Impacto de fotografias históricas em estereótipos sobre Amazônia é apresentado por pesquisador de Roraima

Professor doutor Maurício Zouein comanda debate sobre construção da imagem da Amazônia ao longo dos séculos por meio de fotografias históricas e leva exposição de fotógrafos roraimenses.

Historicamente, a Amazônia teve a própria imagem criada e divulgada por pessoas que não viviam nela. Agora, por meio da ciência, a região será retratada “de dentro para fora” no X Congresso Latino-Americano de Semiótica, que ocorre na Universidade de São Paulo (USP) desde o dia 2 de julho. É o que propõe o professor e pesquisador da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Maurício Zouein.

Ele comanda o primeiro painel dedicado à Amazônia e outras três atividades no evento da USP. Além de Zouein, pesquisadores de outras universidades da Região Norte participam das discussões.

Na avaliação de Zouein, a presença de pesquisadores da Amazônia no congresso internacional na USP é uma oportunidade para mostrar a região a partir do olhar de pessoas que vivem nela. A missão é evidenciar, por meio da ciência, como o olhar de fora criou estereótipos sobre a Amazônica ao longo dos séculos.

“Tem gente que vem aqui para fazer turismo e quer pescar ou ver um indígena pintado. Mas não é só isso. A Amazônia é lugar de indígena, de quilombola, de pesquisador, de jornalista, de médico, etc. E todos muito competentes”, reflete.

Participam do evento na USP cientistas de universidades renomadas da América do Sul, como a Pontíficia Universidade do Peru e do Chile, e da Europa, a Universidade da Coruña e de Sevilla da Espanha, além da Univeritá di Torino, da Itália.

Além de participar como pesquisador, Maurício Zouein é parte do Comitê Científico e da organização do congresso internacional — Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Maurício Zouein/Acervo pessoal

Atividades sobre Amazônia na USP

Durante o evento, Maurício Zouein integra as seguintes atividades:

  • ‘Painel Ecossistemas sígnicos na Amazônia: diversidade cultural, ecologia e semiótica’, que ocorre nesta sexta-feira (5), no auditório Lupe Cotrim, da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Na ocasião, cientistas de universidades de todo o mundo debatem sobre a construção da imagem da Amazônia ao longo dos séculos. Completam o painel ao lado de Zouein os pesquisadoras Aparecida Zuin, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Laura Lago, da Universidade Federal do Pará (UFPA), Milton Chimarelli Filho, da Universidade Federal do Acre (UFAC), Mirna Feitoza Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e Jacqueline Ausier (USP).

  • Apresenta o trabalho ‘Aos Olhos de Judas: imagem e memória na Amazônia’, que contará com imagens presentes no livro ‘A ideia de civilização nas imagens da Amazônia 1865-1908’, resultado de 40 anos dedicados à pesquisa e indicado ao Prêmio Jabuti 2023.

“Não queremos mostrar uma Amazônia que nunca foi vista, não é esse o impacto que queremos gerar. O que queremos mostrar é uma Amazônia diferente daquela que vem sendo cultuada”, explica o professor.

  • Orienta a estudante do curso de Jornalismo da UFRR, Yasmim Trindade, na apresentação do trabalho ‘A Identidade Imagética da Amazônia criada pela Inteligência Artificial’, também nesta sexta-feira.
  • Promove uma exposição fotográfica com imagens feitas por cinco fotógrafos de Roraima: Jorge Macedo, Conceição Escobar, Andrezza Mariot, Marcelo Mora e Pablo Sérgio.

Com tema livre e sob curadoria de Zouein, os fotógrafos foram orientados a retratar a própria percepção que eles têm sobre a Amazônia. Foram selecionadas duas fotos de cada um. Veja algumas:

O que é semiótica?

Principal área de pesquisa de Maurício Zouein, a semiótica é o estudo de como os sinais e os símbolos são usados para transmitir significados e ajuda a entender como os humanos dão sentido ao mundo através desses símbolos.

Palavras, imagens, gestos e até sons são sinais que comunicam algo, e essa ciência investiga como eles são criados e entendidos pelas pessoas, além de como podem ter significados distintos em diferentes contextos sociais e culturais.

“A Amazônia é necessária pela sua abundância de natureza, de filosofia, pelas culturas tradicionais. Ela é necessária para a humanidade. Só que ‘semioticamente’ falando, a Amazônia, ainda é consumida por símbolos criados externos a ela, por gente dos Estados Unidos, da Europa e de outras partes do Brasil, que constroem um significado muito diferente do que ela é”, afirma.

‘Aos Olhos de Judas’

O trabalho ‘Aos Olhos de Judas: imagem e memória na Amazônia’ reúne imagens presentes no primeiro livro de Zouein ‘A ideia de civilização nas imagens da Amazônia 1865-1908’ e ocorre no dia 4 de julho. Lançado em 2023, a obra propõe uma reflexão sobre como as pessoas da Amazônia foram retratadas por fotógrafos europeus no final do século XIX e início do século XX.

Cartão postal enviado em 1904 com fotografia tirada em 1894 mostra três crianças indígenas — Foto: Fotografia/George Huebner/Acervo/Maurício Zouein
Foto: Fotografia/George Huebner/Acervo/Maurício Zouein.

O livro, indicado ao Prêmio Jabuti 2023, mostra como as riquezas culturais e sociais das pessoas da Amazônia eram desvalorizadas e ocultadas através de fotografias raras e antigas. As imagens foram capturadas por fotógrafos europeus e divulgadas em cartões-postais e álbuns financiados por governadores do Amazonas e Pará, com objetivo de valorizar a cultura dos estrangeiros.

“É uma pesquisa de anos, mostrando como a Amazônia era retratada: como um lugar com pessoas pobres e ‘a ser civilizado’. Até hoje ainda existe, essa questão de mostrar a Amazônia enquanto um lugar exótico”.

Três indígenas macuxis e wapichanas sorriem em fotografia tirada em 1911 — Foto: Fotografia/Theodor Koch-Grünberg/Acervo/Maurício Zouein
Foto: Fotografia/Theodor Koch-Grünberg/Acervo/Maurício Zouein.

Com as imagens produzidas na região, os europeus buscavam colocar a percepções de mundo deles acima da cultura das populações locais, como se a Amazônia precisasse passar por um processo civilizatório. Ao mostrar como essa dinâmica ocorreu ao longo da História através de documentos e da pesquisa, o livro ajuda a pensar em como o processo de opressão cultural ainda acontece e se repete ao longo dos anos.

“Quando se tratava de civilização, [as pessoas da Amazônia] eram [mostradas como] pobres e quando mostradas ao mundo, eram exóticas. Quantas vezes a nossa história foi jogada por debaixo do tapete para que esses projetos de progresso e civilização pudessem existir?”, questiona.

Primeiro cartão postal enviado no Brasil em 1898 — Foto: Divulgação/Maurício Zouein
 Foto: Divulgação/Maurício Zouein.

Reconhecimento da ciência de Roraima

Para o professor, a participação no congresso representa uma realização pessoal, mas também é importante para a comunicação de Roraima e para a própria UFRR. Estampar o nome da universidade na qual se formou e hoje é professor ao lado de instituições mundialmente renomadas é o reconhecimento da qualidade da ciência produzida no estado, avalia o pesquisador.

“O valor simbólico, além de toda experiência acadêmica, é a possibilidade de discutirmos e apresentarmos a imensa potência estética e valores éticos originários da nossa região. Os participantes terão a oportunidade de conhecer fotografias repletas de significados históricos e identidade imagética da Amazônia”, disse Ticianeli.

Já a representante da USP e organizadora do congresso, a professora Clotilde Perez, destacou a apresentação do primeiro painel específico sobre a Amazônia. Para ela, a ocasião será uma chance de aprender, discutir e se inspirar através dos signos da região.

José Geraldo Ticianeli, reitor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) — Foto: g1 RR
 Foto: g1 RR.

“O painel vai tratar das singulares linguagens amazônicas que se expressam com imensa potência estética e valores éticos originários do nosso país. Certamente esse será um momento privilegiado para promover a reflexão sobre quem somos, como nos expressamos e para onde queremos ir”, afirmou a professora.

Zouein cita ainda que que ter a ciência produzida em Roraima apresentada numa das maiores universidades do mundo é um passo para mostrar a competência dos pesquisadores da região Norte. Ele frisou que o acesso ao conhecimento é dificultado no estado devido à distância dos grandes centros, o que precisa ser mudado.

“Se você comprar um livro de R$50 reais aqui, você precisa pagar mais R$ 50 de frete para ele chegar. A pessoa que mora no centro-sul paga só os R$50 e a pessoa que mora na região norte paga o dobro pelo mesmo conteúdo. Isso aqui não está legal; O fato de você estar distante não te dá as mesmas possibilidades que outros. Isso é lógico mas não pode ser normal e tão pouco natural. Temos que lutar para mudar isso e mostrar a nossa competência”, conclui.

*Por João Gabriel Leitão, da Rede Amazônica RR

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