Apaixonado por açaí, o pequeno Richard Lael, de 5 anos, estudante educação infantil foi destaque no ‘dia da mochila maluca‘ por inovar levando uma miniatura de uma batedeira de açaí. A brincadeira realizada na Escola Estadual Professora Izanete Victor dos Santos, localizada em Santana, no Amapá, aconteceu dia 21 de agosto.
A mãe do estudante, Leciele Silva, disse que a ideia surgiu devido o filho amar bater o açaí, um costume tradicional que tem com os avós e que a mochila foi feita de surpresa, especialmente para ele.
“Eu fiz a mochila junto com uma amiga professora que foi a artista. A ideia surgiu porque o avô tem uma batedeira de açaí e o outro avô também, é algo da família. Ele já foi na área ribeirinha no açaizal, no interior e porque ele gosta muito de açaí”, disse.
A mãe contou ainda que viu no ‘dia da mochila maluca’ a oportunidade de divertir e surpreender o filho. Ela guardou a mochila e entregou somente antes da criança ir para a escola. Richard ficou muito feliz ao ver o resultado final.
“Eu gostei muito da minha mochila maluca e me inspiro muito nos meus avós”, disse o pequeno.
O ‘dia da mochila maluca’ virou febre no Amapá, após vários momentos engraçados e criativos viralizarem nas redes, como a mochila de conserva em lata, um prato comum no Mazagão. E desta vez, o prato mais amado pelos nortistas, foi o escolhido.
A programação na escola de Santana não foi uma competição, mas todos os estudantes tiveram o momento de diversão com a mochila diferenciada.
Com estreia mundial no Teatro Amazonas, em agosto de 2023, o filme ‘Pirarucu – o respiro da Amazônia‘ está concorrendo a uma premiação internacional considerada o ‘Oscar‘ dos filmes de natureza, o Panda Awards. Filmada no Amazonas, a obra concorre na categoria Sustentabilidade.
‘Pirarucu – o respiro da Amazônia’ mostra como o manejo sustentável do pirarucu é um forte mecanismo de proteção da região amazônica e dos povos da floresta.
Os mundialmente aclamados Panda Awards, considerados os ‘Óscares Verdes’ da indústria internacional de cinema e televisão sobre vida selvagem, estão no centro do Wildscreen Festival desde 1982. A competição é composta por 14 categorias e três prêmios especiais, incluindo o cobiçado Golden Panda pela melhor produção geral.
“No filme ‘Pirarucu, o Respiro da Amazônia’, levamos o espectador a uma jornada única, explorando a notável história de resistência e autodeterminação dos moradores do Médio Juruá na Amazônia brasileira”, relata a diretora do filme, Carolina Fernandes.
FOTO: Divulgação / Secretaria de Cultura e Economia Criativa
“O filme é um testemunho emocionante da força dessas comunidades amazônicas, que se tornaram os maiores guardiões da Amazônia, optando pelo manejo participativo do pirarucu, maior peixe de escamas de água doce do mundo, como uma estratégia ousada de conservação”, define a diretora.
Na visão de Carolina Fernandes, o filme traz uma mensagem de esperança para a Amazônia. “Em meio a tantas notícias de perdas e tragédias na região, o documentário conta como o manejo de apenas uma espécie de peixe se tornou um poderoso instrumento para proteção e benefício da floresta e dos seus povos”, diz.
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A obra
‘Pirarucu, o Respiro da Amazônia’ é idealizado e protagonizado por lideranças comunitárias do Rio Juruá e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá destacando os notáveis resultados dessa união entre o conhecimento científico e a sabedoria ancestral das populações tradicionais e indígenas.
O filme mergulha profundamente nas águas do Rio Juruá e na região de Mamirauá, oferecendo uma visão fascinante de como a união entre comunidades e natureza pode resultar em um equilíbrio delicado que salva espécies da extinção e preserva a majestade da floresta amazônica.
O filme também mostra como a região do Médio Juruá saiu de um cenário de trabalho análogo à escravidão para se tornar um verdadeiro exemplo de desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Produzido pela Banksia Films com direção de Carolina Fernandes, produtora audiovisual radicada no Amazonas há 12 anos, o filme mostra como o manejo do pirarucu foi desenvolvido, destacando a importância do conhecimento tradicional aliado ao conhecimento técnico de pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.
“Com o declínio da borracha e seus patrões, os moradores da região se organizaram e, incentivados pela luta por emancipação liderada por Chico Mendes, conquistaram a demarcação de Unidades de Conservação (UCs) e a comercialização da produção agroextrativista de forma mais autônoma e justa, banindo os atravessadores e criando associações próprias”, explica a diretora Carolina Fernandes.
De acordo com a diretora, o filme retrata de forma poética como as comunidades melhoraram a qualidade de vida ao se engajar nessa atividade sustentável, que salvou o pirarucu da extinção e protege a floresta.
FOTO: Divulgação / Secretaria de Cultura e Economia Criativa
Por meio da obra, o público também pode conhecer a história da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), que foi a primeira organização criada na região e até hoje é um grande exemplo para a Amazônia, coordenando as atividades no território com compromisso com a floresta e seus povos.
Além disso, o filme apresenta os resultados positivos dessa atividade no Médio Juruá. Em 11 anos, a população de pirarucu aumentou 55 vezes em lagos protegidos, fruto do manejo participativo do pirarucu e que gera uma importante fonte de renda, melhorando a qualidade de vida nas comunidades pela valorização dos produtos sustentáveis da floresta.
A logística para as filmagens foi bastante complexa e realizada em várias etapas, relata a diretora. “Filmamos o manejo do pirarucu no médio Juruá por 10 dias. Após isso, tivemos filmagens de entrevistas com os parceiros da rede pirarucu em Manaus”, conta. “E, por fim, viajamos para Mamirauá por cinco dias, onde pudemos fazer entrevistas com os pioneiros pescadores de pirarucu da região, que iniciaram e implementaram o manejo dessa espécie na Amazônia”, lembra.
De acordo com a diretora, o que fez a diferença foi poder contar com a dedicação e talento da equipe, que tem conhecimento e experiência para encarar quaisquer condições de filmagem na Amazônia, segundo ela.
A diretora
Carolina Fernandes é diretora e produtora audiovisual radicada no Amazonas há 12 anos. Treinada pela indústria de televisão britânica e francesa, ela tem experiência na direção e produção de séries de TV e documentários com temática ambiental com créditos na BBC, National Geographic Channels, Smithsonian Channel, HBO, Netflix, Animal Planet, Arte France, dentre outros.
Além disso, Carolina é diretora da série do Discovery Science “Mysteries of the Abandoned” na Amazônia. Produziu e atuou como diretora assistente no filme “Ex- Pajé” (premiado no Festival de Berlim em 2018 e no festival É Tudo Verdade) e no filme “A Última Floresta” (vencedor do prêmio do público na mostra Panorama da Berlinale em 2021), ambos dirigidos por Luiz Bolognesi. Seu trabalho se aproxima intimamente da Amazônia, sempre testemunhando a enorme capacidade dessa região de se preservar enquanto transforma a sua paisagem e o seu povo.
O filme é produzido por Banksia Films, produtora audiovisual de filmes com conteúdo para cinema e TV com atuação no mercado audiovisual brasileiro e internacional, oferecendo serviços de criação de conteúdo, produção e pós-produção de séries de entretenimento factuais, programas de entretenimento de alto perfil, documentários de realidade e de observação. É reconhecida no mercado nacional e internacional pela qualidade e solidez de seus projetos audiovisuais.
O total de 11.442 hectares (ha) de floresta foi explorado para extração de madeira no estado de Roraima entre agosto de 2022 e julho de 2023. De toda a extração madeireira mapeada, 82%, ou 9.319 hectares, ocorreu de forma não autorizada, e 18%, ou 2.103 hectares, de forma autorizada. Isso significa que a maior parte da madeira extraída em florestas do estado não tinha plano de manejo autorizado pelo órgão competente e foi alvo de ação ilegal.
Esse cenário é influenciado pela transparência de dados disponibilizados na plataforma do Sistema Compartilhado de Informações Ambientais (Siscom), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), onde as informações foram coletas coletadas.
Anualmente, o Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), formado pela rede de instituições de pesquisa ambiental integrada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Idesam, Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e Instituto Centro de Vida (ICV), produz informações sobre a atividade na Amazônia Legal e nos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima.
Pablo Pacheco, consultor do Idesam, explica como a falta de transparência afeta o acesso ao cenário concreto de informações sobre a exploração madeireira na Amazônia. “Essa situação representa um desafio significativo, que impacta a análises de legalidade e a fiscalização da exploração madeireira. Essa deficiência pode levar a várias consequências, incluindo a exploração insustentável das florestas, o desmatamento ilegal e a degradação ambiental, além de dificultar a implementação de políticas de manejo florestal sustentável por parte de iniciativas do terceiro setor”, diz Pacheco.
A rede Simex procurou a Organização Estadual de Meio Ambiente (Oema) de Roraima em busca de informações sobre exploração madeireira autorizada, mas não obteve retorno. Assim, os dados apresentados neste relatório foram obtidos exclusivamente por meio do Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor) pela plataforma do Siscom, o que pode acarretar inconsistências decorrentes da falta de atualização do sistema.
Das explorações não autorizadas em Roraima, 81%, o equivalente a 7.531 ha, foram identificadas em Imóveis Rurais Privados; 9%, ou 857 hectares, em Assentamentos Rurais; outros 9%, correspondentes a 810 ha, em Áreas Não Destinadas; e o 1% restante em outras categorias fundiárias.
“Os dados de Roraima apresentaram aumento significativo em relação ao período analisado anteriormente e isso tem uma justificativa lógica no aumento da extração e, também, pela melhoria nas condições atmosféricas anuais, pois para a análise são utilizados dados de sensores orbitais passivos que podem apresentar inconsistências na identificação em períodos de muita nebulosidade e/ou cobertura de plumas de fumaça”, esclarece Heitor Pinheiro, especialista em geoprocessamento e analista do Idesam.
“A validação dos polígonos, por parte do Idesam, foi feita com imagens normalizadas da constelação PlanetScope e a identificação por meio de satélites como LandSAT e Cbers, o que aumenta a precisão dos dados”, completa Heitor.
Para cada extração madeireira mapeada via satélite, foi examinada a existência de licença para o Plano de Manejo Florestal Sustentável, cuja validade estivesse em conformidade com o período de análise deste trabalho, no entanto, somente 18% da extração mapeada tinha plano de manejo.
Transparência combate fraudes e facilita a criação de políticas públicas
Segundo Pablo Pacheco, as análises de legalidade da exploração madeireira precisam de dados claros sobre as práticas de exploração e a gestão florestal para avaliar riscos e garantir que as empresas envolvidas na atividade cumpram o que determina a legislação ambiental. “A falta de dados transparentes torna difícil quantificar os impactos da exploração madeireira sobre a biodiversidade e os ecossistemas. O que impede a criação de estratégias adequadas para mitigação e adaptação da atividade de exploração madeireira”, explica o consultor.
Ele ressalta que a dificuldade de acesso a informações também agrava a situação podendo facilitar fraudes. “A escassez de dados confiáveis sobre a quantidade de madeira extraída, as áreas desmatadas e as práticas de manejo florestal dificultam a avaliação precisa dos impactos ambientais e sociais da exploração madeireira”, diz Pablo. “Isso leva a falta de supervisão rigorosa e de dados transparentes, o que pode facilitar práticas fraudulentas que perpetuam atividades ilegais e prejudicam aqueles que operam de maneira sustentável”, acrescenta Pacheco.
“As comunidades locais frequentemente dependem dos recursos florestais, e a transparência nas operações madeireiras é essencial para assegurar seus direitos e promover o engajamento em práticas sustentáveis. A falta de transparência pode levar a conflitos sociais. Ademais, políticas públicas eficazes dependem de informações sólidas. A ausência de dados adequados impede a formulação e a execução de políticas de proteção e manejo sustentável das florestas”, completa Pablo.
O diretor-técnico do Idesam, André Luiz Vianna, alerta que a exploração ilegal, além dos danos ambientais, pode gerar situações de riscos aos trabalhadores do setor e impacto negativo no mercado. “O produto ilegal compete com a madeira licenciada prejudicando todo o setor, tanto na redução de preço quanto em termos reputacionais, o que dificulta o acesso a mercados com maiores valores”, disse. “A atividade madeireira licenciada é importante para o Estado e para a sociedade, pois gera arrecadação de impostos, empregos e movimenta recursos relacionados a essa cadeia. Também permite a manutenção da cobertura florestal e, quando realizado por populações tradicionais, gera renda e proteção dos territórios”, analisa Vianna.
Panorama
Os municípios de Roraima com mais exploração madeireira autorizada entre agosto de 2022 e julho de 2023 foram: São Luiz, com 819 ha; Caroebe, com 466 ha; Caracaraí, com 326 ha; Rorainópolis, com 257 ha; e Mucajaí, com 235 ha. Já entre os com mais exploração madeireira não autorizada foram: Caracaraí, com 5.102 ha; Rorainópolis, com 2.400 ha; São Luiz, com 878 ha; Mucajaí, com 436 ha; Caroebe, com 364 ha; Cantá, com 93 ha; e São João da Baliza, com 45 ha.
Entre os Assentamentos Rurais mais explorados em Roraima, se destacaram: o Projeto de Assentamento Dirigido (PAD) Anauá, com 514 ha; o Projeto de Assentamento (PA) Cupiuba, com 124 ha; o PA Trairi, com 69 ha; o PA Ladeirão, com 66 ha; o PA Integração, com 51 ha; e o PA Jatapu, com 22 ha.
Quando a maioria das pessoas pensa em cobras, imagina animais perigosos, espreitando à procura de sua próxima vítima. Essa visão romântica e preconceituosa provavelmente resulta da cultura que compulsoriamente herdamos de nossos colonizadores europeus. Na realidade, menos de 30% das mais de 235 espécies de cobras conhecidas no Brasil são peçonhentas. Destas, mais da metade são cobras-corais, que raramente causam acidentes com humanos devido ao seu comportamento recluso. Portanto, mais de 200 espécies de cobras brasileiras são inofensivas para humanos e animais domésticos, e exibem uma incrível diversidade de tamanhos, cores e hábitos de vida.
Acidentes ofídicos não devem ser subestimados como problema de saúde pública. Eles são classificados pela Organização Mundial da Saúde como uma doença tropical negligenciada, o que se deve mais à dificuldade de acesso ao tratamento adequado com soro antiofídico do que ao perigo inerente das cobras. Pessoas em áreas remotas geralmente enfrentam maiores riscos de acidentes e desafios para chegar a um hospital, especialmente na Amazônia, onde precisam percorrer distâncias imensas pelos rios.
No entanto, há muito mais a ser explorado sobre cobras além do risco de acidentes. Como parte da impressionante diversidade de vida que resultou de bilhões de anos de evolução biológica, a história das cobras revela mistérios sobre a própria história do planeta. A Amazônia, por exemplo, abriga uma das maiores cobras peçonhentas do mundo, a única víbora das Américas que reproduz depositando ovos e uma das poucas espécies que exibem cuidado parental – as fêmeas cuidam de seus ovos e podem usar contrações musculares para manter a temperatura estável. Estou falando da surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta, Viperidae), conhecida no Ceará como malha-de-fogo e nos países de língua inglesa como Bushmaster – a mestra da floresta!
A surucucu-pico-de-jaca pode ser encontrada em toda a Amazônia e em alguns remanescentes da Mata Atlântica, onde ainda não foi extinta. No entanto, não ocorre entre esses dois biomas, na região chamada diagonal seca da América do Sul, formada por biomas de clima relativamente seco e vegetação aberta, como o Cerrado e a Caatinga. Mudanças geológicas e climáticas ao longo de milhões de anos separaram as duas grandes florestas tropicais da América do Sul, isolando populações de surucucus-pico-de-jaca.
Surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta) da Amazônia. A) Detalhe da cabeça de um filhote; B) Adulto com o corpo enrodilhado; C) Filhote em postura de defesa; C) Detalhe da cabeça, E) Detalhe da região ventral; F) Detalhe da ponta da cauda. Fonte: Fraga et al. 2013 – Guia de Cobras da Região de Manaus
Assim, essa cobra incrível fornece evidências de que a Amazônia e a Mata Atlântica já foram uma única floresta. Hoje, sabemos que esses biomas estão separados há tempo suficiente para que as populações isoladas de surucucus tenham divergido evolutivamente a ponto de se tornarem espécies distintas. Estudar surucucus-pico-de-jaca na natureza é um desafio. São animais noturnos, com camuflagem eficiente e ocorrem em baixas densidades populacionais, o que significa que geralmente existem poucos indivíduos por unidade de área. Em meus 18 anos de experiência na Amazônia, encontrei apenas cinco indivíduos, sendo um deles particularmente interessante. Em uma noite chuvosa na região do interflúvio Madeira-Purus, no sudoeste da Amazônia, um colega australiano gritou: “A mexican hat!!” (“um chapéu mexicano”, em inglês). Demorei alguns segundos para entender que ele havia avistado uma enorme surucucu-pico-de-jaca, com a cabeça repousada sobre o corpo enrolado, lembrando um chapéu mexicano.
Capturar aquela cobra enorme para coletar os dados necessários para os nossos estudos seria um desafio enorme. Meu colega não tinha experiência capturando cobras, e eu jamais me atreveria a tentar sozinho. Estávamos a mais de 5 km da estrada mais próxima, em péssimas condições, e levaria um dia inteiro para chegar a um hospital. Então não podíamos correr riscos. Decidimos que meu colega ficaria de olho na cobra enquanto eu buscava o resto da equipe, a 3 km de distância.
A trilha era bem marcada, então parecia fácil. Mas especialmente naquela noite alguns obstáculos apareceram pelo meu caminho. Uma grande árvore caída bloqueou a trilha, e na tentativa de desviá-la, fiquei perdido na floresta por uns 30 minutos. Também havia uma grande poça d’água que decidi pular, sem me atentar para um galho de árvore que despontava do outro lado, na altura da minha cabeça. Bati tão forte com a cabeça que vi tudo girando, e caí desmaiado na poça. Recuperei a consciência rapidamente, e percebi que havia sangue escorrendo pela minha orelha. Mais à frente tentei me equilibrar atravessando uma pinguela sobre um igarapé (ponte feita com tronco fino de árvore), e caí da forma mais dolorosa que você pode imaginar em uma situação como essa.
Finalmente, alcancei meus companheiros, que ficaram eufóricos com a notícia da surucucu-pico-de-jaca. Voltamos todos correndo e encontramos meu colega australiano ainda observando a cobra. Planejamos cuidadosamente a captura, coletamos nossos dados e voltamos ao acampamento, felizes, cansados e molhados. Que noite!
Parte da equipe de pesquisadores e assistentes de campo na BR-319, estrada que corta o interflúvio Madeira-Purus, sudoeste da Amazônia. Fotos: Rafael de Fraga/Acervo pessoal
*Autor:
Rafael de Fraga é biólogo, mestre e doutor em ecologia. Ele tem estudado cobras na Amazônia há 16 anos, investigando padrões de diversidade associados à variação nas características de florestas e savanas. Também participou como apresentador e pesquisador da série de TV Em Busca das Cobras.
Rafael de Fraga – r.defraga@gmail.com
Sobre o Conexões Amazônicas
O coordenador da ONG Rede Conexões Amazônicas, Ayan Fleischmann, é pesquisador titular do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sendo mestre e doutor em recursos hídricos. Em sua trajetória tem pesquisado as águas e várzeas amazônicas em suas múltiplas dimensões. É representante da ONG na coluna no Portal Amazônia, onde recebe pesquisadores convidados que contam os bastidores de suas experiências de pesquisa na Amazônia.
Se a arquitetura é o símbolo mais visível de uma sociedade, a fisionomia urbana de Manaus reflete bem o espírito da sociedade que aqui floresceu em fins de 1800 e início de 1900. Na verdade a arquitetura de Manaus, a arquitetura mais antiga exprime uma atitude emocional e estética do apogeu de um período do látex e da burguesia enriquecida pelo processo produtivo.
A cidade que despertou a admiração de tantos estrangeiros imigrantes ou visitantes, nas primeiras décadas de 1900, surgiu como por encantamento.
De uma aldeia dos indígenas, o antigo Lugar da Barra se transformara num dos mais importantes centros do mundo tropical, graças a vitalidade econômica da borracha, que lhe deu vida, riqueza e encantos, como na antiguidade o comércio intenso no Mediterrâneo e no Adriático possibilitou a Roma, Florença e Veneza papel preponderante na economia, nas artes, nas letras e na arquitetura da Velha Europa.
Tal como Veneza, por meio de seu comércio de longo alcance com povos europeus e extras europeus, Manaus veio conhecer o gosto e a experiência de países extras americanos onde sua burguesia procurava inspirações de vida e de ação. O passeio de férias à Europa era ocorrência de rotina para a família de Manaus que, por sua vez, de lá traziam ideias e sugestões transformados em valores culturais, às vezes um tanto invulgar de uma sociedade desejosa de crescer e firmar-se como força civilizadora.
Cidade de suaves colinas, Manaus desdobrava-se em vistas múltiplas para quem a cruzasse nas avenidas e ruas de um lúcido urbanismo. E não deixa de impressionar a obra urbanizadora da capital, creditada ao governo de Eduardo Gonçalves Ribeiro, a topografia da cidade, antes do governo dele, deslumbrava-se em cortes hidrográficos: era o Igarapé do Salgado, o Igarapé da Castelhana, o Igarapé da Bica, o Igarapé do Espírito Santo, Igarapé de Manaus, Igarapé da Cachoeirinha, Igarapé de São Raimundo, Igarapé dos Educandos, etc.
Eduardo Gonçalves Ribeiro aterrou os caudais em benefício de um urbanismo funcional, que lutou contra a natureza até fazer secar os pequenos cursos d’água, transformada em amplas avenidas.
[…] Avenida Eduardo Ribeiro, com sua imponência, resultado do aterro do Igarapé do Espirito Santo. Outros tantos igarapés atravessados por sólidas pontes de ferro, em disposições geométricas artisticamente apresentadas. O Teatro Amazonas erigido no topo de uma colina, como se fosse a Acrópole dos Deuses da Floresta, marca a capital no espaço e no tempo, inaugurado em 1896.
Fonte: TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. Manaus: Valer, 2000. Pág.: 188-189.
Foto: Reprodução/Manaus de Antigamente
Cidade rica, progressista e alegre, calçadas com granito e pedra de liós, trazida de Portugal, sombreadas por frondosas mangueiras e de praças e jardins bem cuidados, com belas fontes e monumentos, tinha todos os requisitos de uma cidade grande urbana moderna: água encanada e telefonias; energia elétrica, rede de esgoto e bondes elétricos deslizando em linhas de aço espalhadas por toda malha urbana e penetrando na floresta até os arredores mais distantes do Bairro de Flores. O seu porto flutuante, obra-prima da engenharia inglesa, construído a partir de 1900, o qual recebia navios de todos os calados e das mais diversas bandeiras.
O movimentar do centro comercial regurgitando de gente de todas as raças: nordestinos, ingleses, peruanos, franceses, judeus, norte-africanos, norte-americanos, alemãs, italianos, libaneses, portugueses, caboclos e índios.
A Avenida Eduardo Ribeiro concentrava um número expressivo de casas comerciais. Nas proximidades do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, Ruas Marcílio Dias, Guilherme Moreira, Quintino Bocaiúva, 7 de Setembro, Henrique Martins, Instalação, Praça XV de Novembro. Tudo o que o comércio internacional oferecia à época poderia ser encontrado nesta longínqua cidade, plantada a milhares de quilômetros dos principais centros capitalistas.
Atividades comerciais bem constituídas abrigavam, no andar inferior, o comércio e no andar superior a residência do proprietário, instalado próximo ao seu trabalho, o que ocorria normalmente das 7h às 21h.
Esse espaço residencial era o que predominava em nosso centro comercial. Mas, afastadas como a Praça dos Remédios ao longo da Joaquim Nabuco, Largo de São Sebastião, Avenida 7 de Setembro, Rua Barroso, 24 de Maio, Saldanha Marinho e outras ruas circunvizinhas, dispunha-se as residências mais ricas, magníficos palacetes construídos no melhor estilo da época, assoalhos de acapu e pau amarelo, pinho-de-riga, onde o sol vazava as janelas e vitrais europeus. As salas normalmente iluminadas de belíssimos lustres europeus, paredes e tetos decorados de pinturas e telas ou de ares frescos.
Seus salões amplos exibiam luxuosíssimos móveis, porcelanas, cristais, pratarias e que permaneciam sempre abertos para receber visitas e festas de aniversários, banquetes e saraus, as diversões familiares da belle époque.
Casas de alvenaria com porões habitáveis, com fachada de painéis de azulejos europeus, com suas entradas de escadas em degraus de pedra de liós, ou madeira, sala de visita, alcova, sala de jantar, o grande corredor, ladeados de dois três quartos, cozinha em mais dependências.
[…] As famílias de menores recursos habitavam as extensas vilas de casas populares, o que ainda encontramos hoje nas ruas 24 de maio, Lauro Cavalcante e Joaquim Nabuco e as chamadas estâncias, extensas construções de meia-água divididas em pequenos quartos para aluguel. Entre os hotéis destacavam-se o Casina, na Praça Dom Pedro II e o Grande Hotel na Rua Municipal número 70, belíssimo edifício de dois andares, com quarenta e dois quartos, cujos, cômodos eram decentemente mobiliados.
Fonte: LOUREIRO, Antônio José Souto. A Grande Crise. Pág.: 33 e 34. In. BAZE, Abrahim. Luso Sporting Clube: A Sociedade Portuguesa no Amazonas. Manaus: Valer, 2007.
Foto: Reprodução/Manaus de Antigamente
Poucas cidades do Brasil tenham passado pela fase de esplendor que atravessou Manaus, entre 1895 a 1915, quando conquistamos do grande ciclo econômico do látex o que de melhor era trazido da Europa e utilizado em nossa cidade. Não é, na realidade, um tema ignorado para muitos, mas poucos conhecem as verdadeiras relíquias históricas da arquitetura que, em tempos passados marcaram o desenvolvimento e o embelezamento da cidade de Manaus.
Turistas, estudiosos e outras pessoas que procuram Manaus se deparam com Teatro Amazonas, com Tribunal de Justiça, com a Alfandega e outras obras importantes daquele período, mas, passam despercebido por prédios menores que desafiam as gerações e a técnica moderna, esboçando na sua estrutura e apresentação, um tipo de arte, implantada em Manaus pelo arquiteto Severiano Mário Porto.
É o caso do Restaurante Chapéu de Palha que foi um dos lugares mais curiosos e marcantes da história da arquitetura regional e obra-prima do referido arquiteto. Inaugurado no dia 24 de fevereiro de 1968, esse point da gastronomia regional tinha como endereço a esquina da Rua Paraíba com Rua Fortaleza no Centenário Bairro de Adrianópolis.
Projeto totalmente regional idealizado pelo arquiteto Severiano Mário Porto um ícone da nossa arquitetura, cuja inspiração era formatada num estilo de chapéu de palha usado pelos ribeirinhos de nossa região como proteção contra o sol em suas longas jornadas de pescaria em nossos rios a estrutura do restaurante era totalmente feita de materiais locais, incluindo troncos de aquariquara que promovia sua sustentação e cuja cobertura era feita de palmeiras regionais (palha), além de concreto armado que formavam suas sapatas. Uma área que possuía aproximadamente 7.850 metros quadrados e o restaurante ocupava uma área de 2.400 metros quadrados.
Severiano Mário Porto manteve o escritório no Rio de Janeiro com a coordenação de seu sócio, o arquiteto Mário Emílio Ribeiro, que foi seu colega de turma na FNA e coautor de projetos importantes. Muito dos projetos desenvolvidos em nossa região foram premiados pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil – IAB, como o restaurante Chapéu de Palha, demolido em 1967. Suas obras e sua história de vida fica a espera de um estudo mais aprofundado e quem sabe sua autobiografia.
Severiano Mário Porto. Foto: Reprodução/CAU-AM
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) publicou, no dia 23 de agosto, o primeiro Boletim de Desmatamento e Ilícitos Ambientais (BDI Censipam). O objetivo do boletim é acompanhar a evolução do desmatamento no bioma amazônico ao longo do ano, trazendo foco também para outros ilícitos ambientais relacionados ao desmatamento, como a mineração ilegal e pistas de pouso irregulares em terras indígenas e unidades de conservação.
A edição atual traz a análise do primeiro semestre de 2024 e, a partir de então, será publicada bimestralmente. O próximo número, previsto para a primeira quinzena de setembro, incluirá dados de julho e agosto.
Integração de alertas de desmatamento
O BDI Censipam utiliza uma nova metodologia que integra os alertas gerados pelo Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (DETER), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pelo Programa Brasil MAIS (Meio Ambiente Integrado e Seguro), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), e pelo sistema Localização de Garimpos (LOGAR), do próprio Censipam. A integração de diferentes sistemas de alertas tem o objetivo de aumentar a acurácia da informação sobre o desmatamento na Amazônia, explorando as potencialidades de cada ferramenta disponibilizada pelos órgãos públicos.
Devido à melhor resolução espacial e a delimitação mais precisa da área desmatada fornecidas pelos alertas Brasil MAIS, estes foram escolhidos como base para a análise do desmatamento. Por possuir uma melhor cobertura do bioma Amazônia, os alertas DETER foram utilizados de forma para garantir a abrangência para todo o bioma.
Além do desmatamento da vegetação nativa, o boletim inclui dados sobre desmatamento de vegetação florestal secundária, ou seja, áreas florestais em processo de regeneração que foram anteriormente desmatadas, utilizando informações do programa TerraClass, desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo INPE, com apoio do Censipam.
Mineração ilegal e pistas de pouso irregulares
Além do desmatamento, o BDI traz enfoque para a mineração ilegal e as pistas de pouso irregulares em Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Para isso, utilizou o Sistema de Localização de Garimpos (LOGAR), produzido pelo Censipam, que realiza validação, refinamento e classificação dos alertas de mineração gerado pelo DETER e Brasil MAIS, utilizando imagens de alta resolução. Com relação às pistas de pouso irregulares, foi utilizado o sistema de Localização de Pistas de Pouso (LOPIS), também produzido pelo Censipam, que identifica e classifica as pistas de pouso irregulares na Amazônia Legal, a partir de imagens de satélite.
Eventos de fogo
O boletim apresenta também informação sobre o número de eventos de fogo detectados nos estados amazônicos, a partir das informações geradas pelo Painel do Fogo (Censipam), uma plataforma que disponibiliza informações em tempo real sobre incêndios e queimadas no Brasil e nos países vizinhos que possuem o bioma amazônico em seu território.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Somadas ano a ano, as áreas de queimadas no Brasil ultrapassam 830 mil km² até julho de 2024. Os três mandatos do presidente Lula da Silva (Lula I, II e III) registraram os maiores índices de áreas queimadas no Brasil em duas décadas, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Com mais de 113 mil km² queimados até julho de 2024, o governo Lula III já ultrapassa os números críticos dos mandatos anteriores, colocando em alerta especialistas e ambientalistas sobre o futuro dos biomas brasileiros. Durante seus primeiros dois mandatos, o Brasil continuou a registrar altos índices de queimadas.
Em 2003, início de seu primeiro mandato, a área queimada atingiu 103.5 km², um dos piores registros da história. Este número foi superado em 2005, quando as queimadas alcançaram 103.6 km², demonstrando uma tendência preocupante. Após um intervalo de 12 anos fora do poder, Lula retornou à presidência em 2023 com o desafio de lidar com questões ambientais exacerbadas pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento. No entanto, o primeiro ano de seu terceiro mandato foi bastante temerário. Em 2023, a área queimada alcançou 68.9 km², um aumento significativo em comparação aos anos anteriores.
O cenário se agravou em 2024, quando os focos de calor e as queimadas explodiram, alcançando um novo recorde de 113.6 km², o maior número registrado desde 2005. Este dado revela que o atual governo enfrenta dificuldades em controlar as queimadas, apesar de medidas como a nova Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, que foi sancionada no final de julho. Durante esses anos, a combinação de expansão agrícola, desmatamento e falta de políticas ambientais rigorosas contribuiu para o aumento das queimadas, especialmente na Amazônia e no Cerrado, biomas que abrigam uma rica biodiversidade, mas que são extremamente vulneráveis ao fogo.
De acordo com o INPE, na Amazônia registraram-se 11.434 focos de calor em julho, mais que o dobro do número registrado no mesmo mês em 2023 (5.772) e muito acima da média histórica de 6.164. O pior cenário para o mês desde 2005 – o estado do Amazonas o mais impactado -, concentrando em torno de 37% dos focos de calor na região, ou seja, um total de 4.241, novo recorde. Os pesquisadores consideram que o aumento das queimadas na região relaciona-se tanto ao desmatamento quanto às condições climáticas extremas que têm se intensificado com as mudanças climáticas globais. A combinação de florestas degradadas e um clima cada vez mais seco cria ambiente propício, e de difícil controle, à proliferação do fogo, pondo em risco a biodiversidade e as comunidades que dependem da floresta.
Relatório Anual do MapBiomas confirma que, em 2023, o desmatamento alcançou, no Brasil, a média de 5 mil hectares diários. Os números acumulados nos últimos 5 anos indicam que, no período, o país perdeu em torno de 8 milhões de hectares de vegetação nativa, equivalentes a cerca de 10 vezes a área da cidade norte americana de Nova York. O quadro resulta, fundamentalmente, de acordo com estudos da Rede WWF, da “grilagem” amplamente praticada na região. A invasão de terras públicas para apropriação particular, por meio de desmatamento, invasões, ocupação ou loteamento sem autorização do órgão competente.
No Brasil, o roubo de terras públicas, destaca o estudo, ocorre principalmente no Norte do país. Aqui enormes glebas fundiárias não destinadas (que ainda não tiveram seu uso definido) pertencentes ao governo Federal ou aos estados, poderiam estar sendo utilizadas, por exemplo, na proteção ambiental ou na produção de madeira por meio de manejo sustentável. Brasília, presa a estranhos compromissos externos, insiste no “desmatamento zero” mas não investe em regularização fundiária, no fortalecimento dos órgãos de controle e no planejamento do desenvolvimento sustentável, único meio de defender e preservar o bioma.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Peixes morrem em igarapé seco em Porto Velho. Foto: Edson Gabriel/Rede Amazônica RO
Com a seca severa e a estiagem que afeta a Amazônia, um igarapélocalizado na comunidade ribeirinha Maravilha secou, causando a morte de dezenas de peixes e dificultando o acesso à água para os moradores da região.
“[O igarapé] Secou pra gente que é humano, para os peixes e pros bichos. Pássaro, capivara, macaco: tudo vai beber água no igarapé e aí como está seco eles estão sofrendo do mesmo jeito que a gente está sofrendo”, relata Conceição, que mora próximo ao igarapé.
O mesmo local que Conceição e a família usavam para atividades diárias e momentos de diversão, como banhos, se tornou em um cenário devastador: um cemitério de peixes.
“A minha reação foi de tristeza, de muita tristeza, de ver eles morrendo e eu não ter o que fazer pra salvar eles”, relembra.
Segundo a Defesa Civil Municipal, situações como essa ocorrem na região de Maravilha e em várias outras comunidades ribeirinhas, lagos e igarapés de Rondônia. A tendência é que a situação piore, já que os meses historicamente mais secos ainda não chegaram.
“O que está acontecendo? Falta de oxigênio na água, temperatura muito alta e eles não sobrevivem. Isso não só aqui, em outras regiões e vai acontecer mais ainda porque o rio Madeira continua baixando”, revela Anderson Luiz, gerente de operações da Defesa Civil.
Isolados e sem água
Sem acesso à água encanada e sem poços amazônicos, moradores de Maravilha dependem da água do igarapé e de um lago para as atividades mais básicas: cozinhar, lavar roupa e louça e se banhar. Coisas simples que se tornam praticamente impossíveis de serem feitas.
Igarapé Maravilha antes e depois da seca. Foto: Reprodução/Rede Amazônica RO
“Eu moro aqui na beira desse lago há 45 anos e eu nunca tinha visto essa situação que nós estamos vivendo agora [de seca]. É muito complicado expressar o sentimento não só meu, como de toda a população ribeirinha que depende desse lago”, relata Cláudio Uchoa.
De acordo com os relatos dos moradores, o Igarapé secou totalmente em menos de um mês. O medo deles é que o lago, agora única fonte de água, seque também, causando a morte das espécies que nele vivem e desabastecendo as 400 famílias que vivem no local.
“Essa água a gente usa pra tudo. E como a gente vai ficar se não tiver essa água?”, questiona Cláudio.
Sem boas previsões
Porto Velho está há três meses sem chuvas significativas. A última precipitação com um volume considerável foi em 25 de maio.
Em um período de estiagem extrema, todos os rios e afluentes de Rondônia são afetados. O rio Madeira bateu recordes de mínimas históricas: julho e julho foram os piores meses em quase 60 anos. Na maior parte do ano o rio se manteve abaixo da zona de normalidade e por várias vezes ultrapassou as mínimas já observadas historicamente.
Em 2023, a estiagem também causou mínimas históricas para o Madeira. O rio desceu para níveis críticos, até chegar a cota de 1,09 metro: o menor nível da história. O registro aconteceu no dia 5 de novembro, às 4h.
Seca rio Madeira 2024. Foto: Reprodução/Rede Amazônica RO
Segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), os baixos níveis são registrados por dois motivos: o período de cheia que ocorre regularmente foi muito abaixo da média, dificultando a manutenção das cotas dos rios quando chegou uma seca severa e antecipada.
“O que o Censipam tem alertado desde o ano passado é que essa estiagem se absteria pela Amazônia legal e o que a gente tem percebido em relação à hidrologia, ao fogo, tudo isso se antecipou em um mês. As previsões são da manutenção desse quadro geral de estiagem severa”, revela Caê Moura, gerente do Censipam.
*Por Jaíne Quele Cruz e Marcelo Moreira, da Rede Amazônica
O Ministério da Saúde garantiu insumos suficientes para realizar testes de malária no território Yanomami por 12 meses. O mais recente investimento foi a entrega de 390 mil lancetas para exames padrão ouro, ou seja, de alta qualidade para o diagnóstico. Desde 2022, o estoque do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) não mantinha um nível de abastecimento tão alto.
A malária centraliza uma série de investimentos da pasta e, além da ampliação da testagem, o ministério busca aprimorar a notificação dos casos e promover tratamento adequado no início da doença.
Em 2024, houve aumento de 83,1% no número de exames realizados para diagnóstico da doença no território Yanomami, comparando-se com o mesmo período do ano anterior. O volume de testes passou de 37,5 mil no primeiro trimestre, para 68,7 mil no mesmo período deste ano.
Rute Helen de Souza, responsável pelo Centro de Abastecimento Farmacêutico (CAF) do Dsei Yanomami, explica que a manutenção de um alto estoque é essencial para a elaboração de ações específicas e manutenção da vigilância da doença. “Esse nível de abastecimento representa a capacidade de a gente ter o diagnóstico de qualidade e expandi-lo pelo território. Assim, o tratamento é iniciado em tempo oportuno, ou seja, no começo da doença”, frisa.
Luciano Bulegon, referência técnica da malária no Dsei Yanomami, destaca que a maior testagem é importante para o monitoramento do comportamento da doença na região. “O aumento do número de locais de diagnóstico e tratamento, além do reforço nas equipes de saúde, resultaram no conhecimento mais profundo do cenário, o que é primordial para a elaboração de ações estratégicas para mitigar a doença”, conclui.
Reforço no tratamento
O Ministério da Saúde ampliou a oferta de medicamentos para o tratamento da doença. Em março, a pasta implementou a tafenoquina, antimalárico em dose única para tratamento da malária Vivax. Quatro mil tratamentos foram disponibilizados para o DSEI Yanomami. Em dose única, tratamento facilita adesão de pacientes, aumenta chances de cura e pode ser um aliado na busca pela eliminação da doença.
Em agosto deste ano, a população Yanomami voltou a receber o tratamento contra a malária artesunato + mefloquina, conhecido como ASMQ, para crianças entre 6 meses e 6 anos. O insumo estava em falta desde 2022. O medicamento é uma estratégia essencial, pois permite a dissolução do comprimido em água para facilitar o uso, o que aumenta a adesão à terapia.
O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), restabeleceu o envio em julho. Ao todo, o Dsei Yanomami recebeu 4.570 unidades do medicamento neste mês.
O medicamento é indicado para utilização em crianças de baixo peso (5 a 17kg) acometidas por malária Falcíparum e malária Mista. No período em que estava em falta, a terapia estava sendo feita com medicamento substitutivo que necessitava de duas doses por dia, dificultando a adesão e a finalização do tratamento.
O AMSQ foi incorporado ao Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária e disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2009, mas teve sua fabricação interrompida em 2021. Ele associa as substâncias cloridrato de mefloquina e artesunato, antes administradas separadamente contra a doença.
Boletim
O Ministério da Saúde divulgou, em 5 de agosto, um novo informe do Comitê de Operações Emergenciais (COE) Yanomami. No primeiro trimestre deste ano, foram notificados 74 óbitos no território. Na comparação com igual período do ano passado, houve uma queda de 33%. Nos três primeiros meses de 2023 foram registradas 111 mortes. O documento ressalta que os principais agravos tiveram queda, dentre eles óbitos por malária, desnutrição e infecções respiratórias agudas graves.
O povo Yanomami tem a maior terra indígena do Brasil, com 10 milhões de hectares, mais de 380 comunidades e 30 mil indígenas. Desde janeiro de 2023, o Ministério da Saúde investe para mitigar a grave crise causada na região pelo garimpo ilegal. A pasta aumentou o efetivo de profissionais, dobrou o investimento em ações de saúde e trabalhou para garantir a assistência e combater doenças, como a malária e a desnutrição, no território.
As mudanças climáticas aumentaram em pelo menos três vezes as chances de ocorrência das condições favoráveis para incêndios florestais sem precedentes no Canadá e em até 20 vezes na Amazônia Ocidental entre março de 2023 e fevereiro de 2024, elevando as emissões de gases de efeito estufa, causando devastação ambiental e provocando mortes de moradores.
Pesquisa internacional divulgada no dia 14 de agosto, conclui que, apesar de a área global queimada ter sido próxima à média de anos anteriores – cerca de 3,9 milhões de quilômetros quadrados, o que corresponde a mais do que o território da Índia –, as emissões por incêndios no mundo ficaram 16% acima da média. Totalizaram 8,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (Gt CO2), ou seja, a sétima mais alta desde 2003.
O primeiro relatório State of Wildfires, que passará a ser anual, foi publicado na revista científica Earth System Science Data. Analisa os incêndios florestais (com vegetações/ecossistemas diversos), identificando eventos extremos, e avalia as causas, previsibilidade e atribuição desses eventos às mudanças climáticas e ao uso da terra, apontando riscos futuros sob diferentes cenários.
Para isso, foram desenvolvidas ferramentas e reunidos dados de todos os países, com uso de inteligência artificial, visando compreender e prever incêndios extremos para fornecer informações práticas a tomadores de decisão e à sociedade.
De acordo com a pesquisa, a ‘temporada’ de incêndios na Amazônia Ocidental (que inclui os Estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia) foi impulsionada por secas prolongadas ligadas ao El Niño. Essas secas aliadas às condições meteorológicas explicaram 68% dos incêndios, mas ações antrópicas, como desmatamento, agricultura e fragmentação de paisagens naturais, também tiveram influência. De maneira geral pelo mundo, as causas que levaram aos incêndios foram múltiplas.
Coliderado pela Universidade de East Anglia, pelo Met Office, pelo Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido (UKCEH) e o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), o estudo teve a participação de três brasileiros entre os 44 pesquisadores.
“A ideia foi criar um panorama global por meio da reunião de especialistas regionais para destacar a situação do fogo no mundo. Foi importante reunir essa expertise regional, com um time diverso tanto de países como de áreas de conhecimento. Outro ponto interessante é a atualização rápida dos dados do ano anterior, com um desenvolvimento contínuo dos modelos. Com isso, esperamos ter a cada ano previsões e diagnósticos mais robustos para acesso não só da pesquisa como para pensar em estratégias visando lidar com os impactos”, explica à Agência FAPESP Maria Lucia Ferreira Barbosa, uma das brasileiras que assinam o artigo. Ela cursou o doutorado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e atualmente está na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Pesquisadora no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e também autora do trabalho, a bióloga Liana Anderson destaca a importância de “entender o passado e o presente para pensar formas de prevenção para o futuro”.
“Olhando as regiões ao longo do tempo é possível identificar novos pontos de atenção. Temos uma base de dados aberta, pública, acessível e on-line, permitindo que diferentes tipos de pesquisa sejam realizados para responder a uma infinidade de questões. Precisamos entender o que o fogo significa em termos de barreiras para atingirmos as metas do desenvolvimento socioeconômico e ambientais no Brasil e as consequências das queimadas na perda de biodiversidade, no empobrecimento da população e na segurança alimentar, por exemplo.”
Ao tratar da América do Sul na pesquisa, o grupo aponta que, no geral, a região teve uma extensão de incêndios pouco abaixo da média. Mas o Estado do Amazonas foi uma exceção, com número de incêndios atingindo níveis recordes devido à seca histórica e impactando severamente a qualidade do ar.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Cidade mais populosa da Amazônia, Manaus ficou com a segunda pior qualidade de ar no mundo em outubro de 2023, expondo mais de 2 milhões de moradores. Os cientistas citam que o acontecimento foi tão grave que, em novembro de 2023, o Ministério Público Federal abriu ação civil contra o Estado do Amazonas, exigindo provas de que havia investimento em prevenção e combate a incêndios, conforme previsto no ‘Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Incêndios’. Neste mês de agosto, Manaus voltou a ser atingida pela fumaça das queimadas.
Também foram registrados eventos extremos na Venezuela e em partes da Bolívia e do Peru, sob impactos da seca. No Chile, o incêndio em Valparaíso, em fevereiro de 2024, resultou em pelo menos 131 mortes e destruição generalizada de propriedades.
O grupo usou uma combinação de dados de observações globais por satélite, modelos e insights de especialistas regionais.
“Avaliamos um conjunto global de dados que geram uma série de métricas do fogo como, por exemplo, a data em que ocorreu, o perímetro, o ponto de ignição. A ideia foi verificar se esse dataset estava ou não sendo bom para representar os eventos extremos. Produzimos figuras e métricas para eventos na Grécia, em Valparaíso (no Chile), no Canadá, na Austrália e conseguimos mostrar que ele funciona para esse objetivo”, completa o especialista em sensoriamento remoto e também um dos autores do artigo Guilherme Mataveli, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe.
Mataveli antecipa que para a temporada 2024-2025 o Pantanal deve aparecer com destaque pelas ocorrências que estão sendo registradas. De janeiro a julho deste ano, o bioma teve 4.756 focos, o maior desde 1998, início da série histórica, segundo dados do Inpe.
O pesquisador fez recentemente parte de seu pós-doutorado sobre emissão de gases de efeito estufa por queimadas no Tyndall Centre for Climate Change Research, da Universidade de East Anglia, sob supervisão do professor Matthew Jones, um dos autores correspondentes da pesquisa.
“No ano passado, vimos incêndios florestais matando pessoas, destruindo propriedades e infraestruturas, causando evacuações em massa, ameaçando meios de subsistência e danificando ecossistemas vitais. Os incêndios florestais estão se tornando mais frequentes e intensos à medida que o clima esquenta. Tanto a sociedade como o meio ambiente estão sofrendo as consequências”, afirma Jones, por meio de comunicado de imprensa.
Temporada extrema
Além de catalogar incêndios de alto impacto globalmente, o estudo se concentrou em explicar as causas em três regiões: Canadá, Amazônia Ocidental e Grécia. Nelas, o clima propício a incêndios – caracterizado por condições quentes e secas que promovem o fogo – mudou significativamente se comparado ao mundo sem mudanças climáticas.
Com isso, os pesquisadores chegaram à conclusão de que as mudanças climáticas ampliaram o risco de ocorrência das condições favoráveis para os incêndios em 2023-24 em pelo menos três vezes no Canadá, 20 vezes na Amazônia e duas vezes na Grécia, país que voltou a sofrer consequências neste mês com ordens de evacuação nas imediações de Atenas e pedido de ajuda à União Europeia para conter o fogo.
“Se não pensarmos de forma mais realista, atualizando os modelos, não vamos conseguir nos preparar da maneira adequada para o tamanho dos eventos que vão nos atingir. Os eventos e impactos estão se manifestando com uma magnitude maior do que havíamos antecipado”, avalia Anderson.
Em relação às emissões globais de carbono dos incêndios, as florestas boreais canadenses contribuíram com mais de nove vezes em relação à média, representando quase um quarto das emissões globais. Por outro lado, houve redução das emissões nas savanas africanas.
Usando dados de previsão climática, os cientistas apontam que houve sinais dos incêndios no Canadá com um a dois meses de antecedência, enquanto os eventos na Grécia e na Amazônia tiveram horizontes de previsibilidade mais curtos.
Futuro
Os modelos climáticos usados no relatório sugerem que a frequência e a intensidade dos incêndios florestais extremos aumentarão até o fim do século, particularmente em cenários onde as emissões de gases de efeito estufa permanecem altas.
Até 2100, eventos de magnitude similar ao de 2023 no Canadá deverão ser de 6,3 a 10,8 vezes mais frequentes sob um cenário de emissões médio-alto. Já a Amazônia Ocidental poderá ter uma temporada de incêndios extremos quase três vezes mais frequente e na Grécia estão projetados para dobrar. Por outro lado, um cenário de baixas emissões pode limitar a probabilidade futura de incêndios extremos.
Para a temporada de 2024-25, as previsões sugerem uma probabilidade continuada acima da média de clima propício a incêndios – condições quentes, secas e com ventos – em partes da América do Norte e do Sul, que apresentaram condições favoráveis para incêndios na Califórnia, nas cidades canadenses de Alberta e Colúmbia Britânica e no Pantanal brasileiro em junho e julho.
*O conteúdo foi orginalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por Luciana Constantino