A Mercur, indústria das áreas da saúde e educação, apresenta ao mercado a primeira Borracha Nativa da Amazônia. O produto, informa a empresa, “reflete o compromisso com a sustentabilidade e a conservação ambiental”.
Produzida com látex extraído 100% de árvores nativas da Amazônia, a borracha é o resultado de mais de uma década de dedicação ao projeto ‘Borracha Nativa’, uma iniciativa que busca valorizar e apoiar as comunidades extrativistas locais.
O projeto conta com a parceria da rede Origens Brasil®, administrada pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Por meio da relação comercial direta e ética com os povos da floresta, a iniciativa contribui para a conservação dos territórios e a valorização da cultura local. Dessa forma, com a produção da borracha, a empresa apoia quatro áreas protegidas, um território indígena, dois grupos sociais, quatro organizações comunitárias e duas instituições de apoio.
A nova borracha é composta por 78% de matérias-primas renováveis, sem a adição de pigmentos. O produto possui um QR Code no verso, que leva os consumidores ao site da rede Origens Brasil®, no qual é possível conhecer a história, a origem dos produtos e comunidades envolvidas em sua produção. O conceito do novo produto é “corrigir com consciência para preservar o futuro”.
Cuidado e impacto social na Amazônia
O Projeto Borracha Nativa, informa a Mercur, procura conservar a cultura e o modo de vida das populações tradicionais da floresta amazônica, ao mesmo tempo que promove a geração de renda sustentável e o comércio ético. Através da parceria com seringueiros que vivem em reservas extrativistas, a empresa garante que o látex seja extraído de forma responsável e sustentável, sem causar danos às árvores, auxiliando em um ciclo de produção que conserva a floresta em pé.
Fazem parte deste projeto os membros da rede: Rede Terra do Meio, Associação Indígena Karo Paygap, Coopervekala, Associação Doá Txató, COOPIRB, Associação Panang e Associação APIA e as instituições de apoio Instituto Socioambiental e Pacto das Águas.
Em números, a Mercur comprou mais de 63 toneladas de borracha natural da rede Origens Brasil® entre 2010 e 2023. Em 2022 foram 4,37 toneladas. Em 2023, chegou a 8,65 toneladas. A previsão para os próximos anos é chegar em 30 toneladas/ano. O comércio com as comunidades extrativistas gerou mais de 165 mil reais em renda local em 2023. Desde maio de 2023, a parceria com Origens Brasil® foi ampliada e reforça o impacto socioambiental positivo da cadeia produtiva da borracha.
“Já investimos R$140 mil em serviços socioambientais em 2024. A estimativa é investir ainda mais este ano com a compra adicional de borracha natural da Amazônia”, explica Jorge Hoelzel Neto, Facilitador de Direção da Mercur.
“Investir neste serviço é resgatar um passivo com as comunidades extrativistas e permitir que elas continuem sendo os guardiões das florestas. Além disso, garantimos a neutralização das emissões de gases de efeito estufa, já que nessas áreas o desmatamento é evitado. Nossa intenção é continuar ampliando a compra de borracha nativa”, finaliza Jorge.
Ao todo, são oito territórios, sendo quatro na Terra do Meio em Altamira (PA), impactados pelo projeto:
Reserva Extrativista Rio Xingu,
Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio,
Reserva Extrativista Rio Iriri
e Terra Indígena Xipaya.
E outros quatro territórios em terras indígenas no Estado de Rondônia (RO):
No bioma amazônico, o agronegócio é responsável pela produção de soja, milho, carne bovina, carne de aves, frutas e outros produtos, além das iniciativas que promovem soluções para a produção ambientalmente sustentável na Amazônia, que é um desafio complexo, pois envolve a conciliação de interesses econômicos, ambientais e sociais.
O trabalho sério do agronegócio gera desenvolvimento, renda e emprego, mas sempre em busca de alternativas modernas e sustentáveis, com inovações que ajudem na preservação do meio ambiente. É com esse olhar sobre o agronegócio na Amazônia que estreia, no dia 16 de setembro, o programa Amazon Sat Agro, no canal Amazon Sat, às 18h30 (hora do Amazonas).
O objetivo do programa é mostrar, na prática, o desafio do agronegócio no bioma amazônico, realizado de forma responsável, com a conciliação de interesses econômicos, ambientais e sociais com iniciativas que promovem soluções para a produção de baixa agressividade a natureza. Para isso, o programa trabalha de forma colaborativa com as federações de agricultura da Região Norte do país.
O Amazon Sat Agro, dará voz a quem proporciona a geração dessas riquezas para a população amazônida. De acordo com o diretor executivo do Grupo Rede Amazônica em Rondônia, Hélio Kimelblat, o projeto tem como objetivo ensinar, através das parcerias, as técnicas adequadas para se trabalhar na região.
“O objetivo é dar voz ao agro amazônico. É muito bom abrir as porteiras de suas propriedades, porém alguns não conseguem se comunicar com o público de um modo geral e acabam sofrendo com acusações. Não conseguem se defender e mostrar que produzem sem destruir. São parcerias essenciais para o programa, pois através delas poderemos mostrar as técnicas utilizadas na Amazônia, o que funciona aqui, como os produtores estão trabalhando e quais técnicas estão dando certo”, explicou.
Foto: Pedro Guerreiro / Agência Pará
“O programa será produzido com material enviado pelas federações da agricultura dos nove Estados que compõem a Amazônia Legal [Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins], das Aprosojas, EMBRAPA, EMATER e dos próprios produtores rurais e terá a curadoria e apresentação da Rede Amazônica e do Amazon Sat”, informa o diretor sobre o processo de produção.
O jornalista e apresentador do programa, Patrick Motta Filho, ressalta a importância de um projeto como este, produzido de forma colaborativa e com liberdade de criação, voltado para um tema que gera tantas discussões, mas dando voz aos produtores de cada região.
“É primeira vez que a gente vai fazer um trabalho colaborativo com as federações de agricultura, então quem vai produzir esses materiais serão as federações dos Estados da Amazônia Legal. Todos os assuntos serão relacionados ao produtor rural ou ao agronegócio, com liberdade de criação aberto ao universo da produção rural. Se o produtor lá de Rondônia quiser falar sobre a pesca, por exemplo, ele pode mandar o material para a gente falando sobre a pesca”, destacou.
O diferencial: ouvir o produtor rural
“Às vezes, os produtores trazem algumas reclamações desses programas rurais que já existem, justificando que eles só tratam o que ‘o jornalista quer trata’. Então como é que a gente resolve? Não mais eu, jornalista, vou atrás de pautas específicas, e sim o que o produtor quiser falar. Quem escolhe, dessa proposta, é o produtor rural, é o trabalhador da Federação de Agricultura de cada Estado. Eu vou trabalhar junto com os produtores, com as federais, então é algo diferente, parece ser muito atrativo, porque quem entende melhor de produção rural do que o próprio produtor?”, esclareceu Patrick Motta.
“A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Maranhão, onde estão filiados cerca de 70 sindicatos de produtores rurais em todo o estado do Maranhão, nós temos essa capilaridade muito importante para tanto captar informações quanto para receber informações. Todas essas informações do agro vão ser muito importantes para todos os produtores rurais aqui no estado”, comenta o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Maranhão (Faema/Senar), Raimundo Coelho.
“Parabéns ao sistema CNA, Senar, Federações e sindicatos dos produtores rurais. Investida na comunicação é a certeza de que mais pessoas da sociedade como um todo vão compreender a importância de todos nós que fazemos o agro”, finaliza.
Amazônia Agro
O agronegócio na Amazônia é sinônimo de desenvolvimento e integração da região, que clama por maior representatividade. O projeto Amazônia Agro, do qual o programa Amazon Sat Agro faz parte, é realizado pelo Grupo Rede Amazônica e busca dar voz a quem proporciona a geração dessas riquezas para a população amazônida.
Além disso, serão oferecidos cursos profissionalizantes para jovens, sobre os diversos setores do agronegócio na Amazônia. O objetivo é capacitá-los para o mercado de trabalho e contribuir para o desenvolvimento sustentável da região amazônica.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O presidente Lula da Silva defendeu, nesta terça-feira (10), em Manaus, uma pactuação com o estado do Amazonas para a conclusão da BR-319, que liga três capitais estaduais: Boa Vista, Manaus e Porto Velho e afirmou que a “A BR-319 é uma necessidade para o estado do Amazonas, Roraima e para o Brasil”. Afirmando que Marina da Silva, ministra do Meio Ambiente, “não é contra a rodovia”, ponderou, entretanto, ser necessário “assegurar que a conclusão da rodovia não trará desmatamento da floresta”. Tal extremada preocupação com a preservação ambiental do bioma é contraditória à ausência de políticas públicas voltadas ao ZEE, regularização fundiária e manejo florestal e mineral sustentável.
O discurso de Lula da Silva diverge da titular do MMA, que determinou ao IBAMA bloquear a concessão das licenças das obras de repavimentação da rodovia. Passou despercebido ainda que a juíza federal Maria Elisa Andrade, da 7ª Vara Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do Amazonas, derrubou, de forma monolítica, a licença prévia para a reconstrução e o asfaltamento do trecho do meio da BR-319 a despeito da concessão da licença ambiental pelo IBAMA em 2022.
Entrando na luta pela continuidade das obras da BR-319, por intermédio da Comissão Especial de Defesa da BR-319, presidida pelo advogado Marco Choy, a OAB nacional ingressou com Petição em apoio ao Agravo de Instrumento interposto pelo DNIT contra decisão proferida nos autos da Ação Civil Pública que suspendeu a eficácia da Licença Prévia, emitida pelo IBAMA, autorizando a pavimentação da BR-319. Nos termos da Petição encaminhada no último dia 10/9 ao desembargador Relator Flávio Jaime de Moraes Jardim, da 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o presidente do Conselho Federal da OAB, José Alberto Ribeiro Simonetti Cabral, alega que a suspensão da licença equivale à concessão do provimento final da ação, o que é vedado pela Lei nº 9.494/1997.
Por conseguinte, “o Conselho Federal da OAB requer seja admitido no Processo como ‘amicus curiae’, nos termos do art. 138 do CPC e ratifica integralmente as razões de recurso aos pedidos de concessão de tutela provisória recursal, para suspensão dos efeitos da decisão agravada, e de provimento do recurso, para reforma/cassação da decisão”. Considera, adicionalmente, que “a defesa da revitalização da BR-319 é uma questão que reflete diretamente na mobilidade, acessibilidade e dignidade dos cidadãos amazonenses, para além das questões meramente processuais, estando vinculada à justiça social e ao direito de desenvolvimento regional, daí a pertinência da habilitação do CFOAB no feito.
Argumentos que se fundem aos termos da “Carta Aberta” dirigida ao presidente Lula, quando de sua visita a Manaus, pelo engenheiro Marcos Maurício, do grupo GT Rodovias/CREA-AM, na qual salienta a imperiosidade da conclusão da rodovia BR-319 e leva em conta que “quem defende a conservação do meio ambiente deveria defender a repavimentação da BR-319. A rodovia, conforme projetos ambientais específicos, “assegura maior presença do Estado, com eficácia na fiscalização (comando e controle), na prevenção, no combate a ilícitos ambientais e a incêndios”.
Maurício acentua ainda que a visita presidencial deve “significar muito mais que uma agenda política em tempo de eleição; que seja um ato concreto em defesa da nossa gente; que reserve um tempo para percorrer parte dessa importante rodovia, ao menos até a Comunidade do Igapó-Açu, Km 260, no Trecho do Meio”. Por fim, insta ao chefe da Nação conversar com moradores das margens da BR-319, verificando “in loco” os problemas com que se defrontam “seja pela dificuldade de trafegabilidade durante o inverno amazônico, em razão das chuvas, seja pela quantidade de poeira, no verão”. O Amazonas, na verdade, precisa da rodovia totalmente repavimentada, apta ao tráfego em qualquer época do ano, salienta o documento.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
A Instituição Maçônica, cuja origem é motivo, ainda hoje, de paciente perquirição, ensejando as mais diversas opiniões, todas elas, porém demonstrando o caráter universalista da nossa Ordem, sempre se constituiu em tema apaixonante de apreensão da inteligência humana, especialmente quando o ilustre maçom Gerson Occhi chega até nós trazendo a luz dos conhecimentos e da fraternidade.
Difícil, por certo, será a sua conceituação uniforme, uma vez que o seu processo de expansão e evolução acompanha os fatos que se desenrolam entre os homens, gerando as motivações civilizadoras e gentis, quando esta luz é conduzida por um nobre irmão de outras plagas.
E por nossa gratidão ao bom irmão Gerson Occhi é que, na opinião de Alfredo de Paiva, somos uma associação universal filosófica, reflexo sempre de nobres tendências inspiradas na mais perfeita tolerância, humildade e principalmente no intuito de transformar esta visita em momento de aprendizado e de luz.
Sua presença espelhada por seus conhecimentos maçônicos nos serviu de bálsamo para todas as dores e aflições que pudéssemos ter. A Loja Grande Benemérita Rio Negro n.º 4, que ofereceu abrigo e proteção ao nobre irmão, permitiu a construção de fortes alicerces entre as duas instituições, em cuja presença bebemos da sabedoria deste estimado irmão.
As instituições humanas, tenham ou não amplitude de ação, acompanham o evoluir dos tempos e modificam as normas disciplinadoras de seu comportamento e de suas atividades, afim de se adaptarem ao processo de desenvolvimento das sociedades modernas. Não devem, porém, desmantelar o seu alicerce, mas consolidá-lo sempre para o edifício construído não ruir.
A presença do nobre irmão em nosso Templo Maçônico, permitiu ser formada uma unidade entre o Amazonas e Minas Gerais, uma unidade indissolúvel como o fogo, a chama e a centelha que provem da mesma fonte, para provocarem a luz do brilho do referido irmão.
Não podemos negar que nossos registros históricos, sejam em Minas Gerais ou no Amazonas, assinalam a participação de maçons na evolução dos povos. O irmão Gerson Occhi plantou no jardim da esperança da Grande Benemérita Loja Simbólica Rio Negro n.º 4 a semente benfazeja no Amazonas. Ele nada mais fez do que trazer sua pregação de caráter filosófico que aprimorou o caráter humano.
A importante trajetória maçônica de Gerson Occhi – meio século de história
Foto: Gerson Occhi/Acervo pessoal
“[…] Meu primeiro contato com a maçonaria, ocorre, quando estava com 18 anos, na cidade de Leopoldina, Loja 27 de abril, pelas mãos de um primo, Urias Siqueira, então, Venerável da Loja. Em julho, íamos a Leopoldina, por ocasião da famosa Exposição Agropecuária e hospedávamos na casa de nossos familiares, o senhor Urias nos recebia muito bem, juntamente com sua esposa Professora Violeta Mendonça.
Saindo para um passeio, meu anfitrião, conduziu-me para conhecer a Loja. Nesse primeiro contato, fiquei deslumbrado e desde então, residiu em meu âmago o interesse pela surpreendente Maçonaria.
Passaram-se anos, já graduado em Direito e História, ministrando aulas em Colégios de Juiz de Fora, mas natural de Guidoval, próximo a Ubár, recrudesceu o meu interesse pela Maçonaria. Havia um tio meu, Felicio Siqueira, membro da Loja fraternidade Ubaense que, juntamente com José Damato, Jair Dutra Venâncio, Francisco Pinto de Aguiar, José Negueta, maçons de Guidoval e obreiros da referida Loja, iniciaram gestões para minha apresentação àquela Oficina tendo como padrinho o irmão Joaozito Vieira, no ano de 1971. Ocorre que, o processo não prosperou, pois, tendo residência fixa em Juiz de Fora, a legislação do GOB, obstaculizava o procedimento da iniciação. O processo foi então enviado para a Loja Fidelidade Mineira, de Juiz de Fora, que percorreu os tramites legais, sendo iniciado nesta Sesquicentenária Loja, no dia 24 de junho de 1972, dia de São João, nosso patrono.
Era Venerável Necy Alves de Azevedo, o grande maçom, José da Silva Ribas, ex-Grão Mestre do GOMG e Venerável da Loja por 8 mandatos, um exemplo a ser seguido.
A Maçonaria passou a fazer parte indispensável da minha vida, a empolgação tomou conta de mim. Quanto mais aprendia, tanto mais me apaixonava pela filosofia e história da Sublime Ordem. Nossa Loja era grande em número de membros e com belíssima história. Ela havia participado do movimento da Abolição dos Escravos, alforriando, em 1873, três escravos, quinze anos antes da abolição. Neste mesmo ano, encetou gestão a favor da Proclamação da República, recebendo em seu templo, os lideres Quintino Bocaiuva, Nuno Telmo e Saldanha Marinho, então, Grão-Mestre do Grande Oriente Unido e ex-Governador da Província de Minas Gerais.
Graças ao apoio e instrução dos irmãos, pude fazer progresso na Maçonaria, assim é que, em 1975 fui eleito Orador da Loja e reeleito em 1977, tendo como Venerável, José da Silva Ribas e depois Celso Alves Damasceno, culto, fraterno, estudioso, outra joia rara dentre os maçons. Em 1976, sou indicado, pelo General Braga Mury. Secretário de Cultura do GOB, para ministrar Historia do Brasil, Visão Maçônica, no Seminário para Mestres Maçons, em nossa região.
Em 1978, ainda na turbulência de reflexos das eleições de 1973, quando o ir. Athos Vieira de Andrade, disputando o cargo de Grão-Mestre do GOB, obtendo 7.175 votos, fora derrotado pelo ir. Osmane Vieira de Resende, com 3.820, em uma manobra vexatória do Tribunal Eleitoral Maçônico, anulado 5.046 votos do ir. Athos. A Loja protestou e sofreu retaliação, com a expulsão de toda sua Diretoria pelo GOB, Celso Damasceno, José da Silva Ribas, Américo Duarte Pacheco, José Maria Dutra, Humberto Benedito Filho, Gerson Occhi. Este ato deu motivo a fidelidade Mineira para desligar-se do GOB, o que ocorreu na memorável sessão de 16 de abril de 1978, pela unanimidade dos presentes, migrando para o Grande Orinete de Minas Gerais.
Tive o prazer de ocupar a oratória por 8 mandatos, além de vigilante, Mestre de Cerimonias e membro de várias comissões.
Eleito Venerável para o bienio 1995/1997 e reeleito para novo biênio em 2003/2005, promovemos algumas modificações no Templo e no prédio campestre na da Rua das Arvores, 133. No segundo mandato, fui eleito vice-Presidente do Conselho de Veneráveis das Lojas de Juiz de Fora e Região.
Nos altos Corpos da Fidelidade, fui Aterzata do Capítulo e Presidente da Loja de Perfeição Virgílio Rodrigues Cruzeiro.
Permaneci no grau 30 de 1988 até 2013, quando me filiei ao Supremo Conclave Autônomo do Rito Brasileiro, galgando os graus 31, 32 e 33.
Na Assembleia Legislativa do GOMG, fui Deputado durante 11 anos ocupando a Presidência em 1984, reeleito em 1985. Disputei as eleições com dois saudosos irmãos, com larga folha de serviços em prol da maçonaria, Joaquim Augusto Ramos e José Monteiro Bittencourt, aos quais rendo minhas homenagens póstumas. Encontrei uma Assembleia desmantelada, a ponto de os arquivos e livros se resumirem a uma caixa de papel Chamaex. Reivindiquei, junto ao Grão-Mestre, Athenagoras Café Carvalhaes, melhores condições de trabalho, recebendo uma sala, com armário e máquina de escrever (computador era luxo). Criei uma lista de presenças, para cada encontro.
As reuniões eram realizadas em todo dia 10, o que estava dificultando a vinda de deputados do interior, devido aos seus afazeres, nos seus respectivos orientes. Fizemos gestões junto a eles e passamos a nos reunir no primeiro sábado, o que persiste até hoje. Assim, a frequência aumentou em mais de 50%.
Na condição de Presidente do Poder Legislativo, acompanhei o Grão-Mestre, em 1984, até Caracas, na Venezuela, onde participamos da reunião anual da AIPOMA (Associação Indoiberoamericana de Potências Maçônicas), onde o nosso Grão-Mestre Athenagoras, deixou uma excelente impressão, pelo seu nível cultural, defendendo sua tese em escorreito espanhol.
Na Soberania Assembleia, ainda ocupei a função Orador e membro da Comissão de constituição e Justiça.
Como representante da Loja José Baesso, Or. de Guarani, participei da Constituinte, cujo texto, com algumas modificações, vigora até hoje.
Detenho a Medalha do Mérito Legislativo, 2016.
No ano de 1990, 15 de novembro, foi criada a Academia Maçônica de Letras de Juiz de Fora e Região, por iniciativa dos valorosos irmãos José Soares e Boanerges Barbosa de Castro, este, seu primeiro Presidente. Foram 13 os fundadores. Restam vivos os Acadêmicos José Suarez da Mota e Gerson Occhi.
Estive na Presidência da Academia, por um mandato e de vice-Presidente em outro. Atualmente (2022), Diretor de Cerimônias.
Em 2007 foliei-me a Loja Montanheses Livres, Rito Brasileiro, pelas mãos do irmão Ítalo Brasileo Martelli, tendo sido seu Venerável por dois mandatos consecutivos (2012/2015 e 2015/2017). Fizemos com ajuda dos irmãos uma enorme obra modificando pisos (de madeira para frio), altares (de madeira para mármore), teto, porta, colunas. Unimos o prédio da Loja ao apartamento, que também foi todo remodelado, com novo piso e pintura. Criamos a sala do Venerável, Biblioteca, Secretaria, Sala dos Altos Corpos, cozinha, área externa. Hoje, parte do apartamento está locado para as Lojas União e Força e Gonçalves Ledo, com renda para a Loja.
Membro Honorário das Lojas, Fraternidade Rio-branquense, Visconde do Rio Branco, Antenor Ayres Vianna, Santos Dumont, José Baesso, Guarani (GOMG), Fé, Esperança e Caridade, Levi Gasparian (GLMRJ) Fraternidade Ubaense (Ubá), Fraternidade Guidovalense (Guidoval), Manchester Mineira (Juiz de Fora) as três últimas do GOB/MG.
Alcance o grau 33, Servidor da Ordem e da Pátria, através do Supremo Conclave Autônomo para o Rito Brasileiro, em Cataguases, chegando a Grande Orador da Magna Reitoria. Atualmente (2022), sou Bibliotecário da Loja Montanheses Livres e Orador da Loja Fidelidade Mineira.
Recebi todas as honrarias possíveis no GOMG.
Todas esses conquistas, só foram possíveis, com o auxílio, apoio e ensinamentos dos irmãos da Fidelidade Mineira, da Montanheses Livres e das demais Lojas de Juiz de Fora e Região.
Ao meu juízo penso que cumpri com minhas obrigações maçônicas iniciadas há 50 anos.
Deixo ao crivo dos irmãos, o critério julgamento dos meus atos, enquanto maçom.
Continua sendo bom e agravável viverem unidos os irmãos.
Or. De Juiz de Fora, junho de 2022.
Fonte: OCCHI, Gerson. 50 anos de Maçonaria. 24.06.1972 – 24.06.2022.
Wagner Gouvea, (direita) de barba, Delegado do Grão Mestre para a 5a Região. Helder Afonso (esquerda), Venerável Mestre da Loja Joaquim Gonçalves Ledo. Foto: Gerson Occhi/Acervo pessoal
Quem quer que ainda creia nos altos desígnios do homem sobre a face da terra; quem quer que ainda não tenha todo descrito da ação civilizadora nos destinos da humanidade; quem quer que ainda não se tenha tornado em absoluto indiferente ao movimento regenerador que as conquistas do espírito humano vão operando no mundo, limpando-o dos preconceitos religiosos, libertando-o dos prejuízos políticos; quem quer que ainda se sinta agitado pelos superiores ideais de direito e de justiça; quem quer que ainda tenha alma para crer, coração para sentir, não pode deixar de se descobrir reverente e atencioso numa saudação que traduza respeito e consideração, antes a personalidade simpática deste homem que é a mais completa encarnação da bondade.
Seu nome é Gerson Occhi, no que ele contem de mais suave e de mais carinhoso, de mais belo e de mais sublime, de mais meigo e de mais angélico, espargindo luz. Nestes tempos de intensa vida e de desamor em que, por assim dizer, o homem, no conjunto de todas suas faculdades, absorvido no dia a dia pela busca da sobrevivência que o domina por inteiro, não saindo do seu egoísmo se não para se mover na direção que lhe é indicada pelos interesses individuais.
Este é Gerson Occhi, que se constitui em um caso raro digno de menção. Sua passagem por Manaus para rever familiares, tivemos a oportunidade, sob a proteção dos irmãos da Grande Benemérita Loja Simbólica Rio Negro n.º 4, de o recebermos com a convicção profundamente inabalável de que a nossa principal missão no seio da sociedade é partilhar bondade e acolhimento.
Meu bom irmão Gerson Occhi, a Maçonaria lhe consagrou o melhor de sua existência, a seu serviço constante, ininterrupto, todos os dias empregando sua atividade maçônica de forma incansável, crente e fervoroso sem desanimar, mesmo quando o peso da fadiga lhe abatesse, sem jamais, desertar ou abandonar a jornada.
Bem aja Gerson Occhi, viva os irmãos do Oriente de Minas Gerais GOMG!
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Há milhares de anos, o milho é parte fundamental da alimentação de muitas culturas indígenas das Américas. No Brasil, receitas e bebidas feitas com o cereal, como o preparado levemente alcoólico chamado de cauim pelos povos Tupi, fazem parte da dieta amazônica e são usadas em rituais. Algumas etnias indígenas brasileiras, como os Guarani Mbya, o consideram sagrado. É o grão mais produzido em escala mundial, em grande parte como alimento na pecuária e com presença notável na alimentação humana. Essa relevância faz com que arqueólogos e geneticistas hoje investiguem a origem, a dispersão e os processos de domesticação por quais o milho passou desde a origem da agricultura nas Américas.
Novas interpretações publicadas no dia 4 de setembro na revista Science Advances mostraram as similaridades entre amostras arqueológicas do milho e raças cultivadas atualmente por indígenas e agricultores tradicionais brasileiros. Os autores defendem que o milho chegou há 6 mil anos no sudoeste da Amazônia, a partir de sua origem no México, 9 mil anos atrás, de forma apenas parcialmente domesticada e, depois, passou por diferentes etapas de seleção e diversificação em regiões como o Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país.
Isso não significa que a domesticação inicial se tenha completado na Amazônia. Amostras de milho encontradas em Minas Gerais com datas entre 570 e 1010 anos antes do presente têm características compatíveis com o primeiro milho plantado nas Américas. Atualmente, existem cerca de 300 raças de milho no continente americano. Delas, 15 são brasileiras, divididas em 19 sub-raças, das quais quatro são nativas, associadas aos indígenas, e são chamadas de Entrelaçado, Caingang, Avati Moroti e Lenha.
Os pesquisadores analisaram a morfologia e o DNA de 282 espigas fragmentadas, duas inteiras e 12 grãos de milho antigos encontrados nos anos 1990 por uma equipe do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) coordenada pelo arqueólogo francês André Prous no vale do Peruaçu, no norte do estado. A curadoria do material hoje está a cargo do engenheiro-agrônomo e geneticista Fábio de Oliveira Freitas, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, um dos autores do artigo.
“É uma quantidade grande de material encontrado naqueles sítios arqueológicos, ainda mais considerando o alto potencial de degradação devido às condições tropicais do país. A preservação ocorreu porque os milhos estavam em cavernas e foram enterrados dentro de cestos”, diz a geneticista Flaviane Costa, pesquisadora em estágio de pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e primeira autora do artigo.
Ela fez as análises no âmbito de projetos coordenados pelas geneticistas Elizabeth Ann Veasey, sua orientadora no doutorado, e Maria Imaculada Zucchi, supervisora atual.
O teosinto, como essas amostras da Universidade Harvard, corresponde à forma ancestral do milho. Foto: Flaviane Costa/USP
Todos os exemplares tinham o que os biólogos chamam de endosperma farináceo: uma grande parte do corpo do grão, onde os nutrientes ficam armazenados, era opaca. Outras versões, mais transparentes, são classificadas como vítreas. As amostras arqueológicas foram comparadas às variantes de milho com endosperma farináceo, cultivadas atualmente por povos indígenas e agricultores tradicionais brasileiros, e com o teosinto, uma planta silvestre aparentada ao milho e considerada semelhante à sua forma ancestral. Os exemplares de teosinto estão armazenados no Museu de Arqueologia e Etnologia de Peabody, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. As informações de milho moderno foram obtidas em coleções da USP e da Universidade da República, no Uruguai.
As amostras arqueológicas são espigas cônicas com quatro a 40 grãos em cada uma de quatro a 18 fileiras. Essa configuração tem semelhanças com o teosinto moderno, cujas espigas cilíndricas têm entre duas e oito fileiras, com número de grãos que varia entre seis e 27 em cada uma. Eles definiram, com base nesses números, que um bom parâmetro para classificar as variantes primitivas de milho, ou seja, as anteriores ou mais basais do processo de domesticação, seria um número de fileiras inferior a oito, porque nenhuma raça moderna do cereal nas chamadas terras baixas da América do Sul se enquadra nesse critério – normalmente, essas raças sul-americanas exibem cerca de 12 fileiras, mas podem chegar a até 26. Entre as amostras de teosinto, 95% tinham menos de oito fileiras.
Milho arqueológico encontrado em Minas Gerais preserva características antigas. Foto: Fábio de Oliveira Freitas/Embrapa
Os geneticistas encontraram, em meio às 282 amostras do vale do Peruaçu, 14 exemplares arqueológicos com quatro ou seis fileiras, apesar de a domesticação do cereal ter se iniciado há 9 mil anos no México e há 5 mil anos na Amazônia ocidental. “Isso é algo completamente novo”, diz o arqueólogo Tiago Hermenegildo, pesquisador em estágio de pós-doutorado no Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, também vinculado ao Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Ele faz pesquisa arqueológica com milho na Amazônia, mas não participou do estudo. O traço é peculiar porque, em tese, o longo processo de domesticação, marcado pelo aumento das fileiras de grãos, deveria ter eliminado essas características.
A novidade, ao lado de dados comparativos levantados pelos autores, indica que o milho ainda não estava completamente domesticado quando chegou ao Brasil. “O artigo é disruptivo porque, até 2018, se pensava que toda a domesticação do milho havia ocorrido no México”, afirma Costa. “Havia um imenso vazio de dados para as terras baixas da América do Sul, que são as regiões do continente abaixo de 1.500 metros de altitude”.
Um estudo de 2018 tinha mapeado o genoma completo de diversas variedades de milho na América do Sul e verificado uma variação nos genes associados à domesticação do milho. Quando o processo está completo, espera-se que formas genéticas (alelos) que aumentam o número de grãos, por exemplo, se tornem as únicas existentes – ou fixadas, no jargão geneticista. “Agora mostramos exemplares arqueológicos de milho encontrados no Brasil com características primitivas, o que corrobora esses trabalhos anteriores”, afirma a pesquisadora da Esalq.
Ainda não há consenso. “O que os estudos genéticos afirmam é que no início da domesticação, no México, o milho tinha uma troca de genes muito mais intensa com as variantes silvestres”, diz Hermenegildo. “Quando chega ao Brasil, essa troca já não ocorre, apesar de ainda haver fluxo gênico com outras variedades, em um processo de domesticação secundária, e isso é reforçado pelo novo trabalho”.
Migração no continente
O grupo de Costa também buscou traçar a rota de migração do milho no continente. Para isso, identificou similaridades entre os grupos existentes e os exemplares comparados às amostras arqueológicas de milho das raças Entrelaçado, Caingang, Avati Moroti e Lenha, além de resultados sobre as mesmas raças publicados em outros artigos. Foi assim que descobriram que exemplares locais de Entrelaçado da Amazônia ocidental se aproximavam das amostras arqueológicas encontradas no Cerrado e na Caatinga.
Pinturas rupestres em cavernas do Peruaçu indicam que milho e buriti faziam parte da vida dos povos que habitavam a região. Foto: Fábio de Oliveira Freitas/Embrapa
O milho Avati Moroti está presente em várias partes do Brasil. Exemplares dessa raça encontrados no Cerrado mostraram proximidade com uma amostra da Mata Atlântica e outras descritas na literatura científica. Enquanto isso, outro subgrupo da mesma raça foi identificado mais ao Sul, na região do Pampa. Variedades locais dos milhos Caingang e Lenha também existem no Pampa e na Mata Atlântica.
Isso tudo ajudou os pesquisadores a propor um caminho de migração do cereal. Para eles, o milho foi trazido ao Brasil por migrações à Amazônia ocidental, de onde foi levado para as regiões de Caatinga e Cerrado, no Centro-Oeste e Nordeste. Ao mesmo tempo, outras ondas de migração também transportaram o grão para as regiões de Mata Atlântica, sobretudo no Sudeste, e ao Pampa, no Sul do Brasil.
“A comunidade científica conhece esses milhos nativos desde 1958, mas ninguém na arqueologia deu atenção até os anos recentes”, destaca Hermenegildo. “Essas evidências atuais sobre o vegetal chegaram a ser completamente ignoradas por décadas de pesquisas arqueológicas na Amazônia; o trabalho é fundamental nesse sentido”.
Ao pôr em evidência a resiliência das características primitivas do milho, o trabalho também tem impacto para as políticas de preservação e manejo atuais. Para Costa, a presença ao longo de milênios de variedades exclusivamente sul-americanas reforça a necessidade de políticas públicas e acordos internacionais para a conservação dessas raças nativas. A falta dessas políticas pode levar ao risco de extinção das variedades locais e raças nativas que ainda existem. “O trabalho valoriza o plantio realizado por populações tradicionais e indígenas”.
Para Hermenegildo, isso é importante porque muitos tipos de milho plantados pelos povos indígenas foram extintos junto com seus agricultores. “Foi uma verdadeira erosão cultural e genética, desde os tempos da colonização”.
Projeto
Genômica populacional e caracterização fenotípica para elucidar aspectos da origem, domesticação e dispersão do urucum (Bixa orellana) e milho (Zea mays) nas terras baixas da América do Sul (nº 15/26837-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora Responsável Elizabeth Ann Veasey (USP); Investimento R$ 192.720,56.
Pelo menos 518 pessoas viviam em residências improvisadas no Acre em 2022, segundo dados do Censo divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no início de setembro. De acordo com o levantamento, eram 275 homens e 243 mulheres nessa situação naquele ano, e a taxa de alfabetização nesse público era de 87,6%.
A maior parte desta população, segundo o Censo 2022, vive em estabelecimentos em funcionamento. Eram 232 pessoas neste tipo de moradia.
Logo depois, vêm as tendas ou barracas (de lona, plástico ou tecido), com 141 pessoas, estruturas não residenciais permanentes degradadas ou inacabadas, com 79 pessoas, outros domicílios improvisados, com 43 pessoas.
Também há 22 pessoas em estruturas improvisadas em logradouro público (exceto tenda ou barraca), sendo 15 homens e 7 mulheres, além de 1 pessoa que vive em veículo (carros, caminhões, trailers, barcos, etc).
O total de pessoas em moradias improvisadas no Acre representa 0,32% do montante registrado no país, que foi de 160 mil.
Déficit habitacional
Em julho, ao anunciar mais 110 unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, o secretário estadual de Habitação e Urbanismo, Egleuson Santiago, destacou que o Acre tem um déficit habitacional de 23,9 mil unidades.
À época, o Ministério das Cidades destinou a nova remessa que, segundo o governo do Acre, será construída em municípios de até 50 mil habitantes, o que abrange 20 cidades do interior do estado.
Ao todo, o estado já teve quase 2 mil unidades destinadas pelo programa do governo federal. Com a autorização, a Secretaria de Estado de Habitação e Urbanismo do Acre (Sehurb) pode definir os locais onde os projetos serão construídos, e apresentar as propostas ao governo federal.
Em novembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia divulgado que seriam destinadas 1,6 mil unidades ao estado distribuídas entre três municípios: 1,4 mil em Rio Branco, além de 100 em Xapuri e mais 100 em Cruzeiro do Sul. A atualização não especifica, porém, a distribuição desta nova remessa entre as cidades.
O epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, recebeu homenagem na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM) pela contribuição dada para a compreensão e enfrentamento do fenômeno do suicídio, em suas diversas nuances, por meio de pesquisas, palestras e artigos científicos, realizados ao longo de sua trajetória como pesquisador e chefe do Laboratorio de Modelagem em Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi), da Fiocruz Amazônia.
A entrega do diploma de reconhecimento, realizada em sessão especial em alusão ao ‘Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio’ (10/09), ocorreu no dia 11, por propositura do deputado estadual Jose Luiz, presidente da Frente Parlamentar de Cuidados e Prevenção à Depressão, Suicídio e Drogas do Poder Legislativo e Comissão de Prevenção à Depressão e Drogas da União dos Legisladores e Legislativos Estaduais (Unale).
“Fiquei feliz e motivado com o honroso reconhecimento, pois reflete parte do nosso empenho de aproximadamente 12 anos investigando o suicídio no Amazonas e em nível nacional. É realmente gratificante saber que, de alguma maneira, a Fiocruz Amazônia está contribuindo para a compreensão e enfrentamento de tão complexo problema de saúde pública”, destacou Orellana, em seu pronunciamento na ALE- AM.
Para o pesquisador, o ‘Setembro Amarelo’ é, sem dúvida, um período do ano que passou a fazer parte do cotidiano do brasileiro na luta contra o suicídio. “No entanto, sabemos que precisamos ir além, não apenas com ações estruturantes no campo da saúde mental e do bem-estar da população, mas também com reflexões sobre a necessidade de mais ações individuais oportunas, empáticas e acolhedoras com as pessoas que estão em sofrimento, seja ele discreto ou mais nítido”, comentou.
Foto: Divulgação/ALE-AM
Num recado direto às autoridades e ao público presente, Jesem Orellana salientou que o primeiro e mais importante ponto em relação ao suicídio é que se trata de uma causa de morte evitável, sobretudo em adolescentes e adultos jovens.
“No Brasil, em particular, o suicídio tem apresentado preocupante tendência de aumento nos últimos anos, tanto na população geral, como em indígenas. Para se ter uma ideia, somente entre 2020 e 2023 foram registrados cerca de 62 mil suicídios no Brasil, em maiores de nove anos, um número 50% maior do que o total de Palestinos mortos no desleal conflito com Israel”, informou.
E continuou: “Em 2022, o Brasil alcançou a sua maior taxa histórica de mortalidade por suicídio em maiores de nove anos (9,3 por 100 mil hab.), o que evidencia a necessidade de mais progressos em termos de políticas públicas ao seu enfrentamento e prevenção, sendo o risco de suicídio entre indígenas no Amazonas, por exemplo, um dos mais desafiadores das Américas”, observou, em consonância com as falas dos especialistas, parlamentares e a titular da Secretaria Estadual de Saúde, Nayara Maksoud, presente à solenidade.
“Esse evento serviu não apenas para reunir e evidenciar o esforço e o compromisso de diferentes atores no que tange à prevenção do suicídio no Amazonas, como também para quem sabe germinar uma agenda multisetorial e favorável à rede de atenção psicossocial no Estado, como destacado pelo Deputado João Luiz e pela Secretária de Saúde do Amazonas, Nayara Maksoud”, agradeceu Orellana.
Pesquisas
Jesem Orellana é pesquisador e epidemiologista da Fiocruz Amazônia, membro da Coordenação colegiada da Comissão de Epidemiologia da Abrasco e coordena o Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi).
Colabora em projetos relacionados à COVID-19, à saúde e nutrição de populações vulneráveis, suicídio e outros tipos de violências e projetos relacionados aos efeitos negativos da emergência climática sobre a saúde humana.
Além de suas contribuições acadêmicas, Orellana presta consultorias técnico-científicas à imprensa, sociedade civil organizada e órgãos de controle como o Ministério Público e Defensoria Pública, bem como legisladores de diferentes níveis.
A viola de cocho considerada patrimônio cultural, e a canoa de um pau só, são bem conhecidas por Lourenço Pereira. Pescador de terceira geração na região do Pantanal, fala do rio como se fosse um filho a quem destina todo o cuidado e agradece a ele pelas conquistas da vida. É a natureza que permite a vida de Lourenço e é com ela que ele aprende a trabalhar. Os últimos anos, no entanto, têm revelado uma série de complicações a essa relação.
“A pesca vem mudando muito, a cada dia que passa”, relata Lourenço, preocupado com o nível do rio cada vez mais baixo que leva o peixe até a fronteira do Mato Grosso com o Mato Grosso do Sul. É do município de Cáceres (MT) que o pescador sai para trabalhar, se deslocando agora em torno de 250 km para dar início ao ofício da pesca. Não foi só a distância que aumentou: “Aumentaram muito as horas de navegação. Onde eu fazia com 12h, hoje eu tô fazendo com 18h de barco”. A poluição do corpo de água também preocupa. Impulsionada pelos incêndios cada vez mais recorrentes no Pantanal, torna impróprio para consumo o recurso que mata a sede.
Com 54 anos de vida, Lourenço afirma que nem ele nem seu pai, que viveu até os 98 anos de idade, tinham visto algo como o incêndio de 2020 durante toda essa janela de tempo. “Depois de 2020, nunca mais o incêndio acabou no Pantanal”, lamenta. Além de afetar o modo de vida das comunidades tradicionais, as queimadas recorrentes têm diminuído muito o número de madeira necessário para a produção da viola de cocho e da canoa de um pau só. “Sou apaixonado pela canoa de um pau só, eu tenho isso no sangue, a cultura dos Guató. Meu pai era mestre em fazer canoa de um pau só e viola de cocho. O fogo matou muito as madeiras com as quais a gente faz as canoas. Futuramente a gente vê que vai ter alguma só de foto mesmo. Para dar uma canoa tem que ser uma madeira muito antiga e grossa”, relata.
Viola de cocho, patrimônio cultural do Brasil, cuja matéria-prima é ameaçada pela crise climática. Foto: Reprodução/Iphan
Associado a outros pescadores, Lourenço faz parte de um projeto empenhado em reflorestar áreas do Pantanal com plantas nativas. Em torno de 1500 pescadores se organizam na forma de um “muxirum” – palavra de origem tupi que remete a algo como mutirão ou fazer junto – sem qualquer auxílio financeiro. Cada pescador planta mais ou menos cem mudas, e os que não plantam coletam sementes e cuidam dos canteiros.
O reflorestamento da região é importante tanto do ponto de vista ambiental como de preservação dos patrimônios nacionais originários das comunidades pantaneiras. O que essa associação de pescadores faz é um serviço para o bem estar e preservação da vida da comunidade, do país e do mundo.
Nas últimas décadas, outros bens e localidades históricas tombados pelo Iphan foram impactados por fenômenos extremos, como a cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), que teve prédios bicentenários destruídos por um temporal em 2011. No Rio Grande do Sul, 41 museus, 52 centros culturais e 57 bibliotecas foram diretamente afetadas, segundo levantamento do governo do estado junto aos municípios gaúchos.
Na Amazônia, uma das consequências da seca agravada pela crise climática é o aparecimento de sítios arqueológicos antes submersos, o que acarreta na necessidade de salvaguarda dos locais. Segundo a arqueóloga Marjorie Lima, em encontro virtual realizado pelo Iphan no início do ano, a consequência vai além, já que “as pessoas estão mudando seus lugares de vivência, uma alteração elementar na vida das pessoas”, afetando também o patrimônio imaterial.
A superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiros, também exemplifica os impactos. “[Em 2023], as fumaças encobriram o centro histórico de Manaus (AM), que é um local histórico tombado pelo Iphan, inclusive apresentações artísticas no Teatro Amazonas tiveram seu agendamento impactado”. No Cerrado, a Chapada dos Veadeiros (GO), tombada pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural, teve milhares de hectares destruídos em setembro deste ano.
É a partir desse contexto que o Iphan, junto ao Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos-BR), vem promovendo o Ciclo de Diálogos sobre Patrimônio Cultural e Ações Climáticas. O Ciclo é realizado a partir da concepção de que os detentores do patrimônio cultural são aliados fundamentais no enfrentamento às consequências das mudanças climáticas.
As ações estão sendo pensadas para contemplar os principais biomas do Brasil, levando em conta as necessidades do patrimônio cultural de cada região e a forma como as mudanças climáticas se apresentam em cada uma delas. As primeiras reuniões presenciais acerca do programa ocorreram em Brasília e a previsão é que os encontros ocorram em cada bioma brasileiro.
Incêndio na Chapada dos Veadeiros. Foto: Reprodução/CBMGO
O Iphan também está recolhendo informações a partir de um formulário, a fim de abranger e estar a par da situação de patrimônios culturais que não poderá, pois quaisquer motivos, ser comunicada nos eventos presenciais. “O questionário veio para chegar onde nós não estamos chegando. Os fóruns exigem você se deslocar, você ficar dois, três dias em determinado local. Desde o profissional em gestão do patrimônio até o detentor do conhecimento tradicional que está lá na comunidade”, esclarece Luana Campos, Secretária do Icomos-BR.
Entre os objetivos do programa, estão a produção de dados e estudos com a perspectiva de fortalecer políticas públicas e ações de enfrentamento e a análise dos principais riscos que afetam e poderão afetar distintos tipos de bens do patrimônio cultural.
A perspectiva é que o programa colete dados suficientes até a COP30, que vai acontecer em Belém, no Pará, em novembro de 2025. “A gente pede ajuda para que a gente tenha e consiga lançar na COP a Carta do Patrimônio e Mudanças Climáticas. As recomendações, indicadores, todos esses elementos que compõem uma carta do patrimônio como resultado desse trabalho e como um panorama, indicativos do cenário atual e projeções futuras para o patrimônio cultural frente às mudanças climáticas.”
Para ações como a realizada pelos pescadores, junto a Lourenço, no Pantanal, a formulação de políticas públicas que incentivem e reconheçam essas movimentações é fundamental, uma vez que os impactos da crise climática já estão sendo sentidos. Luana entende a pressa de muitos detentores, mas reitera que políticas públicas levam tempo e programas como o Ciclo de Diálogos são importantes para dar início a essas elaborações.
“Esse evento é um primeiro passo de uma jornada para a construção de uma política pública. Até o momento nós não temos tido condições de pensar o patrimônio e as mudanças climáticas; esse evento é pra isso. Primeiro a gente ouve, escreve, sistematiza e vai moldando até ter resultado. Ao longo desse processo, podemos ter algumas soluções mais rápidas? Sim. Mas nosso objetivo é o longo prazo. Tentamos trabalhar com o curto, médio e longo prazo.”
O exemplo de resultado a curto prazo dado por Luana é do diálogo estabelecido com a Defesa Civil em um dos eventos presenciais em Brasília. “A Defesa Civil está neste momento revendo o plano nacional de diretrizes da defesa civil. A partir desse evento que nós promovemos em Brasília, nós incentivamos o grupo a introduzir a cultura, o patrimônio. Se não tivesse tido o evento, talvez isso não teria acontecido de forma mais lógica.”
“Patrimônio Cultural e Ações Climáticas”, evento paralelo do G20 realizado em maio pelo MinC. Foto: Filipe Araújo/MinC
Esta é uma das ações que o Ministério da Cultura tem realizado para integrar o setor cultural nas discussões sobre a crise climática. Na Cop28, em Dubai, o Brasil e o país sede coordenaram juntos o lançamento do Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura, uma coalizão de ministros da Cultura. O debate, contudo, não teve avanços significativos e ainda não há informação sobre uma nova reunião na Cop29, que será realizada no Azerbaijão em dezembro. Outras reuniões sobre o tema têm sido realizadas na programação paralela do G20, já que o Brasil sedia os encontros do grupo em 2024. A expectativa é que a questão do clima e da cultura seja mencionada no documento final do G20, que será apresentado em novembro, em Salvador.
Os maiores debates sobre a relação entre clima e cultura têm sido realizados por organizações da sociedade civil e ativistas da área. Um exemplo é a Rede Clima & Cultura em Foco, uma iniciativa do People’s Palace Projects do Brasil, em parceria com o Perifalab, que promove uma série de encontros sobre o tema. Para Marcele Oliveira, Diretora da PerifaLab, uma mudança na legislação que inclua a sustentabilidade no âmbito da política cultural pode fazer a diferença. “Através da cultura, a gente pode conscientizar massivamente as pessoas”.
⅙ dos bens culturais mundiais estão ameaçadas pela crise climática, diz Unesco
A crise climática impacta o patrimônio cultural em todos os continentes. Segundo Marlova Jovchelovitch, diretora da Unesco no Brasil, pelo menos ⅙ dos patrimônios culturais estão ameaçados pelas mudanças climáticas. O levantamento, divulgado pelo órgão durante o lançamento da missão emergencial da Unesco no Rio Grande do Sul, em julho deste ano, também revelou que ⅓ dos sítios arqueológicos estão em áreas de potencial risco.
Para a gestora, não há mais como separar a cultura das discussões sobre o clima. Nos últimos anos, as demandas por fundos emergenciais após desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul, têm aumentado com o passar do anos. No sul do Brasil, a missão foi formada por especialistas em gestão de crise, resgate e recuperação de acervos, que coletaram dados e informações para embasar um diagnóstico das necessidades pós-enchente e recomendações técnicas para os mais de 50 museus afetados na tragédia. Ações semelhantes foram realizadas após desastres no Haiti, no Nepal, na Namíbia e no Paquistão nos últimos anos.
O socorrista cultural guatemalense Samuel Franco Arce foi um dos profissionais que visitaram o Rio Grande do Sul em julho. Especializado em emergências, ele explica que a velocidade das mudanças climáticas exige novos protocolos de museus e instituições culturais, de modo geral. “É importante considerar o que as mudanças climáticas estão fazendo com o Patrimônio Cultural. Nós estamos começando a ver o impacto em sítios arqueológicos que estão sofrendo erosão, por exemplo. Alguns patrimônios são mais vulneráveis que outros, mas precisamos nos preocupar, porque nossos bens culturais serão afetados de forma mais rápida do que vimos nos passado”, explica o especialista que já atuou em um terremoto no Nepal, em 2015, e enchentes na Índia, em 2022.
Entre as mudanças práticas que serão necessárias para emergências futuras, Samuel explica que os museus vão precisar repensar a localização de seus acervos, pois, assim como no Brasil, em diferentes partes do mundo constrói-se acervos no subsolo das instituições culturais. Um prédio anexo, em lugar diferente do museu, pode ser uma saída possível para a preservação.
Outra solução é o deslocamento das soluções para andares superiores. “Um procedimento que recomendamos é que arquivos como fotografias e documentos estejam salvos na nuvem e também em mais de um prédio, pois às vezes as pessoas guardam três backups em um mesmo lugar e, se um incêndio acontece, tudo será perdido”, exemplifica.
Para atuar como socorrista cultural, Samuel explica que são necessários treinamentos de diversos tipos: com bombeiros, com as forças armadas, com os primeiros socorros. “Você precisa enxergar de forma global, não apenas com olhar de um restaurador de acervos e obras de arte”, explica. “Em caso de enchentes, nós fazemos uma espécie de triagem e diagnóstico, percebendo o que pode ser restaurado e o que foi perdido.”
Andrea Richards, arqueóloga caribenha, ressalta que a diversidade cultural precisa ser considerada em situações de tragédias climáticas. A especialista atua, em especial, na preservação de patrimônios culturais pós-enchentes e pós-ciclones nas regiões do Caribe, onde há ocorrência periódica de furacões, e no Sudeste do continente africano. “Quando trabalhamos na reconstrução do patrimônio cultural, é importante pensar na diversidade cultural”, explica. “Para mim, vindo do Caribe, a diversidade é essencial, porque somos uma mistura de diferentes raças, e vejo o mesmo no Brasil.”
“Quando o trabalho de restauro é feito, é importante se assegurar de que não é apenas um tipo de patrimônio que está sendo recuperado. Precisamos considerar as diversas vozes que se expressam através do patrimônio”, explica Andrea sobre sua experiência atuando em diferentes países, como Malawi, Dominica e Antigua. A visita ao Rio Grande do Sul foi sua primeira experiência de missão emergencial no Brasil. No Brasil, além dos museus do RS, apenas o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi contemplado com esse programa da Unesco nas últimas décadas.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Nonada Jornalismo, por Pedro Tubiana e Anna Ortega
No fim dos anos 1970, para acompanhar a futura mulher, Vera Maria Fonseca de Almeida, o biólogo paulista Adalberto Luis Val mudou-se de São Carlos, no interior paulista, para Manaus, capital do Amazonas. Logo ficou fascinado pela diversidade e pelos mecanismos de adaptação biológica dos peixes da Amazônia. Por ali vivem cerca de 3 mil espécies, desde os minúsculos Priocharax manus, de 15 milímetros, até o pirarucu (Arapaima gigas), com 3 metros de comprimento.
Aos poucos, com o grupo que criou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Val identificou os insuspeitos mecanismos fisiológicos e bioquímicos de várias espécies, especialmente do tambaqui (Colossoma macropomum), que capta o ar com os lábios na superfície da coluna-d’água, e do pirarucu, que tem uma bexiga natatória modificada, com a qual absorve oxigênio do ar quando emerge à superfície.
Nos últimos anos, diante das mudanças na região, como a expansão populacional, a poluição e o desmatamento, agravadas pelo aquecimento global, ele começou a ver se os peixes poderiam sobreviver a outra reviravolta ambiental, como as que passaram ao longo de milhões de anos. Descobriu que algumas espécies são mais resistentes que outras, mas de modo geral os organismos aquáticos são bastante sensíveis a variações de temperatura. Essa descoberta explica a mortandade de peixes e botos na seca que atingiu a Amazônia em 2023, quando a água chegou a 40,9 graus Celsius (ºC).
Val e Vera têm dois filhos, Fernando e Pedro, também pesquisadores. Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (INCT-Adapta), membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e ganhador do Prêmio Fundação Bunge na categoria Vida e Obra em 2023, ele conversou em junho com Pesquisa FAPESP.
Por que resolveu estudar os peixes da Amazônia?
Adalberto Val: Para responder, tenho de voltar à minha infância. Nasci e fui criado em uma fazenda em Campinas, no interior de São Paulo. Um dos passatempos do fim de semana era pescar em uma lagoa. Havia poucas espécies de peixes nela, basicamente tilápia e lambari. De tanto ir lá, fiquei curioso para saber como os peixes viviam embaixo d’água. Um dia, peguei uns peixes com uma peneira, coloquei numa garrafa de boca larga, tampei e levei para casa. No início, eles nadaram, mas no dia seguinte estavam todos mortos. Eu devia ter 12 anos. Fiquei muito chateado e decidi: quero aprender mais sobre peixes. Precisava entender como é que eles conseguiam viver debaixo da água.
E o que fez?
Adalberto Val: Enchi a paciência do meu pai, que acabou me dando algumas revistas sobre peixes. Quando fui para o ciclo intermediário [atual ensino médio], resolvi fazer um curso técnico de bioquímica. Ao final dele, mudei para São Carlos, fiz um concurso para técnico e fui contratado pela Universidade Federal de São Carlos [UFSCar] para trabalhar com um pesquisador que estudava sangue de peixe. Era um bom começo, mas ainda precisava fazer um curso superior. Escolhi biologia. Nesse período, namorava Vera, também de Campinas, que estava terminando o mestrado e tinha sido convidada para trabalhar no Inpa, em Manaus.
Eu estava no fim da graduação. Vera foi visitar o Inpa e fui junto. Lembro que fiquei fascinado ao ver uma enorme coleção de peixes. Em um mercado de Manaus, encontrei muitas espécies, bem maiores do que as que via em São Paulo. Daí, tomei uma decisão: é aqui que eu quero viver. Viemos os dois para Manaus. Fiz o mestrado no Inpa e depois fui contratado pelo instituto. Isso foi no início dos anos 1980.
O que mais chamou a sua atenção quando chegou a Manaus?
Adalberto Val: De pronto, percebi que a Amazônia é um ambiente extremamente dinâmico. Os rios e lagos sofrem intensas variações do nível da água, da temperatura e de oxigênio dissolvido. Há ainda os rios de águas ácidas como o Negro. A primeira pergunta que me fiz foi como os peixes enfrentam essas oscilações. Também me intrigou a diversidade de peixes na Amazônia, perto de 3 mil espécies, enquanto na fazenda de Campinas tinha apenas duas ou três.
No mestrado, estudei as duas espécies de jaraqui [Semaprochilodus insignis e S. taeniurus], peixes de características peculiares. Na época da reprodução, eles migram mais ou menos 1,6 mil quilômetros, do alto rio Negro até o encontro das águas com o Solimões. Quando nascem, os peixinhos são arrastados rio abaixo e se dispersam pelas várzeas. Ainda pequenos, começam a nadar de volta, entram no rio Negro e migram em direção à cabeceira. Isso me intrigou demais.
Como é que o peixe poderia saber que estava migrando para a água branca do Solimões e, depois, para a água preta do Negro?
Adalberto Val: Minha tristeza foi terminar a dissertação de mestrado e não conseguir as respostas para minhas perguntas principais – aquelas que eu formulara aos 12 anos e as que desenhara ao chegar na Amazônia. Agreguei outras e, assim, dediquei a vida a estudar os peixes da Amazônia. Faz 45 anos que estou aqui. Ao longo do tempo, os peixes da região desenvolveram respostas morfológicas para se adequar às mudanças do ambiente
Que espécie estudou no doutorado?
Adalberto Val: O tambaqui [Colossoma macropomum], que ainda hoje é o nosso modelo de estudo. Estudei as hemoglobinas do tambaqui. Meu orientador foi o professor Arno Rudi Schwantes [1939-2014], da UFSCar, o mesmo do mestrado, que era credenciado como professor colaborador no Inpa. Nesse período, comecei a interagir com dois pesquisadores estrangeiros que tiveram um papel importante na minha carreira. O primeiro foi Grant Bartlett, do Laboratório de Bioquímica Comparada, da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos.
Ele estudava pequenas moléculas do interior das células vermelhas, os fosfatos orgânicos, que regulam a função das hemoglobinas. Por meio dele, conheci David Randall [1938-2024], da Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, no Canadá, especialista em fisiologia dos peixes. Em 1976, Randall havia coordenado uma das principais expedições científicas de pesquisadores estrangeiros à Amazônia, que ficou conhecida como Alpha Helix. Um de seus focos – e foi o que mais me atraiu – era a fisiologia dos peixes.
Naquela época, era obrigatória a participação de um representante brasileiro nas expedições científicas. O escolhido foi Schwantes. Com isso, criou-se uma condição para que eu me aproximasse de Randall e buscasse uma oportunidade para fazer o pós-doutorado com ele – meu objetivo era me especializar em fisiologia. Essa aproximação foi fantástica e resultou na publicação do livro Fishes of the Amazon and their environment [Springer Verlag, 1995], que por muito tempo foi bastante citado.
Tambaqui (Colossoma macropomum). Foto: Governo de Rondônia
Quais foram seus principais achados sobre os peixes amazônicos?
Adalberto Val: De uma forma geral, eles não suportam variações extremas de temperatura. É o inverso do que se pensava. A água dos rios da região está sempre acima de 28 ou 30 oC. Imaginávamos que, se ela esquentasse mais, os peixes iriam se virar. Mas não. Eles são mais sensíveis do que os da zona temperada. Isso tem implicações diversas para a fisiologia deles e para a criação em cativeiro.
Há pouco tempo publicamos um artigo na Nature sobre os efeitos da seca que atingiu a Amazônia em 2023, quando a água chegou a 40,9 oC. Foi essa temperatura que provavelmente causou a imensa mortalidade de peixes e botos. Quando a temperatura chega a esse nível, cai a quantidade de oxigênio na água e as taxas metabólicas dos animais sobem de forma brutal.
Os peixes não conseguem regular a temperatura do corpo e, assim, a temperatura ambiental tem efeito direto sobre todos os processos bioquímicos e fisiológicos. O resultado é que eles não têm como atender à demanda metabólica. No caso dos golfinhos, por ser mamífero, é diferente. Conseguem regular a temperatura do corpo como nós, o que impõe um gasto energético adicional com alta demanda cardiológica. A pressão sanguínea sobe e, em alguns casos, o animal pode sofrer acidentes vasculares.
Que outros efeitos as variações ambientais têm sobre os peixes?
Adalberto Val: Eles desenvolveram um conjunto de respostas morfológicas às mudanças do ambiente. O tambaqui é um caso interessante. Ele expande os lábios inferiores para canalizar a camada superficial da coluna-d’água, mais oxigenada, para as brânquias. Dentro do organismo dos peixes acontecem outras modificações. Por exemplo, eles são capazes de controlar a ligação da hemoglobina com o oxigênio.
No caso do tambaqui, do jaraqui e de outras espécies, ocorre dentro das células a regulação da quantidade dos fosfatos orgânicos, segundo as variações de oxigênio na água. Assim, eles mantêm estável a transferência de oxigênio do ambiente aquático para os tecidos. Essa descoberta foi fenomenal, pois respondeu àquela pergunta que fiz aos 12 anos: como é que os peixes conseguem viver debaixo d’água? Durante o dia, a luz permite a fotossíntese que produz oxigênio.
À noite, contudo, nas águas paradas de lagos, lagoas e regiões de várzea, há menos oxigênio. Mas os peixes têm mecanismos que regulam a ligação da hemoglobina com o oxigênio e aumentam a capacidade do sangue de extrair o oxigênio da água. Mesmo as espécies que recorrem a outras estratégias precisam desse mecanismo. Esse achado foi fundamental, pois mostrou que uma única resposta nem sempre é suficiente para minimizar o efeito da variação de oxigênio do ambiente sobre o organismo.
Há outros exemplos?
Adalberto Val: Sim. O tamoatá [Hoplosternum littorale], o cascudo [Liposarcus multiradiatus] e alguns bagres têm partes do estômago e do intestino vascularizadas e direcionadas à troca gasosa. Eles vão até a superfície e engolem água misturada com ar. A troca gasosa se dá na transição do estômago para o intestino, sem prejuízo da regulação da afinidade da hemoglobina com o oxigênio. Descobrimos que alguns peixes, em vez de ter os fosfatos orgânicos convencionais – ATP [adenosina trifosfato] e GTP [trifosfato de guanidina] –, possuem outros. O tamoatá tem o 2,3-DPG [bifosfoglicerato], um composto que nós, humanos, também temos.
A produção do 2,3-DPG não responde à disponibilidade de oxigênio e, sim, à variação de temperatura. À medida que a temperatura se eleva e a quantidade de oxigênio na água diminui, o peixe aumenta a produção de 2,3-DPG. Tais adaptações envolvem genes que controlam proteínas essenciais atuantes nesse processo.
E o pirarucu, o que descobriu sobre ele?
Adalberto Val: É um peixe para lá de excepcional. De respiração aérea obrigatória, ele nasce com a capacidade de sintetizar ATP e GTP. Mas, durante o primeiro ano de vida, substitui esses dois fosfatos por um terceiro chamado inositol pentafosfato, que, pasme, existe também nas células vermelhas das aves. O pirarucu é o único peixe com esse fosfato. Faz a respiração aérea por meio de uma bexiga natatória modificada, e não do pulmão. A piramboia [Lepidosiren paradoxa] é o único peixe pulmonado na Amazônia.
A capacidade adaptativa dos peixes da Amazônia permitirá que superem os desafios que virão com as mudanças climáticas?
Adalberto Val: Essa é a pergunta central do nosso projeto INCT-Adapta. Durante milhões de anos, desde o levantamento dos Andes, temos uma história de tectonismos e mudanças climáticas na Amazônia. Boa parte do que vemos hoje por aqui surgiu durante o processo de formação da bacia amazônica. Esses movimentos propiciaram as condições para a diversificação de espécies na região. Ao mesmo tempo, permitiram que os organismos desenvolvessem adaptações ao longo do processo evolutivo.
Os mais adaptados aos desafios ambientais sobreviveram melhor. Agora queremos saber se os peixes amazônicos conservaram em seu genoma as informações que lhes permitiram enfrentar as mudanças climáticas do passado e se podem voltar a expressar essas características. Não temos uma resposta definitiva. Sabemos que algumas espécies conseguem fazer ajustes e sobreviver até certo limite.
Outras não. Às vezes, espécies diferentes do mesmo gênero respondem de forma distinta. Isso indica que alguns grupos perderam as informações que possibilitariam que sobrevivessem, em parte, aos desafios ambientais. Eu digo em parte pelo seguinte: os processos de aquisição dessas adaptações ocorreram durante milhões de anos. E as variações climáticas atuais acontecem numa velocidade muito rápida, sem dar tempo para os organismos se adaptarem.
Poderia dar um exemplo?
Adalberto Val: O tambaqui. Se isolarmos a temperatura, conseguimos que ele consiga sobreviver até cerca de 40 oC. Mas quando colocamos o dióxido de carbono nessa equação, que é uma das causas do efeito estufa, 40% dos alevinos começam a apresentar deformações esqueléticas e derrame do pericárdico. Eles vão ser predados e desaparecer. Os que sobrarem, sem essas deformações, talvez consigam produzir uma prole. Uma parte vai apresentar essas deformidades e outra vai sobreviver, criando um processo evolutivo novo. Não sabemos no que vai dar.
Que outros impactos na fauna aquática decorrentes das alterações ambientais antrópicas já são conhecidos?
Adalberto Val: Estudamos os efeitos sinérgicos das alterações climáticas com outros fatores, como poluição por metais, plásticos, petróleo e medicamentos. Quando a temperatura da água sobe e diminui o oxigênio, os peixes batem mais rápido o opérculo [estruturas de proteção das brânquias], fazendo passar mais água sobre as brânquias, de modo a manter a oxigenação do sangue. Só que quando passa mais água contaminada pelas brânquias, ele capta mais contaminantes. E aí tem um agravante.
Alguns peixes aprenderam durante a evolução que, quando não tem oxigênio na água, eles podem subir para a superfície quando vão respirar ou engolir água misturada com o ar. Se o rio está contaminado com petróleo, ele vai pegar mais petróleo e internalizar no seu corpo. Quando o homem interfere no ambiente, algumas adaptações surgidas durante o processo evolutivo podem jogar contra os animais.
O desmatamento também ameaça os peixes?
Adalberto Val: Sim. A cobertura florestal protege os animais, pois ajuda a reduzir a temperatura do ambiente aquático. Quanto mais desmatamento, maior o aumento da temperatura do sistema. Como os peixes são vulneráveis à elevação da temperatura, eles ficam ameaçados. O pior é que o homem também corre risco, já que 90% da proteína consumida pela população da Amazônia tem origem nos peixes. Reduzir a produção de peixes ocasionará um problema sério de segurança alimentar.
A poluição dos rios por esgoto também preocupa. As grandes cidades da região têm um sistema rudimentar de tratamento de esgoto. O rio é o lugar onde se despeja tudo. Quando você tem uma cidade de 10 mil habitantes, um rio do tamanho do Amazonas dá conta dessa situação. Mas quando a cidade tem 2,1 milhões de pessoas, como Manaus, é diferente.
Qual é o objetivo do INCT-Adapta?
Adalberto Val: O Adapta tem cerca de 30 grupos de pesquisa e 100 pesquisadores, vários deles no exterior, inclusive em países amazônicos. O nosso Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular, o LEEM, no Inpa, é a sede do INCT. Temos salas climáticas para reproduzir as condições ambientais projetadas para 2100. O objetivo é estudar como peixes, insetos e plantas enfrentarão essas novas condições. Uma sala reproduz em tempo real a temperatura, os níveis de gás carbônico, a luminosidade e a umidade da floresta a partir de dados transmitidos por uma torre instalada na mata.
As outras três salas reproduzem cenários futuros – brando, intermediário e extremo –, de acordo com o modelo do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] para 2100. Descobrimos que os fungos crescem muito mais em cenários extremos. Se são fungos comestíveis, fantástico, teremos mais comida. Mas se são fungos infecciosos, haverá mais problemas.
No caso do mosquito da malária, os achados são preocupantes. Quanto mais extremas são as condições ambientais, maior é o número de gerações de mosquitos em um dado intervalo de tempo. Como resultado, o número de mosquitos aptos a transmitir a malária, por exemplo, é maior por unidade de tempo.
O pirarucu é um peixe excepcional. Ele faz a respiração aérea, acima da superfície da água, por meio de uma bexiga natatória modificada. Um de seus projetos recentes comparou os efeitos das mudanças no clima sobre os peixes da Amazônia e da Mata Atlântica.
Quais as principais conclusões?
Adalberto Val: Analisamos peixes de água doce da região de Santos e São Vicente, no litoral paulista, e da reserva biológica Ducke, na Amazônia. Na reserva, por conta da mata preservada, há estabilidade térmica, com temperatura em torno de 25 oC. Na Mata Atlântica, varia naturalmente ao longo do ano. Vimos que os peixes da Mata Atlântica conseguem suportar um intervalo de temperatura maior que os da Amazônia. O segundo ponto está relacionado ao carbono orgânico dissolvido, que confere coloração preta às águas do rio Negro e aos corpos-d’água da Mata Atlântica.
As propriedades desse carbono variam conforme a época do ano e a região. Ele também é um protetor das taxas respiratórias dos organismos aquáticos, no que se refere a metais, principalmente os de ambientes ácidos, como são os peixes do rio Negro. Queríamos saber se o carbono orgânico dissolvido da Mata Atlântica, que é diferente do encontrado na Amazônia, também teria essas propriedades. Seu efeito é diferente lá e cá. Estamos monitorando e descrevendo essas diferenças.
A questão do carbono orgânico dissolvido é de interesse mundial. O aumento do gás carbônico no ambiente em escala global está provocando um escurecimento dos corpos-d’água em vários lugares do planeta, o que é preocupante. Com esse estudo comparando a Mata Atlântica e a Amazônia, tentamos entender melhor esse problema.
Como vê a possibilidade de exploração de petróleo na foz do Amazonas?
Adalberto Val: É algo muito preocupante. No caso de um vazamento, parte do óleo, que tem uma densidade menor que a da água, sobe para a superfície. Um estudo recente de nosso grupo mostrou que para as espécies de respiração aérea, facultativa ou obrigatória, o óleo é internalizado no corpo delas. Além disso, quando o petróleo sofre o efeito da radiação solar, ocorre a formação de compostos altamente tóxicos para os peixes, que causam altas taxas de mortalidade.
Na ocorrência de um acidente, dependendo das condições climáticas, dos ventos e de outras variáveis, o óleo localizado na superfície da coluna de água pode entrar para o interior da bacia amazônica e afetar profundamente os animais. As correntes marinhas podem levar o petróleo vazado para o norte, atingindo a costa de países vizinhos, causando problemas diplomáticos. E não podemos esquecer que na foz do Amazonas existem corais sensíveis às mudanças ambientais.
É verdade que já foi achado microplástico em peixes da Amazônia?
Adalberto Val: Sim. Infelizmente, a poluição por plásticos é intensa na Amazônia, por conta dos descartes inadequados de lixo sólido. Já se encontrou plástico na musculatura, nos ossos, no fígado e até no otólito, ossinho do interior do ouvido dos peixes. O otólito costuma formar anéis através dos quais se mede a idade do peixe. Quando os pesquisadores fizeram a raspagem para analisar esses anéis, viram plástico em alguns pontos. Se há plástico nos peixes, as pessoas que consomem esses peixes estão consumindo plástico.
O problema é agravado pela alta capacidade do plástico em absorver poluentes e medicamentos. Ele é um transportador dessas substâncias para dentro dos organismos. O desmatamento eleva a temperatura da água de rios e lagos. Como os peixes são vulneráveis a essa variação, ficam ameaçados.
Como seus estudos têm contribuído para a segurança alimentar da Amazônia?
Adalberto Val: Procuramos otimizar os processos de produção, para que os peixes cresçam mais num tempo menor. Temos também a perspectiva de produzir carne de peixe em laboratório. Outra meta é reduzir o impacto da temperatura e de metais, principalmente o cobre, nos processos de criação. Muito usado na agricultura, o cobre é lixiviado para tanques de criação. Estudamos novas composições de ração, criações consorciadas e administração de certos produtos em substituição a antibióticos. Esse é um problema sério nas estações de criação.
A água com antibiótico das estações cai nos ambientes naturais e causa um desastre, principalmente nos animais de pequeno porte, vitais para a cadeia trófica. Com base em informações fisiológicas, bioquímicas e genéticas dos peixes, podemos manipular as condições de criação.
Que transformações a Amazônia sofreu nesses 45 anos desde sua chegada à região?
Adalberto Val: Primeiro, diria que houve uma revolução populacional. Quando cheguei, Manaus tinha perto de 500 mil habitantes; hoje são mais de 2 milhões. Uma cidade com esse porte demanda uma infraestrutura e uma série de produtos e processos que pressionam o ambiente. Houve também uma ampliação da mineração, inclusive em terras indígenas, que levou à contaminação do ambiente aquático por mercúrio, entre outros metais. Aumentou a contaminação dos rios por medicamentos, outra decorrência do aumento populacional.
Mas houve também mudanças positivas. Quais?
Adalberto Val: Na área da ciência, por exemplo. Quando cheguei aqui, contava-se nos dedos o número de doutores em Manaus. Não havia uma fundação de amparo à pesquisa em nenhum estado amazônico; hoje todos têm. O único curso de pós-graduação no Inpa era o de botânica, herdado do Museu Emílio Goeldi, no Pará. Rapidamente outros três – ecologia, entomologia e biologia de água doce e pesca interior – foram instalados.
No Pará, havia na UFPA a pós-graduação em geociências, um curso fantástico que gerou informações relevantes para processos de produção mineral na região. Depois de um tempo, o mundo inteiro passou a ter um interesse muito grande pela Amazônia. Com isso, houve um aumento da demanda por cooperação científica na região, infelizmente não inteiramente atendida de forma simétrica.
A conscientização sobre a necessidade de conservação ambiental na região se avolumou de forma significativa, mas tem sido difícil traduzi-la em ações. Contudo, há projetos que merecem destaque, como o Semear Leitores, da Fundação Bunge, que socializa práticas regenerativas na agricultura familiar.
O que mais deveria ser feito?
Adalberto Val: O governo brasileiro precisa entender que é preciso fazer um investimento estratégico em ciência e tecnologia na região, ou seja, fortalecer a pesquisa e a capacitação pessoal em universidades e institutos de pesquisa e abrir espaços para a cooperação internacional. O investimento em ciência e tecnologia na Amazônia não passa dos 3% ou 4% do total destinado ao setor no país. Isso se traduz na frágil produção de informações para o desenvolvimento e a conservação da Amazônia. É preciso que tenhamos investimentos estratégicos na região e não a manutenção de taxas históricas de dispêndios.
O que você gosta de fazer nas horas livres?
Adalberto Val: O problema é ter essas horas livres. Mas tem duas coisas que eu aprecio muito. Primeiro, caminhar. Eu caminho bastante, ainda no clarear do dia. A segunda é a leitura. No momento, estou relendo Arrabalde – Em busca da Amazônia, de João Moreira Salles. É um livro que discute o problema do desmatamento e os desafios da conservação ambiental da região.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Yuri Vasconcelos
Aplicativo mede emissão do gás carbônico. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC
O Acre é o primeiro estado do país a lançar o aplicativo AC Net Zero, que mede a emissão de carbono de um turista que chega para visitar o estado.
O aplicativo foi criado pela Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais (CDSA) S/A, ligada à Secretaria de Estado da Fazenda, e pode ser baixado nos sistemas iOS e Android, permitindo que a pessoa possa compensar a emissão por meio de compras de crédito de carbono.
“O aplicativo traz um conceito inovador. Ele vai permitir aos usuários fazer um cálculo das suas emissões de gás carbônico. Imaginemos uma jornada na qual uma pessoa vem ao estado para visitar ou para realizar alguma missão. E, desde que tomou o avião até chegar em Rio Branco, ele vai poder fazer esse cálculo. Tanto da parte aérea, quanto do transporte interno e da sua estadia também, durante o tempo que ficar no estado. Mas não apenas fica nas pessoas físicas, também há uma opção para pessoas jurídicas”, explicou Victor Hugo Rondon, gestor da CDSA, responsável por desenvolver a plataforma.
Dessa forma, em eventos como fóruns e congressos, os organizadores que estejam visitando o Acre podem querer calcular o quanto emitiram de gás carbônico e compensar. “Essa compensação pode ser feita com o próprio estoque que o estado tem. E o principal: de todos esses recursos que entrarão por conta dessa venda, a maior parte é destinada para as comunidades tradicionais, para os povos indígenas, para ações que de fato fazem a mudança no clima”, ressaltou.
A expectativa é ter três divisões: a primeira é começar pelo Estado, a segunda é tratar de enxergar o âmbito nacional e a terceira é no âmbito internacional e em eventos que o Estado do Acre participa.
“Sempre com o espírito de pioneirismo, o Acre está na vanguarda e as pessoas têm muita atenção quando o Acre lança alguma nova ação; então esta é mais uma dentro de seu espírito vanguardista nas políticas de sustentabilidade. É a primeira unidade da Federação que tem um aplicativo jurisdicional, próprio do Estado, que permite fazer uma medição correta das emissões de gás carbônico”, explicou Rondon.
Outro grande benefício da ferramenta é orientar formas e estilos de como se pode diminuir suas emissões. “Às vezes a gente só tem muita informação referente ao clima, mas não tem boas práticas, e é isso que também o aplicativo irá construir durante sua jornada”, salientou.
Para a secretária de Estado dos Povos Indígenas, Francisca Arara, esse é um passo para garantir um retorno financeiro às comunidades tradicionais, que vão poder se reestruturar.
“A gente recebe com muita alegria. Estima-se que 90% dos créditos de carbono do Estado do Acre estão no nosso território. Então, é muito importante, porque a gente pode ver essa nova tecnologia. Futuramente, quem sabe, possa beneficiar nossos povos, que estão enfrentando tantos problemas, inclusive essa seca severa, os eventos extremos, a falta de água, o impacto na segurança alimentar. Então é o Acre mais uma vez saindo na frente com essa nova tecnologia”, destacou.
O secretário de Estado da Fazenda, Amarísio Freitas, disse que tem uma meta para alcançar. “Queremos fazer 20 mil cadastros. Se conseguirmos, a gente vai fazer sorteio de um festival indígena ou plantar árvores, para poder dar a nossa resposta para a sociedade também”, destacou.
O governador Gladson Cameli enfatizou que se orgulha de ver o estado acreano sendo destaque nacional. “Eu sempre reforço que o Acre tem que estar no protagonismo e iniciativas como essa mostram o potencial que temos. Mais do que isso, fortalece nosso desenvolvimento sustentável, unindo progresso com consciência ambiental”, afirmou.