O professor universitário, escritor, poeta, contista e dramaturgo Francisco Alves lança neste sábado (7) o livro ‘Pássaro Poesia‘, que trata sobre desejo e liberdade em 107 poemas. O lançamento da obra ocorre em Boa Vista (RR).
‘Pássaro Poesia’ é o sétimo livro de Francisco Alves. O trabalho inclui 42 poemas inéditos e outros publicados nos livros ‘Poemas a meia carne’, ‘Ruídos noturnos’, ‘Poemas urbanoides’, ‘Poemas do esquecimento vivo’, ‘Coração Quilombo’, ‘Inéditos ou espantos com a banalidade’ e ‘Atitudes Poéticas na política da vida’.
O novo livro da caminhada literária do autor representa um momento importante, “como se fosse um voo”.
“Essa imagem do pássaro que sobrevoa si mesmo, contemplando as paisagens sentimentais que constroem o todo orgânico e complexo de ser artista da palavra. Esse é um pássaro, mas ele é poesia porque suas asas são palavras, sons e ritmos”, explica o autor.
Foto: Nilzete Franco
A poética de Francisco se estrutura em temas sociais, existenciais e eróticos. Os textos falam do desejo e da liberdade de ser. Além disso, temas raciais também estruturam o pensamento estético do autor, que vê na literatura um território de reflexão para os temas insurgentes.
‘Pássaro Poesia’ já foi lançado em Manaus no Festival Literário do Amazonas, realizado em novembro deste ano. A obra é um livro de travessia, tendo em vista que o escritor está escrevendo o primeiro romance da carreira, mas mesmo imerso na prosa, sentiu a necessidade de celebrar a vocação para a poesia.
Francisco Alves, além da poesia, já publicou livros nos gêneros conto e dramaturgia: ‘Fotografias desmemoriadas de mim, de ti, de outrem’ (2018) e ‘Na mesma praça hoje sempre até o amor acabar’ (2020).
Francisco Alves
Professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Francisco Alves é formado em Letras-Literatura também pela UFRR, especialista em Direção Teatral pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (FADM), e mestre e doutor em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB).
É autor dos livros de poesia: Poemas a meia carne (2008), Ruídos noturnos ou pequenas putarias literárias (2013), Poemas urbanoides (2017), Poemas do esquecimento vivo (2017), o livro de contos Fotografias desmemoriadas de mim, de ti, de outrem (2018), ganhou o Prêmio Peixes, da Editora Kazuá. Também é autor da peça “Na mesma rua hoje sempre até o amor acabar” (2020), dramaturgia escrita no ano de 2005.
Francisco também atua como orientador no mestrado Programa de Pós-Graduação em Letras, da UFRR. Desenvolve o projeto de pesquisa “Cartografias do Teatro em Roraima”, e em 2010 fundou, junto com outros amigos, a Cia do Pé Torto.
Além disso, é apresentador dos programas “Pássaro Poesia Literatura de Roraima”, disponível na internet; “Cruviana Universitária”, transmitido na TV da UFRR e no canal AmazonSat. Em 2023 representou Roraima no circuito nacional do projeto Arte da Palavra-Rede SESC de Leituras. Também foi Superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Roraima.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) solicita o apoio de todos os órgãos e entidades envolvidos na formulação e execução das políticas de promoção do acesso à educação, para que sejam garantidos os meios próprios de autodeclaração e de heteroidentificação pelas comunidades indígenas para comprovação de pertencimento étnico. A medida visa promover a autonomia dos povos indígenas.
O apoio foi solicitado na forma do Ofício nº 1381/2024/PRES/FUNAI pela presidenta Joenia Wapichana, na segunda-feira (2), encaminhado à Secretaria de Educação Superior (Sesu) e à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), ambas do Ministério da Educação (MEC); à Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem); e à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).
No documento, a Funai também solicita que as instituições deixem de exigir que a Funai emita documentos — como atestados, carteiras, declarações e afins, incluído o Registro Administrativo de Nascimento de Indígenas (RANI) — para acesso de indígenas ao ensino.
A autarquia indigenista explica que, rotineiramente, são publicados editais que vinculam o acesso de indígenas a algum tipo de manifestação da Funai, o que configura de forma errônea, uma espécie de papel de agente tutelar.
“Destacamos que não cabe à Funai o papel de retirar dos povos originários o direito ao exercício pleno de sua autonomia. Nesse sentido, cumpre esclarecer que não é atribuição da Funai ou de qualquer outro órgão estatal emitir documentos, tais como atestados, carteiras, declarações e afins com o objetivo de confirmação de pertencimento étnico. Essa atribuição confunde-se com a lógica da antiga política estatal tutelar, adotada pelo Estado Brasileiro em 1916 (Código Civil) e, posteriormente em 1973, pelo Estatuto do Índio”, diz o documento.
Em outro trecho do ofício, a Funai esclarece que a Constituição Federal Cidadã de 1988 trouxe novo entendimento sobre os processos individuais e sociais a respeito de construção e formação de identidades étnicas ou de pertencimento a povos, com base na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais, promulgada integralmente no Brasil pelo Decreto nº 5.051/2004 e consolidada pelo Decreto n. 10.088/2019.
Nesse sentido, conforme reforça a Funai, considerando que o Estado brasileiro não exerce mais a tutela sobre essas populações, cabe ao Estado garantir o respeito à autonomia desses povos.
“Em outras palavras, quem pode validar a autodeclaração da pessoa enquanto indígena é a própria comunidade indígena a qual o indivíduo pertence. Esse processo deve ser baseado nos usos, costumes e tradições internos definidos pelas próprias coletividades indígenas”, reitera a autarquia indigenista.
Além da Abruem e Andifes e de instâncias do MEC, a Funai também oficiou todas as suas unidades descentralizadas a não emitirem declarações como documento necessário para acesso a direitos diferenciados garantidos aos povos indígenas. O documento é assinado pela diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável, Lucia Alberta.
Para a Funai, esse tipo de exigência tutelar indevida de reconhecimento étnico se configura como barreira institucional para a garantia do acesso de indígenas a direitos básicos como todo cidadão brasileiro.
Com frequência, as unidades descentralizadas da Funai também se deparam com a exigência de documentos emitidos pela instituição para que os indígenas possam acessar vagas reservadas em concursos públicos; matrícula em escola ou universidade; abertura de conta bancária; contratação de serviços de internet, telefone e energia; processos judiciais; cadastro em programas sociais; entre outros.
Essa exigência de agentes estatais, contudo, não tem respaldo legal e estimula práticas tutelares e discriminatórias contra os povos indígenas, de acordo com o entendimento da Funai.
Por essa razão, o Ofício nº 2649/2024/DPDS/Funai orienta que as unidades descentralizadas não devem emitir declarações de pertencimento étnico e similares; declarações de residência/endereço/domicílio e similares; e declarações para acesso ao Registro Civil de Nascimento. E, também, que os servidores promovam constante diálogo com as instituições que exigem tais documentos a fim de que mudem sua postura e aceitem as autodeclarações dos próprios indígenas.
No Bailique, ribeirinhos cavam leito de canal que secou durante estiagem no Amapá. Foto: Reprodução
Após chamar a atenção, o registro de moradores cavando o leito do canal de um rio do Bailique, distrito de Macapá, outra imagem que é reflexo da seca na região foi capturada. Dessa vez, alunos de uma escola pública tiveram que caminhar cerca de 1h para chegar até a instituição de ensino.
O vídeo, feito na semana passada na comunidade Eluzay, mostra uma fila de crianças caminhando sob um rio onde anteriormente passavam os ‘barcos rabetas’.
Esses barcos faziam o transporte dos alunos até a Escola Estadual Prof Nair Cordeiro Marques, localizada na comunidade do Livramento do Bailique. De acordo com os moradores, crianças de diferentes regiões do distrito estudam nesta instituição.
“Em meio às dificuldades, buscamos nos unir e tirar forças de onde não temos. É muito triste ver nossas crianças nesta situação, ver os pais vendo seus filhos sair de madrugada e ter que caminhar praticamente durante 1h30[…]” disse o líder comunitário, Otoniel Braga.
Estiagem severa
O distrito, que fica a cerca de 12 horas navegando de barco da capital, sofre anualmente com os graves efeitos da estiagem. Neste ano, a gestão estadual chegou a decretar emergência nos 16 municípios em razão do fenômeno.
Outros vídeos registrados também na última semana mostram uma área por onde passava um rio, completamente seca. A imagem chama a atenção pela imensidão do espaço atingido. (veja vídeo acima).
A gravação continua e mostra ribeirinhos empurrando um barco em cima de pedaços de madeira colocados na lama. O material foi espalhado para deslizar a embarcação de forma mais fácil.
Foto: Márcio do Carmo/GEA
No arquipélago onde fica localizado o Bailique, há pelo menos 52 ilhas. Com a seca, além da questão da locomoção, o acesso aos alimentos que vêm da capital também fica comprometido.
“A maré seca totalmente e não tem como a rabeta passar. Quando ela volta a encher, isso na 3ª lançante, a gente começa a conseguir passar com nossos alimentos, seguir viagem ou até pegar um barco grande para ir para Macapá. Nossos depósitos de comida estão secando também […] além da questão da água que não é potável”, detalhou o líder comunitário, Otoniel Braga.
No conjunto de ilhas, o problema soma-se ao da salinização das águas e do fenômeno das “Terras Caídas”, assoreamento que vem alterando a paisagem e afetando as comunidades ribeirinhas.
Entre as comunidades mais afetadas estão: Ponta da Esperança, Capinal, Arraio, Livramento, Ilha das Marrequinhas, Equador, Campos do Jordão, Maranata, Igaçaba, Ponta do Bailique, Igarapé do Meio, Franquinho, Macedônia, Progresso e Freguesia.
Ação emergencial
No início deste mês, uma ação humanitária foi enviada aos moradores do Arquipélago do Bailique. A ação buscava atender 250 famílias e 34 comunidades atingidas pela salinização das águas, erosão do solo e o intenso período de estiagem.
As ações incluem a entrega de 120 mil litros de água potável, 250 galões de água mineral de 20 litros e 250 kits de alimentos. Além disso, uma equipe de saúde composta por profissionais de saúde realizará atendimentos médicos.
Secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Marcello Lelis, atuará ao lado do presidente eleito Pedro Chagas, do Maranhão. Foto: Marcel de Paula/Governo do Tocantins
O estado do Tocantins assumiu no dia 5 de dezembro a vice-presidência da Força-Tarefa dos Governadores para o Clima e Florestas (GCF Task Force). Eleito de forma unânime, o titular da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Marcello Lelis, também assumirá a vice-liderança do Fórum de Secretários de Meio Ambiente da Amazônia Legal e da Câmara Técnica de Meio Ambiente do Consórcio dos Governadores da Amazônia Legal. O secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão, Pedro Chagas, eleito presidente, exercerá funções equivalentes.
O GCF é uma coalizão composta por 43 estados e províncias, de 11 países e cinco continentes. O Brasil, com os nove estados da Amazônia Legal, tem uma participação central no esforço global. Além do Brasil, a força-tarefa conta com a participação de estados e províncias de países como Bolívia, Colômbia, Costa do Marfim, Equador, Espanha, Estados Unidos, Indonésia, México, Nigéria e Peru. Criado em novembro de 2008, o GCF tem se expandido ao longo dos anos, focando em estratégias para combater as mudanças climáticas e promover a proteção das florestas.
A eleição do secretário Marcello Lelis para o cargo de vice-presidente da força-tarefa é uma importante vitória para o Tocantins que, além de assumir uma posição de destaque, reforça o compromisso com as questões ambientais e climáticas.
“O GCF é um ambiente muito importante para todos nós. Nós, secretários da Amazônia Legal, somos todos companheiros. Para mim, é uma honra e uma alegria poder assumir a vice-presidência ao lado de grandes parceiros, como o secretário Pedro Chagas. Juntos, conseguiremos avançar ainda mais na preservação das nossas florestas e na busca por soluções dos desafios climáticos que afetam a nossa região”, pontuou o titular da Semarh.
Um estudo da Feira Internacional para Água, Esgoto, Drenagem e Soluções em Recuperação de Resíduos (IFAT Brasil) mostrou que 89,5% dos moradores do Acre não têm acesso à rede de esgoto, em mais uma pesquisa que revela dados preocupantes sobre o saneamento básico do estado.
Segundo o levantamento, outros 52% dos moradores não são atendidos pela rede de água, ou seja, pouco mais da metade dos mais de 880 mil habitantes do estado.
A IFAT é um evento que reúne investidores e estudiosos do mercado de saneamento básico em todo o mundo. No Brasil, ela acontecerá em junho de 2025.
Cenário preocupa
Em 2023, a capital acreana perdeu três posições no Ranking do Saneamento, elaborado pelo Instituto Trata Brasil. Nesse levantamento, maior cidade do Acre ocupa a 97ª posição entre as 100 maiores cidades do país, com apenas 20,6% da população contemplada pelos serviços de esgoto, e outros 53,5% de moradores da capital com acesso à rede de água.
A diretora de planejamento e projetos do Serviço de Água e Esgoto do Estado do Acre (Saneacre), Daniela Tamwing, ressalta que, apesar de o órgão atuar nos serviços prestados no interior do estado, o governo reconhece a complexidade e importância do saneamento básico na capital. Por isso, foi assinado um termo de cooperação entre os executivos municipal e estadual em 2023.
Com isso, o estado aposta na revitalização da Estação de Tratamento de Esgoto Redenção (ETE Redenção), em Rio Branco e outros cinco elevatórios próximos. De acordo com o Saneacre, 40 mil moradores da região do Igarapé Rendenção serão beneficiados pelas obras.
“A previsão é que se conclua a obra agora no final do ano, mais tardar em janeiro de 2025. E no interior do estado do Acre, como não tem sistema ainda implantado nos municípios, o primeiro passo é fazer um estudo. Quando a gente vai implantar o sistema de esgotamento sanitário, é necessário um estudo bem mais aprofundado”, acrescentou a diretora.
Ainda segundo Daniela, os estudos que já estão sendo elaborados incluem o esgotamento sanitário do segundo maior município do Acre, Cruzeiro do Sul. O projeto deverá ser executado em parceria com o governo federal, com a estimativa de R$ 2 milhões em recursos. O estado também garantiu, dentro do Novo PAC, R$ 72 milhões para projetos de abastecimento de água.
“E em relação ao interior, é necessário investimento primeiramente para a parte de projetos e depois para a execução desses projetos”, completou.
Perda de água e pavimentação
Outro ponto abordado pelo Ranking do Saneamento e que foi ampliado pelo IFAT Brasil, é a perda de água em toda a rede do estado. No estudo de 2023, Rio Branco apareceu com taxa de 56,5% de volume perdido na distribuição ao consumidor. Em todo o estado, o índice é ainda maior, com 66% de perda.
Rede de tratamento de esgoto de Rio Branco atende 22,6% da população, aponta Trata Brasil. Foto: Alcinete Gadelha/g1 AC
De todo o esgoto gerado, ainda segundo a IFAT Brasil, apenas 0,7% é tratado. Dentro do volume que é coletado, 8,6% são tratados. A coleta de lixo chega a 74% dos domicílios do Acre.
Entre as vias que percorrem as áreas urbanas do estado, 68% contam com pavimentação e meio fio. No mesmo recorte, apenas 13,6% da área urbana tem cobertura de vias públicas com redes ou canais pluviais subterrâneos.
Municípios foram cobrados
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC) notificou 20 cidades do interior do Acre e cobrou planos para o saneamento básico e resíduos sólidos. A decisão deu 180 dias para que prefeituras de 19 cidades apresentem diretrizes e cumpram as leis e decretos federais que instituem a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), e consta na edição de 25 de novembro do Diário Eletrônico de Contas.
Ainda conforme o tribunal, os administradores dos seguintes municípios devem apresentar projetos para a gestão de resíduos sólidos:
Acrelândia; Assis Brasil; Brasiléia; Bujari; Capixaba; Cruzeiro do Sul; Epitaciolândia; Feijó; Jordão; Mâncio Lima; Manoel Urbano; Marechal Thaumaturgo; Porto Acre; Porto Walter; Plácido de Castro; Rodrigues Alves; Senador Guiomard; Sena Madureira; Santa Rosa do Purus e Tarauacá.
A decisão afirma que o objetivo é notificar os municípios “para que apresentem, no prazo de até 180 dias contados a partir da notificação, Plano de Ação para implementação do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos – PMGIRS, com definição de prazos, atividades e responsáveis, de forma a atender os dispositivos da Lei nº 12.305/2010 e Decreto Federal nº 10.936/2020, sob pena de aplicação de multa por descumprimento do art. 89, inciso IV, da LCE 39/93”.
Além disso, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) também foi notificada, ainda no âmbito da lei estadual, para que apresente um plano de ação com medidas que garantam o cumprimento do Plano Estadual de Gerenciamento integrado de Resíduos Sólidos (PEGIRS), em conjunto com os municípios. O Grupo Rede Amazônica entrou em contato com a pasta, e aguarda retorno até a última atualização desta reportagem.
Só a capital possui sistema
Foto: Aleksandro Soares/Saneacre
Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que apenas Rio Branco, Bujari e Brasileia possuíam serviço de esgotamento sanitário em 2021. A pesquisa que leva em consideração essas informações analisa a qualidade de vida no estado.
Porém, o Grupo Rede Amazônica conversou com o professor do Instituto Federal do Acre (Ifac), o engenheiro Florestal, mestre em ciências ambientais e especialista em direito ambiental, Clautevir Lima, que explicou que, apesar do estudo apontar três cidades com esse serviço, na verdade, apenas a capital tem esse sistema.
“De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), em 2019, somente o município de Rio Branco apresentou dados sobre o serviço de coleta de esgoto acompanhada de tratamento. Nesse sentido, o estado do Acre possui um enorme deficit no atendimento da população com rede de esgoto”, pontua.
Ele diz ainda que falta, por parte dos gestores públicos, investimentos nesses empreendimentos que não têm muita visibilidade.
“Para os municípios, o principal empecilho é a indisponibilidade de recursos financeiros para custear a indústria do saneamento básico que, diga-se de passagem, é muito onerosa. Ora, os municípios acreanos são extremamente dependentes de recursos financeiros repassados pelos governos federal e estadual. De acordo com a Política Nacional de Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), possuir o Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB) seria uma forma que o município tem de acessar recursos oriundos do governo federal para o referido setor”, destaca.
Chef de cozinha, culinarista, matriarca e dona de uma simpatia singular, Kalu Brasil, indígena do povo Wapichana, é um dos maiores nomes da culinária roraimense. Em uma cerimônia na última terça-feira (3), data em que celebrou seus 83 anos, ela realizou um sonho antigo ao lançar o livro ‘Kalu Brasil – Da Aldeia Para o Mundo’.
A obra reúne receitas da rica gastronomia regional, temperadas com as memórias que Kalu acumulou ao longo de mais de oito décadas de vida e história.
“A felicidade é imensa, algo que nem consigo explicar. Só sei que é muita alegria, muitas bênçãos e um enorme agradecimento por ter tanta vida. Completo 83 anos no momento certo, e agora meu livro, também chega no tempo certo”, disse Kalu Brasil ao Grupo Rede Amazônica.
O livro foi escrito por Kalu com o apoio do Serviço Social do Comércio (Sesc) em Roraima e em parceria com amigos próximos e cada um teve sua função no desenvolver da obra. O livro conta com 28 receitas diversas da cultura indígena como a damurida, o xibé e a carne de sol com farofa d’água.
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Assinam com ela a jornalista Gersika Nascimento; o fotografo Jorge Macedo; o designer Otávio Coelho, e a historiadora Clarice Gonçalves. Além disso, o filósofo, autor indígenas e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak, é quem escreve o prefácio da obra.
Kalu Brasil, do povo Wapichana, encontrou na culinária indígena uma forma de resgatar sua ancestralidade e valorizar os costumes de seu povo. O livro, fruto de cerca de um ano de trabalho, representa a realização de um sonho que ela acalentou por duas décadas.
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Emocionada, Kalu não contém as lágrimas ao segurar um dos exemplares da obra, que registra de forma escrita as tradições e ensinamentos que ela aprendeu de maneira oral ao longo da vida.
Esse livro é um presente para Roraima, para minha família e para todos que nos acompanharam. É uma obra feita com muito amor e carinho. Kalu Brasil, chef de cozinha e culinarista Wapichana no lançamento da obra ‘Kalu Brasil – Da Aldeia Para o Mundo’
“Esse sonho eu alimento há mais de vinte anos. Sempre que tentávamos começar algo, nunca se concretizava. Então, um grupo de amigas queridas, junto com o Jorge [Macedo, fotógrafo], decidiu me ajudar. O Jorge sempre compartilhou esse sonho comigo; onde quer que nos encontrássemos, ele mencionava o livro: ‘Um dia ele vai sair’. E agora, neste ano, unimos forças e realizamos esse sonho”, contou, emocionada, a culinarista.
Kalu (para todo o) Brasil
O livro terá distribuição nacional por meio do Sesc para mostrar a cultura Wapichana para todo o Brasil. O fotografo Jorge Macedo, de 67 anos, amigo de longa de Kalu, foi um dos principais entusiastas do projeto. É dele a autoria das fotos presentes no livro.
Ele conta que conheceu Kalu viajando por Roraima nos mais 42 anos em que fotografa o estado. Embora o livro seja um retrato histórico e cultural de Roraima, para Jorge, o “tempero especial” é a história de Kalu.
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
“A gente viajava para Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília levando a cultura de Roraima para fora. Nessas viagens, começamos a sonhar: por que não fazer um livro com as receitas regionais? Esse sonho nasceu há mais de 20 anos e, agora, finalmente se tornou realidade”.
“A essência do livro está na história da Dona Kalu, desde quando ela saiu da comunidade indígena até os dias de hoje. É um trabalho que realmente vale a pena conhecer”, contou o fotografo ao Grupo Rede Amazônica.
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
A redação do livro ficou por conta da jornalista Gersika Nascimento, de 39 anos, que também é biógrafa de Kalu. Gersika revela que conheceu a chef ao trabalhar em ‘algumas pautas’ com ela e, desde então, desenvolveu uma profunda admiração por sua história e trajetória.
Para a jornalista, existe uma diferença marcante entre a chef Kalu Brasil e a dona Kalu: além de ser uma profissional excepcional, ela é ‘uma mulher maravilhosa, acolhedora, que conquista a todos com sua doçura’.
“A ideia é registrar todas as receitas da Dona Kalu, porque muitas delas estavam apenas na memória dela. Além disso, trabalhei na concepção do livro, pensando em incluir dicas e elementos que refletissem nosso cenário regional, valorizando a culinária de Roraima para quem tiver acesso à obra”.
“Foi uma honra, porque estamos falando de um patrimônio cultural que poderia se perder sem esse registro. Esse livro permite eternizar essas receitas e histórias. São mais de 30 receitas da Dona Kalu, que agora estão documentadas para a posteridade”, conta a jornalista.
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
A historiadora Clarice Gonçalves, de 43 anos, também assina a obra. Ela é amiga pessoal de Kalu há 17 anos e relata que compartilha com a chef o sonho de desenvolver um livro desde que a conheceu. No livro, ela atuou na busca por patrocinadores, na assessoria e também no trabalho prático na cozinha.
“Esse sonho, na verdade, compartilho com ela desde o início da nossa amizade. A história da Dona Kalu é muito singular. Ela nasceu em uma comunidade indígena, viveu na cidade e passou por uma busca profunda de identidade”.
“Foi um trabalho muito bonito, porque a trajetória dela se entrelaça com as receitas que vieram da sua família, da mãe e das amigas”, relata.
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
A obra foi diagramada pelo designer Otávio Coelho, de 51 anos, que também assina como autor. Ele conta que tudo aconteceu de forma inesperada uma conhecida o convidou para participar do livro da vizinha dela.
“Desde o primeiro encontro, me encantei com essa pessoa maravilhosa. Me apaixonei pelo sonho dela e decidi embarcar no projeto, convidando outros amigos para se juntarem a nós. Então, trabalhamos juntos para finalmente concretizar esse sonho. E, hoje, no dia do lançamento, é ainda mais especial por ser também o aniversário dela”.
83 anos de história
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Na cerimônia de lançamento, amigos e autoridades marcaram presença. Logo na entrada, um bolo com o topo enfeitado com uma figura de uma cozinheira mostra que também há outra coisa para ser comemorada além do lançamento do livro o aniversário de Kalu.
São 83 anos de sabedoria ancestral e tradicional e, nada mais justo do que comemorar lançando um livro que mostra tudo isso.
“É um presente divino. Tenho 83 anos, estou lançando meu livro, só Deus pode explicar. Ele me abençoou para ter comigo amigos maravilhosos. Estou contente, feliz, é uma alegria imensa”, disse Kalu Brasil.
Foto: Samantha Rufino/g1 RR
Filha de mãe indígena Wapichana e pai não indígena, Kalu cresceu em meio a proibição de viver a cultura originária. Ela foi criada pelos avós paternos e passou a conviver com a mãe somente aos 4 anos de idade, quando começou a morar no sítio em que a família vivia, na região do município de Amajari.
À época, ela podia acompanhar a mãe nos lugares, mas não podia comer comidas típicas indígenas, como a damurida ou sequer aprender o idioma falado pela família materna. Adulta, Kalu viu na gastronomia uma oportunidade de acabar com o estigma criado sobre a comida e uma forma de levar o conhecimento para além dos limites das terras indígenas de Roraima, dos estados e até das fronteiras do Brasil.
Em 1996, ela se especializou no preparo da Damurida típico prato indígenas e passou a ensiná-lo para os povos de outros estados brasileiros, além de aprender com eles.
Lançamento do ‘Kalu Brasil – Da Aldeia Para o Mundo’
O livro foi lançado pela editora do Sesc, e a diretora regional do Sesc em Roraima, Lisiane Carnetti, destacou a importância da obra. Segundo Lisiane ele representa uma iniciativa alinhada à missão do Sesc como apoiador cultural: resgatar, valorizar e promover ações que preservam a memória e a identidade do povo roraimense.
“Foi uma experiência maravilhosa. A Dona Kalu é uma pessoa muito meiga, carismática e que tem contribuído enormemente para o desenvolvimento do nosso estado. Quando se fala em Roraima, na cultura, nos pratos típicos da nossa culinária, no que o estado tem para mostrar, a Dona Kalu é uma das grandes representantes. Há muito tempo ela [Kalu] leva o que há de melhor em Roraima para o Brasil e para o mundo”, disse a diretora regional.
As obras de dragagem nos trechos Manaus-Itacoatiara e Coari-Codajás seguem em pleno andamento com o objetivo de assegurar a navegabilidade dos rios Amazonas e Solimões, no estado do Amazonas.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que os investimentos para essas intervenções chegam a R$ 400 milhões, e o projeto será executado ao longo de cinco anos, com foco em fortalecer a infraestrutura fluvial e garantir o transporte seguro e contínuo de mercadorias vitais para a economia local e regional.
O projeto foi viabilizado pelo Ministério de Portos e Aeroportos que, em setembro, assinou contratos com investimentos que somam aproximadamente R$ 280 milhões. O ministro Silvio Costa Filho destacou o trabalho do Governo Federal para amenizar os impactos da grave crise climática.
“Nos últimos anos, as dragagens eram realizadas de forma emergencial e sem planejamento. Agora, teremos previsibilidade para apoiar o setor produtivo no escoamento da produção e garantir que a população também possa viajar pelos rios da região sem prejuízos à mobilidade”, afirmou.
No trecho Manaus-Itacoatiara, a dragagem está sendo executada pelo navio-draga Hopper Lindway, que partiu dos Estados Unidos e realiza os trabalhos em uma extensão de 200 km. Após cumprir os trâmites legais, como a admissão temporária junto à Receita Federal e a inspeção da Marinha do Brasil, o navio está retirando sedimentos de pontos críticos entre a foz do Rio Madeira e a Costa do Tabocal, com o objetivo de melhorar a navegação e garantir o fluxo contínuo de insumos para a Zona Franca de Manaus e outras regiões do interior do estado.
Já no trecho Coari-Codajás, a dragagem está sendo realizada por meio da técnica de sucção recalque, que utiliza bombas para remover os sedimentos do fundo do rio e assegurar a continuidade da navegação em pontos estratégicos.
Essas obras são ainda mais essenciais em função da seca severa que afetou a região entre 2023 e 2024, considerada uma das mais graves da história recente. As intervenções fazem parte do Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (Padma) e do Plano de Sinalização Náutica do estado do Amazonas, ambos com o objetivo de manter a navegabilidade em rotas vitais como Manaus-Itacoatiara, Tabatinga-Benjamin Constant, Benjamin Constant-São Paulo de Olivença e Coari-Codajás.
O aplicativo Tree Earth, desenvolvido em Manaus (AM), foi selecionado por alunos de mestrado da Universidade do Minho, em Portugal, para integrar o projeto de reflorestamento do campus de Azurém, em Guimarães. A cidade portuguesa, que será a Capital Verde Europeia em 2026, busca soluções inovadoras para promover a sustentabilidade.
O plano de reflorestamento do campus foca na redução de emissões de carbono, aumento da eficiência energética e promoção de práticas sustentáveis. Mais de 600 árvores já foram catalogadas com a ajuda da ferramenta. A próxima etapa do projeto é o plantio de mudas para enriquecer a floresta entorno da universidade.
O projeto está sendo coordenado pelo professor doutor Rui Lima em conjunto com seis alunos do curso de Mestrado em Engenharia de Gestão de Operações (Mego). “O objetivo dos estudantes é catalogar as árvores existentes no campus e, posteriormente, desenvolver um plano de reflorestação”, explicou.
Focado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), o trabalho tem uma abordagem que envolve professores, alunos e diversos parceiros, incluindo a startup amazonense que originou o nome do aplicativo, Tree Earth, uma climatech especializada em ações de plantios para recuperar áreas degradadas na Amazônia e em outros biomas, como, o Cerrado e Pantanal.
Para o CEO da Tree Earth, Vicente Tino, a iniciativa coloca a Amazônia e o Amazonas no radar de grandes universidades europeias, que podem contribuir com as ações de recuperação de áreas degradadas.
Foto: Divulgação
“Estas iniciativas podem acontecer tanto lá quanto aqui, onde já temos conseguido atrair parceiros para esta nossa meta ambiental de frear a degradação da floresta a partir do plantio de novas árvores”, afirmou.
A Tree Earth é uma startup nascida em Manaus, com um braço em Portugal. A empresa é uma spin-off da TecMinho, da Universidade do Minho, e tem parcerias internacionais, como o Pacto Brasil, da ONU, além de atuação junto a parceiros da iniciativa privada, institutos de pesquisa e órgãos públicos.
Pescadores, ribeirinhos e voluntários participaram de uma expedição para remover o lixo acumulado ao longo do rio Guaporé, em Pimenteiras do Oeste (RO). A ação tem como objetivo reflorestar cerca de 40 quilômetros de vegetação que foi destruída por incêndios na região.
Com mais de 1,7 mil quilômetros de extensão, o rio Guaporé é um dos afluentes da bacia amazônica. Além disso, o Guaporé banha os estados de Rondônia e Mato Grosso e forma a fronteira do Brasil com a Bolívia.
O projeto “Somos Todos Guaporé” existe há mais de 20 anos. Durante a jornada, os voluntários percorrem cerca de 80 acampamentos de pesca e vilarejos, coletando o lixo para iniciar o reflorestamento.
De acordo com Amilton Souza Brito, presidente da associação Somos Todos Guaporé, o projeto teve início após o período de estiagem, quando ele observou que o reflorestamento seria necessário para a sobrevivência dos animais.
“Hoje o desastre que teve desse fogo não atinge só nós seres humanos, atinge também os peixes, os animais. Hoje a importância desse projeto pra gente é trazer alimentos pros peixes, trazer alimentos pros animais e principalmente o ar para o ser humano”, disse Brito.
Foto: Iury Lima/Rede Amazônica RO
Cerca de 2,5 toneladas de lixo foram retiradas por voluntários do rio Guaporé. Após a coleta, o material é levado para a cidade de Cerejeiras (RO), onde recebe o tratamento adequado. Segundo Marcos Antônio, voluntário do projeto, além de ajudar os animais, a expedição também é importante para incentivar os pescadores locais.
“A gente pensa se não tivesse essas coletas de lixo, como estaria o nosso rio Guaporé hoje. Ele estaria praticamente inviável para a pesca e outras atividades”, afirmou o voluntário.
Foto: Iury Lima/Rede Amazônica RO
Na segunda etapa do projeto, cem mil mudas serão plantadas, em cerca de 27 quilômetros de extensão. Segundo Tatiane Rufatto, engenheira florestal, trinta espécies de árvores serão plantadas na área e todas elas foram escolhidas por meio de uma pré-seleção.
Queimadas causaram o atraso na desova de tartarugas no rio Guaporé
As queimadas em Rondônia causaram o atraso de quase dois meses na formação dos ninhos de tartarugas às margens do rio Guaporé, entre os municípios de Costa Marques e São Francisco do Guaporé, em Rondônia, na fronteira com a Bolívia. As equipes de monitoramento temem que os filhotes ainda não estejam prontos quando as chuvas começarem a cair e o nível do rio voltar a subir.
Normalmente a desova das tartarugas-da-amazônia ocorre entre agosto e setembro. O período até a eclosão dura, em média, 60 dias. Com o atraso na desova, o risco, agora, é que o nascimento dos filhotes coincida com o período de chuvas e os ovos, enterrados na areia, fiquem soterrados e os filhotes não consigam subir até a superfície para respirar.
“Se chega água nos ninhos e elas não saíram, por ironia do destino elas morrem afogadas por não conseguirem sair da areia”, revela o biólogo e voluntário da Organização Não Governamental (ONG) Ecovale, Deyvid Muller.
Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o tabuleiro de desova do rio Guaporé é o maior do país. As tartarugas se espalham por quatro praias: Ilha, Alta, Suja e Tartaruguinha.
Deyvid explica que a fumaça alterou a temperatura e a luminosidade do ambiente, impossibilitando a criação do “cenário ideal” para a desova das tartarugas no período regular.
“Nós acreditamos que o principal motivo foram as queimadas e a grande quantidade de fumaça, que afetaram a temperatura, e a falta do sol pela necessidade da temperatura da areia para que chocassem seus ovos”, explica.
Somente com a redução dos focos de calor, em outubro, as tartarugas se deslocaram até a praia para depositar os ovos. Com o período de cheias dos rios se aproximando, existe o risco de que a água alcance os ninhos antes que os filhotes estejam prontos.
*Por Iury Lima e Amanda Oliveira, da Rede AmazônicaRO
O relatório inédito“O manejo de florestas naturais e o setor madeireiro da Amazônia brasileira: situação atual e perspectivas” apresenta uma análise abrangente e estratégica sobre o setor madeireiro da região, aponta desafios históricos, oportunidades e recomendações para alinhar a exploração madeireira às necessidades de conservação e desenvolvimento sustentável. Elaborado pela iniciativa Amazônia 2030, em parceria com Imaflora e Instituto Floresta Tropical (IFT), o estudo é um alerta e um chamado à ação para governos, empresas e sociedade civil.
O setor madeireiro amazônico, que já foi um dos pilares da economia da região, enfrenta uma crise prolongada. A produção de madeira em tora despencou de 28 milhões de m³ no final da década de 1990 para apenas 10-12 milhões de m³ nos últimos anos. Cerca de 92% da madeira é destinada ao mercado interno, sobretudo à construção civil, enquanto apenas 8% é exportada.
“O setor madeireiro da Amazônia ainda opera em grande parte de forma insustentável, o que o torna incompatível com as demandas da bioeconomia”, explica Marco W. Lentini, secretário executivo do IFT e um dos autores do relatório.
Ele ressalta que práticas predatórias e a exploração ilegal continuam predominando, com 30% a 40% da exploração ocorrendo sem autorização.
Manejo florestal
Desde a década de 1990, o manejo florestal tem sido uma tentativa de equilibrar a conservação da floresta com a geração de renda. Atualmente, apenas 8% a 9% da produção madeireira da Amazônia provém de áreas manejadas de forma responsável, como concessões florestais ou empreendimentos certificados. O manejo florestal reduz custos em até 20% em comparação com práticas convencionais, além de oferecer benefícios ambientais significativos, como a manutenção de biodiversidade e estoques de carbono.
No entanto, as concessões florestais, reguladas pela Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006, progrediram de forma lenta. Em 18 anos, apenas 1,3 milhão de hectares foram concedidos, muito abaixo dos 25 milhões de hectares necessários para atender à demanda e estabilizar a fronteira madeireira.
Principais desafios
O setor madeireiro da Amazônia enfrenta entraves estruturais e sistêmicos que limitam seu potencial econômico e comprometem sua sustentabilidade. Entre os maiores desafios está o predomínio da exploração ilegal. Dados do relatório apontam que entre 30% e 40% da madeira amazônica é explorada sem as devidas autorizações, muitas vezes por meio de fraudes no sistema de créditos florestais. “Os créditos fictícios permitem inflar a legalidade de madeira retirada de forma predatória, criando uma cadeia que dificulta a rastreabilidade e mina a credibilidade do setor”, explica Marco W. Lentini, coautor do estudo.
Além disso, a exploração concentra-se em poucas espécies, com apenas 20 das mais de 1.000 disponíveis sendo amplamente comercializadas. Essa dependência gera pressão excessiva sobre espécies como o ipê e o cumaru, enquanto outras permanecem subutilizadas. “O setor ainda não investe na diversificação de espécies, perdendo oportunidades de explorar de forma equilibrada a biodiversidade amazônica”, destaca Lentini.
Foto: Divulgação/Imaflora
A falta de modernização tecnológica é outro ponto crítico. Parques industriais obsoletos e a ausência de inovação mantêm o setor dependente de processos ineficientes e com baixo valor agregado. Além disso, a baixa rastreabilidade compromete a confiança de consumidores e investidores, mesmo com avanços como a plataforma Timberflow, que ainda precisa de maior adesão e integração para garantir transparência total na cadeia produtiva.
Propostas para o futuro
O relatório apresenta um caminho claro para transformar o setor madeireiro amazônico em um modelo de sustentabilidade econômica e ambiental. A expansão das concessões florestais é uma das principais recomendações. “As concessões florestais não apenas garantem a origem legal da madeira, mas também contribuem para a conservação, gerando benefícios sociais e econômicos para as comunidades locais”, afirma Maryane B. T. Andrade, coautora do estudo.
Outra proposta é fortalecer o manejo florestal comunitário e familiar, que pode se tornar uma alternativa viável para pequenas comunidades. No entanto, isso exige políticas públicas mais robustas, financiamento adequado e suporte técnico.
“O manejo comunitário pode ser uma solução para democratizar o acesso à floresta, mas precisa de apoio contínuo para competir com práticas predatórias”, aponta Andrade.
A diversificação da produção é outro eixo estratégico. Incentivar o uso de espécies pouco exploradas, por meio de estudos de viabilidade e incentivos econômicos, pode aliviar a pressão sobre espécies ameaçadas e aumentar a competitividade do setor. Paralelamente, o investimento em tecnologia, como drones e inteligência artificial, é essencial para modernizar processos e aumentar a eficiência produtiva.
O relatório também propõe integrar o setor madeireiro a sistemas de pagamento por serviços ambientais, como o REDD+, criando uma fonte de renda adicional para produtores que mantêm a floresta em pé. Além disso, sugere medidas para fomentar o uso sustentável da madeira em mercados externos e internos, como políticas de compras públicas que priorizem produtos de origem certificada.
Oportunidades para transformação
Apesar dos desafios, o setor madeireiro da Amazônia tem um potencial significativo de se tornar um exemplo global de bioeconomia. A transição para práticas sustentáveis pode gerar ganhos econômicos expressivos, atraindo investidores e consumidores preocupados com a origem dos produtos que consomem. “A madeira amazônica pode ser um insumo estratégico para a construção sustentável, substituindo materiais de alto impacto, como cimento e aço, em projetos inovadores”, ressalta Lentini.
A Amazônia também pode liderar o mercado de carbono, integrando o setor madeireiro a iniciativas de compensação ambiental. “A floresta em pé tem valor, e precisamos criar mecanismos que reflitam isso na economia global. As oportunidades estão aí, mas demandam planejamento e coordenação”, conclui Maryane.
“O setor madeireiro pode ser um motor da bioeconomia amazônica, mas, para isso, precisamos de ações concretas que garantam a sustentabilidade e a legalidade da cadeia produtiva. Sem isso, perderemos uma oportunidade histórica de transformar a Amazônia em um exemplo global de desenvolvimento sustentável”, afirma Beto Veríssimo, pesquisador e coordenador do projeto Amazônia 2030.
Com a implementação das propostas apresentadas no relatório, o setor madeireiro não apenas pode superar sua crise, mas também se consolidar como um pilar da bioeconomia amazônica, promovendo desenvolvimento social e conservação ambiental.
A publicação está disponível para download no site do Amazônia 2030 e serve como base para discussões futuras sobre o papel da Amazônia na bioeconomia global.