produtiva do turismo, gerando desenvolvimento econômico, renda e novas oportunidades para a população rondoniense”, enfatizou.
O Fundo será abastecido por diversas fontes, entre elas:
Orçamento estadual;
Transferências estaduais e federais;
Convênios com a União;
Emendas parlamentares;
Taxas provenientes de bilhetes de passagens (terrestres, aéreas e fluviais) e da Ficha Nacional de Registro de Hóspedes;
Parcerias com a iniciativa privada;
Contribuições e outras receitas legalmente incorporáveis.
De acordo com a lei, o Fundetur terá conta própria com movimentação descentralizada e será administrado pela Superintendência Estadual de Turismo (Setur), com deliberações do Conselho Estadual de Turismo (Consetur). O controle terá acompanhamento de uma Comissão de Contas, formada por membros do Conselho, garantindo transparência e responsabilidade no uso dos recursos.
Com a criação do Fundetur, Rondônia passa a contar com uma ferramenta estruturante, capaz de:
Garantir recursos contínuos para o setor;
Promover maior competitividade do turismo regional e nacional;
Fomentar novos negócios ligados à cadeia turística;
Ampliar a geração de empregos diretos e indiretos;
Transformar o turismo em política permanente de desenvolvimento.
O superintendente estadual de Turismo, Gilvan Pereira, destacou o impacto da medida. “O turismo de Rondônia tem um potencial único, e por meio do Fundetur, terá uma fonte estável de recursos que permite planejar a longo prazo e transformar nossos atrativos em oportunidades reais de crescimento.”
Foto: Coordenação-Geral de Observação da Terra/INPE
Um grupo internacional de pesquisadores alerta que a exploração de petróleo planejada para a costa do Amapá, na chamada Margem Equatorial, pode gerar impactos ambientais e sociais de grandes proporções. Além da vida marinha, um vazamento ameaçaria onças-pintadas e outras espécies emblemáticas em áreas protegidas insulares e costeiras, manguezais e ecossistemas de zonas úmidas costeiras, além da pesca e dos produtos florestais não madeireiros, como o açaí, que sustentam povos tradicionais e indígenas.
É o que mostra estudo publicado na revista Nature Sustainability na quarta (1º) e conduzido por cientistas das universidades Federal e Estadual do Amapá (UNIFAP e UEAP), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e parceiros. A equipe se baseou em modelos que simulam a dispersão de óleo em ambientes aquáticos, considerando variáveis como a vazão do rio Amazonas, marés, correntes, ventos e características do ambiente costeiro.
A partir disso, a pesquisa indica que a mancha de um derramamento poderia se espalhar por até 132 quilômetros em apenas três dias, afetando biodiversidade, áreas protegidas e o abastecimento de água em cidades costeiras.
“Enquanto o licenciamento ambiental se concentra na capacidade da empresa petrolífera estatal de resgatar a vida selvagem marinha em caso de derramamento, a questão muito mais fundamental é a capacidade de tapar um vazamento, caso ocorra”, explica o pesquisador Philip Fearnside, do INPA, um dos autores do estudo.
A profundidade do poço proposto, de 2,88 quilômetros, e a presença de correntes oceânicas mais fortes e complexas dificultariam muito a contenção em comparação ao desastre de 2010 no Golfo do México, mostram os pesquisadores. Na ocasião, o vazamento ocorreu de um poço em água de 1,5 quilômetros de profundidade e levou mais de cinco meses para ser contido.
Acidente na Margem Equatorial também apresenta riscos socioeconômicos
O estudo também ressalta riscos socioeconômicos. O Amapá tem mais de 700 mil habitantes, com grande concentração em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas que dependem da pesca artesanal e da coleta de produtos florestais, como açaí, castanha-do-brasil e cacau.
Margem Equatorial. Imagem: Reprodução
Só a cadeia do açaí na área da Foz do Amazonas, a chamada Margem Equatorial, movimentou mais de R$ 6 bilhões (cerca de US$ 1 bilhão) em 2023, valor que estaria ameaçado por eventual contaminação. O derramamento de óleo na costa do Nordeste brasileiro, em 2019, que afetou milhares de pescadores, é lembrado pelos pesquisadores como referência para possíveis impactos.
Para além de acidentes, os autores alertam que experiências anteriores com royalties do petróleo no Brasil mostraram aumento da desigualdade e piora de indicadores sociais, em vez de melhorias sustentáveis. Eles questionam a narrativa de que a arrecadação com petróleo na Margem Equatorial financiaria a transição energética, já que a dependência do combustível fóssil tende a se tornar inviável diante das metas climáticas globais.
“A necessidade global de interromper o uso de combustíveis fósseis nos próximos anos significa que os supostos benefícios econômicos e de emprego do projeto seriam muito temporários”, avalia Fearnside.
Como alternativas, o artigo defende o aproveitamento do potencial solar do Amapá: apenas 1% da área do estado poderia gerar cinquenta vezes mais energia do que a população consome hoje. Outras vias propostas incluem a valorização da bioeconomia local, com agregação de valor a produtos como açaí e andiroba, e o fortalecimento do turismo comunitário.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Laboratório vai focar em soluções com ajuda de tecnologia. Foto: Marco Santos/Agência Pará
O Centro de Excelência em Eficiência Energética da Amazônia (Ceamazon), residente do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá e vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA) vai desenvolver um Sistema Inteligente de Gestão Energética no Complexo Hidrelétrico da Usina Belo Monte. O foco do projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) será a regulação de frequência, utilizando fontes renováveis e armazenamento em supercapacitores.
Ubiratan Bezerra, pesquisador do Ceamazon, explica que o Brasil está usando cada vez mais fontes de energia limpa, como a solar e a eólica que não funcionam o tempo todo, ou seja, só geram energia quando há sol ou vento, e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) dá prioridade para usar essa energia limpa.
Porém, essas fontes não ajudam a controlar a frequência da energia elétrica, que precisa ser mantida estável para evitar falhas no sistema. Com isso, as hidrelétricas ajudam cada vez mais nesse controle, o que provoca maior desgaste nas máquinas e risco de problemas.
Por esse motivo o sistema que será desenvolvido vai usar e armazenar a energia solar em supercapacitores, um tipo de bateria muito rápida, que vai ajudar a controlar a frequência da energia de forma mais eficiente do que o sistema atual.
“O Ceamazon vem acumulando muita experiência no desenvolvimento de pesquisas que envolvem o uso de Supercapacitores, para o suporte ao fornecimento de energia para a solução de problemas de oscilações nos sistemas elétricos, como também para o fornecimento de energia para comunidades isoladas na Amazônia, sendo que essa linha está sendo desenvolvida em projeto financiado pela Norte Energia”.
A iniciativa será dividida em diferentes frentes de trabalho, como a implantação de uma usina solar nas dependências de Belo Monte, o desenvolvimento de um sistema de monitoramento online com relatórios e estatísticas, a instalação de um banco de supercapacitores e a criação de uma plataforma computacional voltada para operadores. Tudo isso será integrado à operação da usina, para aprimorar a regulação da frequência do Sistema Interligado Nacional (SIN).
UHE Belo Monte. Foto: Divulgação/Norte Energia
O contrato do projeto, com duração de três anos, foi firmado entre a empresa Norte Energia e a Fundação Guamá, Instituição Científica e Tecnológica (ICT) que faz a gestão do PCT.
“Este é o primeiro projeto que a empresa firma com a Fundação, para que pesquisadores de laboratórios da UFPA, que estão no Parque, executem o projeto de pesquisa da própria empresa. A empresa está nos enxergando como parceira importante na execução de sua carteira de PDI, e ela enxerga que grupos da UFPA, entre eles o Ceamazon, são parceiros estratégicos”, declara Renato Francês, diretor técnico da Fundação Guamá.
Laboratório foca em nova tecnologia no setor energético
A iniciativa deve gerar dados técnicos e científicos que poderão colaborar com pesquisas e políticas públicas. Entre os benefícios esperados com o sistema estão ganhos operacionais e econômicos para a empresa, o pioneirismo com o desenvolvimento de uma nova tecnologia no setor energético e a contribuição para a transição energética, por meio da ampliação do uso de fontes renováveis.
“O projeto é muito inovador e vai ser um marco na regulação de frequência da geração hidráulica de grande porte com as fontes intermitentes, fotovoltaica e eólica, entrando em massa no sistema elétrico nacional”, afirma Emília Tostes, coordenadora do Ceamazon.
O programa de PDI da empresa, regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), integra uma rede de parceiros que conta com universidades, institutos de pesquisa e setor industrial, num intercâmbio em prol da inovação e do atendimento de demandas estratégicas.
“Temos em andamento diversas atividades que envolvem instituições e pesquisadores amazônidas e que geram conhecimento científico e soluções inovadoras e sustentáveis para a região. Temos certeza de que a Fundação Guamá chega para somar à nossa rede de parceiros e que vai colaborar ativamente para o desenvolvimento de projetos relevantes”, afirma Andreia Antloga do Nascimento, gerente de PDI da empresa.
Os laboratórios de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) do PCT Guamá aliam conhecimento científico à competitividade de mercado. Projetos públicos e privados podem acessar os recursos do PCT Guamá com a apresentação da sua demanda pelo e-mail servicos@fundacaoguama.org.br ou pelos telefones (91) 3321-8908 e 3321-8909.
Referência em inovação na Amazônia
O Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá é uma iniciativa do Governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Superior, Profissional e Tecnológica (Sectet), com as parcerias da UFPA e Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), e gestão da Fundação Guamá.
É o primeiro parque tecnológico da região Norte do Brasil, e visa estimular a pesquisa aplicada e o empreendedorismo inovador e sustentável, a fim de melhorar a qualidade de vida da população.
Localizado às margens do Rio Guamá, que dá nome ao complexo, o PCT está situado entre os campi das duas universidades, e conta com um ecossistema rico em biodiversidade, estendendo-se por 72 hectares, destinados a edificações e à Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Metropolitana de Belém.
O complexo conta com mais de 90 empresas entre residentes e associadas, 17 laboratórios com mais de 400 pesquisadores, 44 patentes e uma escola técnica.
O PCT Guamá integra a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e International Association of Science Parks and Areas of Innovation (Iasp), e faz parte do maior ecossistema de inovação do mundo.