Ronaldo Barcelos é uma importante peça na engrenagem que deseja ver um mundo mais justo, sustentável e habitável para todos. Há 25 anos, após uma viagem para conhecer melhor o Brasil profundo, o autor carioca buscou inspiração para escrever uma história cheia de aventura, com personagens reais e ambientada na maior floresta tropical do planeta, a Amazônia.
A Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) foi palco de mais uma edição do TEDx, a maior plataforma de palestras na atualidade, vista por pessoas de vários países e traduzida para diversos idiomas. Barcelos começou sua participação destacando a importância de preservar o único planeta do sistema solar que possui vida e relembrou os ensinamentos que recebeu de um velho cacique.
“Queremos progresso, queremos evolução. Mas se for às custas de devastação, desmatamento e mortandade do nosso povo, preferimos ficar aqui, na floresta”, refletiu Barcelos.
O escritor destacou que o modelo atual de desenvolvimento econômico aponta para uma situação alarmante: a perda do bioma nos próximos 50 anos. É preciso somar o conhecimento tradicional com a ciência moderna. É possível ganhar dinheiro mantendo o ambiente equilibrado e preservado para as próximas gerações.
“Se faz necessário uma grande união de esforços. O caminho é a bioeconomia, podemos criar um selo mundial ‘Made in Amazon – Brazil’ e fabricar os produtos na própria região ao invés de vender nossa matéria prima a preço baixo. Temos condições de fomentar o turismo sustentável, precisamos inserir a população local dentro do debate e tomada de decisões, é fundamental. O Brasil tem capacidade para se tornar uma grande potência em desenvolvimento sustentável, ser exemplo para outros países, gerar riquezas para a população”, disse.
Espalhar a palavra através da educação
A saga de super-heróis com a missão de proteger a Amazônia nasce a partir do desejo de espalhar a importância de preservar um patrimônio natural rico em biodiversidade, cultura, gastronomia e acima de tudo, com uma população formada por indígenas, quilombolas, ribeirinhos, com conhecimentos e saberes ancestrais que precisam ser compartilhados com todo o mundo.
Foto: Divulgação
A trama foi cuidadosamente escrita para inspirar jovens de todo o Brasil a se vestirem com a capa de super-herói e unir esforços para cuidar do planeta, do bairro, cada um fazendo sua parte. A história é fictícia com problemas e personagens reais.
Os protagonistas têm poderes especiais advindos de animais da fauna amazônica, como a arara, boto. Temas como poluição das águas, garimpo ilegal e biopirataria são colocados de maneira didática. A intenção é despertar o lado corajoso e ativista desses leitores.
Outro ponto que a obra joga luz é valorizar a juventude do norte, que claramente podem e devem se sentir inseridas dentro dessa linguagem. “Eles são as estrelas capazes de minimizar os efeitos negativos das mazelas causadas pelo homem à mãe natureza”, explica Barcelos.
“Precisamos construir pontes com as escolas e capacitar os professores para uma educação que forme jovens com valores, honestos, que respeitem as diferenças e as leis, que combatam a corrupção e sejam capazes de prosperar profissionalmente e socialmente”, sinaliza Ronaldo.
Projeto Social
Ao longo de 26 anos, o projeto cumpre o importante papel de criar, produzir, divertir, educar e impactar milhões de crianças no Brasil. Ao todo são 25 mil livros e 250 mil ebooks doados para mais de mil escolas no Brasil.
Livros em PDF, manuais do professor, desenhos animados e músicas podem ser baixados e assistidos em computadores, celulares e tablets. Para conhecer melhor o projeto ‘Amazon – Guerreiros da Amazônia’, basta clicar AQUI.
Se a crise climática é um dos temas de maior importância no mundo atualmente, os olhos de governantes do mundo todo, além de empresas, organizações do Terceiro Setor e de ativistas já estão todos voltados para Belém (PA), que vai sediar em 2025 a COP30, encontro no qual líderes mundiais debatem soluções para as mudanças climáticas. E a cultura pode ser uma grande aliada na conscientização sobre a emergência.
No Amazonas, a população tem sentido os efeitos das mudanças climáticas. Entre a seca e a fumaça que se intensificou na região nos últimos anos, a arte foi o vetor que moveu a 17° edição do Festival Até o Tucupi, entre 20 e 30 de novembro.
Dessa vez, a temática não poderia ser diferente: entre os shows de artistas locais e performances da cena ballroom, o “Festival pelo clima” como está sendo chamado, trouxe discursos sobre a crise climática como e o fortalecimento do papel da Amazônia como centro das discussões globais.
“Até o Tucupi”, é uma expressão popular que significa “quando algo está cheio”, “abarrotado”. E inspirado por essa expressão, o festival segue com o objetivo de refletir esse “transbordamento de cultura, resistência e mobilização”, reunindo artistas, coletivos e movimentos sociais para ocupar os espaços e fomentar debates para e sobre a Amazônia.
O Festival acontece desde 2007 e é um dos mais antigos da região norte, tendo passado por diversas fases e dificuldades, como a pandemia, secas, cheias, desmatamento e queimadas. Desde então, o evento tem movimentado a cidade de Manaus, de forma gratuita, com a missão de ocupar seus espaços públicos com debates, encontros, arte e cultura, trazidos por artistas, movimentos sociais, grupos e coletivos urbanos.
Foto: Divulgação/@alonsojunioram
Nesta nova edição, o evento se propõe a iniciar os trabalhos acerca da COP30, trazendo temáticas como justiça climática, racismo ambiental e também sediou o primeiro Encontro Amazonense sobre Crise Climática. Discussões que trazem a urgência da situação atual do Amazonas, no último ano o estado virou notícia depois da intensa seca, e neste ano não está sendo diferente, já que o estado enfrenta pelo segundo ano consecutivo a pior seca de todos os tempos.
O Festival Até o Tucupi 2024 é realizado pelo Coletivo Difusão, que atua na valorização das artes integradas, da cultura e da diversidade na Amazônia, neste ano terá o apoio do Coletivo Proteja; da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB); do Miriã Mahsã, coletivo indígena LGBTQIAPN+; e da Casa Cinco Criações, produtora cultural.
No último ano, o festival não pôde acontecer por questões financeiras. Apesar de estarem neste ano se mobilizando para a COP30, Elisa Maia, artista, cantora e produtora cultural, que faz parte do Coletivo Difusão, observa não ter acontecido um aumento de oportunidades no estado por conta da conferência.
“Não tem nada com foco, por exemplo, pautando, questões ambientais, ou sobre as emergências. O Até o tucupi, como não é um festival que vende ingressos, sempre depende de editais públicos e alguns privados. Mas que edital é aquela coisa, você escreve um processo e você não sabe se vai ser aprovado”, reflete Elisa sobre as oportunidades que surgem com a COP no estado.
Elisa conta que o festival tem discutido a emergência climática com uma visão mais profunda, principalmente por conta das dificuldades que Manaus e o estado do Amazonas têm passado. O assunto virou “inevitável”, visto que o Amazonas tem sofrido com a questão das queimadas e com conflitos em terras indígenas.
Para ela, os eventos extremos do clima impactam diretamente na produção artística e cultural.
“Produções que são canceladas de risco, por exemplo, de temporais. Como no ano passado, quando rolou a fumaça na cidade, vários eventos foram cancelados, porque era perigoso estar reunindo as pessoas respirando aquele ar com a qualidade péssima. Eu acho que é indiscutível o papel hoje que a cultura precisa ter diante desse tema. E nós que somos produtores de festivais, mais ainda”.
Junto a movimentos como a COP das Baixadas, em Belém, e o “Artistas pelo Clima”, em Manaus, o festival surge da necessidade e da falta de espaços que discutam o assunto com a população.
“Sentimos falta na cidade de uma certa convergência de grupos que já dialogam sobre isso. Então, o Até o Tucupi propõe também que o nosso espaço, que a nossa visibilidade seja usada para que os grupos se reúnam também”, complementa Elisa.
Para ela, a cultura tem o importante papel de atingir esse público.
“Temos certeza que a cultura, que a arte-cultura é um excelente veículo para comunicar essas questões, para comunicar as emergências do clima, para comunicar o tanto que a gente precisa estar engajado nessa pauta, o tanto que as pessoas comuns, que o cidadão comum precisa estar cobrando”.
A cultura como uma forma de resposta
A inquietação que produtores culturais e organizações sentem não é recente. Para manter viva a lembrança do seringueiro, sindicalista e ambientalista Chico Mendes, “A semana Chico Mendes” foi criada pelo Comitê Chico Mendes, organização que foi fundada ainda em 1988, ano do seu assassinato.
Desde então, anualmente o Comitê tem promovido o evento que neste ano celebra o 80º aniversário do ambientalista, que tornou-se um símbolo de resistência e justiça social. Com o tema “Chico 80 Anos: A Luta Continua”, o evento acontece entre os dias 15 e 22 de dezembro em Xapuri e Rio Branco, no Acre.
A programação contará com rodas de conversa, atos culturais, exposições fotográficas e exibições de filmes sobre a Amazônia. O comitê também é responsável pelo “Festival Jovens do Futuro”, que acontece também no Acre. O festival é inspirado pela carta que Chico deixou antes da sua morte. A carta “Atenção Jovens do Futuro” falava para as próximas gerações continuarem a luta que ele iniciou em defesa da floresta e de seu povo.
Nesta edição, o festival contou com mostras de arte, cine-debates e oficinas como “Se montando em tempos de crise climática”, que abordou técnicas de montagem e maquiagem pensadas para enfrentar as temperaturas elevadas. O festival que trouxe a crise climática como discussão central, precisou ser adaptado e suspendeu até mesmo algumas atividades por conta das fumaças intensas e queimadas que atingiram o estado do Acre.
Foto: Hannah Lydia/Comitê Chico Mendes
“Quem bota fé que a COP vai mudar alguma coisa?”
Apesar das dificuldades, é certo que as organizações e coletivos da região norte já tenham iniciado a mobilização para que a COP vá além de uma conferência internacional. Para ocupar esses espaços, diversos movimentos novos têm sido criados, e para todos a preocupação é a mesma: o que fica depois da COP?
Durante a agenda do festival Até o Tucupi, o “Encontro Amazonense Sobre Crise Climática” buscou reunir forças para a construção de uma resposta coletiva e integrada à crise climática. Dentro do encontro aconteceu também a roda de conversa “Quem bota fé que a COP vai mudar alguma coisa?”, como conta Elisa.
“É a gente também fazendo uma provocação que tipo de presença é essa, que incidência conseguimos fazer na COP e além dela. Vamos fazer a nossa construção para chegar até ano que vem e ter a nossa participação também”.
Foto: Divulgação/@alonsojunioram
As opiniões sobre as oportunidades que surgem com a conferência são várias, mas uma preocupação que surge nesse cenário trazida por Paula, de Belém, reflete também o medo de empresas de fora da região norte conseguirem se apropriar dessas poucas aberturas que têm surgido.
“Existe uma preocupação, principalmente quando vemos perspectivas de eventos chegando aqui, e eu acho isso muito importante também, porque é uma expansão, tanto de contatos, networks, pessoas que conhecemos, mas claro, tem pessoas que muitas vezes vem fazer eventos sem se preocupar com o território”.
Para ela, o principal é entender o protagonismo do território.
“O protagonismo desse território são as pessoas do norte, são as pessoas que estão vivendo realmente aquelas mudanças, estão vivendo todos aqueles impactos climáticos, que têm sido muitos. A ideia realmente é protagonizar o babado mesmo, porque é o que a gente quer. A gente quer corpos LGBTs, corpos negros, mulheres à frente desse processo todo”, enfatiza Paula.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Alicia Lobato
Representantes do Banco Mundial estiveram em Belém para conhecer as políticas públicas desenvolvidas pelo Governo do Pará. Durante a visita, a delegação, composta por Marie Paviot, Elena Mora López, Hector Peña e Mauro Del Grossi, reuniu-se com representantes do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio). O encontro teve como objetivo avaliar iniciativas estaduais voltadas à sustentabilidade e ao desenvolvimento agroflorestal.
Pelo Ideflor-Bio, participaram o diretor de Desenvolvimento da Cadeia Florestal, Vicente Neto, e o gerente de Tecnologia Florestal, Cleberson Salomão. Eles apresentaram as ações do Instituto, com destaque para o Programa de Sistemas Agroflorestais (PROSAF), iniciativa que visa promover a integração entre a produção agrícola e a preservação ambiental. O PROSAF chamou a atenção da comitiva, especialmente pela capacidade de aliar recuperação de áreas degradadas, geração de renda para agricultores familiares e proteção da biodiversidade.
Além do PROSAF, os representantes do Ideflor-Bio detalharam outras atividades do Instituto, como o manejo florestal sustentável por meio das concessões florestais, a restauração de áreas alteradas, a gestão de Unidades de Conservação (UCs) e o monitoramento da biodiversidade. Vicente Neto destacou o papel estratégico do Ideflor-Bio na implementação de políticas públicas que conciliam preservação ambiental e desenvolvimento econômico no Pará.
Marie Paviot, economista agrícola sênior do Banco Mundial, elogiou o PROSAF, ressaltando a importância de iniciativas que valorizem a sustentabilidade como eixo central do desenvolvimento.
“É um exemplo concreto de como as práticas agroflorestais podem gerar benefícios sociais e ambientais de forma integrada”, comentou Paviot durante a reunião.
Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará
Parcerias
A visita também teve um caráter estratégico, voltado à prospecção de parcerias e captação de recursos para ampliar as iniciativas sustentáveis no Pará. Segundo Elena Mora López, economista agrícola do Banco Mundial, as ações desenvolvidas pelo estado possuem potencial para atrair investimentos internacionais, especialmente em um momento em que questões climáticas estão no centro da agenda global.
Além do Ideflor-Bio, a comitiva visitou outros órgãos estaduais, como a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), o Instituto de Terras do Pará (Iterpa), a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). Em todos os encontros, foram apresentadas iniciativas voltadas à preservação ambiental e ao fortalecimento da agricultura sustentável.
Futuro
Para Cleberson Salomão, a troca de experiências com o Banco Mundial reforça o compromisso do Pará com a sustentabilidade. O estado tem se consolidado como referência nacional em políticas públicas voltadas à sustentabilidade e ao manejo florestal.
“Essas parcerias são fundamentais para que possamos ampliar o alcance de nossos projetos e garantir um futuro mais sustentável para as próximas gerações. A visita da delegação do Banco Mundial reforça o reconhecimento internacional do estado e abre novas perspectivas para a ampliação de programas e investimentos no setor ambiental”, destacou o gerente do Ideflor-Bio.
Casa incendiada por homens encapuzados e armados na Comunidade Pataxó Patxohã (BA). Foto: Reprodução/ Apib
Ninguém pode ser ameaçado por defender um mundo mais sustentável, digno e justo – mas a realidade mostra um outro lado, o da violência contra os defensores e defensoras de Direitos Humanos. Segundo o documento ‘Dados Parciais 2024: Violência no campo faz menos vítimas, mas os conflitos continuam em níveis elevados no 1º semestre’, publicado no dia 2 de dezembro, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), um cenário de horror e guerra perdura no interior do Brasil.
Segundo a Comissão, foram registrados no primeiro semestre de 2024 1.056 ocorrências de conflitos no campo, sendo 872 conflitos pela terra, 125 conflitos pela água e 59 casos registrados de trabalho análogo a escravidão. Somado aos danos sofridos pelas comunidades rurais devido à crise climática e aos incêndios criminosos, chega-se a uma situação desesperadora, com altos índices de conflitos por territórios e muitas situações de pobreza e vulnerabilidade.
Nega Pataxó
Importante ressaltar que a maioria das ocorrências foi de violências contra a ocupação e a posse (824), frente às 48 ações de resistência (ocupações, retomadas e acampamentos). Os povos indígenas ocupam o 2º lugar (220 casos) em relação aos alvos da violência dos conflitos de terra, ficando atrás apenas de posseiros, que são famílias moradoras de comunidades tradicionais, mas que ainda não têm a titulação da terra.
Segundo a CPT, “houve uma diminuição no número de vítimas de assassinatos, sendo 6 no primeiro semestre, e 11 confirmados até o final de novembro. E quase metade dos assassinatos foram cometidos por fazendeiros. Do total de vítimas, 1 foi mulher: a liderança indígena Nega Pataxó, vítima da ação coordenada pelo grupo de ruralistas autodenominado “Invasão Zero”.
Falta água
A situação de violência nos territórios permanece – semana passada, houve uma situação muito grave no estado do Mato Grosso do Sul, nas imediações da Reserva Indígena de Dourados e da rodovia que liga Dourados a Itaporã, a MS 157.
Povos indígenas das etnias Guarani Kaiowá e Terena realizavam manifestações contra a escassez de água potável quando a Polícia Militar e a Tropa de Choque, enviadas pelo governador Eduardo Riedel (PSDB/MS), reprimiram de forma violenta a manifestação pacífica a favor de um item essencial à vida: a água.
Homens, mulheres, idosos e crianças sofreram com os efeitos das balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo disparadas pelas forças policiais. Ao adentrarem a Aldeia Jaguapiru, atos de violência física também foram testemunhados pelos indígenas. Segundo a Assembleia Geral do povo Kaiowá e Guarani, ao menos 20 indígenas terminaram feridos, sendo que três (duas mulheres e uma criança) precisaram de internação hospitalar.
No mesmo dia à noite, a comunidade Pataxó Patxohã, em Santa Cruz Cabrália (BA), foi atacada por homens armados e encapuzados que colocaram fogo em duas casas, incluindo a do cacique e a do vice-cacique.
Conhecida como Terra Indígena Coroa Vermelha ou Aldeia da Pinga, a área abriga 65 famílias e cerca de 300 pessoas, a região é alvo de um conflito fundiário que se arrasta desde 1993 entre povos indígenas e antigos latifundiários.
Seja no contexto urbano ou dentro dos seus territórios, os povos indígenas têm enfrentado diferentes ameaças na luta pelos seus direitos e no direito à vida com dignidade. A Lei 14.701/2023, que aprovou o Marco Temporal e está atualmente em vigor, possibilita a intensificação da violência.
Na semana passada, autoridades policiais e o capangas do agronegócio protagonizaram cenas de violência extrema contra os povos originários e tais atos precisam ser investigados e os culpados, devidamente responsabilizados.
Foto: Tuane Fernandes / Greenpeace
Em ambos os casos, a violência encontra na legislação aprovada a carta branca que precisa para continuar perpetuando a negação dos direitos básicos e a manutenção do clima de terror. Enquanto a luta pelo direito ao território encontra barreiras e morosidades em Brasília (DF), a sobrevivência dos povos originários, que já estavam aqui bem antes da promulgação da Constituição de 88, estará ameaçada.
Quando um direito é violado, todos os outros direitos estão ameaçados. Por isso, ser contra a tese do Marco Temporal é, antes de tudo, uma luta pela justiça social, pela defesa dos direitos dos povos indígenas e pela conservação do meio ambiente. Essa causa não é exclusiva dos povos indígenas, mas de todos que acreditam em um futuro sustentável, justo e possível.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Greenpeace
Trabalho sintetiza conhecimentos dos indígenas do Alto Rio Negro, que organizam o mundo nos domínios terrestre, aéreo e aquático. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
No contexto da crise climática, o diálogo entre o conhecimento científico ocidental e o indígena é essencial para a conservação da Amazônia e para o futuro sustentável do planeta. A integração dos sistemas de conhecimento pode garantir uma ciência mais holística, que entenda a conexão indissociável entre cultura e natureza e que, portanto, reconheça a contribuição dos povos originários para a reabilitação dos ecossistemas.
É o que aponta artigo publicado na revista “Science” nesta quinta (12) por pesquisadores indígenas dos povos Tuyuka, Tukano, Bará, Baniwa e Sateré-Mawé, em parceria com não indígenas, vinculados a projeto do Brazil LAB, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Os cientistas participantes também têm vínculo com instituições brasileiras como as universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Amazonas (UFAM).
O artigo defende a integração urgente entre os saberes, considerando a contribuição das teorias e práticas de povos indígenas, há pelo menos 12 mil anos, para a conservação e restauração do meio ambiente – e elegem a Amazônia como um terreno fértil para promover este diálogo.
O trabalho sintetiza conhecimentos dos indígenas do Alto Rio Negro, território localizado no estado brasileiro do Amazonas. Para esses povos, o mundo pode ser organizado em três domínios: terrestre, aéreo e aquático. Esses domínios são ocupados não só pelos humanos, mas por outros seres, como animais, plantas e rios, e pelos chamados “outros humanos” – ou “encantados” – que já habitavam o mundo antes dos humanos e que são consultados através dos especialistas indígenas, comumente chamados de pajés. Para que os humanos possam acessar elementos da natureza, é fundamental solicitar permissão e negociar com os outros seres presentes nesses domínios, respeitando as práticas e rituais que mantêm o funcionamento dessa rede cosmopolítica.
“Uma das principais lições dos conhecimentos indígenas do Alto Rio Negro é compreensão de que as vidas se estabelecem em conexão. Nada existe sozinho, tudo está relacionado – e compreender essa rede de relações entre todos os seres é uma das chaves para a sustentabilidade”, explica Carolina Levis, pesquisadora da UFSC e primeira autora do artigo.
Para ela, a cosmovisão indígena pode auxiliar na desconstrução da visão colonialista que há séculos explora a Amazônia. “Enquanto o pensamento ocidental está enraizado em visões utilitaristas e antropocêntricas da natureza, os povos indígenas amazônicos entendem que a natureza e seus elementos também são dotados de qualidades de pessoas e tudo faz parte de um sistema integrado”, comenta.
“Escrevemos esse texto para dar voz também àqueles que não tem, e fazer ecoar vozes de quem não conseguem reagir à destruição de seus territórios”, explica Justino Sarmento Rezende, pesquisador da UFAM e um dos autores indígenas do artigo. “Outros seres também são viventes e habitantes dos territórios, ninguém consulta os animais antes de invadir a casa deles e seguir destruindo. Uma vez que considerarem os outros seres como relacionados a nós, teremos que fazer o papel de diplomatas, pois eles não estão sendo ouvidos e entendidos. Vamos fazer um pouco desse papel de representá-los. Assim como os povos indígenas, os outros seres também estão silenciados”, continua o pesquisador.
Rezende defende uma ciência que agregue os diferentes saberes em defesa da Terra e da relação recíproca entre todas as espécies. “Um único sistema de conhecimento não será suficiente para enfrentar a emergência climática, é necessário o diálogo entre múltiplos conhecimentos. Precisamos sentar todos na mesma mesa para decidir o que podemos fazer e projetar estratégias, soluções e inovações”, alerta.
Os pesquisadores apontam ações e práticas indígenas que podem ser somadas às pesquisas científicas, como, por exemplo, a influência do movimento das constelações e dos ciclos da Terra na produção de alimentos. Para Carolina Levis, uma das principais conclusões para a eficiência da conservação do bioma é a inclusão respeitosa de líderes e especialistas indígenas em processos de investigação e tomada de decisão.
O artigo reconhece o desafio de fazer valer o status de ciência ao conhecimento indígena, já que “os espaços de formação dos especialistas não estão nas universidades, os ‘laboratórios’ indígenas estão nas próprias aldeias”, lembra Levis. Dessa forma, avaliam os autores, é também importante que universidades e instituições de pesquisa criem espaço para a ciência indígena, valorizando e respeitando as visões de mundo dos povos originários.
Regimento interno de comunidades indígenas é assegurado pela Constituição Federal de 1988. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Na comunidade Novo Paraíso, localizada na região da Raposa Serra do Sol, a recepção é marcada por festa, alegria e rituais tradicionais, como a defumação com Maruai, para garantir proteção, e a dança do Parixara, símbolo de agradecimento. A celebração acolhe a visita da comissão do programa Operadores Indígenas de Direito que chega com uma missão importante: auxiliar na elaboração do regimento interno – documento semelhante a um código de conduta com validade jurídica assegurada pela Constituição brasileira.
Criado há 20 anos pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), os Operadores Indígenas de Direito têm como propósito oferecer assistência jurídica diversa às comunidades indígenas de Roraima. Ao criar o regimento interno, mecanismo formal com normas, infrações e até punições, há o fortalecimento da organização comunitária indígena – tudo assegurado pela lei.
O programa foi vencedor da 21ª edição do Prêmio do Instituto Innovare 2024, um dos mais importantes prêmios do país que reconhece práticas inovadoras de Justiça, na categoria “Advocacia”, com o nome “Advocacia indígena nos territórios: Formação dos Operadores Indígenas de direito”.
Atualmente, três advogados indígenas desenvolvem o projeto: Junior Nicacio Wapichana, que atua como coordenador, Ivo Cipio Macuxi e Fernanda Felix Wapichana – os três atuam como instrutores de Direito nas comunidades.
“É muito gratificante ver que uma iniciativa feita em parceria com as comunidades pode ter um impacto tão grande”, afirma Nicácio.
Uma das principais ideias dos Operadores Indígenas de Direito é resolver dentro das próprias comunidades indígenas todas questões que surgirem por meio do conhecimento tradicional.
Os regimentos internos, como o em desenvolvimento na comunidade Novo Paraíso, têm a função de evitar e também punir conflitos dentro das comunidades. Situações como brigas, agressões ou furtos são resolvidos dentro da própria comunidade, com serviços comunitários ou outro tipo de pena estipulada pelo regimento e por assembleia de lideranças – sem a necessidade de recorrer às tradicionais leis brasileiras.
O projeto é pioneiro no Brasil e foi criado há duas décadas pela atual presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, a primeira mulher indígena advogada do país.
Atualmente, ao menos 80 lideranças são operadores indígenas de Direito em Roraima e atuam como mediadores de conflito e conciliadores em 11 etnoregiões, o que alcança aproximadamente 270 comunidades indígenas. Além disso, mais de 200 lideranças receberam treinamento sobre direitos dos povos indígenas.
“O principal objetivo do programa é levar informação, especialmente sobre a Constituição Federal de 1988 e outras legislações que tratam dos direitos indígenas. Fazemos isso por meio de oficinas, seminários, rodas de conversa”, explica Junior Nicacio.
Projeto Operadores Indígenas de Direito foi finalista no prêmio Innovare. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Os Operadores levam em conta a realidade de cada povo. A ideia é respeitar as formas como as comunidades lidam com os territórios e as tradições — principalmente com os conflitos internos.
“Atualmente estamos capacitando lideranças para mediar conflitos internos, uma prática que muitas comunidades já realizam de forma tradicional. Nossa atuação é para mostrar que existe base jurídica para reforçar essas práticas, como os regimentos internos”.
Regimento comunitário
Os regimentos internos das comunidades indígenas são a principal prioridade dos operadores de Direito. Eles auxiliam 80 comunidades na elaboração de documentos que conciliem as tradições locais com as leis, sempre com a aprovação das lideranças.
A comissão faz visitas pontuais às comunidades, mas um representante de cada região é escolhido para atuar como ponte entre os coordenadores e as lideranças locais, colaborando diretamente na construção dos códigos de conduta.
O Grupo Rede Amazônica acompanhou uma dessas visitas na comunidade Novo Paraíso. Localizada na fronteira de Roraima com a Venezuela, em meio à serra que emoldura o território indígena, a comunidade reúne 154 pessoas, distribuídas entre 34 famílias dos povos Macuxi, Taurepang e Wapichana.
A comissão, composta pelos coordenadores gerais dos operadores, levou também lideranças da comunidade Pium, localizada no município de Bonfim, no Norte de Roraima.
Pium é a única comunidade indígena do estado que já possui um regimento interno formalizado e em vigor desde 2014.
A iniciativa foi para promover a troca de experiências e o diálogo entre as lideranças, incentivando a disseminação de boas práticas na construção e implementação dos acordos comunitários entre os indígenas.
Um regimento interno escrito e referendado pela legislação confere aos indígenas maior autonomia e força, conforme avaliação de Nicácio. Por isso, o programa atua em duas frentes: fortalecer a organização interna das comunidades, garantindo autonomia; e preparar as lideranças para o diálogo com o Estado, promovendo representatividade e articulação eficazes.
“A primeira [frente] é para fortalecer a autonomia interna das comunidades, ajudando na elaboração de protocolos e regimentos internos. Isso fortalece as comunidades, permitindo que elas organizem suas próprias regras e resolvam conflitos internos, sempre valorizando suas tradições e modos de vida. A segunda frente é preparar as lideranças para dialogar com o Estado, tanto aqui em Roraima quanto em Brasília”.
“Damos orientações sobre como lidar com órgãos públicos, como fazer denúncias e reivindicações, sempre respeitando as especificidades de cada povo”, explicou Nicacio.
‘Registro por escrito’
A agente de saúde Francinete Fernandes Garcia, de 46 anos, foi escolhida como representante da comunidade Novo Paraíso para atuar como elo entre os moradores e os operadores. Junto às lideranças locais, ela está empenhada em conciliar as normas comunitárias que irão orientar a vida dos indígenas da região.
Ela conta que o trabalho na comunidade começou em 2015, ainda quando os operadores eram comandados por Joenia Wapichana.
“Nosso foco principal é registrar, por escrito, o que antes era apenas transmitido oralmente pelos nossos antepassados. Essa formalização é essencial para preservar tanto a memória comunitária quanto regional. Algumas comunidades já concluíram seus regimentos internos, enquanto o regimento regional está em fase de finalização. E eu, junto com as lideranças, estamos nesse trabalho”, disse.
Ela destacou que o principal objetivo é a defesa do território e a preservação das tradições, cultura e crenças de cada comunidade. Além disso, é realizado um trabalho de escuta ativa, garantindo que a comunidade participe efetivamente na escolha das prioridades a serem incluídas nas normas.
“A participação é muito importante. Iniciamos com reuniões para explicar a relevância do regimento e envolver a comunidade no processo. Convidamos jovens, mulheres, crianças e idosos para compartilharem histórias, tradições, lugares sagrados e celebrações”.
“Esses relatos são registrados e revisados em grupo, com apoio de um secretário para organizar as informações. O objetivo é documentar tudo de forma que possa ser transmitido às futuras gerações”, disse Francinete.
O tuxaua da comunidade é Edson Garcia, 34 anos. Ele afirma que como Novo Paraíso fica localizada na fronteira com outro país, a Venezuela, isso deixa os indígenas em dúvida sobre a legislação que devem seguir. O código de conduta deve ser um um guia diante desse cenário.
“Como estamos bem próximos à fronteira, trabalhamos com demandas que envolvem tanto o Brasil quanto a Venezuela. Existem comunidades próximas do outro lado da fronteira, e temos um acordo e uma parceria para lidar com essas questões de forma coletiva. É um trabalho de intercâmbio e cooperação com essas comunidades na Venezuela, sempre buscando soluções em conjunto”.
“Trabalhamos de forma coletiva, fortalecendo os laços com as comunidades vizinhas e construindo um respeito com as nossas tradições”, disse o tuxaua da comunidade Novo Paraíso, Edson Garcia.
Solução interna de conflitos
A comunidade do Pium tem um conjunto de normas há 10 anos. Lá, vivem mais de mil famílias. Por enquanto, é a única com as leis indígenas formalizadas em um documento. Por isso, o tuxaua, Lázaro Wapichana, de 23 anos, foi convidado pelos operadores para visitar Novo Paraíso e compartilhar as experiências com o regimento.
Lázaro Wapichana conta que o material foi organizado de modo a solucionar conflitos e respeitar as tradições ancestrais. Tudo é resolvido por meio de um Conselho deliberativo, que inclusive prevê as punições para cada infração.
“O regimento interno foi criado para organizar nossa realidade. Ele começou a ser escrito com o objetivo de ajudar nossa própria comunidade, envolvendo todos: lideranças, professores e a comunidade em geral. O processo de elaboração durou mais de dois anos até que ficasse do jeito que está hoje”.
“Esse regimento fortalece nossa organização social e formaliza práticas que já existiam antes, mas que eram apenas faladas”, disse o tuxaua.
Nesses 10 anos, até os crimes cometidos no Pium tiveram uma redução drástica, graças ao regimento.
“[O regimento] contribui para reduzir crimes na comunidade, tanto entre os jovens quanto entre os professores. Quando alguém comete um problema, as consequências são aplicadas conforme o regimento, mas o objetivo não é apenas punir. Procuramos aconselhar a pessoa para que ela possa melhorar sua vida familiar e seu cotidiano”, compartilhou Lázaro.
Na comunidade do Pium, o código de conduta criado com apoio dos Operadores do CIR, também implementou um Grupo de Proteção e Vigilância comunitária, que auxilia em casos mais graves. Quando necessário, os indígenas acionam a Polícia Federal ou buscam apoio de outras comunidades, caso a situação envolva alguém de fora. Também formou uma comissão de liderança.
A Comissão de liderança é composta por representantes de todos os setores da comunidade: dois jovens, dois familiares, dois professores, dois agentes de saúde e dois líderes comunitários.
“Isso garante que, caso alguém cometa algum problema, sempre haja um representante do setor para ajudar na organização e nas decisões”.
“O regimento interno reflete as leis indígenas, criadas por nós mesmos. Ele não se baseia nas leis dos brancos. Assim, podemos mostrar que existe uma forma própria de resolver conflitos, sem depender exclusivamente das penitenciárias, que estão sempre lotadas”, disse o tuxaua.
Respeito à autonomia dos indígenas
O conhecimento sobre direitos e legislação, especialmente a Constituição, é essencial para as comunidades indígenas. Para garantir isso, os Operadores atuam diretamente com as lideranças.
De acordo com a advogada e instrutora geral do programa, Fernanda Félix, os operadores prestam auxilio em questões envolvendo direito constitucional, legislação ambiental e, principalmente, direitos à terra, que são fundamentais.
“O programa busca não só formar juridicamente, mas também politicamente, fortalecendo a autonomia e a diversidade cultural dos povos indígenas. Cada comunidade tem suas tradições, modos de vida e línguas próprias”.
“Nas formações e oficinas, o programa apresenta a legislação, mas sempre respeitando a realidade local. O objetivo é que as comunidades usem o conhecimento de forma contextualizada e benéfica, adaptando às suas especificidades”, disse a advogada ao Grupo Rede Amazônica.
Para isso, todo mundo na comunidade participa. A ideia é unir todos para que o conhecimento seja repassado.
“As mulheres desempenham um papel fundamental no programa. Jovens, mães, anciãs e outras lideranças femininas participam das formações e disseminam o conhecimento em suas comunidades”.
“O programa, que já está consolidado em Roraima, serve como um exemplo para outros territórios. Nossa intenção é compartilhar essa experiência para que outros povos indígenas no Brasil também adotem políticas similares”, disse Fernanda.
Operadores Indígenas de Direito em visita na comunidade Novo Paraíso, na Raposa Serra do Sol, em Roraima. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Validade jurídica
Os regimentos internos das comunidades têm, sim, validade na Justiça brasileira e podem substituir questões previstas na legislação comum. É o que explica a professora de direito indígena da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Priscilla Cardoso.
A professora explica que os regimentos escritos são uma forma de facilitar o diálogo entre as comunidades indígenas e o poder público – há casos em que a pena comunitária afastou uma punição nas leis tradicionais.
Além disso, ela explica que há exemplos na Justiça brasileira em que o princípio do direito penal chamado Non Bis In Idem (expressão latina que significa “não duas vezes pelo mesmo”) foi aplicado – de acordo com este princípio, um mesmo crime não pode ser punido duas vezes. Por isso, a pena comunitária foi tida como a única para os delitos que constam nos regimentos internos dos indígenas.
Um outro ponto a ser destacado é: sistemas jurídicos indígenas, que possuem um sistema de justiça próprios, existem desde antes da colonização. “Esses povos sempre resolveram conflitos por meio de suas próprias tradições orais, transmitidas de geração em geração”, afirma a professora.
“A grande mudança veio com a Constituição de 1988. Antes dela, a relação do Estado brasileiro com os povos indígenas era baseada na integração cultural, seguindo o modelo de estado-nação. Isso implicava que os indígenas deveriam se integrar à cultura nacional, adotando nosso sistema jurídico e abandonando seus próprios costumes. A Constituição rompeu com essa lógica, reconhecendo os povos indígenas como sujeitos de direitos com identidades próprias”, explica a pesquisadora.
O artigo 231 estabelece o direito dos povos indígenas de manterem suas tradições, organização social e formas de resolução de conflitos. Esse marco legal refletiu um movimento mais amplo de reconhecimento da autodeterminação indígena, tanto no Brasil quanto no mundo, reforça Pricila.
“Com isso, o Brasil passou a adotar um modelo de pluralismo jurídico. Isso significa que, além do ordenamento jurídico estatal, os sistemas jurídicos indígenas também têm validade e devem ser respeitados. Essa possibilidade permite que os indígenas mantenham suas normas próprias, sejam elas orais ou escritas”.
Ela destaca que isso não significa que os indígenas estão abandonando suas tradições. Pelo contrário, eles estão ressignificando-as para interagir com as demandas do “mundo externo”.
“Um exemplo prático disso é quando uma comunidade enfrenta uma situação envolvendo instituições públicas, como o Ministério Público. Muitas vezes, ter um regimento escrito facilita que suas normas sejam reconhecidas pelas autoridades, mesmo que essas normas já existam oralmente há muito tempo”.
“Além disso, o próprio Judiciário brasileiro já reconheceu a força normativa do sistema de justiça indígena em decisões emblemáticas que criaram jurisprudência, onde o poder punitivo do Estado foi afastado em favor da resolução comunitária”, finalizou a professora.
Ganhador do 21ª Prêmio Innovare
O Prêmio Innovare é uma das mais bem conceituadas premiações da justiça brasileira. Em 2024 ocorreu a 21ª edição, e tem a finalidade de identificar, divulgar e difundir práticas que contribuam para o aprimoramento da justiça no Brasil.
É realizado pelo Instituto Innovare, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Advocacia Geral da União, de associações jurídicas e conselhos de justiça do país e tem o apoio do Grupo Globo.
A iniciativa concorria com o projeto “Negociação Eficiente: A Estruturação da Procuradoria Nacional da União de Negociação”, do Distrito Federal. Os representantes do CIR receberam o prêmio das mãos do ministro do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), César Asfor Rocha.
Projeto indígena de Roraima é vencedor do prêmio Innovare. Foto: Reprodução/Prêmio Innovare
Para Junior Nicacio, o reconhecimento é uma honra representa a atuação dos operadores e também a importância da advocacia indígena na consolidação dos trabalhos junto às comunidades e os operadores.
“Esse prêmio mostra que o que estamos construindo em Roraima tem dado resultados e pode ser replicado em outras regiões do Brasil. Já fomos convidados para intercâmbios no Amazonas, por exemplo, para compartilhar a experiência do programa”, disse ao Grupo Rede Amazônica.
Junior é advogado há quatro anos e, para ele, estando à frente do projeto, a honra é ainda maior.
“O direito indígena é muito antigo, mas ainda pouco visibilizado. Como advogado indígena, é gratificante poder levar um olhar diferente para as instituições do Estado, mostrando que o direito indígena é autônomo e legítimo”.
Fernanda também compartilha do orgulho. Para ela também é gratificante o reconhecimento por valorizar o trabalho do programa, mas também a resistência dos povos indígenas na defesa de seus direitos fundamentais.
“Para nós, advogados indígenas, e para as lideranças comunitárias, é um marco que reforça a relevância dessa luta. É uma oportunidade de mostrar para todo o Brasil que o sistema jurídico indígena é legítimo e eficiente, além de inspirar outras iniciativas”, finalizou Fernanda.
O prêmio foi entregue em uma cerimônia no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, na última quarta-feira (11).
Capitão-de-colar-amarelo é um exemplo de ave endêmica do estado do Acre. Foto: Ricardo Plácido/Sema AC
Sucesso na 51ª Expo Abav, em Brasília (DF), e na Feira Internacional de Turismo de Gramado (Festuris), no Rio Grande do Sul, a experiência turística de observação de ave no Acre foi pré-selecionada para integrar o projeto Vitrine Visit Brasil (Feel Brasil), da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur).
O Birdwatching no Acre, representada por Victor Pontes, da Ayshawã Travel, foi apoiada pelo governo do estado, por meio da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete), em parceria com o Programa Redd Early Movers (REM) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/AC) em várias feiras de turismo ao longo do ano.
A participação do Acre nos eventos foi essencial para a formação do networking necessário para apresentar o produto para a equipe da Embratur, que visitou o estande do Estado diversas vezes durante a Festuris, em Gramado.
Victor Pontes desenvolve turismo receptivo no Acre há mais de 15 anos. “Nosso carro chefe é o etnoturismo, a vivência e o Birdwatching, que é uma atividade turística maravilhosa. Os visitantes são apaixonados por aves e tem um hobby que faz com que eles viajem o mundo todo para registrar novas espécies em lugares diferentes”, disse.
O gerente operacional da Ayshawã Travel ressaltou que o birdwatching no Acre é diferente pelo registro de aves endêmicas, que são registradas apenas na região do Parque Nacional da Serra do Divisor, no interior do estado.
“Temos três espécies que só existem nessa região. Então, o Acre ganha destaque nacional e internacional com isso. Durante 2024, vimos que a Embratur lançou o projeto do Feel Brasil, que identifica novos destinos brasileiros, e o Birdwatching é uma campanha da Embratur, junto com o Sebrae, que faz a divulgação dessa atividade no Brasil”, explicou.
Pontes ressaltou que, com o apoio do governo do Acre, por meio da Sete, além do Sebrae, a equipe da Ayshawã Travel teve acesso a feiras e rodadas de negócios essenciais para o processo de reconhecimento da atividade realizada no Acre.
“Tivemos destaques pelo produto diferenciado, que é um novo turismo que acontece no mundo, que é a respeito das vivências. Nós estamos implantando essas atividades de Birdwatching, que inclui turismo de base comunitária, tanto em aldeias indígenas, como em comunidades ribeirinhas. É uma atividade que envolve os atores da floresta, que conhecem os caminhos das aves”, ressaltou.
O apoio da Sete e do Sebrae faz parte do esforço em conjunto para trazer mais reconhecimento para o turismo acreano. “Contamos com apoio da Sete e do Sebrae, que dão todo o apoio e assistência, participando das feiras nacionais. Nós participamos da rodada de negócios do Bayers Club, e foi aí que o produto se destacou, foi onde o pessoal do trade observou e teve muita resposta positiva e retorno de fechamento de contratos”, explicou.
O Acre tem aves endêmicas, fato que chama a atenção dos entusiastas da observação de aves. Foto: Cedida
A diretora de Turismo da Sete, Sirlânia Venturin, ressalta a importância da observação de aves em um território como Acre, que tem espécies endêmicas. “Brasil tem quase 2000 espécies de aves registradas, a Amazônia Brasileira cerca de 1300 e o Acre tem 720 espécies registradas, além de muitas aves endêmicas como a choca do Acre. Esses números apontam que no Acre foram registradas 36% das espécies catalogadas no Brasil e 55% das espécies da Amazônia”, disse.
A diretora diz ainda que o governo do Acre, por meio da Sete, com o apoio do Programa REM e outras instituições como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Serviço Florestal do Estados Unidos (USFS), Instituto de Pesquisa Ecológica (IPE), Sebrae e demais parceiros, tem trabalhado em ações para fomentar e divulgar o turismo de observação de aves (birdwatching) no estado.
“Foram realizados cursos para preparar condutores locais voltados para esse tema, participação em eventos do setor como Avistar Brasil, Congresso Brasileiro de Trilhas e a participação nas principais feiras nacionais de Turismo e apoiando a participação do trade turístico com produtos prontos para oferecer ao mercado nacional e estrangeiro. Essas ações o promovem enquanto destino turístico sustentável e abrem portas para fazer parte da vitrine da Embratur”, continuou.
“Semente plantada de um sonho”
As experiências turísticas foram pré-selecionadas pela Embratur e devem passar por uma nova etapa, até a seleção, que deve acontecer na próxima sexta-feira, 13 de dezembro.
Para Victor, a pré-seleção é a semente plantada de um sonho. “Nós estamos no Acre desenvolvendo turismo receptivo há mais de 15 anos, desde a história de Chico Mendes até o Parque Nacional da Serra do Divisor. Foi uma conquista, uma realização e uma prova de que o Acre está realmente no cenário do turismo internacional. Foi o que a gente sempre sonhou”, disse.
Pesquisador Carlos Souza Jr.. Foto: Divulgação/MapBiomas
O pesquisador do Imazon Carlos Souza Jr. foi destacado pelo terceiro ano consecutivo na ‘Updated science-wide author databases of standardized citation indicators‘, lista produzida pela editora científica Elsevier e Universidade de Stanford.
O ranking global identifica e classifica os pesquisadores mais citados do mundo, oferecendo uma visão abrangente sobre o impacto acadêmico nas diversas áreas do conhecimento. Ele considera fatores como a qualidade e a relevância das pesquisas, ajustando os dados para evitar distorções. O ranking serve como uma referência de excelência científica, promovendo transparência, reconhecimento e facilitando colaborações em variados campos de conhecimento.
O coordenador do programa de Monitoramento da Amazônia ainda é listado no “Top 2%”, que classifica os pesquisadores que estão entre os 2% mais citados em suas áreas. Isso significa que esses cientistas têm alto impacto acadêmico, com produções científicas amplamente reconhecidas e citadas. A inclusão nesse grupo indica que suas pesquisas não são apenas inovadoras, mas também altamente relevantes e influentes na comunidade científica global.
Carlos é Bacharel em Geologia pela UFPA, Mestre em Ciência do Solo pela Penn State University e Ph.D. em Geografia pela Universidade da Califórnia de Santa Bárbara (UCBS). Além de coordenar diversos programas no Imazon, como o Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), Simex e PrevisIA, também lidera grupos no MapBiomas para o mapeamento da Amazônia e dos recursos hídricos. Seu trabalho engloba pesquisas com sensoriamento remoto, modelagem espacial e inteligência artificial, focando em monitoramento de florestas, mapeamento de carbono e risco ambiental.
Duas das principais tecnologias sustentáveis da Embrapa para a Amazônia já podem ser acessadas na palma da mão. Uma nova forma de apresentação, as vitrines virtuais mostram Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) gratuitamente em computadores, tablets e celulares. A ferramenta só está disponível para aparelhos com sistema operacional Android.
Uma das maiores vantagens da tecnologia é a possibilidade de baixá-la em celulares simples e acessá-la offline, ou seja, sem conexão com a internet. A funcionalidade democratiza o conhecimento técnico-científico gerado pela pesquisa, permitindo que produtores, técnicos e estudantes tenham acesso a informações de maneira prática e intuitiva, independentemente da localização. Trata-se de uma solução da Embrapa que promove maior eficiência produtiva e resiliência das propriedades rurais frente às mudanças climáticas.
Preparação para a COP 30 e além
A cerca de um ano da realização da COP 30 — primeira Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas a ser realizada no Brasil, em Belém do Pará, em novembro de 2025 —, a Embrapa oferece uma imersão virtual completa, do planejamento à execução, em tecnologias validadas para a produção de alimentos. Essas soluções garantem segurança alimentar, ganhos ambientais e vantagens econômicas, reafirmando que é possível produzir na Amazônia sem derrubar árvores, além de restaurar áreas degradadas.
Imagem: Reprodução/Vitrines virtuais
Segundo Bruno Giovany de Maria, chefe-adjunto de transferência de tecnologia da Embrapa Amazônia Oriental, a ferramenta é fruto de uma parceria consolidada com o Governo do Estado do Pará, por meio do Programa Territórios Sustentáveis (PTS), executado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas).
Ele destaca que o grande diferencial das vitrines está na inclusão de públicos de regiões remotas, onde o acesso a capacitações presenciais ou à infraestrutura tecnológica é limitado.
“Hoje, em praticamente qualquer lugar, as pessoas têm um celular. Isso permite que o produtor ou técnico visualize, a qualquer momento, como implantar e aplicar essas tecnologias em campo”, explica.
De Maria também ressalta que as vitrines oferecem uma experiência imersiva, simulando a aplicação das técnicas no campo, com atualizações constantes de conteúdo e acesso à base de dados da Embrapa. “Essa iniciativa não apenas fortalece a transferência de tecnologia, como também democratiza o acesso ao conhecimento técnico essencial para práticas agrícolas mais sustentáveis em diferentes regiões do Brasil”, enfatiza.
ILPF em Paragominas. Foto: Ronaldo Rosa
Diana Castro, coordenadora de Desenvolvimento Rural Sustentável e Incentivos Econômicos da Semas, reforça a importância das vitrines como ferramentas de disseminação do que a Embrapa e a Semas propõem no âmbito do PTS. “As técnicas de produção de baixas emissões e a restauração produtiva, por meio de sistemas agroflorestais e ILPF, podem agora alcançar a ponta. Temos grande expectativa de que as vitrines sejam utilizadas por extensionistas e produtores rurais na melhoria dos sistemas produtivos e no desenvolvimento local”, afirma Castro.
“A parceria com a Embrapa destaca a importância da pesquisa agropecuária para a formulação e implementação de políticas públicas de enfrentamento às mudanças climáticas, fortalecendo as economias locais com a preservação da biodiversidade”, complementa.
Imagem: Reprodução/Vitrines virtuais
Ferramenta democratiza tecnologias de produção agrícola para desenvolvimento local
Depois do sucesso da primeira vitrine virtual da Embrapa no Pará, integrada ao curso online “Manejo da cultura do açaí em terra firme: da semente à pós-colheita e processamento”, lançado na plataforma e-Campo em 2020, a instituição percebeu nas ferramentas digitais a melhor forma de levar sua expertise além das barreiras geográficas. O curso, que já atingiu mais de 1,7 mil usuários no Brasil e em outros países da Amazônia, inspirou o desenvolvimento de novas funcionalidades para maior acessibilidade e oferta de conteúdo.
A analista da Embrapa Mazillene Borges, gestora do curso e uma das articuladoras do PTS, explica que a experiência bem-sucedida foi a semente para o despertar da criação de um ambiente virtual aberto a todos os públicos. Além das duas vitrines inéditas, é possível acessar também o Meliponário Virtual e a área de plantio de Açaí de Terra Firme. As novas vitrines da plataforma oferecem versão mobile, com uso offline após o download dos conteúdos.
Segundo Michell Costa, analista da Embrapa e co-desenvolvedor das plataformas, o foco principal foi garantir linguagem acessível, material técnico adaptado e democratização da informação. “Pensar na Amazônia é reconhecer sua dimensão continental e os desafios de acesso à tecnologia da informação. Essa ferramenta tem potencial para promover inclusão digital e práticas sustentáveis em uma região de difícil acesso”, afirma Costa.
O vídeo abaixo traz instruções para instalação das vitrines:
Impactos na juventude rural
O produtor e técnico agrícola Adailton Amaral foi um dos alunos do curso online de Açaí de Terra Firme, e vivenciou, pela primeira vez, a experiência de uma vitrine virtual em um processo de formação. Jovem produtor e defensor do fortalecimento da sucessão familiar no campo, avaliou que as ferramentas digitais dialogam diretamente com a juventude, sendo, assim, um estímulo à reaproximação desse público com a propriedade e produção familiar.
Para Amaral, além de possibilitar acesso às tecnologias que podem melhorar a vida no campo, os conteúdos digitais de fácil acesso e compreensão, a exemplo das vitrines, podem unir as várias gerações e profissionalizar a produção. “É mais produção, renda e qualidade de vida para as famílias e toda a Amazônia, pois garantem também benefícios ambientais que já vivenciamos em nossa propriedade”, comenta.
Foto: Ronaldo Rosa
SAFs e ILPF garantem produtividade e resiliência climática
Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) são reconhecidos como as soluções sustentáveis mais eficazes para a produção de alimentos na Amazônia, proporcionando benefícios econômicos, sociais e ambientais. As pesquisadoras da Embrapa Célia Calandrini e Débora Aragão coordenaram as equipes responsáveis por desenvolver os conteúdos das vitrines virtuais.Calandrini conta que o ILPF combina diferentes sistemas produtivos em uma mesma área — agrícola, pecuário e florestal —, otimizando o uso da terra e promovendo benefícios mútuos entre as atividades.
“O sistema aumenta a produtividade, diversifica a produção, gera empregos e promove serviços ambientais, como a preservação da água no solo, redução de emissões de gases de efeito estufa e aumento do sequestro de carbono”, explica.Aragão reforça que os SAFs simulam a dinâmica da floresta ao combinar espécies vegetais diversas, promovendo eficiência produtiva e segurança alimentar.
“Os benefícios vão desde a introdução de espécies de ciclo curto, que garantem renda imediata, até a proteção do solo e a melhoria da biodiversidade, reduzindo a necessidade de insumos químicos”, destaca.Com essas iniciativas, a Embrapa e seus parceiros esperam ampliar o impacto das tecnologias na Amazônia e fortalecer a adaptação das propriedades rurais às mudanças climáticas.
A Aldeia Shinenawa, na Terra Indígena Katukina Kaxinawá, localizada em Feijó, no Acre, está sendo palco do lançamento do estudo ‘Diagnóstico do Etnoturismo na Amazônia Legal‘ do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). O evento contou com a presença do Ministério do Turismo (MTur), que destacou sua contribuição para o desenvolvimento do turismo responsável e sustentável em territórios indígenas.
Durante o evento, foram apresentados produtos e iniciativas que buscam fomentar o turismo de base comunitária indígena, uma prática que alia a preservação cultural e ambiental à geração de renda e emprego digno para os povos originários.
Também foram promovidas rodas de conversas com as lideranças da comunidade. Segundo a Coordenadora-Geral de Turismo Sustentável e Responsável do Ministério do Turismo, Carolina Fávero, esses esforços visam transformar o Brasil em uma referência mundial no turismo responsável em territórios indígenas.
“Projetos como estes contribuem não apenas para a valorização do saber e da cultura indígena, mas também para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030”, destacou.
O estudo lançado durante o evento soma a iniciativas que visam fortalecer a gestão pública e privada na promoção do turismo de base comunitária. Com essa abordagem, o Ministério espera ampliar o reconhecimento do etnoturismo como uma prática essencial para a sustentabilidade, consolidando o papel dos povos indígenas como protagonistas de suas próprias narrativas e territórios.
Foto: Divulgação/MTur
Experiências do Brasil Original
Promovido conjuntamente com os ministérios dos Povos Indígenas, da Igualdade Racial, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e a Universidade Federal Fluminense (UFF), o Experiências do Brasil Original é um programa que orienta a estruturação de produtos turísticos em comunidades tradicionais. A iniciativa inclui ações de diagnóstico, capacitação, formatação e comercialização, possibilitando que atrativos integrem a oferta turística nacional.
O MTur disponibiliza um guia de implementação do Projeto Experiências do Brasil Original pelas esferas de governo estaduais e municipais. O documento apresenta toda a metodologia para a replicação de ações locais com potencial de promover inserção social, desenvolvimento econômico e a valorização dos recursos naturais e culturais em territórios indígenas e quilombolas por meio do turismo de base comunitária. (Acesse AQUI o guia)
O MTur lidera um projeto inovador de mapeamento das comunidades indígenas que atuam no turismo nacional. A iniciativa faz parte do Projeto “Brasil Turismo Responsável”, iniciado em julho de 2024 e que resulta de cooperação técnica junto ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O objetivo é identificar povos que desenvolvem atividades turísticas baseadas nos princípios do turismo de base comunitária, além de catalogar e promover boas práticas, sempre com a concordância dos envolvidos. Para facilitar a coleta de informações, há um formulário eletrônico que pode ser preenchido por comunidades indígenas e organizações públicas e privadas ligadas ao segmento. (Acesse AQUI o formulário).
A ação vai permitir a compilação de dados detalhados das ações em desenvolvimento, possibilitando um diagnóstico mais preciso das necessidades das comunidades e a promoção de seus produtos turísticos. Com a medida, o MTur pretende ampliar o Mapa Brasileiro do Turismo Responsável e contribuir para o fortalecimento de uma rede de turismo sustentável, inclusivo e culturalmente rico, respeitando saberes tradicionais e a autonomia dos povos.