Home Blog Page 74

Ritual de Bilibeu, a resistência do povo indígena Akroá-Gamella

0

Povo Akroá-Gamella durante a celebração do Ritual de Bilibeu. Foto: Ana Mendes

Rituais indígenas são manifestações milenares que celebram a vida, os costumes e a conexão entre o mundo espiritual e natural dos povos originários. As práticas consistem em danças, pinturas corporais e diversas práticas de adoração aos deuses e envolvem todos os pertencentes desses grupos.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

No interior do Maranhão, os indígenas da etnia Akroá-Gamella celebram anualmente, no dia 30 de abril, o ritual de Bilibeu, tradicional festa que consiste numa caminhada coletiva que percorre todo o território do grupo, como uma forma de agradecimento ao São Bilibeu, o santo que concede fertilidade à terra e proteção àquele povo. Toda a comunidade indígena se mobiliza na celebração e que dura geralmente quatro dias.

Quem é Bilibeu?

Também conhecido por Bilibreu ou Oracio, Bilibeu é uma entidade cultuada pelo povo Akroá-Gamella e simboliza fertilidade e resistência pela terra. Reza a lenda que Bilibeu foi encontrado durante uma queima de lavoura dentro da área territorial daquele povo, por conta disso, contos antigos remetem o santo como o protetor das terras, o milagreiro da cura e responsável por fecundar as mulheres.

Leia também: Massacre dos Akroá-Gamella: o maior ataque contra indígenas maranhenses

Indígena segurando a representação do santo Bilibeu. Foto: Ana Mendes

O ritual de Bilibeu

Tradicionalmente, o ritual de Bilibeu começa com a busca do mastro enfeitado com frutas e levantado com uma bandeira no topo. Após isso, os indígenas se reúnem para definir quem será a onça, o gato-maracajá e o cachorro-chefe, responsáveis pela coordenação da chamada “corrida dos cachorros de Bilibeu”: a marcha que percorre todas as aldeias do território Taquaritiua.

Caça ao mastro ornamentado de frutas simboliza o início do Ritual de Bilibeu. Foto: Ana Mendes

Pintados de preto-Jenipapo, vermelho-Urucum e preto-carvão, dezenas de corredores incorporados dos “filhos de Bilibeu”, saem em busca de caças como galinhas, patos, porcos e outros tipos oferecidos à entidade. Os caçadores buscam comida e bebida para oferecer ao santo.

“Filhos de Bilibeu” na corrida pela caça dos alimentos. Foto: Ana Mendes

As caças, quando aves, são jogadas para o alto, atiçando os “cachorros” que executam um ritual de presa e morte e sendo estraçalhadas numa disputa de presas. O cachorro vencedor corre, carregando na boca, a cabeça da ave que conquistou.

Garrafas de conhaque ou de cachaça são enterradas no chão para serem encontradas por eles. As caças podem ser também refrigerantes, que são dados às crianças, tidas como os cachorrinhos de Bilibeu.

Ave sendo disputada pelos “cães”, tradição do Ritual de Bilibeu. Foto: Ingrid Barros

Simbologia

De acordo com a lenda, Bilibeu se alimenta através dos seus “cães”, nutridos das oferendas dadas pelos donos das casas.

Na corrida, considerada o ápice do Ritual de Bilibeu, os presentes do santo são jogados aos ares ou enterrados para que os cachorros, com suas patas, encontrem.

Dono de casa com sua oferenda aguardando a passada dos “cachorros de Bilibeu”. Foto: Ingrid Barros

Durante todo o ritual, os indígenas dão voltas, jogam água em si mesmos, se amontoam ao chão, rolam, se lambuzam de terra e lama, emitem grunhidos e latidos. E é assim que a festa preserva, dentro de suas características, um ritual no qual os brincantes, ao pintar seus corpos, dar seus gritos e piques, se reencontram com uma identidade silenciada por décadas.

Indígenas Akroá-Gamella se molhando durante o ritual de Bilibeu. Foto: Ingrid Barros

Contos antigos relatam, ainda, que a corrida dos cachorros de Bilibeu também representa um rito de passagem para as crianças Akroá-Gamella.

Criança pintando adulto para o início da celebração do Ritual de Bilibeu. Foto: Ingrid Barros

Celebrada antigamente no período do carnaval, a data do ritual se remete ao ano de 2017, quando o povo Akroá-gamella sofreu o pior massacre da sua história.

Leia também: Teia de Povos e Comunidades Tradicionais: carta lembra massacre dos Akroá Gamella e destaca retomada do território

Na ocasião, pistoleiros, grileiros e fazendeiros da região de Viana atentaram violentamente contra o grupo indígena, resultando em mais de vinte feridos, fato que ficou conhecido como o “Massacre dos Akroá-gamella”.

Após a corrida, é realizado um momento de cantorias ao som dos maracás para Bilibeu e João Piraí. À noite, a sentinela na casinha de reza representa, simbolicamente, o adoecimento, a morte e a ressurreição de Bilibeu. O ritual é finalizado com a derrubada do mastro.

Portal Amazônia responde: quem são os mateiros?

0

Mateiros nas expedições científicas. Foto: José Mederios/Arquivo/Revista O Cruzeiro, 1951

O contato do ser humano com a floresta precisa ser mantido e equilibrado. E esse é um dos papeis dos mateiros, pessoas que conhecem o comportamento da natureza desde a infância.

Eles são verdadeiros profissionais da floresta, formados pelo conhecimento geracional, que sabem reconhecer rastros, identificar espécies dentro da mata, compreender os ciclos da natureza e navegar por territórios desconhecidos com a sabedoria ancestral.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

De acordo com o projeto “Mateiros do Brasil”, do Museu da Pessoa, os mateiros são pessoas que conhecem a floresta como ninguém. A maioria dessas pessoas são de povos originários, como os indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que adquiriram suas habilidades por meio dos ensinamentos de seus ancestrais. 

Foto: Reprodução/Mateiros do Brasil/Museu da Pessoa
Foto: Reprodução/Mateiros do Brasil/Museu da Pessoa

Mateiros: os guias da floresta

Os mateiros sabem interpretar os sinais da mata, prever mudanças climáticas, encontrar água e alimentos e produzem medicação natural através dos recursos da floresta. Guiam turistas, cientistas em expedições pela natureza, além de serem fundamentais para ações de conservação ambiental.

Nas expedições da época de colonização no Brasil, de acordo com o artigo Luta e labor nas matas do interior: os mateiros na expansão da fronteira colonizadora do Brasil na primeira metade do século XX‘, de Sandro Dutra, esses indivíduos exerciam múltiplas funções nessas viagens científicas.

Leia também: Conheça 9 guardiões que defendem a Amazônia todos os dias

Atuavam como guias nas selvas brasileiras, mas também exercendo funções que exigiam tanto esforço físico quanto habilidades aprendidas no roteiro expedicionário, como coletar espécimes, auxiliar na localização de recursos naturais e transmitir seus conhecimentos sobre os ecossistemas locais.

No trabalho de coleta e observação dos naturalistas, contribuíam de maneira prática para o avanço do conhecimento científico, especialmente nas áreas da botânica, da zoologia e da geografia.

No artigo, Sandro explica que, nas plantações de cacau no sul da Bahia, no período colonial, o mateiro também é descrito como “contratista”, que consistia em um tipo de relação de trabalho acordado no qual o contratado deveria derrubar e queimar as áreas de mata, podendo usufruir da terra para o plantio de roça de subsistência.

“Os mateiros são agentes históricos associados à concepção de frente de expansão ou de fronteira que avança sobre os recursos naturais disponíveis no território brasileiro, de forma distinta tanto histórica quanto ecologicamente”, afirma Sandro no artigo.

O mateiro também era considerado como um sertanista, isto é, um explorador dos sertões e das matas brasileiras.

Mateiro nas expedições científicas. Foto: José Mederios / revista O Cruzeiro, 1951.

Reconhecimento dos saberes dos mateiros para a ciência

Apesar de carregarem tamanha sabedoria, esses conhecimentos não eram valorizados. Mas, cientistas, pesquisadores e acadêmicos começaram a reconhecer o ensino dos mateiros para a ciência.

No projeto “Mateiros do Brasil”, do Museu da Pessoa, há relatos de mateiros que participam da ciência acadêmica.

Entre eles, Edilson Consuello de Oliveira, que vive no Acre e colaborou com instituições como o The New York Botanical Garden e a Universidade Federal do Acre (UFAC).

Ele enfatiza que seu saber geracional auxilia cientistas a identificarem novas espécies e a compreenderem melhor o comportamento da mata.

“A nossa floresta é uma farmácia completa e uma biblioteca para quem a quer estudar”, disse o mateiro para o Museu da pessoa.

*Com informações do Museu da Pessoa e do artigo “Luta e labor nas matas do interior: os mateiros na expansão da fronteira colonizadora do Brasil na primeira metade do século XX”, de Sandro Dutra

Governo anuncia que fechou parceria para expandir energia renovável na Amazônia

0

Acordo quer eliminar pobreza energética e fortalecer bioeconomia local. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O governo brasileiro e a Global Energy Alliance for People and Planet (GEAPP) firmaram neste sábado (15), em Belém (PA), uma parceria de cinco anos para expandir o acesso à energia renovável nas regiões mais isoladas da Amazônia. O anúncio ocorre em meio à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

O acordo tem como objetivo eliminar a pobreza energética, além de fortalecer a bioeconomia e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Leia também: Brasil precisa transformar promessas em ações práticas na COP30, alertam pesquisadores

Uma fase piloto do projeto começou este ano com o investimento da GEAPP de US$ 3 milhões. A meta é triplicar esse valor nos próximos três anos através de captação adicional de fundos.

A parceria com o governo federal tem duas frentes: apoiar políticas públicas para ampliar o acesso à energia e à geração de renda; financiar projetos piloto e oferecer suporte técnico e regulatório.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Tecnologia

Na prática, o sistema de energia renovável funciona a partir de microgrids, que são uma rede de distribuição de energia com uma ou mais fontes de geração.

No caso do projeto na Amazônia, serão plataformas solares comunitárias com baterias. A equipe do GEAPP realiza estudos prévios, como o diagnóstico energético da comunidade, para dimensionar corretamente as demandas e que tipo de equipamentos são necessários.

“Vamos construir e instalar sistemas solares com baterias, um pouco maiores que os sistemas individuais. Assim, eles poderão abastecer atividades geradoras de renda, dia e noite. A energia excedente será armazenada para permitir que a produção continue mesmo no período noturno”, explica Luisa Valetim Barros, que lidera a GEAPP no Brasil.

Leia também: Entenda a diferença entre os tipos de fontes de energia na Amazônia

Pessoas chegam na entrada da área da Green Zone (Área Verde), na COP30. Belém/Pará/Amazônia/2025. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Pessoas chegam na entrada da área da Green Zone (Área Verde), na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Depois da instalação, o controle dos microgrids fica totalmente com a comunidade. Líderes comunitários recebem treinamento técnico básico de manutenção.

A equipe da GEAPP, junto com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), visitou diferentes comunidades para entender necessidades locais e identificar potenciais produtivos.

“A ideia é que o sistema seja associado à comunidade. Eles serão treinados para fazer manutenção básica. O que for mais avançado contará com apoio técnico das distribuidoras”, disse Luisa Barros.

“Havia comunidades sem necessidade de uso produtivo comunitário, então seguimos para outra. Perguntamos se queriam ampliar a produção de açaí, colocar no mercado, ou se havia áreas para irrigação agrícola”, complementou

O foco principal está na chamada Amazônia profunda — áreas sem acesso à rede elétrica — especialmente nos estados de Amazonas, Pará e Roraima, incluindo comunidades indígenas.

Inclusão social

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silva, destacou que a parceria representa um marco na combinação entre inclusão social e compromisso climático.

“O Brasil está mostrando que é possível combinar inclusão energética, responsabilidade climática e oportunidade econômica. Esta parceria com a Global Energy Alliance reforça o compromisso nacional de levar energia renovável e universal a todas as famílias brasileiras. Estamos transformando a ambição climática em ação concreta”, disse o ministro.

O diretor-executivo da GEAPP, Woochong Um, reforçou que o acordo vai muito além da infraestrutura elétrica.

“Temos orgulho de firmar esta parceria para transformar energia limpa em oportunidade para comunidades em toda a Amazônia. Isso vai além da eletricidade — trata-se de dignidade, meios de subsistência e um futuro justo para cada família. O que construirmos na Amazônia pode se tornar um modelo de eletrificação equitativa e crescimento inclusivo em toda a América Latina e além”, disse.

Após a COP30, o tema seguirá em destaque no 2º Workshop Energias da Amazônia, previsto para dezembro em Manaus. O encontro reunirá autoridades, concessionárias e parceiros internacionais para discutir resultados dos leilões de sistemas isolados e novos projetos de eletrificação limpa em comunidades remotas.

*Com informações da Agência Brasil

Por que jacarés e crocodilos são parecidos?

0

Jacaré-açu. Foto: Sebastian Viczara

Os jacarés são animais muito conhecidos no Brasil, especialmente por habitarem rios, lagos e igarapés de regiões como a Amazônia e o Pantanal. Apesar de sua aparência imponente e do comportamento que inspira respeito, muitas pessoas ainda confundem o jacaré com o crocodilo, outro réptil semelhante, mas que pertence a um grupo diferente.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

Ambos são parentes próximos, mas eles apresentam características distintas que os diferenciam na aparência, no comportamento e até na forma como caçam e se alimentam, dependendo do habitat. Essas diferenças são resultado da evolução e da adaptação de cada espécie ao ambiente em que vivem no mundo todo.

O jacaré, no Brasil, pertence à família Alligatoridae (encontrados nas Américas), enquanto o crocodilo faz parte da família Crocodylidae (distribuído na África, Ásia, Américas e Austrália). Essa separação taxonômica já indica que, embora compartilhem um ancestral comum, seguiram caminhos evolutivos distintos ao longo de milhões de anos.

Leia também: Jacarés X crocodilos: três diferenças entre esses predadores tão parecidos

No Brasil, todas as espécies encontradas são jacarés — o crocodilo não é nativo do país. Eles desempenham papel essencial nos ecossistemas aquáticos, controlando populações de peixes e outros animais, além de contribuírem para o equilíbrio ambiental.

Aparência e características físicas

Uma das formas mais simples de diferenciar os dois é observando o formato do focinho. O jacaré possui um focinho mais largo e arredondado, em forma de “U”, enquanto o crocodilo apresenta um focinho mais estreito e pontudo, semelhante a um “V”.

Essa diferença anatômica influencia a alimentação de cada espécie: os jacarés tendem a esmagar presas de casca dura, como tartarugas e caramujos, enquanto os crocodilos têm mordidas adaptadas para capturar peixes e mamíferos de porte médio.

Outro detalhe importante está nos dentes. Quando os que são encontrados no Brasil fecham a boca, apenas os dentes superiores ficam visíveis; já nos encontrados fora do país, os dentes da parte inferior também aparecem, criando a impressão de um sorriso “denteado”. Isso ocorre porque o maxilar inferior do crocodilo é mais largo e se ajusta de maneira diferente ao superior.

A coloração da pele também é um indicativo. O jacaré costuma ter uma tonalidade mais escura, variando entre o verde-oliva e o marrom, o que o ajuda a se camuflar em águas turvas e vegetações densas.

O crocodilo, por sua vez, apresenta uma coloração mais clara e esverdeada, ideal para ambientes de água salgada ou mista, onde costuma viver.

Distribuição e comportamento

Além disso, os jacarés preferem águas doces e calmas, como rios e lagoas, enquanto os crocodilos são encontrados tanto em água doce quanto salgada, podendo se adaptar melhor a diferentes tipos de ambientes. Essa característica faz com que crocodilos sejam mais amplamente distribuídos no mundo.

Os jacarés são amplamente distribuídos pela América do Sul e América do Norte. No Brasil, existem seis espécies conhecidas, sendo o jacaré-açu (Melanosuchus niger) o maior representante. Ele pode atingir até 6 metros de comprimento e é encontrado principalmente na Amazônia. Outras espécies, como o jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) e a jacaretinga (Caiman crocodilus), habitam áreas alagadas do Centro-Oeste e Sudeste.

Leia também: Jacaré-açu, o maior e mais temido jacaré da Amazônia

Imagem colorida mostra jacaré a esquerda e crocodilo a direita
Fotos: Jean Beaufort e Public Domain

Os crocodilos, por outro lado, estão mais presentes em regiões tropicais da África, Ásia e Oceania. O maior deles é o crocodilo-de-água-salgada (Crocodylus porosus), que pode ultrapassar 7 metros de comprimento e é considerado o maior réptil vivo do planeta.

Comportamentalmente, os jacarés costumam ser menos agressivos que os crocodilos, embora ambos sejam predadores eficientes. Os encontrados no Brasil preferem caçar à noite e permanecer imóveis durante o dia, camuflados entre galhos e vegetação aquática. Já os de fora tendem a ser mais territoriais e reagem mais rapidamente diante de ameaças.

Importância ecológica e conservação

Ambos exercem papel fundamental na manutenção dos ecossistemas aquáticos. Eles controlam populações de peixes e outros animais, evitando desequilíbrios ambientais. Além disso, ao abrir trilhas e cavidades na lama, contribuem para a circulação da água e o crescimento de plantas aquáticas.

Apesar de sua importância ecológica, muitas espécies enfrentam ameaças devido à caça ilegal, destruição de habitat e poluição dos rios. No Brasil, o jacaré-açu esteve em risco de extinção nas décadas passadas por causa da extração de couro. Atualmente, programas de conservação e fiscalização ambiental têm ajudado a recuperar suas populações em várias regiões.

COP30: Aquecimento acelera enquanto resiliência do sistema terrestre diminui, indica relatório

0

Relatório foi apresentado na COP30, em Belém (PA). Foto:

Os cientistas do clima estão mais preocupados do que nunca, afirma Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, da Alemanha. O cientista sueco, que propôs o conceito de limites planetários para definir as margens seguras para a pressão humana sobre processos ambientais essenciais para a estabilidade do planeta, tem chamado a atenção, com diversos outros pesquisadores, para novas evidências científicas que indicam que o aquecimento global está acelerando, enquanto a resiliência do sistema terrestre diminui.

“Estamos em apuros. O planeta está mostrando os primeiros sinais de redução da capacidade de amortecer e resfriar o estresse que estamos causando por meio de nossas emissões de gases de efeito estufa. Estamos nos aproximando rapidamente do ponto de inflexão e precisamos agir mais rápido do que temos feito até agora”, disse Rockström em palestra de inauguração do Pavilhão da Ciência Planetária, no primeiro dia da COP30.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Um relatório coordenado pelo pesquisador, lançado em setembro, indicou que sete de nove limites da segurança planetária já foram ultrapassados. Entre eles, as mudanças climáticas, a integridade da biosfera, o uso do solo, o uso de água doce, os ciclos biogeoquímicos (nitrogênio e fósforo) e a introdução de novas entidades (como produtos químicos e plásticos).

Agora, um novo relatório elaborado por 70 renomados cientistas de 21 países – entre eles do Brasil –, que foi lançado oficialmente durante a COP30, aponta que os sumidouros naturais de carbono do planeta – entre eles as florestas tropicais – estão atingindo limites críticos, absorvendo menos emissões que as esperadas, enquanto décadas de mudança climática têm debilitado sua capacidade.

Leia também: Florestas tropicais não estão se adaptando rapidamente às mudanças do clima, alerta estudo global

Até o oceano, outro sumidouro vital de carbono e calor, está absorvendo menos dióxido de carbono (CO2), enquanto intensas ondas de calor marinhas devastam os ecossistemas e os meios de subsistência costeiros.

“O planeta inteiro está apresentando sinais de diminuição na capacidade de absorção de carbono”, disse Rockström, que é membro do conselho editorial do relatório. “A maior preocupação, com base nos dados atuais, reside nas regiões temperada e boreal e na zona do permafrost [solo congelado em regiões muito frias que retém gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono]”, disse Rockström.

De acordo com dados compilados para o relatório, os ecossistemas do hemisfério Norte começaram a indicar, a partir de 2016, uma redução na capacidade de absorção de carbono.

“Isso está ficando muito preocupante porque sabemos que muitas áreas da parte brasileira da floresta amazônica já deixaram de ser sumidouros e se tornaram fontes de carbono, mas a mesma coisa está acontecendo com as florestas temperadas e boreais”, ponderou.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Remoção de dióxido de carbono

A ampliação da remoção de dióxido de carbono (CDR, na sigla em inglês) é necessária para complementar – e não substituir – cortes rápidos nas emissões, ponderam os autores do relatório.

O desenvolvimento de diretrizes internacionais robustas e o apoio à pesquisa e à inovação são essenciais para preencher a lacuna de CDR e apoiar tanto as metas de curto prazo quanto a estabilidade climática de longo prazo, garantindo, ao mesmo tempo, salvaguardas ambientais e sociais, apontam.

“As políticas climáticas mais ambiciosas discutidas hoje visam reduzir as emissões em 45% até 2030 e ter uma economia mundial com emissões líquidas zero até 2050, mas ninguém está cumprindo essa meta. Se não ampliarmos a CDR, teremos que descarbonizar a economia global até 2040”, apontou Rockström.

Segundo o cientista, mesmo com as melhores atualizações das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) pelos países, será possível conseguir reduzir as emissões globais em 5% até 2035. Mas as evidências científicas mostram que esse ritmo não será suficiente, ponderou.

“Na verdade, precisamos reduzir as emissões em 5% por ano, e não por década. É isso que a ciência nos diz para, no mínimo, desviar do perigo”, sublinhou.

Pessoas em frente a fachada do pavilhão, chegam para participar de plenárias na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Pessoas em frente a fachada do pavilhão, chegam para participar de plenárias na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Subsídio para as negociações das COPs

O relatório é fruto de uma iniciativa da Future Earth, da Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, que todos os anos reúnem alguns dos principais cientistas do clima de todo o mundo para analisar as descobertas mais urgentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. Os resultados são apresentados em um artigo acadêmico revisado por pares e um relatório de ciência e política para oferecer uma síntese aos formuladores de políticas e à sociedade em geral para subsidiar as negociações das COPs.

“Espero que as conclusões do relatório estimulem o senso de urgência nos formuladores de políticas para que comecem a agir com base nas descobertas científicas”, disse Deliang Chen, professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e um dos autores da síntese.

O relatório é complementar aos publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas diferenças, comparam os autores.

“Analisamos, todos os anos, os dados científicos do ano anterior que mostram evidências relacionadas às mudanças climáticas e sintetizamos isso em uma mensagem muito clara e direta. Esperamos que isso funcione de forma muito mais eficiente para a formulação de políticas e, de fato, subsidie as ações que serão tomadas e as negociações”, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras da publicação.

O relatório 10 New Insights in Climate Science 2025/2026 pode ser acessado em AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Elton Alisson 

Comércios de cidade do Acre devem parar de vender bebidas alcoólicas a indígenas, recomenda MP

0

Imagem de Manfred Richter por Pixabay

Os proprietários de estabelecimentos comerciais em Feijó, no interior do Acre, vão precisar deixar de vender bebidas alcóolicas para indígenas. Isto é o que recomenda um procedimento do Ministério Público do Acre (MP-AC), publicado no início desta semana.

De acordo com o documento, a medida busca proteger as comunidades originárias de “graves impactos sociais, sanitários e culturais decorrentes do alcoolismo, especialmente as de recente contato”.

No Diário Oficial do MP da última segunda-feira (10), a promotora de justiça Giovana Kohata de Toledo Postali Stachetti detalhou que, além da venda, a doação ou qualquer forma de disponibilização de bebidas alcoólicas para indígenas serão proibidas.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A proibição também vai valer para álcool 70% e produtos com álcool que não são destinados para o consumo humano.

O MP afirmou que o descumprimento implicará responsabilização penal e determinou ainda um reforço da fiscalização em todos os estabelecimentos comerciais de Feijó, para impedir a venda ou facilitação do consumo de bebidas por indígenas.

A promotora pede que as Polícias Militar e Civil atuem instaurando Termo Circunstanciado ou Inquérito Policial sempre que houver indício de infração, assegurando a responsabilização dos envolvidos conforme o Estatuto do Índio.

Além disso, solicitou a vereadores e lideranças indígenas que observem e informem ao Ministério Público do Acre caso percebam que as recomendações estão sendo descumpridas.

“Cabe especialmente às lideranças locais divulgar os efeitos nocivos do alcoolismo e promover a conscientização de suas comunidades, atuando como agentes fundamentais na defesa da saúde, da cultura e da integridade social dos povos originários”, disse ela.

Relatos

A decisão da magistrada levou o relato de lideranças durante a reunião no dia 23 de maio de 2025, onde participaram representantes do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira (OPIRE) e do Núcleo de Apoio e Atendimento Psicossocial (NATERA/Projeto TXAI).

O Grupo Rede Amazônica entrou em contato com a prefeitura da cidade acreana e com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas para saber se há um posicionamento do órgão quanto à proibição e aguarda retorno.

municpio de feijo no acre
Feijó, cidade do Acre. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC

Leia também: Pesquisadores de Tocantins desenvolvem novo método para detectar metanol em álcool combustível

Proibição para menores

Em 2016, entrou em vigor uma lei que proíbe a venda de bebida alcoólica a indígenas menores de 18 anos em estabelecimentos do município de Manoel Urbano, também no interior do Acre.

A lei também proibia a venda de fumo e dizia que os vendedores ficavam obrigados a pedir o documento de identificação do comprador.

Além disso, os locais onde há a venda de álcool e cigarro devem fixar, em local visível, placas e cartazes alertando para a pena de 6 meses a dois anos de prisão para quem adquirir, usar e disseminar bebida alcoólica a indígenas.

*Por Hellen Monteiro, da Rede Amazônica AC

Você conhece o inseto que pode transmitir uma doença perigosa?

0

Foto: Reprodução/Youtube-Ticksman

Você já viu um barbeiro? O inseto transmissor da Doença de Chagas apareceu dentro de uma casa em Rondônia. Fui pessoalmente até o local para resgatá-lo com segurança e levá-lo à coleção científica, onde será estudado e catalogado.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O barbeiro pode transmitir o Trypanosoma cruzi, protozoário causador da Doença de Chagas, através de suas fezes. E o risco é real: basta que ele defeque perto da picada ou de mucosas, e a pessoa coce ou esfregue a região — pronto, o parasita entra no organismo.

Leia também: Doença de Chagas: conheça os cuidados para evitar a contaminação

Sobre o autor

Ticksman é o Flávio Aparecido Terassini, biólogo, professor universitário desde 2006, mestre em Ciências pela USP e doutorando pelo Bionorte.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Está em Belém para a COP30? Conheça 5 pontos turísticos da cidade

0

Belém do Pará. Foto: Raphael Luz/Agência Pará

A COP30, maior evento climático do planeta, chegou a Belém (PA). Durante as duas semanas da reunião, são esperadas mais de 50 mil pessoas. Para quem estará na cidade durante o evento, conhecer Belém pode ser uma experiência única, que combina a efervescência de um evento global com a cultura amazônica autêntica.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Para os milhares de visitantes que buscam conhecer a cidade entre uma agenda e outra, a Agência de Notícias do Turismo preparou um roteiro com cinco paradas.

Leia também: Por que Belém? Entenda como a capital paraense se tornou sede da COP30

São locais que contam a história de Belém, desde sua fundação até sua moderna gastronomia, oferecendo uma imersão completa na “capital da bioeconomia”.

Confira abaixo algumas das principais experiências que o turista pode ter durante a conferência:

Estação das Docas

A Estação abriga restaurantes de alta gastronomia, bares, lojas de artesanato e sorveterias locais. Foto: Divulgação

Os antigos galpões portuários de ferro, importados da Inglaterra, foram completamente revitalizados e hoje formam o complexo turístico mais acessível de Belém. A Estação abriga restaurantes de alta gastronomia, bares, lojas de artesanato e sorveterias locais, uma parada obrigatória para provar sorvetes de frutas amazônicas como açaí, cupuaçu e bacuri. É uma ótima opção para um passeio ao fim da tarde, apreciando o pôr do sol sobre a Baía do Guajará.

Mercado Ver-o-Peso

mercado ver o peso em belém Foto: Alexandre Costa/Alepa
O Ver-o-Peso é considerado a maior feira aberta da América Latina. Foto: Alexandre Costa/Alepa

Considerada a maior feira aberta da América Latina, o Ver-o-Peso é o verdadeiro coração pulsante de Belém. É uma imersão sensorial completa nos cheiros das ervas medicinais vendidas pelas “erveiras”, nas cores de frutas regionais exóticas e no sabor do verdadeiro açaí, que chega de barco diariamente. O visitante verá de perto a economia da floresta em ação.

Complexo Feliz Lusitânia (Cidade Velha)

O complexo arquitetônico concentra os edifícios mais importantes do período colonial. Foto: Daniel Vilhena/AID/Alepa

É aqui que a história de Belém começou. Este complexo arquitetônico concentra os edifícios mais importantes do período colonial, ideal para uma caminhada. O passeio inclui o Forte do Presépio, local da fundação da cidade com uma bela vista para a baía; a Casa das Onze Janelas, antigo hospital que hoje é um espaço cultural com restaurante; e a imponente Catedral Metropolitana da Sé, ponto de partida do mundialmente famoso Círio de Nazaré.

Mangal das Garças

mangal-das-garcas.jpg
Parque zoobotânico, localizado às margens do Rio Guamá. Foto: Divulgação

Para um contato com a fauna e flora amazônicas sem sair da cidade, o Mangal das Garças é uma ótima opção. Este parque zoobotânico, localizado às margens do Rio Guamá, apresenta uma síntese do ecossistema amazônico, com garças, guarás de um vermelho vibrante, um borboletário e um orquidário. O destaque é o Farol de Belém, um mirante que oferece uma vista panorâmica de 360° da cidade e do rio.

Ilha do Combu

Descubra a serenidade dos igarapés na Ilha do Combu. Foto: Divulgação/Agência Belém

Para uma imersão mais profunda no modo de vida ribeirinho, basta uma curta travessia de barco (saindo da Praça Princesa Isabel) para chegar à Ilha do Combu. Esta Área de Proteção Ambiental (APA) permite ao visitante entender na prática a bioeconomia da floresta. A dica é visitar o projeto “Filha do Combu”, onde Dona Nena produz cacau e chocolates orgânicos da Amazônia de forma sustentável, uma experiência premiada que conecta o visitante diretamente à origem do produto.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Para quem tiver a oportunidade de estender a viagem para além da capital, o Pará se revela um universo de possibilidades. O estado é marcado pela presença de biomas importantes como a Floresta Amazônica e áreas de Cerrado, além de bacias hidrográficas gigantescas como a do Amazonas, do Xingu e do Tapajós.

Essa imensidão natural é o lar de uma densa tradição cultural. Na região do Baixo Tapajós, nos municípios de Santarém e Belterra, por exemplo, o visitante encontra festejos, o autêntico artesanato tapajônico e uma gastronomia premiada, tudo isso somado à forte presença de etnias indígenas como os Arapiuns e os Borari, que mantêm suas heranças culturais vivas e vibrantes.

*Com informações do Ministério do Turismo

Rondon, a República e o amor que ficou de fora da Bandeira Nacional

0

Em 1958, seu sepultamento, envolto pela Bandeira Nacional. Colorização da imagem: Luís Claro

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Rondon, a República e o amor que ficou de fora da Bandeira Nacional
Rondon em 1914, nos “sertões de Vilhena”, sul de Rondônia. Foto: Divulgação

No 15 de Novembro de 1889, enquanto o Império ruía, um jovem alferes mato-grossense, Cândido Mariano da Silva Rondon, entregava à Marinha o comunicado que oficializava a República. Tinha 24 anos e já carregava o peso da história. Era discípulo de Benjamin Constant, mentor do novo regime e propagador do Positivismo, igreja fundada pelo filósofo francês Augusto Comte — filosofia que inspirou o lema da bandeira: “Ordem e Progresso”.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Mas faltou uma palavra: Amor. No túmulo de Rondon (FOTO), no Rio, está gravado o lema completo: “O Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por fim”. O filósofo maranhense Raimundo Teixeira Mendes, criador da bandeira republicana, suprimiu o amor. Dizem que era subjetivo demais para um país militarizado. Outros acham que foi um erro filosófico. A discussão chegou ao Congresso em 2003, pois queriam incluir o amor. Não vingou.

Rondon seguiu fiel ao mestre. Batizou o filho de Benjamin, aderiu à Igreja Positivista. Começou sua saga pelas selvas, estendendo linhas telegráficas e promovendo o contato com povos indígenas. Andou o equivalente a duas voltas ao mundo. Foi indicado três vezes ao Nobel.

Hoje, Rondônia carrega seu nome. Terra de Rondon. E a bandeira nacional, embora verde e amarela desde o Império, ainda guarda mistérios. As cores não representam floresta ou ouro, como dizem por aí. São brasões da família real. O azul e o branco vêm de Portugal. E as estrelas? Representam estados, mas não seguem rigor astronômico.

No fim, a República nasceu de um golpe militar, inspirada por filósofos pacifistas. E o amor, que deveria estar na bandeira, ficou apenas na lápide de Rondon — nosso Herói da Pátria. Um idealista quase romântico.

Foto: Divulgação

Leia também: Presidente da Biblioteca Nacional visita Rondônia

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Brasil precisa transformar promessas em ações práticas na COP30, alertam pesquisadores

0

Sala de negociação da COP30: artigo é assinado por oito pesquisadores, entre eles três do CEPID ARIES da FAPESP. Foto: Rafa Neddermeyer/COP30

Em meio às discussões da COP30, que pela primeira vez é realizada na Amazônia, em Belém (PA), um grupo de pesquisadores faz um alerta para a urgência de o Brasil liderar um caminho que transforme promessas em ações práticas no combate ao aquecimento global. Na visão deles, o país, como sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, precisa alinhar suas políticas internas a compromissos internacionais, destacando a conservação das florestas e a justiça climática.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Os cientistas ressaltam a necessidade de “reverter políticas antiambientais, aplicar leis de combate ao desmatamento e fortalecer atores do desenvolvimento sustentável para transformar promessas em ações concretas por meio de reformas legislativas, da restauração do licenciamento ambiental e da proteção de direitos dos povos indígenas”.

O artigo foi publicado em 28 de outubro na revista científica International Environmental Agreements: Politics, Law and Economics.

É assinado por oito pesquisadores, entre eles três do ARIES (sigla em inglês para Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDfinanciado pela FAPESP, com sede na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os demais signatários são das universidades de São Paulo (USP), Federal de Alagoas (Ufal) e da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Fiocruz).

“O Brasil tem que aproveitar toda essa visibilidade internacional para realmente colocar em ação o que se compromete a cumprir, buscando limitar o aquecimento global do planeta. E, mesmo sendo um evento mundial, a COP é uma oportunidade para trazermos propostas nacionais, como o Plano de Ação em Saúde de Belém”, diz à Agência FAPESP a bióloga Daniela Debone, primeira autora do artigo. Pós-doutoranda no ARIES, ela é apoiada por bolsa da FAPESP.

plano de ação foi apresentado pelo Brasil com o objetivo de fortalecer a adaptação e a resiliência da área de saúde frente às mudanças climáticas por meio do avanço de sistemas integrados de vigilância e monitoramento, além da promoção de políticas baseadas em evidências e da inovação. Faz parte da programação dos dias temáticos da COP30, que incluiu saúde (12 e 13 de novembro).

O tema se insere entre as abordagens do ARIES, cujo objetivo é produzir pesquisa para a compreensão dos mecanismos e evolução da resistência antimicrobiana, estimulando medidas inovadoras para mitigação e promovendo mudanças em políticas de saúde pública por meio de uma abordagem baseada nos conceitos de Saúde Única (One Health). Seu quadro de pesquisadores principais é composto por representantes de três universidades paulistas, além de especialistas nacionais e internacionais de mais de 20 instituições de ensino e pesquisa.

A resistência antimicrobiana (AMR, na sigla em inglês), que também está ligada às mudanças climáticas, é considerada pelas Nações Unidas como uma das principais ameaças à saúde pública global.

Leia também: COP30 lança Declaração de Belém para a Industrialização Verde; veja o documento

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que as alterações climáticas venham a estar relacionadas a cerca de 250 mil mortes por ano (entre 2030 e 2050) por desnutrição, doenças infecciosas e estresse térmico. Já a AMR pode ser responsável por 10 milhões de mortes anuais no mesmo período, além de um custo adicional aos sistemas de saúde de US$ 1 trilhão, de acordo com o Banco Mundial.

“Nós cientistas temos de traduzir os conhecimentos e achados das pesquisas para a sociedade, contribuindo com subsídios para políticas públicas. Nesse sentido, fazemos um alerta de que precisamos sair do plano do discurso. Contamos com uma massa crítica gerada pela ciência brasileira que é muito importante, inclusive com pesquisadores no IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], como o professor Paulo Artaxo. Podemos mostrar caminhos e exemplificar concretamente como passar para práticas mais sustentáveis”, avalia a professora Simone Miraglia, do ARIES e líder do Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental (Lespa) da Unifesp. Miraglia e Artaxo também assinam o trabalho.

Ideia a partir da realidade

Debone conta que a proposta do artigo surgiu em maio, período em que começou a participar de uma série de eventos promovidos pela Comissão Unifesp para a COP30.

No mesmo mês, o Senado aprovou o projeto 2.159/2021 – a Lei Geral do Licenciamento Ambiental –, que posteriormente passou na Câmara dos Deputados e foi sancionado, em agosto, pelo Executivo, com 63 vetos.

Vista por alguns setores como uma forma de enfraquecer e esvaziar as regras de licenciamento e por outros como uma maneira de dar agilidade aos processos de liberação de obras, a lei é citada no artigo. Para os pesquisadores, é uma mudança que pode “agravar ainda mais os conflitos fundiários, sustentar a narrativa enganosa do ‘capitalismo verde’ e prejudicar os direitos dos povos tradicionais e indígenas”, apontados como responsáveis por conservar a floresta.

Além disso, os cientistas apontam como medidas antiambientais a construção de uma rodovia em Belém que desmatou hectares de floresta; a reconstrução do trecho central de 408 quilômetros da BR-319 (entre Manaus e Porto Velho) que afeta áreas da Amazônia; e as discussões do marco temporal, com impactos na demarcação de terras indígenas.

Pessoas em frente a fachada do pavilhão, chegam para participar de plenárias na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Pessoas em frente a fachada do pavilhão, chegam para participar de plenárias na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

O marco temporal é uma tese jurídica segundo a qual os povos indígenas têm direito apenas a terras que ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição. Foi estabelecido pela Lei 14.701/2023, aprovada pelo Congresso Nacional, contrariando à época entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF).

A tese e outros artigos chegaram a ser vetados pelo Executivo, mas os vetos foram rejeitados por deputados e senadores, que mantiveram o texto na íntegra. A lei está novamente sob questionamento no STF, que não tem prazo para decidir se ela é inconstitucional ou não.

Por outro lado, os cientistas citam como avanços do Brasil a redução do desmatamento e a queda da emissão de gases de efeito estufa. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, a taxa de desmatamento na Amazônia Legal atingiu o terceiro menor patamar da série histórica (desde 1988), com 5.796 km² – redução de 11%.

Puxado pelo recuo do desmate, o Brasil registrou em 2024 o menor nível de emissão de gases de efeito estufa desde 2009, com uma queda de quase 17% – foram 2,145 bilhões de toneladas de CO equivalente (GtCOe).

Procurado por meio da assessoria de comunicação, o Ministério do Meio Ambiente, envolvido nas discussões da COP, não se pronunciou.

“As mudanças climáticas já vêm sendo debatidas há muito tempo. Agora todo mundo espera ações factíveis, que sejam desempenhadas de fato. Espero que essa COP sirva como um ponto de virada numa perspectiva mundial. Que a gente comece a ver ações que mudem as emissões de gases de efeito estufa e os demais fatores causadores dessas mudanças”, afirma o pós-doutorando no ARIES Ronan Adler Tavella, também autor do artigo e bolsista FAPESP.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Cenário real no Brasil

Ao tratar da urgência climática, o grupo lembra que as temperaturas globais já subiram até 1,6 °C em relação aos níveis pré-industriais, com áreas continentais registrando elevação de até 2,1 °C, “evidenciando a aceleração dos impactos climáticos e a necessidade crítica de ação imediata”.

“A visão declarada pelo Brasil de uma bioeconomia amazônica próspera, em que a floresta em pé valha mais do que derrubada, só ganhará credibilidade se o país romper de forma decisiva com os modelos destrutivos do passado”, escrevem.

Nesse cenário, Tavella destaca um estudo recente publicado na Anthropocene Science, liderado por ele e Debone, para avaliar os efeitos de curto e longo prazo das chuvas extremas que devastaram vários municípios no Rio Grande do Sul, em maio de 2024.

Os resultados destacam a necessidade de repensar estratégias de gestão de inundações, principalmente em áreas urbanas, com a integração de projeções climáticas ao planejamento, de reforço da infraestrutura para controle de enchentes e da adoção de soluções baseadas na natureza para aumentar a resiliência (leia o estudo AQUI).

“Além das chuvas em maio, vimos ao longo de todo o ano passado inúmeros outros casos de enchentes e eventos extremos em todo o globo. Essa é uma realidade que tem se intensificado. E isso será uma preocupação constante, de todo o mundo”, completa o pesquisador.

O artigo Brazil’s climate leadership paradox: hosting COP30 amid domestic environmental rollbacks pode ser lido em: AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Luciana Constantino.