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Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos

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Super El Niño. Foto: Reprodução/Nasa

A possibilidade de ocorrência de um Super El Niño no fim deste ano aumenta a preocupação com os impactos de eventos climáticos extremos sobre a agricultura brasileira. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estimam em 95% as chances de o fenômeno ocorrer de forma muito intensa no último trimestre do ano, período que coincide com o início do plantio de diversas culturas no Centro-Oeste, uma das principais regiões produtoras do país. 

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O cenário reforça a importância de preparar a produção para secas, excesso de chuvas e outros eventos extremos não apenas com respostas emergenciais, mas também com medidas estruturantes. Entre elas estão a restauração da vegetação nativa, o fortalecimento do seguro rural, a ampliação do acesso ao crédito e da assistência técnica. 

“Temos defendido que o país precisa avançar em soluções que reduzam os riscos para a produção e deem mais segurança ao produtor diante de um clima cada vez mais instável”, afirma Rodrigo Castro, membro do Conselho Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, rede formada por mais de 400 empresas e organizações da sociedade civil. “Temos conhecimento, tecnologia e instrumentos de política pública para isso, mas é preciso fazer essas soluções chegarem ao campo de forma integrada e ganharem escala.”

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Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O seguro rural é um desses instrumentos. A ampliação de sua cobertura é fundamental para reduzir a vulnerabilidade financeira dos produtores diante de perdas provocadas por eventos extremos e consequentemente quebras severas de safra como aquelas potencialmente provocadas pelo Super El Niño deste ano, contribuindo para preservar sua capacidade de produção nos ciclos seguintes. 

“O Super El Niño chama a atenção para um problema que vai além de um fenômeno específico. Precisamos estar mais preparados para eventos extremos, combinando instrumentos de proteção financeira com outros que tornem a própria produção menos vulnerável. O Brasil tem capacidade técnica e científica para transformar esse desafio em avanço estruturante de forma mais permanente, e não apenas em resposta emergencial”, acrescenta Castro, que também é diretor de País da Fundação Solidaridad.

Quatro caminhos para reduzir os riscos para a produção

1. Tornar o  seguro rural mais robusto

Ampliar o alcance do seguro rural contribui para reduzir os impactos financeiros de eventos extremos e de quebras severas de safra. O instrumento oferece maior proteção ao produtor e ajuda a preservar sua capacidade de continuar produzindo nos ciclos seguintes. 

2. Melhorar o acesso ao crédito para adaptação

O financiamento deve facilitar investimentos em tecnologias e práticas que reduzam a exposição da produção aos riscos climáticos. Em um cenário de juros elevados, aumento dos custos de produção e endividamento de parte dos produtores, instrumentos adequados de crédito são importantes para permitir a modernização das propriedades e a adoção dessas soluções. 

3. Fortalecer a assistência técnica 

A ampliação dos serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) é fundamental para fazer com que conhecimento, tecnologias e políticas públicas cheguem ao produtor. O fortalecimento da assistência técnica, especialmente para pequenos e médios produtores, ajuda a ampliar a adoção de práticas mais adequadas às diferentes condições climáticas e produtivas do país e a acelerar a transição para sistemas produtivos mais resilientes.

4. Acelerar a restauração da vegetação nativa

Recuperar a vegetação nativa, em especial em áreas degradadas e conservar os remanescentes, contribui para a conservação do solo, da água e dos serviços ecossistêmicos dos quais a produção agropecuária depende. A restauração deve integrar uma estratégia de longo prazo onde a conservação dos ativos ambientais amplie a segurança produtiva da propriedade.

Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos
Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos. Foto: Juan Doblas

Sobre a Coalizão

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.

*Com informações da assessoria

Greenpeace Brasil divulga ter identificado Permissão de Lavra Garimpeira usada para “lavar” ouro extraído ilegalmente na Amazônia

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Foto: Bruno Kelly/Greenpeace Brasil

O Greenpeace Brasil identificou mais um caso de Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) “fantasma”, usada para lavar ouro extraído ilegalmente na Amazônia. Trata-se da PLG 851561/2011, da Cooperativa dos Garimpeiros da Amazônia (COOGAM), no Alto Tapajós, em Jacareacanga, no Pará.

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A Permissão de Lavra Garimpeira declarou a retirada de 4,5 kg de ouro, comprados pela F.D’Gold Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda, o que movimentou R$ 2,81 milhões em negociações em junho de 2026. A investigação do Greenpeace Brasil, porém, revela que não houve atividade garimpeira na área permitida. 

Por meio da análise de imagens de satélite e radar, bem como sobrevoo de validação realizado em 27 de julho, o Greenpeace Brasil constatou que nenhuma das 5 dragas licenciadas para a extração de ouro esteve dentro dos limites estabelecidos para a atividade. Porém, ao contrário do que fora licenciado, a organização identificou que as dragas licenciadas estavam minerando fora dos limites autorizados pela Agência Nacional de Mineração e licenciado pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS/PA).

Greenpeace Brasil identifica mais uma Permissão de Lavra Garimpeira usada para “lavar” ouro extraído ilegalmente na Amazônia
Terra Indígena Munduruku – 27.06.2026 – Dragas de garimpo ilegal são vistas no rio Tapajós dentro da Terra indígena Munduruku. Foto: Bruno Kelly/GreenPeace

Leia também: Relatório aponta que garimpo ilegal não diminui e afeta drasticamente ecossistema amazônico

Durante o sobrevoo, também foi possível identificar a formação dos chamados “arrotos de draga” ao longo do curso do rio Tapajós, bancos de areia formados pelo acúmulo de sedimentos e rejeitos da operação das dragas de rio. Em geral, eles alteram o curso natural do rio e dificultam a navegação. É nesses bancos de areia que se concentra o mercúrio usado no processo de amalgamação do ouro.

“Em junho, o Greenpeace Brasil publicou um relatório com uma investigação que identificou 98 PLGs com graves irregularidades. Agora, já são 99. É urgente que a Agência Nacional de Mineração identifique e cancele imediatamente essas PLGs Fantasmas. Quantas mais precisaremos identificar?”, afirma o coordenador da Frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, Danicley Aguiar. 

Sobreposição à Terra Indígena Munduruku

À esquerda, a Ilha do Cururu, na Terra Indígena Munduruku (PA). À direita, a localização da Permissão de Lavra Garimpeira 851561/2011, em imagem extraída do D.A.R.T., ferramenta de anotação e reconhecimento de dragas. Fonte: Greenpeace Brasil

Além da Permissão de Lavra Garimpeira 851561/2011, a COOGAM conseguiu as licenças para outras duas PLGs nos limites da Terra Indígena Munduruku. O conjunto gera impactos sobre a dinâmica social e política do povo Munduruku, especialmente nas quase trinta aldeias que estão próximas dessas permissões. Indígenas relatam poluição sonora, aliciamento de aldeias e comprometimento do abastecimento público de água, relatos que foram ignorados no processo de licenciamento da atividade.

Há ainda um problema de origem no próprio ato de outorga. A Ilha do Cururu, sobreposta pelo polígono da Permissão de Lavra Garimpeira, é descrita como parte integrante da Terra Indígena Munduruku, conforme prevê o Decreto de 25 de fevereiro de 2004. Por isso, o Greenpeace Brasil sustenta que a outorga viola o parágrafo 7º do artigo 231 da Constituição Federal.

“O caso reitera a necessidade de a Agência Nacional de Mineração instituir uma força-tarefa capaz de identificar e cancelar de imediato as PLGs fantasmas que seguem servindo para inserir no mercado formal o ouro roubado de Terras Indígenas e Unidades de Conservação da Amazônia”, alerta Aguiar.

Metodologia

A análise integrou dados das licenças de operação emitidas pela SEMAS/PA, o histórico de arrecadação da CFEM, a estimativa do valor total das operações comerciais e o histórico de eventos processuais da ANM. A esses dados somaram-se o enquadramento socioambiental das poligonais de lavra garimpeira e os alertas de presença de dragas gerados pelo Papa Alpha, sistema de monitoramento remoto do Greenpeace Brasil.

Na esteira do relatório sobre lavagem de ouro

Esta nova denúncia nasce da investigação apresentada no relatório “Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude”, divulgado pelo Greenpeace Brasil em 1º de junho de 2026. O documento mostrou como a Permissão de Lavra Garimpeira, instrumento que atesta a procedência do ouro, vem sendo usada para dar aparência legal ao metal extraído de áreas protegidas, aproveitando falhas na fiscalização da ANM e a dispensa de pesquisa mineral prévia.

O relatório analisou 187 processos minerários registrados entre 2018 e março de 2026 e identificou 98 PLGs com irregularidades, responsáveis pela comercialização declarada de 25,3 toneladas de ouro no período, o equivalente a cerca de R$ 18,4 bilhões em valores atualizados do ouro 24k na primeira quinzena de maio de 2026. 

Terra Indídena Munduruku – 27.06.2026 – Dragas de garimpo ilegal são vistas no rio Tapajós na Terra Indígena Munduruku. Foto: Bruno Kelly/GreenPeace.

A pesquisa descreve duas táticas principais de fraude: nos garimpos fantasmas, a área declara toneladas de produção, enquanto imagens de satélite e sobrevoos mostram floresta intacta ou atividade mínima, incompatível com o volume informado. Nos garimpos em escala industrial, várias PLGs concedidas no mesmo recorte territorial são exploradas como uma única operação, o que permite escapar do licenciamento ambiental mais rigoroso e das regras da mineração industrial.

Entre as recomendações do relatório estão a exigência de pesquisa mineral prévia antes da concessão de PLGs, com base no artigo 6º da Lei 7.805/89, e a identificação e o cancelamento imediato das PLGs que recolheram CFEM sem apresentar evidências claras de exploração. O Greenpeace Brasil também cobra transparência total sobre a Permissão de Lavra Garimpeira e uma fiscalização mais robusta da ANM.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil

Empreendimentos em áreas com geoglifos precisam de anuência do Iphan no Acre

Proprietários e empreendedores serão responsáveis pela conservação temporária das áreas com geoglifos. Eles deverão contratar estudos arqueológicos especializados quando exigido no licenciamento ambiental. Foto: Diego Gurgel

O Conselho Estadual de Meio Ambiente e Florestas (Cemaf) aprovou novas regras para proteger sítios arqueológicos no Acre, incluindo os geoglifos. A resolução exige anuência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para o licenciamento ambiental de empreendimentos nessas áreas e restringe atividades como abertura de ramais, desmatamento e construção de imóveis.

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Publicada no dia 20 de agosto no Diário Oficial do Estado (DOE), a norma define responsabilidades para proprietários, empreendedores e órgãos públicos envolvidos em projetos que possam afetar patrimônios arqueológicos.

A principal mudança é que empreendedores deverão apresentar, durante o processo de licenciamento ambiental, manifestação do Iphan sobre a existência de bens arqueológicos ou de interesse cultural na área que será impactada pelo empreendimento.

O que são os geoglifos?

Os geoglifos são estruturas geométricas escavadas na terra, em diversos formatos que podem ser datados em até três mil anos. O Acre é pioneiro e referência quando o assunto é geoglifos. Em março de 2024, o primeiro geoglifo tombado no estado teve o reconhecimento homologado pelo Ministério da Cultura. Ao todo, o Acre tem registrado mais de mil geoglifos, sendo o estado com o maior número.

geoglifos no acre
Foto: Altino Machado

Leia também: A construção dos ‘deuses geométricos’: os geoglifos da Amazônia

A resolução também determina que, caso sejam identificados vestígios arqueológicos ainda não cadastrados, o Iphan, a Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM) e o empreendedor deverão ser comunicados para adoção das medidas necessárias de proteção e acompanhamento.

Atividades proibidas

A resolução estabelece restrições para áreas onde existam sítios arqueológicos, proibindo atividades que possam causar danos às estruturas ou alterações no terreno. Entre elas estão

  • Abertura de ramais ou estradas;
  • Gradeamento mecânico ou com animais;
  • Plantio de culturas agrícolas ou florestais;
  • Utilização de defensivos agrícolas e produtos químicos para correção do solo;
  • Desmatamento;
  • Instalação de redes elétricas;
  • Construção de residências e estruturas de apoio à produção rural;
  • Construção de açudes e barragens;
  • Exploração de jazidas minerais;
  • Atividades que provoquem movimentação ou remoção de terra;
  • Instalação de equipamentos de esporte e lazer;
  • Instalação de cercas ou estruturas permanentes que possam danificar o sítio;
  • Exploração turística sem preparação prévia e pesquisas científicas.

Também fica proibido utilizar as escavações arqueológicas como bebedouros ou banheiras para animais, além do trânsito de manadas sobre essas áreas durante a troca de pastagem.

A norma orienta que a atividade pecuária seja evitada em áreas com sítios arqueológicos, mas admite sua permanência desde que sejam observadas as condições previstas na resolução.

Proprietários ou ocupantes de áreas notificadas pelo Iphan passam a ser responsáveis pela conservação provisória dos sítios arqueológicos.

Já os empreendedores deverão contratar estudos arqueológicos especializados sempre que houver exigência durante o licenciamento ambiental. A regra também se aplica a atividades desenvolvidas por beneficiários de projetos de reforma agrária.

Leia também: Cientistas do Acre encontram quase 400 novos geoglifos na Amazônia

Legislação

Com a constatação de prejuízos causados aos sítios arqueológicos no Acre, o Ministério Público Federal (MPF) fez um acordo com o Iphan para reparar os danos que acabaram alterando as estruturas originais dos monumentos em março desse ano.

Conforme à medida, as intervenções ocorreram nos geoglifos Missões e Nakahara 73, em Senador Guiomard, interior do Acre, onde os proprietários das terras fizeram a preparação do solo para iniciar uma plantação de soja no local.

Em outubro de 2025, a Justiça Federal suspendeu a resolução nº 2/2022 do Cemaf e a portaria 211/2024 do Imac que dispensavam o licenciamento ambiental para atividades agropecuárias em áreas rurais consolidadas.

À época, o Imac e a Sema informaram ao Grupo Rede Amazônica que iriam cumprir com a decisão judicial. A decisão foi emitida após o MPF, apontar risco de danos irreversíveis aos patrimônios históricos, como as áreas de geoglifos e terras indígenas (TI).

*Por Walace Gomes, da Rede Amazônica AC

De encantarias da floresta a vocábulos próprios, cultura seringueira sofre apagamento e dificuldade de preservação

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‘Encantarias da floresta: A devoção à Santa Raimunda’ é um dos legados presentes da cultura seringueira. Foto: Divulgação/Prefeitura de Assis Brasil

Marcos Fernando, conhecido como Marcos Poeta, cineasta, jornalista e radialista, nasceu na região entre Brasiléia e Epitaciolândia, municípios do estado do Acre. Sua família foi contemporânea do ativista ambiental brasileiro Chico Mendes e morou na Reserva Extrativista (Resex), que leva o nome do líder seringueiro assassinado em 22 de dezembro de 1988. 

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Territórios protegidos por lei e cedidos a populações tradicionais, as Resex unem comunidade e preservação, ao longo de mais de 90 territórios por todo o Brasil. A coleta de frutos da mata, borracha, óleos, sementes e derivados é a característica que move essas áreas de conservação, destinadas a proteger os meios de vida, a cultura das populações tradicionais das florestas e as próprias comunidades que vivem nelas, como os seringueiros. 

Poeta é cineasta e sua família, vinda do nordeste, o criou desde os seis anos nesse território de fronteira, ouvindo os “canto da macucaua, do gogó-de-sol, da aracuã pássaros nativos da reserva onde cresceu, cujo tamanho ultrapassa o milhão de hectares de floresta amazônica.

“Essa questão da Resex [um possível apagamento da cultura seringueira] me preocupa profundamente, porque ela é um patrimônio nosso que, além do valor simbólico, tem um valor estratégico na luta pela preservação da Amazônia e pela dignidade dos povos da floresta”, afirma. 

A urgência de preservação das reservas tem preocupado comunidades como a de Marcos, que veem uma ameaça crescente de eliminação dos saberes da cultura seringueira da região,  nascida da junção da cosmovisão indígena e de migrantes nordestinos que foram ao Acre em busca de novas oportunidades durante os ciclos da borracha, no final do século XIX. 

O seringueiro acordava cedo, se embrenhava pelos varadouros —estradas no meio da mata que os ligavam às seringueiras. Usava a poronga na cabeça, iluminando o caminho, assim como uma cabrita — espécie de faca de risca — para cortar a árvore do látex. Ele voltava para sua casa, no meio do seringal, e de tarde, coletava o que havia saído do corte feito mais cedo para, então, fazer a defumação e produzir a borracha.

Para além disso, os seringueiros têm uma linguagem própria, muito por conta do isolamento geográfico dos seringais para com outros territórios do Estado. Vocábulos colocação, aviamento, macheteiro nascem nessas vivências. O boné na cabeça, as calças e camisas surradas também compõem a vestimenta dessas pessoas. A prática extrativista também influenciou a criação de uma religiosidade típica, que une a cultura popular nordestina e a celebração dos seres encantados da floresta, como o Mapinguari, a Matinta Pereira e o Curupira. 

Leia também: Seringueiros criam cartilha sobre boas práticas do manejo da borracha nativa da Amazônia

De encantarias da floresta a vocábulos próprios, cultura seringueira sofre apagamento e dificuldade de preservação
A Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada no Acre, foi considerada a área protegida mais ameaçada e pressionada pelo desmatamento na Amazônia no segundo semestre de 2025, segundo dados do relatório de Ameaça e Pressão em Áreas Protegidas. Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes

“Os encantos foram uma companhia com que eu cresci junto. Eu enxergo como uma forma de respeito, porque eu acredito e respeito muito toda essa cultura. Onde não tem floresta, não tem encanto. Eu enxergo como algo sobrenatural, que é real e que está ali para proteger a floresta, como o próprio espírito da mata”, conta Laiane Santos, técnica agrícola, moradora da comunidade São Raimundo Nonato, km 59, em Brasiléia, no sul do Acre.

A mistura de referências criou, ao longo das décadas, uma religiosidade tradicional típica do seringal, que além de uma ter uma dimensão cultural, também influenciou a capacidade de organização política e sindicalista destes territórios, outra característica ligada ao universo seringueiro. Entretanto, após realizar uma pesquisa dentro da Resex para um filme que está produzindo, Poeta, que já produziu um documentário sobre a liderança seringueira Wilson Pinheiro, se deparou com uma transformação que lhe saltou os olhos.

“Eu me deparei com uma igreja, um templo protestante em frente à sede da associação [de moradores]. De forma imponente, construída em um prédio em alvenaria. Tomei um susto. Não que a presença de uma igreja em si seja um problema, mas tomei um susto pelo o que representa essa presença”.

A (falta de) memória dos seringais

O fato notado através das imagens de Marcos Poeta expressa uma tensão histórica  de apagamento das práticas culturais dos seringueiros e de outras comunidades presentes nas reservas. Ao longo dos anos, especialmente após a morte de Chico Mendes, a agropecuária e a igreja da Teologia da Prosperidade adentraram com mais força espaços como a Reserva Extrativista. Poeta correlaciona este período com o enfraquecimento político  da militância no território, além da crescente presença do agronegócio dentro dessas regiões. 

A mudança de cenário nas últimas décadas impacta, diretamente, a geração mais jovem, que já não conviveu com a cultura seringueira da forma como se conhecia antes. Para Rachel Dourado, turismóloga, pesquisadora e doutora em Geografia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), a oralidade é essencial neste processo, já que ela afirma que algumas práticas tradicionais deixaram de ser transmitidas às novas gerações e esta ausência da contação de histórias impacta a memória e o vínculo dos povos da floresta.

“Sim, há um processo de sobreposição cultural que acaba tentando apagar essas memórias, mas elas continuam resistindo”, comenta. Os mais velhos do território comentam sobre a dificuldade de transmitir a história e a memória seringueira às novas gerações. 

Quem fala mais é Osmarino Rodrigues, seringueiro desde jovem e liderança comunitária, e um dos fundadores do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Brasiléia (STTR), berço da militância sindical acreana. Segundo ele, a predominância de apenas uma religião no território afetou a multiplicidade e transmissão de saberes seringueiros.  

Laiane Santos lembra que seu avô era um dos poucos que contava essas histórias da mata, não deixando seus tios caçarem todos os dias, por exemplo, caso ainda tivessem carne em casa, em respeito à floresta, mesmo ouvindo que isso fosse considerado “coisa do diabo” na época. “Hoje poucos jovens têm acesso a essas histórias. A gente tem um problema muito grande, que é a perda da nossa identidade, porque os mais velhos não contavam esses causos”, relembra a técnica agrícola.

Rodrigues reclama como o crescimento da religiosidade interfere na transmissão de saberes seringueiros e “desarma” as comunidades extrativistas contra fenômenos de apagamento. Para ele, existe uma “tribulação” acontecendo na Resex Chico Mendes, sendo essa um exemplo de como a memória e a história seringueira vêm se perdendo. 

Encantarias, rogai por nós

“A Santa Raimunda é uma mulher linda”, descreve Rachel Dourado. Santa Raimunda, assim como outros encantados das matas são cultuados e  guiam as comunidades dentro das Resexs. Segundo Marcos Poeta, as encantarias da floresta são expressões de conhecimento que, diante da destruição da floresta, também são ameaçadas. Como evocar uma entidade da mata, sem a mata? Toda essa construção histórica, um patrimônio civilizatório do território, se perde com o apagamento cultural dos saberes seringueiros e com a própria destruição das reservas

“As histórias da floresta são histórias principalmente de sobrevivência e de esperança. A floresta  tem mistérios e encantarias que são bem maiores do que a nossa ignorância e a nossa pretensão humana”, ressalta Poeta. 

Osmarino deixa claro que essas histórias ajudaram os seringueiros a criarem sua própria cultura e, por conseguinte, sobreviverem na rotina tão próxima da mata, dos rios, da floresta como um todo. Do lobisomem ao boto, da caipora ao caboclo da mata, todas essas narrativas estão presentes no cerne da vida seringueira. Este estilo de vida foi tema de pesquisa de Rachel Dourado. Em uma de suas andanças pelo seringal Bom Sucesso, no município de Assis Brasil, no Acre, ela encontrou aquela que seria tema de seu livro Espaço de peregrinação: devoção nas estradas da seringa, lançado neste ano.

“Quando conheci a Santa Raimunda, que é a alma do Bom Sucesso, fiquei intrigada porque vi alguns elementos que já tinha percebido lá em São João do Guarani, e como esses elementos faziam parte daquela relação de ser moradora da floresta e precisar disso para criar os vínculos comunitários”, relembra.

Leia também: Museu do Seringal: curiosidades sobre o local que mantém viva a história da exploração da borracha na Amazônia

A procissão em homenagem à Santa Raimunda acontece anualmente por dentro da mata, reafirmando a relação entre a cultura e a preservação do meio ambiente. Foto: Divulgação/Prefeitura de Assis Brasil

 A figura de São João do Guarani é cultuada em uma festa tradicional realizada anualmente no município de Xapuri, também no Acre, onde se celebra um santo não oficial da Igreja Católica, considerado pelos seringueiros e moradores locais como uma “alma milagrosa” e um protetor da floresta.

Para a pesquisadora, essa fé na floresta cria vínculos comunitários que perpassam o tempo e o espaço. Guiando pensamentos e comportamentos de solidariedade intrínsecos à vivência na Amazônia, algo que Poeta descreve como: “São povos que se preocupam com os outros, pessoas que querem dar o seu melhor. Porque a gente compreende que você não sobrevive, você não melhora a qualidade de vida, se melhorar só para você. Se for bom só para mim, é ruim para todo mundo. Tem que ser bom para a humanidade”

Mas afinal, quem foi a Santa Raimunda? Provavelmente de etnia Manchineri, povo indígena de língua Aruaqui que vive na região da tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru, conta-se que ela viveu no Alto Iaco no início do século XX durante o primeiro ciclo da borracha, período marcado pela exploração sob regime de semiescravidão. 

Atuava como parteira e também na extração do látex — trabalho invisibilizado pelos patrões, que registravam e reconheciam apenas os homens. Grávida de nove meses e responsável por recolher o leite das seringueiras, Raimunda foi agredida pelo marido. Em seguida, durante a ronda de coleta, entrou em trabalho de parto na mata, mas não resistiu e faleceu encostada a uma árvore.

Ao ser encontrada já sem vida, a impossibilidade física de mover seu corpo foi interpretada como um sinal da tradição indígena de pertencimento à terra, o que levou ao seu sepultamento no próprio local. Décadas depois, tornaram-se comuns os relatos sobre um perfume misterioso na área, criando a crença de uma permanência de sua alma na memória popular. Dourado relata que:

“As mulheres dos seringais olham na Raimunda a presença de uma mulher que, mesmo oprimida pelo capitalismo e mesmo oprimida pelo machismo, se reconstrói morta”.

Uma prosperidade que esvazia

Osmarino Rodrigues conta que, após a morte de Chico Mendes, uma outra cultura ganhou forma nesses seringais, tomando de assalto as crenças e a cultura que residia lá. Para a liderança comunitária, este apagamento ameaça a perpetuação de saberes e figuras do território, como a Santa Raimunda e diversos outros que ele afirma perceber que não são mais tão presentes no cotidiano da juventude, por exemplo: “É uma situação complicada hoje a que nós estamos vivendo. Muita gente está falando de fé, mas é uma fé esperando Deus resolver essa opressão. E isso não vai ser resolvido por Deus. Tem que ser resolvido por nós”, diz. 

O seringueiro fala da persistência de continuar acreditando que um projeto de reforma agrária para a Floresta Amazônica, como o das Reservas Extrativistas, uma gestão territorial baseada no uso sustentável e coletivo dos recursos naturais. Este “varadouro” passa pela juventude que, segundo ele, precisa se apropriar dessa cultura para não entregar “o nosso potencial, que é essa grande floresta, para o grande capital.”

“Hoje nós estamos vendo uma juventude se levantando, mas também estamos vendo o tráfico se apropriando de uma grande leva de jovens. Precisamos ter atitude, ação para fazer esse enfrentamento”, diz.

Institucionalizadas oficialmente pelo governo federal na década de 1990 e consolidadas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as Resex desempenham um duplo papel estratégico: garantem a permanência e a dignidade das comunidades na floresta e barram o avanço da grilagem e do desmatamento ilegal. Segundo Osmarino, o afastamento dos mais novos e o esvaziamento dos saberes está ligado a uma presença hegemônica de templos religiosos ligados ao agronegócio.

Nessa disputa, entram duas teorias religiosas, a Teologia da Libertação e a Teologia da Prosperidade. Duas visões teológicas e ideológicas antagônicas que disputam a relação do homem com a natureza na Amazônia. De um lado, a ética associada ao espírito do capitalismo baseia-se na individualidade, no interesse pessoal e em uma perspectiva economicista. Em contraposição, a Teologia da Libertação orienta-se pelo serviço social, pela coletividade e pelo pertencimento mútuo entre o ser humano e o meio ambiente.  Historicamente ligada às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica, essa corrente comunitária desempenhou papel decisivo na formação e no fortalecimento do movimento seringueiro. 

Embora o líder ambientalista Chico Mendes tenha recebido contribuição fundamental do educador Euclides Távora, foi no amparo da Teologia da Libertação que ele expandiu sua visão de mundo e encontrou sustentação política quando rejeitado por outras instituições. 

O que se revela no respeito que este povo tem com a floresta e com sua comunidade, o que é permeado por toda uma devoção popular. As mudanças trazidas pela juventude, como o ingresso nas universidades, não deveria significar uma desconexão com a cultura do território. 

“Preservar a cultura e preservar a floresta estão associadas. Quando a gente escuta uma história de um encantado, que se você derrubar a árvore ele vai te bater, é uma forma que a gente tem de regular o convívio”, explica Dourado.

A historiadora relembra uma história contada a ela, ilustrando esta afirmação. Em meio a pesquisa que deu origem ao seu livro, ela estava na fronteira do Acre e Peru, na cidade de Inãpari, uma senhora relatou ter recorrido à oração para Santa Raimunda, do Acre, após ser diagnosticada com câncer de colo de útero. As encantarias estão presentes na cultura amazônida e seringueira, mesmo depois de tantas transformações históricas e sociais. 

A organização política e cultural do seringueiros é histórica e atravessa gerações. Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes

O passado da cultura seringueira 

A inventividade dos seringueiros era também uma forma de resistência. Olhando para trás, é possível entender de onde vem a formação dessa cultura, muito associada aos movimentos políticos encabeçados pelos trabalhadores. 

Na década de 1870, após uma seca severa no Nordeste, milhares de homens abandonaram suas famílias em prol de um sonho: enriquecer com a extração do látex da borracha, nos seringais do Acre. Este foi o primeiro ciclo da borracha registrado. Até que, em 1899, a Primeira República do Acre foi proclamada pelo jornalista espanhol Luis Gálvez Rodríguez de Arias, o Gálvez, que virou até série escrita pela novelista, vencedora do Emmy e acreana, Glória Perez. 

Este período foi marcado pelo conflito de interesses entre a burguesia de Manaus, que desejava capturar a arrecadação de impostos sobre a exportação do látex e os seringueiros, que eram cada vez mais subjugados. Em 1900, o número de migrantes para a Amazônia chegou a ser de 15.773, segundo a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).

Neste imbróglio, os seringueiros se juntaram em uma força armamentista que, como está nos livros de história, enfrentou reviravoltas e vai-e-vens entre Brasil e Bolívia. Com o conhecimento dos rios e varadouros e recrutados por Plácido de Castro, eles surpreenderam as guarnições bolivianas e venceram a guerra, conseguindo consolidar a independência acreana em 6 de agosto de 1902, até sua consolidação enquanto território brasileiro em 15 de junho de 1962. Contudo, os seringueiros, usados como massa de manobra durante esta guerra não tiveram o mesmo “feliz para sempre” que os livros gostam de dar para esta história.

Enquanto os patrões seringalistas, responsáveis pelo regime de semiescravidão que lideraram o movimento, foram patenteados e contemplados com indenizações e pensões do governo federal, os seringueiros da base foram desmobilizados sem receber títulos de propriedade ou reparações financeiras. Essa massa de trabalhadores permaneceu submetida ao regime de endividamento dos barracões, mantendo a estrutura de exploração no Acre Federal. Uma repressão que ficou ainda mais evidenciada pelo assassinato de Plácido de Castro em um seringal, o Benfica, em 11 de agosto de 1908. 

Leia também: ‘Empate’: conheça a estratégia utilizada pelos seringueiros do Acre para impedir o desmatamento

“Eu era muito jovem na época, mas lembro perfeitamente que a gente já sabia o que queria: uma luta acirrada pela defesa do território, resolver o conflito fundiário, a grilagem de terra e os enfrentamentos. Nesses conflitos, a gente viu muitos seringueiros, muitas seringueiras, mulheres e homens fazendo as suas orações baseadas no movimento”, relembra Osmarino Rodrigues.

O Pai Nosso do Seringueiro, que troca os versos da oração cristã para a realidade dos seringueiros e sua relação com a seringueira, é um exemplo dessa atualização e subversão de práticas impostas. 

Com o alto índice de analfabetismo dos seringueiros, a oração e os cantos, como o Hino do Seringueiro, valorizavam e incluíam estes trabalhadores, por meio da cultura. A organização e o senso de comunidade influenciou uma organização política, como o 1º Encontro Nacional Encontro dos Seringueiros, em Brasília, em 1985, que fez nascer a Aliança dos Povos da Floresta, uma união histórica de mais de 100 representantes de trabalhadores extrativistas (seringueiros, castanheiros e pescadores) e indígenas dos estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Pará e Amapá, liderados por Chico Mendes. Cultura, política e o meio ambiente sempre estiveram unidos na história e memória da movimentação seringueira. 

A resistência dos seringueiros também se dava na criação de modos pacíficos de enfrentamento. Entre as décadas de 70 e 80, os conflitos de terra nestas regiões aumentaram consideravelmente, levando à criação dos Empates, cordões humanos formados por homens, mulheres e criança, feitos para proteger as árvores da motosserra e para reivindicar um diálogo com a comunidade. 

Para Osmarino, as práticas culturais dos dos seringueiros e o senso de coletividade sempre foram essenciais para que a luta continuasse. Entretanto, a fé, sem mobilização social não era nada, para ele, o que é uma preocupação atual, já que acredita que hoje se pregue uma religiosidade desconectada das questões sociais.  “Se nós não tivéssemos adquirido uma certa consciência de classe, só a fé não teria resolvido esse problema”, declara.

O coletivo Coletivo Varadouro, organização fundada em 2023, forma uma nova geração de ambientalistas no estado. Foto: Glauber Maia

Pertencer para proteger

Em um cenário de degradação socioambiental e cultural, Marcos Poeta aponta que a substituição da perspectiva comunitária por uma política de “terra arrasada” coloca em risco a sustentabilidade da região e a própria sobrevivência das comunidades tradicionais. “As coisas na história não acontecem por acaso, elas são construídas historicamente”, completa.

A preocupação de lideranças e organizações tem sido, justamente, essa: não permitir que se esqueça a história de resistência da região. Neste sentido, organizações semelhantes à Aliança dos Povos da Floresta persistem na proteção de  linguagens e memórias, evitando que a cultura exploratória destrua e consuma o que já existe nestes espaços. 

“Para mim, o fato de os saberes não serem transmitidos impacta diretamente na vida da juventude, porque a gente perde a identidade. Na verdade, não é só a história, é uma perda de identidade. Aquilo que não é contado é esquecido; o que é esquecido é morto. Acaba que a juventude, por não ter uma cultura própria, vai se apropriando e se perdendo nas culturas do agro, do sertanejo”, reflete Laiane Santos sobre essa resistência em permanecer lutando pela manutenção de saberes seringueiros. Além da questão da memória, tornou-se comum a saída da juventude do território e o seu não-retorno. 

Em 2026, o Comitê Chico Mendes organiza o Festival Jovens do Futuro, que neste ano busca falar justamente sobre o pertencimento enquanto ferramenta de defesa. Já o Coletivo Varadouro, organização fundada em 2023 por jovens extrativistas, dedicado à mobilização social por meio de oficinas nas reservas extrativistas, ganhou espaço internacional em conferências climáticas como a de Bonn e a COP30, em Belém, levando essas pautas para os espaços de tomada de decisão.

A manutenção dos saberes seringueiros é fundamental, segundo os entrevistados, para armar as populações que pertencem aos territórios de reserva contra as ameaças que, com o passar do tempo, se atualizam, mas sempre permanecem.“A [Santa] Raimunda faz essa ponte, e ela e todos os santos populares que estão dentro da Resex Chico Mendes fazem essa conexão com o que foi o passado, com a luta para permanecer, com a conquista do território e com a necessidade de vínculos comunitários para continuar existindo ali”, complementa Rachel Dourado.

A santa é conhecida por seus milagres. Foto: Divulgação/Prefeitura de Assis Brasil

Atualmente, o território enfrenta uma série de tensões. Em 2021, 89,5 km² (8.958 hectares) foram desmatados na Resex Chico Mendes, o que simbolizou uma onda crescente de destruição ambiental na década de 2020, processo acelerado pelo descaso institucional com o monitoramento e pela pressão partidária sobre a terra, resultando em, por exemplo, mais de mil focos de incêndio na área de 970.570 hectares, que abrange sete municípios no Acre. 

Rachel Dourado destaca que a manutenção da mata em pé exige o acesso contínuo a direitos fundamentais, como saúde, educação e segurança alimentar, fortalecendo a identidade de quem transita entre o campo e a cidade. “A gente tem esses guardiões da floresta que sempre estiveram lá, e acho que isso é muito importante para a gente se fortalecer enquanto comunidade, voltar a se sentir pertencente a esse lugar”, afirma.

Projetos que conectam os jovens à recepção de visitantes urbanos e ao turismo comunitário, como a empresa Destino Acre e o trabalho de ecoturismo feito na casa do seu Raimundão Mendes atraem gente de todo o mundo, têm se mostrado caminhos promissores de geração de renda. 

“Um intercâmbio para a gente poder levar algumas pessoas da reserva para fazer uma determinada ação nas escolas dos municípios, nas faculdades, nos bairros, e trazer estudantes e jovens sindicalistas para dentro da reserva, para dentro do movimento camponês”, pensa Rodrigues sobre possíveis caminhos para conexão entre gerações. 

Para o seringueiro Marcos Poeta, a resposta para preservação do território está justamente no fortalecimento do sentimento de pertencimento dentro destas famílias que ainda moram neste território. Ele diz que “se você pertence a algo, você não quer destruir”. A solidariedade e o saberes da oralidade fazem parte do cerne das comunidades que estão e pertencem à Amazônia.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Victor Manoel

Casal do Acre cria jogo inspirado na fauna brasileira para estimular aprendizado pelo celular

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Interface do jogo foi desenvolvida por Giuliano, enquanto Risoleta ficou responsável pela escolha dos animais e pela construção da temática. Foto: Divulgação

Ensinar em forma de brincadeira enquanto estimula o raciocínio lógico. Esta é a missão do jogo ‘Olha o Bichim‘, criado pela servidora pública Risoleta Miranda e o marido dela, o analista de sistemas Giuliano Cardoso. O jogo, disponível para smartphones, combina a mecânica do clássico 2048 com animais da fauna brasileira.

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A interface do jogo foi desenvolvida por Giuliano, enquanto Risoleta ficou responsável pela escolha dos animais e pela construção da temática. O jogo está disponível gratuitamente para Android e iOS e pode ser jogado on-line e até off-line.

Risoleta explica que a ideia surgiu quando o esposo decidiu desenvolver uma versão do quebra-cabeça 2048 e a convidou a definir a ambientação. O jogo é direcionado ao público infantil, mas, segundo a co-criadora, todas as faixas etárias podem se divertir.

“Pensei em moldar a temática do jogo de uma forma que forneça o prazer de jogar com o prazer em aprender. Sempre caminho no Parque Ipê e vi uma criança encantada ao ver as capivaras, ela falou: ‘olha mãe, o bichinho’. Isso ficou martelando na minha cabeça”, explica.

Leia também: 3 jogos que levam a Amazônia para a telinha dos celulares

A escolha também levou em consideração o contato cada vez mais frequente das crianças com dispositivos eletrônicos.

Para Risoleta, embora o uso excessivo de telas seja uma preocupação para pais e educadores, a proposta foi pensar em uma alternativa para quando a criança estiver no celular.

“Se for para usar a tela, moderada ou moderadamente, que seja com algo que estimule áreas que são da nossa cultura e interesse em preservar. A primeira escolha, instintivamente veio: Tem que ter capivara! A capivara é a rainha do momento!”, afirma.

Matemática e coordenação

A diferença entre o aplicativo criado pelos acreanos e o jogo que o inspirou está na representação: os números são associados a animais. Risoleta destaca que a escolha permite que a dinâmica seja compreendida até por crianças que não dominam matemática.

“Como sei que hoje em dia crianças não alfabetizadas também gostam de consumir jogos, então, os animais foram escolhidos para serem o aspecto duplo do número no tabuleiro: quem sabe somar, joga somando. Quem não sabe somar, joga unindo, juntando os desenhos iguais”, diz.

Além do raciocínio matemático, os movimentos exigem precisão. Segundo ela, a sensibilidade dos comandos faz com que um movimento errado possa comprometer toda a sequência da partida. Além disso, a dinâmica também exige planejamento.

Espécies ameaçadas

Outro critério utilizado na escolha dos personagens foi a possibilidade de apresentar animais que não fazem parte do cotidiano de muitas crianças.

O peixe-boi, por exemplo, foi incluído por enfrentar risco de extinção e por ser uma espécie que dificilmente é observada pessoalmente por crianças. Com isso, a plataforma busca despertar a consciência ambiental dos jogadores.

“No nosso jogo, ele [peixe-boi] aparece em uma etapa mais avançada da progressão, como um animal considerado até especial. O lobo-guará também foi escolhido por ser uma espécie que ainda é meio desconhecida por parte da população, tudo foi bem pensado para ser lúdico”, pontua.

Possibilidades de uso

Além da proposta de entretenimento, os criadores começaram a perceber possibilidades de utilização do jogo em atividades escolares. Segundo Risoleta, alguns amigos professores conheceram o projeto, gostaram da proposta e passaram a recomendá-lo aos alunos.

Em uma aula de matemática, por exemplo, o professor pode utilizar o jogo como uma introdução a conteúdos como progressão geométrica, potenciação e raiz quadrada.

“Na biologia, os animais podem servir como ponto de partida para discutir mamíferos, répteis, anfíbios e outras classificações e nas aulas de geografia, os estudantes podem ser estimulados a identificar a qual bioma brasileiro pertence cada espécie”, acrescenta.

Risoleta argumenta ainda que o jogo pode ser uma proposta de raciocínio lógico, nas quais o desafio passa a ser encontrar estratégias para avançar no tabuleiro. “Tudo depende do contexto e da didática”, complementa.

*Por Walace Gomes, da Rede Amazônica Acre

Focos de calor no Amapá sobem 400% no início da estiagem, aponta meteorologista

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Focos de calor no Amapá sobem 400% no início da estiagem, aponta meteorologista. Foto: Rafael Aleixo/Arquivo Rede Amazônica AP

O Amapá registrou um aumento de 400% nos focos de calor neste início de agosto em comparação com o mesmo período do ano passado. Para tentar conter o avanço do fogo, o governo estadual e a Defesa Civil reforçaram as campanhas de conscientização.

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Segundo o meteorologista do Iepa, Jeferson Vilhena, o salto percentual expressivo reflete a transição para a época seca.

“A gente começou a enviar os boletins de focos de calor e de incêndio logo no início do mês de agosto. A gente percebe um aumento bastante significativo com relação ao mesmo período do ano passado, cerca de 400% de focos a mais. Entretanto, a gente ainda está no início da estiagem”, afirmou Vilhena.

Na prática, o estado saltou de cerca de 20 para mais de 100 focos de calor identificados. Desse total, entre quatro e cinco já foram confirmados como incêndios por imagens de satélite.

Leia também: Incêndios florestais aumentam mais de 300% em Manaus durante período de estiagem; veja dicas e orientações

Focos de calor no Amapá sobem 400% no início da estiagem, aponta meteorologista
Foto: John Pacheco/Rede Amazônica AP

Prevenção ajuda a amenizar número de focos de calor

“Nós estamos ainda computando bastante chuvas e esse número de 400% a mais ele se dá justamente porque logo no início do mês são muito poucos focos durante o ano”, explicou o meteorologista.

O monitoramento é liderado pelo Núcleo de Meteorologia e Recursos Hídricos do Iepa (NHMET), em parceria com a Sala de Situação da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).

O levantamento reúne dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) para o mapeamento das queimadas.

As ações de prevenção contam com o apoio do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Amapá (PPCDAP). As informações são repassadas aos órgãos de fiscalização e resgate para orientar o combate direto em campo.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica Amapá

Minerais críticos e estratégicos, o Brasil sem domínio nem estratégia para exploração industrial no curto prazo

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Terras raras são minerais que compõem um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza. Foto: Amarildo Gomes

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Segundo o IPEA, minerais críticos e estratégicos são aqueles essenciais para a soberania, a economia, a segurança alimentar e a transição energética, cuja oferta pode estar sujeita a riscos de abastecimento, seja por concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica ou limitações tecnológicas. É importante destacar que o conceito de minerais críticos e estratégicos varia de acordo com cada país. Particularmente, os elementos Terras Raras são o conjunto de 17 elementos químicos presentes na tabela periódica, sendo 15 deles da família dos lantanídeos mais escândio e ítrio. Ocorrem em minerais como monazita, xenotima, bastnasita, argilas iônicas, dentre outros.

Quanto aos minerais estratégicos, o IPEA define como “aqueles essenciais para o desenvolvimento econômico dos países e que tenham importância pela sua aplicação em produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética”. O suprimento de minerais críticos pode envolver riscos por diferentes questões, como limitações de reservas e produção que afetem a economia do país. A relação de minerais críticos ou estratégicos varia para cada país.

Para o Brasil, por exemplo, pode-se considerar críticos insumos minerais na produção de fertilizantes amplamente utilizados na agricultura, que é um setor chave na nossa economia. Devido às suas propriedades magnéticas, ópticas e elétricas terras raras são essenciais na fabricação de produtos de tecnologias avançadas tais como ímãs de alta performance, baterias, catalisadores, notebooks e smartphones. São fundamentais em diversos sistemas e equipamentos militares como mísseis, drones, submarinos nucleares, caças supersônicos, radares e sistemas de orientação de armas guiadas, blindagens avançadas.

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Terras raras são minerais que compõem um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Minerais críticos e estratégicos apresentam alto risco de escassez e/ou dependência externa devido às cadeias de suprimentos serem vulneráveis a interrupções devido a fatores como restrições associadas a risco político estrangeiro, crescimento abrupto da demanda, conflito militar, comportamento anticompetitivo ou protecionista e outros riscos ao longo da cadeia de suprimentos.

Além de seus usos tradicionais relacionados à mineração, suas aplicações estão diretamente ligadas à transição energética, à digitalização, à defesa e à indústria de alta tecnologia (lítio, cobalto, grafita, terras raras, níquel, nióbio); baterias de íon-lítio (lítio, níquel, cobalto, grafita, manganês), veículos elétricos (lítio, terras raras, cobre, níquel, alumínio), turbinas eólicas (terras raras como neodímio e disprósio para ímãs permanentes), painéis solares fotovoltaicos (silício, prata, índio, telúrio); smartphones, computadores e tablets (terras raras, tântalo, lítio, estanho), semicondutores e chips (gálio, germânio, silício), data centers e infraestrutura de internet (cobre, níquel, grafita, satélites e equipamentos espaciais (terras raras, lítio, berílio), blindagens e ligas especiais (níquel, manganês), redes elétricas e transmissão (cobre, alumínio), robótica e automação industrial (titânio, alumínio), equipamentos médicos de alta precisão, fertilizantes (potássio, fósforo), micronutrientes agrícolas (zinco, manganês).

De acordo com estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), as terras raras não são apenas um recurso mineral; mas um dos fundamentos materiais da economia do século XXI. O Brasil possui a segunda maior dotação geológica do mineral, atrás da China, incluindo depósitos estratégicos de terras raras pesadas associados a argilas de adsorção iônica, e está entre os poucos países com potencial para contribuir de forma relevante para a diversificação das cadeias globais de suprimento de minerais críticos.

Leia também: Terras Raras, o novo petróleo, elemento fundamental à inserção do Brasil no mundo da alta tecnologia do século XXI

Brasil tem grande potencial de minerais, inclusive do grupo de Terras Raras.
Brasil tem grande potencial de terras raras. Foto: Reprodução/Minera Jr.

Entretanto, participa com parcela reduzida da produção global e praticamente não possui presença nos segmentos de maior valor agregado da cadeia, como separação química, refino, metalurgia, ligas especiais e ímãs permanentes. O contexto internacional, saliente-se, a propósito, é marcado pela crescente competição por minerais críticos essenciais para a transição energética, defesa, tecnologias digitais, inteligência artificial e segurança econômica.

Não obstante suas privilegiados reservas, incluindo depósitos estratégicos de terras raras associados a argilas de adsorção iônica, o Brasil participa com parcela reduzida da produção global e praticamente não possui presença nos segmentos de maior valor agregado da cadeia, como separação química, refino, metalurgia, ligas especiais e ímãs permanentes. O contexto internacional é marcado pela crescente competição por minerais críticos essenciais para a transição energética, defesa, tecnologias digitais, inteligência artificial e segurança econômica.

Nesse cenário, a consolidação de capacidades nacionais ao longo da cadeia produtiva de terras raras passa a representar não apenas uma oportunidade econômica, mas também um tema de relevância estratégica para o desenvolvimento nacional. A maioria dos estudos técnicos são conclusivos: a questão central para o Brasil não é a disponibilidade de recursos, mas a definição dos elos da cadeia nos quais o país pretende construir vantagens competitivas e as capacidades tecnológicas, industriais e institucionais necessárias para capturar valor econômico e estratégico.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista.

Cidade do Acre pode estar sobre falha geológica ainda desconhecida, aponta estudo

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O estudo levanta a hipótese da existência de uma falha geológica ainda desconhecida na região. Foto: Jardy Lopes/Arquivo pessoal

Uma pesquisa desenvolvida por estudiosos da Universidade Federal do Acre (Ufac) identificou uma concentração de terremotos em Tarauacá, distante 400 km da capital Rio Branco, e levantou a hipótese da existência de uma grande estrutura geológica, chamada de falha de Tarauacá.

Os pesquisadores analisaram registros de terremotos ocorridos desde a década de 1950 com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Eles classificaram os tremores pela localização, profundidade, magnitude e data em que ocorreram. Com essas informações, produziram mapas para identificar as regiões com maior risco de terremotos.

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Segundo os pesquisadores, essa falha pode estar relacionada à divisão do território acreano em duas unidades tectônicas, chamadas de Placa do Juruá e Placa do Purus.

Contudo, a falha ainda é uma hipótese científica. Os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários estudos geofísicos mais aprofundados para confirmar a estrutura e compreender melhor a relação dela com os tremores registrados no estado.

“Na verdade, a gente chamou de falha de Tarauacá por ser um contexto regional, acredito que está estabelecido dessa forma e agora é só comprovar com dados mais robustos para que tenhamos avanços nesse sentido”, explicou o professor do curso de geografia da Universidade Federal do Acre (Ufac) Waldemir Lima.

Leia também: Tarauacá é a cidade acreana mais atingida por terremotos, aponta levantamento

Mestre em geografia na Ufac, Cleyton Aguiar Crisóstomo acrescenta que os terremotos sentidos no Acre também estão ligados a um cenário geológico maior: O estado está próximo dos Andes, onde a placa de Nazca mergulha sob a placa Sul-Americana.

“Quando acontece um choque entre as placas, a energia liberada ali acaba chegando em regiões de fragilidades dessas placas. As falhas são regiões de fragilidade e é por isso que, quando acontecesse esse choque, acabam ocorrendo essas ocorrências de sismos na região de Tarauacá”, exemplificou.

Proximidade com os Andes

Ainda segundo Waldemir Lima, Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima estão mais próximos dos Andes, o que explicaria mais abalos nas regiões. Contudo, a pesquisa identificou que a cidade de Tarauacá é a mais atingida.

Segundo ele, as características do relevo na região de Tarauacá ajudam a explicar a ocorrência dos eventos. Conforme o pesquisador, um trecho entre o município e o Rio Gregório há uma configuração geológica diferenciada.

“O que corrobora isso é o relevo. Em um curto espaço de terra, de 60 quilômetros da cidade até o Rio Gregório, tem-se uma configuração de relevo diferenciada, o que configura como uma neotectônica ativa regional com vales encaixados, com drenagem diferente e relevo bastante ondulado”, relatou.

Cidade do Acre pode estar sobre falha geológica ainda desconhecida, aponta estudo
Estudiosos analisaram sismos ocorridos no Acre entre 1950 e 2017. Imagem: Reprodução/Rede Amazônica Acre

Ao colocar esses abalos no mapa, os pesquisadores perceberam que os eventos não estão distribuídos de maneira aleatória. A concentração levantou uma hipótese: a existência de uma grande estrutura geológica na região.

Os tremores percebidos no estado ocorrem mesmo a centenas de quilômetros da região onde há o encontro entre as placas Sul-Americana e de Nazca. Conforme Cleyton, a energia gerada pelo movimento dessas placas é liberada em áreas de fragilidade.

“No caso do Acre, o estado está, mais ou menor, a 600 ou 150 quilômetros de profundidade da placa. Então, isso faz com que quando acontece a liberação de energia, ela é amenizada e quando chega no superfície já não tem potencial destrutivo”, destacou o professor.

Apesar de os abalos serem sentidos por moradores da região, o Acre não costuma registrar terremotos com o mesmo potencial destrutivo observado em regiões próximas às áreas de encontro das placas tectônicas.

“A região do Acre, assim como todo o Brasil e a América do Sul, está em uma placa chamada placa sul-americana. Mas, existe a hipótese de ter uma rachadura nessa placa, que passa pelo Acre, e isso explica a ocorrência de sismos no estado”, acrescentou.

Leia também: O maior terremoto do Brasil aconteceu na Amazônia

Registros

No final de julho, o terremoto de magnitude 5,6 registrado próximo da fronteira entre o Peru e o Brasil teve reflexos sentidos em cidades do Acre. Moradores relataram ao Grupo Rede Amazônica terem sentido tremores em suas casas por volta das 20h no horário local, 22h em Brasília.

Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), o tremor ocorreu perto da cidade de Pucallpa, no lado peruano da fronteira. O epicentro estava a cerca de 60 quilômetros da fronteira entre o Peru e o Acre.

Na quinta-feira (20), moradores do Acre sentirem o tremor de terra após um terremoto de magnitude 6,7 atinge o Peru e deixa 3 feridos. No estado acreano, o prédio da Assembleia Legislativo (Aleac) e de outros órgãos foram evacuados.

Este foi o segundo abalo sísmico percebido no estado acreano em 10 dias. No último dia 10, moradores de Mâncio Lima, interior do Acre, sentiram um leve tremor de terra após o terremoto de magnitude 7,4 atingir a Colômbia.

*Por Walace Gomes e Lucas Thadeu, da Rede Amazônica Acre

“Brasil possui 12% de água doce do planeta”, alerta debate sobre água na Amazônia em Macapá

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Evento reuniu especialistas para falar sobre o atual estado dos ecossistemas amazônicos frente às mudanças climáticas. Foto: Marcos Torres/Academia Brasileira de Ciências

O Brasil possui 12% da água doce do planeta, três quartos na Amazônia. Maior bacia hidrográfica do mundo, onde estão os rios mais imponentes, falar de crise hídrica na região parece contrassenso, mas é a realidade quando olhamos para a trajetória de degradação das últimas quatro décadas.

“No século 21, o número de dias em emergência hídrica da cidade de Manaus, aferida pelo nível da água nos rios, já é maior do que em todo o século anterior”, resumiu o pesquisador Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Schöngart foi um dos palestrantes do ‘Debate COP 30: Balanço Crítico e Lições para a Ciência Brasileira rumo à COP 31’, organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá, antecedendo o ‘Simpósio e Diplomação dos Novos Afiliados ABC para a Região Norte’. O evento foi o segundo de uma série de debates inaugurada no dia 5 de agosto, quando especialistas em cada bioma brasileiro apresentaram o estado atual dos ecossistemas frente às mudanças climáticas.

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Igarapés: termômetros para as mudanças climáticas

A Amazônia é o maior bioma brasileiro, ocupando 5,5 milhões de quilômetros quadrados entre o Brasil e outras oito nações. Se fosse um país, seria o sétimo maior do mundo. Considerando o tamanho, é natural que o impacto das mudanças climáticas seja diferente em suas sub-regiões, e, por isso, o enfrentamento da crise precisa ter um olhar regionalizado.

“O que dá certo no Amapá pode não dar certo no Amazonas, e assim por diante”, resumiu o ecólogo Leandro Juen, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Rios da Amazônia ainda concentram boa parte de água doce do planeta
Rios amazônicos concentram boa parte da água doce do planeta. Foto: Reprodução/Youtube-Instituto Soka Amazônia

Juen estuda os igarapés, talvez os rios amazônicos mais esquecidos. Numa floresta de rios caudalosos, os pequenos córregos não chamam atenção, mas são o melhor termômetro para avaliar a saúde hídrica do bioma.

“A maior parte da bacia é formada por igarapés, e são eles que primeiro manifestam os efeitos das mudanças climáticas. É onde a temperatura da água aumenta mais rápido e onde primeiro se perdem as espécies. A perda de intensidade nos pulsos de água não apenas diminui a vazão, muitos igarapés mudam de lugar ou desaparecem completamente”, explicou o professor, que foi membro afiliado da ABC entre 2019 e 2013.

Além dos impactos ecológicos, a mudança nos igarapés afeta a memória territorial dos povos da floresta, que tem os cursos d’água como referência geográfica. Para melhorar o monitoramento, o pesquisador está instalando sensores que a cada meia hora atualizam os dados sobre temperatura e a biodiversidade nesses ecossistemas. “Os maiores perdedores tendem a ser as espécies endêmicas, de menor capacidade de adaptação, enquanto as espécies invasoras proliferam”, avaliou.

O problema das espécies invasoras foi um dos pontos abordados pela pesquisadora Claudia Bonecker, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Ela abordou os serviços ecossistêmicos providos pela espécies dos rios e relatou como eles deterioram conforme a própria biodiversidade é perdida.

Em seu estado, a proliferação de cianobactérias no Rio Paraná se tornou comum, aumentando a mortalidade de peixes e da microbiota secundária, e comprometendo os setores econômicos da pesca e turismo. “Há perda de habitats, diminuição no tamanho dos animais sobreviventes, disrupções na cadeia alimentar. Quanto menos biodiverso o ecossistema, pior ele funciona”.

Menos de 1/3 da região tem acesso à água e saneamento básico

Na Amazônia, apesar do grande volume de água, o problema da eutrofização também se faz cada vez mais presente. Trata-se do excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, no corpo d’água, levando à proliferação descontrolada de algas e bactérias que deslocam as outras espécies. Essa questão foi abordada pela professora Sandra Azevedo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Apesar de ainda ser a região menos populosa do Brasil, a ocupação da floresta deu um salto no último século e hoje já são 26 milhões de brasileiros na Amazônia Legal. Porém, boa parte desse crescimento se deu sem o acompanhamento da infraestrutura necessária,. Menos de um terço da população da Região Norte conta com coleta de esgoto, e menos ainda com tratamento adequado dos rejeitos. “Coletar é retirar os dejetos da porta da casa das pessoas e liberar mais à frente. Sem tratamento, os dejetos continuam poluindo”, reforçou a pesquisadora.

Leia também: Amazônia possui maior parte da água doce do país, mas menores percentuais de acesso à água potável, aponta estudo

A falta de saneamento básico se reflete não apenas no aumento do fósforo e nitrogênio nos rios, mas também no aumento de pesticidas, fertilizantes industriais e medicamentos.

“Todos esses componentes químicos chegam ao curso d’água e degradam o equilíbrio ecológico, já pressionado pelo aumento da temperatura. Já existem florações perenes de cianobactérias na Amazônia” alertou Sandra. A situação é agravada pela intensificação da pecuária. “O excremento de uma só vaca corresponde ao de 30 pessoas”, continuou.

A palestrante finalizou comparando os corpos d’água eutrofizados à sopa primordial, onde acredita-se que a vida surgiu a partir da formação das primeiras moléculas orgânicas. “Aquela certamente não era uma água cristalina, também estava cheia de material. Agora, quem vocês acham que vai se sair melhor num ambiente desses? Nós ou as bactérias, que já são adaptadas a ele há bilhões de anos?”, indagou. “Não teremos nenhuma chance.”

Temperaturas no sul da floresta aumentam 0,4°C a 0,5°C por década

Todos esses processos impulsionam e se retroalimentam das mudanças climáticas. Voltando ao que alertava o professor Schöngart, o sul da Amazônia está aquecendo em média 0,4°C por década, um ritmo nunca antes visto. As estiagens, cada vez mais frequentes e duradouras, levam alguns lagos amazônicos a perderem 90% de suas águas. Na última seca extrema, o lago Tefé, a 500 quilômetro de Manaus, mediu um aumento de 40% na temperatura da água, que causou a morte em massa de botos cor-de-rosa.

Foto: Reprodução/Ipam

O crescimento na amplitude entre secas e cheias afeta particularmente as áreas alagáveis, chamadas igapós, que possuem uma biodiversidade própria e são fundamentais para economias locais e para o equilíbrio ecológico. “Mas a maior parte dos igapós estão fora das regiões de preservação”, alertou Schöngart. Outra pressão sobre essas áreas são os projetos de hidrelétricas. “Não faz o menor sentido, econômico ou ambiental, termos mais de 200 projetos de hidroelétricas no sul da Amazônia, justamente onde os rios já estão secando”, criticou.

Organizador da série de debates, o vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Luis Val, afirmou que a água é o principal elo condutor entre questões sociais e ambientais na região. “A maior fonte de proteína das populações amazônicas é o peixe, que estão a no máximo 1,2 °C de suas temperaturas máximas toleradas. Peixes que não conseguem regular temperatura morrem, e a projeção para esse novo El Niño é mais drástica ainda”, alertou.

Sobre os poluentes, Val lembrou que a ABC produziu recentemente relatórios sobre mercúrio, microplásticos e exploração de petróleo na margem equatorial. Os dois primeiros já são poluentes encontrados na biota amazônica, enquanto o petróleo pode ser particularmente catastrófico para as espécies pulmonares da Amazônia – como mamíferos aquáticos, répteis e aves aquáticas -, no caso de vazamentos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Academia Brasileira de Ciências

Justiça estabelece medidas para reforçar controle sobre mineração na APA do Tapajós, no Pará

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Foto: Reprodução/ICMBio

A Justiça Federal determinou novas medidas para controlar atividades de pesquisa e lavra mineral na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no sudoeste do Pará. A sentença, proferida na última quarta-feira (19), atende parte dos pedidos feitos pelo Ministério Público Federal (MPF) em ação civil pública. A Justiça também homologou um acordo entre o MPF e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para ampliar a fiscalização e a proteção da unidade de conservação.

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Uma das principais mudanças envolve os títulos minerários concedidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A Justiça determinou que os títulos relacionados à APA do Tapajós informem de forma clara que, sozinhos, eles não autorizam o início de pesquisa ou lavra. Para realizar essas atividades, é necessária autorização prévia do ICMBio, órgão responsável pela gestão da unidade de conservação, como determina a Lei nº 7.805/1989.

A ANM também terá que informar o ICMBio sobre os títulos minerários existentes na APA, além de novas concessões, renovações e mudanças importantes nesses títulos. Os dois órgãos deverão criar uma forma de compartilhar informações para identificar os títulos existentes no Tapajós e verificar quais têm a autorização exigida do ICMBio.

Se souber que há pesquisa ou lavra na APA sem essa autorização, a ANM não poderá considerar a existência do título minerário suficiente para que a atividade continue. A agência deverá tomar as medidas que estiverem dentro de suas atribuições e avisar imediatamente o ICMBio, para que o instituto também adote as providências necessárias.

Título minerário não basta para iniciar a atividade

Um dos pontos centrais da sentença é a diferença entre ter um título minerário e estar autorizado a realizar pesquisa ou lavra dentro da APA do Tapajós. A Justiça entendeu que a ANM pode conceder o título antes da autorização do ICMBio, mas nenhuma atividade de pesquisa ou lavra pode começar ou continuar na APA sem a autorização prévia do instituto exigida pela legislação.

A sentença também reconheceu que havia uma “falha concreta de articulação institucional” entre os órgãos. Documentos apresentados no processo mostraram dificuldades do ICMBio para acessar informações sobre processos da ANM. Também mostraram que o instituto descobriu a existência de permissões de lavra garimpeira por meio de consultas ao sistema da agência e de informações recebidas durante processos de licenciamento ambiental.

Para a Justiça, se o título minerário pode ser concedido antes da autorização ambiental, é preciso adotar medidas que evitem que esse título seja entendido, na prática, como uma autorização para iniciar a atividade.

Maior fiscalização na APA do Tapajós

Na mesma sentença, a Justiça homologou um acordo entre o MPF e o ICMBio para aumentar a fiscalização e a proteção da APA do Tapajós. O ICMBio deverá criar, em até 60 dias contados da homologação do acordo, um grupo de trabalho para elaborar um plano de fiscalização periódica de toda a extensão da APA do Tapajós. O planejamento deverá incluir as lavras ilegais e as autorizações de pesquisa, permissões de lavra garimpeira e concessões de lavra atuais e futuras.

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Reunião técnica do MPF sobre garimpo ilegal na APA do Tapajós
Sentença atende à pedidos do MPF sobre controle de atividades ilegais na APA do Tapajós. Foto: Reprodução/MPF

Em até 90 dias, o grupo deverá apresentar o plano de trabalho. O documento deverá explicar como será feita a fiscalização, definir prioridades e apresentar um cronograma. Também deverá estabelecer como será feito o acompanhamento dos títulos minerários. As ações previstas no plano deverão começar em até 180 dias.

Também em até 90 dias, o ICMBio deverá elaborar um documento técnico para orientar e padronizar a análise dos pedidos de autorização para pesquisa e lavra na APA.

Essas autorizações deverão estabelecer medidas para prevenir e reduzir danos ambientais. Entre os pontos que deverão ser considerados estão o uso de substâncias químicas no beneficiamento de minérios, o tratamento e a destinação de rejeitos e a prevenção do assoreamento e da contaminação dos rios, além de riscos à saúde pública.

O MPF poderá apresentar sugestões para o plano de fiscalização e contribuições técnicas para o documento que orientará as autorizações.

Suspensão de atividades sem autorização

Outra medida prevista no acordo terá efeito direto sobre quem possui título minerário na APA do Tapajós, mas não obteve a autorização exigida do ICMBio. Em até 150 dias da homologação do acordo, o instituto deverá notificar todos os detentores de títulos minerários na APA concedidos sem essa autorização.

Quem for notificado deverá suspender as atividades de pesquisa e lavra até obter a autorização do ICMBio. Se a determinação não for cumprida, o instituto deverá adotar as medidas de fiscalização previstas na legislação ambiental. Com a homologação do acordo, o processo foi encerrado em relação ao ICMBio. O MPF e o instituto também abriram mão de recorrer da decisão que homologou o compromisso.

O MPF ajuizou a ação em dezembro de 2024, depois de identificar problemas na comunicação e na articulação entre os órgãos responsáveis pela regulação da mineração e pela proteção ambiental da APA do Tapajós.

Na época, informações apresentadas pelo ICMBio apontavam a existência de 829 permissões de lavra garimpeira na APA do Tapajós em fase de execução. Ao mesmo tempo, o instituto informou que não havia concedido as autorizações exigidas pela Lei nº 7.805/1989 para essas atividades.

O ICMBio também relatou dificuldades para acessar processos e documentos da ANM necessários para verificar a situação ambiental dos empreendimentos.

Na ação, o MPF alertou ainda para os riscos ambientais da mineração na região. Entre eles estão a possibilidade de contaminação por mercúrio, outras substâncias tóxicas e rejeitos da mineração. Esses poluentes podem chegar aos rios que atravessam a APA e afetar populações tradicionais e outras pessoas que dependem da água e dos peixes.

Informações mais recentes analisadas pela Justiça reforçaram a dimensão do problema. Fiscalizações encontraram situações como atividades sem autorização do ICMBio, uso e armazenamento de mercúrio, problemas relacionados a rejeitos e licenciamento, mineração fora das áreas autorizadas e intervenções em áreas de preservação permanente.

Na Operação Xapiri, realizada entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, foram feitas 148 ações de fiscalização, 79 autos de infração, 96 apreensões, 15 embargos e 24 suspensões. Ao todo, 342 permissões de lavra garimpeira foram suspensas.

Operação Xapuri, realizada em 2025. Foto: Reprodução/MPF

*Com informações do MPF