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Coletivos do Amazonas passam por capacitação para atuação na luta pela justiça climática

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Luta pela justiça climática foi o ponto principal da capacitação dos coletivos do Amazonas. Foto: Divulgação AIHHUAM

Dez coletivos do Amazonas – sete de Manaus e três de outros municípios do estado – foram selecionados para o Projeto Grito Rua – Clima e Cultura para participarem de uma jornada de formação com oito aulas virtuais que abordaram os impactos da crise climática e o papel da arte como instrumento de mobilização e resistência.

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O projeto é resultado da parceria entre a A Associação Intercultural de Hip Hop Urbanos da Amazônia (AIHHUAM), que atua na promoção da cultura urbana como instrumento de transformação social, e do Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI). O objetivo é destacar a necessidade urgente de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas nas periferias, onde os impactos são mais severos e o acesso à informação e aos recursos ainda é limitado.

Através da capacitação, os coletivos deram o primeiro passo para ajudar suas comunidades a enfrentar as questões climáticas que passaram a fazer parte do seu dia a dia, como períodos alternados de secas extremas e enchentes.

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Qualificação para entender as mudanças climáticas

Quem aproveitou a experiência foi Rafaela Pimentel Amaral, 31 anos, responsável pelo Espaço Buriti, do Parintins (AM). Ela explica que a formação ajudou a entender a complexidade das mudanças climáticas e os impactos sobre sua região.

“Foi uma imersão para ouvir e também ser desafiada. Então, foi um momento que ajudou a entender o que acontece não só na Amazônia ou no Brasil, mas no mundo”, explica.

Coletivos do Amazonas. Foto: Divulgação AIHHUAM

Depois da formação, Rafaela organizou rodas de conversas com jovens na Orla da União, bairro periférico da cidade de Parintins. Além das conversas, promoveu intervenções artísticas nos flutuantes buscando interagir com os moradores e levar para eles exemplos de como as mudanças climáticas impactam suas atividades. “Fizemos um evento dentro da Orla da União com um vídeo. Foi muito bom ver crianças, jovens e adultos se conscientizando do que acontece no mundo com relação às mudanças climáticas e relacionar isso às situações da vida diária deles, como o descarte inadequado de lixo, por exemplo”, afirma Rafaela.

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Nessa experiência, os moradores puderam ser ouvidos – da dona de casa aos pescadores, verdureiros e os que vendem frutas e outros alimentos. “Com certeza, promovemos um grande impacto cultural nessa comunidade, permitindo que tivessem o conhecimento necessário para ver como mudar sua realidade”, finaliza.

A atuação prática foi favorecida pelo fato de que ao fim da formação, em outubro, cada coletivo recebeu apoio financeiro para compra de equipamentos, no valor de R$3 mil, e para a realização de ações práticas de conscientização em suas comunidades, com o apoio financeiro adicional de R$1,5 mil. Além da formação e do apoio, a imersão em Manaus reuniu representantes de diferentes municípios, fomentando redes de colaboração, troca de experiências e articulação.

Coletivos do Amazonas. Foto: Divulgação AIHHUAM

Dessa forma, cada projeto ampliou seu impacto, estimulando a construção de soluções locais com foco na sustentabilidade, na justiça climática e na valorização das expressões artísticas periféricas.

“Ao investir na formação e no fortalecimento de coletivos culturais, o projeto reconhece o território como espaço de potência criativa e promove o protagonismo comunitário na luta ambiental. A metodologia é baseada em educação para a ação, colaboração em rede e sustentabilidade com autonomia, conectando cultura, juventude e meio ambiente”, explica Mel Angeoles, vice-presidente da AIHHUAM.

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Sobre a AIHHUAM

A Associação Intercultural de Hip Hop Urbanos da Amazônia (AIHHUAM) foi fundada em 2013 para atuar na promoção da cultura urbana como instrumento de transformação social, econômica e ambiental na região. Por isso, promove formações online e presenciais com práticas que integrem conhecimento sobre os problemas das comunidades por meio da música e da arte.

Mulheres indígenas são linha de frente na luta contra o fogo, do Pantanal à Amazônia

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Brigadistas indígenas de vários povos exibem seus diplomas ao final do curso de capacitação em tecnologia, em Roraima. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.

Em 2023, o Pantanal ardeu em chamas — no total, mais de 600 mil hectares foram queimados ao longo do ano, segundo o MapBiomas. Luciana Correia da Silva, brigadista indígena Kadiwéu, estava lá. Em meio à fuligem e ao calor, enquanto a fumaça avançava sobre as árvores e afugentava os animais, ela agia para reverter esse cenário.

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“Eu nunca tinha visto um fogo daquela proporção; vinha de todos os lados, do solo e das copas dos ‘carandazeiros’ [áreas com grande concentração de carandá, palmeira da espécie Copernicia alba]. Fiquei muito apreensiva com o que poderia acontecer comigo”, disse ela à Mongabay.

Luciana havia dado à luz naquele ano, mas o fogo atrapalhou seus planos. À época do relato, seu bebê tinha apenas seis meses de vida e ficou sob os cuidados de sua cunhada na aldeia Tomázia, na Terra Indígena (TI) Kadiwéu, próxima ao município de Bonito, no Mato Grosso do Sul. Tudo isso para que ela pudesse somar forças à luta travada contra os incêndios na mata.

A brigadista Luciana Correia (à direita) ao lado da colega de equipe, Neudines Félix. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.

Hoje, dois anos depois, ela fala na posição de chefe de esquadrão da Brigada Kadiwéu 3, na qual coordena um grupo de seis indígenas que usam a experiência e o conhecimento para combater incêndios no Pantanal. Luciana é uma das poucas mulheres em atividade no campo — além dela, há apenas outra colega na ala feminina da equipe.

A atuação das duas, no entanto, faz parte de uma tendência observada em diversos pontos do território brasileiro: diante dos riscos crescentes que o fogo impõe aos biomas nacionais, mulheres indígenas têm assumido um papel de protagonismo no combate às chamas. Além de cumprirem uma função ambiental, essas novas iniciativas permitem que muitas brigadistas se desvencilhem dos cuidados domésticos — trabalho que, muitas vezes, exercem por obrigação.

Pelo caminho, além dos riscos à saúde, há outro problema: a estigmatização. Ao chegarem à linha de frente, elas realizam o que muitos consideram um “trabalho de homem”, sobretudo por exigir maior resistência física. Além de confrontar o estigma, elas dominam tarefas que também envolvem uma visão estratégica para o mapeamento territorial, a redução do desmatamento e a adoção de ações contra tudo o que possa comprometer o equilíbrio entre a vida e a natureza.

Uma selfie de brigadistas indígenas do povo Wapichana durante trabalho de campo de combate aos incêndios. Foto: arquivo pessoal / Mongabay

Luciana revela que “nunca duvidou” de suas capacidades. Ela ingressou na brigada atraída pela possibilidade de uma renda estável. Mas, ao longo do tempo, descobriu um sentido muito mais profundo para a atividade — agora, a exerce com segurança, reconhecendo suas próprias habilidades. “Me encontrei na brigada; quero continuar envolvida nesse espaço.”

Com o objetivo de fortalecer a autonomia de brigadistas e comunicadores indígenas que enfrentam o fogo, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR), em parceria com o Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, vêm oferecendo pequenos cursos de comunicação e de gestão do Sistema de Informação Geográfica (SIG) — ferramenta que combina dados e mapas para avaliar o território de forma integrada, detectar vulnerabilidades e direcionar medidas de proteção.

As oficinas, realizadas ao longo deste ano, buscaram aliar o uso da tecnologia ao conhecimento ancestral, sobretudo entre as mulheres, segundo o Ipam. Em junho, as atividades foram levadas à Terra Indígena Krikati, no estado do Maranhão, enquanto novos módulos chegaram a Roraima no mês de setembro.

Leia também: Amazônia x Pantanal: conheça as principais diferenças e similaridades entre os biomas

As aulas mais recentes contaram com a participação de pelo menos 18 integrantes da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Eles representaram seis povos originários do estado: os Macuxi, os Wapichana, os Waiwai e os Taurepang; também participaram os Terena e os Kadiwéu, do Mato Grosso do Sul. Foi durante esse período que Luciana, com apoio financeiro e logístico do Instituto Terra Brasilis, pôde viajar até o norte do Brasil para aprofundar seus conhecimentos sobre as funcionalidades do SIG.

“Acabei me descobrindo; hoje gosto muito do que faço”, disse a indígena Kadiwéu. Ela explica que deseja ver cada vez mais mulheres indígenas aprovadas nos processos seletivos da brigada, realizados a cada seis meses.

Segundo a profissional, a jornada é desafiadora: diante da alta procura, muitas mulheres reprovam nas provas de resistência física, já que disputam as vagas em pé de igualdade com candidatos homens. Isso, porém, nunca as intimidou.

Brigadistas indígenas de vários povos exibem seus diplomas ao final do curso de capacitação em tecnologia, em Roraima. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.

Conhecimento tradicional e tecnologia são aliados na luta contra o fogo

Com uma área de 539 mil hectares, que se estendem entre o Pantanal e o Cerrado, a Terra Indígena Kadiwéu, de Luciana, abriga seis aldeias e conta com duas brigadas mantidas pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Desde 2011, as unidades de brigadistas Kadiwéu são compostas exclusivamente por profissionais indígenas.

Segundo seus membros, as condições observadas em 2025 têm exigido menos saídas a campo para ações de enfrentamento. O ano anterior, todavia, trouxe maiores desafios: o Monitor do Fogo, do MapBiomas, registrou 1,9 milhão de hectares afetados diretamente no Pantanal, o que representa um aumento de 64% em relação à média dos últimos seis anos. O drama ambiental só foi maior em 2020, quando 2,3 milhões de hectares foram queimados.

Nesse contexto, as secas extremas, que incidiram sobre o bioma no mesmo período, também deixaram os ecossistemas mais expostos ao surgimento e à propagação de focos de fogo, o que aumentou a necessidade de um número maior de brigadistas. Luciana espera que as barreiras sociais sejam superadas a partir da demanda crescente por novos profissionais.

“Há certa resistência cultural. Quem define quem sai [a campo] para trabalhar são os homens, mas acredito que isso vá mudar. Na medida em que mais mulheres assumirem posições de chefia, será natural vê-las nesses cargos”, disse. Por sua experiência, ela espera abrir caminho para que sua filha e as futuras gerações sigam seus passos.

Em contato com outras mulheres indígenas na TI Raposa Terra do Sol, a chefe de brigada aprendeu a fazer mapas que podem auxiliar os Kadiwéu de diversas formas. Ela destaca a criação de um calendário para o Manejo Integrado do Fogo (MIF), descrito pelo governo federal como um “modelo de planejamento e gestão que associa aspectos ecológicos, culturais, socioeconômicos e técnicos” para o combate aos incêndios.

Luciana explica que essa abordagem “preserva os ecossistemas, valoriza o conhecimento local e garante segurança a quem atua em zonas rurais e áreas protegidas”.

Voluntária exibe mapas climáticos feitos à mão durante cursos sobre o Sistema de Informação Geográfica (SIG), em Roraima. Foto: Ipam/divulgação.

O curso de capacitação em SIG também pode aliar conhecimentos, somando a tecnologia geoespacial aos hábitos tradicionais das brigadistas — que registram, muitas vezes à mão, a localização de rios, igarapés, aldeias e tipos de vegetação. Dessa forma, os membros da brigada podem converter as informações em papel em mapas digitais, o que facilita o planejamento e a supervisão de ações mitigadoras, bem como o diálogo com outras instituições.

Além de reunir a memória e a ancestralidade de muitas mulheres, a criação de mapas e de outras ferramentas técnicas também confere credibilidade ao trabalho que exercem — servindo como evidência para distinguir queimas prescritas (ou controladas) de incêndios sem controle.

Esses recursos podem ser úteis diante de eventuais críticas à atividade, como no caso dos brigadistas de Alter do Chão, no Pará — em 2019, os voluntários foram presos sob a acusação de iniciar incêndios criminosos na região de forma proposital, em um processo cercado de controvérsias jurídicas e de denúncias de falta de provas.

Apesar dos avanços, Luciana diz que a base de sua brigada ainda não dispõe de uma estrutura adequada. Isso inclui a falta de um sistema de monitoramento próprio, o que leva seu time a recorrer a aparelhos pessoais de celular durante as atividades de monitoramento. O escritório que utilizam conta apenas com um computador e um serviço simples de internet custeado pela equipe.

“Precisamos de apoiadores para melhorar as condições de trabalho na aldeia; só assim poderei aplicar, na prática, o que aprendi [durante o curso] em Roraima”, disse.

Guardiãs do território: entre os desafios e a resistência

Durante os estudos em Boa Vista, capital roraimense, Luciana conheceu Ana Paula Levi, do povo Wapichana, que atua como coordenadora da brigada indígena comunitária de Roraima. Ela relata que Ana Paula vive uma “realidade diferente”, cercada por telões e computadores altamente equipados. Lá, puderam trocar experiências sobre suas diferentes perspectivas e histórias de vida.

A gestora Wapichana iniciou seus trabalhos como brigadista escondida de seu pai, que não aceitava ver a filha à frente de um “trabalho masculino”. A voluntária, que também é técnica de enfermagem, não se deu por vencida: hoje em dia, ela lidera mais de 63 brigadistas, entre homens e mulheres, divididos em seis grupos; as equipes estão em atividade no estado desde 2012.

Uma das subdivisões leva o nome de Pataxibas e atua na região do Alto Cauamé, contando com os esforços de 14 mulheres das etnias Wapichana, Macuxi e Waiwai. Quando saem para combater o fogo, as brigadistas também recorrem à comunidade para o cuidado de seus filhos pequenos.

Além do trabalho de campo, elas se dedicam a iniciativas de educação ambiental e de reflorestamento, levando o tema às escolas e promovendo ações de conscientização. O trabalho é facilitado pela temporada de chuvas, que contribui para reduzir o risco de incêndio.

Mulheres indígenas da brigada Pataxibas tomam nota durante um ciclo de capacitações. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.

De sua sala, Ana Paula monitora os territórios indígenas em tempo real, observando focos de fogo, áreas queimadas, fontes de água e zonas em processo de reflorestamento. A atuação na região amazônica é fundamental, segundo ela, devido à ampla biodiversidade vegetal do bioma. O sistema utilizado pela líder Wapichana e seus colegas reduziu o tempo de resposta às crises ambientais.

Mesmo assim, as brigadas seguem um calendário tradicional próprio, que precisa estar em constante adaptação às alterações bruscas do clima. “O inverno está chegando mais cedo. E o calor, agora, é insuportável”, disse Ana Paula. Ela explica que o impacto é visível nas áreas rurais e nos igarapés, onde as nascentes perdem força, o que causa danos ao plantio de mandioca, banana, pimenta e graviola, entre outros alimentos; já os animais sofrem mais com a seca.

Ela também cita a atenção que suas brigadistas dão ao avanço do setor da soja nas imediações dos territórios indígenas. “As mulheres são mais observadoras: estendem o olhar para o que se passa ao redor do fogo. Cuidam umas das outras, são unidas, lembram-se de levar água e comida, tudo enquanto prestam atenção aos animais que fogem das chamas.”

Segundo Sineia do Vale, coordenadora de gestão territorial do CIR, o Prevfogo oferece treinamentos para futuros brigadistas desde 2012. Já o conselho para o qual trabalha tem atuado para atrair novos recursos para a compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), além do fortalecimento de fundos destinados ao pagamento de bolsas aos brigadistas.

Para atender às necessidades físicas e psicológicas das mulheres, há diretrizes específicas para brigadistas gestantes e em período menstrual. “Ficar grávida na brigada não é um problema. Nesse período, elas participam apenas de palestras ou de atividades que não exigem o combate direto [ao fogo]”, disse Sineia. Atualmente, a brigada Pataxibas aguarda a construção da sua própria sede administrativa, que incluirá serviço de internet via satélite.

Para a coordenadora, esses avanços podem aumentar a conectividade entre as profissionais indígenas de diferentes brigadas, ampliando o alcance do monitoramento coletivo.

“É importante dizer: as mulheres são bastante ‘sensíveis’ às questões climáticas. Elas lidam diretamente com a floresta, coletando plantas medicinais e sementes para o artesanato. Sabem o nível do rio, os períodos ideais para plantar e colher — e se o tempo vai mudar ou não.”

Um futuro de luta por melhorias

Pelo alto grau de imprevisibilidade do comportamento do fogo, Sineia explica que as brigadas “precisam de apoio e treinamento constantes”. Ao mesmo tempo, argumenta, é necessário ir além e avaliar a qualidade do ar para garantir os cuidados básicos à saúde comunitária. Pensando nisso, o Ipam, em parceria com o CIR, instalou três sensores nas TI Serra da Moça, TI Raposa Serra do Sol e TI Serra da Mata, em Roraima, para monitorar o nível de poluição.

Entre julho de 2020 e maio de 2024, o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Roraima, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), consolidou, em relatório, dados qualitativos gerais, identificando dois picos significativos de poluição relacionados às queimadas locais e em regiões vizinhas. De um total de 1.290 dias analisados, os patamares de poluição atingiram níveis prejudiciais à saúde humana em quase 20% do período.

Ao falar do futuro, Sineia adota um tom realista. Ela cita a persistência das altas temperaturas e das secas, além de possíveis novos picos de queimadas pelo Brasil. Defendendo a criação de novas políticas públicas, ela cobra recursos para manter as brigadas, além de equipamentos específicos — como veículos, mochilas com filtro de água e assopradores. “Sem isso, há risco até para os brigadistas experientes”, disse.

Brigadista na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.

Consultado pela Mongabay, o Prevfogo declarou que trabalhar com brigadas indígenas traz “vantagens únicas, já que esses povos dominam profundamente seus territórios, conhecem as espécies vegetais, os padrões climáticos, os solos e as rotas naturais do fogo”.

“As brigadas indígenas podem agir rapidamente, realizando um ‘primeiro ataque’ assim que é identificado um foco de incêndio florestal, o que garante uma resposta mais ágil. Em geral, como atuam em áreas remotas, aguardar ajuda externa leva muito tempo, aumentando os riscos e os impactos”, disse a assessoria de comunicação do órgão. “Temos percebido, ao longo desses anos, que diversos indígenas, a partir do ingresso como brigadista, buscam aprimorar suas capacidades. Vão crescendo dentro dos cargos do Programa de Brigadas, se tornando lideranças, chefes de brigadas, supervisores e instrutores.”

De acordo com Ana Carolina Pessôa, pesquisadora do Ipam, porém, há “muitos outros desafios”. Ela explica, em entrevista, que a entrega de equipamentos varia conforme a verba destinada a cada projeto, ao mesmo tempo em que alerta: “os orçamentos são limitados.”

Pessôa também é uma das coordenadoras do Projeto Gestão do Fogo na Amazônia, responsável por um relatório, divulgado em 2025, que reúne mais de 120 entrevistas com profissionais que atuam na prevenção e no combate a incêndios florestais na Amazônia.

O levantamento revela um total de 382 brigadas na Amazônia Legal; destas, 51% são de responsabilidade estadual e municipal. “As brigadas federais correspondem a 26% do total. Embora as do Ibama sejam bem estruturadas, enfrentam dificuldades devido à falta de equipamentos fora do período contratual. Já as brigadas voluntárias lidam com escassez de recursos, o que pode comprometer sua capacidade de resposta”, diz a pesquisa.

A acadêmica também defende a ampliação de parcerias entre brigadas, comunidades, órgãos públicos e organizações da sociedade civil. Segundo ela, mudanças desse tipo fazem com que tudo “funcione melhor”. Olhando adiante, o Ipam busca novas alianças e editais para dar continuidade aos esforços de apoio às ações de brigadistas em todo o país.

“Um dos principais desafios para expandir o projeto é garantir recursos financeiros contínuos”, disse.

*Contém informações da repórter Julia Moa, da Mongabay

A violência é uma linguagem

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Capa de A caligrafia de Deus (Lazuli, 2011), com alteração

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

O primeiro artigo científico que escrevi na vida foi durante o 4º período da graduação, um texto sobre os absurdos presentes no conto A caligrafia de Deus, de Márcio Souza. O principal era como a violência surgia de forma definitiva, como se o cenário descrito, uma Manaus tomada pelo surto populacional trazido pela instalação da Zona Franca, fosse uma carta aberta contra toda forma de civilidade.

Acho incômodo não apenas o fato da violência e seus códigos serem o esqueleto da narrativa, mas que o discurso de Souza abrace um elitismo típico da camada “intelectual” da cidade, que responsabiliza o pobre por sua pobreza, como se o destino fosse algo inescapável a quem não tem no espírito as sensibilidades do intelecto, pessoas condenadas por si mesmas a uma vida sem dignidade, não como se fossem também vítimas dos interesses de uma outra espécie de elite:

“Manaus é odiada talvez por não cumprir com o que promete. Engana as gentes das barrancas, os inocentes dos rios.

Engana os que chegam de muito mais longe, carregados de misérias e pesadelos.

Essa gente enganada não perdoa a cidade, e castiga Manaus, cada uma delas fazendo crescer o tumor canceroso em que foi transformada a velha e orgulhosa capital dos barés.

Cidade degenerada, de alegria favelada acostumada a se contentar com pouco”.

Apresentação, A caligrafia de Deus

Márcio Souza deixou para o mundo uma contribuição literária tremenda, mas todos temos nossos limites. O dele é o mesmo das elites brasileiras: a incapacidade de enxergar o mundo fora das lentes do erudito, sem entender que o mundo é construído por muitas mãos. Esquecem porque as suas não estão sujas de terra. Esquecem que, na capital dos barés, os barés sequer têm vez.

Curiosamente, Souza também enxerga que os protagonistas de Caligrafia, mesmo dentro daquele universo, são representados não como pessoas, mas como personagens em um teatro do qual mal têm consciência. Minha crítica ao texto de Souza foca justamente no fato de o autor não acreditar que pessoas em situação de vulnerabilidade são capazes justamente de ter consciência, mas ele entende bastante dos mecanismos perversos que movimentam esse teatro.

Acontece que suas personagens, uma moça baniwa chamada Izabel Pimentel e Alfredo Silva, vulgo Catarro, um rapaz que veio do interior em busca de oportunidades em Manaus, são envolvidos pelo crescimento desregulado que acometeu Manaus com a chegada da Zona Franca. Inevitável associá-los ao perfil descrito por Souza em sua apresentação do livro de mesmo nome do conto, que atraídos pelas promessas de grandeza da capital, são por ela traídos e contra ela tramam vinganças.

Acontece que ambos são traídos, mas privados de consciência, não tramam vingança alguma. Pelo contrário, tornam-se peças num jogo maior que eles mesmos, tão grande que sequer enxergam os jogadores que os movem. Na verdade, são pessoas que, ao longo da vida, aprendem desde cedo que a violência também é uma linguagem.

Chamo de linguagem porque os códigos da violência sempre estiveram moldando o mundo que os rodeia, de modo que a naturalizam e sequer entendem-na como violência.

“Deus escreve certos por linhas tortas” é a justificativa que Izabel aprende desde nova para compreender os abusos da vida, seja no convento de sua cidade natal, Iauaretê-Cachoeira, ou nos bordéis de Manaus, onde conhece Alfredo e com ele se relaciona.

Associada à vontade divina, a violência permeia suas vidas desde a concepção: pais violentos, um ambiente ancestral carcomido por tradições coloniais com o qual não se reconhecem, uma promessa de vida melhor sob as luzes da cidade grande.

O desengano não acontece em momento algum, pois a mecânica da narrativa os coloca como incapazes até de perceber a armadilha urbana em que caíram. Alfredo, levado pela necessidade, acaba envolvido em pequenos atos ilícitos, como pirataria, e no momento em que praticou furto, se tornou moderadamente famoso.

Por conta disso, quando a polícia, mais uma força de coerção do que de fato segurança, precisava de um bode expiatório para mostrar serviço ou acalmar os ânimos públicos com relação à violência que resulta do crescimento louco de uma metrópole, era o rosto surrado de Catarro que exibiam na televisão.

Comissário Frota, a força policial na narrativa, tinha em Catarro seu alvo favorito: frágil, bobo, fácil de capturar. Para justificar a própria ineficácia, prendia o pobre-diabo e mantinha a opinião pública satisfeita, pois ele próprio, instrumento do Estado, também tinha um papel a cumprir no teatro da violência.

Até o momento em que uma operação policial mais… efetiva foi necessária, e já não bastava capturar qualquer um para servir de bode. A narrativa já começa com os corpos de Alfredo e Izabel expostos, perfurados por balas, e em retrospecto, suas histórias são contadas e vemos que, vítimas da máquina de moer carne de pobre que é uma capital, os dois não tinham parte nos crimes pelos quais foram condenados.

O mais absurdo na narrativa não é o fatídico destino desses sujeitos, mas como a violência aparece como um traço da personalidade da capital, inescapável, inquestionável, irreconhecível por ser tão familiar, tal qual as linhas escritas por Deus.

Digo o mais absurdo, mas frequentemente me questiono se é isso mesmo quando ligo a televisão e vejo a celebração de uma chacina em favelas. Entenda, se em 2025 ainda pensamos que qualquer crítica a uma ação policial é sinônimo de defesa da criminalidade, eu afirmo que este texto não é para você. Sugiro fechar esta página e voltar às mensagens massificadas em seu Whatsapp, mas duvido que, se pensa assim, sequer teria chegado tão longe na leitura.

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Não é absurdo, pois a violência é sim a linguagem que nosso país conhece fluentemente. Me perguntava como era possível que as pessoas na narrativa de Márcio Souza olhassem para os corpos de Izabel e Alfredo com uma curiosidade mórbida, certos de que haveria algum tipo de ser humano que merecia ser entregue às moscas daquela forma, mas tenho a mesma reação aqui, no mundo real, na sagrada capital dos barés de Márcio Souza.

Celebrar a morte como um símbolo de uma sociedade respeitável é a manifestação máxima do dialeto-violência. Ainda sou assombrado pelas reportagens que mostravam pessoas lavando litros de sangue em pisos de alvenaria após a chacina do Jacarezinho em 2021, assim como não esqueço as mães desesperadas em função do massacre no Compaj, em 2017, pois não acredito que algum tipo de paz ou segurança seja construído em cima de tanta brutalidade.

Leia também: Quinta do Mestre e o ato sagrado de contar histórias

Não vemos essa brutalidade na Faria Lima, mesmo depois de confirmada a ligação entre empresários influentes com o crime organizado. Não vemos essa brutalidade quando um ex-deputado recebe policiais cumprindo seu dever com tiros e granadas. Não vemos essa brutalidade quando um empresário influente de Manaus faz o mesmo com a polícia federal às portas de seu condomínio de luxo, investigado por desvio de recursos destinados ao combate à Covid.

Aliás, não vemos sequer a celebração do desmonte de uma célula ligada ao crime organizado na Bahia, no início do mês, sem que um massacre fosse deflagrado pelas forças policiais. Afinal, isso não rende pauta, isso não rende mídia.

O fato é que a violência é o que sempre foi: um instrumento usado pelas forças instauradas para garantir a estabilidade de um sistema que favorece poucos. O Estado brasileiro não é contra a violência, só é possessivo com relação ao seu uso. Se não é o Estado que seleciona quem usa essa violência, chamam de vandalismo, de barbaridade.

Nesse cenário, a violência é menos um fenômeno que surge da desordem social e mais uma ferramenta de coerção, uma espada de dois gumes empunhada por um cavaleiro ciumento que frequentemente se corta na própria lâmina, mas com poder de decisão sobre que perfil merece viver e qual merece morrer. É o símbolo do que Achille Mbembe chama de necropolítica.

O que se celebra não é estarmos um passo mais próximos de uma sociedade segura, mas o derramamento de sangue que uma paz falsa exige, só mesmo para garantir as palmas nesse teatro. Paz para quem? Afinal, o crime ainda se organiza, e não apenas nas favelas, mas são elas que pagam o preço com vidas a quilo. E não, não interessa se essas vidas são de criminosos, elas são apenas a justificativa para que a bala siga perdida, mas com alvo certo. Alvos com cor, com CEP, com uma renda sub-humana, mas sem nomes. Talvez um apelido, talvez um escarro.

Porque quando só entendemos a violência, tudo o que falamos é morte.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Mosca-da-carambola é detectada em armadilha no Amazonas; Mapa monitora caso

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O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) identificou espécimes suspeitos da mosca-da-carambola durante monitoramento de rotina em Rio Preto da Eva, na Região Metropolitana de Manaus. A possível ocorrência da praga quarentenária foi registrada em uma armadilha instalada pela Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA).

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O material coletado já foi enviado ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária, em Goiânia (LFDA-GO), para análise. Mesmo antes da confirmação, equipes iniciaram medidas fitossanitárias previstas na Portaria SDA nº 776/2025 e no manual de procedimentos para esse tipo de ocorrência.

mosca-da-carambola
Mosta-da-carambola. Foto: Danilo Nascimento

A mosca-da-carambola (Bactrocera carambolae) é uma praga de alto risco econômico. Embora esteja presente no Brasil, sua ocorrência é restrita a Roraima, Amapá e a uma área específica do Pará, na divisa com o Amapá.

O inseto ataca principalmente caramboleiras, mas também afeta manga, goiaba, acerola, tomate, mamão, pimenta, jambo, caju e laranja.

Introduzida no país pelo Amapá em 1996, a praga é monitorada pelo Mapa por meio do Programa Nacional de Vigilância da Mosca-da-Carambola, que mantém cerca de 11 mil armadilhas distribuídas em áreas estratégicas do Brasil, conforme o risco de dispersão.

Governo de Roraima inicia força-tarefa contra mosca-da-carambola em Boa Vista_Ascom Aderr

A captura no Amazonas ocorreu em uma dessas armadilhas, dentro das ações permanentes de monitoramento da Defesa Agropecuária.

*Por g1 AM

Balaio da Oxum: 10 anos de diversidade religiosa e justiça climática na Amazônia

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Evento que homenageia entidade Oxum reúne povos de religiões de matriz africana na Ponta Negra para caminhada e manifestações culturais. Foto: Alonso Junior

Na próxima segunda, (08), o Complexo Turístico da Ponta Negra, zona Oeste de Manaus, será palco da celebração dos 10 anos do Festival Cultural Balaio da Oxum, um dos maiores encontros culturais e religiosos da Amazônia. Com o tema “Águas de Retomada: naturezas sagradas, terras demarcadas”, o evento deve reunir milhares de integrantes de povos de terreiro, lideranças indígenas e sociedade civil, do Amazonas e de outros estados brasileiros, em defesa da diversidade religiosa e do meio ambiente.

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Como todos os anos, a programação inicia às 16h com a concentração no estacionamento da Ponta Negra, de onde o público sairá por volta das 17h em uma caminhada contra a intolerância religiosa até a praia. Celebrado anualmente, o evento homenageia Oxum, entidade reconhecida como a orixá da fertilidade, das águas doces e do amor.

Festival Balaio da Oxum tem como uma de suas principais atrações uma caminhada contra a intolerância religiosa até a praia. Foto: Luiz Almeida

Depois da caminhada, já na praia, acontece o xirê, um momento religioso que saúda Oxum e outras divindades por meio de cânticos, tambores e danças ao ar livre. Como parte do momento ritualístico e do compromisso ambiental do festival, também é feita a entrega de oferendas nas águas do Rio Negro, preparadas sempre com materiais biodegradáveis, reforçando a mensagem de cuidado com os ecossistemas amazônicos.

“Chegamos à nossa décima edição graças à união dos povos de axé. Viemos lembrar a todos do cuidado necessário com nossas terras e nossos rios, pois eles são sagrados para a vida”, destaca Agonjaí Flor de Navê, presidenta da Associação Brasileira do Balaio da Oxum (AbraOxum) e uma das organizadoras do evento. “Por isso, seguimos na luta pela valorização do povo de axé, dos povos indígenas e dos quilombolas. Estamos juntos”.

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Um dos maiores encontros culturais e religiosos da Amazônia, o festival Balaio da Oxum é totalmente gratuito e aberto ao público. Foto: Luiz Almeida

Neste ano, o Festival Cultural Balaio da Oxum destaca em seu tema também o papel das águas e dos territórios sagrados na agenda climática e a preservação da natureza, em diálogo com as discussões globais da COP30 e as pautas levantadas pelas populações tradicionais, como a demarcação de terras indígenas e a titulação de territórios quilombolas.

“O Balaio da Oxum é uma resposta viva ao racismo religioso, à destruição da natureza e ao apagamento das nossas histórias. Quando oferecemos flores a Oxum, também estamos semeando um futuro de dignidade para nossos povos”, completa Flor de Navê.

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Programação

Após o xirê, a partir das 19h, começa a programação musical do festival em um palco montado na praia, reunindo shows de Márcia Siqueira, Mara Lima, Márcia Novo, James Rios, Papo de Preto, Phamela dos Anjos, Escola de Samba do Amor, além dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso e da Bateria Furiosa da Reino Unido da Liberdade.

A programação é totalmente gratuita e aberta ao público. Em sua décima edição, o Balaio da Oxum se consolida como um marco de resistência, fé e mobilização socioambiental na Amazônia, fortalecendo a luta por territórios demarcados, valorização dos povos tradicionais e justiça climática.

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Balaio da Oxum se consolida como um marco de resistência, fé e mobilização socioambiental na Amazônia. Foto: Ed Henri

Serviço

O quê: Festival Cultural Balaio da Oxum na Ponta Negra

Quando: 8 de dezembro (segunda)

Horário: A partir das 16h

Onde: Complexo Turístico da Ponta Negra – Manaus (AM)

Entrada: Gratuita

UFPA destaca protagonismo científico da Amazônia em reunião com o presidente Lula

Reitor da UFPA participou da reunião plenária do CDESS junto com o presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert

O reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gilmar Pereira da Silva, e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), participou da última reunião do Colegiado neste ano, realizada na última quinta-feira, 4, no Palácio do Itamaraty, em Brasília.

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O encontro contou com a participação do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e reuniu cerca de 250 pessoas, entre dirigentes de instituições científicas, representantes governamentais, da sociedade civil e especialistas dedicados à construção de políticas para o desenvolvimento sustentável do país.

Reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) reuniu cerca de 250 pessoas. Foto: Ricardo Stuckert

Na ocasião, o CDESS apresentou ao presidente um conjunto de contribuições estratégicas consolidadas ao longo da COP 30, realizada em Belém. Entre os destaques, está o Relatório das Ações do Conselho durante a conferência, que inclui análises, recomendações e lançamento do livro digital da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia, publicado em português e inglês, com o objetivo de ampliar o alcance internacional da produção científica amazônica.

A UFPA foi lembrada pela participação ativa da Cúpula dos Povos, fortalecendo o diálogo com movimentos sociais e organizações da sociedade civil, e pela atuação marcante na Aldeia COP, espaço liderado por movimentos indígenas que debateu políticas ambientais e direitos territoriais, além de um estande na Zona Azul, área restrita de negociações oficiais da ONU na COP 30.

O reitor destacou, ainda, que a presença da UFPA nos principais espaços da COP 30 demonstra o papel estratégico da região. Foto: Ricardo Stuckert

Para o reitor da UFPA e conselheiro do CDESS, a reunião desta quinta-feira representou um passo importante para consolidar a ciência amazônica como eixo estruturante das políticas públicas de clima, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.

Leia Mais: Universidade paraense é destaque internacional em produção científica sobre biodiversidade

“Entregamos ao presidente Lula um conjunto de propostas construídas coletivamente por instituições científicas da Amazônia. Nossa participação na COP 30 mostrou que a UFPA tem capacidade, legitimidade e compromisso para contribuir com decisões globais. A ciência sobre, na e para a Amazônia precisa estar no coração das políticas nacionais, e Belém será o palco dessa transformação”, afirmou o reitor.

Papel estratégico da UFPA

O reitor destacou, ainda, que a presença da UFPA nos principais espaços da COP 30 demonstra o papel estratégico da Universidade no enfrentamento dos desafios ambientais e sociais da região.

“Ter um estande na Zona Azul nos permitiu levar a voz da Amazônia ao centro das negociações internacionais. Isso reforça que a produção científica da UFPA está conectada com o que há de mais avançado no debate climático global”, completou.

Para reitor da UFPA, universidade teve papel estratégico nas principais discussões da COP30 para o enfrentamento dos desafios ambientais. Foto: Alexandre de Moraes/Divulgação UFPA

Na avaliação do reitor, com a entrega das contribuições ao presidente Lula, a UFPA reforça seu papel histórico na liderança científica da Amazônia e sua disposição em colaborar, de forma contínua, com a formulação de políticas públicas estruturantes para o país. “A Universidade seguirá atuando nas agendas de clima, conservação, educação superior, direitos sociais e desenvolvimento sustentável”, garantiu.

Leia também: Ufam e UFPA são as únicas do Norte entre as universidades federais que mais produzem pesquisa

*Com informação da Universidade Federal do Pará

Povos indígenas isolados não têm direito a consulta prévia, afirma União

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Nota técnica da DPU conclui que povos indígenas isolados não têm direito a consulta livre, prévia e informada. Foto: Acervo/OPI

A Defensoria Pública da União (DPU) divulgou uma nota técnica afirmando que a consulta livre, prévia e informada, instrumento previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata dos povos indígenas, não se aplica a comunidades tradicionais e povos originários isolados. De acordo com o órgão, o próprio isolamento já configura uma resposta negativa para qualquer tipo de empreendimento.

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O defensor público Renan Sotto Mayor reconhece a importância do instrumento, mas diz que ele é inaplicável no caso dos povos isolados.

Defensor Sotto Mayor reconhece importância da consulta livre, mas afirma que instrumento é inaplicável aos povos isolados. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

” A consulta [prévia] é sempre fundamental. Agora, quando você fala de povos indígenas isolados, a consulta já está feita. E a resposta é não”, frisa Sotto, que é titular do recém-criado Ofício de Povos Isolados e de Recente Contato, formalizado em outubro e que originou a nota técnica.

Arcabouço

A posição da DPU não é inédita no campo do direito e das normas. Os regimentos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Ministério dos Povos Indígenas já estabeleceram o princípio de não contato e, em 2020, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) aprovou uma resolução reconhecendo a impossibilidade de fazer consultas a povos isolados. Dois anos depois, foi a vez de o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) adotar a mesma posição. Mesmo assim, a nota técnica foi bem recebida por quem atua na área. 

indígenas isolados
Indígena que ficou conhecido como homem do buraco viveu isolado por 26 anos – Foto: Acervo/Funai

Leia também: Organizações indígenas lançam protocolos de consulta do Acampamento Terra Livre 2024

“São documentos que podem influenciar a atuação da Justiça Federal em casos envolvendo esses grupos. É um adensamento desse arcabouço jurídico de proteção”, argumenta Fábio Ribeiro, coordenador executivo do Observatório dos Povos Indígenas Isolados (OPI).

O coordenador geral de Povos Isolados e de Recente Contato da Funai, Marco Aurélio Milken Tosta, tem opinião parecida. “Por mais que já existam normativas, é muito importante a gente reforçar esses entendimentos de tempos em tempos, em especial em instâncias diversificadas. Essa instância da DPU representa um fortalecimento relevante para nossa atuação e para a defesa dos direitos e promoção dos direitos dos povos indígenas isolados.”

A inadequação da consulta prévia para povos isolados está baseada em outro princípio do direito internacional, a autodeterminação dos povos. Sotto Mayor lembra que o isolamento é uma escolha. “Esses povos não estão isolados no mundo idílico. Eles, normalmente, estão em fuga. Eles têm o histórico de extermínio”. 

Povo Tanaru

É o caso do povo do Tanaru, etnia que deixou de existir depois da morte do homem que ficou conhecido como índio do buraco, em 2022. Ele escolheu viver sozinho, isolado, por 26 anos, em uma ilha de Floresta Amazônica de 8 mil hectares, no estado de Rondônia. Ele foi o único sobrevivente de uma série de massacres ocorridos dentro de uma fazenda, a Fazenda Modelo, na primeira metade dos anos de 1990. 

...
indígenas isolados. Foto: divulgação

O extermínio dos Tanaru é considerado um dos casos mais emblemáticos de genocídio. Levantamento da organização não governamental Survival International estima que mais de 90% dos povos isolados do mundo vivem sob ameaça de setores extrativistas legais e ilegais. 

Leia Mais: Relembre a história do “índio do buraco”, símbolo da resistência dos indígenas isolados

A ONG aponta que em todo o globo existem 196 povos indígenas isolados. O Brasil registra, segundo a Funai, 115 desses povos.

“O Brasil, como o país que tem a maior quantidade de povos indígenas isolados do mundo, também tem que ter uma proteção gigantesca para essas pessoas. Um erro pode gerar um genocídio. Uma decisão errada da Funai, ou um contato mal feito, ou um contato com um garimpeiro pode matar toda uma etnia”, alerta Sotto Mayor.

Consulta livre, prévia e informada

A Convenção 169 estipula que os povos indígenas e das comunidades tradicionais têm o direito de serem consultados antes que sejam tomadas medidas que possam impactar territórios, bens e modos de vida. Desde 2002, o Brasil é signatário da convenção e, portanto, se compromete com a prática de consulta às comunidades. 

Estudo aponta que 62% da área de exploração de madeira no Amazonas é ilegal

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No Amazonas, 62% da exploração de madeira em área monitorada é feita de forma ilegal. Foto: Vicente Sampaio/Imaflora

Um levantamento divulgado nesta sexta-feira, 5, revelou que 42 mil dos 68 mil hectares em que há exploração de madeira no Amazonas não tinham autorização dos órgãos ambientais para a atividade. Isso significa que 62% da retirada da madeira no estado é ilegal.

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A pesquisa, realizada anualmente por três organizações ambientais que formam a Rede Simex (ICV, Imaflora e Imazon), mapeou a extração de madeira no estado por meio de imagens de satélite e cruzou com as autorizações para a atividade emitidas pelos órgãos ambientais, abrangendo o período de agosto de 2023 a julho de 2024.

No Amazonas, 62% da exploração de madeira em área monitorada é feita de forma ilegal. Foto: Vicente Sampaio/Imaflora

Em relação ao levantamento passado (agosto/2022- julho/2023), quando 38 mil hectares tiveram exploração de madeira sem autorização, houve um aumento de 9% na área com retirada ilegal.

Alerta

Para Camila Damasceno, pesquisadora do Programa de Monitoramento da Amazônia, a alta é extremamente preocupante já que a exploração de madeira, de forma ilegal acaba financiando outros crimes ambientais, como as queimadas e o desmatamento. 

“Além disso, também prejudica o mercado legalizado de madeira, que faz a remoção das árvores por meio do manejo florestal sustentável e gera empregos e impostos para o Amazonas”, pontuou Camila.

Apenas dois municípios do sul do estado – Boca do Acre e Lábrea – concentram 75% de toda a exploração de madeira ilegal do Amazonas. Líder do ranking, o primeiro teve 20,5 mil hectares de exploração irregular, enquanto a segunda cidade teve 10,9 mil hectares com retirada de madeira ilegal.

Apreensão de madeira ilegal em Terra Indígena na Amazônia. Foto: Felipe Werneck/Ibama

“Esses municípios ficam dentro da região de expansão agropecuária chamada de Amacro, na divisa do Amazonas com o Acre e com Rondônia. Por isso, alertamos que a extração de madeira nesses territórios pode indicar o desmatamento futuro para a grilagem ou para a produção de grãos e de gado, o que reforça a necessidade de ampliar a fiscalização nesses municípios e barrar a entrada de produtos ilegais no mercado”, alertou Camila.

Em relação à exploração de madeira autorizada, o Amazonas passou de 11,3 mil hectares entre agosto de 2022 e julho de 2023 para 26,1 mil hectares entre agosto de 2023 e julho de 2024, o que representa uma alta de 131%.

Leia Mais: Extração ilegal de madeira aumentou 19% na Amazônia

Exploração de madeira em terras protegidas

O levantamento apontou que 13% da exploração de madeira irregular (5,6 mil hectares) ocorreu em áreas protegidas, sendo 9% em terras indígenas (3,9 mil hectares) e 4% em unidades de conservação (1,6 mil hectares). Houve queda de 19% na exploração ilegal em áreas protegidas em relação ao estudo anterior, quando foram mapeados 6,9 mil hectares, dos quais 6,4 mil em terras indígenas.

Exploração de madeira
Exploração de madeira de forma ilegal tem adentrado áreas protegidas do Amazonas. Foto: Divulgação/Greenpeace

A exploração ilegal de madeira, afirmou a pesquisadora, invade áreas protegidas do estado, como terras indígenas e unidades de conservação, o que é uma preocupação não apenas em relação à degradação ambiental, mas à sobrevivências das comunidades que ocupam esses locais.

“A entrada de invasores para retirada de madeira desses territórios ameaça os povos e comunidades tradicionais, que dependem da floresta em pé para manter seu modo de vida”, explicou Camila.

Leia também: Terras indígenas que lideram exploração madeireira na Amazônia estão na área de influência da BR-319

Apesar da redução, a retirada irregular atingiu uma área superior a 5 mil campos de futebol dentro das áreas protegidas. O Imazon ressalta que, além das emissões de carbono resultantes da degradação, há perda de biodiversidade e conflitos sociais com a extração ilegal de madeira.

Os imóveis rurais presentes em bancos de dados públicos, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) e o Programa Terra Legal, foram responsáveis por 32,5 mil hectares da área com exploração irregular de madeira, o que representa 77% do total. Segundo avaliação do Imazon, esse resultado mostra que os órgãos públicos têm dados para fiscalizar e punir a atividade ilegal nessas áreas. 

Florestas públicas

Outra categoria que chamou a atenção dos pesquisadores em relação à exploração de madeira ilegal no Amazonas é a de florestas públicas não destinadas (FPNDs), com 3,3 mil hectares (8%). As FPNDs são áreas de floresta de domínio público (União, estados ou municípios) que ainda não tiveram seu uso oficialmente definido, seja como unidade de conservação ou terra indígena.

“Por isso, destinar essas terras a povos e comunidades tradicionais ou à conservação é uma ação urgente de proteção do patrimônio público e ambiental dos amazonenses e dos brasileiros”, concluiu o instituto.

Leia Mais: Ucayali é destaque no combate à extração ilegal de madeira no Peru

*Com informações da Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil

8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024

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Em 2024, quase 30% dos trabalhadores da Agropecuária estavam na pobreza. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entre 2023 e 2024, considerando-se os parâmetros propostos pelo Banco Mundial, a população do país em situação de pobreza (com rendimento domiciliar per capita inferior a US$ 6,85 PPC por dia, ou R$ 694 por mês) recuou de 27,3% para 23,1%, uma redução de 8,6 milhões de pessoas. Foi a terceira queda consecutiva deste indicador, que vem diminuindo, anualmente, desde 2022, após atingir seu percentual mais alto em 2021 (36,8%), na pandemia de Covid-19.

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A proporção de pessoas na extrema pobreza (rendimento domiciliar per capita inferior a US$ 2,15 PPC por dia, ou R$ 218 por mês) recuou de 4,4% em 2023 para 3,5% em 2024, uma redução de 1,9 milhões de pessoas extremamente pobres. São dados do capítulo da Síntese dos Indicadores Sociais sobre Padrão de Vida e Distribuição de Rendimentos.

AnoPessoas na extrema pobreza (US$ 2,15 PPC)Pessoas na pobreza (US$ 6,85 PPC)
(%)(mil pessoas)(%)(mil pessoas)
20126,612.98534,768.390
20135,811.59732,564.469
20145,210.38030,961.771
20155,611.38431,763.963
20166,713.69733,768.545
20177,314.93733,769.085
20187,415.17833,468.812
20197,415.27632,667.540
20206,112.61331,164.737
20219,018.88636,876.977
20225,912.32931,666.494
20234,49.28227,357.572
20243,57.35423,148.948

Extrema pobreza seria quase três vezes maior sem programas sociais

Na hipótese de não existirem os benefícios de programas sociais, a extrema pobreza teria sido 6,5 pontos percentuais (p.p.) maior: de 3,5% para 10,0% de pessoas extremamente pobres na população do país. A ausência dos programas sociais governamentais também elevaria a proporção de pessoas pobres na população de 23,1% para 28,7%.

Pobreza
Gráfico de proporção na pobreza e na extrema pobreza. Fonte: Síntese dos indicadores sociais- 2025

Leia também: Manaus concentra 20% da população do Amazonas que vive em situação de extrema pobreza

Em 2024, a manutenção dos valores pagos pelo programa Bolsa Família em patamar superior ao período pré-pandemia de COVID-19 colaborou para a continuidade da redução da pobreza e da extrema pobreza. Além dos programas sociais, o maior dinamismo do mercado de trabalho também contribuiu para essa tendência, especialmente na redução da pobreza, mais impactada pela renda do trabalho, já que os rendimentos dos extremamente pobres têm maior participação de benefícios de programas sociais.

Regionalmente, o Nordeste teve a maior redução anual na proporção de pobres em sua população (linha de US$ 6,85 por dia): de 47,2% em 2023 para 39,4% em 2024, uma queda de 7,8 pontos percentuais. A proporção de pobres na Região Sul foi a menor do país em 2024: 11,2%.

Pretos, pardos e mulheres têm as maiores proporções de pessoas na pobreza

Proporcionalmente, a pobreza atinge mais às mulheres (24,0%) do que aos homens (22,2%). As taxas de pobreza e extrema pobreza chegaram, respectivamente, a 4,5% e 30,4%, entre as mulheres pretas ou pardas, enquanto entre os homens brancos os percentuais foram de 2,2% e 14,7%.

Foto: Reprodução/Governo do Ceará

As pessoas pretas e pardas, juntas, representavam 56,8% do total da população e 71,3% dos pobres do país. Entre as pessoas pretas, 25,8% eram pobres e, entre as pessoas pardas, 29,8% estavam nessa condição, enquanto a prevalência da pobreza entre as pessoas brancas era de 15,1%. Cerca de 3,9% das pessoas de cor ou raça preta e 4,5% das pardas eram extremamente pobres em 2024 (contra 2,2% entre brancos).

Metade dos aposentados e pensionistas idosos estariam na pobreza sem a previdência social

Entre as crianças e adolescentes de 0 a 14 anos de idade, 5,6% eram extremamente pobres e 39,7% eram pobres, proporções superiores às da população com 60 anos ou mais de idade:1,9% e 8,3%, respectivamente.

A menor taxa de pobreza entre a população idosa beneficiária da previdência social está relacionada, principalmente, ao recebimento de aposentadorias e pensões, cujos valores são periodicamente corrigidos pelo salário mínimo. Na hipótese da não existência desses benefícios previdenciários, a extrema pobreza (US$ 2,15) nesse grupo etário passaria de 1,9% para 35,2% e a pobreza (US$ 6,85) passaria de 8,3% para 52,2%.

Leia também: Em 2018, um quarto da população estava abaixo da linha de pobreza; região Norte contribui com 26,1% para essa estimativa

Em 2024, o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita para o Brasil seria 7,5% maior sem os benefícios de programas sociais, passando de 0,504 para 0,542. Os impactos da ausência de benefícios seriam maiores no Norte e no Nordeste, com o Gini crescendo, respectivamente, 14,2% e 16,4%, e passando de 0,488 para 0,557 no Norte e de 0,499 para 0,582 no Nordeste. No Sudeste e no Sul, a ausência dos programas sociais teria menos impacto, chegando, respectivamente, a 3,7% e 4,7%, com o Gini passando de 0,490 para 0,513, no Sudeste, e de 0,457 para 0,474, no Sul.

O índice de Gini é um dos principais indicadores da desigualdade na distribuição de rendimentos. Este índice varia de 0 a 1, sendo 0 a situação de perfeita igualdade e 1, de perfeita desigualdade, onde todo o rendimento estaria concentrado em uma única pessoa.

Brasil é o segundo país com maior desigualdade de renda

Em 2022, no Brasil, o rendimento dos 20% da população com os maiores rendimentos era cerca de 11 vezes o rendimento dos 20% com os menores rendimentos. Entre os quarenta países selecionados pela OCDE para esta comparação, o Brasil tem a segunda maior desigualdade de rendimento, ficando atrás apenas da Costa Rica (12,3 vezes) e superando Chile (10,1 vezes) e México (7,8 vezes), além de Portugal e Espanha (5,5 vezes, ambos), Itália (5,4 vezes) França (4,5 vezes) e Suécia (4,3 vezes), mais próximos da média da OCDE (5,3 vezes).

Brasil tem a maior proporção de trabalhadores pobres na comparação da OCDE

A Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) considera pobres aqueles trabalhadores que vivem em domicílios cujo responsável está em idade de trabalhar e onde há pelo menos um membro ocupado, estando a renda domiciliar per capita deste domicílio abaixo de uma linha específica de pobreza (50% da mediana da renda).

Dos 40 países analisados, o Brasil apresentou a maior proporção de trabalhadores pobres (16,7%), seguido por Costa Rica (15,1%) e México (14,2%). Países como Estados Unidos (12,4%), Chile (12,9%), Espanha (11,5%), Japão (10,4%), Itália (9,3%) e Canadá (9,6%) também apresentaram proporção superior à média da OCDE (8,2%). Por outro lado, República Checa (3,6%), Bélgica (4,0%) e Irlanda (4,4%), apareceram com as menores proporções de trabalhadores pobres.

País tem 12 milhões de trabalhadores na pobreza

A metodologia do Banco Mundial considera como trabalhadores extremamente pobres e pobres aquelas pessoas ocupadas, mas que vivem em domicílios com rendimento domiciliar per capita abaixo das medidas monetárias de, respectivamente, US$ 2,15 e US$ 6,85 PPC de 2017.

Leia também: Para Davi Kopenawa “mudança climática significa pobreza e doença”

Gráfico de pessoas com 14 anos ou mais na extrema pobreza. Fonte: Síntese dos indicadores sociais- 2025

A proporção de pessoas ocupadas que estavam na pobreza foi de 11,9% (ou 12,0 milhões), enquanto 47,6% (ou 3,4 milhões) dos desocupados e 27,8% (ou 17,9 milhões) daqueles fora da força de trabalho estavam nessa condição. Cerca de 0,6% (ou 585 mil) das pessoas ocupadas foram consideradas extremamente pobres em 2024, enquanto entre os desocupados a proporção chegou a 13,7% (ou 987,2 mil) e a 5,6% (ou 3,590 milhões) entre aqueles fora da força de trabalho.

Agropecuária e Serviços domésticos têm as maiores proporções de trabalhadores pobres

Entre a população ocupada, a baixa proporção de extremamente pobres (US$ 2,15) não permite que se faça uma diferenciação clara entre os grupos tratados, o que é possível fazer no caso da pobreza (US$ 6,85). As informações mais desagregadas mostram que o Norte e o Nordeste do país tinham as maiores proporções de trabalhadores pobres, abrangendo, respectivamente, 22,2% e 24,0% da sua população ocupada, em 2024. Em seguida, vinham Sudeste (7,4%), Centro Oeste (6,9%) e Sul (5,0%), as três últimas regiões com proporções abaixo do da média nacional (11,9%).

Em 2024, a pobreza foi maior entre os trabalhadores sem carteira de trabalho assinada (20,4%) e por conta própria (16,0%), e menor entre os trabalhadores com carteira assinada (6,7%). Da mesma forma, a pobreza foi mais intensa entre os trabalhadores na agropecuária (29,3%) e nos serviços domésticos (22,9%) e menos intensa na administração pública, saúde e serviços sociais (4,6%).

Mais sobre a pesquisa

A Síntese de Indicadores Sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira 2025 tem como objetivos sistematizar e apresentar um conjunto de informações relacionadas à realidade social do país, a partir de temas estruturais de grande relevância. Nesta edição, os temas estão organizados em três eixos fundamentais e complementares: Estrutura econômica e mercado de trabalho; Padrão de vida e distribuição de rendimentos; e Educação. Adicionalmente, nesta edição, são abordados grupos ocupacionais, perfil das pessoas idosas no mercado de trabalho e um estudo sobre trabalhadores pobres também conhecidos como Working-Poor.

*O conteúdo foi originalmente publicado na Agência de Notícias IBGE.

Exposição “Hierofania Amazônica” leva ancestralidade e o sagrado da Amazônia para as escolas paraenses

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    A Exposição é realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará. Foto: Arquivo Pessoal

    Apesar de ser um dos países de maior diversidade cultural no mundo, o Brasil ainda é marcado pela intolerância, sobretudo a religiosa, contra tradições de matriz africana e dos povos originários, não apenas na esfera individual, mas também na política de Estado. Com base nessa contradição, a Exposição “Hierofania Amazônica”, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará (PPGArtes/UFPA), surgiu. 

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    “A ‘Hierofania Amazônica’ é uma exposição itinerante que investiga como o sagrado se manifesta, ou se revela, no cotidiano amazônico. A palavra ‘hierofania’, compreendida por Mircea Eliade como a aparição do sagrado no mundo, adquire aqui uma densidade particular. Ela transcende a dimensão religiosa institucionalizada e se inscreve nos gestos, rituais, saberes, objetos e visualidades produzidos por artistas amazônidas e pelas comunidades ribeirinhas e quilombolas com as quais estabelecemos diálogo.”, explica Ivone Xavier, professora da UFPA e uma das curadoras da exposição. 

    Exposição “Hierofania Amazônica”
    O Brasil ainda é marcado pela intolerância, sobretudo a religiosa, contra tradições de matriz africana e dos povos originários. Foto: Arquivo Pessoal

    Sobre a exposição

    Instalada na Escola Nestor Nonato de Lima, em Belém, até o dia 11 de dezembro, a exposição convida o público a refletir sobre as muitas faces do sagrado no país, por meio de um conjunto heterogêneo de obras. Mosaicos, fotografias, pinturas, colagens, objetos de miriti e registros performativos articulam espiritualidade, ancestralidade e resistência, com o objetivo de valorizar o multiculturalismo brasileiro e denunciar a violência simbólica que insiste em silenciar crenças não hegemônicas.

    “São imagens que evocam rezas, encantarias, rituais afro-indígenas, festas populares e experiências de cura”, acrescenta Ivone Xavier, que também é coordenadora do Projeto “Festas, Brincadeiras, Cortejos, Procissões e Atos Devocionais: Estudos sobre as Manifestações Populares na Amazônia”. Segundo a professora, levar exposições como esta para o ambiente escolar é, sobretudo, um gesto de formação sensível e cidadã, uma vez que as escolas são territórios fundamentais para o combate à intolerância religiosa. “A arte provoca perguntas, amplia horizontes e desperta pertencimento. Quando uma escola recebe uma exposição, ela também se transforma em espaço de museu, de cultura e de escuta, ampliando o repertório simbólico e crítico dos estudantes”, explica.

    A exposição também reúne obras de artistas e colaboradoras com trajetórias significativas na cena paraense e nos diálogos entre espiritualidade e ancestralidade. Nomes como Raphael Andrade e Cris Rocha também assinam a curadoria da mostra. Luiz Langer, Eunice Franco, Madrilene Pantoja, João Cirilo, Denise Sá, Deia Lima, José Barros, Fernanda Maia, Anna Pantoja e Mestra Bel são os autores das obras expostas. 

    A exposição também reúne obras de artistas e colaboradoras com trajetórias significativas na cena paraense. Foto: Arquivo Pessoal

    Como exposição itinerante,  “Hierofania Amazônica” irá circular por escolas ribeirinhas, quilombolas e urbanas, além de instituições culturais e comunitárias. “Já estamos em diálogo com outras escolas e espaços para 2026. Trata-se, sobretudo, de um esforço para alcançar territórios que, muitas vezes, permanecem à margem do fomento público e das políticas culturais mais amplas”, conclui Ivone Xavier.

    Iniciativa contemplada pela Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, por meio do Edital Aldir Blanc, a Exposição “Hierofania Amazônica” segue aberta para visitação na Escola Nestor Nonato de Lima, em Belém, até 11 de dezembro. A entrada é gratuita. 

    Serviço

    Iniciativa contemplada pela Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, por meio do Edital Aldir Blanc. Foto: Arquivo Pessoal

    Exposição: “Hierofania Amazônica”

    Local: EMEIF Nestor Nonato de Lima (Conj. Radional II, bairro Condor – Distrito Dagua)

    Período para visitação:  27 de novembro de 2025 a 11 de dezembro de 2025

    Aberto ao público: entrada gratuita

    *Com informação da Universidade Federal do Pará.