10 poemas que retratam a Amazônia e enriquecem a literatura brasileira

A Amazônia brasileira possui uma diversidade de elementos que transmitem a cultura de um povo, como a literatura.

Foto: Divulgação

A literatura no geral é importante para documentar a história e a cultura do país. É um instrumento de comunicação e de interação que cumpre uma função social de transmitir os conhecimentos de uma sociedade. Nesse sentido, surge o Dia da Literatura Brasileira, instituído no dia 1º de maio, representando o nascimento do escritor José de Alencar, um dos mais importantes autores brasileiros.

Na literatura amazônica, saberes dos povos da região, costumes, lendas e mitos são retratados e perpetuados nos poemas. Milton Hatoum, Anibal Bessa e Marcio Souza estão entre os autores que tem uma grande importância para a literatura na região.

Confira 10 poemas que retratam a Amazônia:

1. ‘Receita de tacacá’, de Luiz Bacellar (1928-2012)

Ponha, numa cuia açu
ou numa cuia mirim
burnida de cumatê:
camarões secos, com casca,
folhas de jambu cozido
e goma de tapioca.
Sirva fervendo, pelando,
o caldo de tucupi,
depois tempere a seu gosto:
um pouco de sal, pimenta
malagueta ou murupi.
Quem beber mais de 3 cuias
bebe fogo de velório.
Se você gostar me espere
na esquina do purgatório.

Luiz Bacellar foi um poeta nascido em Manaus, apontado como um dos maiores nomes da literatura amazonense. No poema em análise, ensina o leitor a fazer tacacá, uma refeição típica da região amazônica. 

Leia também: Dia da Poesia em Manaus é escolhido em homenagem ao poeta Luiz Bacellar

2. ‘Saudades do Amazonas’, de Petrarca Maranhão (1913-1985)

Desde que te deixei, ó terra minha,
Jamais pairou em mim consolação,
Porque, se eu longe tinha o coração,
Perto de ti minh’alma se mantinha.

Em êxtase minh’alma se avizinha
De ti, todos os dias, com emoção,
Vivendo apenas dentro da ilusão
De voltar, tal qual vive quando vinha.

Assim, minh’alma vive amargurada
Sem que eu a veja em ti bem restaurada
Das comoções que teve em outras zonas,

Mas para torná-las em felicidade,
É preciso matar toda a saudade,

Fazendo-me voltar ao Amazonas!

Petrarca Maranhão foi um escritor brasileiro nascido em Manaus que se mudou para o Rio de Janeiro, durante os anos da juventude. Em suas obras, não esconde a falta que sente de sua terra natal e o desejo de regressar

3. ‘Silêncio guerreiro’, de Márcia Wayna Kambeba (1979)

No território indígena,
O silêncio é sabedoria milenar,
Aprendemos com os mais velhos
A ouvir, mais que falar.

No silêncio da minha flecha,
Resisti, não fui vencido,
Fiz do silêncio a minha arma
Pra lutar contra o inimigo.

Silenciar é preciso,
Para ouvir com o coração,
A voz da natureza,
O choro do nosso chão,

O canto da mãe d’água
Que na dança com o vento,
Pede que a respeite,
Pois é fonte de sustento.

É preciso silenciar,
Para pensar na solução,
De frear o homem branco,
Defendendo nosso lar,
Fonte de vida e beleza,

Para nós, para a nação!

Márcia Wayna Kambeba é uma geógrafa e escritora brasileira de etnia Omágua / Kambeba que se dedica ao estudo dessas identidades e seus territórios. 

 4. Iara, de Benjamin Sanches (1915 -1978)

Surgiu do leito do rio sem margens

Cantando a serenata do silêncio,
Do mar de desejos que a pele esconde,
Trazia sal no corpo inviolável.

Banhando-se no sol da estranha tarde
Cabelo aos pés mulher completamente,
Tatuou nas retinas dos meus olhos,
A forma perfeita da tez morena.

Com a lâmina dos raios penetrantes,
Arando fortemente as minhas carnes,
Espalhou sementes de dor e espanto.

Deixando-me abraçado à sua sombra,
Desceu no hálito da boca da argila
E, ali, adormeceu profundamente.

Membro do Clube da Madrugada, Benjamin Sanches foi um contista e poeta amazonense. Em Iara, evoca a lenda de origem indígena com o mesmo nome, também conhecida como lenda da Mãe d’água. 

 5. ‘Ritual’, de Astrid Cabral (1936)

Todas as tardes
rego as plantas de casa.
Peço perdão às árvores
pelo papel em que planto
palavras de pedra
regadas de pranto .

Astrid Cabral Félix de Sousa é uma poetisa, professora e funcionária pública formada em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em língua inglesa e literatura norte-americana pelo Teacher’s Training Course do IBEU.

6. ‘Bertholetia excelsa’, de Jonas da Silva (1880-1947)

Se há uma árvore feliz, decerto é a castanheira:
No bosque ela resplende alta e dominadora.
A árvore da balata essa é tão sofredora,
Inspira compaixão a hevea, a seringueira!

Ela sozinha é um bosque e enche toda a clareira…
No ouriço a natureza o seu fruto entesoura
E a colheita presente e a colheita vindoura
Ei-las todas na fronde augusta e sobranceira.

Na casca não se vê sinal de cicatrizes,
De feridas cruéis por onde escorre o látex…
No seu orgulho é assim como as imperatrizes!

Se a posse é disputada entre explosões de nitro,
Na luta em que se queima a pólvora aos arráteis,

— O fruto é quase o sangue: é negociado a litro!

O piauiense Jonas da Silva se mudou com a família para o Amazonas aos 11 anos. Seguiu a formação acadêmica na Bahia, e ao lado do escritor João da Silva Campos foram os precursores do movimento simbolista baiano, iniciado em 1898. Em 1900, já morando no Rio de Janeiro, publicou ‘Ânforas’, seu primeiro livro de versos, seguido por ‘Ulanos’. O terceiro livro, ‘Czardas’, foi publicado após o retorno para Manaus em 1923.

7. ‘O fim que se aproxima’, de Milton Hatoum ( )

Amazonas : mito grego
menos antigo que os mitos da Amazônia.
Os que vivem no Cosmo há milênios
são perseguidos por mãos de ganância,
olhos ávidos: minério, fogo, serragem, fim.

Quem são vocês,
incendiários desde sempre,
ferozes construtores de ruínas?

Os que queimam, impunes, a morada ancestral,
projetam no céu mapas sombrios:
manchas da floresta calcinada,
cicatrizes de rios que não renascem.

Qual Brasil se esconde atrás da humanidade amazônica?

Que triste pátria delida,
mais armada que amada:
traidora de riquezas e verdades.

Quando tudo for deserto,
o mundo ouvirá rugidos de fantasmas.
E todos vão escutar, numa agonia seca, o eco.

Não existirão mundos, novos ou velhos,
nem passado ou futuro.

No solo de cinzas:
o tempo-espaço vazio.

Milton Hatoum é considerado um dos grandes escritores vivos do Brasil. Descendente de libaneses, ensinou literatura na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e na Universidade da Califórnia em Berkeley. É o autor de romances famosos como ‘Cinzas do Norte’, ‘Relatos de um certo Oriente’ e ‘Dois irmãos’.

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