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Conheça as duas espécies de lagartas que têm prejudicado pastos e causado morte de bois em Roraima

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Lagarta-do-cartucho-do-milho (Spodoptera frugiperda) e a curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes). São essas duas espécies de lagartas que têm devastado pastos e deixado rebanhos sem comida em Roraima. Mais de 7 mil bois e vacas morreram de fome, transformando propriedades rurais em cemitérios de carcaças.

Para entender como as duas espécies de insetos agem de maneira tão voraz, o Grupo Rede Amazônica conversou com especialista que explica as características e as diferenças entre elas. Um spoiler: elas comem sem parar tudo que é verde que veem pela frente.

Os 7.139 bois morreram em ao menos 40 dias nas fazendas de vários municípios de Roraima. A estimativa é de que ao menos 54 mil hectares de pasto – o equivalente a 75 mil campos de futebol, tenham sido devastados pelas lagartas.

Um dos motivo da infestação de lagartas é o desequilíbrio ambiental causado pelo El Niño intenso.

Entre os fatores estão:

Estiagem e seca histórica que Roraima enfrentou nos meses de janeiro, fevereiro e março, que destruiu ou enfraqueceu o pasto; Ausência de predadores para cessar a infestação das lagartas logo no início do período chuvoso, em abril.

O doutor em entomologia agrícola pela Universidade Estadual de São Paulo (Uesp), Cirano Melville pesquisa espécies de lagartas na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Ele detalhou as características e os desafios no combate a esse tipo de praga.

Melville explica quais são as fases mais críticas e o período em que ela “come tudo”. Os brotos dos capins são como picanha para elas, disse o especialista.

De acordo com ele, elas possuem quatro fases: fase do ovo (5 dias), lagarta (14 e 22 dias), pupa ou casulo (10 a 11 dias) e a fase adulta, a mariposa (10 a 12 dias), onde o inseto se reproduz e só se alimenta de néctar de flores.

“A fase mais crítica, considerada praga, é a fase de lagarta. Especificamente o quinto estágio de desenvolvimento, onde o inseto se alimenta mais intensamente, consumindo 80% de seu alimento total”, explicou.

Lagarta-do-cartucho-do-milho ou lagarta-militar

Lagarta-do-cartucho-do-milho (Spodoptera frugiperda), estudada por pesquisadores da Embrapa em Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

A Lagarta-do-cartucho-do-milho, também conhecida como lagarta-militar, é considerada um pesadelo para os agricultores. Polífaga, ou seja, ela se alimenta de mais de 100 plantas antes de virar uma mariposa. No cardápio dela estão o milho, soja e capim dos pastos, o que a torna uma praga persistente nas áreas de cultivo.

“Com a intensificação da agricultura, quase não há interrupção no ciclo dessa praga, pois sempre há alimento disponível, como milho, soja e braquiária [capim usado para alimentar o gado], permitindo que a praga permaneça nas áreas cultivadas”, disse Melville.

Ele explica que a lagarta é uma das cinco principais pragas do Brasil pela dificuldade de combatê-la com produtos, processos e tecnologias destinados ao controle de ataques e infestações.

Essa espécie tem uma coloração variável, podendo ser verde, amarela, marrom ou preta. Possui o desenho na forma de Y na cabeça e quatro pontos pretos na parte dorsal do último segmento abdominal. Adulto é uma mariposa de cor cinza ou marrom, com uma envergadura de 3 a 4 cm.

O ciclo de vida dessa lagarta é relativamente curto, o que facilita sua rápida disseminação.

“Após eclodir do ovo, a lagarta pode completar sua fase larval em 14 a 22 dias, dependendo das condições ambientais. A fase de pupa dura entre 10 e 14 dias. No total, o ciclo de vida varia de 30 a 60 dias”.

Curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes)

Espécie de curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes), lagarta que está infestando os pastos em Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR.

O curuquerê-dos-capinzais também é uma praga polífaga. Ela se alimenta de culturas como arroz, batata, cana, couve, milho, maracujá, soja e trigo. Seus danos são observados principalmente nas folhas, que ficam reduzidas e com mordidas formando desenhos.

Esta espécie se movimenta como ‘se medisse em palmos’. A coloração é verde clara, com listras pretas ou amarelas — os desenhos podem variar. Além disso, há pontos pretos distribuídos aleatoriamente de uma extremidade até a outra.

Mas esta não é a única cor que esta espécie pode ter. Em populações elevadas, elas mudam de coloração. O corpo torna-se preto, mantendo as listras brancas e os pontos pretos visíveis nas laterais do corpo.

“Seus danos são principalmente nas folhas, deixando apenas o talo da folha. O ciclo de vida pode ser acelerado por temperatura e umidade, com a fase larval durando 20 a 23 dias e a fase de pupa entre 10 a 14 dias”, explica Melville.

Morfologicamente, essa lagarta é identificada por um ‘Y’ invertido na cabeça e quatro pontos pretos no abdômen. Em populações elevadas, a cor pode mudar para preta, mantendo as listras brancas e os pontos pretos visíveis.

“Uma coisa bem interessante que pode ser dito [sobre essa espécie] se o produtor visualizar lagartas pretas nas pastagens é sinal de que a população está elevada e que o dano às plantas de capim estão ocorrendo em grandes proporções”, disse o professor.

Manejo e como evitar as lagartas

Gado morre de fome e fica fraco por falta de pasto e pela infesteção de lagartas e ervas daninhas em Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
 Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR.

Para lidar com essas pragas, Melville destaca a importância do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Segundo ele, os produtores devem buscar orientação de profissionais, como agrônomos, e adotar práticas integradas que incluem controle biológico, químico e genético. Ela afirmou que o monitoramento contínuo é crucial para a identificação precoce e o controle eficaz dessas pragas. Além disso, é importante estar atento a sinais visuais nas plantações.

“Com a adoção de estratégias eficazes e um monitoramento rigoroso, é possível minimizar os impactos dessas pragas, garantindo a saúde das plantações e a segurança alimentar”. Melville disse que o combate é um esforço contínuo que requer atenção e ação rápida por parte dos agricultores e especialistas.

Reflexos do desequilíbrio ambiental

O Grupo Rede Amazônica esteve em dois locais que foram severamente afetados pela morte de rebanhos em fazendas por falta de comida: as vilas Samaúma e a Apiaú, município de Mucajaí, no Sul de Roraima. Na região, produtores perderam grande parte do gado. Emocionados, eles relataram o clima de desespero, apreensão e medo.

Historicamente, a criação do estado de Roraima se entrelaça com a da pecuária e, consequentemente, com os impactos ambientais que a atividade engloba, como o desmatamento. No entanto, desta vez, especialistas afirmam que ainda é prematuro associar o desequilíbrio ambiental das lagartas e mortes dos bois com a supressão de vegetação. Até agora, a principal relação é com o El Niño intenso dos últimos meses.

Foi neste cenário que o pecuarista Joaquim Simão Costa, de 55 anos, se viu obrigado a buscar pasto em outras regiões. Para fugir da fome, ele levou o rebanho a pé para uma fazenda alugada de um amigo na região do Truarú, em Boa Vista, distante quase 113 Km da Sumaúma, onde vive, numa viagem de aproximadamente 10 dias.

Pecuarista Joaquim Simão Costa, 55 anos, precisou levar a sua criação de gado a pé para outro município por falta de pasto em Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
 Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR.

No trajeto, muitos animais de Joaquim morreram e foram deixados na estrada, outros tiveram a carcaça arrastada pelo caminho. Vídeos mostram ele levando o rebanho pelas ruas para fugir da fome.

Na vila Samaúma, o cenário é de tristeza. Urubus sobrevoam por todas as partes nas ruas e nas estradas. Carcaças de bois e vacas mortos são vistas com facilidade nas margens das vias. As áreas de pastos se tornaram cemitérios dos animais que antes eram o sustento de famílias rurais.

No caminho, com o rebanho fraco e com fome, animais morrem e são abandonados. Rastros de sangue de cascos machucados são deixados na estrada. Tudo isso deixa Joaquim emocionado. Passar pela situação é um ‘pesadelo’ para ele, mas não há outra solução a não ser levar o gado para outro lugar que não esteja infestado por lagarta.

“É muito triste ver essa situação. Estamos enfrentando uma dificuldade enorme, muita tristeza. A situação está muito feia e difícil. Moro aqui há 40 anos. Nunca tivemos um fenômeno tão desesperador. Está muito difícil, nunca tinha visto algo assim. Fomos pegos de surpresa. Em dez dias o gado foi morrendo de fome na estrada, debilitado, caindo e ficando para trás. É uma tristeza imensa, muito difícil”, contou o pecuarista ao g1.

Com o decreto de emergência, o governo também criou o Programa Emergencial de Apoio à Pecuária Familiar, medida que prevê a contratação temporária de pessoas, dispensa de licitação para aquisição de bens e serviços essenciais, além da convocação de voluntários para reforçar as ações de resposta ao desastre.

Para o combate às pragas e recuperação do pasto nas propriedades, o governo, por meio da Agência Desenvolve, anunciou o repasse de R$ 1.750 aos produtores rurais. O valor será concedido por meio do programa Desenvolve Roraima. O teto máximo que cada produtor deve receber é de 5 hectares, o equivalente R$ 8.750.

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

Rondônia registra, no 1° semestre de 2024, maior número de focos de queimadas dos últimos 8 anos

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Em Rondônia, os focos de queimadas registrados de janeiro a junho de 2024 são maiores do que os detectados em todos os primeiros semestres dos últimos 8 anos, revelou os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os focos ativos estão relacionados à detecção de incêndios em tempo real através de satélites, de acordo com o Inpe. Conforme os dados do ‘Programa Queimadas’ do Inpe, no primeiro semestre de 2024, o estado registrou 465 focos de queimadas, o que representa um aumento de 50% em relação ao mesmo período de 2023. Além disso, esse é o pior 1° semestre desde 2016.

Leia também: Apesar de menor registro de desmatamento, seca aumenta incêndios na Amazônia em 36%

Em 2024, até o momento, junho apresentou o maior número de focos registrados no estado, com 183 ocorrências: o maior acumulado para o mês dos últimos 5 anos, ficando atrás apenas de 2019, quando foram registrados 170 focos em junho.

Na contramão, janeiro foi o período com o menor número de registros (39 notificações), seguido de fevereiro. Na Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão) foram registrados 22.058 focos de queimadas durante o período de 1° de janeiro a 1° de julho de 2024.

Um foco precisa ter pelo menos 30 metros de extensão por 1 metro de largura para que os chamados satélites de órbita possam detectá-lo. No caso dos satélites geoestacionários, a frente de fogo precisa ter o dobro de tamanho para ser localizada, segundo informações do Inpe.

Como denunciar?

Conforme a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental de Rondônia (Sedam), para realizar uma denúncia de queimadas na zona rural, é necessário entrar em contato com o órgão pelos seguintes meios de comunicação:

Telefone: 0800 666 1150

E-mail: ouvidoria@sedam.ro.gov.br

Plataforma: Fala.BR

WhatsApp da Ouvidoria Ambiental: (69) 98482-8690 (dúvidas e informações).

Já se os focos forem em áreas urbanas o morador deve entrar em contato com a Secretária Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema) do município.

Em Porto Velho, a denúncia de queimadas pode ser feita por Whatsapp, através do número (69) 98423-4092. É importante que o morador envie o máximo de provas possíveis, como fotos, vídeos e localização correta para que a equipe chegue a tempo para o flagrante.

Em caso de incêndios, a população deve ligar para 193 (Corpo de Bombeiros).

*Com informações do g1 Rondônia

Projeto incentiva aproveitamento de resíduo da mandioca por comunidade quilombola de Salvaterra

Na comunidade quilombola de São Benedito da Ponta, no município de Salvaterra, Ilha do Marajó (PA), representantes de todas as famílias locais aprenderam a converter um rejeito com potencial de poluição ambiental em produtos saborosos, de fácil comercialização e bom valor agregado.

Essa mudança é resultado das atividades do projeto de aproveitamento de manipueira (líquido que sai da mandioca e de onde se extrai o tucupi) e importância histórico cultural das casas de farinha, coordenado pela professora Carmelita Amaral Ribeiro, do curso de Tecnologia de Alimentos da Universidade do Estado do Pará (Uepa), mediante aprovação no edital do Programa de Ação Comunitária (PAC) da Pró-Reitoria de Extensão (Proex).

A manipueira é um líquido de aspecto leitoso e de cor amarela-clara, obtido em quantidade em casas de farinha, após a prensagem das raízes da mandioca para produção de farinha. Esse resíduo é, frequentemente, descartado em grande quantidade no solo e com a intervenção das ações do projeto, ao invés de causar problemas de contaminação, decorrente do descarte incorreto, a manipueira pode ser aproveitada na elaboração de produtos como molhos geleia de tucupi, molhos cremosos de tucupi com jambu e molho de tucupi com pimenta cumaru, por exemplo.

Além da professora Carmelita Ribeiro, a estudante Ângela Maria Melo Barros e o aluno Diego Bruno Figueiredo Serrão, ambos no quinto semestre do curso de Tecnologia de Alimentos no campus XIX, em Salvaterra também atuaram na capacitação das pessoas envolvidas nas atividades que envolviam orientações sobre como manipular e produzir os alimentos com segurança e qualidade. 

Conhecer o histórico das casas de farinha da comunidade, assim como a sua contribuição cultural também faz parte dos objetivos do projeto. O estudante Eli Haroldo dos Santos Gemaque, que cursa o oitavo semestre da Licenciatura em História, também no campus XIX da Uepa, ficou à frente das entrevistas realizadas durante esse processo de escuta da comunidade, no qual a equipe buscou saber de que maneira as famílias da comunidade produzem a mandioca e desenvolvem seus subprodutos, bem como, compreender a importância desses produtos para as famílias.

Qualidade de vida e aumento da renda

Mais do que capacitar as famílias em relação à produção dos alimentos, a equipe da Uepa também contribuiu com a confecção de rótulos e orientou sobre a comercialização.

“Fizemos com eles os cálculos sobre os custos de produção, inclusive sobre as embalagens e rótulos, para projetar os  preços de comercialização”, explica a professora Carmelita. Na avaliação das mulheres quilombolas que participaram das oficinas, foi muito proveitoso aprender a não desperdiçar. “Antes a gente fazia o suco do maracujá e jogava a casca fora e hoje já fizemos a geleia usando casca. A gente aprendeu e foi ótimo. Para quem não sabia, hoje em dia já não vai mais desperdiçar jogar fora”, afirma Laide Barbosa Portal.

Agradecida pela oportunidade, Iolete dos Reis Pereira afirmou que tudo ficou delicioso e que junta, a comunidade vai progredir. “Vamos para frente, né? Porque foi delicioso, aprendemos, gostamos muito e agradecemos muito a todos que vieram nos ensinar”.

“A gente desperdiçava muito tucupi aqui e o que mais a gente aproveitou, acredito todas as meninas, foi essa parte que a gente descartava e agora é aproveitada na geleia. Estamos tendo muitos pedidos, então eu creio que a renda também vai aumentar bastante através desse projeto. Vamos comercializar todos esses produtos que aprendemos a fazer”, conclui Marielle Lucia Santos dos Santos.

Na avaliação da Meiriane Lopes, agente de desenvolvimento local da Sala do Empreendedor Salvaterra, é necessário “potencializar as comunidades na sua forma econômica no empreendedorismo feminino e aí a gente começa a plantar esse sentimento do empreendedor dando rumos para essas pessoas, porque elas têm esse produto e só viam o produto se estragando, sem pensar em empreender e a instituição está ajudando muito a mudar esse cenário.

*Com informações da UEPA

Crônica: as fendas da história na Semana da Memória em Porto Velho

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A palestra de abertura da Semana da Memória, em Porto Velho. Foto: Assessoria/TJ

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Na Semana de Memória do Tribunal de Justiça em Porto Velho – 1º a 5 de julho de 2024 –, as fendas da história se abriram diante de mim. A cidade, marcada por uma pluralidade arquitetônica e uma identidade sem padrões rígidos, revelou-se como um livro aberto, com páginas que se desdobravam em cada esquina.

Há cinco anos, eu não visitava Porto Velho. O retorno à cidade ocorreu por ocasião de uma palestra que ministrei no CCDH (Centro Cultural de Documentação Histórica) nesta semana. O convite partiu do desembargador Alexandre Miguel, diretor da Emeron (Escola da Magistratura do Estado de Rondônia), um ardoroso entusiasta e conhecedor profundo da cultura e da memória rondonienses.

Minha palestra, embora bem preparada, ficou aquém das minhas expectativas. Não sou um conferencista por profissão, mas por atrevimento. Estudei bastante, elaborei slides e planejei a abordagem da temática proposta. No entanto, talento é inato, e eu, no máximo, sou um esforçado. A boa fala requer equilíbrio entre conhecimento formal e o olhar poético que emana carisma. Como dizia Marco Túlio Cícero: “Poeta nascitur, orator fit”. É importante ressaltar que não sou historiador, mas um pesquisador independente.

Em Rondônia, há renomados historiadores e autores que oferecem vasta bibliografia. Para mim, o ítalo-brasileiro Vitor Hugo foi a porta de entrada para outros nomes que dedicaram suas vidas à elucidação e ao registro da história. Ao escrever, meu olhar é de escritor e jornalista, não de historiador. Inspiro-me na cultura de almanaques, mas baseio-me em pesquisas em fontes primárias – o verdadeiro tesouro para quem aprecia viajar pela história por meio de documentos de época. Às vezes, a imersão é tão intensa que me sinto fazendo uma reportagem contemporânea. As fontes orais também são essenciais, embora carregadas de afetividade e romantismo. Elas complementam o que as fontes primárias podem omitir, pois são discursos fundamentados em interpretações, mesmo que bem-intencionados e impessoais.

O Poder Judiciário é o ponto de convergência de todos os poderes e da sociedade, inclusive pelo que não é dito. A análise de discurso revela desde o contundente até o silêncio e as omissões que invisibilizam as diversas castas sociais. Tudo está mudando. Mas nem sempre a justiça foi plural. As mais de oito mil peças processuais e documentos raros do CCDH permitem um olhar profundo sobre a sociedade desde o início do século XX. Há registros de assassinatos em botecos e grandes conflitos, como o Massacre de Corumbiara e o assassinato do senador Olavo Pires, aqui citados só para ilustrar.

Além do aspecto institucional, os processos revelam hábitos e costumes, vocabulário, moda, consumo de bens e serviços, relações humanas e a sofisticação tecnológica – para a época – do comércio portuário antes da implantação da ferrovia em 1912.

Na abertura da Semana da Memória do Poder Judiciário, apresentei um material preparado com dedicação, mas acabei me perdendo, atropelando o esquema que eu mesmo havia traçado.

Falar em público é visceral, sem filtros, ao contrário da escrita solitária e reflexiva, depurada nas fases de revisão e edição até se tornar um produto final. O vocabulário some sob pressão, e as palavras certas nem sempre vêm à ponta da língua para definir uma ideia. Assim é a vida do orador, do pesquisador, do escritor – um equilíbrio delicado entre o atrevimento e a busca pela verdade histórica.

A minha abordagem na palestra seria não focar exclusivamente na história, mas sim nos processos judiciais essenciais que moldaram a história. O alicerce que eu gostaria de estabelecer envolveria mencionar as fontes formais do CCDH – as quais utilizei principalmente para escrever o livro “A Cidade que Não Existe Mais” – a fim de chegar a determinadas conclusões. A relevância das fontes primárias reside na capacidade de criar uma narrativa original que transcenda o simples “copiar e colar” tão comum na era virtual, em que muitas vezes confundem bibliografia com plágio disfarçado por citações literais.

Embora inicialmente não fosse minha intenção, acabei abordando questões históricas de maneira descontraída, quase como um “almanaqueiro”. Nesse sentido, me inspiro em Elifas Andratto, um grande colecionador de dados, estatísticas, iconografias e curiosidades extraídas das histórias escritas por acadêmicos. Quem se lembra do “Almanaque Brasil”? Essa revista de bordo da TAM, editada por Andreatto, grande artista e editor que também foi responsável por ilustrar capas de discos – uma profissão que, infelizmente, se tornou obsoleta.

A história sempre me fascina e me impulsiona a buscar respostas além do que está registrado em ordem cronológica, conectando-a à geopolítica e considerando fatores antropológicos, sociológicos, arqueológicos e filosóficos. Tudo isso é relevante. No entanto, acredito que a verdadeira escrita histórica não se limita a ser uma mera compilação de fatos; ela deve permitir ao autor empregar adjetivos e explorar discursos que se assemelham a romances ou reportagens jornalísticas.

Laurentino Gomes é um mestre nesse estilo, tendo ganhado dois prêmios Jabuti e se tornado um best-seller no campo da historiografia – algo notável e inédito até então.

A narrativa historiográfica, quando pura e simples, exige impessoalidade e serve como um recurso para pesquisadores que buscam fontes. Geralmente, é repleta de notas de rodapé que transferem a responsabilidade para outros autores quando se afirma algo com incerteza. Aqueles que ousam ir além desse padrão demonstram compreensão do material lido e a capacidade de escrever – e até mesmo cometer erros – por conta própria.

Em resumo, durante a palestra, me vi perdido diante da vastidão do que gostaria de ter dito e não disse, bem como das muitas coisas que surgiram espontaneamente em minha mente e que talvez não devesse ter mencionado. Foi como uma tempestade de ideias que eu desejava compartilhar naquele momento. O meu objetivo sempre é provocar e despertar o interesse das pessoa. Acredito que uma boa palestra deve gerar dúvidas, em vez de apenas confirmar o que todos já sabem ou supõem.

A história está repleta de fendas e nuances, e é nesse espaço que me sinto à vontade. Como um leitor-escritor, observo a história que está escrita, inclusive no cenário mundial, desde os registros precisos dos brasilianistas sobre a vida no Alto Rio Madeira, muito antes da famosa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que muitos consideram o marco-zero de Rondônia no século XIX.

Além da palestra, um olhar para o agora

Desde o início de 2009, eu não havia estado em Porto Velho. Durante a Semana de Memória do TJ, tive a oportunidade de revisitar a cidade e comparar muitos aspectos da sua cena cultural.

Uma das minhas paradas foi no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). O espaço apresenta uma nova configuração, diferente das revitalizações anteriores. Não vou entrar em detalhes sobre o formato estético e de conteúdo atual, que perdeu parte da rusticidade original. No entanto, notei um rigor maior nas visitações, guiadas e orientadas. Concordo que tudo deva ter uma certa disciplina, ainda mais quando se trata de equipamento públicos que, quando sucateados, passam anos sem manutenção.

Dentro do museu, a exposição permanente sobre a epopeia da ferrovia está bem contada e didática.

Algo me chamou a atenção: um painel com 424 cabeças esculpidas em argila e sedimentos do Rio Madeira, obra do artista plástico Bruno Souza. Cada rosto, cada expressão, representa uma pessoa diferente que contribuiu para a construção de tudo o que Porto Velho é hoje. Essa diversidade humana é a verdadeira riqueza da cidade.

No museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, as cabeças de cerâmica. Foto: Júlio Olivar

Mas não foram apenas os pontos culturais que me chamaram a atenção. A transformação digital, ditada por IA e algoritmos, também deixa suas marcas. Os sebos, outrora redutos de livros usados, perderam força, e as bancas de jornal não mais exibem publicações atualizadas. O mundo virtual se impõe, mas a vida, teimosa, continua analógica.

Claro que esse cenário não é exclusivo de Porto Velho; é uma tendência global. Tudo se virtualizou, está nas nuvens, acessível na palma da mão. Mesmo a EFMM, apesar de sua beleza, perdeu parte de sua presença tátil. A vida, no entanto, continua analógica. Como alguém que chegou ao novo milênio aos 27 anos, posso afirmar: envelhecemos junto com as mudanças irreversíveis.

Em meio a essa dualidade – virtual e tangível –, percebi que as fontes primárias continuam sendo o lastro essencial para qualquer produção textual. Elas nos conectam ao passado, às vozes que ecoam nas entrelinhas da história. E assim, na palestra no CCDH, exaltei a importância dessas fontes, lembrando que a verdadeira riqueza de Porto Velho reside em seu povo diverso, nas fendas que nos permitem enxergar além do óbvio. As memórias, como as cabeças no painel de Bruno Souza, são fragmentos que se unem para contar uma história.

E naquele momento, diante da plateia atenta, eu me senti parte dessa narrativa, navegando pelas águas do Rio Madeira, entre o analógico e o virtual, entre o passado e o presente.

Nota do autor: A história é um mosaico, e cada peça tem sua relevância. Que possamos explorar as fendas, as brechas, e descobrir nelas a essência de quem somos.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Ministério da Cultura e Banco da Amazônia promovem ações de fomento à cultura e à Indústria Criativa na Região Norte

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O Banco da Amazônia e o Ministério da Cultura realizam no dia 11 de julho, em Belém (PA), a cerimônia de assinatura dos primeiros contratos de projetos classificados em programa de incentivo à cultura na Amazônia, o Rouanet Norte. Foram selecionadas 125 propostas. O investimento total será de R$ 24 milhões, soma do aporte dos financiadores Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Correios.

Também no dia 11, Banco da Amazônia e MinC assinam Protocolo de Intenções que tem como objeto desenvolver ações integradas de cooperação técnico-científica e cultural e o intercâmbio de conhecimentos para fortalecer as cadeias produtivas e a economia do setor cultural dos Estados do Norte do país. A iniciativa é o ponto de partida para a implantação do primeiro Centro Cultural do Banco da Amazônia na Região Norte, em Belém.

A solenidade será conduzida pelo presidente do Banco da Amazônia, Luiz Lessa, e terá a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes. O evento será realizado no auditório Rio Amazonas, na sede da instituição, na avenida Presidente Vargas, às 10 horas. Segundo o presidente Luiz Lessa, as parcerias institucionais possibilitam a ampliação da circulação da produção cultural e amplificam a política cultural do Banco da Amazônia.

Implantado pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Economia Criativa e Fomento Cultural, o programa Rouanet Norte tem como objetivo nacionalizar os recursos da Lei Rouanet e estimular projetos culturais no Norte do país, dando protagonismo aos agentes locais. Por meio da concessão de crédito às atividades econômicas da área cultural, visando ao fortalecimento de suas cadeias produtivas, promove a democratização do acesso às manifestações artístico-culturais na região amazônica.

“O Programa Rouanet Norte, instituído pelo Ministério da Cultura, foi lançado em novembro de 2023 para incentivar projetos culturais com vistas a fomentar atividades que desenvolvam o setor cultural nos sete Estados da região Norte. O edital foi aberto para a inscrição de projetos até o limite de R$ 200 mil. Participaram do processo de seleção somente proponentes da região”, explicou Geraldo Monteiro Júnior, Analista de Patrocínio do Banco da Amazônia e membro Avaliador do Programa.

O MinC conduziu todo o processo de inscrições. Em seguida houve as análises das propostas pelos órgãos parceiros que estão participando como signatários do edital – Banco da Amazônia, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Correios.

“Chegamos ao número de 125 projetos classificados que já estão aptos para a contratação. As linguagens contempladas neste edital são: artes cênicas, música, artes visuais e literatura”, disse Geraldo Júnior. “O MinC solicitou que o Banco da Amazônia realizasse a formalização dos primeiros contratos deste edital. Entre os projetos elegíveis, três foram escolhidos para representar os contratados”, completou.

O Rouanet Norte foi criado para atender aos produtores culturais do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins com financiamento específico. O programa fortalece a concepção que há três décadas orienta a Lei Rouanet: nacionalizar o investimento na cultura do país.

Com o Rouanet Norte, informa o MinC, uma região historicamente desassistida e com os menores índices de captação da Lei de Incentivo à Cultura receberá um volume expressivo e inédito de recursos para o setor cultural. A articulação para a implantação do programa contou com a participação das secretarias de Cultura dos Estados do Norte – diretriz do MinC que orienta o alinhamento de ações entre os entes federados, com o objetivo de contemplar todos os territórios com recursos. O termo de cooperação técnica foi assinado entre MinC, Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Banco da Amazônia (Basa), Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (Caixa).

Momento histórico

“Pensamos de que forma poderíamos unir forças e trabalhar de uma forma mais integrada pela Região Norte. Pensamos em como melhorar a distribuição dos recursos da Lei Rouanet de uma forma mais nacionalizada e sempre com o objetivo de levar arte para todos os Estados da Amazônia de forma mais democrática. Serão R$ 24 milhões para o programa, com o aporte de R$ 6 milhões de cada empresa. A estratégia faz parte do planejamento estratégico de marketing do banco e para nós é uma felicidade muito grande promover a primeira assinatura do contrato do Programa em Belém”, afirma a gerente da Central de Marketing e Comunicação do Banco da Amazônia, Ruth Helena Lima.

O Programa Rouanet Norte foi uma solução inovadora proposta pelo Secretário de Economia Criativa e Fomento Cultural do MinC, Henilton Menezes, em 2023. “É uma ação inédita e emblemática e esperamos que a partir dessa iniciativa, outras empresas tenham esse olhar para a importância de nacionalizar os recursos destinados à cultura”, afirma Menezes ressaltando que é a primeira vez que quatro empresas financiadoras da Lei criam a possibilidade de beneficiar exclusivamente projetos da região que historicamente foi a que menos teve acesso aos recursos.

Centro

A gerente da Central de Marketing e Comunicação do Banco da Amazônia, Ruth Helena Lima, Ruth Helena também destacou a importante parceria com o MinC para a implantação do primeiro Centro Cultural do Banco na Amazônia em Belém. “A cidade é onde está localizada a nossa sede, mas o propósito é que no futuro a nossa empresa amplie essa iniciativa para os demais Estados onde temos área de atuação. Este momento é histórico e queremos fazer a diferença na vida das pessoas junto com o Ministério da Cultura e o Governo Federal, movimentando a economia com a geração de mais cultura, emprego e renda para a região”.

Ela classifica o Protocolo de Intenções como um marco para o Banco da Amazônia. “É nossa missão também fomentar a economia da cultura e o desenvolvimento das cadeias produtivos do setor cultural. Dentre as iniciativas do Protocolo de Intenções, temos as seguintes diretrizes: promover a democratização do acesso às cadeias produtivas, apoiar a produção, fruição e formação artísticas culturais, lançar editais de ocupação para os Centros Culturais que vamos implantar na Amazônia, dentre outras iniciativas para o fortalecimento das cadeias produtivas de fomento à cultura”, finaliza.

A assinatura de contratos do Programa Rouanet Norte para incentivo à cultura e do Protocolo de Intenções para a implantação do Centro Cultural Banco da Amazônia, acontece dia 11 de julho, às 10 horas no auditório Rio Amazonas, Banco da Amazônia, avenida Presidente Vargas com rua Carlos Gomes, Campina, em Belém (PA).

Impacto de fotografias históricas em estereótipos sobre Amazônia é apresentado por pesquisador de Roraima

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Historicamente, a Amazônia teve a própria imagem criada e divulgada por pessoas que não viviam nela. Agora, por meio da ciência, a região será retratada “de dentro para fora” no X Congresso Latino-Americano de Semiótica, que ocorre na Universidade de São Paulo (USP) desde o dia 2 de julho. É o que propõe o professor e pesquisador da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Maurício Zouein.

Ele comanda o primeiro painel dedicado à Amazônia e outras três atividades no evento da USP. Além de Zouein, pesquisadores de outras universidades da Região Norte participam das discussões.

Na avaliação de Zouein, a presença de pesquisadores da Amazônia no congresso internacional na USP é uma oportunidade para mostrar a região a partir do olhar de pessoas que vivem nela. A missão é evidenciar, por meio da ciência, como o olhar de fora criou estereótipos sobre a Amazônica ao longo dos séculos.

“Tem gente que vem aqui para fazer turismo e quer pescar ou ver um indígena pintado. Mas não é só isso. A Amazônia é lugar de indígena, de quilombola, de pesquisador, de jornalista, de médico, etc. E todos muito competentes”, reflete.

Participam do evento na USP cientistas de universidades renomadas da América do Sul, como a Pontíficia Universidade do Peru e do Chile, e da Europa, a Universidade da Coruña e de Sevilla da Espanha, além da Univeritá di Torino, da Itália.

Além de participar como pesquisador, Maurício Zouein é parte do Comitê Científico e da organização do congresso internacional — Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Maurício Zouein/Acervo pessoal

Atividades sobre Amazônia na USP

Durante o evento, Maurício Zouein integra as seguintes atividades:

  • ‘Painel Ecossistemas sígnicos na Amazônia: diversidade cultural, ecologia e semiótica’, que ocorre nesta sexta-feira (5), no auditório Lupe Cotrim, da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Na ocasião, cientistas de universidades de todo o mundo debatem sobre a construção da imagem da Amazônia ao longo dos séculos. Completam o painel ao lado de Zouein os pesquisadoras Aparecida Zuin, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Laura Lago, da Universidade Federal do Pará (UFPA), Milton Chimarelli Filho, da Universidade Federal do Acre (UFAC), Mirna Feitoza Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e Jacqueline Ausier (USP).

  • Apresenta o trabalho ‘Aos Olhos de Judas: imagem e memória na Amazônia’, que contará com imagens presentes no livro ‘A ideia de civilização nas imagens da Amazônia 1865-1908’, resultado de 40 anos dedicados à pesquisa e indicado ao Prêmio Jabuti 2023.

“Não queremos mostrar uma Amazônia que nunca foi vista, não é esse o impacto que queremos gerar. O que queremos mostrar é uma Amazônia diferente daquela que vem sendo cultuada”, explica o professor.

  • Orienta a estudante do curso de Jornalismo da UFRR, Yasmim Trindade, na apresentação do trabalho ‘A Identidade Imagética da Amazônia criada pela Inteligência Artificial’, também nesta sexta-feira.
  • Promove uma exposição fotográfica com imagens feitas por cinco fotógrafos de Roraima: Jorge Macedo, Conceição Escobar, Andrezza Mariot, Marcelo Mora e Pablo Sérgio.

Com tema livre e sob curadoria de Zouein, os fotógrafos foram orientados a retratar a própria percepção que eles têm sobre a Amazônia. Foram selecionadas duas fotos de cada um. Veja algumas:

O que é semiótica?

Principal área de pesquisa de Maurício Zouein, a semiótica é o estudo de como os sinais e os símbolos são usados para transmitir significados e ajuda a entender como os humanos dão sentido ao mundo através desses símbolos.

Palavras, imagens, gestos e até sons são sinais que comunicam algo, e essa ciência investiga como eles são criados e entendidos pelas pessoas, além de como podem ter significados distintos em diferentes contextos sociais e culturais.

“A Amazônia é necessária pela sua abundância de natureza, de filosofia, pelas culturas tradicionais. Ela é necessária para a humanidade. Só que ‘semioticamente’ falando, a Amazônia, ainda é consumida por símbolos criados externos a ela, por gente dos Estados Unidos, da Europa e de outras partes do Brasil, que constroem um significado muito diferente do que ela é”, afirma.

‘Aos Olhos de Judas’

O trabalho ‘Aos Olhos de Judas: imagem e memória na Amazônia’ reúne imagens presentes no primeiro livro de Zouein ‘A ideia de civilização nas imagens da Amazônia 1865-1908’ e ocorre no dia 4 de julho. Lançado em 2023, a obra propõe uma reflexão sobre como as pessoas da Amazônia foram retratadas por fotógrafos europeus no final do século XIX e início do século XX.

Cartão postal enviado em 1904 com fotografia tirada em 1894 mostra três crianças indígenas — Foto: Fotografia/George Huebner/Acervo/Maurício Zouein
Foto: Fotografia/George Huebner/Acervo/Maurício Zouein.

O livro, indicado ao Prêmio Jabuti 2023, mostra como as riquezas culturais e sociais das pessoas da Amazônia eram desvalorizadas e ocultadas através de fotografias raras e antigas. As imagens foram capturadas por fotógrafos europeus e divulgadas em cartões-postais e álbuns financiados por governadores do Amazonas e Pará, com objetivo de valorizar a cultura dos estrangeiros.

“É uma pesquisa de anos, mostrando como a Amazônia era retratada: como um lugar com pessoas pobres e ‘a ser civilizado’. Até hoje ainda existe, essa questão de mostrar a Amazônia enquanto um lugar exótico”.

Três indígenas macuxis e wapichanas sorriem em fotografia tirada em 1911 — Foto: Fotografia/Theodor Koch-Grünberg/Acervo/Maurício Zouein
Foto: Fotografia/Theodor Koch-Grünberg/Acervo/Maurício Zouein.

Com as imagens produzidas na região, os europeus buscavam colocar a percepções de mundo deles acima da cultura das populações locais, como se a Amazônia precisasse passar por um processo civilizatório. Ao mostrar como essa dinâmica ocorreu ao longo da História através de documentos e da pesquisa, o livro ajuda a pensar em como o processo de opressão cultural ainda acontece e se repete ao longo dos anos.

“Quando se tratava de civilização, [as pessoas da Amazônia] eram [mostradas como] pobres e quando mostradas ao mundo, eram exóticas. Quantas vezes a nossa história foi jogada por debaixo do tapete para que esses projetos de progresso e civilização pudessem existir?”, questiona.

Primeiro cartão postal enviado no Brasil em 1898 — Foto: Divulgação/Maurício Zouein
 Foto: Divulgação/Maurício Zouein.

Reconhecimento da ciência de Roraima

Para o professor, a participação no congresso representa uma realização pessoal, mas também é importante para a comunicação de Roraima e para a própria UFRR. Estampar o nome da universidade na qual se formou e hoje é professor ao lado de instituições mundialmente renomadas é o reconhecimento da qualidade da ciência produzida no estado, avalia o pesquisador.

“O valor simbólico, além de toda experiência acadêmica, é a possibilidade de discutirmos e apresentarmos a imensa potência estética e valores éticos originários da nossa região. Os participantes terão a oportunidade de conhecer fotografias repletas de significados históricos e identidade imagética da Amazônia”, disse Ticianeli.

Já a representante da USP e organizadora do congresso, a professora Clotilde Perez, destacou a apresentação do primeiro painel específico sobre a Amazônia. Para ela, a ocasião será uma chance de aprender, discutir e se inspirar através dos signos da região.

José Geraldo Ticianeli, reitor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) — Foto: g1 RR
 Foto: g1 RR.

“O painel vai tratar das singulares linguagens amazônicas que se expressam com imensa potência estética e valores éticos originários do nosso país. Certamente esse será um momento privilegiado para promover a reflexão sobre quem somos, como nos expressamos e para onde queremos ir”, afirmou a professora.

Zouein cita ainda que que ter a ciência produzida em Roraima apresentada numa das maiores universidades do mundo é um passo para mostrar a competência dos pesquisadores da região Norte. Ele frisou que o acesso ao conhecimento é dificultado no estado devido à distância dos grandes centros, o que precisa ser mudado.

“Se você comprar um livro de R$50 reais aqui, você precisa pagar mais R$ 50 de frete para ele chegar. A pessoa que mora no centro-sul paga só os R$50 e a pessoa que mora na região norte paga o dobro pelo mesmo conteúdo. Isso aqui não está legal; O fato de você estar distante não te dá as mesmas possibilidades que outros. Isso é lógico mas não pode ser normal e tão pouco natural. Temos que lutar para mudar isso e mostrar a nossa competência”, conclui.

*Por João Gabriel Leitão, da Rede Amazônica RR

Animais silvestres amazônicos precisam andar em grupos; entenda o por quê

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Na natureza, cada ser vivo é responsável por manter o ecossistema funcionando em equilíbrio e quando se pensa em grupos a responsabilidade é ainda maior. Em Rondônia, o aparecimento e registro de famílias de animais silvestres está se tornando comum.

Assim como para os humanos, a família é muito importante para o reino animal. Viver em comunidade para os animais silvestres não é só para a reprodução, mas também é fundamental para existência da espécie.

Para o biólogo Flávio Terassini, a família na natureza facilita a obtenção de alimentos, já que se um indivíduo encontrar um alimento, os outros já terão o que comer. O especialista destaca que, em sua maioria, os grupos familiares são lideradas por um macho alfa.

“Geralmente tem o macho alfa que vai proteger aquele grupo; Nós temos grupos de capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), que podem ter até 50 indivíduos, sendo um macho alfa, que é aquele que vai proteger o grupo”, explica.

O biólogo diz que são diversos os animais que vivem em família, no bioma amazônico, dentro deste meio ele destaca os primatas, que já foram vistas manadas de até 100 indivíduos, com até três espécies diferentes de macaco: o macaco-prego, o saimiri e o macaco-aranha. Eles buscam lugares que tenham alimentos, um local de abrigo e espaço onde constituir uma nova família através da reprodução.

Família de primatas Zogue-zogue (Plecturocebus bernhardi) Alta Floresta do Oeste — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama
 Foto: Carlos Tuyama/Projeto Hapia

Desequilíbrio ambiental

O viver em comunidade no reino animal, também tem um papel importante para a preservação da espécie, já que a formação da comunidade, facilita a proteção dos animais contra predadores naturais, encontrar alimento, se reproduzir e manter a espécie viva e preservada.

Com o desaparecimento destas famílias, o meio ambiente e ecossistema entram em colapso, pois muitas dessas espécies são fundamentais para a fauna e a flora. O biólogo explica que o desaparecimento desses bandos, gera um problema ambiental que desencadeia uma pirâmide ambiental, onde alguns animais são a base alimentar de outros maiores.

Fotos: João Pedro Salgado

Flávio Terassini diz, que animais como as capivaras e a cutia, são naturalmente alimentos para a onça. Se ocorrer o desaparecimento desses roedores, a onça começa a procurar outro alimento, causando assim um desequilíbrio.

Animais como a Cutia ainda tem outra função para o equilíbrio do meio ambiente, assim como as antas, o roedor é uma ‘Jardineira das florestas’. Eles ajudam a equilibrar a flora da floresta com a dispersão de sementes de árvores nativas.

“ Poucas árvores vão nascer, as onças vão começar a ficar com fome, e isso porque desaparece uma espécie [cutia]. Então você tem ali um problema ambiental generalizado, levando à extinção de muitas outras espécies. Dessa pirâmide alimentar”, finaliza.

Cutia (Dasyprocta) uma das 'Jardineiras da Floresta' — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama
Foto: Carlos Tuyama/Projeto Hapia

Registrando famílias

O registro da vida silvestre também é realizado por profissionais que se dedicam em capturar a fauna silvestre. Esse é o caso do fotógrafo e pesquisador Carlos Tuyama, integrante do Projeto Harpia. O profissional diz, que viu na fotografia um modo de documentar as diversas espécies no bioma Amazônico.

Ao grupo Rede Amazônica, o fotógrafo contou que a paixão pela fotografia começou ainda na adolescência, mas foi há uns 10 anos que realmente começou a fotografar e evoluir. Se dedicando principalmente à fotografia de vida selvagem.

Carlos e sua esposa, são voluntários do Projeto Harpia, um programa nacional de conservação de espécie ameaçada. Por meio deste projeto, Carlos conseguiu várias oportunidades de acesso ao habitat de diferentes representantes da fauna silvestre.

Fotógrafo e pesquisador, Carlos Tuyama — Foto: Reprodução/redes sociais.
Foto: Reprodução/redes sociais – Carlos Tuyama

“Isso tem nos possibilitado várias atividades em porções de florestas conservadas, então para quem busca registrar imagens da fauna amazônica, é como unir o útil ao agradável”, destaca o fotógrafo.

Para Carlos, é uma grande alegria registrar filhotes de animais, ainda mais quando eles estão acompanhados por sua mãe ou pai, pois isso quer dizer que essa espécie está conseguindo se reproduzir e manter consequentemente a linhagem para as gerações futuras.

O fotógrafo explica que quando identifica animais em locais de florestas alteradas e empobrecidas, o registro se torna ainda mais importante por constatar que eles estão conseguindo se reproduzir, mesmo em condições que não são ideais.

“O avistamento se torna ainda mais importante, pois se trata de paisagens bem diferentes daquela que o animal está adaptado no seu processo evolutivo. Em lugares assim, constatar que eles estão tendo sucesso na reprodução, é alentador”, enfatiza Carlos.

O fotógrafo destaca, que ainda existem animais como a Harpia e outras águias florestais, que por estarem no topo da cadeia alimentar, são exigentes.

“Esses, por serem predadores de topo de cadeia, são ainda mais exigentes no processo de reprodução e normalmente estão entre os animais mais ameaçados de risco de extinção” , destaca.

A lista de registro de Carlos é bem extensa, indo de Harpias que é o foco de seus registros, até primatas. Os modos de busca e captura são diversos. Já foram usadas câmeras convencionais, drones e câmeras traps, que significam armadilhas fotográficas.

Confira algumas fotografias registradas por Carlos Tuyama para o Projeto Harpia:

*Por Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Cientistas identificam moléculas associadas ao risco de recaída no sangue de pacientes com malária

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A forma mais comum de malária no Brasil é a causada pelo parasita Plasmodium vivax. Embora a espécie provoque um quadro mais brando em comparação à P. falciparum, ela possui uma característica que torna o controle da doença muito difícil: a capacidade de produzir formas dormentes do protozoário no fígado do hospedeiro que podem ser reativadas meses após o término do tratamento. De acordo com a literatura científica, esse fenômeno, denominado recorrência ou recaída, pode ser responsável por aproximadamente 90% dos casos no país.

Em artigo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores brasileiros descreveram, pela primeira vez, possíveis biomarcadores associados à recorrência da malária vivax. Financiada pela FAPESP, a pesquisa fornece informações relevantes sobre potenciais alvos para o desenvolvimento de antimaláricos e possíveis marcadores relacionados ao risco de recaída.

Para identificar esses biomarcadores, pesquisadores das universidades Estadual de Campinas (Unicamp), do Estado do Amazonas (UEA) e Federal de Goiás (UFG) analisaram o plasma sanguíneo de 51 pacientes amazônicos com malária vivax recorrente e de 59 não recorrente (que estavam ainda no primeiro episódio da doença).

As amostras foram analisadas por meio de metabolômica não direcionada, técnica que avalia todo o conjunto de metabólitos presente na amostra. O objetivo foi compreender como o metabolismo dos voluntários foi afetado durante esses dois momentos da infecção.

Imagens ilustrativas de Plasmodium vivax. As setas indicam os estágios sanguíneos assexuados de anel (cinza), trofozoíto (azul), esquizonte (verde) e o estágio sexuado conhecido como gametócito (vermelho). imagens: Laboratório de Doenças Tropicais/Unicamp

Os pacientes foram acompanhados por 180 dias e, majoritariamente, apareceram com o ‘novo’ episódio entre 40 e 60 dias após o inicial. A análise com espectrometria de massa (equipamento que identifica compostos com base na massa molecular) revelou 52 e 37 metabólitos significativos nos participantes recorrentes e não recorrentes, respectivamente.

“No momento em que o paciente chega com o episódio inicial de malária, há uma superexpressão de metabólitos, situação que muda completamente nos episódios de recorrência, caracterizada pelo maior número de metabólitos diminuídos”, relata Jessica Alves, pesquisadora do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e uma das autoras do trabalho.

“Além disso, entre os pacientes com recorrência, observamos uma modulação principalmente em vias lipídicas envolvidas na produção de prostaglandina e leucotrienos – moléculas envolvidas na resposta imune do hospedeiro. Já o grupo que estava no primeiro episódio foi caracterizado por alterações no metabolismo do triptofano e da vitamina B6 [piridoxina], que já foram descritos na literatura científica como importantes nutrientes do hospedeiro utilizados pelo parasita para se desenvolver”, diz a pesquisadora.

Os pesquisadores realizaram ainda uma análise de dados mais aprofundada, que revelou o enriquecimento de outras vias metabólicas para o fenótipo da malária recorrente, incluindo substâncias como butanoato, aspartato, asparagina e N-glicano.

“Todos esses marcadores podem sugerir vias com associação à recorrência e podem, no futuro, ser usados para caracterizá-la”, diz Gisely Melo, pesquisadora da UEA que também assina o estudo.

Perspectivas

“A principal contribuição do trabalho foi direcionar as análises em relação a quais vias metabólicas precisamos investigar mais profundamente para tentar entender e preencher lacunas que envolvem o estudo das recorrências”, diz Fabio Trindade Maranhão Costa, professor do IB-Unicamp e coautor do artigo.

No entanto, os pesquisadores destacam duas limitações do estudo: o número de participantes (relativamente pequeno) e a incerteza sobre a origem das recorrências (poderia ser uma recaída ou um nova infecção, por exemplo).

“Não temos, hoje, como diagnosticar as recaídas e tratá-las adequadamente”, sublinha Melo.

Segundo os autores, os próximos passos envolvem a condução de estudos multicêntricos, com um maior número de pacientes e uma cobertura geográfica mais ampla do P. vivax. Além disso, o grupo pretende associar à metabolômica plasmática investigações lipidômicas (conjunto de lipídeos), proteômicas (conjunto de proteínas), transcriptômicas (conjunto de RNAs transcritos) e genômicas (sequenciamento genômico). Também devem ser feitas análises do perfil imunológico de pacientes com ou sem recorrências.

Além da FAPESP, apoiaram a pesquisa agora divulgada o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), The World Academy of Science (TWAS), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e o Instituto Serrapilheira.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Julia Moióli

Dourada e piramutaba são primeiros peixes amazônicos a entrarem em lista de proteção internacional

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Entre as cerca de 2.500 espécies de peixes encontradas na Bacia Amazônica, dois bagres ocupam um lugar especial na economia dos estados da região e na biologia mundial, a dourada (Brachyplatystoma rouseauxii) e a piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii).

Além de serem bastante apreciados na culinária e terem um alto valor comercial, esses peixes realizam as mais longas migrações em água doce. A dourada chega a nadar aproximadamente 11 mil km durante o seu ciclo de vida.

Mas no ano passado esse peixe teve seu grau de ameaça atualizado na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), agora considerada como ‘vulnerável’ à extinção. A piramutaba, que ainda não consta na lista, também deve figurar em breve ali, antecipam especialistas.

Outro passo dado para chamar a atenção do mundo sobre a ameaça à sobrevivência dessas duas espécies emblemáticas de peixes amazônicos foi a inserção na lista da Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Selvagens (CMS), conhecida como Convenção de Bonn, durante um encontro realizado pelos membros do tratado em Samarkand, no Uzbequistão, em fevereiro de 2024.

“Nos últimos anos, a área de ocupação e migração da dourada já diminuiu em 37% por causa da construção de barragens na Bacia do Rio Madeira”, afirma o biólogo Guillermo Estupiñán, especialista em Recursos Pesqueiros na Wildlife Conservation Society (WCS), que esteve presente no evento, onde o governo do Brasil apresentou a proposta da inclusão das espécies no Apêndice II da convenção.

Estupiñán explica que os animais migratórios listados no Apêndice I são aqueles que necessitam de medidas mais drásticas de proteção por estarem muito ameaçados. Já os inclusos no Apêndice II são espécies que começam a preocupar especialistas e indicam que medidas devem ser tomadas para melhorar o seu estado de conservação, evitando que sua ameaça à extinção aumente.

“A dourada e a piramutaba são os primeiros peixes amazônicos a entrarem na lista da CMS”, revela. “Estar no apêndice II é muito importante na conservação de espécies e seus hábitat, cujas rotas são compartilhadas por mais de um país, importante para promover o diálogo e a cooperação entre governos dos locais onde elas são observadas, nesse caso Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela”.

A dourada (Brachyplatystoma rouseauxii) é o peixe de água doce com a mais longa migração do mundo: cerca de 11 mil km. Foto: Michael Goulding/ WCS

Mais longa migração em água doce do mundo

Esses dois grandes bagres encontrados no norte do Brasil são peixes de couro, ou seja, sem escamas. Esse é um dos motivos pelos quais agradam tanto os cozinheiros locais, pois sua limpeza e retirada de espinhas são muito mais fáceis. A dourada é bem maior, pode atingir até 80 cm na fase adulta e 40 kg; já a piramutaba chega no máximo a 40 cm e pesa de 6 a 8 kg.

E o que torna o ciclo de vida de ambos tão peculiar e, ao mesmo tempo, tão frágil nos dias atuais, é justamente a longa distância percorrida durante o processo de migração.

Estima-se que a piramutaba viaje cerca de 5.500 km, desde o estuário do Amazonas, em Belém, área rica em alimentos, na transição entre o rio e o mar, até Iquitos, no Peru, onde faz a desova. Depois disso, as larvas são levadas pela correnteza de volta ao canal principal dos rios, como o Solimões e o Amazonas.

Contudo, a jornada da dourada é realmente a mais impressionante porque ela volta ao lugar onde nasceu, nos sopés da Cordilheira dos Andes, para se reproduzir – um percurso migratório de 11 mil km, o mais longo conhecido pela ciência entre espécies de água doce.

É como, caso houvesse um rio imaginário, a espécie nadasse, ida e volta, de Boa Vista, em Roraima, até Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Do extremo norte ao extremo sul do país.

Com cerca de dois anos, após se alimentarem no estuário, as douradas começam a subir o rio Solimões numa viagem de volta, passando por Santarém, Manaus, Tefé, Alto Solimões até a região do Peru, perto da Cordilheira dos Andes. Imagem: Ibama

Só que, nos últimos anos, os cursos dos rios que a dourada e a piramutaba utilizam foram alterados. Duas usinas hidrelétricas de grande porte, Jirau e Santo Antônio, foram construídas entre 2008 e 2016, no Rio Madeira. Elas estão entre as maiores do mundo.

Os impactos observados por pesquisadores sobre as duas espécies foram enormes, como citou Estupiñán mais acima. Nos países vizinhos, aconteceu o mesmo.

“O perigo está em todos os lugares. Há implantação de barragens tanto no Brasil como em outros países amazônicos também. Não são tão grandes como as nossas, mas em tributários formadores da bacia”, ressalta Carolina Doria, professora do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Rondônia.

Segundo ela, a captura da dourada em áreas acima das hidrelétricas brasileiras caiu mais de 70% nos rios tributários da Bolívia. “Isso demonstra que um grande volume de peixes não consegue mais migrar por causa dessas barreiras. Houve a interrupção da conectividade”.

Falta de estatísticas pesqueiras

Não são somente as barragens que provocam o declínio na população desses bagres amazônicos, predadores de topo de cadeia – eles também sofrem com a pesca.

Tem-se mais informações e números sobre a dourada, mas especialistas sabem que a piramutaba também sofre com as mesmas ameaças. Entretanto, não existem estatísticas oficiais, apenas levantamentos promovidos por algumas organizações ou pesquisas acadêmicas.

“No Brasil, desde 2011, nenhum órgão ou instituição pública responsável pela pesca emitiu nenhum boletim sobre desembarques pesqueiros. E para a Amazônia, a última vez que se teve uma coleta de dados nos principais portos foi em 2004”, afirma Estupiñán.

Na prática, isso significa que não se tem a mínima ideia do que, onde e quanto é capturado de peixes nos rios da Bacia Amazônia, ou é comercializado nos principais portos e mercados da região. Então, como é possível proteger espécies ameaçadas sem saber o volume e o que está sendo pescado?

O atual governo federal, todavia, parece estar mais interessado no problema. Promovido a Ministério da Pesca e Aquicultura – na gestão anterior era uma secretaria –, o órgão irá apoiar um monitoramento da pesca em toda a bacia da Amazônia brasileira, que começará em 2024, terá duração de um ano e poderá ser renovado.

“Queremos entender como está a pressão sobre essas espécies e seus estoques. Iremos analisar informações como dados biométricos e desembarque de peixes, por exemplo”, diz a professora da Universidade de Rondônia, que fará parte do estudo.

É importante ressaltar que não são apenas a dourada e a piramutaba que estão ameaçadas. Um levantamento inédito divulgado recentemente alerta que 44% das espécies migratórias globais apresentam queda em suas populações. Dentre os peixes, o relatório State of the World’s Migratory Species aponta que a situação é ainda mais preocupante, com uma redução de 90% na população de 37 espécies de peixes migratórios desde os anos 1970.

“Em relação ao impacto das espécies do Rio Madeira, ele é difícil de ser revertido. O objetivo agora é evitar que seja ainda maior, com a construção de novas usinas naquela área. E é fundamental que haja uma ação conjunta entre vários países”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo

Inpe aponta queda de 38% do desmatamento na Amazônia

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A área sob alertas de desmatamento na Amazônia caiu 38% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2023, segundo dados do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em 3 de julho. No Cerrado houve queda de 15% de janeiro a junho, a primeira redução para o período desde 2020.

No mês de junho houve queda de 31% na Amazônia (457 km², ante 663 km²) e de 24% no Cerrado (662 km², ante 875 km²). Os dados foram apresentados pelas ministras Marina Silva (MMA) e Luciana Santos (MCTI) em entrevista coletiva na sede do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em Brasília (DF).

“Os dados mostram uma tendência de queda consistente do desmatamento na Amazônia e o início de uma tendência de queda no Cerrado. Isso nos dá esperança de que, vendo o que ocorre na Mata Atlântica, com a queda continuada do desmatamento, vamos conseguir desmatamento zero até 2030”, disse Marina.

Leia também: Apesar de menor registro de desmatamento, seca aumenta incêndios na Amazônia em 36%

No primeiro semestre, a área sob alertas de desmatamento na Amazônia foi de 1.639 km², a menor desde 2018. O resultado ocorre após redução de 50% em 2023 na comparação com 2022.

De agosto de 2023 a junho de 2024, a área sob alertas de desmatamento no bioma foi de 3.644 km², redução de 51% na comparação com o período de agosto de 2022 a junho de 2023. O número é indicativo da taxa anual de desmatamento, medida sempre de agosto a julho por outro sistema do Inpe, o Prodes. Falta, portanto, um mês para o fechamento do ciclo.

O Prodes usa imagens de satélites mais precisas do que as usadas no Deter, que emite alertas diários para apoiar a fiscalização em campo realizada por Ibama e ICMBio.

“Os dados são resultado da decisão política e da convicção que move o governo do presidente Lula no desafio da descarbonização do país, de enfrentar a mudança do clima e, portanto, os eventos extremos”, disse a ministra Luciana Santos.

Cerrado

No Cerrado, a área sob alertas de desmatamento no primeiro semestre foi de 3.724 km², queda de 15% na comparação com os 4.396 km² registrados no mesmo período do ano anterior. A área sob alertas de desmatamento no bioma de agosto de 2023 a junho de 2024 (6.571 km²) teve aumento de 16% em relação ao intervalo anterior (5.735 km²).

O resultado indica tendência de estabilização do desmatamento no bioma, após aumento de 43,6% em 2023 na comparação com 2022.

“É uma tendência que está se configurando, ainda não está consolidada. É extremamente importe, porque a gente tinha o Cerrado em crescimento acelerado”, disse o secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco.

*Com informações do MMA