Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Segundo Joseph Schumpeter (1883-1950), um dos primeiros economistas a considerar as inovações tecnológicas como motor do desenvolvimento capitalista, a destruição criativa tem como fundamento o surgimento e consolidação de produtos e métodos capitalistas inovadores que ocupam espaço no mercado, causando o desaparecimento de produtos e métodos antigos. O princípio assenta-se perfeitamente na Zona Franca de Manaus (ZFM), que, penso eu, não pode continuar a ser entendida como um modelo industrial fechado, auto-suficiente e infenso às dinâmicas geopolíticas internacionais, hoje impulsionadas pela Revolução Industrial 4.0. É, por conseguinte, de responsabilidade do governo, das classes políticas e empresariais buscar ajustar o modelo aos pressupostos determinantes de sua criação. Ao se cogitar a absoluta necessidade de reconfiguração do modelo – iniciativa que deveria ter sido adotada quando da abertura da economia no governo Collor de Mello a partir de 1991/1992 -, deve-se ter em mente não se referirem tais medidas de políticas públicas a nada de inusitado, mas ao cumprimento do disposto no diploma legal que levou o governo federal a instituir a ZFM há mais de meio século.
Desta forma, visando sua harmonização aos padrões tecnológicos internacionais, particularmente à Indústria 4.0, o modelo, no período, poderia ter sofrido ao menos três importantes transformações em relação à matriz econômica original (DL 288/67): a) ampliar e ajustar o PIM à Indústria 4.0; b) desenvolver polo de biotecnologia, mineração, produção de alimentos e ecoturismo e c) implantar uma Zona Especial de Exportações. Além do mais, superar o caduco modelo de substituição de importações vigente desde sua origem, em 1967. Efetivamente, as pré-condições que deverão conferir à “ZFM-2073” maior equilíbrio, sustentação e inserção internacional. Tal condição, contudo, não se realiza por meio de decreto, mas de pesados investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I). Assim ocorreu no Japão, nos Tigres Asiáticos, na Europa Ocidental, na Austrália, nos Estados Unidos e mais recentemente na China.
Com efeito, a incorporação desses vetores poderá, estimativamente, impactar a matriz econômica, do atual modelo mono industrial, para um novo sustentado proporcionalmente, ao que proponho, pela Bioeconomia (35%), PIM 4.0 (35%) e Plataforma de Exportações (30%). Desta forma, tornar a economia do Amazonas diversificada e equilibrada por centrada nos pilares que universalmente sustentam as economia desenvolvidas: o setor primário, o industrial, o comercial/serviços e o tecnológico. Factível, o novo desenho da matriz econômica ZFM-2073 poderá, certamente, em 10 ou 15 anos gerar exportações da ordem de U$ 15 bilhões/ano e ao menos triplicar o atual nível de emprego. A exploração da biodiversidade, da mineração, da produção de alimentos, do manejo florestal sustentável e do ecoturismo, por outro lado, poderão reconfigurar os atuais indicadores macroeconômicos da ZFM, que apontam uma concentração de 85% do Produto Industrial (PIM, basicamente), 92% do ICMS arrecadado e 77,5% do PIB estadual na capital do Amazonas.
A ausência de políticas públicas ajustadas às potencialidades inerentes ao campo da biotecnologia reflete-se no baixo aproveitamento sustentável dos recursos da biodiversidade amazônica. Por convenção internacional, a biotecnologia “abrange qualquer aplicação tecnológica que se utiliza de sistemas biológicos, organismos vivos ou derivativos destes, para produzir produtos e processos para usos específicos”. Objetivamente, uma área da ciência talhada para a Amazônia, que reúne a mais importante biodiversidade do planeta, objeto de pesquisas por parte do Inpa, Embrapa e Academia. O Brasil, não obstante a abundância inconteste desses recursos, não sabe, entretanto, como usá-los eficazmente. No PIM, por exemplo, não temos uma só empresa que opere nesse campo da biotecnologia. O grande desafio consiste, por conseguinte, em traduzir conhecimento científico em produtos e processos inovadores.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) e estão na nota técnica “Monitoramento da degradação florestal no Interflúvio Madeira-Purus: análise da exploração madeireira”, produzida pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e publicada pelo Observatório BR-319. O Simex monitora a degradação ambiental por meio da extração madeireira não autorizada e como os locais mapeados têm relação com a rede de estradas, a hidrografia e ramais na Amazônia.
Toda exploração madeireira representa uma degradação ambiental, pois a exploração retira árvores do solo sem necessariamente alterar o uso dele. Algumas dessas retiradas são controladas e planejadas para minimizar os impactos, como no caso dos manejos florestais, que são ações que visam a exploração sustentável. A degradação florestal também ocorre por meio de incêndios e da fragmentação das florestas, quando não ocorre mudança drástica no uso do solo, mas perda de qualidade ambiental e biodiversidade.
De acordo a nota técnica do Observatório BR-319, a TI Tenharim-Marmelos, do povo Tenharim, localizada entre Humaitá e Manicoré, foi a mais afetada, com 4.745 hectares degradados distribuídos em 10 polígonos. Enquanto a TI Kaxarari, do povo de mesmo nome, entre Lábrea e Porto Velho, com 2.996 hectares, também figura como uma das maiores áreas de degradação florestal observadas no estudo. Já a TI Jacareúba-Katawixi, situada entre os municípios de Canutama e Lábrea, e que possui uma sobreposição com o Parque Nacional (Parna) Mapinguari, tem uma área degradada de 430 hectares, ficando em terceiro lugar no ranking. Todas estão na área de influência da BR-319.
A situação da TI Jacareúba-Katawixi é preocupante, porque se trata do território dos Isolados do Katawixi, povo que provavelmente pertence à família linguística Katukina, e cujo processo de homologação se arrasta há 17 anos com sucessivas renovações da Portaria de Restrição de Uso (a última aconteceu em fevereiro de 2023). A TI tem a maior parte da sua área sobreposta a duas UCs, o Parna Mapinguari e a Reserva Extrativista (Resex) Ituxí, que também estão entre os municípios de Lábrea e Canutama.
“A degradação florestal não se limita apenas às Florestas Públicas Não Destinadas e às propriedades privadas. Podemos indicar um número alarmante de degradação florestal em Áreas protegidas, principalmente de esfera federal e terras indígenas”, destaca a nota técnica.
Além das TIs, o relatório também identificou exploração madeireira em Unidades de Conservação (UCs) de proteção integral. Os Parnas Mapinguari e dos Campos Amazônicos foram os mais impactados na área de influência da BR-319, com 277 hectares explorados ilegalmente em cada um. Essas áreas são de proteção integral, onde é permitida apenas a utilização indireta dos recursos naturais, com o objetivo de preservar a biodiversidade e evitar a degradação dos ecossistemas.
“Os Parques Nacionais são Unidades de Conservação de proteção integral e nessas áreas é permitido somente o uso indireto dos recursos naturais, como para pesquisas científicas, educação ambiental e turismo ecológico. Sendo assim, a exploração florestal é uma atividade ilegal nessa categoria”, ressalta a publicação.
Um polígono em GIS (Geographic Information System), sistema usado para a visualização das áreas degradadas, é uma representação gráfica de uma área delimitada por uma série de pontos conectados, formando uma figura fechada. Esses pontos, conhecidos como vértices, são utilizados para descrever a forma e a extensão de uma determinada região.
Segundo os autores da nota técnica, o enfraquecimento de órgãos de fiscalização, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), também contribui para a fragilização da proteção dessas áreas. Entre 2010 e 2020, o número de fiscais do Ibama foi reduzido de 1.311 para 694, o que dificulta ainda mais a atuação de comando e controle nas regiões mais remotas da Amazônia, segundo destaca o documento.
Os dados mostram, ainda, a importância de políticas públicas mais eficazes para o controle da exploração madeireira, considerando os impactos ambientais, culturais e sociais sobre os territórios indígenas e as UCs. “A extração madeireira pode ter um impacto significativo na biodiversidade local, especialmente nas Unidades de Conservação, que são designadas para a proteção dos ecossistemas e da fauna nativa”, diz a nota, ressaltando que a identificação de áreas críticas e o monitoramento são essenciais para a proteção dessas regiões.
“Com estes dados o Simex desempenha um papel crucial como ferramenta para monitoramento preciso da atividade de exploração madeireira”, destaca o analista do Idesam e um dos autores da nota, Heitor Pinheiro. “Essas análises muitas vezes não são evidentes em estudos focados apenas no desmatamento total e com a detecção das alterações de biomassa florestal, e da quantificação de áreas impactadas, manejadas ou exploradas ilegalmente, temos dados robustos que fundamentam a análise dos territórios”, acrescenta.
Esperamos com isso, e baseados em evidências científicas, subsidiar debates, evidenciar os impactos e pressionar por políticas públicas eficazes e transparentes, apoiar as populações locais embasando reivindicações pelos seus direitos territoriais, além de fortalecer a governança e a responsabilização dos atores envolvidos”, concluiu Pinheiro.
A publicação sugere que a relação entre a degradação florestal e a proximidade das estradas, como a BR-319, reforça a necessidade de ações concretas para mitigar os efeitos da exploração madeireira e garantir a proteção efetiva das TIs e das UCs na Amazônia.
Formado pela rede de instituições de pesquisa ambiental integrada pelo Imazon, Idesam, Imaflora e ICV, o Simex se baseia em ferramentas de análise geoespacial e inteligência geográfica, utilizando dados de sensoriamento remoto e da Organização Estadual de Meio Ambiente (Oema), no caso do Amazonas, o Ipaam e o SisCOM. No entanto, a falta de atualização do SisCOM e a ausência de dados do Amazonas podem ter gerado inconsistências nos resultados, que foram obtidos analisando extrações madeireiras ocorridas entre agosto de 2022 e julho de 2023.
O Simex monitora e avalia a exploração madeireira cruzando informações de satélite com dados espaciais oficiais de planos de manejo florestal aprovados pelos órgãos estaduais de controle, o que tem contribuído para identificar zonas críticas em termos de extração ilegal de madeira e para gerar informações estratégicas que apoiam ações de comando e controle. Até 2022, a rede produziu uma série de mapas de exploração madeireira para todos os estados amazônicos, bem como relatórios e boletins com dados históricos e estatísticos detalhados.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Observatório BR-319 com a colaboração de Amariles Gama
As sementes se dispersam de forma variada ao longo do tempo e do espaço. Essa é a conclusão de um estudo recente publicado na revista científica Restoration Ecology que fornece informações sobre produção de sementes de espécies arbóreas nativas na zona de transição Cerrado-Amazônia.
Liderada por Aline Ferragutti e uma equipe de pesquisadores, incluindo o pesquisador associado do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Leandro Maracahipes, e o ex-pesquisador do IPAM e professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Divino Silvério, a pesquisa poderá apoiar os esforços de restauração ecológica, especialmente em áreas impactadas pelo desmatamento e degradação da vegetação nativa, como a região estudada.
O estudo analisou dados da produção de sementes de 139 espécies de árvores coletados ao longo de oito anos na região de transição Cerrado-Amazônia, área de complexidade ecológica e vulnerável às atividades humanas. A região faz parte da Bacia do Xingu, que enfrenta crescente pressão do desmatamento, expansão agrícola e mudanças climáticas, tornando a restauração de áreas degradadas essencial.
De acordo com os dados, espécies de ambos os biomas apresentaram períodos prolongados de dispersão de sementes, especialmente no final da estação seca e início da chuvosa, quando as condições para o estabelecimento dos propágulos – estruturas celulares que desprendem-se de uma planta adulta para dar origem a uma nova -, são ideais.
Identificou-se que as variáveis climáticas, como temperatura e precipitação, desempenham um papel na regulação da dispersão de sementes. Quase dois terços das espécies estudadas mostraram uma correlação significativa entre a dispersão de sementes e as condições climáticas, indicando que as mudanças climáticas podem afetar os padrões naturais de dispersão de sementes, com possíveis consequências negativas para os esforços de restauração.
Restauração
A restauração de áreas degradadas na zona de transição Cerrado-Amazônia é uma parte crucial dos esforços mais amplos para mitigar o desmatamento no Cerrado e na Amazônia e aumentar a resiliência dos ecossistemas. A oferta de sementes é um ponto crucial para iniciativas de restauração em grande escala, e esta pesquisa oferece soluções práticas para melhorar as estratégias de coleta. Compreendendo o tempo e a variabilidade espacial da dispersão de sementes, iniciativas como a Rede de Sementes do Xingu podem otimizar os cronogramas de coleta para garantir um suprimento contínuo de sementes para projetos de restauração ao longo do ano.
A Rede de Sementes do Xingu, parceiro-chave nesta pesquisa, é um coletivo de mais de 500 coletores de sementes de 24 grupos da região, incluindo diversas comunidades indígenas, urbanas e de agricultores familiares. A rede desempenha um papel essencial no fornecimento de sementes para a restauração ecológica, gerando renda para as comunidades locais.
Ao incorporar as descobertas deste estudo, a Rede de Sementes do Xingu pode aumentar sua capacidade de atender à crescente demanda por sementes nativas, que deverá crescer à medida que o Brasil intensifica seus esforços para cumprir as metas de restauração estabelecidas na Lei de Proteção da Vegetação Nativa, no Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), e em outros acordos internacionais.
Zona de transição Cerrado-Amazônia
As descobertas deste estudo colaboram com a busca por soluções inovadoras para restaurar ecossistemas sob a Década da ONU para a Restauração de Ecossistemas. A zona de transição Cerrado-Amazônia no Brasil – conhecida como “Arco do desmatamento” – é um ponto crítico de biodiversidade, lar de espécies únicas de plantas e animais cada vez mais ameaçadas pelas atividades humanas. A restauração dessa área contribui para a preservação da biodiversidade e para a manutenção de serviços ecossistêmicos vitais, como a ciclagem da água, o sequestro de carbono e a regulação climática.
Os esforços para restaurar áreas degradadas na região podem servir de modelo para outras regiões tropicais que enfrentam desafios semelhantes. O foco do estudo na importância da variabilidade espaço-temporal da dispersão de sementes ressalta a necessidade de estratégias de restauração adaptadas regionalmente, levando em conta as condições climáticas locais e os padrões reprodutivos específicos das espécies.
Fortalecimento de comunidades tradicionais/locais
Os resultados do estudo ressaltam a necessidade do investimento em redes de sementes de espécies nativas e no envolvimento das comunidades locais nos esforços de restauração.
Silvério enfatiza que “ao colaborar com comunidades indígenas e tradicionais, as iniciativas de restauração podem garantir o uso de maior diversidade de espécies nativas nos projetos de reflorestamento, aumentando a resiliência ecológica das áreas restauradas”.
Ainda, as redes de coletores lideradas por comunidades tradicionais garantem uma fonte de renda alternativa aos coletores.
À medida que a atenção global se volta para a restauração de ecossistemas degradados, esta pesquisa possibilita, por meio de esforços de restauração direcionados e informados, reverter os impactos da degradação em áreas de preservação permanentes, terras indígenas e de comunidades tradicionais nos dois maiores biomas da América Latina: a Amazônia e o Cerrado.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Camila Santana
A Fiocruz Amazônia trabalha no mapeamento de áreas de risco para surtos de raiva no Estado do Amazonas, a partir da criação de um modelo preditivo – ferramenta analítica que utiliza dados históricos e técnicas estatísticas para prever comportamentos futuros ou eventos – que está sendo construído com a parceria da Fundação de Vigilância em Saúde Dra Rosemary Costa Pinto (FVSRCP) e a Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (ADAF).
O estudo, conduzido pela médica veterinária Alessandra Nava e o biólogo José Joaquin Carvajal, ambos pesquisadores do Laboratório Ecologia de Doenças Transmissíveis na Amazônia (EDTA) da Fiocruz, foi apresentado na última quarta-feira, 6/11, durante a mesa-redonda “Raiva: uma Questão de Saúde Única”, promovida pela Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (ADAF), com a finalidade de discutir pontos importantes relacionados à raiva humana/animal e o papel das instituições envolvidas no processo de enfrentamento da doença.
“Esse trabalho em que estamos tentando construir se trata de um modelo preditivo de áreas de risco para surtos de raiva no estado do Amazonas e sem a parceria da FVS (Fundação de Vigilância em Saúde) e ADAF, bem como o apoio da CAPES e Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Amazonas), não seria possível realizar”, afirmou Alessandra Nava.
Segundo ela, a invasão de áreas de floresta e o consequente desmatamento ou queimada para a inserção de gado bovino pode influenciar nos padrões de agressão e aumentar as ocorrências de mordeduras e casos de contaminação pelo vírus da raiva, sendo de extrema relevância o acesso ágil à informação qualificada acerca da doença.
O evento da ADAF ocorreu no auditório do Bosque da Ciência, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com a participação de estudantes, profissionais da área de saúde animal e humana, pesquisadores e autoridades locais. Atuaram como palestrantes também representantes da FVS e ADAF, que expuseram pontos sensíveis acerca da questão da raiva no Estado e do ponto de vista global, tendo em vista que a doença é responsável por 60 mil mortes/ano em todo o Mundo.
Alessandra Nava encerrou o ciclo de palestras abordando a importância do levantamento de dados de mordeduras de morcegos no Amazonas e avaliando o desmatamento como um dos principais fatores que levam ao possível aumento de ocorrências ao influenciar o comportamento dos morcegos hematófagos, um dos vetores da doença.
Rede
A Fiocruz Amazônia integra a Rede de Iniciativa Amazônica para Investigação de Mordeduras Tropicais, um grupo internacional formado por especialistas e pesquisadores que trabalham com a questão das mordeduras tropicais e as diferentes formas de contágio, visando estabelecer parâmetros que permitam identificar o perfil epidemiológico dos casos de mordeduras em humanos e animais em determinada região, bem como prevenir possíveis ocorrências de surtos causados por zoonoses emergentes que possam vir a ser transmitidas pela mordedura de animais como primatas e, sobretudo, morcegos que estejam contaminados com vírus e venham a transmitir para as pessoas.
Sobre a raiva
A raiva, ou hidrofobia, é uma doença que acomete todos os mamíferos e é considerada uma das zoonoses de maior importância no mundo, com elevado custo social e econômico. A doença é causada por um vírus que se propaga via sistema nervoso e a infecção se dissemina rapidamente alcançando o sistema nervoso central.
O vírus está presente na saliva do mamífero infectado e a transmissão acontece principalmente por meio de mordeduras ou lambeduras. A raiva é letal com raríssimos casos de sobrevivência, acompanhados de sequelas graves. É importante manter distância de animais silvestres e estar em dia com a vacinação de gatos e cachorros.
A pesquisa foi feita com a própolis produzida pelas abelhas nativas sem ferrão Scaptotrigona aff postica. Foto: Alex Popovkin/Wikimedia Commons
Pesquisa realizada por cientistas do Instituto Butantan, em São Paulo, constatou que o extrato aquoso de própolis é capaz de combater a replicação dos vírus zika, chikungunya e mayaro. Os três patógenos são transmitidos pela picada de mosquitos que circulam no Brasil e causam doenças infecciosas (arboviroses) para as quais ainda não existem vacina nem tratamento específico disponível, o que motiva a busca por compostos com potencial antiviral. O extrato foi testado in vitro e reduziu significativamente a carga viral dos três vírus.
O estudo, conduzido no Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), foi liderado pelos pesquisadores Pedro Ismael Silva Júnior, do Laboratório de Toxicologia Aplicada, e Ronaldo Mendonça, do Laboratório de Parasitologia do Butantan. Os resultados foram publicados na revista Scientific Reports.
Esta não é a primeira vez que o grupo investiga o potencial antiviral e antibacteriano da própolis. Estudo anterior da equipe, feito com extrato hidroalcoólico da substância, já havia indicado intensa atividade contra os vírus herpes, influenza e rubéola. A partir dos primeiros resultados, os cientistas decidiram avaliar se o extrato aquoso teria a mesma atividade em outros tipos de vírus também importantes do ponto de vista de saúde pública no país.
Preparação do extrato e análise
Para chegar aos resultados, o grupo utilizou a própolis produzida pelas abelhas nativas sem ferrão Scaptotrigona aff postica, originadas de uma colônia na região de Barra do Corda, no Maranhão. A própolis foi obtida por meio da raspagem da caixa de meliponicultura, formando uma espécie de pasta. Esse material foi transportado e congelado a -20°C, formando uma pedra de própolis congelada.
Essa pedra foi macerada manualmente até se tornar um material granulado, que foi passado em peneiras. Em seguida, o produto foi moído de forma a se transformar num composto ainda mais fino, para novamente passar por peneiras granulométricas e se transformar em pó. Por fim, os pesquisadores adicionaram água ultrapurificada ao pó e o material foi centrifugado por 30 minutos para haver a separação da cera do meio líquido. O sobrenadante (a fase líquida que fica por cima) foi filtrado e o produto foi considerado 100% purificado.
Foto: acervo dos pesquisadores.
Para determinar a ação antiviral do extrato de própolis, os pesquisadores infectaram células VERO (linhagem originária de rim de macaco, muito usada nesse tipo de estudo), que foram cultivadas a 37°C em microplacas. O crescimento e a morfologia dessas células foram monitorados pela equipe diariamente.
“A gente contaminou as culturas com os três vírus em questão e aplicamos somente uma vez a substância que queríamos analisar, na proporção de 10% de volume. A partir de então, fizemos uma diluição seriada, ou seja, fomos diminuindo a quantidade dessa solução para ver qual quantidade impediria o vírus de se multiplicar”, explicou Silva Júnior.
Os pesquisadores observaram que o extrato aquoso de própolis purificado promoveu uma redução de 16 vezes na carga viral do zika e de 32 vezes na do vírus mayaro. No caso do chikungunya, a redução foi ainda mais significativa, de 512 vezes.
Mais pesquisas
Por enquanto, os resultados alcançados estão restritos ao ambiente de laboratório, mas a pesquisa continua. Numa segunda etapa do trabalho, o grupo coletou própolis mês a mês, para associar o produto final à florada de cada período. Isso porque a abelha Scaptotrigona aff postica utiliza as plantas da região do Maranhão, que são diferentes das plantas existentes no Sudeste, e, por isso, provavelmente, a própolis obtida tem componentes específicos relacionados às espécies endêmicas do local.
“Nós já observamos que existem diferenças ao longo do ano. Agora queremos identificar em que época aparece a substância com ação antiviral, porque queremos associar à planta que a abelha utiliza para a produção da própolis”, explicou Silva Júnior.
É importante destacar que a própolis do estudo é diferente da comercial encontrada nas farmácias. O produto vendido ao consumidor, em geral, é um extrato alcoólico que mistura todos os componentes da própolis e, na maioria das vezes, costuma vir da espécie Apis mellifera (abelha europeia), que predomina nos apiários. Já a própolis usada nessa pesquisa vem da abelha nativa do Brasil Scaptotrigona aff postica e os compostos com atividade antiviral são separados, purificados e isolados.
Bioativos
A busca por potenciais medicamentos na natureza – os famosos compostos bioativos – é um dos grandes focos da ciência. O Brasil tem uma área muito extensa com fauna e flora extremante variada e utilizar substâncias originadas da nossa floresta é muito importante, tanto do ponto de vista científico quanto econômico, pois isso pode reduzir os custos do produto final.
O pesquisador ressalta que o objetivo da pesquisa é tentar identificar um composto que possa ser usado tanto na prevenção quanto no tratamento de pessoas infectadas pelos vírus.
“A gente ainda não tem elementos para chegar a esse ponto, mas a ideia é alcançar os dois objetivos”, afirmou Silva Júnior. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.
“Se estamos pensando em criar um possível medicamento, muitos outros estudos terão de ser feitos. Essa é uma descoberta super importante, mas os resultados foram obtidos in vitro. Ainda será preciso fazer pesquisas in vivo com camundongos e cobaias para verificar se o efeito antiviral se confirmaria e, só posteriormente, iniciar pesquisas em seres humanos”, finalizou.
O artigo ‘Antiviral action of aqueous extracts of propolis from Scaptotrigona aff. postica (Hymenoptera; Apidae) against Zica, Chikungunya, and Mayaro virus‘ pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-024-65636-7.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Fernanda Bassette
A “pílula azul” ficou para trás! Um viagra natural feito à base de cachaça e gengibre, criado pela agricultora Eunides Maria Alves, de 54 anos, se tornou o carro-chefe do empreendimento dela e tem sido a aposta para lucrar durante a Exposição-Feira Agropecuária de Roraima (Expoferr), considerada a maior feira agro do estado.
Feito com ingredientes naturais, a bebida é um licor que inclui ainda xarope e “temperos especiais” que a agricultora não revela para ninguém. Mas, uma coisa é certa e não tem mistério entre os clientes: “Quem prova, aprova com certeza, porque sempre volta”, diz ela, orgulhosa da receita que criou há quase 20 anos.
E outra: Eunides diz que o sucesso afrodisíaco da bebida é tanto entre os alguns clientes viram até super herói depois de consumir.
“É considerado o ‘Viagra de Campos Novos’. Meus clientes começaram a dizer que tomavam o licor e ficavam parecendo o ‘homem-aranha’, aquela coisa toda”, conta.
Isso acontece porque o gengibre tem alguns componentes que estimulam a circulação sanguínea – a melhora deste fluxo leva a maior quantidade de hormônios sexuais – e os neurotransmissores.
O licor de gengibre – e de outros sabores – tem preços tabelados: as garrafas grandes são vendidas a R$ 45 cada. A pequena custa R$ 15. E tem também combos na promoção: duas garrafas grandes ficam R$ 80, e duas pequenas são R$ 25.
Além do licor de gengibre, outro campeão de vendas é o de jabuticaba. A agricultora afirma que essa é a preferência do público feminino. “Acredito que é porque a jabuticaba é mais suave, e a de gengibre é mais picante”.
Foto: Nalu Cardoso/Rede AmazônicaRR
‘Viagra de Campos Novos’
Eunice mantém com a família a cachaçaria artesanal “Biroska Bakana”, empreendimento localizado na vila Campos Novos, no município de Iracema, distante cerca de 134 quilômetros da capital Boa Vista.
Nessa semana, eles expuseram e venderam os produtos no “Pavilhão da Agricultura” da Expoferr, espaço montado para produtores rurais do interior.
Tudo começou em 2005, com um curso de reaproveitamento de banana em que Eunides aprendeu a fazer licor. Depois disso, ela pensou “por que não testar com outras frutas?”. Com uma ideia e um sonho a agricultora começou e testou a receita com jenipapo – e deu certo.
A partir daí, também fez com jabuticaba. Hoje em dia, a cartela de sabores, entre cachaças artesanais e licores, inclui 16 bebidas – muitas feitas com frutas amazônicas como açaí, cupuaçi, murici, caju, jatobá, cumaru, jambu e o famoso gengibre que se popularizou na região e foi batizado de “Viagra de Campos Novos”.
“Fazia a cachaça temperada e veio a ideia de fazer o licor de gengibre. E foi aí que despontou”, relembra. “Me sinto como se pudesse incentivar outras mulheres a se empoderarem desta forma, ter o seu próprio negócio, sua própria renda, a independência financeira”, afirma agricultora-empreendedora.
A empreendedora conta que a rotina para produzir as bebidas é puxada. Todos os dias às 4h ela já está de pé para regar as plantas – as matérias prima da cachaçaria. Mas, ela avalia que tudo vale a pena, porque além de garantir sustento para a família, movimenta a economia local e permite até parceria com outros agricultores da região.
“A maioria a gente planta. Inclusive o gengibre, eu mesma planto. Mas as outras, tipo o açaí e o jenipapo, eu compro de outros produtores da nossa região mesmo. Então gera uma renda para outras famílias dali de Campos Novos. Tem mais pessoas envolvidas”, conta.
Foto: Nalu Cardoso/Rede AmazônicaRR
Eunides também faz questão de destacar que todas as garrafas utilizadas para comercializar seus produtos são retornáveis. Ela até oferece desconto para incentivar os clientes a não poluir o meio ambiente. Contra qualquer desperdício, em conta que sempre gostou de reciclar e fez disso um hábito de vida.
“A gente recicla tudo isso, essas garrafas são recicladas. E o cliente, por exemplo, ele me comprou essa garrafinha, não vai jogar no lixo, ele traz de volta e tem o desconto de um real por cada garrafa que me traz de volta e não joga na natureza”.
Para quem quer ir até a sede da cachaçaria em Campos Novos, Eunice deixou a dica: a “Biroska Bakana” fica debaixo da única torre de internet da região. O local é conhecido por todos que moram ou estão de passagem por lá.
A empreendedora afirma que o empreendimento é o “único ponto turístico de Campos Novos”. Visitantes têm direito a degustar de graça três sabores diferentes dos licores.
Como surgiu o nome ‘Biroska Bakana’
Eunice lembra que o nome do empreendimento surgiu por conta de um cliente que trocava o nome de uma cachaça conhecida como “la cana” e de uma sobrinha que chamava o estabelecimento de birosca.
“Minha sobrinha trabalhava comigo e chamava lá, onde a gente trabalhava, de ‘birosca’. [O cliente] adorava tomar cachaça, na época, daquela ‘La Cana’. Ele não falava ‘La Cana’, ele falava bacana. Aí associei esses dois nomes, tanto é que o meu ‘birosca’ é com K e o ‘bacana’ é com K, que é diferente”, relembra.
Este ano foi a segunda vez que agricultora levou os produtos para a Expoferr. O ‘viagra de Campos Novos’ é vendido no pavilhão, sendo a 4ª tenda à direita.
O professor Ronaldo Manassés, do colegiado de Letras Libras da Universidade Federal do Amapá (Unifap), vai apresentar no próximo dia 21 de novembro na 60ª Bienal de Arte e Cultura de Veneza, na Itália, a pesquisa desenvolvida por ele sobre sinais em libras para Candomblé.
A Bienal, que é considerada o mais antigo evento internacional de arte do mundo, ocorre desde abril deste ano, e encerra neste mês com o tema: “Estrangeiros em Todos os Lugares”. Quem for até o evento vai poder acompanhar trabalhos ligados a cultura de diversos países.
Manassés vai representar o Amapá na mesa redonda “As línguas de sinais e as religiões de matriz africana no Brasil”. O professor é autor de um documentário, artigos científicos e de uma tese de doutorado sobre o assunto.
“São pesquisas que eu tenho realizado aqui na universidade no tocante a criação de sinais em libras para o candomblé e religiões afros (…) Está num evento como este é de suma importância e de uma visibilidade muito grande, uma vez que a Bienal de Arte e Cultura de Veneza é uma referência para o mundo falando sobre as mais variadas artes”, destacou o professor
Sinais em libras para Candomblé
A pesquisa, que é fruto do dourado de Manassés, em 2016, destaca a criação de sinais específicos em libras para comunicação de pessoas dentro do Candomblé. O trabalho tem o objetivo de tornar inclusa uma parcela significativa da população.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, estão entre as cinco mais seguidas no Brasil, com mais de um milhão de adeptos.
Foto: Arquivo pessoal/Ronaldo Manassés
Os católicos praticantes são maioria: cerca de 123 milhões de fiéis. Em seguida estão os evangélicos, com 113 milhões.
Manassés afirma que a participação no evento ressalta a importância dos trabalhos desenvolvidos dentro das instituições públicas de ensino.
“É o trabalho que eu tenho desenvolvido desde 2016, a partir da minha pesquisa, ainda àquela época de doutorado. Então, essa luta é que a gente faça menção a não só a grandiosidade do evento, mas principalmente em participar como nortista, como amazônida, como pesquisador do Amapá, de uma universidade como a nossa, que está aqui enraizada na Amazônia brasileira e que poderá ser vista com outros olhos”, detalhou.
60ª Bienal de Arte e Cultura de Veneza
Em novembro encerra a 60ª edição do mais antigo evento internacional de arte do mundo, em Veneza. Neste ano a organização focou na seleção de artistas que nunca estiveram na Bienal e a inclusão dos 88 países presentes na mostra.
O evento tem o objetivo ampliar vozes estrangeiras, colocando em pauta a multiplicidade racial, cultural, religiosa, sexual e de gênero.
Dois povos indígenas da Amazônia, os Mashco Piro e os Manchineri, correm risco de conflito, de acordo com a entidade Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (Matpha), que representa o povo Manchineri. A seca histórica dos rios, a ação de madeireiros peruanos e a escassez de alimentos estão forçando os Mashco Piro a se aproximarem em uma área de fronteira entre o Brasil e o Peru, aumentando a tensão entre ambos.
Há gerações que os Mashco Piro e os Manchineri vivem na Terra Indígena Mamoadate entre o Peru e a cidade brasileira de Assis Brasil, no Acre. Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a área é compartilhada em períodos sazonais de cada ano.
A diferença é que, enquanto os Mashco vivem como um grupo étnico isolado, os Manchineri são um grupo de ‘recente contato’, ou seja mantêm relações de contato permanente com segmentos da sociedade nacional, mesmo mantendo autonomia, segundo definição da Funai.
Nos últimos tempos, porém, membros dos Mashco Piro têm sido obrigados a se deslocar cada vez mais e até mesmo a entrar em áreas habitadas pelos Manchineri. Foi o que ocorreu no último dia 31 de outubro quando, segundo os indígenas acreanos, alguns membros do clã isolado invadiram uma aldeia em busca de mantimentos e saquearam uma casa. (Veja vídeo acima)
De acordo com Mailson Machineri, coordenador dos monitores da Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (Matpha), entidade que representa a etnia, afirma que a principal preocupação dos Manchineri é evitar um conflito com o outro povo e que esse é um momento difícil para os moradores da aldeia.
“Nós compartilhamos nosso território com os parentes desconfiados, e estamos muito preocupados com essa situação. Foi o primeiro saque que eles fizeram aqui na aldeia Extrema, precisamos de apoio das autoridades e dos parceiros, pois por agora não vamos poder caçar, entrar na mata, pois precisamos proteger os parentes da aldeia e os desconfiados”, disse em nota divulgada pela Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI).
ONG também faz alerta
Segundo a ONG Survival International, que também recebeu a denúncia, no caso específico dos Mashco Piro na terra indígena Mamoadate, eles estão em contato com as lideranças indígenas locais e reforçando os pedidos que foram feitos à Funai, ao MPI e outras autoridades responsáveis.
“Os indígenas solicitam a instalação de uma base de proteção e de uma unidade de saúde indígena no local para que possam mediar a situação e evitar maiores consequências aos Manchineri e Mashco Piro, no caso por exemplo de uma aproximação maior dos indígenas isolados na comunidade da aldeia Extrema. A Funai possui funcionários especializados nesse tipo de situação e a Survival avalia que a presença deles na região é vital para garantir a segurança dos indígenas”, diz Priscilla Oliveira, ativista e pesquisadora da organização. Ainda segundo a pesquisadora, a ONG atrela isto ao fato da exploração de madeira no território dos Mashco Piro, no Peru, que compromete a existência dos indígenas, uma vez que parte do território deles ficou de fora da proteção legal, sendo concedido a madeireiros a permissão para exploração de madeira na região.
“Estamos agora pressionando a empresa a cancelar permanentemente a certificação. Tudo isso deve colocar mais pressão no governo peruano para resolver a situação, ou seja, para finalmente cancelar as concessões de exploração de madeira na área e proteger permanentemente o território dos Mashco Piro”, comentou.
Funai acompanha o caso e nega iminência de conflito
A reportagem entrou em contato com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que informou que acompanha as evidências dos povos indígenas isolados na região da aldeia Extrema, Terra Indígena Mamoadate.
“Quando recebemos as primeiras informações, mantivemos a equipe de servidores da Funai, que são todos do povo Manchineri, em alerta”, comunicaram. (Confira a nota completa abaixo)
Porém, ao contrário do que afirmam os Manchineri, a Funai alega que não há iminência de conflito. “Os povos isolados Maschos utilizam o território para desenvolver suas práticas culturais, há anos. Além do mais, não há histórico recente de conflito desses povos na região”.
O órgão disse ainda que já estabeleceu um diálogo com a comunidade Manchineri e com as organizações indigenistas parceiras, além de prestar apoio com alimentação, já que no momento eles não podem caçar e nem pescar para evitar contato com os Mashco.
Foto: Arquivo/Defesa Civil de Assis Brasil
Mascho Piro
Com cerca de 750 indivíduos, o povo Mashco Piro é o maior grupo indígena isolado do mundo e habita a floresta amazônica, em uma região de fronteira entre o Acre, no Brasil, e o Peru. No entanto, a integridade deste grupo está ameaçada, segundo a organização Survival International, que em julho divulgou imagens raras do grupo.
O registro mostra os indígenas caminhando às margens do rio Las Piedras, no sudeste do Peru, supostamente atrás de comida. A Survival alertou para as ameaças a que os Mashco Piro estão submetidos por conta de atividades de madeireiras que operam na mesma região em que eles vivem.
Os Mashco Piro vivem em total isolamento na Amazônia peruana e brasileira, mais precisamente na faixa fronteiriça entre o Acre e o Peru. A área total de extensão da fronteira Brasil-Peru é de 2.995 quilômetros, já a faixa que compreende ao Acre é de 1.565 km.
Estes indígenas dependem exclusivamente do que cultivam e caçam na floresta, tanto para obter os alimentos como para ter as ferramentas e construir os tapiris, que são as casas onde eles moram. Eles evitam contato até com outros indígenas de outros povos.
No Brasil, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) tem três registros confirmados de indivíduos pertencentes ao povo Mashco Piro, sendo:
Na Terra Indígena Mamoadate, no limite da fronteira entre Brasil e Peru;
No Parque Nacional do Manú, que abrange as regiões peruanas de Cusco e Madre de Dios;
E na região do Rio Envira, mais ao Norte, na terra indígena Kampa.
No Peru , onde estão em maioria, eles vivem em uma área de cerca de 816 mil hectares, perto do Parque
Nacional Alto Purus. É a Reserva Indígena Mashco Piro, equivalente a uma Terra Indígena no Brasil.
A Survival International explica que o último registro de indígenas Mashco Piro na região foi feito há dez anos, inclusive na região do Rio Envira.
Por que eles apareceram em julho?
Acredita-se que eles apareceram porque estão sendo pressionados a sair de dentro do próprio território, principalmente no que diz respeito à busca por comida. A quantidade de indígenas registrados na região, segundo ela, chama atenção.
Nos últimos dias, mais de 50 indígenas Mashco Piro apareceram perto da aldeia dos Yine de Monte Salvado, no sudeste do Peru, que não são isolados. A Survival alertou que os Mashco Piro haviam relatado aos Yine, outro grupo indígena que fala língua parecida, sobre a presença dos madeireiros.
No passado, mais precisamente em 1880, houve registros de exploração e escravização deste povo indígena. Isto ocorreu quando o território foi invadido por trabalhadores envolvidos na extração de látex, para fabricação de borracha. Alguns deles conseguiram escapar e, então, mantiveram o isolamento.
A Survival alerta que povos indígenas isolados são vulneráveis a qualquer tipo de contato com pessoas de fora, já que eles não possuem imunidade contra doenças comuns como a gripe.
O que está ocorrendo na região?
A ONG denuncia a exploração de madeira no território dos Mashco Piro, no Peru, que compromete a existência dos indígenas, uma vez que parte do território deles ficou de fora da proteção legal, sendo concedido a madeireiros a permissão para exploração de madeira na região.
Neste caso em específico, o espaço dos indígenas fica à beira de um rio, a poucos quilômetros da região onde uma madeireira chamada Canales Tahuamanu detém uma licença de extração certificada pelo Conselho de Manejo Florestal (FSC).
O selo de aprovação, encontrado em produtos feitos de papel, é um certificado de que a madeira utilizada é sustentável. Mas segundo a ativista, não é este o caso. Por conta disto, a ONG quer que esta certificação seja retirada da empresa madeireira e que o governo peruano acabe com as concessões dentro da terra indígena. O pedido é feito por meio de um abaixo-assinado.
“A Funai informa que está acompanhando as evidências dos povos indígenas isolados na região da aldeia Extrema, Terra Indígena Mamoadate. Quando recebemos as primeiras informações, mantivemos a equipe de servidores da Funai, que são todos do povo Manchineri, em alerta.
Vale esclarecer que o território tradicional dos povos indígenas isolados Maschos é também a Terra Indígena Mamoadate, ou seja, a área é compartilhada com o povo Manchineri em períodos sazonais de cada ano. Importante mencionar ainda que não há iminência de conflito. Os povos isolados Maschos utilizam o território para desenvolver suas práticas culturais, há anos.
Além do mais, não há histórico recente de conflito desses povos na região. Pelo contrário, o povo Manchineri contribui e é parceiro da proteção dos indígenas isolados. Fato é que os povos indígenas isolados Maschos estão cada vez mais presentes em lado brasileiro. Possivelmente, isso está relacionado aos casos extremos de mudanças do clima e das pressões socioambientais enfrentadas por esses povos em lado peruano.
Por outro lado, a partir do momento em que a Funai soube da presença do povo isolado na região da aldeia Extrema, a equipe de servidores começou uma série de ações pautadas em conversas com a comunidade e com as organizações indigenistas parceiras.
Foram abertas também reuniões da Sala de Situação Local, espaço das instâncias de órgãos de Estado (Funai, Secretaria de Saúde Indígena e Ministério dos Povos Indígenas), com o objetivo de acompanhar e de monitorar as informações dos acontecimentos e da contingência relacionada aos vestígios dos povos indígenas isolados Maschos.
Em reunião que contou com a participação da Funai, a comunidade recebeu apoio de fontes de proteína alimentar por parte das organizações indigenistas, devido ao fato de não poderem caçar e pescar, e a Funai encaminhou outros insumos necessários à proteção dos indígenas isolados Maschos e ao povo Manchineri. Também houve a compensação parcial dos bens subtraídos pelo povo indígena Maschos.”
*Por Hellen Monteiro e Renato Menezes, da Rede Amazônica AC
Desde junho deste ano, o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), por meio da Gerência da Região Administrativa da Calha Norte 1 (GRCN1), vem intensificando suas operações no Lago Grande, em Monte Alegre. Em resposta à estiagem prolongada e aos efeitos das mudanças climáticas, a equipe realiza monitoramento contínuo das espécies aquáticas e ações de salvamento, relocando animais para áreas mais profundas e seguras.
Para dar suporte a essas atividades, foi construída uma base provisória de apoio dentro da área do Lago Grande, permitindo que a equipe técnica execute o trabalho com maior eficiência e proximidade. O Ideflor-Bio conta com o envolvimento direto de comunitários e com parcerias importantes, como a da Secretaria de Meio Ambiente de Monte Alegre e da Polícia Militar, ampliando o alcance das ações e reforçando o compromisso conjunto com a sustentabilidade local.
Parceria
“A presença de uma base de apoio e a integração com a comunidade e instituições parceiras são fundamentais para a efetividade das nossas ações de preservação e segurança ambiental na região. Estamos comprometidos com a proteção da fauna e flora de Monte Alegre, assegurando que o Lago Grande continue a ser um ambiente seguro e preservado”, afirmou o diretor de Gestão e Monitoramento de Unidades de Conservação (DGMUC), Ellivelton Carvalho.
A operação recebe suporte logístico de veículos disponibilizados pelo Ideflor-Bio, essencial para as ações de monitoramento e salvamento. A iniciativa reforça o compromisso do Governo do Pará em promover a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável em áreas estratégicas do estado.
Para o titular da GRNC1, Jorge Braga, “a presença constante da nossa equipe no Lago Grande tem sido essencial para proteger a fauna local, especialmente em um período de estiagem tão severo. Realizamos o monitoramento e salvamento de espécies aquáticas, transportando-as para áreas mais profundas e seguras, de forma a garantir sua sobrevivência e reduzir os impactos ambientais. A colaboração com a comunidade local e as parcerias com a Secretaria de Meio Ambiente de Monte Alegre e a Polícia Militar têm sido fundamentais para ampliar o alcance e a eficácia dessas ações, reforçando nosso compromisso com a sustentabilidade e preservação da biodiversidade na Calha Norte”, destacou.
Cerca de uma hora após o pôr do sol neste domingo (10), os entusiastas da astronomia poderão observar um evento celestial especial: a aproximação aparente entre a Lua e o planeta Saturno, que poderá ser observado a olho nu, mesmo no céu das grandes cidades com poluição luminosa. Embora o fenômeno seja visível em grande parte do país, apenas os moradores do extremo oeste do Brasil, como em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, terão a oportunidade de testemunhar a ocultação completa de Saturno pela Lua, que ocorrerá às 23h14, horário de Brasília.
Para a maioria dos observadores brasileiros, o evento será visto como uma aproximação estreita entre a Lua e Saturno, proporcionando um espetáculo visual impressionante. A proximidade entre os dois corpos celestes oferecerá uma visão deslumbrante, especialmente a olho nu ou com binóculos, logo após o ocaso.
No entanto, para quem se encontra na faixa oeste da Amazônia, a ocultação total – quando a Lua passa em frente a Saturno, escondendo-o por alguns minutos – será o ápice do evento. Este fenômeno é relativamente raro e atrai astrônomos e entusiastas, pois permite estudar a dinâmica de ambos os corpos celestes.
Aqueles interessados em observar o evento basta olhar para o céu logo após o crepúsculo e procurar a Lua. O ponto amarelado ao lado da Lua será o planeta Saturno.
Para mais detalhes, o canal Urânia Planetário fará uma live, que ficará gravada, com o astrônomo e professor Marcos Calil.