Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Primeira etapa do que se considerou a trilha “Cali-Belém”, a 16ª edição da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP-16), sob o tema “Paz com a Natureza”, garantiu vitórias aos indígenas, mas não assegurou o compromisso dos países ricos com a proteção ambiental. Uma das mais desafiantes questões levantadas durante COP16, realizada na cidade de Cali, Colômbia, de 21 de outubro a 1º de novembro, o progresso da implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (Plano de Biodiversidade), adotado na COP15, levada a cabo em Montreal, Canadá, pelos 196 países partes da CDB, em dezembro de 2022, não obteve ganhos substancialmente exequíveis. Nas palavras do secretário-geral da ONU, António Guterres, em mensagem pelo Dia Internacional da Diversidade Biológica, comemorado neste dia 22, “todos temos um papel a desempenhar. Povos indígenas, empresas, instituições financeiras, autoridades locais e regionais, a sociedade civil, as mulheres, os jovens e o meio acadêmico devem trabalhar em conjunto para valorizar, proteger e restaurar a biodiversidade de uma forma que beneficie a todos”.
Mas não é precisamente assim que as coisas funcionam. Num dos painéis exibidos sobressaia-se o título em inglês: Opportunities blossom: How business can profit from nature’s revival (em tradução livre, “Oportunidades florescem: como as empresas podem lucrar com o renascimento da Natureza”). Num outro canto, a imagem de um simpático “Sagui-cabeça-de-algodão”, símio de florestas tropicais, morador das árvores altas que estão cada vez mais escassas por conta do desmatamento. Noutro slide, o desafio maior: “Como empreender com a parceria da Natureza? Isto é, identificar resultados mais fáceis de colher em qualquer setor; encontrar o maior impacto; reconsiderar soluções existentes; aplicar novas tecnologias e práticas”. Imensos desafios à pesquisa, ciência e desenvolvimento tecnológico. Motivações que, todavia, se perderam no limbo burocrático e fantasioso de mais uma etérea Conferência.
Para a TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures – em tradução livre “Força-tarefa para divulgação Financeira relacionada à natureza”), a sociedade, os negócios e as finanças dependem dos ativos e serviços proporcionados pela natureza. A aceleração da perda da natureza globalmente está corroendo a capacidade dos biomas de fornecer esses serviços vitais. Adotar medidas para restaurá-los, protegê-los e conservá-los é agora uma prioridade global crítica”. A realidade, contudo, não muda, os compromissos não avançam. Ao final da última plenária da COP-16, de acordo com relatos de fontes oficiais divulgados pela mídia, não se sabia ao certo qual seria o legado daquelas duas semanas de discussão.
Tão frustrante quanto, a COP29, sediada em Baku, capital do Azerbaijão, de 11 a 24 de novembro, além dos temas protocolares sobre clima e meio ambiente, a questão “financiamento” também mais uma vez fracassou. Até em relação ao “Marco Global de Kunming” aprovada na COP15, com um acordo histórico para orientar a ação global sobre a natureza até 2030, os US$200 bilhões anuais para financiar os esforços globais de conservação da biodiversidade foram transferidos para a COP30, a se realizar no próximo ano em Belém, Pará. Quanto ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, Tropical Forests Forever Facility), outra ousada proposta, seria uma das estratégias brasileiras para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Apresentado durante a COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o Fundo tem o intuito de remunerar países em desenvolvimento que conservam suas florestas tropicais, destinando o capital investido a ativos verdes e aplicando o retorno para manter as florestas de pé. A iniciativa realizará pagamentos por cada hectare de vegetação em pé, com penalização por hectare desmatado ou degradado, e garantirá recursos adicionais para a proteção da biodiversidade, de territórios tradicionais e a manutenção dos serviços ambientais. Ou seja, de promessas e promessas, de compromissos não cumpridos o assunto terá o destino presumido: o engavetamento burocrático. Mas as COPs não cessarão. Afinal, viajar, como navegar é preciso.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Finalistas do concurso de criação do hino oficial de Rio Branco, e moradores da cidade se reuniram na Praça da Revolução, no Centro da capital, para conhecer a composição vencedora. Os autores da letra levaram para casa o prêmio de R$ 12 mil.
Paulo Arantes e Maria das Graças, do Coral Rio Branco, tiveram sua composição escolhida e foram os grandes ganhadores da noite. Em segundo lugar, ficou Antônio Ferreira Pereira, levando R$ 5 mil e em terceiro lugar Hilda Lopes, levando ainda R$ 4 mil.
O prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, enalteceu a escolha e contou que descobriu que a capital ainda não tinha hino oficial, quando assumiu a gestão.
“Fiquei muito triste quando perguntei para a secretária de Educação, na época, se os alunos da nossa rede municipal cantavam o hino do município, e ela disse que não. Eu perguntei o porquê e ela não sabia responder e foi procurar. Era porque não tinha o hino, mas 42 anos depois que o município foi criado, a gente vai ter oficialmente o hino de Rio Branco. Eu estou feliz”, comemorou ele.
Foto: Evandro Derze/Assecom
Gladson Cameli, governador do Acre, também compareceu ao evento e ressaltou a importância da escolha para os moradores da capital.
“Esse projeto tão importante que demonstra a história, e dedicação de homens e mulheres brasileiros e riobranquenses que aqui viveram, que escolheram aqui para criar seus filhos. Dos 22 municípios, só a nossa capital não tinha um hino oficial, então só parabenizar. É amor a terra que é onde a gente vive e trabalha e reconhece a dedicação de cada um, de todas as famílias, então, parabéns”, festejou ele.
Falta do hino
Em 2022, no aniversário de 140 anos de Rio Branco, o historiador Marcos Vinícius Neves explicou, que o hino até então atribuído à cidade é, na verdade, uma música em comemoração ao centenário da colonização do estado.
Em julho do ano passado, foi publicada a lei que dava providências para que houvesse a criação do hino oficial de Rio Branco. De acordo com a normativa de nº 2.465, de 6 de julho de 2023, a letra do hino deve fazer referência “à trajetória histórica e às situações geográfica, econômica e sociocultural do município”.
Também na época, houve até mesmo uma audiência pública na Câmara de Vereadores de Rio Branco para discutir o projeto de lei que previa um concurso cultural para definir um hino oficial para a capital acreana.
Mais de um ano depois, a Fundação de Cultura, Esporte e Lazer Garibaldi Brasil (FGB) divulgou o edital de lançamento do concurso. Podiam concorrer composições criadas de forma individual ou em parceria.
O hino deveria ter, dentre outros, os seguintes objetivos:
Manifestar o espírito cívico e o amor ao município, reafirmando através do hino a manutenção e preservação de suas tradições, sua cultura, belezas naturais, seu povo, origem, economia e projeção futura,
Revelar e exaltar através da arte musical a expressão dos aspectos históricos e culturais de Rio Branco;
Criar a letra e melodia do hino de Rio Branco a partir da referência geo-histórica do município, atendendo-se no poema às citações sobre a trajetória; histórica com enfoque nas origens, fauna, flora, solo, aspectos culturais, turísticos, históricos, econômicos e sociais do município, observando-se que não haja promoção de individualidades e particularidades.
Apresentar à população de Rio Branco um hino que possa representar e promover o município em toda sua diversidade.
A composição foi avaliada nos critérios de consonância com a história, cultura e identidade, qualidade musical, métrica e estrutura, facilidade de execução, riqueza poética e qualidade literária, e acessibilidade. Os candidatos foram avaliados por uma comissão julgadora.
Confira a letra:
“Abraçado pela mata Nosso rio viu nascer Uma vila encantada Uma vida a florescer
Luz, a quem vem chegando chuva, para o chão brotar Céu, nos abençoando Rio Branco é o nosso lar Capital da natureza
Um sinal, de encanto e sedução Ela nasceu cercada de belezas do estado é o coração Nossos povos da floresta Seiva, vida pra ganhar Algumas noites são de festa E a sanfona a sanfonar
Refrão
Seringueiros vão à guerra Brasileiros com armas na mão Rio Branco! Nossa terra! Um sagrado pedaço de chão!
Nossa gente mescla as cores Sempre um povo tão gentil Um buquê de muitas flores Aquarela do Brasil Nós, somos a história lendas, cantos e paixão Mas, pela sua glória
Rio Branco é inspiração Hoje é encanto e alegria Um clarão, na hiléia tropical Celebração da vida em harmonia
Na Amazônia ocidental Gameleira é poesia Viva, símbolo do amor Toda frondosa é melodia Num cenário encantador.
Refrão
Seringueiros vão à guerra Brasileiros com armas na mão Rio Branco! Nossa terra! Um sagrado pedaço de chão!”
*Por Lucas Thadeu e Hellen Monteiro, da Rede Amazônica AC e informações da Prefeitura de Rio Branco
Criar Unidades de Conservação (UCs) de Proteção Integral em áreas prioritárias nas zonas urbana e rural de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara, e estabelecer corredores ecológicos para fortalecer a conectividade entre elas é uma das medidas necessárias para tirar da rota da extinção o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), espécie endêmica do Amazonas que encontra-se categorizada nacional e internacionalmente como Criticamente em Perigo de extinção e está entre os primatas mais ameaçados do mundo, segundo a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).
Mais que isso, é preciso priorizar atividades de baixo impacto ambiental nessas áreas que são prioritárias para a conservação da espécie e recuperar a vegetação nas áreas protegidas degradadas, além de fortalecer campanhas ambientais de proteção ao sauim.
As recomendações fazem parte do estudo “Identificação de Áreas Prioritárias para a Conservação do sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) no Estado do Amazonas”, lançado nesta quinta (21), em seminário promovido pelo Instituto Sauim-de-coleira (ISC) no Auditório do Bosque da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
O estudo é fruto de uma articulação entre 18 pesquisadores do ISC, Museu Emílio Goeldi (MPEG), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), INPA e ICMBio, que, ao longo de cerca de um ano e meio, estudaram as principais ameaças (áreas desflorestadas, estradas, obras de infraestrutura e etc), os requerimentos ecológicos da espécie, os vários tipos de ambientes, as outras espécies que ocorrem na área e as relações da ocupação humana na área de distribuição do sauim-de-coleira. A pesquisa aponta os caminhos para a elaboração de uma estratégia para a conservação da espécie mais robusta, eficaz e pautada na ciência, explica o presidente do Instituto Sauim-de-coleira, Maurício Noronha.
“O objetivo deste estudo é balizar as políticas públicas. Ele é o primeiro passo, aponta o caminho a ser seguido. Com esse estudo em mãos, conhecemos as áreas e ações prioritárias para o sucesso das estratégias para a conservação da espécie, e podemos direcionar as ações do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Sauim-de-coleira (PAN SAUIM-ICMBio), assim como políticas públicas em outras esferas governamentais”, explicou.
A pesquisadora Dra. Ana Luisa Albernaz, do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), de Belém, que liderou o estudo, explica que a criação de áreas protegidas com categorias mais restritivas é fundamental para a conservação do sauim-de-coleira. Também é preciso urgentemente consolidar os Planos de Manejo e os Conselhos Gestores das áreas protegidas mais permissivas, como é o caso das Áreas de Proteção Ambiental (APAs), categoria mais comum nos 8.000 km² habitados pela espécie, nos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Presidente Figueiredo.
“Manaus tem quase 30% de áreas protegidas em sua zona urbana, a maioria APAs. Mas boa parte tem floresta severamente fragmentada pelas ocupações humanas, o que impacta as populações de sauins. Então, do ponto de vista técnico, recomendamos que sejam criadas áreas com categorias mais restritivas”, disse a pesquisadora.
Mas ela lembra que muitas outras ações também precisam ser implementadas em outras esferas, como políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável e a valorização da bioeconomia que valoriza a floresta em pé.
“A gente vem vivendo uma crise ambiental sem precedentes. Secas e incêndios florestais que deixam consequências bastante sérias, não só em termos de perda de biodiversidade, mas também para nós, para a humanidade. A solução para a crise que nos afeta passa pelo enfrentamento à crise ambiental. Quando protegemos o habitat do sauim, estamos protegendo a nós mesmos”, lembrou.
O pesquisador professor Dr. Marcelo Gordo, do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), membro da equipe do estudo e coordenador do Projeto Sauim-de-coleira, lembrou que é preciso que essas medidas sejam adotadas o quanto antes para evitar a extinção da espécie. Uma estimativa baseada em estudos populacionais e de perda de habitat apontou que, no ritmo atual, a população de sauim-de-coleira pode sofrer uma redução de até 80% dentro de três gerações, ou seja, nos próximos 18 anos.
“Há estudos que apontam que a perda populacional do sauim já acontece há mais de 10 mil anos, mas isso nunca aconteceu em um ritmo tão intenso como agora”.
Segundo Marcelo Gordo, as principais ameaças para a espécie são a perda e a fragmentação do seu habitat, tanto nas áreas urbanas, onde enfrentam a especulação imobiliária e o crescimento urbano desordenado, quanto nas zonas rurais, onde o maior obstáculo à conservação é o avanço da fronteira agropecuária sobre as florestas.
“Perda é quando uma floresta é derrubada para dar lugar a um condomínio ou a um pasto, por exemplo. Já a fragmentação acontece quando obras e intervenções como as estradas ou fazendas cortam e isolam áreas de floresta. A perda de conectividade entre essas áreas resulta na perda de variabilidade genética das populações isoladas, o que também contribui para o seu desaparecimento” explicou.
Agravando esse cenário, muitos sauins, ao se deslocarem entre fragmentos, em busca de abrigo e alimento, acabam atropelados, eletrocutados ou atacados por cães. Outra ameaça é a hibridização com outra espécie concorrente: o sauim-da-mão-dourada (Saguinus midas).
Todos esses fatores contribuem para colocar o sauim-de-coleira no caminho da extinção. Por esse motivo a espécie está categorizado nacional e internacionalmente como Criticamente em Perigo (CR) tanto na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), como na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN. Essa é a categoria na qual as espécies enfrentam o mais alto risco de extinção na natureza.
Pesquisa é base para plano de ação
Analista ambiental do ICMBio, o médico veterinário Diogo Lagroteria destacou a importância do estudo “Identificação das Áreas Prioritárias para a Conservação do Sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) no Estado do Amazonas” para a elaboração do plano de ação voltado para a conservação da espécie.
“O resultado desse trabalho, que reuniu alguns dos maiores especialistas da região amazônica, é este produto fundamental para o planejamento da conservação dessa espécie nos próximos anos. Eu costumo dizer que os planos de ação para a conservação de uma espécie são um grande pacto entre a sociedade para unir esforços, priorizar ações, sermos mais assertivos e trabalharmos de forma articulada. Agora é chamar as instituições parceiras para fazer parte das ações, que devem começar no próximo ano”, afirmou Lagroteria, que integra o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica (CEPAM), vinculado ao ICMBio e que, junto com o Centro de Primatas Brasileiros (CPB), coordena um plano de ação nacional para a conservação do sauim-de-coleira, em parceria com instituições como o IBAMA, INPA, UFAM e Instituto Sauim-de-coleira.
Financiado pela Re:wild, o estudo foi realizado pelo ISC, em parceria com o Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica (CEPAM), o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB), do ICMBIO, e o Tamarin Trust.
Desafios da conservação
Segundo o presidente do ISC, o seminário para apresentação dos resultados do estudo “Identificação de Áreas Prioritárias para a Conservação do sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) no Estado do Amazonas” é um marco para a conservação da espécie. Além de balizar todas as ações para a conservação do sauim, conseguiu, com sucesso, reunir a comunidade científica, acadêmica, organizações da sociedade civil, gestores e a sociedade para discutir um tema tão relevante para o nosso estado. Para ele, o sauim é uma espécie “bandeira” para o desenvolvimento sustentável. Com a conservação da espécie e seu habitat – a Floresta Amazônica –, ganha a sociedade, ganha o meio ambiente, ganha o Brasil e ganha o planeta como um todo.
O coordenador da Coordenação de Biodiversidade do INPA, Geangelo Calvi, lembrou que o sauim-de-coleira é uma espécie símbolo, mas que representa várias outras que também são endêmicas desta mesma região e estão ameaçadas. “Hoje estamos falando do sauim-de-coleira, mas ele pode ser um laboratório para outras espécies extremamente ameaçadas. O que temos aqui é um projeto que pode ser um piloto para ser replicado com outras espécies ameaçadas”, lembrou.
A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) tem incentivado a utilização de técnicas sustentáveis para o cultivo de hortaliças folhosas na agricultura familiar, com foco na maior produtividade das áreas. A opção é o sistema hidropônico, que evita a utilização do solo e utiliza uma solução de água enriquecida com nutrientes.
A técnica faz baixo uso de terra e água, e, por isso, é uma opção mais sustentável em relação à agricultura tradicional e vem sendo implantada em áreas urbanas. Um exemplo dessa boa prática pode ser constatado na Ilha de Outeiro, com atendimento de cerca de 80 agricultores atendidos pela Emater.
“Procuramos dar ênfase a atividades inovadoras no trabalho que desenvolvemos na região metropolitana. A hidroponia é uma atividade nova na região, por utilizar pouca água, já que se realiza a recirculação dela, repondo apenas 10% durante o dia, e também não há ataques de pragas e doenças por não ter contato no solo, produzindo uma agricultura mais sustentável”, destacou Emerson Penha, engenheiro agrônomo e chefe do escritório local, da Emater, em Belém.
A hidroponia é um sistema que permite combater as mudanças climáticas, a degradação do meio ambiente, a superexploração do solo e garante a economia da água. A técnica consiste no cultivo das plantas em área suspensa do chão. As raízes recebem nutrientes, por meio de solução balanceada com água suficiente para o seu desenvolvimento.
A técnica também proporciona maior rendimento aos agricultores, produzindo entre três e dez vezes mais quantidade de alimentos do que na agricultura tradicional, e isso com a utilização do mesmo espaço.
Os extensionistas da Emater auxiliam os agricultores na adaptação para o cultivo. O agricultor Edson Luis é um dos que recebe a assistência da Emater em Outeiro. Ele contou que há três anos, deixou o emprego formal para colocar em prática o sonho de cultivar uma horta utilizando a nova técnica.
Foto: Divulgação/Emater
Edson Luis criou a Hidroponia Anjo Azul em homenagem ao filho mais velho que tem autismo. “O trabalho da Emater tem sido de fundamental importância, pois iniciei com base em estudos que já fazia, mas quando a gente monta, coloca na prática, fica faltando muita coisa e com a assistência da Empresa, suas orientações e auxílio, nos ajudam a melhorar e a produzir melhor”, destacou o agricultor familiar.
O agricultor cultiva mais de 600 maços de alface por semana e 100 de jambu. Suas produções são comercializadas na feira local e para uma rede de supermercado que possui contrato. Além disso, seu Edson cultiva também suas próprias mudas na espuma fenólica, chegando a produzir de 10 mil a 12 mil mudas por mês.
“É uma satisfação muito grande ver que nós da Emater colaboramos com o crescimento destes agricultores, que estão garantindo sua renda, aumentando a qualidade de suas produções, conquistando o bem-estar de suas famílias. É imensurável. Acreditamos cada vez mais no desenvolvimento da agricultura familiar na região metropolitana, seja em pequenas áreas e em quintais produtivos”, finalizou o engenheiro agrônomo Emerson Penha.
Além da assistência técnica, a Emater oferece cursos de aprimoramento para que os agricultores possam administrar suas produções, e isso inclui o empreendedorismo, comercialização e inovação de produtos no mercado regional ou local, e, também, a criação de sistemas agroflorestais, compostagem, entre outras iniciativas.
Florada Premiada 2024 – campeã da categoria canéfora. Foto: Reprodução
Mais uma vez Rondônia dominou o pódio da competição nacional de cafés “Florada Premiada”, na categoria canéforas. A cerimônia de premiação aconteceu nesta sexta-feira (22) durante a Semana Internacional do Café em Belo Horizonte (MG).
Todos os locais de produção vencedores fazem parte da área classificada como “Matas de Rondônia”, que compreende 15 municípios de Rondônia. A região recebeu a concessão da Indicação Geográfica (IG), na espécie Denominação de Origem (DO) em 2021.
🥇 Sueli Berdes, Chácara Santo Antônio: 90.44 pontos 🥈 Josiele Werneck, Sítio Bella Vista: 88.86 pontos 🥉Angélica Alexandrino, Sítio São Sebastião: 88.25 pontos
A grande vencedora da noite, Sueli Berdes, participou da competição pela primeira vez e chegou já ocupando o primeiro lugar no pódio.
Técnicos e engenheiros agrônomos, produtores e representantes de indústrias trocam experiências e técnicas de como identificar e até capturar possíveis insetos que são responsáveis por uma praga que pode dizimar dezenas de plantações: a mosca da carambola.
O Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (Idaf) montou uma caravana para passar em plantações de 14 municípios acreanos para capacitar e levar conhecimento técnicos aos produtores. Ainda não há registros da praga no Acre, porém, além de capacitação, a caravana faz um levantamento mais detalhado em relação a possíveis ocorrências.
A mosca da carambola é uma doença presente em três estados da Região Norte: Roraima, Amapá e Pará. A praga causa queda na produção e acaba impedindo a importação, ocasionando inúmeros prejuízos sociais, ambientais e até econômicos.
A coordenadora do Programa Estadual de Monitoramento da mosca da carambola, GabrielaTangui, o inseto adulto coloca os ovos no interior do fruto, esses ovos se transformam em larvas e consomem todo o produto, além de apodrecê-lo.
“Onde há registro, os produtores ficam impossibilitados de comercializar seus frutos para outros estados. Então, cria-se um ambiente que a gente chama de quarentena, quando os frutos não podem ser comercializados para outros locais e isso causa um grande impacto econômico. Além disso, causa perda na produção e na qualidade dos frutos, que ficam apodrecidos. Há ainda prejuízos sociais porque afeta diretamente na renda, na geração de emprego e também ambientais, porque dentro do seu controle envolve muitos agrotóxicos, o que afeta, de certa forma, o ambiente e as pessoas”, destacou.
Apesar de receber esse nome, a mosca da carambola pode afetar mais de 40 espécies de frutas e frutos, entres eles:
Manga
Acerola
Laranja
Mamão
Tomate
Armadilhas
Durante as ações, os técnicos vão colocar 40 armadilhas em pontos estratégicos, a fim de capturar os insetos. Essas armadilhas serão monitoradas em um intervalo de 14 dias. Caso seja encontrada alguma mosca da carambola, o local é isolado e passa por análises do Idaf.
“A armadilha é do tipo Jackson, formada por uma estrutura triangular de casinha e na base dela tem um adesivo que é composto por uma cola onde o inseto vai ficar capturado. Também na armadilha vai uma isca atrativa que é uma mistura de paraferomônio, que é uma substância criada por pesquisadores e tem a função de atrair os machos da espécie. A isca mita o feromônio produzido pelas fêmeas”, explicou a coordenadora.
A especialista afirma que na mistura também tem inseticida. Quando o inseto procura o alimento, acaba encontrando a armadilha que fica sempre instalada nas plantas que possuem os frutos. Ao morrer, a mosca fica na base adesiva e, quando o técnico chega para fazer o monitoramento, consegue fazer a captura e levá-lo para análise em laboratório.
O fiscal agropecuário de Roraima, Guilherme Ferreira, veio ao Acre participar da caravana e contar sua experiência com esse problema. Ele explica que Roraima tem casos da praga desde 2010 e a situação é difícil de controlar. Por conta disso, o estado é proibido de vender os frutos para outras regiões.
“O estado ainda está fechado. Temos postos de fiscalização nas divisas estaduais com o Amazonas e dentro do estado também para evitar a dispersão da praga dentro do estado e para outros estados também”, lamentou.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), é quem controla a entrada e saída desses alimentos e decretou estado de emergência fitossanitária nos locais que possuem a praga na fruticultura. Para evitar que o inseto se propague para outras regiões do país, a orientação é evitar transportar frutos hospedeiros dos estados que já estão afetados.
O chefe da Divisão de Defesa Agropecuária do Mapa no Acre, Gustavo Ferreira, disse que o maior vetor e colaborador para a dispersão da praga são as ações humanas.
“Trazer frutos de regiões onde a praga ocorre para regiões onde a praga não ocorre. Esse transporte realizado pelas pessoas, seja como uma lembrança, isso acaba vendo que ela está com uma broca e descartando a fruta. Aí você introduz o inseto onde a praga não ocorre, ele se desenvolve e acaba atacando as frutas existentes”, orientou.
Cerimônia ‘Patrono da Educação em 2025’. Foto: Divulgação/GEA
Musicista nato e um dos primeiros professores do Centro de Educação Profissional de Música Walkíria Lima, aos 97 anos, Nonato Leal foi anunciado como ‘Patrono da Educação em 2025‘ no Amapá.
O anúncio foi feito no dia 22 de novembro durante a celebração em homenagem aos servidores públicos aposentados que se dedicaram ao ensino no Estado.
Para Leal nada mais simbólico, afinal, nesta sexta também foi comemorado o ‘Dia do Músico’, apesar disso, o Mestre – como é conhecido- disse ter ficado surpreso com a homenagem.
“Fui pego de surpresa, não esperava uma homenagem tão bonita. Envelhecer é uma virtude, e é lindo ver tantos companheiros nesse momento. Cheguei em Macapá em 1952 e desde então adotei o Amapá, que significa muito para mim. Espero chegar aos 100 anos, para ver ainda mais os frutos desse trabalho”, disse Leal, emocionado.
A escolha do patrono é realizada pela gestão da Secretaria de Estado da Educação (Seed). Essa foi uma forma que a instituição encontrou para reconhecer as contribuições dos profissionais para o ensino da arte.
“Pensamos que seria a ocasião perfeita para anunciar o Patrono da Educação de 2025, que também é um servidor aposentado, certamente reconhecido por todos aqui presentes”, destacou a secretária de Estado da Educação, Sandra Casimiro.
Raimundo Nonato Barros Leal
Nonato Leal tem 97 anos e chegou ao Amapá com 25 anos. Foto: Reprodução
Nascido em Vigia de Nazaré, no Pará, aos 8 anos, o Mestre iniciou sua trajetória musical, incentivado pelo pai. Aos 18 anos, já tocava violino, banjo, bandolim, viola, cavaquinho, guitarra e violão.
Como Leal diz, ‘ele adotou o Amapá como casa’, já que chegou ao Estado em março de 1952, com 25 anos. Na cidade, ele foi o primeiro professor de violão no então Conservatório Amapaense de Música, atual Centro de Educação Profissional de Música Walkíria Lima.
Entre seus feitos como educador se destacam a notoriedade da música amapaense no cenário nacional e internacional. Além disso, Nonato Leal é autor de 22 composições.
O patrono da educação de 2024, o professor Manoel Batista, também esteve presente na celebração para repassar de forma simbólica o título.
A Seção Braille da Biblioteca Pública Arthur Vianna (BPAV), em Belém (PA), completou 50 anos no dia 20 de novembro. O espaço da Fundação Cultural do Estado do Pará (FCP) busca garantir a inclusão social com diferentes serviços com acessibilidade e formação para as pessoas com deficiência visual. A seção fica no segundo andar do Centur, na avenida Gentil Bittencourt, no bairro de Nazaré, e é aberta ao público de segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 18h.
São diversos serviços disponíveis para as pessoas com diferentes graus de deficiência visual, entre eles estão: empréstimo de livros e periódicos em Braille, assim como livros falados, cabine adaptada de computadores com acesso à internet e sintetizadores de voz que permitem às pessoas cegas o acesso independente, digitalização de textos, leitura oral, impressões em braille, dentre outros.
Marina Moda, tem 69 anos e frequenta a Seção Braille desde 2001, e fala que aprendeu a ler em braille na FCP. “O pessoal da biblioteca me ajudou muito, me apresentaram os livros em braille e eu comecei a levar os livros daqui para minha casa. Quando eu voltava para FCP, ficava muito animada, para ler mais livros. Além de fazer muitas amizades que levo desde 2001”, disse a aposentada.
Além dos livros em Braille a FCP oferece, desde 2022, os óculos “Orcam MyEye” que permitem a leitura instantânea de materiais como livros, revistas, apostilas e código de barras. Os óculos apresentam uma câmera acoplada que reconhece os objetos e cores situados a sua frente. Além disso, a fundação oferece diversas oficinas para pessoas que querem aprender a mexer em computadores e também oficinas que ensinam a ler em braille.
Foto: Divulgação
Para Dailton Conceição, pedagogo da Seção Braille da Biblioteca Pública Arthur Vianna, !é uma felicidade” estar comemorando os 50 anos da seção.
“Com muita alegria e muita honras, estamos comemorando os 50 anos da seção Braille da BPAV e nesses 50 anos só temos a agradecer por todo o trabalho que vem sendo desempenhado nesses anos, um trabalho de muita garra e muita vontade para ajudar as pessoas com deficiência visual, a sua informação, na formação, em tudo que é necessário para que ele se desenvolva educacionalmente, culturalmente e socialmente”, diz o pedagogo.
Aproximadamente 120 pessoas passam por mês no local. Além do presencial, a biblioteca disponibiliza serviços via e-mail, onde o documento é enviado e impresso em Braille, atingindo outros municípios do Estado.
Marina Moda acrescenta que a biblioteca foi sua escola e agora é seu segundo lar. “Para mim é como se fosse a minha segunda casa, porque eu chego aqui as pessoas me recebem bem, a gente conversa, a gente brinca, troca confidências com as pessoas que trabalham aqui. Temos um ciclo de amizades muito bom, aqui é um espaço acolhedor”, finaliza Marina.
Dia da retirada dos 80 baldes, utilizados nas armadilhas de interceptação e queda para captura de animais. O pesquisador Felipe Augusto Zanusso Souza é o último à direita. Foto: Jordana Ferreira/Inpa
“Decidimos em março que a ida a campo aconteceria entre setembro e outubro, ainda considerado o período chuvoso no Estado, ideal para as pesquisas com anfíbios e répteis. Com isso definido, demos entrada nos processos de autorização e licenciamento necessários junto às instituições responsáveis”, conta Felipe Augusto Zanusso Souza, pós-doutorando no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e responsável pela logística da expedição, que foi liderada pela pesquisadora Fernanda Werneck, também do Inpa.
A seguir, Souza descreve com detalhes as etapas de organização do trabalho de campo, que reuniu mais de 28 pessoas, entre elas 20 pesquisadores, e teve duração de 28 dias em uma área isolada de Roraima, a Ilha de Maracá, a cerca de 130 quilômetros de Boa Vista.
Imagem: Agência FAPESP/montagem feita com imagens do Google Maps
Licenças e autorizações
O primeiro passo de qualquer expedição deve ser a articulação com as instituições responsáveis pela gestão da área onde se pretende realizar a pesquisa, para poder dar entrada nos processos de autorizações e licenciamentos necessários. Como nossa missão aconteceria em uma unidade de conservação sob gestão federal, a primeira conversa ocorreu com os analistas responsáveis pela realização das pesquisas na Estação Ecológica de Maracá. Também foi necessário o registro da expedição no SISBiO [sistema de atendimento a distância que permite a pesquisadores solicitar autorizações para coleta de material biológico e realização de pesquisa em unidades de conservação federais e cavernas] e no Comitê de Ética no Uso de Animais (Ceua) do Inpa, bem como solicitar a autorização para transporte desses indivíduos para a Coleção Científica de Anfíbios e Répteis do Inpa.
É importante destacar o caráter técnico-científico da expedição e a importância dessa dimensão burocrática, que precisa ser encaminhada o quanto antes para garantir que a equipe envolvida na expedição esteja devidamente autorizada em tempo.
Enquanto as autorizações eram solicitadas, foi feita a articulação com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra e fiscaliza a Esec Maracá e nos apoiou em todas as etapas da expedição. Foram realizadas diversas reuniões de alinhamento tanto do ponto vista técnico quanto logístico, para garantir aspectos como as datas de entrada e troca de equipes, a reserva do alojamento nas datas da expedição, apoio da equipe local e no contato com fornecedores.
A articulação com o ICMBio foi fundamental para o desenho das próximas etapas da expedição, que envolveu a definição dos objetivos e a dimensão dos trabalhos de pesquisa e da equipe de pesquisadores que estaria em campo. Também foi importante a indicação de contatos de assistentes de campo locais, com experiência e conhecimento da realidade da região, para dar apoio durante os trabalhos da expedição. Os assistentes são moradores da região que já atuam em atividades de pesquisa e monitoramento desenvolvidas pelo ICMBio. Nesse tipo de missão, é fundamental contar com o apoio de pessoas que conhecem o local e o contato antecipado foi fundamental para garantir que estivessem disponíveis na data. Nesse período, também foi realizada a articulação com a equipe responsável por garantir o funcionamento da cozinha durante a expedição.
Ao mesmo tempo, identificamos e entramos em contato com fornecedores de materiais e prestadores de serviços necessários antes, durante e depois do campo. Isso envolveu, por exemplo, a compra de suprimentos ainda em Manaus, o transporte das equipes até Boa Vista, a hospedagem até a saída para a Esec, o transporte até a Esec, compra de reagentes [como álcool e formol] para o desenvolvimento das pesquisas, empresas de fretes para envio dos materiais e equipamentos de pesquisa etc.
Reconhecimento do terreno
Os assistentes de campo são peça fundamental em qualquer expedição. Os que envolvemos na missão à Esec Maracá moram na Terra Indígena Boqueirão. Diversos moradores têm um histórico de atuação na Esec a partir de outras iniciativas do ICMBio, o que faz com que conheçam bastante as características e dinâmica da Unidade de Conservação. Hoje essa atividade é uma alternativa de renda para muitos deles.
Dois ajudantes de campo acompanharam a expedição ao longo dos 28 dias. Nos momentos mais intensos, de montagem e desmontagem das armadilhas – os três primeiros dias e os dois últimos –, foram contratados mais quatro auxiliares. Esse incremento da equipe foi importante para otimizar o processo de instalação das armadilhas, já que a captura dos animais era ponto de partida para o começo dos experimentos e pesquisas durante a expedição.
Chegamos no dia 4 de setembro de 2024 na Esec e fizemos o reconhecimento do local; no dia 5, instalamos as armadilhas de interceptação e queda, que são enterradas no solo; e, no dia 6, podemos dizer, a captura de animais já estava sendo iniciada, garantindo tão logo o começo da pesquisa. Foi importante garantir essa agilidade no começo do trabalho de campo.
Meses antes, as equipes de pesquisa já tinham feito o reconhecimento prévio da região, com estudo das áreas ideais e as espécies de anfíbios e répteis que poderiam ser encontradas na Unidade de Conservação.
A proposta era instalar uma linha com armadilhas em um ambiente de terra firme e outra mais próxima da área de vegetação aberta, conhecida como lavrado.
Pelas imagens de satélite, foram identificadas algumas áreas potenciais e interessantes. Porém, ao chegar a campo, identificamos que uma das áreas de interesse ainda estava bastante alagada, o que inviabilizaria a instalação de armadilhas no local. Os assistentes apontaram uma alternativa: outra trilha, um pouco mais longa, mas que atendia aos interesses da pesquisa.
Esse tipo de troca aconteceu o tempo inteiro durante a viagem.
Em dois momentos, o grupo de pesquisadores fez o que chamamos de “Laboratórios de Portas Abertas”. Convidamos todas as pessoas que estavam na base, equipes do ICMBio, da Força Nacional, das frentes de fiscalização, os assistentes de campo e de cozinha, para apresentar as pesquisas que estávamos desenvolvendo. Nesses momentos, apresentamos o contexto e a importância da pesquisa focada nos impactos das mudanças climáticas nos anfíbios e répteis, como funcionavam as armadilhas instaladas nas trilhas e os experimentos ecofisiológicos realizados nos laboratórios. Foi uma oportunidade interessante de intercâmbio de conhecimento com as pessoas com as quais estávamos convivendo diariamente na base e que tinham curiosidade de saber sobre as pesquisas desenvolvidas pela equipe.
Esse intercâmbio foi bastante interessante com os assistentes de campo, que não tinham trabalhado com anfíbios e répteis antes. Ao final dos trabalhos, eles já estavam encontrando animais na vegetação e identificando algumas espécies pelo nome. Isso demonstra o envolvimento e a proatividade dessas pessoas, que levarão esse conhecimento para outras missões a serem desenvolvidas na região. É incrível observar o comprometimento deles com a conservação daquele lugar!
Segurança
A base do ICMBio na Esec Maracá é protegida pela Força Nacional de Segurança Pública. Por isso, as entradas e saídas das equipes do ICMBio são escoltadas por policiais armados. A cada 15 dias, o ICMBio tem um sistema de troca de equipe da base, tanto de seus funcionários como os da Força Nacional. Por recomendação do ICMBio, nos organizamos para entrar e sair da Esec junto com essas trocas. Por isso, tivemos alguns membros da equipe que permaneceram na Esec os 14 primeiros dias da expedição, outros que chegaram na segunda quinzena e alguns que permaneceram os 28 dias de missão.
Duas equipes se revezaram durante 28 dias na Esec Maracá, sempre com escolta da Força Nacional de Segurança Pública. Na foto, time que conduziu a expedição nas primeiras duas semanas. Foto: David Ayronn/BIOTA Cerrado
O comboio saiu em 4 de setembro, às 7 horas da manhã, de Boa Vista em direção a Maracá. Todas as vezes em que foi necessário utilizar a balsa para atravessar o rio que dá acesso à estação, houve o acompanhamento dos profissionais da Força Nacional. Em alguns dias realizamos a busca ativa de espécies de lagartos na região do entorno da Esec.
No âmbito da equipe, adotamos outras medidas de segurança, como nunca sair sozinho para as trilhas, sempre avisar alguém da coordenação para onde estava indo e, sempre que possível, ir acompanhado pelos assistentes de campo. Como não havia sinal de celular, foram utilizados radiocomunicadores para facilitar a interação das equipes tanto em campo como na própria base. A comunicação externa foi garantida por uma internet a rádio mantida pelo próprio ICMBio.
A coordenadora da expedição também providenciou uma caixa de primeiros socorros para garantir que, em situações de problemas, como sintomas de resfriados, as pessoas pudessem ser medicadas.
Outro aspecto que envolveu a segurança foi a manutenção de um veículo 4×4 alugado, disponível durante toda a expedição. Apesar da dinâmica da Esec não demandar a presença de um veículo, optamos por garantir essa estratégia de modo que, em caso de alguma urgência ou de necessidade logística, como a compra de algo, estivesse disponível.
Alimentação
Não é qualquer profissional que consegue dar conta da alimentação diária de uma equipe de mais de 25 pessoas por quase 30 dias. O cozinheiro que nos acompanhou é considerado um dos melhores da região. Ele nos ajudou com a lista de compras, fez a estimativa da quantidade de alimentos, elaborou o cardápio, levando sempre em conta as restrições alimentares dos membros da equipe. E ainda nos acompanhou no mercado e na feira livre dois dias antes de embarcarmos.
Tudo precisa ser pensado, desde a compra das frutas e vegetais, que não poderiam estar muito maduros para durar o maior tempo possível, até o armazenamento das carnes para garantir sua qualidade.
A alimentação foi composta de alimentos básicos, para garantir a energia necessária da equipe, mas com toques de criatividade do grupo de cozinheiros, que caprichou e incrementou com receitas regionais com açaí e o tradicional “Peixe à Delícia”, prato tradicional de peixe frito ao molho branco e queijo. Além de sobremesas e bolo para os aniversariantes do mês!
Na bagagem
Numa viagem para uma área isolada, todos os equipamentos, alimentos, materiais precisam estar previstos na bagagem, já que, no lugar, não há a opção de sair para comprar ou buscar algo.
Dessa forma, além da compra dos alimentos, também levamos muitos equipamentos de laboratório, câmeras fotográficas, baldes para as armadilhas, ferramentas, balanças de precisão, álcool, formol, produtos de limpeza, caixas de isopor e um gerador reserva. Cada equipe também trouxe os seus próprios materiais para experimentos, além das bagagens pessoais.
Não à toa, ao verificar o volume de material a ser carregado, optamos por alugar um caminhão para viabilizar o transporte. No total, fomos em um carro 4×4, uma van para o transporte de passageiros e um caminhão para o transporte dos materiais e mantimentos.
Ao chegar ao rio Uraricoera, que faz o limite da Ilha de Maracá, carregamos a balsa e, do outro lado do rio, fizemos o transbordo em inúmeras viagens de carro para conseguir levar todos os materiais até a base. Em virtude de a estrada de acesso até a base estar muito ruim, o caminhão não pôde atravessar a balsa.
Travessia de balsa sobre o rio Uraricoera para chegada na Ilha de Maracá. Equipamentos, material de pesquisa, suprimentos, pessoas e veículos foram embarcados para travessia. Foto: Jordana Ferreira/Inpa
Experiência para a vida
Para alguns pesquisadores, esta expedição foi a primeira oportunidade de estar na Amazônia. Então, semanas antes da viagem, encaminhamos documentos com orientações e recomendações, como vestimentas adequadas, botas, repelente e protetor solar. Também sugerimos que levassem lanterna, roupas de cama e redes, além de seus próprios medicamentos.
Para mim, essa foi a maior expedição que já organizei, o que trouxe desafios e uma oportunidade incrível de aprendizado. Já tinha certa experiência com logística de campo, mas liderar uma operação de grande escala, envolvendo múltiplas instituições e uma equipe diversa, foi algo novo. Contar com a experiência da coordenadora Fernanda Werneck foi essencial para estruturar e garantir que tudo ocorresse conforme o planejado. Juntos conseguimos garantir o sucesso da missão.
No total, foram nove pesquisadores do Amazonas, uma de Roraima, dois de São Paulo, três do Paraná, quatro de Brasília e um da Paraíba, além dos seis mateiros, o cozinheiro e sua ajudante. É importante destacar que o trabalho de campo envolve, além da pesquisa, a logística e o trabalho colaborativo em equipe.
A desmobilização, por exemplo, começou quatro dias antes da saída da Esec, o que implicou a retirada das armadilhas, limpeza, organização, empacotamento em caixas, de modo a garantir que o retorno de todo o material ocorra em perfeito estado e possa ser utilizado nas próximas expedições.
E o mais importante: armazenar adequadamente os animais e as amostras biológicas coletadas, garantindo que cheguem a Manaus, possam ser tombados na Coleção Científica de Anfíbios e Répteis do Inpa e virar objeto de estudos e pesquisas futuras.
Prestação de contas
Cada Fundação de Amparo à Pesquisa [FAP] envolvida na Iniciativa Amazônia+10 possui estratégias distintas de prestação de contas. Como os pagamentos precisam ser realizados individualmente por pesquisador coordenador, é importante que os documentos fiscais que comprovem os gastos estejam adequados às exigências. Para isso, tinha sempre comigo as informações necessárias de cada FAP de forma a garantir que o prestador de serviço emitisse a nota fiscal de acordo com as exigências das instituições. A expedição contou também com cofinanciamento do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico].
Com base na nossa experiência, estas são algumas dicas para organizar expedições futuras:
– Definir data ou período ideal para a expedição, considerando as condições climáticas, bem como os objetivos e equipe a ser envolvida – Fazer o alinhamento institucional com os responsáveis pela gestão da área onde a expedição será realizada e parceiros importantes – Obter as licenças e autorizações necessárias – Planejar a expedição em etapas/blocos de prioridade: deslocamento da equipe, hospedagem, alimentação, fornecedores etc. – Garantir o envolvimento de assistentes locais e, se possível, capacitar jovens da comunidade para colaborar na pesquisa – Antecipar a contratação de alguns serviços que podem ser essenciais para a expedição, tais como transporte, locação de carros/barcos, hotéis etc. – Criar um checklist compartilhado de materiais e equipamentos para evitar esquecimentos. Essa lista deve ser a mais completa possível, incluindo as compras a serem realizadas [para pesquisa, alimentação, limpeza da base etc.] e os serviços que serão necessários durante a expedição; – Ter um núcleo de coordenação da expedição que possa compartilhar as dificuldades e pensar em soluções alternativas em caso de necessidade de mudanças de planos; – Garantir que, caso seja necessário, os responsáveis pela logística da expedição possam estar dedicados antecipadamente, inclusive com o deslocamento para a região alguns dias antes de modo a organizar previamente o que for possível – Ficar atento às rubricas de recursos disponíveis para a realização da expedição, às formas de pagamento disponíveis e às exigências de prestação de contas da agência financiadora; – Garantir que a alimentação seja suficiente e atenda às restrições da equipe. É fundamental que a equipe esteja bem alimentada para desempenhar os trabalhos da melhor forma possível – Antecipar possíveis problemas durante a expedição e propor soluções. Por exemplo, para o desenvolvimento das nossas pesquisas era essencial garantir o fornecimento de energia. A Esec é atendida pelo fornecimento de energia, além de possuir um gerador em caso de falha da rede. No entanto, caso as duas alternativas falhassem, tínhamos um gerador portátil que poderia manter o laboratório funcionando por horas caso a energia na estação acabasse; – Criar, na medida do possível, um ambiente harmônico entre as equipes, de modo a evitar conflitos interpessoais. Em expedições de longa duração, é normal que em alguns dias algumas pessoas estejam mais cansadas ou introspectivas; respeite e esteja atento a esses sinais; – Buscar dicas com pessoas que têm experiência nesse tipo de expedição. Elas são sempre bem-vindas e ajudam muito a antecipar possíveis imprevistos
Expedições como essa não apenas ampliam o conhecimento científico, mas também fortalecem laços entre pesquisadores e comunidades locais, promovendo uma conservação mais integrada e colaborativa na Amazônia.
A expedição em números
• 28 dias • 28 pessoas • 3 horas de distância de Boa Vista • 285 quilos de carne • 70 quilos de arroz • 55 galões de 20 litros de água • 5 bujões de gás • 20 pontos de armadilhas de interceptação e queda, totalizando 80 baldes • 400 indivíduos, amostras biológicas e dados ecológicos associados coletados • Mais de R$ 140 mil em custos totais aproximados.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Bruna Bopp
Manejadores de pirarucu nos municípios de Fonte Boa e Juruá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, receberam capacitação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) sobre boas práticas de pesca, limpeza, armazenamento, transporte e comércio de pirarucu. O curso ocorreu em outubro, de 14 a 19, e capacitou 85 manejadores, de 10 comunidades ribeirinhas.
A iniciativa faz parte do projeto “Sistema de rastreabilidade: inovação e inteligência de mercado na cadeia produtiva do pirarucu da RDS Mamirauá”, lançado em dezembro de 2023, em parceria com a Positivo Tecnologia e o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio).
O primeiro curso, focado em “Boas Práticas de Pré-Beneficiamento do Pirarucu”, ocorreu na comunidade Tamanicuá, no município de Juruá. A iniciativa reuniu 67 manejadores das comunidades de Tamanicuá, Santa Luzia do Jussara e São Francisco da Mangueira. Já o segundo curso, sobre “Boas Práticas de Beneficiamento do Pirarucu”, foi realizado na unidade produtiva Salgadeira Cabocla, em Fonte Boa, e contou com 18 participantes de sete comunidades.
Ambos os cursos abordam temas fundamentais, como higiene pessoal, tipos de contaminação, evisceração e lavagem, uso de EPIs, legislação sanitária, técnicas de corte e filetagem, armazenamento e resfriamento do pescado. Muitos participantes destacaram que, embora atuem no manejo do pirarucu há anos, não haviam recebido uma capacitação tão completa.
Gracilvani Ferreira da Costa, morador da comunidade Tamanicuá e presidente do Acordo de Pesca São Sebastião, afirmou que a capacitação foi fundamental para garantir a qualidade do pescado.
“O curso é voltado para o manejo do pirarucu, mas também serve para o nosso dia a dia em casa. Como é um fato novo, estamos começando e não trabalhávamos com o pirarucu manejado antes [na comunidade], acredito que os comunitários estão bastante empenhados em passar [o conhecimento] adiante as boas práticas. Agradecemos aos parceiros, pois a comunidade se sente muito feliz por receber a equipe”, afirmou.
Foto: Rodolfo Pongelupe
Outra participante, Sileia Pinheiro Lopes, moradora da comunidade Batalha de Baixo, destacou a importância de aplicar e compartilhar os conhecimentos adquiridos e observou o aumento da participação feminina no manejo do pescado.
“Antes, tinha muito menos mulheres, mas com o tempo, vieram os cursos e as capacitações. Nós nos esforçamos e hoje temos um número muito maior. Na minha comunidade, as mulheres estão se envolvendo ainda mais no manejo. Agora, quando vamos fazer o manejo do pirarucu, a maioria é mulheres. Com certeza, eu participando desse curso vou estar incentivando outras mulheres”, conta.
Próximos passos
Iniciado em dezembro de 2023, o projeto “Sistema de rastreabilidade” busca melhorar a renda dos pescadores que, anualmente, recebem autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o manejo sustentável do pirarucu na Amazônia.
O sistema de rastreabilidade digitaliza as etapas de pesca, pré-beneficiamento, beneficiamento e comercialização para hotéis e restaurantes. Embora toda a cadeia gere empregos e fortaleça a economia local, a maior parte dos lucros ainda se concentra fora da comunidade, com os pescadores ficando com aproximadamente 15% dos ganhos, conforme aponta um estudo da Universidade Notre Dame, de 2019.
Além do peixe comercializado in natura, após o beneficiamento, a pele do peixe é transformada em couro, servindo ao mercado da moda, utilizada para tecidos, sapatos, bolsas e acessórios. Esse aproveitamento de subprodutos contribui para a geração de empregos diretos e indiretos, dessa maneira reforça a competitividade do setor na região.
“Acreditamos que o pirarucu tem um enorme potencial para gerar renda e promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia. Com o sistema de rastreabilidade e as ações de capacitação, estamos construindo um futuro onde pescadores receberão um retorno financeiro mais justo pela atividade do manejo”, afirma Elizeu Silva, analista de Empreendedorismo da FAS.