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Dez projetos da Amazônia Legal são classificados para oficina de turismo comunitário do ICMBio

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A lista de 14 pré-projetos classificados para a segunda fase do processo de chamada para apoio ao turismo comunitário em unidades de conservação federais foi divulgada pela Coordenação Geral de Uso Público e Negócios (CGEUP/DIMAN).

Das iniciativas classificadas, dez projetos localizam-se na região da Amazônia Legal e outros quatro nos demais biomas. Conduzida em parceria com a Coordenação Geral de Populações Tradicionais (DISAT/ICMBio), a chamada recebeu um total de 55 projetos, abrangendo 38 unidades descentralizadas do Instituto Chico Mendes (ICMBio).

Os critérios de seleção foram baseados no conteúdo de duas publicações: ‘Turismo de Base Comunitária em Unidades de Conservação Federais: Caderno de Experiências’ e ‘Rol de Oportunidades de Visitação em Unidades de Conservação’.

Os recursos para apoio aos projetos são provenientes da cooperação do Instituto Chico Mendes com o Serviço Florestal dos Estados Unidos e com a USAID.

Próximos passos

A próxima etapa envolverá uma oficina de capacitação das equipes para elaboração dos projetos finais, visando otimizar suas abordagens e garantir sua viabilidade e impacto positivo. A última fase do processo indicará as seis iniciativas que serão apoiadas, sendo quatro na região da Amazônia Legal e duas nos outros biomas.

Os projetos que não se classificarem no processo seletivo serão integrados a um banco de iniciativas, aguardando oportunidades futuras de financiamento. Este banco representará um recurso valioso para identificar e apoiar iniciativas adicionais à medida que novos recursos se tornarem disponíveis.

A chamada para apoio a iniciativas de turismo comunitário em unidades de conservação federais demonstra o compromisso do Instituto Chico Mendes com a promoção do desenvolvimento sustentável e a valorização das comunidades locais, ao mesmo tempo, em que busca fomentar práticas de turismo responsável e consciente nas unidades de conservação federais.

O edital de apoio aos projetos é um resultado da cooperação do Instituto Chico Mendes com o Serviço Florestal dos Estados Unidos e com a USAID.

Veja a lista de projetos selecionados para a próxima fase:

Floresta Nacional do Tapajós – Promoção e qualificação do turismo em comunidades tradicionais na Flona do Tapajós 

Reserva Extrativista do Lago do Cuniã - Do lago ao cais: sistematização do turismo comunitário na Reserva Extrativista Lago do Cuniã 

Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto - Turismo Comunitário da Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto: a sustentabilidade e o conhecimento tradicional das práticas extrativistas 

Parque Nacional da Serra do Divisor – Fortalecendo o turismo no parque que é a joia rara no Acre: formando pessoas, dialogando com as culturas e potencializando a sociobiodiversidade 

Parque Nacional de Pacaás Novos – Turismo comunitário no PARNA de Pacaás Novos e na terra indígena URU-EU-WAU-WAU como ferramenta para conservação da sociobiodiversidade, geração de renda e fortalecimento da organização dos povos indígenas 

Floresta Nacional do Purus – Trilha no Purus: sinergia entre comunidade e turismo 

Reserva Extrativista Maracanã – O caminho da praia: turismo comunitário na RESEX Maracanã 

Reserva Extrativista Marinha de Soure – Fortalecimento do turismo comunitário por meio da sinalização turística e da capacitação comunitária na RESEXMar Soure 

Reserva Extrativista do Lago do Capanã Grande – Construindo turismo para a valorização da sociobiodiversidade do Lago Capanã Grande 

Parque Nacional da Amazônia – Raízes do sustento: trilhando o futuro sustentável das comunidades junto ao Parque Nacional da Amazônia 

Reserva Extrativista de Cassurubá – Turismo comunitário para integrar e fortalecer a RESEX Cassurubá 

Parque Nacional da Chapada Diamantina – Projeto de reestruturação e fortalecimento dos roteiros de turismo comunitário em cantos da Chapada Diamantina 

Reserva Extrativista Marinha da Lagoa do Jequiá – Mulheres da Lagumar: protagonismo, tradição, pesca e cultura no desenvolvimento do turismo comunitário na RESEXMar da Lagoa de Jequiá 

Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal – Etnovivência Pataxó no Parque Nacional e histórico do Monte Pascoal: fortalecendo os caminhos ancestrais 

*Com informações do ICMBio

Professora peruana promove iniciativa que salva tartarugas em Ucayali

Graças à iniciativa de uma professora e seus alunos das Escolas Innova da cidade de Pucallpa (região de Ucayali), no Peru, as taricayas (tartarugas nativas da selva peruana) estarão mais protegidas pelo cuidado e acompanhamento realizado pelos jovens estudantes que se preocupam com a flora e a fauna da Amazônia peruana.

Nataly Concha Muñoz, professora nascida em Jauja (região de Junín), tornou-se uma figura chave na educação e na conservação ambiental. Como professora de ciências nas Escolas Innova, Nataly transmite conhecimentos acadêmicos e inspira seus alunos a proteger o meio ambiente através do programa ‘Taricalovers‘.

Foto: Reprodução/Agência Andina

“Eu sou de Jauja. Quando cheguei a Pucallpa, em 2022, fiquei muito curiosa sobre a Amazônia. Os alunos falaram sobre como existiam tartarugas gigantes e agora não existem mais. Os jovens comentaram sobre os problemas ambientais que sua cidade enfrenta. A partir daí propusemos uma alternativa para resolver esta crise e nasceu o ‘Taricalovers‘”, comenta a educadora.

O projeto, desenvolvido em colaboração com o Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Sernanp) e o Instituto Nacional de Inovação Agrária (INIA), é dedicado à proteção da taricaya, espécie em perigo de extinção na Amazônia.

Nataly e seus alunos lançaram com sucesso 411 taricayas nos primeiros dois anos (2022 e 2023). Além disso, envolveram mais de 140 alunos e famílias, colaborando com três comunidades nativas. Este esforço não só educa sobre a importância da biodiversidade, mas também promove um sentido de responsabilidade e cuidado com o ambiente natural entre os jovens.

“Os ovos de taricaya nos são entregues pela Sernanp, nós os nidificamos e as crianças recebem instruções dos especialistas. Depois tomamos especial cuidado para que vespas e outras ameaças não entrem nos ninhos”, disse a professora.

“Da mesma forma, medimos a temperatura e a umidade para que as condições sejam semelhantes às das praias naturais e também realizamos monitoramentos todos os dias, três vezes ao dia, para fazer medições e observações caso surja uma ameaça às taricayas”, acrescentou.

Essa paixão pelo ensino se reflete no entusiasmo dos alunos, que, inspirados pelo ambiente amazônico que os rodeia, participam ativamente do projeto.

“Os alunos têm muito amor pela natureza. O fato de terem nascido na Amazônia faz com que eles amem muito o meio ambiente. Eles estão entusiasmados em participar deste projeto e contribuir com suas próprias ideias. Eles querem ser protagonistas de seu próprio aprendizado”, diz a professora.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Além disso, segundo Nataly, novos projetos estão sendo desenvolvidos como biojardins com plantas medicinais e novas tecnologias de fertilizantes. “Tudo com o propósito de sustentabilidade e conservação ambiental”, afirmou.

Bióloga e educadora, Nataly Concha vê seu trabalho como uma vocação para servir a sociedade, transmitindo aos seus alunos o conhecimento acadêmico e os profundos valores da conservação ambiental e da responsabilidade social.

*Com informações da Agência Andina

Governo de Rondônia decreta emergência devido ao período crítico de estiagem

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Bancos de areias sugem devido a seca do rio Madeira. Foto: Thiago Frota/Rede Amazônica RO

O governo de Rondônia publicou um decreto em que declara emergência em razão do período ‘crítico’ de estiagem enfrentado no estado. O decreto foi publicado no dia 4 de julho no Diário Oficial do Estado de Rondônia (Diof).

Em 2023, o rio Madeira chegou ao menor nível já registrado na história. Bancos de areia e montanhas de pedras surgiram onde antes era possível enxergar somente água. Desde então, especialistas já previam uma seca ainda mais extrema no estado em 2024.

Leia também: Entenda o que levou o rio Madeira a alcançar o menor nível já registrado

De acordo com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), no dia 25 de Junho a cidade de Porto Velho completou um mês sem registro de chuva. Os moradores enfrentam altas temperaturas e tempo seco.

O monitoramento feito pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também demonstra que não houve acumulado de chuva em junho e julho (até o momento) na capital de Rondônia.

No decreto, o governo de Rondônia considera as previsões que indicam baixos níveis pluviométricos prolongados no estado em virtude do fenômeno El Niño. O documento também aponta uma diminuição significativa nos níveis dos rios.

A Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (Caerd) informou ao g1 que ainda não há registros de desabastecimento devido à seca, mas é possível observar uma redução significativa em rios como:

  • Madeira, em Porto Velho;
  • Palmeira, em Espigão do Oeste;
  • Boa Vista, em Ouro Preto do Oeste;
  • Araras, em Cerejeiras;
  • Jaru, em Jaru.

O Executivo também aponta como justificativa do decreto a necessidade de evitar “risco pedagógico e de insegurança alimentar e nutricional” aos alunos da rede pública nos municípios mais afetados pela seca em caso de suspensão das atividades escolares por falta de água.

O que muda com o decreto?

O decreto que já etá em vigor tem validade de 180 dias. Através dele, autoriza a mobilização de todos os órgãos públicos estaduais para atuarem sob a coordenação do Comitê de Crise hídrica que foi instaurado durante a seca de 2023 e continua atuando.

O decreto do governo também dispensa a necessidade de licitação em casos de emergência ou de calamidade pública somente na “aquisição de bens necessários ao atendimento da situação emergencial ou calamitosa e para as parcelas de obras e serviços que possam ser concluídas no prazo máximo de um ano”.

*Por Jefferson Carvalho, da Rede Amazônica RO

Pará segue na liderança da produção nacional de cacau e está entre as melhores amêndoas do mundo

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No Dia Mundial dedicado ao chocolate, celebrado em 7 de julho, destaca-se a expansão do mercado do produto no Brasil que ocupa, atualmente, o 6º lugar no ranking mundial e a posição do Estado do Pará como o maior produtor de cacau do país, reconhecido por estar entre as melhores amêndoas do planeta.

Todos os dias, após o almoço, acompanhado de um cafezinho. É assim que a paraense e chocólatra Andreia Oliveira consome o chocolate no seu dia a dia e conta que sua relação com o chocolate vem desde a infância. “Amo chocolate desde que me conheço por gente. Sempre esteve presente em minha vida, para além da Páscoa. Não sou fã de doces, mas sim de chocolate”, reforça.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab), o brasileiro consome atualmente, em média, 3,9 kg de chocolate por ano. A tendência é de crescimento desse consumo, especialmente, aliando saúde e bem-estar ao desenvolvimento sustentável.

Da plantação até a barra

Acompanhando a expansão por segmentos especializados, a Da Cruz Chocolates integra uma ampla cadeia de microempreendedores paraenses que produzem chocolates de alta qualidade, com incentivos do governo paraense.

A Da Cruz Chocolates é um exemplo de empreendimento familiar que produz chocolates artesanais, com plantação no município de Moju, nordeste paraense, baseada em agricultura sustentável e sistema agroflorestal. Apenas 30% da propriedade é utilizada para a plantação de cacau, sendo os outros 70% área preservada e enriquecida de espécies florestais, livres de agrotóxicos.

Foto: Valéria Nascimento

Chiara da Cruz, uma das donas do local, conta que após o processo de seleção e fermentação, o cacau é levado para a fábrica, no município de Ananindeua, onde realizam a torra, trituração, até a temperagem, sem adição de nenhum outro elemento, mantendo as características do produto.

“Nossa ideia sempre foi produzir um produto saudável, sem glúten, sem lactose, somente cacau e açúcar demerara como ingredientes”, explica.

Reconhecimento e incentivos

O Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento da Agricultura e da Pesca (Sedap), garante uma atenção especial à cadeia produtiva do cacau no Pará. A secretaria possui o Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Cacauicultura no Pará (Procacau), que possibilita a autossuficiência na produção de sementes, com o consequente aumento da produtividade. Conforme a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), o Pará produziu 149.396 toneladas de amêndoas em 2023.

O coordenador do Procacau, engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, explica que a Sedap apoia o segmento de várias formas, com ações financiadas pelo Fundo de Desenvolvimento da Cacauicultura do Pará (Funcacau).

“Repassamos os recursos do Funcacau para instituições que fazem apoio técnico e fornecem sementes híbridas aos produtores de cacau do estado. Apoiamos diretamente também os produtores quando os levamos todos os anos para os principais eventos de cacau do Brasil ou fora, como, por exemplo, Portugal, Bélgica e França, por meio do projeto chamado Internacionalização das Amêndoas”, destaca.

Com incentivos do governo do estado, além de o Pará ser o maior produtor do país, também é reconhecido por estar entre as melhores amêndoas do planeta. Esse importante reconhecimento veio com uma dupla premiação em 2024, quando os produtores Miriam Federicci e Robson Brogni levaram o primeiro e segundo lugar, respectivamente, entre as melhores amêndoas da América do Sul, na premiação Cocoa of Excellence, realizada em Amsterdã, na Holanda. Ambos produtores são de Medicilândia, município localizado na Região de Integração do Xingu, conhecida como Transamazônica.

Foto: Divulgação/Sedap

Fábricas e Escolas Indústrias de Chocolate

Ivaldo Santana também destaca, entre as ações da Sedap, a construção das Fábricas e Escolas Indústrias de Chocolate. “Temos no Pará em torno de 50 fábricas artesanais de chocolate e derivados que produzem produtos derivados do cacau como chocolate, geleia, polpas e outros. Também levamos essas fábricas para comercializar seus produtos nos eventos. E, em parceria com o Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural], foram construídas cinco Escolas Indústrias de chocolate, nas cidades de Igarapé-Miri, Medicilândia, Altamira, Castanhal e Tomé-Açu, e uma unidade móvel que viaja nos municípios interessados em capacitar empreendedores para fazer chocolates e derivados”, ressalta.

*Com informações da Agência Pará e Sedap

Indígenas ampliam participação na produção de chocolate do Médio Xingu

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Há mais de uma década a produção de cacau vem passando por transformações no Pará, estado que concentra mais de 50% da produção nacional do fruto, com participação em uma indústria que, segundo a Embrapa, movimenta R$ 3,5 bilhões ao ano no país. Ao longo dessa transformação, novas portas se abriram ao mercado produtor e consumidor. Isso permitiu que indígenas empreendedores da região do Médio Xingu, com o apoio de projetos de responsabilidade social da Norte Energia, concessionária da usina Belo Monte, se lançassem nessa saborosa empreitada, através de iniciativas próprias com potencial de se tornarem negócios lucrativos.

Marcas como Karaum Paru e Yudjá vêm conquistando o Brasil e ganhando participação em eventos do setor. Exemplo recente foi a edição do Chocolat Xingu, festival internacional realizado entre em junho passado na cidade de Altamira, sexta maior produtora de cacau do estado. De origem amazônica e produzidos a partir das amêndoas do fruto, ambas as marcas foram lançadas durante o evento, com o diferencial de carregarem em suas composições os saberes dos povos originários e a preservação da natureza e da biodiversidade.

É também uma forma de fortalecer a cultura indígena, valorizar frutas regionais e gerar renda para as comunidades. Além do valor agregado ao fruto do cacau, iniciativas como essas vão ao encontro de linhas sustentáveis de beneficiamento, especialmente à produção do chocolate em suas várias formas, cores, aromas, sabores e teor.

Os dois chocolates nasceram do trabalho dos povos indígenas Arara da Volta Grande do Xingu e Yudjá, em parceria com a Norte Energia, e com a Cacauway, primeira fábrica de chocolate da região. A expectativa é que a parceria gere renda para seis aldeias da Terra Indígena Paquiçamba e para quatro da Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu.

O Karaum Paru e o Yudjá foram criados após o sucesso de outras duas marcas de chocolates com proposta semelhante e que também surgiram na região. O Sidjä Wahiü (“Mulher Forte”), iniciativa da líder indígena Katyana Xipaya, da comunidade Ribeirinha de Jericoá 2, na região da Volta Grande do Xingu, foi lançado também graças a programas de apoio da Norte Energia. Virou uma referência de visibilidade nacional.

“Podemos mostrar para outras comunidades que a vida não é só o que a sociedade impõe. O indígena quer trabalhar e se sustentar. O chocolate que estou produzindo é de alta qualidade e quero levar a cultura indígena, as riquezas da Amazônia e a força da Natureza para lugares que nem imagino”, afirma Katyana.

Outro caso bem-sucedido é o do chocolate Iawá – nome é uma homenagem à matriarca da comunidade – desenvolvido pelos Kuruaya, premiado com o 3° lugar na categoria Melhor Chocolate ao Leite 50% Cacau, na edição de 2023 do Chocolat Xingu.

Uma das representantes da marca Yudjá, Leliane Jacinto Juruna, da aldeia Mïratu, da Terra Indígena Paquiçamba, esperava a oportunidade de trabalhar com a produção de chocolate desde que uma oficina foi realizada na comunidade em 2022. “É uma oportunidade muito boa que estamos tendo, porque é única. Eu tive uma criação, por morar na aldeia, mas os meus filhos vão ter outra visão, porque eles já vão aprender a trabalhar com cacau e com chocolate, o que vai gerar uma boa renda e valorizar o que a gente está fazendo”, comemora a Leliane, grávida do quinto filho.

Gerente de Projetos de Sustentabilidade da Norte Energia, Thomás Sottili destaca a importância da valorização da cultura indígena e da geração de renda para as comunidades.

“Nosso objetivo é construir um legado positivo e contribuir para o desenvolvimento socioeconômico dos territórios onde a Usina está instalada. Temos como premissas no processo de desenvolvimento dos chocolates potencializar as produções indígenas, incentivar o empreendedorismo sustentável, dialogar com as comunidades na elaboração das identidades visuais, agregar valor nas vendas e trazer desenvolvimento socioeconômico com foco na qualidade de vida da população e na proteção ambiental da bacia do rio Xingu. Queremos criar uma experiência sensorial capaz de honrar, pelo menos, parte de toda biodiversidade amazônica”, explica Thomás Sottili, responsável pelo programa.

Apesar dos quatro chocolates serem resultados recentes do apoio de projetos como o Belo Monte Empreende e o Belo Monte Comunidade, a jornada dos indígenas com o cacau começou bem antes, há cerca de dez anos, com a execução do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena da Usina Hidrelétrica Belo Monte.

“Nos últimos anos, os povos indígenas vêm desconstruindo estereótipos e lançando-se em empreendimentos próprios, inclusive os gerados em torno do licenciamento ambiental. Ações dessa natureza, além de implementar o etnodesenvolvimento, oportunizam criar seus próprios negócios e gerar melhorias para suas comunidades, o que também contribui para a economia em geral”, avalia Sabrina Miranda Borges, Gerência Socioambiental do Componente Indígena da Norte Energia.

Karaum Paru

As quatro aldeias da Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu (Terrawangã, Guary-Duan, Itkoum e Maricá), no Pará, abrigam cerca de 78 famílias que cultivam as amêndoas usadas no Karaum Paru. O chocolate é leve, com 53% de cacau, contém cupuaçu desidratado, equilibrando a acidez típica da fruta amazônica com o doce do chocolate ao leite, o que resulta em um sabor único.

Yudjá

As seis aldeias da Terra Indígena Paquiçamba (Mïratu, Iya -Pukaká, Lakariká, Pupekuri, Jaguá, além da Paquiçamba), no Pará, abrigam aproximadamente 92 famílias que cultivam, de maneira integrada com a floresta, as amêndoas do Yudjá. O chocolate, feito com manteiga de cupuaçu, tem 63% de cacau e leva mangarataia, um gengibre cultivado na Amazônia, que traz um toque forte e apimentado, realçando o sabor intenso desse delicioso alimento.

Demanda do Centro-Sul por produção agropecuária pressiona desmatamento na Amazônia

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A demanda por produtos agrícolas e pecuários no Centro-Sul do Brasil pressiona de forma significativa o desmatamento da Amazônia, aponta estudo da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP. Os pesquisadores mapearam as relações comerciais com o restante do Brasil e do mundo, para identificar todos os elos da cadeia produtiva. Desse modo, constataram que a procura por produtos e insumos dentro do País, e não apenas as exportações, apresentam um impacto relevante sobre os recursos naturais da região amazônica.

As conclusões do estudo foram publicadas em artigo. Com base nos resultados, os autores do artigo recomendam o aumento das ações de rastreamento da produção agropecuária da Amazônia, hoje restritas a algumas grandes empresas, a fim de mapear também entre os pequenos produtores os impactos do desmatamento.

“O principal objetivo da pesquisa foi mapear e quantificar pelo lado da demanda quais as principais pressões econômicas sobre o desmatamento da Amazônia Legal”, afirma o professor e pesquisador Eduardo Haddad, da FEA, primeiro autor do artigo. “A grande novidade que nós introduzimos foi a possibilidade de fazer a identificação do ponto de vista geográfico da origem dessas pressões; seja referente ao mercado interno, ao da própria Amazônia ou ao do restante do País, as demandas geradas pressionam o desmatamento de forma direta e indireta.”

De acordo com Haddad, a literatura científica tem colocado grande ênfase na demanda externa, ou seja, das exportações que são feitas para outros países de itens produzidos na Amazônia, principalmente da agropecuária.

“Ao mapearmos as nossas origens de demanda, nós também identificamos o peso da procura local e principalmente o papel crítico que a demanda no resto do País, especialmente no Centro-Sul, de modo direto e indireto, exerce sobre o desmatamento da região amazônica”, aponta. “O grande resultado da pesquisa é mostrar essa relevância das relações da Amazônia com o restante do Brasil, de forma a pressionar os recursos naturais.”

Pressão da demanda

Os pesquisadores, por meio de uma abordagem sistêmica, mapearam todas as relações de compra e venda nas várias regiões, dentro e fora da Amazônia, e no resto do mundo, de modo a obter uma visão de cadeia de valor.

“Dessa forma, nós conseguimos identificar a demanda gerada, por exemplo, aqui em São Paulo, influenciando, direta ou indiretamente o desmatamento”, relata Haddad.

“Diretamente, demandando por produtos finais, que exercem alguma pressão, especialmente os da agricultura e pecuária, e de forma indireta quando há uso de insumos da floresta que possam pressionar a mudanças no uso da terra, e dessa forma identificamos a relação do Centro-Sul do Brasil com o desmatamento por meio dos fluxos de comércio e das interações econômicas.”

“Ao fazermos esta análise no contexto de cadeia produtiva e efeitos sistêmicos, olhando pelo lado da demanda, a gente consegue olhar todos os elos dessa cadeia que chegam no desmatamento”, enfatiza Haddad. “Então o que a gente sugere, e isso já tem sido feito por intermédio de algumas grandes empresas que usam recursos naturais na Amazônia, é identificar quem são os fornecedores, e ao rastreá-los, garantir que tenham práticas ambientalmente saudáveis, ou seja, não estejam desmatando na sua produção; é importante aumentar esse procedimento para que o problema não persista.”

“Essa é uma das questões que levantamos no trabalho: o processo de rastreamento teria que tomar uma escala nacional para chegar até os pequenos produtores”, recomenda o pesquisador da FEA. “A pesquisa demonstra que é possível mapear e rastrear os elos da cadeia produtiva, até chegar, no início do processo, aos pontos que estariam associados ao desmatamento”.

Outro ponto discutido no artigo, que tem a ver com políticas públicas, se refere a consequências não desejadas de algumas medidas, como, por exemplo, a Reforma Tributária, que eventualmente pode gerar pressões sobre os recursos naturais ao desonerar exportações e gerar isenções totais ou parciais sobre produtos agrícolas, caso não haja rastreabilidade ou fiscalização”, explica Haddad. 

“Por outro lado, essa mesma reforma pode gerar recursos adicionais para a criação de fundos de desenvolvimento regionais direcionados a ações de adaptação e mitigação visando políticas de desmatamento zero.”

Participaram do estudo Inácio Araújo, pós-doutorando, Ademir Rocha e Karina Sass, pesquisadores associados do Núcleo de Economia Regional e Urbana (Nereus) da USP, sediado na FEA, e Fernando Perobelli, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Também colaboraram, por meio do projeto sobre a Nova Economia da Amazônia, da organização World Resources Institute Brasil (WRI Brasil), o economista Rafael Feltran Babieri, da WRI Brasil, e Carlos Nobre, coordenador do projeto e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Júlio Bernardes

Equipe interdisciplinar registra pesquisa sobre relação de indígenas e o Rio Nãnsepotiti, na Amazônia

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Uma equipe da Secretaria Executiva de Comunicação (SEC) da Unicamp acompanha pesquisadoras da Universidade em um trabalho de campo na aldeia Nãnsepotiti, terra indígena Panará, que ocupa parte do território do município de Altamira, no vale do rio Nãnsepotiti (rio Iriri para os não Panará), divisa dos estados do Mato Grosso e do Pará, desde o dia 1º de julho. 

A professora Cassiana Montagner, do Instituto de Química (IQ), e a geógrafa Zaira Anislen Moutinho, doutoranda no Instituto de Geociências (IG), orientada pelo Professor Raul Reis, realizam uma pesquisa interdisciplinar sobre a ligação entre o povo Panará e o Rio Nãnsepotiti, evidenciando sua importância para a aldeia e o impacto que o uso e ocupação da terra na sub-bacia do Iriri provocam para os indígenas. 

Foto: Divulgação/ Jornal da UNICAMP

O objetivo desta viagem, entre as já feitas até agora pelas pesquisadoras às terras dos Panará, é registrar em vídeo o processo de coleta de amostras das águas do rio e os depoimentos dos anciãos da aldeia.

A intenção é obter também, por meio dos relatos, a visão Panará sobre a história da reconquista de parte da terra indígena, em meados da década de 1990, após o processo de saída do Parque Indígena do Xingu, onde a aldeia ficou reduzida a pouco mais de 70 indivíduos.

Hoje a população Panará chega a 600 pessoas, um exemplo de resistência e da relação estruturante entre a existência do povo e o rio Iriri.

A Associação Iakiô é a principal parceira e financiadora da pesquisa, por meio do projeto Lira (Legado Integrado da Região Amazônica), além do ISA (Instituto Socioambiental).

A jornalista Hebe Rios e o repórter cinematográfico Marcos Botelho Jr. retornam neste domingo (7) com parte da equipe de pesquisa. O resultado do trabalho de campo e os relatos obtidos nos dias vividos na aldeia Nãnsepotiti serão divulgados.

*Com informações do Jornal da UNICAMP

Pela primeira vez, pesquisadoras do Butantan comprovam que serpente amazônica se alimenta de aves

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Com olhar atento aos detalhes e anos de experiência e dedicação às serpentes: foi assim que duas pesquisadoras do Museu Biológico do Parque da Ciência Butantan comprovaram, pela primeira vez, que as aves fazem parte da dieta da cobra papagaio (Corallus batesii), conhecida no exterior como jiboia-esmeralda da Bacia Amazônica (Amazon Basin emerald tree boa, em inglês). A descoberta foi pelas biólogas Circe Cavalcanti de Albuquerque e Silvia Regina Travaglia Cardoso.

Leia também: Primeiro registro de vocalização para uma serpente na América do Sul é realizado na Amazônia

O estudo chamou a atenção de um dos maiores especialistas do mundo no gênero Corallus: o pesquisador Robert W. Henderson, curador da coleção herpetológica do Museu Público de Milwaukee, dos Estados Unidos, que já publicou uma série de trabalhos sobre a serpente. Ele chegou a entrar em contato para parabenizar as cientistas do Butantan – surpreendentemente, no mesmo dia em que saiu o artigo.

“Eu sabia que, eventualmente, alguém documentaria a ingestão de aves por Corallus batesii. Parabéns por terem sido as primeiras”, escreveu ele.

Fotos: José Felipe Batista/Comunicação Butantan

Serpentes do gênero Corallus são arborícolas e vivem a maior parte do tempo no topo das árvores de florestas tropicais. São animais oportunistas, que se alimentam de lagartos, pássaros e pequenos mamíferos que passam por elas.

A presença de aves na dieta dessas cobras já havia sido registrada para quase todas as espécies do gênero – com exceção da C. batesii e C. caninus, que vivem na floresta amazônica. A suspeita, porém, existia há décadas na ciência. 

Suas próprias características físicas são ideais para capturar presas volumosas, com dentes finos curvados para trás e cabeça avantajada. Inclusive, por serem morfologicamente muito parecidas, ambas eram consideradas da mesma espécie até a revalidação de C. batesii por Henderson e colaboradores em 2009.

A história da descoberta de Circe e Silvia começou em fevereiro de 2023, quando o Museu Biológico do Butantan recebeu uma C. batesii, resgatada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) – a título de curiosidade, fazia parte da mesma entrega a famosa víbora azul batizada de Rita Lee e atualmente exposta no museu. A cobra-papagaio passou por quarentena para receber cuidados veterinários, assim como todos os animais que são resgatados e encaminhados ao Museu Biológico. Nos primeiros meses, algo chamou a atenção das biólogas.

“A serpente passou dois meses sem se alimentar e, quando defecou, notamos a presença de penas nas fezes. Isso mostra como observar o material biológico do animal e prestar atenção pode ajudar a obter respostas sobre sua biologia”, afirma Silvia.

Fotos: José Felipe Batista/Comunicação Butantan

As cientistas coletaram o material e o conservaram em álcool 70%. Três ornitólogos (especialistas em aves) foram consultados, mas não foi possível identificar a espécie de ave ingerida devido à degradação provocada pela digestão.

O estudo sugere que a ingestão da ave ocorreu na própria natureza, antes do animal ser capturado ilegalmente. O transporte e manutenção inadequados, frequentes durante capturas ilegais da fauna silvestre, podem gerar desidratação e estresse no animal, o que neste caso retardou o processo de defecação e explica o nível de degradação das penas.

Para Circe e Silvia, além da satisfação da descoberta, foi emocionante receber o contato de um pesquisador que é referência para elas.

“Foi uma surpresa muito boa. O nosso papel como cientistas é produzir conhecimento, e o que me encanta é que estamos sempre aprendendo. Saber que contribuímos para o conhecimento científico é muito gratificante”, ressalta Circe.

Saiba mais:

Vídeo: Reprodução/ Youtube – Butantan

Em ritual de povo indígena, mulheres só se tornam artesãs após primeiro ciclo menstrual

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Foto: Emily Costa/g1 Rondônia

Na cultura do povo indígena Paiter Suruí, o primeiro ciclo menstrual de uma jovem marca o momento de passagem para a vida adulta. Na Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, em Cacoal (RO), o ritual chamado de “resguardo cultural” ocorre em uma maloca, durante um mês. Lá, elas aprendem várias atividades importantes para a vida adulta, mas principalmente o artesanato.

Os Suruí de Rondônia se autodenominam Paiter, que significa “gente de verdade, nós mesmos”. Eles falam uma língua que pertence ao grupo Tupi, da família Mondé, e vivem na TI Sete de Setembro, localizada no sudeste de Rondônia e noroeste do Mato Grosso.

Leia também: Paiter Suruí, “o povo de verdade”: conheça os fundadores da primeira agência de turismo indígena do Brasil

Kailane Suruí tem 13 anos e conta que antes da primeira menstruação, as jovens só podem fazer canecas de barro e não tem permissão para confeccionar outros tipos de artesanato.

Resguardo cultural: processo de purificação

No momento do primeiro ciclo menstrual, as jovens Suruí ficam em uma maloca (tradicional habitação indígena) sob os cuidados da mãe. Durante o ‘resguardo cultural’, elas aprendem novos comportamentos, formas de alimentação, educação, conselhos e serão capacitadas para se tornarem artesãs.

Na cultura Paiter Suruí, esse é um dos rituais mais importantes na vida de uma mulher indígena. É nesse ‘processo de purificação espiritual’ que ela se prepara para assumir as responsabilidades dessa nova fase.

Aldeia indígena Lapetanha na TI Sete de Setembro, em Cacoal — Foto: Emily Costa/g1 RO
 Foto: Emily Costa/g1 Rondônia

“Antes, as mulheres ficavam mais de um ano em uma maloca passando por esse processo de purificação, mas hoje em dia, no máximo, a indígena fica de 30 a 40 dias, para respeitar o psicológico dessa jovem”, explica Celso Suruí.

Após esse processo de mudança, a indígena passa a auxiliar as outras mulheres da aldeia na confecção e venda de artesanatos. Além de garantirem uma forma de renda.

Artesanato

Canecas e cuias de argila, brincos e colares de tucumã, e cordão de algodão, são alguns dos artesanatos confeccionados pelas mulheres Suruí. Os produtos são feitos manualmente com matérias-primas extraídas dentro da Terra Indígena (TI). Isso porque, o modo de vida tradicional desta etnia está ligado ao uso dos recursos da floresta e às atividades extrativistas, ou seja: os frutos produzidos dentro da TI, além de gerarem renda, também contribuem para alimentação e manutenção da forma de vida desses povos.

Caneca feita de argilha por mulheres Paiter Suruí — Foto: Emily Costa/g1 RO
Foto: Emily Costa/g1 Rondônia

Já os cascos e partes de árvores se tornam matérias-primas para a confecção de peças e acessórios exclusivos da cultura Suruí. A venda é feita na aldeia e os maiores compradores são pessoas que visitam e se hospedam na Yabnaby (agência de etnoturismo que fica dentro da TI).

Além disso, eles possuem diferentes modelos de cocar tradicional da etnia: cada formato é feito para ocasiões e indivíduos específicos, como líderes e jovens. Já em relação a esse tipo de artesanato, somente o indígena mais antigo da aldeia tem permissão para confeccioná-lo.

*Por Emily Costa, da Rede Amazônica RO

Indígenas do Peru e do Brasil se unem para proteger povos isolados 

Organizações indígenas do Peru e do Brasil estão unindo forças para pressionar os respectivos governos para salvaguardar um corredor territorial de 16 milhões de hectares na Amazônia, que se estende desde o Rio Tapiche, no Peru, até o Rio Javari, no Brasil.

As 15 organizações indígenas, que incluem a Organização Regional dos Povos Indígenas da Amazônia Oriental (Orpio) e a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), planejam criar uma comissão binacional para definir políticas transfronteiriças destinadas à proteção dos povos indígenas em isolamento e contato inicial que vivem dentro do Corredor Territorial Javari-Tapiche e transitam livremente entre os dois países. 

O corredor se espalha pelos departamentos de Loreto e Ucayali no Peru, e Amazonas e Acre no Brasil. Abriga também a maior diversidade de primatas no mundo, incluindo macacos-aranha (Ateles belzebuth) e saguis-pigmeus (Callithrix pygmaea).

“Propusemos a criação de uma comissão binacional formada por organizações indígenas para fortalecer as estratégias de proteção dos povos isolados, bem como para convocar e exigir ações urgentes dos países para deter as invasões territoriais”, disse Apu Miguel Manihuari Tamani, líder indígena que faz parte do conselho de administração da Orpio.“[Há] necessidade de articular esforços para o monitoramento, gestão e vigilância do território entre organizações indígenas, tanto em nível nacional quanto transfronteiriço”.

Esse esforço enfrenta desafios de políticos de ambos os países que favorecem um modelo de agronegócio e desenvolvimento que eliminaria e restringiria o reconhecimento dos territórios indígenas para lavouras ou indústrias.

A ideia de instalar um corredor neste local não é recente. Desde 2011, as organizações têm pressionado pela proteção deste corredor territorial e de outros. Entre 2016 e 2021, a Orpio liderou estudos para comprovar a existência do Corredor Territorial Javari-Tapiche no lado peruano da fronteira, apresentados ao Ministério da Cultura do Peru em 9 de dezembro de 2021.

Devido ao progresso lento por parte do Estado e ao aumento das ameaças a esses territórios, a Orpio elaborou um novo projeto de lei para pressionar o governo peruano a reconhecer formalmente o Corredor Territorial Javari-Tapiche e vários outros, como o Yasuní-Napo-Tigre e o Putumayo-Amazonas, além de conceder aos povos isolados as proteções de que precisam. Ainda em fase inicial, o projeto está sendo compartilhado com outras organizações da região, com o objetivo de apresentar uma proposta conjunta ao Congresso peruano e aos demais setores do Estado responsáveis pela proteção desses povos nos próximos meses.

A antropóloga Beatriz Huertas disse à Mongabay que, possivelmente, os corredores abrigam a maior concentração de povos indígenas isolados do mundo. Mas as atividades ilícitas em ambos os lados da fronteira Brasil-Peru, incluindo a rápida expansão das culturas de folhas de coca, mineração ilegal, desmatamento e tráfico de drogas, representam um risco para as pessoas isoladas e em contato inicial.

“Eles não são como nós, que temos nossa comunidade, que temos nossa casinha; eles são nômades, assim como nós ou nossos ancestrais já foram um dia”, disse Apu Roberto Tafur Shupingahua, coordenador da Plataforma de Organizações Indígenas para Proteção do Corredor Territorial Javari-Tapiche da Orpio. “O problema é que o Estado [peruano] abandonou as comunidades durante muitos anos e, se não fosse pelas nossas organizações, nada chegaria a essas comunidades.”

A Ministra da Cultura do Peru, Leslie Urteaga, disse à Mongabay que se reuniu com as organizações indígenas em 22 de março para discutir as propostas. Questionada sobre quais ações tomou para lidar com as ameaças aos povos isolados, informou que o ministério organizou 757 patrulhas em 2023 para detectar ameaças ligadas a possíveis atividades ilícitas e, este ano, realizou mais de 200, além de nove operações de monitoramento.

Atuação além das fronteiras criadas

A natureza transfronteiriça desse esforço é rara, comentou Hilton da Silva Nascimento, do Centro de Trabalho Indígena (CTI) brasileiro. 

“Tudo é novo e precisamos lembrar que isso envolve dois países diferentes, duas histórias diferentes, duas formas diferentes de fazer política, alianças com o Congresso e as forças de poder de ambos os países.”

O objetivo é simplesmente defender “nossos irmãos Piaci [acrônimo usado para definir povos isolados e em contato inicial]” onde quer que estejam, explicou Tamani. “Eles não conhecem fronteiras; vão do Peru ao Brasil e não conhecem esses limites.”

Nascimento explica que, ao criar políticas indígenas transfronteiriças, as organizações indígenas poderão formar uma rede mais formal para troca de informações e experiências entre si, como conhecimentos sobre proteção e gestão territorial. Outro objetivo é promover a coordenação entre ambos os Estados em questões de saúde, como alcançar um modelo de saúde intercultural com uma abordagem transfronteiriça.

Um desafio enfrentado pelas organizações indígenas é que os congressos do Brasil e do Peru são em grande parte compostos por membros a favor do agronegócio. Nos últimos anos, eles têm promovido vários projetos de lei contrários aos povos indígenas e ao meio ambiente, como a polêmica tese do marco temporal do Brasil para Terras Indígenas, que pode ter reduzido novas demarcações, encolhido territórios aprovados e aberto áreas indígenas para projetos de mineração e infraestrutura.

No ano passado, o Congresso do Peru debateu um projeto de lei polêmico que buscava alterar as leis de proteção aos povos isolados do país e reavaliar a existência de todas as reservas indígenas que continham essas populações. O projeto de lei, que, segundo especialistas em direitos humanos e ambientais, é legalmente falho e uma violação dos direitos humanos, foi oficialmente descartado em junho, em parte devido aos esforços das organizações indígenas que fizeram lobby para detê-lo.

No entanto, outros projetos de lei semelhantes estão a caminho. Em 10 de janeiro, o Congresso conseguiu aprovar uma emenda à lei florestal e da vida selvagem do país, que José Francisco Calí Tzay, relator especial da ONU sobre os direitos dos povos indígenas, argumentou que poderia “legalizar e encorajar a expropriação dos povos indígenas de suas terras”.

“Os congressos do Peru e do Brasil têm promovido projetos de lei que são tão prejudiciais aos povos indígenas em geral, e aos povos isolados em particular, que constituem graves ataques à vida e à continuidade desses povos”, expressou Huertas. “São projetos de lei que visam despojar os Piaci de seus territórios para disponibilizá-los para fins econômicos, independentemente de este caminho ameaçar a própria existência desses povos.”

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Aimee Gabay