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Legistas da floresta querem saber: as grandes árvores da Amazônia estão morrendo?

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Trecho de floresta amazônica na Reserva Florestal Adolpho Ducke, perto de Manaus, que está sendo usada pelo projeto Gigante para estudar as árvores de grande porte da Amazônia. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media

Dois pesquisadores, vestindo camisas e calças de mangas compridas para resistir aos mosquitos e botas de cano alto para evitar picadas de cobras, olham para uma árvore destruída. Está no chão, coberta por folhas de palmeira, que se estendem por toda a floresta. Até pouco tempo atrás, ela se elevava sobre a maioria das outras árvores dessa vasta floresta tropical.

“É óbvio que foi um raio”, diz Evan Gora, declarando a causa da morte da árvore. Ele é um cientista da equipe do Cary Institute of Ecosystem Studies em Millbrook, Nova York (EUA).

“É possível ver folhas queimadas na parte superior”, concorda Adriane Esquivel Muelbert. Ela é professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Adriane aponta para a folhagem enegrecida que está pendurada em dezenas de árvores que circundam o perímetro do enorme toco. As folhas estão queimadas apenas nos lados voltados para a abertura da copa, deixada quando a grande árvore tombou — evidência de uma descarga elétrica.

Como Sherlock Holmes desvendando um mistério de assassinato, os especialistas em ecologia de florestas tropicais apresentam seu raciocínio a dois pós-doutorandos de sua equipe. Quando um raio atinge uma árvore, diz Evan, a alta tensão flui através da folhagem entrelaçada para as árvores vizinhas, matando os galhos e criando um padrão distinto. Evan desenvolveu esse método para determinar o raio como causa da morte de árvores enquanto trabalhava em uma floresta tropical do Panamá. Hoje, ele identificou o mesmo padrão de vegetação morta e queimada em torno desse gigante caído na Amazônia brasileira. Nenhuma outra causa de morte de árvores tem esse aspecto.

Pode parecer estranho que dois cientistas de alto nível passem tanto tempo investigando a morte de uma única árvore em uma vasta floresta. Mas as implicações são importantes. Seu projeto de pesquisa, chamado “Gigante”, está explorando as causas da mortalidade das maiores árvores de florestas tropicais no mundo. O estudo pode ajudar a responder a uma questão importante da ciência da mudança climática: A floresta tropical intacta continuará absorvendo muito mais dióxido de carbono do que libera?

As regiões intocadas da Amazônia ainda estão armazenando uma quantidade considerável de CO2 e retardando o acúmulo atmosférico do gás que aquece o planeta e que os seres humanos liberam quando queimam combustíveis fósseis. No entanto, se a absorção de carbono cair significativamente na Amazônia e em outras florestas tropicais do mundo, as temperaturas globais poderão aumentar mais rapidamente do que sugerem os modelos atuais, tornando ainda mais difícil para a humanidade desacelerar as mudanças climáticas.

Pronto para voar

Os dois cientistas, junto com as pós-doutorandas Vanessa Rubio e Gisele Biem, reuniram-se aqui, na Reserva Florestal Adolpho Ducke, no Brasil, pela primeira vez. Seu projeto de pesquisa global, que durará três anos, só começou recentemente.

A Reserva Ducke, nos arredores de Manaus, abrange um quadrante de 93 quilômetros quadrados de floresta tropical antiga, reservada pelo governo federal para pesquisa. Os visitantes, como esta equipe e um elenco variado de estudantes e colaboradores, pernoitam em dormitórios caiados de branco e comem em um refeitório sem paredes, área que frequentemente compartilham com queixadas, urubus, gatos selvagens e jararacas — uma das cobras mais venenosas do mundo.

Os pesquisadores vieram para responder a essas perguntas cruciais sobre a absorção de carbono e também para aprimorar as habilidades de observação, praticar a coleta e o registro de dados e desenvolver o espírito de equipe. No primeiro dia, a equipe se concentrou na identificação de relâmpagos. No dia seguinte, o tópico serão as árvores derrubadas pelo vento.

Evan está ansioso para mostrar seu mais recente dispositivo de pesquisa. Em uma clareira perto de um prédio baixo de estuque que serve como sala de aula, laboratório e sede da reserva, ele abre o zíper de uma enorme mala coberta de tecido.

Ansioso como uma criança desembrulhando um presente de Natal, Evan coloca as metades da mala na horizontal e retira a fuselagem de um drone do tamanho de um skate. Ele trouxe esse drone Trinity Pro da Quantum Systems da Alemanha. A equipe o observa enquanto ele o monta.

“É o brinquedo mais legal de todos!”, exclama Evan. Então, como se estivesse oferecendo um peru de Natal, ele pergunta a Vanessa: “Você quer pegar uma asa?” Evan e Vanessa prendem a cauda de plástico e isopor e as asas de um metro.

As asas leves como penas e as pernas semelhantes a galhos fazem com que o drone pareça frágil. Mas Evan diz que se trata de uma ferramenta de pesquisa séria a um preço acessível. Esse modelo será lançado verticalmente, como um helicóptero — útil em uma floresta. Com uma única carga, ele pode voar horizontalmente como um avião e de forma autônoma por uma hora e meia a quase 64 quilômetros por hora. Sua câmera de alta resolução distingue objetos tão pequenos quanto uma moeda a 300 metros de altura. Sem ele, o projeto Gigante não poderia ser realizado.

Evan Gora, à esquerda, discute a montagem do drone Trinity Pro com membros da equipe do Gigante na Reserva Florestal Adolpho Ducke. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media

Legistas de florestas tropicais

Um estudo publicado na revista Nature em 2015 surpreendeu os cientistas. Ele constatou que a floresta amazônica intacta absorveu 30% menos dióxido de carbono na década de 2000 do que na década de 1990. Os autores sugeriram que a absorção de carbono das florestas tropicais do mundo — o sumidouro de carbono tropical — está falhando. Desde então, outros estudos confirmaram esse resultado e mostraram declínios semelhantes em florestas tropicais em outros lugares.

Como muitos pesquisadores, ele concorda que os impactos da mudança climática são a principal causa da queda na absorção de carbono pelas florestas. Se não pararmos com isso logo, diz ele, “as florestas podem aumentar o problema [climático] em vez de mitigá-lo”. Até agora, a floresta amazônica absorvia cerca de 12% de todo o carbono liberado na atmosfera pela humanidade, embora a quantidade exata seja motivo de debate.

Um dos motivos pelos quais o sumidouro tropical de florestas intactas está diminuindo, de acordo com muitos cientistas, é que mais árvores estão morrendo e/ou morrendo mais jovens. Mas os pesquisadores não sabem o suficiente sobre por que e quando essas árvores morrem. Portanto, não é possível modelar com precisão e prever como esses fatores mudarão no futuro, criando incerteza nas previsões climáticas.

Prognósticos robustos exigem estimativas de absorção de carbono florestal. E, sem previsões climáticas precisas, as pessoas não podem antever com exatidão a velocidade e a consequente gravidade da crise climática.

Adriane e Evan esperam esclarecer a vida e a morte das maiores árvores tropicais, geralmente aquelas com diâmetro de tronco maior do que o de uma pizza grande, como o angelim-vermelho (Dinizia excelsa). Isso é importante porque essas árvores são responsáveis por uma parcela imensa da absorção de carbono de uma floresta tropical.

Evan Gora aponta para um perímetro cercado por galhos queimados, que sugerem uma queda de raio como causa de morte de uma árvore. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media

Os pesquisadores estimam que as árvores de grande porte sugam cerca de metade do carbono que uma floresta tropical absorve. A eficácia futura do sumidouro tropical provavelmente depende da longevidade desses indivíduos. Se o aumento do aquecimento, a redução das chuvas ou outros impactos da mudança climática encurtarem suas vidas, toda a floresta se tornará mais jovem e absorverá ainda menos carbono do que hoje. O sumidouro de carbono tropical poderá diminuir ou desaparecer. E, à medida que a morte de árvores em florestas intactas se intensifica, as florestas tropicais remanescentes do mundo podem até mesmo se tornar fontes significativas de carbono.

O crescimento das temperaturas médias e extremas, os padrões de precipitação e a intensidade das tempestades poderiam determinar de forma significativa o que acontece com as árvores grandes das florestas tropicais. Mas Adriane diz: “Das árvores grandes, não sabemos quase nada”.

Eles sabem tão pouco em parte porque essas árvores são raras e morrem com pouca frequência. Um estudo de 2018 em um local próximo à Reserva Ducke constatou que, de 5.808 árvores observadas durante um ano, 67 morreram. Dessas, apenas uma árvore era grande. Não é possível fazer inferências sobre como uma população se comporta estudando uma única árvore. Esse problema é agravado na hiperdiversidade da Amazônia, com mais de 10 mil espécies de árvores, com uma infinidade de estratégias de vida distintas.

Para analisar um conjunto suficientemente grande de árvores de grande porte, os cientistas precisam coletar informações detalhadas de mais terras tropicais do que já foi examinado. No entanto, estudar o histórico de vida de cada árvore de uma floresta tropical pelos métodos atuais é trabalhoso e caro. Normalmente, os trabalhadores florestais marcam e registram estatísticas como o diâmetro do tronco e a espécie (se conhecida) de cada árvore em terrenos de estudo do tamanho de campos de futebol. Assim como os recenseadores, esses trabalhadores atualizam seus registros em visitas sucessivas.

Em um artigo de 2020, Adriane identificou 189 desses terrenos em uma rede de locais de pesquisa da Amazônia chamada RainFor, que ela considerou grande o suficiente para incluir em um estudo de mortalidade de árvores. A área combinada desses espaços totalizou 331 hectares, equivalente ao dobro do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A partir dessa amostra de floresta, ela inferiu as causas da mortalidade de uma árvore amazônica média. Mas ela também concluiu que os dados da rede “não tinham a cobertura espacial e temporal necessária para fornecer informações sobre árvores grandes”.

Em outras palavras, até o momento, poucas árvores amazônicas de grande porte foram estudadas para determinar quanto tempo elas vivem e o que as mata. Adriane diz que a situação é pior nas outras florestas tropicais do mundo, na Ásia e na África.

É por isso que o orçamento da equipe incluiu o drone Trinity Pro de US$ 27 mil (aproximadamente R$ 148 mil). Com ele, o projeto Gigante pode estudar mais árvores grandes do que nunca. Estamos “mudando nossa abordagem de olhar no nível do solo, medindo os troncos das árvores, para usar um drone”, explica Evan.

Para o trabalho atual, eles irão monitorar um lote de 1.500 hectares dentro da Reserva Ducke. Isso pode não parecer muito extenso, mas a área contém cerca de 750 mil árvores mais grossas do que um poste de cerca e quatro vezes mais terra do que em todas as pequenas áreas estudadas no artigo de Adriane de 2020.

Em contraste com os terrenos do RainFor, que os pesquisadores de campo visitam uma vez a cada dois anos, o drone do Gigante pesquisará a área de estudo mensalmente. Além disso, a equipe do Gigante calçará repetidamente aquelas botas à prova de cobras e entrará em locais selecionados. Mais como legistas do que como recenseadores, eles só visitarão árvores grandes recém-mortas após a análise mensal das imagens do drone.

Durante a busca por árvores mortas, Evan Gora e Adriane Esquivel Muelbert olham para um galho queimado identificado pelo especialista em florestas tropicais Flamarion Prado Assunção. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media.

Burocracia e tentativa de sequestro

Mas há um problema. No acampamento-base da Reserva Adolpho, Evan desmonta o drone e coloca as peças de volta em seu estojo personalizado. Ele ainda não pode pilotá-lo. O Brasil, assim como os Estados Unidos, regulamenta os drones. Apesar de meses de tentativas, a equipe ainda não obteve permissão.

Eles já esperavam ter recebido as aprovações, mas Evan diz que há “algumas complicações”. No meio do processo de solicitação de licenças, o consultor que eles contrataram para ajudá-los com a papelada parou abruptamente de responder a mensagens de texto e ligações. Depois de um tempo, ele explicou que houve uma tentativa de sequestro. Ele não quis dar mais detalhes, mas disse que precisava de mais tempo para voltar ao trabalho. Semanas se passaram sem nenhuma outra comunicação, deixando a permissão para voar em um limbo.

Uma vez autorizada, a equipe voará com o drone sobre Ducke. O drone irá se deslocar para frente e para trás em um grande terreno retangular, fotografando a floresta em trilhas paralelas, como as faixas de um gramado meticulosamente cortado. Os pesquisadores juntarão as imagens, produzindo uma única renderização de toda a área. Com a ajuda de um programa de computador desenvolvido por colegas no Panamá, eles procurarão nessa composição as aberturas no dossel que apareceram desde os sobrevoos anteriores, cada uma delas sendo o sinal provável de uma ou mais árvores recém-caídas.

Em seguida, eles saem a pé e verificam cada um deles. Adriane chama cada uma dessas visitas de “necrópsia”. A equipe espera que de 10 a 20 novos locais de árvores mortas sejam abertos no dossel a cada mês — cerca de 500 árvores por ano, o dobro do que os cálculos mostram ser necessário para tirar conclusões estatisticamente significativas sobre a mortalidade de árvores grandes.

O que está em jogo

Com US$ 1,7 milhão em subsídios da National Science Foundation dos EUA e do Natural Environment Research Council do Reino Unido, Adriane e Evan também supervisionam uma pesquisa paralela no Panamá e, a partir do próximo ano, na Malásia, em Camarões e em um segundo local na Amazônia.

Cada equipe local usará métodos idênticos para coletar dados nesses locais, seguindo o que os pesquisadores chamam de “o protocolo”, para permitir comparações válidas entre os locais. Com o fervor dos que creem verdadeiramente, Adriane, Evan e seus acólitos, os pós-doutorandos, ensinarão o protocolo às equipes que estudam os outros locais nos trópicos.

Como o drone não pode ser pilotado hoje e a equipe do Gigante não pode coletar dados aéreos, os membros da equipe calçam botas e passam repelente de mosquitos. Chegou a hora do workshop de hoje sobre windthrow — termo técnico em inglês para árvores derrubadas pelo vento. Os quatro cientistas e um especialista florestal local percorrem vários quilômetros de trilhas na floresta tropical até chegar a um corte no dossel. Parece que uma mão gigante golpeou três árvores altas e largas, derrubando-as no chão e arrancando suas raízes do solo. Essas, por sua vez, esmagaram dezenas de árvores menores em um emaranhado traiçoeiro de galhos.

Evan vivenciou em primeira mão o momento em que uma árvore desse tamanho tomba. “É um som espetacular!”, diz ele. “Você ouve estalos quando as raízes são arrancadas do solo e as árvores ao redor são esmagadas.” Imagine um galho de uma polegada de espessura se partindo em dois, diz ele. “Agora multiplique esse diâmetro por alguns metros.”

Antes que a equipe consiga entender a confusão, uma chuva fraca se transforma em um aguaceiro. Encharcados, os pesquisadores amarram uma lona e esperam o tempo passar. Vanessa distribui um saco de paçocas. Eles comem e cantam músicas pop e a tempestade continua.

Em seguida, a equipe mede o diâmetro de cada tronco. Duas se qualificam como “gigantes” — para este estudo, árvores com mais de meio metro de diâmetro do tronco na altura do peito.

Enquanto Adriane e Evan observam com aprovação, Vanessa e Gisele notam que cipós se agarram às árvores derrubadas. Em suas planilhas de dados, as pós-doutorandas classificam a infestação de cipós em um fator de dois, indicando que a folhagem dos cipós cobre de 25% a 50% do dossel combinado. Essas trepadeiras impedem que a luz do sol chegue à copa da árvore e roubam a água de suas raízes. Às vezes, os cipós ficam tão pesados que arrastam as árvores para baixo.

A equipe observa que as folhas das árvores derrubadas ainda estão penduradas, mostrando que as árvores caíram enquanto estavam vivas. Indo para a base das árvores, eles observam que os pelos finos das raízes estão intactos. Essas estruturas delicadas se degradam rapidamente no calor e na umidade tropicais quando expostas ao ar. Com base nisso, eles concluem que as árvores caíram no último mês ou dois.

Se isso não fosse apenas um exercício de treinamento, a equipe também verificaria se as árvores caídas apresentavam danos causados pela podridão do seu miolo, sondando cada uma delas com uma ferramenta chamada Resistograph. O dispositivo parece uma arma de assalto; segurando-o por um cabo de pistola, os pesquisadores pressionariam a ponta do cano, que abriga uma agulha, contra um tronco e apertariam o gatilho. Uma queda na resistência à sonda sugere que a madeira está quebradiça devido a uma infecção fúngica, outra possível causa da morte da árvore.

Evan Gora e o drone que está sendo usado para coleta de dados pelo projeto Gigante sobre a mortalidade de árvores de grande porte em florestas tropicais. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media

Se uma árvore cai… o que a matou?

O vento claramente derrubou pelo menos uma dessas grandes árvores. Outras podem ter sido derrubadas por uma vizinha que tombou. Os pós-doutorandos marcam “W”, de wind (vento, em inglês) , em suas anotações. Mas será que o vento matou as árvores? O vento derruba árvores amazônicas com frequência; metade de todas as árvores que morrem por causas naturais é derrubada pelo vento, de acordo com Adriane. Por “naturais”, ela quer dizer que não foram mortas com uma motosserra. Mas, na verdade, está cada vez mais difícil traçar uma linha entre a morte natural e a antropogênica das árvores.

Um estudo recente estima que, até 2100, o aumento das tempestades na Amazônia, provocado pelas mudanças climáticas causadas pelo homem, gerará um aumento de 43% nas mortes por windthrow — queda causada por vento. E, embora os cientistas não saibam ao certo, o vento pode ter o maior impacto sobre as árvores maiores, uma vez que suas copas vulneráveis se elevam bem acima do dossel circundante, o que reduz a velocidade do vento.

Os pesquisadores têm a intenção de determinar se um fator, e não outro, “causa” a mortalidade. Evan explica que, embora o vento seja a provável causa imediata, ou próxima, da morte dessas árvores, pode não ser o que realmente as matou — a causa final. Investigar a morte de uma árvore é tão complicado do ponto de vista forense quanto encontrar uma pessoa morta na parte inferior de uma escada: ela morreu de uma pancada na cabeça ao cair ou do derrame que levou à queda?

A queda de um raio está entre os poucos diagnósticos de árvores mortas em florestas tropicais feitos com um alto grau de certeza. Evan descobriu que 40% das grandes árvores mortas que ele havia estudado em uma floresta tropical do Panamá haviam morrido imediatamente após a queda de um raio.

Se as quedas de raios aumentarem tanto quanto sugerem algumas projeções climáticas (um aumento global de até 50% até 2100), Gora e seus colegas estimam que a mortalidade de árvores de grande porte no Panamá poderá aumentar entre 9% e 18%. Essa mudança, por sua vez, reduziria a absorção de carbono pela floresta. Mas Evan adverte que os raios podem não desempenhar um papel semelhante em todas as florestas tropicais. A pesquisa do Gigante deve ajudar a determinar esse papel.

Para investigar as causas finais da mortalidade, o novo protocolo do Gigante exige a coleta de informações sobre vários fatores de risco — condições que podem levar uma árvore à beira da morte antes que outro fator dê o golpe final.

Por exemplo, Evan explica: “Poderíamos descobrir que toda árvore que morreu devido ao vento tem uma carga enorme de cipós. Descobriríamos que os cipós estão causando a mortalidade, mesmo que a causa próxima que anotamos tenha sido o vento”. Outros fatores de risco a serem considerados incluem a podridão do miolo, infestações de insetos e estresse hídrico (excesso ou falta de água), que podem ser intensificados pelas mudanças climáticas.

Adriane diz que, como é difícil atribuir uma causa final para a morte de uma árvore, sua pesquisa sempre terá algum grau de incerteza.

Ainda assim, ela está motivada pela necessidade urgente de prever a eficácia do sumidouro de carbono tropical nas próximas décadas.

Muitas mudanças nas florestas tropicais que estão ocorrendo agora, ou que estão sendo projetadas, podem aumentar a mortalidade das árvores e degradar o sumidouro de carbono tropical. A mudança climática está alterando os padrões de precipitação, ventos extremos e relâmpagos, enquanto as lianas estão se tornando mais abundantes na Amazônia e em algumas outras florestas tropicais, à medida que aumentam as áreas de perturbação humana e a intensificação do calor.

A classificação de todos esses fatores exige dias de trabalho árduo. No final desse dia, a equipe volta em fila indiana pela trilha lamacenta e escorregadia até a sede da Reserva Ducke. Gotas de água brilhantes penduradas nas folhas refratam réplicas em miniatura da floresta escurecida. A folhagem exala aromas florais doces, estranhamente com notas de alho.

Ao se aproximarem do acampamento base, eles param em uma grande árvore viva que se ergue como um trovão acima do dossel circundante. Uma harpia está sentada em um ninho de gravetos grande como uma banheira, apoiado em uma curva da copa. As harpias (Harpia harpyja), a maior ave de rapina da Amazônia, empoleiram-se no topo das árvores e da cadeia alimentar. Quando vista, a ave gira a cabeça em direção aos pesquisadores. Entusiasmada, Adriane abandona sua serenidade científica. “É por isso que as árvores gigantes são importantes”, ela exclama.

Para realizar esta reportagem, a Mongabay obteve apoio do Pendleton Mazer Family Fund, Abby Rockefeller e Lee Halprin.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Daniel Grossman

Carcaças de 4 animais marinhos são encontradas em praia no Amapá

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Foram encontrados por pesquisadores, na praia do Goiabal, na costa do Amapá, quatro carcaças de animais marinhos do tipo golfinho. O trabalho faz parte do projeto ‘Caracterização e Monitoramento de Cetáceos nas bacias Pará, Maranhão e Foz do Amazonas (PCMC)’ e foi realizado entre os dias 5 e 6 deste mês.

Segundo a cientista ambiental Jéssica Melo, ainda não é possível identificar a espécie dos animais. O material coletado foi levado para a capital Macapá para passar pelo processo de maceração da pele e estudos do crânio. A maceração da pele é uma condição que ocorre quando o tecido da pele fica exposto a um fluido por um longo tempo.

Este é o oitavo monitoramento quinzenal em Calçoene com a colaboração de profissionais do Instituto Federal do Amapá (Ifap) em parceria com o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa).

A execução do Projeto é uma exigência estabelecida no processo de licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama.

Para Juliana Campos, pesquisadora do Iepa, o projeto tem impacto direto nas políticas de preservação do meio ambiente e, principalmente, na questão de troca de conhecimentos.

“Ao participar deste projeto, tenho a chance de estudar esses animais incríveis em seu habitat natural, contribuindo para a construção de um conhecimento mais sólido sobre suas populações, comportamentos e ecologia. Além disso, os dados coletados durante o projeto serão cruciais para a elaboração de estratégias de conservação mais eficazes para os cetáceos”, destacou Juliana.

Foto: Divulgação/PCMC

Fases do monitoramento

O projeto ocorre em três etapas. Na primeira fase, os pesquisadores trabalham percorrendo as comunidades para conscientizar pescadores e moradores da área costeira do Amapá e das ilhas do Pará sobre a importância de acionar os órgãos competentes caso localizem esses animais.

A segunda etapa envolve o monitoramento do período dos encalhes na praia do Goiabal. No local, foi encontrado em abril deste ano um filhote de baleia cachalote.

Na terceira fase, os trabalhos consistem no atendimento por meio do ‘Disque Encalhe’, a partir do chamado, uma equipe se desloca para o local e realiza o resgate. Entre em contato pelos números: (96) 99116-3712 e (96) 99206-3344.

Além disso, os pesquisadores repassam para a população noções básicas de primeiros socorros desses animais, caso eles estejam vivos, até a chegada das equipes.

Para os pesquisadores, as primeiras horas após encontrar o animal são cruciais para a observação das condições que ele vivia e o porquê que ele morreu.

No caso desses quatro animais encontrados na Praia do Goiabal, a partir das ossadas, serão traçados pelos profissionais relatórios sobre a saúde desses mamíferos, inclusive a identificação das espécies.

Estudos sísmicos

Os pesquisadores buscam monitorar os impactos de estudo sísmico – usado para detectar poços de petróleo -. O monitoramento é parte da exigência do Ibama para exploração na Bacia Pará-Maranhão, na Margem Equatorial.

O estudo de busca de petróleo abrange a área da bacia conhecida como Pará/Maranhão, que apesar de estar localizada na costa dos dois estados, tem influência no Amapá em razão de questões geográficas.

Até o momento, mais de oito animais foram encontrados sem vida. Entre eles, dois botos adultos, com quase 2 metros de comprimento, e um filhote.

A expectativa é uma ampliação dos estudos e monitoramento caso a exploração de petróleo seja liberada no Amapá também.

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Relatório da WWF aponta que vida selvagem diminui 73% em 50 anos

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Foto: Reprodução/Fundación Omacha

Relatório da organização não governamental (ONG) World Wide Fund for Nature (WWF), divulgado nesta quinta-feira (10), alerta para o “declínio catastrófico” de 73%, nos últimos 50 anos, do tamanho médio das populações de vida selvagem. Só a América Latina e Caribe viram cair 95% dessas populações. A organização de preservação da natureza adverte que os próximos cinco anos vão determinar o futuro da vida na Terra.

Desde elefantes em florestas tropicais a tartarugas-de-pente na Grande Barreira de Corais, as populações estão diminuindo de forma “catastrófica”, afirma a ONG, que desde 1961 trabalha na área de preservação da natureza e redução do impacto humano no meio ambiente.

Os maiores declínios nas populações de vida selvagem foram registrados na América Latina e no Caribe, de 95%. A África tem menos 76% e a Ásia-Pacífico, menos 60%.

O relatório Planeta Vivo, da WWF, deixa claro que, à medida que a Terra se aproxima de pontos perigosos de inflexão de ameaça à humanidade, maior esforço coletivo será necessário para enfrentar as crises climáticas e naturais. Porém, a margem é curta para inverter a tendência. A análise afirma que o futuro da vida na Terra depende do que acontecer nos próximos cinco anos.

O Índice Planeta Vivo (LPI), fornecido pela Sociedade Zoológica de Londres, inclui quase 35 mil tendências populacionais de 5.495 espécies – aves, mamíferos, anfíbios, répteis e peixes – registradas entre 1970 e 2020. O declínio maior ocorre nos ecossistemas de água doce que apresentam redução de 85%, seguido pelos terrestres, que decresceram 69%. A vida marinha caiu 56%.

A perda e a degradação de habitats têm sido impulsionadas principalmente pelo sistema alimentar humano e é a ameaça à vida selvagem mais relatada, indica o relatório. A exploração desenfreada de recursos naturais, as espécies invasoras, a poluição e as doenças estão também identificadas como causa do declínio.

Mike Barrett, principal autor e consultor científico do WWF, disse que, devido à ação humana, “particularmente a maneira como produzimos e consumimos nossos alimentos, estamos cada vez mais perdendo o habitat natural”.

Para Kirsten Schuijt, diretora-geral da WWF Internacional, “a natureza emite um pedido de socorro. As crises interligadas de perda da natureza e mudanças climáticas estão a empurrar a vida selvagem e os ecossistemas para além dos seus limites”.

Quando os ecossistemas são prejudicados, deixam de fornecer à comunidade humana os benefícios dos quais todos dependem – ar limpo, água e solos saudáveis para alimentação. E por estarem danificados, esses ecossistemas se tornarão mais vulneráveis a momentos de mudança.

Essas alterações podem ser considerados pontos de inflexão e ocorrem quando um ecossistema é empurrado além de um limite crítico, resultando em mudanças substanciais e potencialmente irreversíveis.

A perda de espaços selvagens está “pondo muitos ecossistemas à beira do abismo”, reitera a diretora da WWF no Reino Unido, Tanya Steele, destacando que muitos habitats, da Amazónia aos recifes de corais, estão “à beira de pontos de inflexão muito perigosos”.

O potencial “colapso” da floresta amazônica, está em curso porque deixará de ter capacidade de reter o carbono que aquece o planeta e mitigar os impactos das alterações climáticas.

Em um dos exemplos do relatório, é apontado decréscimo de 60% dos botos cor-de-rosa ou golfinhos de rios da Amazônia devido à poluição e a outras ameaças, como a mineração.

Por sua vez, na Austrália, as tartarugas-de-pente estão em declínio, devido ao fato de as fêmeas nidificantes, no nordeste de Queensland, terem diminuído 57% em 28 anos.

O balanço da WWF é apresentado quando os incêndios na Amazônia atingiram, em setembro, o nível mais alto em 14 anos. Além disso, pela quarta vez, um evento global de branqueamento em massa de corais foi confirmado no início deste ano.

Caça ilegal na África

O relatório aponta fortes evidências de que a caça ilegal para alimentar o comércio de marfim, no Gabão e em Camarões, coloca em perigo crítico a população de elefantes da floresta do Parque nacional em Minkébé. O declínio drástico já atingiu as famílias de elefantes da floresta, aniquilando metade da espécie.

Na Antártida, “o declínio nas colônias de pinguins-barbicha pode estar ligado ao degelo das calotas polares e à escassez de krill (pequenos crustáceos), razões que, por sua vez, resultam das alterações climáticas e do aumento da pesca desse mesmo krill”, diz o documento.

As condições mais quentes, associadas a níveis mais baixos de cobertura de gelo marinho, resultam em menos krill, sendo esses crustáceos (semelhantes aos camarões) a principal fonte de alimento dos pinguins. Essas comunidades acabam por gastar mais tempo à procura de comida, “o que pode aumentar o risco de falha reprodutiva”.

Mike Barrett lembra que não se deve ficar triste apenas pela perda da natureza. E avisa: “Estejam cientes de que esta é agora uma ameaça fundamental à humanidade e realmente precisamos fazer alguma coisa e tem de ser já”.

*Com informações da Agência Brasil

Municípios do Pará e Mato Grosso entram em lista de emergência de cidades afetadas por desastres

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Foto: Wellyngton Coelho/Agência Pará

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), por meio da Defesa Civil Nacional, reconheceu, no início deste mês, a situação de emergência em 42 cidades afetadas por desastres. As portarias com os reconhecimentos foram publicadas no Diário Oficial da União (DOU).

No Pará, 34 municípios obtiveram o reconhecimento federal de situação de emergência devido a incêndios florestais. Estão na lista Abel Figueiredo, Acará, Altamira, Aurora do Pará, Bagre, Bonito, Bragança, Breu Branco, Cachoeira do Piriá, Cametá, Capitão Poço, Concórdia do Pará, Dom Eliseu, Eldorado dos Carajás, Goianésia do Pará, Itaituba, Jacareacanga, Maracanã, Marapanim, Moju, Muaná, Nova Ipixuna, Oriximiná, Ourém, Pacajá, Portel, Redenção, Rio Maria, Rurópolis, São Félix do Xingu, Tucuruí, Ulianópolis, Vitória do Xingu e Xinguara.

Ainda no estado, os municípios de Curuá e Porto de Moz enfrentam um período de estiagem, assim como Arcoverde, Santa Maria de Boa Vista e Toritama, em Pernambuco, e Guapimirim, no Rio de Janeiro.

Por fim, Colniza, no Mato Grosso, e Caraúbas, no Rio Grande do Norte, registraram seca, que é um período de ausência de chuva mais prolongado do que a estiagem.

Agora, as prefeituras estão aptas a solicitar recursos do Governo Federal para ações de defesa civil, como compra de cestas básicas, água mineral, refeição para trabalhadores e voluntários, kits de limpeza de residência, higiene pessoal e dormitório, entre outros.

Como solicitar recursos

Cidades com o reconhecimento federal de situação de emergência ou de estado de calamidade pública podem solicitar ao MIDR recursos para ações de defesa civil. A solicitação pelos municípios em situação de emergência deve ser feita por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Com base nas informações enviadas nos planos de trabalho, a equipe técnica da Defesa Civil Nacional avalia as metas e os valores solicitados. Com a aprovação, é publicada portaria no DOU com o valor a ser liberado.

Capacitações da Defesa Civil Nacional

A Defesa Civil Nacional oferece uma série de cursos a distância para habilitar e qualificar agentes municipais e estaduais para o uso do S2iD. As capacitações têm como foco os agentes de proteção e defesa civil nas três esferas de governo. Confira neste link a lista completa dos cursos.

Confira mais detalhes das portarias:

Portaria nº 3.384

Portaria nº 3.385

Portaria nº 3.386

Portaria nº 3.388

Portaria nº 3.392

*Com informações do Brasil 61

R$ 1,5 mi do Fundo Amazônia é liberado para equipamentos de combate a incêndios em Rondônia

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Foto: Divulgação

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desembolsou no dia 8 de outubro, R$ 1,5 milhões em recursos não reembolsáveis do Fundo Amazônia para a compra de equipamentos de combate a incêndios florestais em Rondônia. Serão adquiridos 664 equipamentos de proteção individual (EPIs) e sete drones.

Leia também: BNDES aprova R$ 180 milhões do Fundo Amazônia para corpos de bombeiros na região

Os recursos recém-liberados fazem parte do projeto “Rondônia Mais Verde Fase II”, no valor total de R$ 34 milhões, que busca fortalecer a estrutura de prevenção e combate a incêndios florestais e queimadas não autorizadas do Estado de Rondônia. A iniciativa amplia o apoio já realizado pelo Fundo Amazônia ao Corpo de Bombeiros Militar estadual, em projeto anterior.

Desde a sua retomada em 2023, o BNDES destinou R$ 405 milhões do Fundo Amazônia para os estados da Amazônia Legal que apresentarem projetos para prevenção e combate a incêndios florestais. Os recursos devem ser usados para duas frentes: Aparelhamento e Estruturação dos Corpos de Bombeiros e Desenvolvimento das Ações de Prevenção, Combate, Monitoramento e Fiscalização.

A aplicação dos recursos cumpre as diretrizes do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), determinadas pelo Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA), sob liderança do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

*Com informações do BNDES

O trabalho do dia seguinte

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Fico feliz em rever um amigo, que chamarei de Everton. Nós nos conhecemos há quase trinta anos. Inicialmente, era um cliente, depois um colega, companheiro de diversos trabalhos e, finalmente, a condição atual, amigos, uma palavra que diz tudo. Everton tem algumas características admiráveis. É uma pessoa de paz, amável no trato com as pessoas e que procura ser útil em pequenas coisas, sem fazer alardes do que faz. É uma pessoa humilde, no sentido positivo da palavra.

Desde que eu o conheci, ele dizia que o seu sonho era se aposentar. Queria ter tempo para praticar esportes, que sempre fora a sua paixão, assistir a filmes e outras atividades, que o trabalho diário não permitia. Gostava do que fazia e da empresa em que trabalhava, mas a aposentadoria, para ele, seria o grande prêmio. Quando o momento se aproximou, falava com entusiasmo, mesmo para seus chefes e colegas, sem se preocupar se isto poderia lhe trazer algum tipo de prejuízo. De tanto manifestar este desejo, acabou por fazer um acordo com a empresa onde trabalhara por mais de trinta anos. Saiu feliz, com direito a homenagens durante um concorrido almoço entre tantos amigos.

Ocorre que, por questões comuns da previdência social, a aposentadoria oficial demorou a sair. Seu discurso de que estava se aposentando não correspondia aos fatos, gerando preocupações e necessidade dele fazer um outro tipo de trabalho, um pouco mais leve e flexível do que o anterior, mas ainda assim, trabalho, o que não estava nos planos de Everton. Para quem já tinha sentido na boca o gostinho do que era o seu desejo, prolongar a espera tornou-se ainda mais difícil. Nesta época, este era o único assunto que interessava a Everton, a sua aposentadoria, que já deveria ter saído. Não era uma questão tanto financeira, já que ele recebera uma boa reserva, mas era a incerteza. E, naturalmente, ter que seguir trabalhando.

Sua alegria foi enorme quando veio a notícia. Everton estava aposentado. Parou tudo e foi curtir a vida, como sempre sonhara. Passeou com a mulher à tarde no shopping; fez pequenas viagens próximas com a família; assistiu a diversas séries e filmes; correu no parque em diferentes horários, terminando com uma água de coco, o que dava um grande prazer. A vida era um paraíso.

Isto no primeiro mês. No segundo mês, o sentimento não foi tão intenso, mas foi legal. No terceiro, a rotina já não era tão gratificante. No quarto mês, Everton se via à noite, olhando para o teto e pensando: “o que vou fazer amanhã? Como vou gastar o meu tempo?” Passou a acordar depois das dez horas e custava a dormir. E, alguns dias, não chegava a tirar o pijama e a barba ficava por fazer. Isolou-se dos amigos e sentiu-se esquecido. Era uma sensação de vazio.

Ouço este relato do próprio Everton, tendo se passado algum tempo. Ele está mais jovem, entusiasmado e, agora, trabalhando. O que o torna mais feliz é que está sendo útil, contribuindo com pessoas e com a empresa em que trabalha. Descobriu que esta é a sua maior realização: ser útil.

Ser útil e promover o bem estão na essência do ser humano, porque faz parte de sua missão maior, como afirma Mokiti Okada. Estudos da psicologia positiva, comandados por Martin Seligman, Miihaly Csikszentmihaly e vários outros pesquisadores não deixam dúvida quanto à relação entre felicidade e altruísmo. Há uma forte satisfação duradoura quando fazemos o bem, somos úteis e cumprimos a nossa missão. Esta satisfação vai além do prazer e é uma das dimensões da felicidade.

Saio do nosso encontro entusiasmado. Uma pizza, alguns chopes, mas sem excessos. Everton e eu temos trabalho no dia seguinte. Que bom que temos trabalho amanhã! Que bom que teremos o final de semana!

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Amapaense retrata Ilha de Santana em exposição no Carrossel do Louvre, em Paris

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Foto: Cris Guedes/Arquivo pessoal

Retratando as vivências dos moradores e a Ilha de Santana, região ribeirinha do Amapá, a artista Cris Guedes expõe dois quadros no Carrossel do Louvre, em Paris, nos dias 18, 19 e 20 de outubro.

A primeira obra retrata a Ilha e suas características. A região que fica próxima ao segundo município mais populoso do Amapá também ganha, nesta exposição, um documentário, o qual mostra o processo de criação do quadro.

Outro trabalho de Cris que vai estar disponível no Carrossel é um que expõe a rotina dos moradores da Ilha. Junto à primeira obra, a artista traça um paralelo sobre o lugar e as vivências das pessoas que vivem na Ilha. Este quadro também ganhou um documentário.

Para a artista, representar o Amapá em Paris é a realização de um sonho, principalmente porque ela está tratando sobre a sua terra natal num cenário mundial.

De acordo com o contrato assinado junto à organização da exposição, as obras só poderão ser vistas no evento. A ideia é manter a exclusividade do trabalho dos artistas.

Além disso, Cris deve participar do lançamento do livro Vivemos Arte, que reúne a biografia dos artistas selecionados para esta exposição.

Sobre a artista

Cris Guedes, tem 33 anos e se diz apaixonada por contar histórias através da arte. Atualmente, ela trabalha com pintura em paredes, quadros e pinturas em casamentos.

Além disso, a artista dá aulas de arte para crianças e tem um projeto social chamado “Criativando”, onde leva a arte para comunidades ribeirinhas e crianças carentes.

Esta é a segunda exposição internacional de Cris Guedes. A primeira ocorreu em abril, em Barcelona, na Espanha.

Ainda em Santana, a artista produziu um documentário sobre o Orfanato da Ilha de Santana, a produção conta com o depoimento de diversos moradores e deve ser inscrita em concursos de audio visual (veja documentário abaixo).

Documentário

No Amapá, a artista também é conhecida pelo documentário em homenagem à Fortaleza de São José de Macapá, ponto turístico da capital, localizado no centro da cidade.

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

“Raríssimo”: vaca dá à luz trigêmeos em Rondônia

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Vaca dá à luz trigêmeos. Foto: Reprodução

O que era para ser uma gestação normal se tornou um evento raríssimo: uma vaca deu à luz três bezerros de uma só vez. O caso aconteceu na propriedade rural de Isabel Soares Lopes em Alvorada do Oeste (RO).

“Dois já é bem incomum e três então nem se fala né?”, relata a professora doutora Evelyn Rabelo, atuante no Departamento Acadêmico de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Rondônia com especialidade em reprodução animal.

Segundo a professora, o comum é que em bovino ocorra apenas uma ovulação. Em casos de inseminação artificial é possível fazer a manipulação hormonal e propiciar as ovulações múltiplas. No entanto, a vaca gerou os trigêmeos em um processo natural.

Isabel, dona da propriedade, contou que durante a sua rotina de ordenhar as vacas percebeu que um dos animais tinha nascido. Ele era mais pequeno que o normal, ”mas até aí tudo bem”.

No dia seguinte, pela manhã, ela foi novamente para ordenha e percebeu que outro bezerro tinha nascido, mas achou que ele era de outra vaca que também estava prenha. No entanto, o animal ainda não tinha dado à luz. Isso fez ela se preocupar, não com a vaca, mas com a sua saúde mental.

“Eu comecei a ficar preocupada comigo mesmo. Eu vi dois bezerrinhos, agora a vaca não criou, mas nem imaginei que podia ser gêmeo. Pensei: ‘meu Deus eu vou ter que consultar porque não estou normal'”, diz a produtora rural.

A situação foi comprovada pela presença do sobrinho de Isabel, que foi até o local ajudar.

Segundo a professora doutora Evelyn Rabelo, além do caso ser raro, outras situações incomuns podem ocorrer em gestações de gêmeos, como a “masculinização” da fêmea, caso os bezerros sejam de sexos diferentes.

“É uma patologia que a gente chama de freemartinismo. Enquanto os bezerros estão na mãe, pode ocorrer troca de células sanguíneas entre eles, troca de hormônios, e aí a gente pode ter o que a gente chama de ‘masculinização’ da fêmea. A fêmea não fica apta à reprodução, ela fica como se fosse um macho, mas com algumas características femininas”, relata.

Um exame deve ser feito quando os bezerros estiverem grandinhos, para que se comprove se existe ou não a patologia. Enquanto isso eles estão bem e saudáveis.

*Por Luciana Kuster e Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Editora especializada em mulheres indígenas de todo o Brasil: conheça a Pachamama

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Foto: Reprodução/Instagram – @alinerochedopachamama

Aline Pachamama tem se esforçado para ler o material que chega até ela por e-mail ou mensagem de texto. A escritora e pesquisadora com raízes na etnia Puri tem atravessado um período intenso de cirurgias oculares, devido a alguns problemas de visão. E embora sua condição atual requeira cuidados atenciosos, a rotina de editora de livros não foi drasticamente afetada: a vontade de se manter atuante e produzir literatura fala mais alto.

Historiadora de formação, Aline Pachamama é doutora em História Cultural pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e sempre esteve envolvida em iniciativas para preservação e divulgação da cultura indígena.

Ao longo dos anos pôde acompanhar de perto, na universidade e fora dela, a produção de autoras indígenas, mas percebia que muitas delas não conseguiam publicar suas obras em grandes grupos editoriais. Para suprir esta demanda, Aline resolveu elaborar um projeto de editora para publicar novas vozes, e daí surgiu a Pachamama, no ano de 2016.

Em entrevista à Mongabay*, Aline ressaltou a necessidade de contar a história de seus ancestrais:

Pachamama, que em língua quíchua significa “Mãe Terra”, é um projeto que tem como foco a publicação de obras bilíngues com ênfase em literatura indígena. O nome da editora é uma homenagem à mãe, dona Jecy, uma artesã que trabalha com tecidos.

Aline e a mãe, Jecy, inspiração para a criação da editora. Foto: Alice Pachamama/Acervo pessoal

A editora é composta exclusivamente por mulheres – e se destacou no cenário literário brasileiro ao propor um modelo editorial que integra oralidade e memória dos povos originários por meio do texto e dos processos de escuta, fugindo das praxes do mercado editorial tradicional.

Para a historiadora Márcia Mura, autora da casa, a editora foi uma escolha coerente e natural na hora de publicar seu livro, Tecendo Memórias. “O livro é um recorte da minha tese de doutorado, que traz a questão da afirmação indígena e do fortalecimento cultural”, diz Márcia.

Coordenadora do coletivo Mura, em Porto Velho (RO), que realiza um trabalho de recuperação de memória e reconhecimento dos antepassados, Márcia acredita que o trabalho da editora é pioneiro por mobilizar uma grande rede de autoras indígenas de todo o país.

Aline concilia a produção de livros com o ativismo pela palavra. Em suas redes sociais, mantém um diálogo aberto com o público e vê com otimismo a circulação de ideias sobre os temas que lhe são caros, como a ecologia, a luta antirracista e a história dos povos originários.

Para a professora Shirlei Rodrigues, conselheira da editora, a Pachamama se diferencia de outras pequenas casas editoriais por carregar um projeto que ultrapassa a barreira editorial e assume uma luta política. Por “honrar a ancestralidade e o convite que faz a todas as pessoas para uma caminhada de valorização dos povos originários e das causas ambientais”, ela diz.

Com uma linha editorial eclética, a Pachamama publica de obras de não-ficção, como ensaios, a histórias e poesia. “Nós publicamos livros que não apenas documentam as tradições indígenas, mas que também valorizem as línguas originárias”, diz Aline. Um dos projetos mais importantes da editora foi seu primeiro lançamento, em 2016, Guerreiras: Mulheres Indígenas na Cidade, Mulheres Indígenas da Aldeia.

O livro surgiu da inquietação de Aline ao questionar onde estavam os indígenas na cidade do Rio de Janeiro. O livro, fruto de uma pesquisa que envolveu entrevistas com 13 indígenas de diferentes etnias, aborda as realidades de mulheres que viviam tanto em áreas urbanas quanto em aldeias.

Entre as etnias representadas no livro de estreia, estão Anambé, Guarani, Kayapó, Puri e Xavante. O trabalho, que foi concebido por meio de um edital, mostra como as experiências dessas mulheres em suas lutas e conquistas cotidianas têm a ver com a questão de território.

Alguns títulos do catálogo da editora Pachamama. Foto: Divulgação

Desafios

Para Shirlei, que é professora, a curadoria também é uma questão primordial. “A editora Pachamama requer uma mentoria bem criteriosa, pois apoia autoria de pessoas indígenas e negras que são comprometidas com esses movimentos.  É muito importante que promova a qualidade dos livros e do conteúdo. A Pachamama propõe a publicação de livros multilíngues que nos leva a refletir e se sensibilizar sobre as diversas etnias que estão no Brasil, no mundo”.

A iniciativa criou raízes e Aline fundou, em 2021, o Instituto Pachamama, que tem sede em Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro, onde Aline mora. O instituto foi criado também para desenvolver o projeto Inhã Uchô, que busca reparar historicamente o povo Puri da Mantiqueira. Além de ser um espaço de resgate cultural, o local, que abriga também a editora, propõe um diálogo entre a ciência e as práticas ancestrais dos povos indígenas.

Em 2023, Aline Pachamama recebeu apoio da Faperj e do Instituto Serrapilheira por meio de uma chamada conjunta voltada para apoiar cientistas indígenas e negros. O projeto intitulado “Ecologia é Ciência, e nós, indígenas, a praticamos” foi contemplado na modalidade de apoio discricionário. A iniciativa tem como objetivo desenvolver projetos inovadores em ecologia e ciência, preservando memórias e práticas ancestrais do povo Puri.

Agora em outubro, Aline relançará o livro TAYNÔH no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Considerado o livro mais ambicioso da editora Pachamama por ter sido traduzido em 13 línguas, entre elas Guarani, Xavante e Puri, além da língua crioula falada em Guiné-Bissau, na África, a edição contempla traduções para espanhol, francês, inglês, italiano e português.

Além de trazer discussões sobre o meio ambiente, a autora destaca que o propósito do livro é promover a educação antirracista e a reparação linguística, estimulando o público, especialmente professores, a olhar para as línguas indígenas existentes no Brasil e na África.

“Queremos reconquistar territórios através da palavra”, diz Aline Pachamama, que reconhece que a produção literária no Brasil é cara e desafiadora, mas vê nos seus livros uma forma de manter viva a história e a ciência de seu povo. “O livro, para mim, é vivo”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Matheus Lopes Quirino

Saiba quais foram as maiores vazantes do Rio Negro em Manaus

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Foto: Raffa Neddermeyer/Agência Brasil

Com registro de 12,11 metros em 9 de outubro, pelo Porto de Manaus, o Rio Negro na capital amazonense chegou ao menor nível em 122 anos de monitoramento até então. A cota é monitorada desde 1902.

O período mais crítico da estiagem do rio é entre agosto e outubro. O monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB) indica que cota tem descido cerca de 12 centímetros por dia. Porém, com ritmo acelerado, em 16 de setembro houve redução de 26 cm em 24 horas.

Após chegar aos 12,11 metros, o rio manteve o nível em 10 de outubro, segundo registros do Porto, sendo a primeira vez desde 28 de junho que o rio se mantém estável.

Em 2024, o Amazonas registrou pelo menos 750 mil pessoas impactadas pela seca de acordo com a Defesa Civil.