Manguezais da costa do Amapá recebem nova campanha de monitoramento. Foto: Alessandra Lameira/ICMBio
A costa do Amapá recebeu no início deste mês uma nova campanha de monitoramento dos manguezais da Ilha de Maracá. Técnicos coletaram informações sobre a vegetação e sobre a população de caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie típica da região.
A ação foi realizada na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, unidade gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O trabalho contou com apoio da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) e integra o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora).
O objetivo é avaliar a saúde dos ecossistemas e acompanhar possíveis mudanças ambientais ao longo do tempo, verificando se as áreas estão preservadas ou apresentam sinais de impacto. Esta foi a 8ª edição da campanha.
Na vegetação, os técnicos coletam dados sobre biomassa, altura e diâmetro das árvores. As informações ajudam a entender como os mangues reagem às mudanças naturais e às pressões externas.
No caso do caranguejo-uçá, o estudo mede a densidade e a estrutura populacional da espécie por meio da contagem e análise das tocas. Assim, é possível estimar o tamanho médio e a população.
Na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, a captura de caranguejos é proibida. A unidade funciona como berçário natural e ajuda a manter populações que se espalham para outros manguezais fora das áreas protegidas.
Os resultados seguem protocolo do Subprograma Marinho-Costeiro do ICMBio e vão orientar estratégias de conservação e manejo.
“Esse monitoramento nos permite entender como o ecossistema está se comportando frente a fatores climáticos, antrópicos e ambientais locais. São oito anos de coletas de dados contribuindo para a conservação desse ambiente essencial”, afirma o analista ambiental Tiago de Miranda Marques, do ICMBio.
Os manguezais ficam na faixa entre marés de regiões tropicais e subtropicais. Eles abrigam grande diversidade de espécies e oferecem serviços essenciais, como proteção da costa contra erosão e tempestades, regulação climática, fornecimento de alimentos e potencial para o ecoturismo.
Caju é fonte de renda para produtoras do Bom Intento. Foto: Ramilton Barros/Rede Amazônica RR
O caju deixou de ser apenas parte da paisagem para virar fonte de renda na região do Bom Intento, zona rural de Boa Vista (RR). Agricultoras locais investiram no aproveitamento integral do fruto típico dos quintais roraimenses e criaram uma rede de produção que inclui doces, geleias, licores, compotas e mel.
A iniciativa reúne mulheres que, por anos, viram a safra se perder por falta de escoamento. Com organização e troca de conhecimento, o cenário mudou. Agora, elas aproveitam o período de safra que ocorre no fim do ano para lucrar.
Uma das referências do grupo é a doceira Adélia Fonteles, de 67 anos. Moradora do Sítio Nova Esperança desde o início dos anos 2000, ela encontrou cajueiros antigos na propriedade e começou a testar receitas até descobrir o potencial econômico do caju.
Hoje, dona Adélia cuida de mais de 100 cajueiros e aproveita praticamente tudo o que colhe.
“Não se perde mais nada, fazemos vinho, licor, agora também gelatina. Da castanha fazemos paçoquinha, então a gente aproveita tudo”, afirma.
Adélia Fonteles, de 67 anos, é produtora e passou a ensinar outras agricultoras a produzir a partir do fruto. Foto: Kailane Souza/Rede Amazônica RR
Além de produzir, ela compartilha o conhecimento com quem deseja começar, seja para consumo próprio ou venda. Segundo a doceira, alguns produtos têm validade de até um ano, o que facilita o comércio e evita o desperdício.
O trabalho no Sítio Nova Esperança virou ponto de encontro para outras agricultoras do Bom Intento. As mulheres decidiram se organizar para transformar o fruto em diferentes produtos e garantir renda extra.
Antes da organização, a fruta era tão abundante que acabava estragando no chão. A solução encontrada foi diversificar o uso do fruto e planejar ações conjuntas para ampliar as vendas.
O grupo criou o primeiro Festival Gastronômico do Caju da região. O evento apresentou a versatilidade do fruto, reunindo receitas tradicionais e inovações feitas a partir da polpa, da casca e da castanha.
Produtos derivados da fruta são expostos em Festival Gastronômico do fruto na região do Bom Intento. Foto: Ramilton Barros/Rede Amazônica RR
A agricultora Rita Hartmann, proprietária do Sítio Rancho Feliz, apresentou receitas de família no festival. Para ela, a iniciativa mostra o potencial produtivo do Bom Intento e valoriza o trabalho das agricultoras locais.
“Cada uma tem um tipo de doce, uma forma de trabalhar o fruto. Isso mostra o quanto a fruta é versátil e o quanto a gente consegue produzir a partir dela…Além disso é uma oportunidade de mostrar que o bom intento não é só lazer, mas que tem pessoas que trabalham com agricultura familiar”, destacou.
Caju: do uso doméstico ao mercado
Entre as participantes está também a agricultora Marivalda Nicolau. Antes, o fruto em sua propriedade era usado apenas para fazer suco e assar a castanha para a família. Após participar de um curso sobre aproveitamento integral do fruto, ela passou a enxergar o caju como fonte de renda.
Hoje, Marivalda produz doces e garante um dinheiro a mais no orçamento. Na propriedade dela, um cajueiro chama a atenção: produz cajus amarelos de quase 10 centímetros.
Agricultora Marivalda Nicolau exibe um caju de 10 centímetros da produção dela — Foto: Kailane Souza/Rede Amazônica
“Meu carro-chefe é o pastel de carne de caju e a variedade permite trabalhar com ele de diferentes formas… Tem os pequenos que são melhores pra vender, outros maiores que se tira a carne e eu recebo mudas até de outros estados, por exemplo, a muda do caju grandão veio do Maranhão”, conta.
As experiências das agricultoras do Bom Intento mostram como a organização comunitária e o acesso ao conhecimento podem valorizar os frutos típicos dos lavrados de Roraima.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou no dia 12 de dezembro, em Brasília, a publicação “O Brasil Indígena”, que reúne os principais resultados do Censo Demográfico 2022 sobre a população indígena no país.
Para a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a publicação representa uma importante base técnica que permite ao Estado brasileiro planejar, executar e avaliar as políticas públicas voltadas a essa população de forma mais precisa. Foi o que destacou a presidenta substituta da Funai, Mislene Metchacuna, durante a cerimônia de lançamento, realizada na sede da autarquia indigenista.
“Com a ajuda dos nossos técnicos e tradutores, o IBGE conseguiu adentrar nas comunidades, qualificando a coleta. Esses dados possibilitaram um retrato ainda mais próximo da nossa realidade, inclusive com informações que nem sabíamos e que ajudarão na reestruturação e elaboração de políticas públicas”, ressaltou a presidenta substituta, que também é diretora de Administração e Gestão da Funai.
A publicação foi elaborada em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a Funai e o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA). De acordo com o diretor de Pesquisas do IBGE, Gustavo Junger, essa parceria interinstitucional viabilizou a ampliação da coleta de dados do último Censo Demográfico.
“Tínhamos o desafio de ampliar a coleta para povos e comunidades tradicionais, iniciada no Censo de 2010, e isso só ocorreu graças às parcerias que estão aqui. Nosso objetivo é continuar esse trabalho e, por isso, foi criada uma nova gerência para esse tipo de atividade”, destacou, em referência à Gerência para Bases Territoriais, criada na Diretoria de Geociências (DGC).
Segundo o coordenador de Geografia do IBGE, a gerência permitiu “ir mais longe com nossos parceiros, ampliando as idas às comunidades e retratando essa realidade do país.”
Júnia Quiroga, representante auxiliar do UNFPA, também ressaltou a união dos órgãos envolvidos para o lançamento da publicação. “São parceiros que lutam pela visibilidade e reconhecimento dos povos indígenas no Brasil. Aqui ampliamos as vozes que historicamente foram silenciadas. O material apresentado hoje traz, de forma didática, informações para se transformar em políticas públicas”, pontuou.
A publicação sistematiza informações inéditas sobre os povos indígenas, incluindo características sociodemográficas e domiciliares, lista de etnias e grupos, línguas faladas ou utilizadas nos domicílios, além da distribuição espacial dos principais indicadores. Esses dados oferecem um panorama detalhado da diversidade e da presença indígena no território brasileiro.
Por isso, a secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do MPI, Giovana Mandulão, classificou o lançamento como histórico.
“Os dados não são apenas números, mas a materialização de uma luta histórica, a retomada da nossa existência em um país que por séculos tentou nos apagar”, enfatizou. Para ela, o IBGE aperfeiçoou sua capacidade na coleta dos dados, revelando uma complexidade que antes era ignorada. “Os dados são o início da construção de políticas públicas”, afirmou.
Filme ‘Amazônia Xamã’ mostra futuro distópico com destruição dos povos originários e ascensão do garimpo. Foto: Reprodução
O curta-metragem amapaense ‘Amazônia Xamã’, dirigido pelo cineasta e desenvolvedor de tecnologias Rodrigo Pedroza, é uma obra que mistura ficção científica e crítica social como um alerta sobre o futuro da Amazônia.
O filme acompanha Raoni, último sobrevivente de sua etnia, em uma jornada para preservar a cultura ancestral de seu povo. Ele enfrenta os Garimaldis, robôs garimpeiros e madeireiros ilegais que simbolizam a destruição da floresta em um futuro distópico.
“Máquinas e a elite explorando sub-humanos? O filme busca gerar reflexão sobre a importância da pluralidade, e sobre novos modos de vida para a sustentabilidade do mundo e de todos os seres vivos”, afirma o diretor.
Filme Amazônia Xamã mostra futuro distópico com destruição dos povos originários e ascensão do garimpo. Foto: Reprodução
Rodrigo Pedroza explica que o filme provoca reflexões sobre consumismo, degradação ambiental e estruturas coloniais.
“Questionamos a história e a violência estrutural e colonial contra povos e seres vivos. Será que vamos jogar cimento e concreto em tudo para acreditarmos que temos paisagens mais modernas?”, diz.
‘Amazônia Xamã’ seguirá para festivais
A obra foi contemplada em edital da Lei Paulo Gustavo (LPG), com patrocínio do Governo Federal e do Ministério da Cultura, e gestão da Secretaria de Estado da Cultura do Amapá (Secult).
A produção envolveu mais de 30 profissionais, entre atores, produtores e equipe técnica. As filmagens ocorreram ao longo de 10 dias em pontos conhecidos de Macapá, como a Fortaleza de São José, o Centro de Educação Profissional de Música Walkíria Lima e outros.
Filme Amazônia Xamã mostra futuro distópico com destruição dos povos originários e ascensão do garimpo. Foto: Reprodução
A estreia é nesta terça-feira (16), em Macapá (AP), no cinema Movieland com entrada gratuita a partir das 15h. A classificação indicativa é para maiores de 18 anos. Após a estreia local, ‘Amazônia Xamã’ seguirá para festivais nacionais e internacionais.
Levantamento mostra que viajar de Rondônia para estados vizinhos custa mais caro que ir para outros países. Foto: Ana Clara Marinho/TV Globo
Você sabia que viajar de Rondônia para estados vizinhos pode custar muito mais caro que embarcar para outros países? É o que mostra um levantamento feito pelo Grupo Rede Amazônica por meio da Google Flights, plataforma que monitora tarifas em tempo real.
De acordo com a pesquisa, entre março e abril de 2026, período considerado fora do “pico”, mostra que para sair de Rondônia e chegar em Boa Vista, em Roraima, por exemplo, o passageiro precisará desembolsar mais que o dobro do valor que pagaria se quisesse ir para os Estados Unidos.
Os valores de Rondônia para outros estados:
Porto Velho → Boa Vista (RR) Distância aproximada: 1,5 mil km Preço: R$ 7 mil ou mais
Preço do voo saindo de Rondônia para Roraima. Foto: Reprodução/Google Flights
Porto Velho → Nova Iorque (EUA) Distância aproximada: 5 mil km (mais de três vezes maior) Preço: cerca de R$ 3 mil
Preço do voo saindo de Rondônia para Nova Iorque (EUA). Foto: Reprodução/Google Flights
Outro exemplo é um voo entre Porto Velho e Macapá (AP), que chega a custar quase ou até mais do que o valor de uma viagem internacional para países como Chile ou Argentina
Porto Velho → Macapá (AP) Distância: 1,8 mil km Preço: mais de R$ 3 mil
Porto Velho → Buenos Aires (Argentina) Distância: 3 mil km Preço: R$ 2,6 mil
Porto Velho → Santiago (Chile) Distância: 3,5 mil km Preço: R$ 2,6 mil
Além disso, sair para outras regiões do Brasil, como o Sul, mesmo em áreas turísticas, é mais barato do que visitar os conterrâneos do Norte.
Porto Alegre (RS): em média, por R$ 1,7 mil
Florianópolis (SC): cerca de R$ 2,1 mil.
Os preços citados na reportagem foram levantados no mês de novembro. As tarifas aéreas são dinâmicas e podem variar conforme a data da viagem, antecedência da compra, disponibilidade de assentos, sazonalidade e demanda.
Por que isso acontece?
O professor de Engenharia de Transportes, Evandro José da Silva, explica que os preços não seguem apenas a lógica da distância percorrida. O que pesa é o yield, indicador que mede a receita por passageiro por quilômetro voado.
Na Região Norte, poucas cidades têm grande volume de passageiros. Isso significa que rotas com baixa demanda acabam ficando muito mais caras.
“Nesta região, devido a fatores sociais e econômicos, temos poucas cidades com alta densidade de tráfego”, diz Evandro.
Rotas movimentadas, como Manaus–Guarulhos ou Belém–Guarulhos, têm preços semelhantes aos de outras regiões. Já trechos menos procurados, como Porto Velho–Boa Vista, sofrem com tarifas elevadas.
Por outro lado, passagens internacionais seguem outra lógica: companhias aéreas aplicam estratégias de Revenue Management, oferecendo promoções em voos longos para atrair passageiros. Além disso, os custos e impostos são diferentes entre voos domésticos e internacionais.
“São serviços distintos. É bem possível que a tarifa mais cara em um voo doméstico seja alta em relação a uma tarifa promocional de voo internacional”, afirma.
Resultado: um voo de 5 mil km pode ser mais barato do que um de 1,5 mil km.
Preço do combustível
O especialista aponta que os custos da aviação são amplamente globalizados, mas reconhece um item que influencia a operação na Região Norte: o combustível.
Segundo ele, o preço do combustível é maior em estados como Roraima, Rondônia e Amazonas. Isso encarece a operação, mas, segundo o especialista, não explica sozinho tarifas tão elevadas.
“Não consigo identificar fatores tão importantes que justifiquem custos maiores para as companhias aéreas”, afirma.
Falta de concorrência
O Brasil, segundo ele, enfrenta dificuldades como alta judicialização e intervenções políticas frequentes, fatores que afastam novas empresas. O professor também ressalta que, para ampliar a conectividade no Norte, é necessário fortalecer a base econômica da região.
“Temos apenas três grandes companhias aéreas e isso é um indicador de que falta atrair mais interessados. A aviação caminha junto com o desenvolvimento econômico e social. Todos colhemos os frutos de uma sociedade mais igualitária, inclusive pagando menos pelo bilhete aéreo”, afirma.
Cabotagem aérea
Uma alternativa em debate para reduzir o preço das passagens é a cabotagem aérea. A proposta, que permite a operação de trechos domésticos por companhias estrangeiras, ainda depende de alterações na legislação e segue em tramitação no Congresso Nacional.
De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), o projeto de lei que trata do tema continua aguardando análise, assim como o requerimento de urgência apresentado em setembro, que ainda não foi apreciado pelos parlamentares.
“A abertura à cabotagem pode ampliar a concorrência, estimular a oferta de voos e reduzir tarifas, especialmente na Amazônia Legal, onde a conectividade aérea é limitada”, cita o MPor.
Enquanto isso, o governo já avançou em outra frente: a criação de uma linha de crédito para companhias aéreas via Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), com apoio do BNDES. As normas foram aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 30 de outubro, e a assinatura do contrato está prevista para a primeira quinzena de dezembro.
Caso o texto da cabotagem seja aprovado, o MPor estima um prazo de até seis meses para concluir a regulamentação complementar, que deve envolver adaptações nas normas da Anac.
O que dizem as companhias aéreas?
Em nota, a Azul afirmou que as tarifas aéreas são dinâmicas e variam conforme fatores como trecho, sazonalidade, compra antecipada, disponibilidade de assentos, oferta e demanda. A companhia também destacou que elementos externos, como variação do dólar e preço do combustível de aviação, influenciam diretamente no valor final das passagens.
Em nota, a Azul afirmou que as tarifas aéreas são dinâmicas e variam conforme diversos fatores. Foto: Divulgação/Azul
A empresa orienta passageiros a comprar os bilhetes com antecedência e a manter flexibilidade de datas e horários. A Azul também recomenda considerar mais de um aeroporto quando possível, pois em períodos de maior demanda, como férias e datas comemorativas, costumam ter tarifas mais altas.
Sobre a malha aérea em Rondônia, a companhia informou que monitora constantemente o mercado e avalia possibilidades de expansão. No entanto, não há previsão de abertura de novas rotas ou aumento da frequência de voos saindo de Porto Velho.
OGrupo Rede Amazônica também entrou em contato com a Anac e as companhias aéreas Latam e a Gol, mas até a última atualização desta reportagem não obteve retorno.
Estudiosos alertam para dificuldades de convivência entre fazendeiros e felinos, que frequentemente descambam para violência. Foto: Adriano Gambarini
Os felinos carnívoros de grande porte do Brasil, como onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas, dependem, para sobreviver, do acesso a áreas naturais preservadas e extensas, nas quais possam dar vazão aos seus instintos de caça. Porém, a expansão da atividade agropecuária em nosso país vem resultando em paisagens naturais cada vez mais fragmentadas, transformando a realidade de biomas como o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal.
O resultado é que as condições necessárias para a existência desses animais estão se deteriorando. No caso das onças-pintadas, por exemplo, a ONG Global Witness estima que, nos estados do Pará e do Mato Grosso, já foram desmatados 27 milhões de hectares de seu habitat original, uma área maior que o Reino Unido.
Preocupados com as perspectivas de sobrevivência dos grandes felinos no país, um grupo de pesquisadores da Unesp e de outras universidades brasileiras analisou o comportamento de nove espécies, procurando diferenciar aquelas que limitam suas andanças às áreas de habitat selvagem das que costumam ser flagradas circulando perto de estradas, propriedades rurais e outros locais potencialmente perigosos.
No total, foram analisados os dados de cerca de 14,3 mil episódios de avistamento de felinos selvagens, incluindo as coordenadas geográficas onde foram relatados. O objetivo do levantamento é permitir a elaboração de estratégias de conservação mais adequadas a cada espécie, de acordo com seu estilo de vida. Os resultados foram apresentados em um artigo publicado no periódico especializado Biological Conservation.
Em circunstâncias normais, os carnívoros preferem manter sua dieta típica, alimentando-se de presas como capivaras e jacarés na mata nativa. Mas, quando as presas comuns se tornam escassas — devido a secas, caça ilegal, destruição dos habitats por mineração e hidrelétricas ou outras razões —, alguns felinos avançam sobre fazendas atrás de bezerros e galinheiros, e acabam feridos em confrontos com cães de guarda e humanos armados. Por isso, a escassez de trechos contínuos de mata nativa é um dos principais obstáculos à conservação de felinos no Brasil.
Vanesa Bejarano Alegre, que acaba de terminar seu doutorado pelo programa de Ecologia, Evolução e Biodiversidade no Instituto de Biociências (IB) da Unesp, câmpus de Rio Claro, é autora principal do trabalho, fruto de sua colaboração com o Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC). Ela explica que análises estatísticas abrangentes como essas são importantes para sistematizar e complementar as observações feitas pelos biólogos de campo. Esses conhecem bem os animais que vivem nas regiões em que conduzem seus estudos, mas não necessariamente conseguem ter a visão do todo e identificar lacunas na literatura disponível.
A lista de avistamentos utilizada no estudo, obtida a partir de várias bases de dados públicas, foi construída a partir de recursos como câmeras fotográficas automáticas (camera traps) camufladas na mata para estudar e recensear os bichos. O mapa de usos do solo do Brasil, que mostra quais trechos do país são cobertos por agropecuária, mata nativa, cidades etc., foi fornecido pela rede MapBiomas.
Cada felino tem seu estilo
Como hipótese para nortear o estudo, Bejarano e seus colegas propuseram a divisão das nove espécies de felinos brasileiros em três categorias ecológicas. São elas: os generalistas, que teriam grande tendência a frequentar locais modificados pelo ser humano; os especialistas flexíveis, que toleram ambientes antrópicos, mas preferem habitats naturais; e os especialistas estritos, que são os mais seletivos, permanecem na mata fechada e evitam se aventurar entre nós.
“Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a propor e avaliar uma classificação das espécies de felinos brasileiros baseada em traços ecológicos e na plasticidade dos habitats”, escreveram os autores.
As análises das 14,3 mil observações de felinos reais buscaram então elementos para corroborar, refutar ou corrigir essa classificação teórica em três categorias. Em linhas gerais, os resultados coincidiram, mas alguns casos particulares desafiaram as expectativas.
Um deles foi a categoria dos generalistas, composta pela onça-parda (Puma concolor), o jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi) e o gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi, que, apesar do nome, pesa apenas 4 kg).
As observações sobre a onça-parda confirmaram as hipóteses dos autores, aparecendo com frequência nas cercanias de pastos e plantações. O jaguarundi, por sua vez, parece tão aberto a novas paisagens que apresentou uma peculiar aversão à mata fechada: foi mais comum encontrá-lo próximo de regiões agrícolas. Porém, o gato-do-mato-grande é tão tímido que sequer parece um generalista. Raramente foi avistado próximo a fazendas, o que pôs uma pulga atrás da orelha dos pesquisadores sobre a precisão da literatura preexistente sobre esse animal. “Se você me perguntasse se eu consideraria o gato-do-mato-grande um generalista, diria que não”, diz Bejarano.
Outras espécies se mostraram mais de acordo com o esperado. Especialistas flexíveis, como Panthera onca e Leopardus pardalis, evitam estradas, mas utilizam paisagens naturais heterogêneas. Já aqueles classificados como especialistas estritamente florestais (L. wiedii, L. guttulus e L. tigrinus) mostraram uma elevada dependência da cobertura florestal, e geralmente evitam habitats abertos. Chamou a atenção o fato de que os efeitos da proximidade de estradas variavam de acordo com cada espécie, e nem sempre se alinharam com a classificação ecológica proposta pelos autores.
“Comprovamos a hipótese, mas com exceções. Sempre há exceções”, diz Bejarano. A pesquisadora pondera, porém, que as conclusões do estudo podem refletir a escassez ou os vieses presentes em dados públicos sobre determinadas espécies, e não o comportamento real dos animais analisados.
A convivência é difícil, mas está melhorando
Raíssa Sepulvida Alves, mestre pelo Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, bióloga de campo da ONG Panthera Brasil e coautora do artigo com Bejarano, conta que os conflitos entre humanos e onças já foram piores. “Há uns quinze anos, era bem mais complicado. Mesmo nos casos em que o gado morria por outra causa, a onça era sempre considerada culpada, e as pessoas retaliavam”, diz. “Por isso, a Panthera criou manuais com técnicas de manejo que evitam a predação.”
Além de medidas de segurança básicas e relativamente fáceis de implantar em curto prazo, como recolher o gado para currais distantes da mata durante a noite, instalar cercas elétricas e deixar os bezerros em instalações protegidas, a iniciativa de promover novas frentes de atividade econômica, para além da pecuária, ajuda a estreitar os laços entre a população e a fauna.
“O turismo de observação de onça vem se desenvolvendo paralelamente na região de Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá”, diz Sepulvida.
“As pessoas perceberam que podiam ganhar dinheiro com os animais, e as onças passaram a valer mais vivas do que mortas. Elas deixaram de ser vilãs para muita gente. E a Panthera sempre atuou ali em colaboração, divulgando e incentivando boas práticas de observação.”
Bejarano explica que cada grupamento humano lida de uma forma com a presença de grandes felinos. “As comunidades têm perspectivas diferentes sobre a natureza. Algumas matam por matar, outras não. Não há uma fórmula secreta para tudo. O Brasil é tão enorme, é um continente. Imagine quantas pessoas, mentalidades, pensamentos existem. Esse, eu acho, é o maior desafio na preservação de grandes carnívoros.”
Além da convivência complicada com o Homo sapiens, Bejarano conta que as próprias táticas usadas pelas presas para escapar de seus predadores podem pôr os gatos selvagens em apuros: “Muitos estudos avaliam o movimento de animais como cervos em lugares mais iluminados, tentando evitar a predação por grandes felinos. Mas isso começa a mudar o comportamento desses animais. Ao não encontrarem suas presas habituais dentro da floresta, eles começam a se aproximar das áreas antrópicas.”
Ainda que não ocorra um incidente mais grave, como um atropelamento, a necessidade de forragear em áreas de agropecuária e beiras de estrada tem consequências de longo prazo. Experimentos com caixas de som mostram que ruídos de origem humana deixam esses animais muito mais estressados do que, por exemplo, o barulho de uma rã ou de um grilo. As refeições, nessas circunstâncias, acabam sendo mais rápidas do que seria saudável, e os níveis de cortisol no sangue ficam mais altos, o que pode reduzir a expectativa de vida dos felinos em longo prazo.
Onça-pintada é um dos grandes felinos da Amazônia. Foto: Octavio Campos Salles/Onças do Amapá
“Menos de 5% do Pantanal está dentro de uma unidade de conservação formalmente protegida”, diz Raíssa Sepulvida. “A grande maioria são propriedades privadas, e é por isso que a Panthera investiu bastante em esforços de coexistência entre os produtores e as onças.” Atualmente, além da atuação junto à Panthera — organização beneficente de proteção de felinos que foi fundada nos EUA em 2006 e tem um braço brasileiro desde 2014 —, Sepulvida faz doutorado em Ecologia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Ao longo de sua carreira, algumas de suas aventuras foram monitorar jaguatiricas por quatro anos usando camera traps e pôr colares de GPS em 15 indivíduos.
Conhecendo na pele as dificuldades do trabalho de campo — pesquisas como as citadas acima exigem longas incursões em áreas alagadas e abafadas do Pantanal, com roupas longas e grossas para evitar picadas de mosquito —, Sepulvida explica que um dos trunfos do novo artigo científico é justamente usar um método que reaproveita material já coletado em novas análises.
“Algo bem importante nesse artigo é empregar dados já disponíveis em plataformas abertas. São anos de informações que foram coletadas por diversas razões. Às vezes, camera traps foram instaladas por um grupo de pesquisa por um motivo específico — como, por exemplo, a visualização de antas —, mas acabam registrando outras espécies. Então, elas podem e devem ser usadas para outros trabalhos. É importante que os pesquisadores compartilhem seus dados.”
“É uma análise bastante simples, que pode ser feita para outras espécies do Brasil, utilizando também dados abertos”, explica Bejarano. “E esse trabalho revela quais informações temos ou não temos. Há biomas enormes, como a Amazônia, sofrendo com a falta de dados. Não há tantos como se imagina, ou eles não são abertos.” Atualmente, Bejarano continua seu trabalho conservacionista como pós-doutoranda no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Bruno Vaiano
Extração legal de madeira cresce, mas atividade ilegal ainda é responsável por quase metade do total da atividade. Foto: Divulgação/Imazon
A extração de madeira em Roraimacresceu 30% em quase um ano e chegou a 14.867 hectares em julho de 2024, conforme levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O número supera o registrado no período anterior, iniciado em agosto de 2023.
Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex). Em agosto de 2023, foram 11.422 hectares de madeira extraída.
Do total de madeira extraída em 2024:
7.994 hectares foram explorados com autorização (53,8%), quase quatro vezes mais que os 2.103 hectares registrados no período anterior;
6.873 hectares foram explorados sem autorização (46,2%), o que mostra que quase metade da madeira que circula em Roraima ainda tem origem clandestina.
A exploração ilegal é mais forte no Sul do estado. Caroebe e Rorainópolis lideram o ranking, empatados com 28%. Logo atrás vem São João da Baliza, com 24%.
Sozinhos, esses três municípios concentram 80% de toda a madeira extraída ilegalmente das florestas de Roraima. Essas regiões, próximas às divisas com o Amazonas e o Pará, são consideradas pontos críticos de pressão florestal pelos pesquisadores do Imazon.
O monitoramento identificou que a extração não autorizada se concentra majoritariamente em áreas que deveriam ser protegidas ou destinadas a assentamentos rurais. Esses foram os locais mais afetados, que somaram 43% de toda a exploração ilegal. Na sequência, aparecem:
Imóveis rurais privados: 33%
Vazios fundiários: 21%
Terras não destinadas: 3%
Segundo o Imazon, a pressão sobre essas áreas acende um alerta para problemas históricos de governança fundiária em Roraima e aumentam o risco de conflitos e prejuízos ambientais.
Pela primeira vez desde 2022, a área de extração legal superou a ilegal, com 54% do total. Segundo o estudo, 90% da exploração legal ocorreu em imóveis rurais privados no último ano.
Confira o histórico completo da evolução madeireira no estado nos últimos cinco anos:
Evolução da exploração de madeira em Roraima (em hectares)
Ano
Autorizada
Não autorizada
Total
2020
4.241
5.217
9.458
2021
761
497
1.258
2022
1.184
487
1.671
2023
2.103
9.319
11.422
2024
7.994
6.873
14.867
Fonte: Simex/Imazon
Para a pesquisadora do Imazon, Camila Damasceno, o crescimento dos números gerais deve ser analisado com cautela, mas a inversão da curva, com mais extração de madeira legal do que ilegal, é um indicador positivo.
“Esse aumento, a gente vê com bons olhos. Significa que as pessoas estão seguindo as técnicas do manejo florestal sustentável, gerando empregos e renda para o estado. A exploração legal é bem mais sustentável. A ilegal acaba tendo inúmeras consequências não só para a floresta, mas também para comunidades que vivem ali”, completa.
O relatório destaca uma dificuldade na obtenção dos dados por parte do Órgão Estadual de Meio Ambiente (Oema), responsável pelo licenciamento em Roraima. Por conta disso, segundo a Rede Simex, formada por Imazon, Imaflora e ICV, as informações analisadas foram retiradas exclusivamente do sistema do Ibama (SisCom).
O que diz a Femarh
O relatório do Simex apontou dificuldades na análise por ausência de dados estaduais, mas a Femarh afirma que não foi consultada para validar o estudo e esclareceu que utiliza o sistema federal Sinaflor. Enquanto o Imazon estima 54% de extração legal de madeira, o governo estadual afirma que 71% da área explorada (10.585 hectares) possui licença.
Sobre a atividade ilegal, a Femarh informou que cerca de 739 hectares já foram autuados e embargados em operações fiscalizatórias entre 2023 e 2025. A Fundação reiterou que o estado foi o primeiro a adotar o sistema federal de controle e que mantém um portal de transparência próprio para consulta de licenciamentos e fiscalizações.
Foto: Kamila Rangel Primo Fernandes/Acervo pessoal
Utilizar a bioinformática, modelagem e impressão 3D para explicar de forma didática e dinâmica os hormônios que permeiam o universo feminino, e estimular a pesquisa científica em estudantes do Ensino Médio foram a base de um projeto amparada via Programa Ciência na Escola (PCE), edital n° 002/2024, no Amazonas.
A pesquisa intitulada ‘Estudo químico e biológico de estruturas hormonais femininas através da bioinfomática, modelagem e impressão 3D’ foi coordenada pela doutora em Química, Kamila Rangel Primo Fernandes. O projeto contou com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), desenvolvida pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto.
Realizado por alunas do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Marcantonio Vilaça, localizada na Avenida Max Teixeira (Bairro Mundo Novo, na Zona Norte da capital), o projeto proporcionou a compreensão das moléculas químicas específicas do corpo feminino, como os hormônios, além de doenças e prevenções da saúde feminina.
Além disso, as estudantes aprenderam a modelar estruturas químicas em impressora 3D por meio dos sofwares Tinkercad e Chemdraw.
“O projeto durou seis meses com execuções de modelagem e impressão 3D de moléculas hormonais”, disse a coordenadora do projeto, Kamila Rangel Primo Fernandes.
Para a coordenadora, o apoio da Fapeam foi essencial para difundir a integração da biologia e da saúde com a informática para estudantes do Ensino Médio.
“O apoio foi importante para integrar tópicos relativos à saúde da mulher no ensino de ciências, promovendo não apenas uma educação mais inclusiva e representativa, mas também contribuindo para a formação de indivíduos conscientes sobre questões de gênero e saúde”, comentou Kamila Rangel.
O projeto utiliza metodologias ativas que aperfeiçoem o processo de ensino e aprendizagem sobre o tema, tais como saúde feminina, hormônios e ciclos femininos, menstruação, gravidez na adolescência, estudo químico de moléculas hormonais, entre outros aspectos.
Foto: Kamila Rangel Primo Fernandes/Acervo pessoal
Teoria e prática do projeto
A coordenadora do projeto destacou que os estudantes construíram seus modelos com base em seus conhecimentos prévios e nas informações fornecidas, como dados experimentais, textos e discussões. Essa fase explorou a criatividade e as concepções iniciais, funcionando como um ponto de partida para o processo de modelagem.
Depois ocorreu a fase de expressão, os estudantes representam os modelos elaborados de forma concreta, utilizando linguagens específicas, como desenhos, diagramas, representações matemáticas ou construções físicas. Essa etapa permitiu a visualização e a comunicação das ideias que fundamentam os modelos.
O projeto também utilizou o ensino e aprendizagem de conteúdos de química, por meio da abordagem STEAM, com impressora 3D, que propõe o ensino de ciências, matemática e tecnologias, artes e matemática de forma interdisciplinar.
Sobre o Programa Ciência na Escola
O Programa Ciência na Escola é uma ação criada pela Fapeam direcionada à participação de professores e estudantes de escolas públicas estaduais do Amazonas e municipais de Manaus ou Tefé em projetos de pesquisa científica e de inovação tecnológica a serem desenvolvidos na educação básica e suas modalidades.
O processo de colonização europeia na Amazônia, iniciado por volta do século XIX, trouxe mudanças significativas para o modo de vida dos povos originários e comunidades tradicionais da região. E uma dessas transformações foi o avanço da urbanização, motivada pelas cidades desenvolvidas do “Velho Continente”, que impactou profundamente nas questões estruturantes, sociais e econômicas da região amazônica.
É justamente essa reparação histórica que defende a Amazônia Urbana, conceito que visa resgatar e reconhecer a existência das relações humanas entre pequenos grupos antes da chegada dos europeus. O termo foi um dos assuntos discutidos durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro.
Comunidades indígenas pré-coloniais já praticavam formas de urbanismo como, por exemplo, as relações humanas. Foto: Costa Rabelo
A professora de Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), Ana Cláudia Duarte, explica que o entendimento da aglomeração, trazido pela urbanização europeia, acabou criando a dicotomia entre urbano e rural, algo que não existia entre os povos da região amazônica, que já se relacionavam de maneira interligada entres redes comunitárias.
“Sempre houve um nível de urbanização, no sentido de aglomeração, entre as pessoas que viviam na floresta. É o que entendemos hoje como aldeias e vilas, as pessoas viviam na floresta e trabalhavam no entorno, pescando o peixe no rio, manejando a floresta, e cinco quilômetros depois tinha uma outra localidade. Ou seja, nós já tínhamos uma cidade-floresta, então não faz sentido falar em urbano e rural para esses assentamentos humanos, que sempre estiveram aglomerados”, explicou a professora, que atua em defesa da ‘Amazônia Urbana’.
A docente reforça que a implantação das cidades por parte dos europeus também contribuiu para o apagamento dos saberes tradicionais dos povos originários. Segundo Ana, tal movimentação tinha o intuito de desvalorizar as práticas, costumes e produtos oriundos da Amazônia.
“Durante o decorrer da colonização, tudo que era ligado à Amazônia era visto como ruim. A região era vista como uma página em branco, aqui tinha minérios, potencial hidrelétrico, mas para eles, quem vivia aqui não era humanos, não eram dignos desse status. Então, houve uma grande campanha de desvalorização muito grande no século 20, e aquele saber fazer que era nativo foi deixado de lado”, pontuou Ana.
Cidade de Altamira, no Pará. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira
Para a professora, o debate da Amazônia urbana é fundamental para eliminar estereótipos e valorizar que os povos indígenas e comunidades tradicionais pré-coloniais já praticavam formas de urbanismo.
“A discussão ambiental sobre a importância da Amazônia para o mundo precisa iluminar esse processo histórico para que a gente possa fazer correções e revalorizar esses grupos que sempre souberam trabalhar com a floresta. Precisamos reverter isso, porque infelizmente esse processo está indo para as cidades. Por exemplo, hoje tem pessoas que não querem um quintal com vegetação, não querem uma árvore na frente de casa e porque preferem cimentar, isso veio da colonização e acabou se espalhando”, explicou.
Especial COP30
A entrevista da professora Ana Cláudia Duarte faz parte de uma sequência especial dedicada à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – Conferência das Partes (COP30) do programa ‘Bate-papo na CBN’, da rádio CBN Amazônia Belém (102,3 FM ).
Com o olhar de quem vive na região, o programa reuniu informações e entrevistas sobre toda a movimentação da 30ª edição do encontro mundial realizado em Belém (PA), realizado entre os dias 10 e 22 de novembro.
Professora Ana Cláudia Duarte, no programa especial Bate Papo na CBN, na COP30. Foto: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia
Outra convidada do programa foi Marcela Vecchione Gonçalves, professora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da Universidade Federal do Amazonas (UFPA), que comentou sobre os impactos dos debates sobre as mudanças climáticas da conferência para os povos originários da Amazônia.
Para a convidada, as discussões acerca dos debates climáticos da COP30 já são um grande avanço para a execução das soluções diante da crise climática.
Marcela Vecchione Gonçalves, professora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da UFPA. Foto: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia
“Essas decisões já impactam nas nossas vidas, principalmente para os mais vulneráveis, pois o que vemos aqui é uma conexão muito forte e planejada para o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento sustentável da agenda 2030 da ONU”, explicou Marcela.
Com oito episódios, os programas da rádio, apresentados pela jornalista Brenda Freitas, também ganharam versões especiais no canal Amazon Sat e no Portal Amazônia.
Você pode assistir as entrevistas completas das especialistas no oitavo episódio da edição especial do programa:
A iniciativa Banzeiro da Esperança é uma parceria entre Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Rede Amazônica (FRAM) e Virada Sustentável, com patrocínio do Banco da Amazônia (BASA). Esta edição do Banzeiro da Esperança é uma jornada de conexão, troca de saberes e transformação com foco na COP30.
Projeto busca estabelecer o cultivo sustentável do pau-rosa na Amazônia. Foto: Maria José Tupinambá
A Embrapa Amazônia Ocidental conduz uma pesquisa inovadora para superar entraves e impulsionar a recuperação e o cultivo comercial do pau-rosa (Aniba rosaeodora), árvore nativa da Amazônia historicamente explorada de forma predatória. Valorizada por seu óleo essencial rico em linalol — composto muito usado nas indústrias de cosméticos e perfumaria fina — a espécie teve sua produção drasticamente reduzida, de 500 toneladas por ano na década de 1970 para apenas 1.480 quilos em 2021.
O projeto tem como foco a seleção de matrizes de alta qualidade e o desenvolvimento e validação de protocolos de clonagem por estaquia, definição de práticas agronômicas para redução de perdas no plantio e maior uniformidade nos cultivos. Será estabelecida também uma coleção de trabalho, com materiais genéticos de diversas procedências, de forma a oferecer uma ampla base genética para apoiar as atividades de seleção e melhoramento da espécie.
O pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental Edson Barcelos, líder da iniciativa de cultivo de pau-rosa. Foto: Edson Barcelos
A pesquisa parte de uma população inicial de 80 árvores-matrizes localizadas na propriedade da empresa parceira Litiara/Agroflora, em Rio Preto da Eva (AM). Entre essas, foram escolhidas, inicialmente, as 10 com maior vigor e teor de óleo na biomassa superior a 1,5%, reproduzidas por sementes. Em novembro de 2025, foi iniciada a retirada dos galhos dessas plantas para a produção dos clones, por enraizamento de miniestacas (processo que usa pequenos pedaços de plantas (miniestacas) para que criem raízes e se desenvolvam em novas mudas idênticas à planta mãe), como informa o pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental Edson Barcelos, líder da iniciativa.
A reprodução do pau-rosa já foi estudada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), porém ainda não foi aplicada em escala comercial. A meta da Embrapa é aprimorar o método de enraizamento para viabilizar a produção em larga escala de mudas clonadas, como já ocorre com culturas consolidadas como café, eucalipto e erva-mate.
A proposta é estabelecer um modelo completo de cultivo, que abranja desde a seleção genética até o manejo no campo, fortalecendo a cadeia produtiva regional. Isso inclui a escolha das melhores matrizes (com alto desempenho), clonagem eficiente para geração de mudas em grande quantidade e implantação com técnicas que garantam uniformidade nos plantios.
Ainda serão avaliados diversos parâmetros agronômicos para consolidar um sistema de produção robusto e sustentável, tais como: época ideal e altura da poda, espaçamento entre plantas, tipos e doses de adubação e estratégias para controle de pragas e doenças. “Para plantar cinco hectares, são necessárias cinco mil mudas. Mas não há sementes suficientes e, quando há, o material genético é muito heterogêneo. As plantas crescem de forma desigual e o teor de óleo varia drasticamente”, explica Barcelos.
A essência do pau-rosa — seu óleo essencial — é valorizada principalmente por ser uma fonte natural de linalol, composto químico que representa mais de 80% do óleo e possui diversas aplicações comerciais e potenciais. A pesquisa da Embrapa tem como foco a produção sustentável voltada para esses usos, extraindo o óleo de folhas e galhos, e mantendo a árvore viva.
O projeto de pau-rosa tem como foco a seleção de matrizes de alta qualidade. Foto: Edson Barcelos
Durante décadas, o pau-rosa foi explorado sem critérios técnicos: as árvores eram cortadas rente ao solo para extração do óleo, sem replantio ou manejo adequado. Após sua inclusão na lista de espécies ameaçadas de extinção, essa prática foi proibida. No entanto, o Brasil ainda não desenvolveu tecnologia suficiente para o cultivo comercial da espécie, cuja área plantada hoje não ultrapassa 50 hectares, e está concentrada nos municípios amazonenses de Maués, Novo Aripuanã e Itacoatiara.
Um dos principais obstáculos é a escassez de mudas de qualidade. Plantios realizados a partir de sementes apresentam alta taxa de mortalidade — entre 70% e 90% — além de grande variabilidade genética, o que compromete a uniformidade das plantas e o teor de óleo, que pode variar de 0,5% a 2,0%. Soma-se a isso a limitada experiência com sistemas de plantio e manejo adequados.
Infraestrutura e próximos passos
Com apoio de uma emenda parlamentar no valor de R$ 250 mil, foram construídas estufas, adquiridos vasos e equipamentos para um laboratório de extração de óleo. A casa de vegetação já está em funcionamento, e nos próximos meses, começarão os testes de enraizamento com diferentes substratos — como terriço, fibra de coco e vermiculita (mineral que se expande com o calor, transformando-se em um material leve e com excelente capacidade de absorver água e reter nutriente) e hormônios vegetais.
Sistema de produção integrado
O projeto também investiga o uso da banana como cultura de sombreamento nos primeiros anos do pau-rosa, oferecendo sombra ideal e retorno econômico para ajudar a custear o plantio. A pesquisa busca definir o melhor espaçamento, época e altura de poda, adubação e controle de pragas, com o objetivo de validar um sistema de produção eficiente e sustentável. “Vamos criar um sistema de produção validado”, acrescenta o pesquisador.
Agricultura familiar: conservação e renda
Pau-Rosa na sombra da bananeira. Foto: Edson Barcelos
Paralelamente, agricultores familiares da zona rural de Manaus vêm testando o cultivo do pau-rosa como alternativa à extração em florestas nativas. Em 2012, agricultores familiares dos assentamentos no ramal ZF 4 e a Embrapa iniciaram o plantio de 230 mudas em áreas de roçado de mandioca e capoeira. As mudas foram consorciadas com frutíferas perenes e, em 2020, as primeiras florações foram observadas.
Apesar da taxa de mortalidade de 47%, atribuída a pragas, sombreamento e estresse hídrico, as plantas consorciadas apresentaram sobrevivência 50% superior em comparação às cultivadas em capoeira e 60% menos mortalidade. A poda das plantas sombreadoras foi recomendada para estimular a biomassa e a reprodução, visando a coleta de sementes e a extração de óleo em agroindústrias familiares.
Desafios e perspectivas
Além da escassez de mudas de qualidade e a alta mortalidade de plantios, outro entrave da cultura é a burocracia excessiva na comercialização do óleo essencial de pau-rosa. Durante o Simpósio de Óleos Essenciais realizado em Manaus, em outubro de 2025, especialistas e empresários propuseram a “Carta do Pau-Rosa”, iniciativa que busca sensibilizar autoridades a destravar processos que dificultam o avanço da cadeia produtiva. As muitas exigências estão afastando os compradores que preferem substituir o pau-rosa por outros óleos.
Óleos essenciais extraídos do pau-rosa. Foto: Maria José Tupinambá
Com a consolidação do sistema de produção, a expectativa é fortalecer a cadeia produtiva regional, promover a conservação da espécie e gerar novas oportunidades econômicas para comunidades amazônicas e empreendedors.
“Estamos construindo um modelo que alia ciência, conservação e desenvolvimento regional. O pau-rosa pode voltar a ser símbolo de riqueza — desta vez, com sustentabilidade”, conclui Barcelos.