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Espetáculo de Rondônia leva arte circense amazônica à Avenida Paulista em São Paulo

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Pingo, o palhaço. Foto: Marcos Paulo

Lona azul, estrelas amarelas, arquibancadas de ferro e madeira, o picadeiro e o globo da morte: essas são algumas das características do circo. Mas, para o professor de teatro da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Klindson Cruz, foram as apresentações dos palhaços que mais chamaram sua atenção na infância. A presença desse personagem aguçou seu amor pelo circo e o levou a buscar, nessa arte, a sua profissão.

“De todas as apresentações, a que mais me chamou atenção foi a dos palhaços. Quando eles entraram, parecia que o mundo estava em câmera lenta. Acho que ali surgiu meu instinto de querer brincar na palhaçaria. Claro! A vida te leva para outros caminhos”, lembra Klindson Cruz.

Para o artista, levar a arte circense amazônica para São Paulo tem grande importância, especialmente diante dos desafios enfrentados pelas produções do Norte. Ele ressalta que se apresentar na Avenida Paulista pode dar mais visibilidade ao trabalho da região, ampliando seu alcance para além do eixo Sudeste.

Klindson destaca que a visita é uma oportunidade de representar uma região distante dos grandes centros, muitas vezes esquecida. Para ele, ultrapassar os muros amazônicos é essencial para mostrar que a cultura está em circulação, apesar das dificuldades que a região enfrenta com transporte e acesso.

Klindson não foi sozinho na apresentação na Avenida Paulista. Ele estava acompanhado por Jamile e Imaginário, que também levaram seus espetáculos ao público. Os artistas foram selecionados após a visita de um curador a Porto Velho, responsável pela escolha dos participantes. A curadora dos espetáculos de Rondônia, Andressa Batista, teve um papel fundamental na seleção dos artistas.

Homenagem

Ao Grupo Rede Amazônica, o artista, que já percorreu diversos caminhos ao longo de sua trajetória, revelou que a ideia do espetáculo ‘Ensaio Geral’, apresentado pela primeira vez na Avenida Paulista no dia 9 de março, surgiu em um momento de perda e luto.

O ponto central da narrativa gira em torno da espera por uma diretora que nunca chega. O espetáculo foi criado em homenagem à diretora paulista e amiga pessoal de Klindson, Selma Bustamante, falecida em 2019, em São Paulo.

“Transformei a dor em arte. Selma dirigiria o espetáculo, mas, como faleceu, precisei buscar um novo diretor. A proposta do espetáculo é essa esperança pela diretora que não chega, refletindo minha própria experiência de esperar por Selma”, conta Klindson.

O artista incorporou ao seu espetáculo uma narrativa secundária de ‘O Barquinho’, de Ilo Krugli, diretor do grupo de teatro Ventoforte, do qual sua saudosa amiga Selma fez parte como atriz. Para Klindson, a apresentação também é uma homenagem aos grandes mestres que vieram antes.

“Minha geração costuma esquecer as pessoas, mestres e mestras que vieram antes […]. Quando um mestre ou uma mestra morre, uma biblioteca inteira também morre: diálogos, histórias… Morre também uma grande parte da cultura”, afirma.

Trajetória de um artista

Klindson sempre teve uma forte paixão pelo circo, mas seu caminho até a arte circense não foi direto. Antes de se graduar em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas, tornar-se mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e se especializar em palhaçaria pela Escola Livre de Palhaços (ESLIPA), ele enfrentou conflitos familiares. Seus pais não aceitavam sua decisão de cursar teatro, pois sonhavam que ele seguisse a carreira de engenheiro.

“Quando descobriram que eu estava cursando teatro, ficaram três meses sem falar comigo. Outro baque foi quando souberam que eu fazia malabares no semáforo para pagar xerox e refeições na universidade, mas foi por pouco tempo”, relembra.

Com o tempo, seus pais passaram a entender e respeitar sua escolha. No entanto, sua trajetória como artista não foi fácil. Klindson relembra os desafios que enfrentou, como viagens complicadas para festivais, cancelamentos de apresentações e ensaios exaustivos. Ainda assim, ele considera que todas essas experiências fazem parte da vida circense.

Klindson Cruz interpretando. Foto: Reprodução

Oportunidade de criar

Apesar das dificuldades, a palhaçaria abriu grandes oportunidades para Klindson. Ele pôde viajar para outros estados, se apresentar sob lonas de circo, participar de festivais e se conectar com outros artistas circenses. Além disso, a arte do palhaço tornou-se um importante instrumento de pesquisa em sua trajetória.

“Circo e palhaçaria hoje são minha pesquisa. Foi meu projeto de iniciação científica, meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), meu mestrado e será meu doutorado”, revela.

Para Klindson, o circo é uma oportunidade de criação. Em “Ensaio Geral”, ele incorpora elementos da cultura amazônica, como barcos, árvores, rios e peixes, além de representar a identidade cultural da região.

Nesse cenário, nasce o palhaço Pingo, personagem que conduz a narrativa. Criado espontaneamente durante um retiro de palhaçaria promovido por Selma Bustamante e Jean Paladino, Pingo surgiu sem referências prévias. Com o tempo, Klindson aprimorou o personagem até chegar à sua versão atual.

O artista conta que Pingo reflete muito de sua própria personalidade. Como pesquisador da palhaçaria, ele acredita que seu personagem tem o poder de quebrar paradigmas morais, como o machismo e a homofobia.

“Eu atravesso o Pingo a partir disso: da minha personalidade, com meu corpo mais exposto, short curto, blusa curta, brincadeiras principalmente com homens, para desconectá-los […] A personalidade do Pingo é essa: um lado mais sexual e cômico”, finaliza.

*Por Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Livro virtual e gratuito reúne 30 receitas com pirarucu de manejo sustentável da Amazônia

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Foto: Divulgação

O livro ’30 Receitas Fáceis e Saborosas – Pirarucu Selvagem de Manejo Sustentável’ é uma coletânea de receitas caseiras que celebram a versatilidade e o sabor único do maior peixe de água doce do mundo. A publicação virtual e gratuita foi lançada pela Associação de Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) e produzida por chefs parceiros do projeto Gosto da Amazônia, com o objetivo de estimular o público em geral a preparar o peixe em casa.

Leia também: Gigantes do Rio Madeira: peixes que surpreendem pelo tamanho

O material é um convite para trazer a Amazônia à mesa através de pratos adequados a diferentes ocasiões, com receitas fáceis e variadas, que carregam o compromisso de proteger a floresta, e transformar vidas nas comunidades ribeirinhas e indígenas que atuam com o manejo.

Entre os destaques do livro, podem ser encontradas delícias como o Bolinho de aipim com pirarucu; a Caldeirada de pirarucu defumado e legumes; Pirarucu com crosta de castanha e tartar de abacate e caju; Nuggets de pirarucu na air fryer; e o Pirarucu assado com creme de cebola.

De acordo com os produtores da publicação “consumir pirarucu manejado vai além da experiência gastronômica: é um gesto que ajuda a conservar mais de 11 milhões de hectares de floresta amazônica e fortalece as comunidades ribeirinhas e indígenas que vivem dela. Nos últimos 10 anos, a quantidade de pirarucu aumentou em mais de 600% nas regiões onde a atividade do manejo é realizada”.

“O pirarucu do Gosto da Amazônia já está presente em mais de 250 restaurantes em todo o Brasil e o nosso desafio agora é mostrar aos cozinheiros, e cozinheiras amadoras, responsáveis pelo preparo das refeições caseiras, que o peixe é também uma ótima alternativa para o dia a dia. Saudável, fácil de preparar e muito versátil, o pirarucu cozido, assado no forno, frito, feito na brasa, como tira-gosto ou prato principal, abre um grande leque de opções para a criação de novas receitas”, destaca Sérgio Abdon, responsável pela promoção da marca Gosto da Amazônia.

Foto: Divulgação

Já a professora de gastronomia Rosi Siqueira, autora de algumas receitas da publicação, comentou: “com meu carinho, apreciação e dedicação à gastronomia brasileira e por minha valorização aos ingredientes regionais, eu tenho o prazer de compartilhar neste livro minhas experiências e os meus segredos na hora de preparar pratos incríveis com o pirarucu. Não é apenas um dos maiores peixes de água doce do mundo, mas também uma iguaria rica em sabor, com textura macia e delicada, suas características únicas permitem a criação de receitas variadas, que vão desde pratos tradicionais até releituras contemporâneas, sempre exaltando a biodiversidade e a sustentabilidade da região”. 

A chef de cozinha compartilhou também sobre a experiência de criar receitas para o livro digital. “Além de permitir momentos únicos, em cada receita pude celebrar a cultura brasileira e o respeito à natureza, com um olhar sensível sobre como o alimento conecta histórias, e pessoas com dicas práticas para quem deseja explorar novos sabores e conhecer mais sobre esse símbolo da culinária amazônica”.

Outra participante da publicação com a apresentação das suas receitas, Sueli Venâncio, revela que se surpreendeu com o potencial da carne do peixe amazônico. “O pirarucu me surpreendeu porque é um peixe que se destaca de várias formas, assado, grelhado, frito e tem uma carne linda de se ver e trabalhar, basta um bom marinado e as cocções certas. Recomendo o pirarucu e garanto que ele vai surpreender a todos nós, ele é gostoso, saboroso e bonito”, declara.

A Associação de Produtores Rurais de Carauari (ASPROC), no Amazonas, tem um site com venda direta do pirarucu: https://asproc.org.br. Baixe o livro de receitas AQUI.

Bonikta, a encantaria amazônida presente no trabalho do artista paraense Caio Aguiar

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Bonikta. Foto: Divulgação/Pinacoteca do Ceará

Mascarada, com três olhos e desenhada com traços retos: é geralmente assim que Bonikta aparece nas produções do artista Caio Aguiar, natural de Ourém (PA). Como uma espécie de entidade, ela é uma presença constante no trabalho do artista visual, e os dois parecem andar de mãos dadas – fundindo-se em uma mesma autoria. 

Desde a adolescência, a figura de Bonikta é como “uma extensão” de Caio. Juntos, já integraram exposições nacionais como a 1ª Bienal da Amazônias, a Delírio Tropikal, na Pinacoteca do Ceará, e a 14ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.  O artista conta que a afetação profunda acontecem em uma travessia, entre Belém e Ourém, quando entraram em contato pela primeira vez. Muito além de um personagem, ele afirma que ela é um universo: “Ela [Bonikta] sai desse lugar de personagem, de persona. Ela acaba se tornando algo mais. Eu acho que o universo pode ser uma palavra que não define, mas que contempla ela”, explica o artista. 

“Elas [boniktas] são também espíritos que conversam comigo pelos sonhos, que estão comigo, que vivem, que habitam esse lugar”, diz Caio Aguiar sobre as formas desse universo em entrevista ao Nonada. A forma como o artista leva Bonikta para suas obras é através da irreverência, subvertendo as estruturas rígidas do universo canônico da arte. É a partir da manifestação de entidade, na mescla de tecnologias e linguagens artísticas, que sua produção honra os próprios caminhos e percursos da vida. 

O artista foi entrevistado enquanto finalizava um trabalho inédito no projeto ‘Ling Apresenta: Amazônias‘, em Porto Alegre. Na conversa, é possível perceber que Bonikta está sempre presente. A partir da obra de arte, realizada com colagens, ilustrações digitais, lambe e intervenções com caneta posca, ela se estende por todo o entorno, e, irreverente, convoca também os visitantes.

O artista Caio Aguiar. Foto: Reprodução/Eroica Conteúdo

O lugar onde você cresceu foi seu primeiro atêlie, isso?

Isso. Um lugar ilustrativo. Eu sempre fui uma criança muito artista, de brincar com as coisas e criar com o que se tem, com as folhas, de riscar o chão. De uma forma ingênua, talvez, sem entender o que era a arte. Eu trago esse quintal de casa para que as pessoas possam acessar o meu ateliê que agora existe. Enquanto artista, existe essa possibilidade de poder abrir uma janela para o meu ateliê. 

Bonikta já existia nessa época do primeiro ateliê? Ou veio depois?

Caio Aguiar (Bonikta) – Eu considero que ela sempre andou comigo, a Bonikta é uma extensão da minha pessoa. Mas a Bonikta surge na minha travessia, quando eu saio do meu interior com 16 anos e eu vou morar para Belém, capital do Pará, a gente acaba tendo essa migração para estudar, para trabalhar, para acessar outros horizontes.

A Bonikta surge na travessia entre o interior e a cidade. Ela é esse lugar da travessia mesmo, onde tenho paz – diferente da cidade, um lugar mais caótico.

Existe uma diferença entre o universo da Bonikta e do Caio?

Caio Aguiar (Bonikta) – Eu acho que não, eles se encontram. Acho que é o mesmo. A Bonikta vive em um imaginário, e quando eu exponho ela, quando eu coloco ela para fora, torna-se parte do imaginário das pessoas também.

Você trabalha bastante com intervenções na fotografia. Você acha que essas intervenções enaltecem algo que já está na fotografia ou elas revelam algo oculto, no mistério?

Caio Aguiar (Bonikta) – Elas mais revelam. Por si só, a fotografia já conta, já é um registro da memória. Eu sempre gostei muito de fotografar, de forma muito livre e ingênua, de registrar a paisagem, de registrar ali o lugar de onde eu venho. 

Esse trabalho com as fotografias já tem três anos e meio e eu chamo de Memórias Encantada. A série traz a memória da fotografia como encanto, em que uma outra camada revela algo que não está à mostra, mas que faz parte no processo criativo, no fazer artístico, na feitura.

Eu considero meu trabalho artístico como um ritual, como um feitiço. Tem esse encanto, algo com propósito de pegar as pessoas pelo olhar, de enfeitiçar de alguma forma quando elas olham.

Você diria que a sua produção artística está associada à espiritualidade também?

Caio Aguiar (Bonikta) – Totalmente. As boniktas são espíritos que conversam comigo pelos sonhos, que estão comigo, que vivem e habitam nesse lugar. De alguma forma, eles estão presentes. Eu acredito muito nisso. Tem a ver com a minha espiritualidade, com as águas. Eu venho de um lugar onde eu sempre acessei as águas. Sempre estive submerso e banhado nessas águas. As águas são essa tecnologia, onde me banho, me alimento, mergulho. É uma grande fonte do que me inspira 

Qual sua relação com arte digital?

Caio Aguiar (Bonikta) – Eu gosto do digital, mas prefiro o manual. Eu gosto de pintar. E é justamente isso: mesclar. Eu gosto muito do digital, acho que é uma ferramenta que nem sempre é acessível para todo mundo, mas que abre um  leque de possibilidades, de trabalhar com ilustração, com animação  – que é algo que eu já trabalho, mas que eu pretendo expandir mais. 

E você acha que a arte pode ser importante então para, quem sabe, apontar caminhos para a sociedade aprender a coexistir melhor com os sonhos, com a tecnologia, com o digital, com a natureza? Você acha que é possível uma coexistência de todos esses elementos?

Caio Aguiar (Bonikta) – Sim. Só a arte mostra coisas que não seriam visíveis. A arte é o lugar onde habitam os sonhos, as histórias, as possibilidades. 

Confira a entrevista completa AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Pedro Tubiana

Suspensão de financiamento do governo americano já afeta projetos de conservação na Amazônia

Incêndio em área próxima aos limites da Terra Indígena Kaxarari, em Lábrea (AM). Foto: Christian Braga/Greenpeace

Uma série de programas de sustentabilidade, saúde e meio ambiente na floresta amazônica está em risco após o governo dos EUA anunciar, no primeiro dia do mandato do presidente Donald Trump, uma pausa de 90 dias em todos os financiamentos de ajuda externa, incluindo os da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).

A medida gerou preocupação entre cientistas e conservacionistas, que, em entrevista à Mongabay, expressaram preocupação com os impactos na biodiversidade, nos meios de subsistência indígenas e na segurança na região. Eles alertaram que a suspensão temporária do financiamento afetará iniciativas de conservação lideradas pelas comunidades, além de programas essenciais no combate ao desmatamento ilegal e a outros crimes ambientais. Por outro lado, alguns argumentam que o financiamento da USAID trouxe desafios para as comunidades locais e que os possíveis impactos da pausa destacam os riscos da dependência da ajuda externa.

Em certos casos, os impactos já são perceptíveis. Alguns programas de monitoramento territorial, responsáveis por financiar ações de proteção dos territórios indígenas, foram suspensos.

Ivaneide “Neidinha” Bandeira Cardozo, residente na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, e coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, declarou à Mongabay que os EUA interromperam o financiamento de um programa de monitoramento territorial essencial para reduzir as invasões e o desmatamento ilegal em diversas terras indígenas da região.

“Tivemos que suspender nossas atividades de monitoramento”, afirmou ela. “O problema é que estamos sob enorme pressão de grileiros e madeireiros, e agora se tornou ainda mais difícil conter as invasões. O resultado será mais desmatamento, e nossas vidas estarão ainda mais ameaçadas.”

Desde que o apoio foi suspenso – uma medida que Neidinha descreveu como “uma quebra de confiança e uma fonte de insegurança” –, sua organização tem buscado alternativas de financiamento, mas, segundo ela, esse processo tem sido extremamente difícil.

Um aumento no desmatamento pode resultar em “mais incêndios” durante a estação seca, e “o calor será ainda mais intenso”, alertou ela. “No ano passado, durante a seca, os povos indígenas ficaram sem água potável. Tivemos que levar água e comida para as aldeias. Imagine o que acontecerá este ano, se o desmatamento aumentar.”

O Projeto Assobio, financiado pela USAID e voltado para o fortalecimento das organizações comunitárias e das cadeias produtivas da bioeconomia no Mato Grosso, também foi suspenso. Em nota, a coordenadoria de comunicações do Instituto Centro de Vida (ICV), responsável pela gestão do projeto, afirmou à Mongabay que ele beneficiava 5 mil pessoas, incluindo pequenos agricultores e povos indígenas de sete territórios.

Até o momento da publicação, o Departamento de Estado dos EUA não respondeu às perguntas da Mongabay. O governo Trump acusou a USAID de desperdiçar os recursos dos contribuintes americanos, e o Departamento de Estado confirmou que a medida está alinhada com as metas de política externa do governo sob a estratégia “America First”.

Em 2023, a USAID destinou US$ 375,4 milhões para programas internacionais de biodiversidade, 50% dos quais foram destinados aos países e regiões com maior diversidade biológica, como Brasil, Colômbia e Peru. Além disso, a agência investiu US$ 318,5 milhões em programas florestais, dos quais US$ 315,6 milhões foram destinados às florestas tropicais.

De acordo com o relatório anual de biodiversidade da USAID de 2023, parte dos recursos foi destinada a fortalecer a capacidade dos povos indígenas, melhorar o gerenciamento de recursos naturais e identificar ameaças às florestas e à biodiversidade por meio do uso de tecnologia.

“Esse apoio tem sido essencial para o avanço das iniciativas de conservação e desenvolvimento sustentável na Amazônia colombiana”, escreveu a Organização Nacional dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana (Opiac) no X. “A interrupção desses recursos coloca em risco projetos vitais para a proteção do meio ambiente, o bem-estar de nossos povos indígenas e as boas relações que foram construídas entre os povos indígenas da Amazônia e a sociedade ocidental, duas formas de ver a vida e de se relacionar com a natureza.”

O Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), da Amazon Conservation, divulgou em um comunicado à imprensa que diversos projetos de sua rede, anteriormente apoiados pela USAID para combater o desmatamento ilegal no Peru, foram interrompidos. “As decisões mais recentes do governo dos EUA sobre ajuda externa, conservação e clima – entre muitas outras decisões que afetam tudo, desde a assistência humanitária até a ciência – já estão criando grandes efeitos em cascata sobre as comunidades locais e a proteção da natureza”, afirmou.

Elizabeth Dickinson, analista sênior das operações do Crisis Group na Colômbia, uma organização que não depende de financiamento da USAID, disse à Mongabay em uma mensagem de voz que os cortes de financiamento poderiam desestabilizar a frágil segurança da Colômbia e colocar em risco as comunidades – questões intrinsecamente ligadas às florestas do país.

Desde 2017, os EUA forneceram mais de US$ 1,5 bilhão em assistência para apoiar a implementação do acordo de paz da Colômbia com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Dickinson afirmou que essa “lacuna monumental” terá um impacto sobre “muitas das reformas de longo prazo que deveriam abordar as causas fundamentais do conflito e evitar o ressurgimento desses mesmos tipos de conflito no futuro”.

De acordo com o relatório anual de biodiversidade da USAID, em 2023, a agência investiu US$ 27,5 milhões em programas de biodiversidade e US$ 40,3 milhões em programas de silvicultura e de florestas na Colômbia. Dickinson destacou que a segurança dos líderes comunitários está em risco por parte de grupos armados e membros da comunidade, pois eles frequentemente são o rosto desses projetos e terão que explicar às suas comunidades o motivo da interrupção do financiamento.

No Peru, Williams Arellano Olano, chefe da Osinfor, a agência estadual de florestas e vida selvagem, explicou à Mongabay em uma chamada de vídeo que o apoio financeiro dos EUA foi essencial para combater a extração ilegal de madeira, o tráfico de drogas e a mineração na Amazônia peruana, fortalecendo a capacidade operacional da agência. Embora o Peru não dependa exclusivamente do financiamento da USAID, sua ausência causará atrasos na implementação desses processos.

Voltar-se para outro lugar?

Alguns conservacionistas e líderes indígenas, que pediram anonimato por temerem represálias, disseram à Mongabay que a USAID é um sistema corrupto, vinculado à interferência política e à fragmentação das comunidades.

“À luz de todas as coisas ruins, talvez algo bom possa sair disso”, afirmou Torsten Krause, professor associado e vice-diretor do Centro de Estudos de Sustentabilidade da Universidade de Lund, na Suécia.

Krause destacou que a pausa temporária no financiamento serve para evidenciar os perigos de uma dependência excessiva da ajuda externa. Ele sugeriu que, em resposta, os governos e as comunidades devem buscar abordagens de baixo para cima e alternativas lideradas pelas próprias comunidades.

Pedro Bernt Eymael, pesquisador da Universidade de Michigan, nos EUA, disse à Mongabay por e-mail que países como o Brasil podem recorrer a outros doadores, como a agência de desenvolvimento internacional da Alemanha, a GIZ. A Alemanha foi a principal fornecedora de assistência ao desenvolvimento ao Brasil em 2023. No entanto, Eymael ressaltou que o acesso a novos recursos envolve processos burocráticos demorados e complexos, além de anos de construção de relacionamentos.

“Os projetos ambientais e comunitários dependem muito do financiamento [da USAID] e, com esses cortes repentinos, isso não só impedirá a expansão de novos projetos, como também colocará em risco sua própria existência e sobrevivência”, afirmou Gabriela Sarmet, coordenadora de parcerias do Decolonial Centre (DCC), sediado no Reino Unido, e consultora do Mining Observatory, em uma mensagem de voz à Mongabay.

“Precisamos pensar em mecanismos alternativos de financiamento e instituições que possam evitar retrocessos semelhantes em ações de governança ambiental global”, disse Sarmet. “As implicações políticas desses cortes podem ser enormes e estão sendo sentidas por muitos países ao redor do mundo.”

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Aimee Gabay

Agricultores investem em plantação de cacau e se preparam para primeira grande safra em Roraima

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Produtor investe no cacau do tipo clonal. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR

Antes de virar chocolate e conquistar paladares, tudo tem um começo mais simples: o cacau. Em Caroebe, no Sul de Roraima — a 300 km da capital —, agricultores tem apostado na fruta como um caminho para fortalecer a economia local.

A plantação de cacau ainda é uma novidade em Roraima. Antes se restringia à Terra Yanomami, onde indígenas cultivam o fruto com o objetivo de fazer o Chocolate Yanomami.

Leia também: Origem amazônica do cacau é comprovada por meio de DNA e revela forte rede de comércio pré-colombiana

No entanto, desde 2019, produtores rurais do Sul estado passaram a investir no plantio. Como o pé de cacau pode levar até cinco anos para dar o fruto, este é o primeiro ano de colheita do polo do estado, que inclui os municípios de Rorainópolis, São Luiz do Anauá, São João da Baliza e Caroebe. Em 2023, houve uma produção experimental, onde foram colhidas 80 toneladas de amêndoas secas, que são comercializadas para Rondônia.

Caroebe é o município com maior área plantada, com 220 hectares de plantação de cacau. Agricultores ouvidos pelo Grupo Rede Amazônica afirmam que há ao menos 10 produtores de cacau na região.

‘Semente plantada no meu coração’

A família de Nicanor Saraiva, de 59 anos, é uma das que acreditam no potencial do cacau no estado e que investe na produção. Há seis anos atrás, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) iniciou o incentivo com distribuição de sementes e desde então os cacauicultores começaram a investir no fruto no município.

Na propriedade de Nicanor, as sementes se tornaram 5 mil plantas que se preparam para a primeira grande colheita. A relação com a fruta, no entanto, é de longa data, pois o agricultor chegou a trabalhar na década de 70 em lavouras com o pai dele em Rondônia, estado que hoje ele vende a mercadoria que produz em Caroebe.

“Trabalhamos em Rondônia em 79 e acho que ficou no meu coração, ficou uma semente plantada no meu coração e aqui em Roraima surgiu a oportunidade de plantar os meus pés de cacau e estou acreditando que vai dar certo”, relembra Nicanor ao revelar que chega até conversar com as plantas para ter uma boa colheita.

Atualmente, a produção está em fase de floração e a expectativa é que, com o clima favorável, a colheita resulte em ao menos três toneladas de cacau em 2025.

Em 2024, devido ao El Niño e a seca que causou mudanças nos regimes de chuva, a plantação dele ficou prejudicada. A família conseguiu colher apenas uma tonelada, muito abaixo do esperado para uma plantação como a deles, segundo o agricultor.

“Essa chuva que caiu agora foi maravilhosa. Só Deus mesmo para poder providenciar essa chuva aí. Agora esses dias foi jogado um adubo que é para ele segurar, para ajudar ele segurar a carga, né? E estamos com outra remessa de adubo, nesses 20 dias vamos jogar de novo. Vamos botar ele para produzir”, explicou o agricultor.

Além do adubo, Nicanor pretende investir em um sistema de irrigação para que a produção não dependa somente do regime de chuvas. No entanto, para ele, além do investimento próprio, a implementação de políticas públicas é fundamental para que o polo de cacau no Sul de Roraima alavanque de vez.

“Realmente o incentivo para agricultura, para nós aqui é praticamente é zero. Porque assim, só depende do governo do estado para ele para ele trazer o incentivo. Isso aqui gera emprego […] É uma batalha, é uma luta e é a gente ir para a frente, erguer a cabeça, se tem política pública se não tem, a gente toca o barco”.

Pés de cacau na propriedade de Juares, em Caroebe. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR

‘Potencial de desenvolver nosso estado’

Na luta junto com ele está a filha, a técnica de fiscalização agropecuária, Kéully Freitas, de 36 anos. Ela acompanha a relação do pai com o fruto e é uma das principais incentivadoras. A agrônoma contribui principalmente com dicas técnicas para a plantação de cacau.

Além de encorajar o pai, como profissional Kéully acredita na potencialidade da fruta na região. Para ela, a expansão do cultivo pode tirar os pequenos agricultores da subsistência e tornar Caroebe a “rota do cacau” em Roraima.

A perspectiva de Kéully se fortaleceu após visitar o Pará, estado que faz divisa com Caroebe e lidera a produção de cacau no Brasil, respondendo por 51,80% da safra nacional. Com vegetação de floresta e um clima semelhante ao do estado vizinho, Caroebe também apresenta condições favoráveis ao cultivo do cacau.

“Quero muito que os filhos dos produtores consigam enxergar o que eu enxergo, ter a mesma expectativa e perspectiva que eu tenho porque eu enxergo um futuro promissor para o cacau. Eu enxergo mini fábricas, fábricas familiares, sabe? Tudo que eu vi lá se aplica para cá. A gente tem o mesmo padrão de solo, o mesmo padrão de clima. Então, nós temos o mesmo potencial de desenvolver o nosso estado com o cacau”.

Leia também: Rondônia sedia Concurso Nacional de Cacau pela primeira vez

Embora acredite no potencial, ela também aponta desafios para a expansão. Um deles é a falta de mão de obra qualificada para trabalhar com o cacau.

Entre as habilidades, os trabalhadores do cacau precisam saber fazer uma poda adequada, tratos culturais, manejo, colheita e quebra do cacau para enfim chegar no produto final, que são as amêndoas. Apesar disso, Kéully segue fazendo planos grandiosos para o cacau e ver o cenário como “promissor”.

“Hoje eu enxergo isso aqui como fonte de renda familiar, não só para o homem, o provedor, mas para as mulheres, para os filhos, para todo mundo, porque a lavoura de cacau, ela é uma uma lavoura familiar. Aqui começou em família e eu tenho certeza que muitas outras começaram em família. Então ela é para dar renda para todo mundo e ela vai dar”.

‘Me apaixonei pelo cacau’

Distante a alguns km da propriedade de Kéully e Nicanor, outro produtor de cacau é Juares Pereira de Souza, de 63 anos. Com uma plantação de 3 mil cacaueiros distribuídos em quatro hectares, as plantas dele se diferem da produção de Nicanor, pois são do tipo clonal e não seminal. Ele tem 17 variedades de cacau na lavoura.

No tipo clonal, as plantas são cultivadas a partir de técnicas agrícolas que unem material genético de boa qualidade, produtividade e com resistência ou tolerância a pragas. Já no seminal, as mudas de cacau tem como origem apenas as sementes da planta.

Natual de Pium, no Tocantins, ele mora em Roraima desde 1987 e relembra que Roraima a região tentou uma experiência com cacau naquele período, no entanto, devido à praga vassoura de bruxa, as plantações não vingaram. Apesar disso, o desejo de se tornar um cacauicultor seguiu.

“Sou tocantinense, mas me apaixonei pelo cacau. Aí disse: ‘um dia eu vou plantar cacau’. Quando eu comprei a terra, eu me decidi plantar cacau e fui atrás de resgatar esse material aqui. Isso aqui vem junto comigo nessa história”, relembrou.

Ele uniu a vontade de produzir a fruta com conhecimento técnico. Foi até Rondônia e buscou parceria com a iniciativa privada para desenvolver a lavoura de cacaus clonais. O resultado é um tipo da fruta que, segundo ele, combina planta indígena de Roraima e uma variedade mais produtiva.

“Colocamos o material indígena aqui que tem uma base radicular top para caramba [sic], que garante qualquer um desses materiais, e jogamos o material de alta produtividade em cima dele. Então a adoção de tecnologia que que nós estamos fazendo é essa. A clonagem e a enxertia são bem próximos”, explicou.

Apesar de sua paixão, Juares ainda encontra desafios para acessar políticas públicas de incentivo aos produtores. Entre eles estão os créditos rurais e financiamentos, o que o leva a buscar apoio na iniciativa privada para investimentos, como a implantação de um sistema de irrigação.

“A agricultura familiar de Roraima sempre foi tratada como agricultura de sobrevivência. Nós queremos sair disso. Nós queremos o agricultor familiar aí empreendendo com dinheiro no bolso. É por isso que nós estamos fazendo isso aqui. E nós vamos mostrar para os nossos governantes que com eles eles ou sem eles, nós somos capazes de superar isso”.

Embora ainda enfrentem desafios, os pequenos produtores esperam que, nos próximos anos, além de adoçar paladares, a fruta gere cada vez mais novas oportunidades e impulsione o desenvolvimento da região.

*Por Samantha Rufino, Lucas Wilame e Raquel Maia, da Rede Amazônica RR

Formação profissional rural incentiva mulheres a prática de condução de grandes máquinas para o campo 

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Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat

A comunidade Passarão, em Roraima, recebeu uma edição especial do curso de tratorista agrícola, uma capacitação para produtores rurais oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O curso foi realizado em cinco dias e contou com a participação de 22 alunos. 

A iniciativa, que visa aprimorar técnicas agrícolas e pecuárias, chamou a atenção pela participação expressiva de mulheres. A presença feminina nessa formação, de acordo com o Senar, reflete uma mudança no setor agropecuário da região. 

A estudante e moradora da comunidade do Passarão, Claudia da Silva, relata que viu no curso ofertado, uma chance de vencer seus medos e se profissionalizar. 

“Vi uma oportunidade já que aqui é área rural, tem várias plantações e a maioria das pessoas usam o trator para esse tipo de serviço. Além de que, poucas mulheres tem coragem de fazer isso, eu arrisquei, me inscrevi para me profissionalizar”, contou.

Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat

A equipe técnica do Senar diz que a realização desse tipo de capacitação tem um impacto significativo no desenvolvimento do setor. Com o avanço técnico no campo é essencial que os produtores estejam preparados para utilizar novas ferramentas e métodos de forma eficiente e sustentável. A federação desempenha um papel fundamental nesse processo, oferecendo qualificação prática diretamente no ambiente onde o produtor atua.

“A presença feminina nos cursos do Senar representa uma grande conquista para o meio rural. As mulheres sempre desempenharam um papel essencial na produção, mas agora ganham cada vez mais visibilidade e protagonismo. Elas deixaram de ser apenas auxiliares na propriedade para se tornarem gestoras, empreendedoras e donas do próprio negócio”, pontou a equipe técnica.

A equipe finaliza expondo os benefícios esses tipos de cursos podem gerar ao pequeno produtor: “O curso traz diversos benefícios aos produtores, permitindo que ele aprenda a operar e manter os implementos agrícolas de forma eficiente. Com isso, reduza custos, otimize o uso de insumos e minimize os impactos ambientais. Além disso, a capacitação contribui para o aumento da produtividade, melhora a qualidade do trabalho no campo e fortalece a sustentabilidade da produção rural”, conclui a equipe técnica do Senar Roraima. 

Parceria busca fortalecer combate ao desmatamento em 70 municípios prioritários da Amazônia

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Ministra Marina Silva assina acordo para estruturar os Escritórios Municipais de Governança. Foto: Rogerio Cassimiro/MMA

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) firmou um contrato de R$61 milhões para estruturar os Escritórios Municipais de Governança, no dia 20 de março, que reforçarão o monitoramento do desmatamento em 70 municípios prioritários da Amazônia Legal.

A iniciativa integra o Programa União com Municípios, um dos instrumentos de implementação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), e conta com o apoio do Projeto Floresta+ Amazônia. Será implementada a partir de parceria com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Com essa ação, as prefeituras receberão veículos, embarcações, computadores e drones, além de capacitação e assessoria técnica, permitindo que as equipes locais atuem de forma mais eficaz no combate ao desmatamento e na promoção de práticas sustentáveis.

União

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a importância da assinatura. “O acordo é um passo importante para equipar adequadamente os municípios no combate ao desmatamento. A parceria com os municípios é uma forma de criar um vínculo com a sociedade. A agenda de comando e controle, que deve ser cada vez mais intensa, é mais efetiva quando se tem um Sistema Nacional do Meio Ambiente funcionando nos diferentes entes federativos – União, estados e municípios”, pontuou.

Compromisso ambiental

O acordo busca reforçar a trajetória de queda do desmatamento na Amazônia, acentuada a partir de 2023. De acordo com o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa de desmatamento no bioma registrou uma redução de cerca de 46% em 2024 em comparação com 2022. Somente entre agosto de 2023 e julho de 2024, a queda foi de 30,63%, o maior declínio percentual dos últimos 15 anos.

A assinatura do contrato reforça o protagonismo do governo brasileiro na agenda ambiental global, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e reafirmando o compromisso com a preservação da Amazônia.

Territórios vulneráveis

Para o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do MMA, André Lima, a criação dos escritórios de governança é um passo importante para manter a floresta em pé nos territórios mais vulneráveis da Amazônia Legal. “Os municípios amazônicos são peças-chave para os esforços contra o desmatamento e queimadas. Com esse suporte, terão condições reais de atuar na proteção de seus territórios e na implementação de políticas ambientais eficazes”, pontuou.

O representante-residente do PNUD no Brasil, Claudio Providas, destacou os esforços do Governo Federal para criar um legado duradouro de proteção ambiental no bioma. “É com grande honra que o PNUD se soma para reduzir ainda mais o desmatamento na Amazônia e consolidar uma nova era de gestão ambiental, protagonizada pelos próprios municípios, em sintonia com os compromissos climáticos e de conservação do Brasil, e principalmente com a Agenda 2030”, declarou.

União com municípios

O Programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais na Amazônia (UcM) é uma iniciativa do Governo Federal para fortalecer a governança ambiental em municípios da Amazônia Legal com altas taxas de desmatamento. Por meio da iniciativa, há a previsão de R$785 milhões em recursos para promover o desenvolvimento sustentável e combater o desmatamento e os incêndios florestais.

O programa oferece suporte técnico, equipamentos e capacitação para que as prefeituras atuem de forma mais eficiente na prevenção, controle e redução do desmatamento e da degradação florestal, estimulando também o desenvolvimento sustentável nesses locais. A iniciativa ainda leva ações de regularização ambiental, regularização fundiária e assistência técnica aos municípios.

Representantes

Também estiveram presentes na cerimônia de assinatura o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, e as secretárias nacionais do MMA Rita Mesquita (Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais) e Edel Moraes (Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável).

*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Amizade com Nietzsche e a Madeira-Mamoré: o austríaco que chorava a própria morte

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Julius Pinkas visitava o próprio túmulo. Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

A Guerra do Pacífico (1879–1883) deixou a Bolívia isolada, sem acesso ao Oceano Pacífico e com o desafio de redefinir suas rotas comerciais. Foi aí que os majestosos rios Madeira e Mamoré surgiram como a nova esperança de conexão ao Atlântico, e o Brasil viu uma oportunidade estratégica de estreitar laços com o vizinho. Assim, nascia o ousado e quase utópico projeto da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Em janeiro de 1883, uma comissão brasileira começou a traçar os primeiros planos para a ferrovia que prometia ligar Santo Antônio do Rio Madeira a Guajará-Mirim. Na linha de frente, o engenheiro Carlos Alberto Morsing, acompanhado pelo engenheiro austro-brasileiro Julius Pinkas Strauss, uma figura que, ao longo do tempo, provaria ser muito mais que um simples técnico: um excêntrico, um poeta e um espírito inquieto.

Cinco meses após assumir as operações, Morsing, debilitado pela saúde frágil, cedeu o comando a Pinkas. Este, por sua vez, trouxe uma visão única ao trabalho em Santo Antônio. Onde muitos viam um “inferno verde”, Pinkas enxergava uma natureza de beleza selvagem e avassaladora. Suas crônicas fogem ao modelo formal vigente e transportam o leitor para um cenário poético:

“Desapareça o navio que durante algumas horas empresta ruído e movimento a este porto de Santo Antônio o viajante achar-se-á no meio de uma natureza de aspecto mais selvagem que jamais sua fantasia pode ter desejado. Diante de si ruge a cachoeira, desprendendo faíscas de luz na corrida precipitada de suas águas revoltas, blocos de dimensões colossais, semeados pelos canais e nas margens das ilhas, rodeiam e limitam o seu horizonte. A floresta, tendo como guardas da sua originalidade as colossais sumaúmas, erguendo altaneiras suas cúpulas verdejantes, acima delas, como se vedando ao curioso os encantos e segredos, atrás do véu espesso que lhe forma a vegetação densa e impenetrável da margem”.

Mas nem poesia resistia às adversidades do lugar. Com sua saúde também comprometida, Pinkas foi forçado a retornar ao Rio de Janeiro, então capital do Império Brasileiro, em outubro de 1883. Ainda assim, sua paixão pela ferrovia e pela Amazônia o trouxe de volta em 1884, até que, em um golpe orçamentário, o projeto foi suspenso.

Foto: Reprodução/Acervo pessoal

A tentativa frustrada de domar a selva amazônica foi apenas uma das aventuras de Julius Pinkas. O engenheiro era um verdadeiro cidadão do mundo: atravessou o Atlântico inúmeras vezes, lutou pela consolidação da Prússia ao lado de um pálido soldado de artilharia de quem se tornou grande amigo. Seu nome: Friedrich Nietsche, um dos mais relevantes filósofos do mundo.

Nos anos 1900, estabeleceu-se no Chile, em Antofagasta, uma cidade portuária às margens do deserto de Atacama.

Em Antofagasta, a excentricidade de Pinkas alcançou novos patamares. Elegante até em ambientes de obra, limpava as mãos com lenços de seda e os deixava para os operários, que disputavam a peça suja como troféu. Fazia questão de ser recebido com um tapete de veludo vermelho ao sair de sua carruagem. Foi também ali que promoveu a estreia do pianista prodígio chileno Claudio Arrau León, abrindo as portas do palacete onde morava para o povo aplaudir o jovem talento das ruas.

Julius Pinkas, que construiu um jazigo para si mesmo e chorava saudades antecipadas da própria ausência, partiu deste mundo em 1927. Para um homem transbordando de vida, era inconcebível um futuro onde sua presença não iluminasse os dias. No Dia de Finados, ele passeava pelo cemitério como quem visitava um amigo querido, lamentando uma perda ainda não consumada. Sua última pergunta não apenas ecoa como um epitáfio imortal, mas também ressoa como um desafio ao próprio cosmos: ‘O que será do mundo sem mim?’

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

A nuvem que nos perseguia

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Às margens do Rio Madeira, o barco Veloz sob a nuvem. Foto: Bianca Darski

*Por Conexões Amazônicas – contato@conexoesamazonicas.org

Quando escrevemos um projeto para realizar uma pesquisa científica, temos que abstrair certas coisas que podem acontecer se o projeto for aprovado. Pesquisas que demandam trabalho em campo, por exemplo, são recheadas por histórias de situações completamente inesperadas. No mundo da ciência, quem gosta de fazer trabalho de campo, assume uma série de riscos sem fim. Não se trata de não pensar sobre os riscos, mas de ter coragem, criatividade e flexibilidade para lidar com o cenário que vamos encontrar. No meu caso, foi uma nuvem.

Durante muito tempo em minha carreira, realizei trabalho de campo em florestas, fazendo trilha, subindo e descendo morros e pirambeiras, no sol, na chuva, a pé, de carro, de barco, passando por pontes improvisadas, atolando os pés na água e na lama. Tudo para poder ver e ouvir as aves na Mata Atlântica e na Amazônia. Estes dois biomas são conhecidos por suas chuvas intensas e elevada umidade. E é principalmente a quantidade de água presente nestas florestas que as torna tão diversas, sobretudo em espécies de aves.

Em 2011, fiz parte de uma expedição de campo no Rio Madeira, juntamente com uma equipe de pesquisadores e técnicos do Museu Paraense Emílio Goeldi e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Nosso objetivo era catalogar espécies de aves, plantas, formigas, peixes e solos às margens (nas várzeas) do Rio Madeira. Para isso, percorremos cerca de 800 km em um barco ao longo de 40 dias.

Nosso ponto de partida foi a cidade de Porto Velho (RO) e navegamos até a foz do Rio Madeira, no encontro com o Rio Amazonas. Paramos em 16 locais, sendo dois dias em cada local para fazer o trabalho de campo. Para a pesquisa sobre as aves, usamos dois métodos: censo e captura. No censo, anota-se todas as espécies que são observadas em um dado local e a identificação pode ser tanto visual, quanto sonora. Para a captura, utilizamos armadilhas chamadas de rede de neblina, que é um método semelhante à pesca com rede ou malhadeira. Escolhemos ir nos meses de agosto e setembro porque é o período do ano em que as chuvas são escassas na região. Mas, como dizem, “no inverno amazônico chove o dia todo, já no verão chove todo dia”.

Logo no início dos trabalhos, tivemos uma visão surpreendente de uma nuvem movendo-se no mesmo sentido que o nosso barco. Tão logo armamos as armadilhas de captura de aves, caiu um toró. Chuva forte, daquelas de “pingo de um litro”. Na hora, o jeito foi correr para fechar as redes e eventualmente tirar o que tivesse caído na armadilha, podendo ser aves, insetos, mas também folhas e pedaços de galhos. Tudo isso no meio de um temporal. A chuva costuma ser rápida durante o verão amazônico, mas também pode ser volumosa e com ventos fortes. Em menos de uma hora depois parecia que nada havia acontecido. Céu azul e sol. Com as armadilhas novamente abertas, diversos passarinhos e outras aves acabaram caindo nas redes. Pensei: “valeu a pena a chuvarada”.

No caminho do próximo local onde iríamos realizar o trabalho, mais uma vez estava lá a nuvem. E o cenário se repetiu de forma parecida, tudo muito rápido, quase no mesmo horário: redes armadas, vento e chuva forte, corrida para fechar as redes, corrida para abrir, redes cheias de passarinhos, insetos, galhos e folhas. A rede de neblina precisa ser o mais invisível possível para que uma ave seja capturada. Por isso, é importante tirar todas as folhas e galhos que ficam presos. Isso é importante também para facilitar o processo de abrir e fechar as redes, pois os nós se criam com facilidade. Ou seja, um vento e/ou chuva forte no meio da mata gera um processo trabalhoso. E isso se repetiu ao longo de alguns dias.


Quem trabalha com captura de aves sabe que, às vezes, nos deparamos com indivíduos que têm garras e bicos afiados. Durante o trabalho no Rio Madeira, encontramos com frequência uma ave bastante desafiadora para manipular em uma armadilha de rede de neblina: a mãe-de-taoca (Phlegopsis nigromaculata). Dentre as características desta espécie, está o hábito dos indivíduos andarem em grupos ou em pares, geralmente próximos ao chão da floresta, além da presença de pernas fortes, unhas e bico afiados.

As pernas fortes, provavelmente, são importantes no seu papel de seguidoras de formigas-de-correição (também chamadas de taocas), pois a mãe-de-taoca se alimenta destas formigas que andam juntas em milhares de indivíduos. Possivelmente, logo após a chuva, as formigas também estavam mais ativas, o que deve ter alertado grupos de mãe-de-taocas. O resultado desta combinação foram vários dias com as marcas de unhadas e bicadas nas mãos.


Indivíduo de mãe-de-taoca (Phlegopsis nigromaculata) capturado pelo método de rede de neblina nas várzeas do Rio Madeira. Foto: Bianca Darski

A chuva é um elemento importante quando decidimos fazer um trabalho de pesquisa sobre aves (e certamente isso se aplica a outros grupos de animais). Isso porque os “penudos” ficam mais quietos e parados quando está chovendo. Desse modo, a detecção das espécies pelo pesquisador em campo fica comprometida, seja pelo canto, visualização ou captura das aves. O horário que decidimos ir a campo também é fundamental, porque estes animais têm hora para começar a cantoria. Se você perder a hora de maior atividade, por exemplo, no início da manhã e no fim da tarde, infelizmente não fará uma boa amostragem sobre as aves do local. Há outros fatores que influenciam, como o barulho que você faz ao entrar na floresta, as cores das roupas que você usa e os equipamentos que você tem à mão, por exemplo, gravador e binóculos. De certo modo, alguns fatores são controláveis, mas a chuva é algo que realmente acaba com a brincadeira.

Por outro lado, logo após a chuva passar, especialmente quando o sol aparece, as aves e outros animais se movimentam mais. Isso pode ocorrer no meio da manhã, ou seja, fora do horário que consideramos “ótimo”. E pode ter sido justamente essa conjunção de fatores que intensificou a captura de aves nas redes. Não havia muito tempo para esperarmos a condição climática ideal. Tínhamos que executar o trabalho em dois dias e logo depois navegar até o próximo ponto. Ao chegar em cada local, ouvíamos dos moradores da beira: “Faz tempo que não chove. Essa nuvem parece estar acompanhando vocês”. No total, entre as aves capturadas, vistas e ouvidas, registramos mais de 400 espécies. Bendita nuvem.


A chuva seguida do sol também proporcionou momentos com arco-íris às margens do Rio Madeira. Foto: Bianca Darski

Com a colaboração de:

Bianca Darski-Silva é analista de pesquisa e desenvolvimento em popularização da ciência, tecnologia e inovação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. É bióloga, mestre em zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e doutora em ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É co-fundadora da Rede Conexões Amazônicas e entusiasta de uma ciência colaborativa e inclusiva. Atualmente se dedica a atividades de comunicação e extensão para promoção de uso sustentável dos recursos naturais e igualdade socioambiental na Amazônia.

Sobre o Conexões Amazônicas

O coordenador da ONG Rede Conexões Amazônicas, Ayan Fleischmann, é pesquisador titular do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sendo mestre e doutor em recursos hídricos. Em sua trajetória tem pesquisado as águas e várzeas amazônicas em suas múltiplas dimensões. É representante da ONG na coluna no Portal Amazônia, onde recebe pesquisadores convidados que contam os bastidores de suas experiências de pesquisa na Amazônia.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Aumento de períodos prolongados de seca ameaça anfíbios brasileiros

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Perereca-de-ampulheta (Dendropsophus minutus), espécie que habita as florestas da América do Sul. Foto: Reuber Brandão, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

O Brasil abriga a maior diversidade do mundo de anfíbios: das mais de 8 mil espécies conhecidas globalmente, cerca de 1.200 são encontradas no país, sobretudo nos biomas Amazônia e Mata Atlântica. Mas seu futuro está em risco devido ao aumento dos períodos de seca em seus habitats.

Seca e anfíbios não são uma combinação viável. Esses animais dependem de água e umidade para sobreviver. Sem elas, podem desidratar em poucas horas e morrer.

“Os anfíbios possuem a pele fina e permeável, diferentemente de outros animais terrestres, como humanos, pássaros, répteis e insetos. Essa pele úmida deixa passar água e outras substâncias, tornando-a mais sensível ao ar seco. É por isso que você não vê sapos expostos ao sol por muito tempo – eles secam muito mais rápido do que outros animais”, explica o biólogo Nicholas Wu, pesquisador da Western Sydney University, na Austrália.

Leia também: Anfíbios amazônicos estão entre os 40% dos anfíbios no mundo ameaçados de extinção

Com a ajuda de outros cientistas, Wu mapeou regiões do planeta onde anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas), um grupo de vertebrados sensíveis à água, enfrentarão condições mais áridas e secas no futuro, podendo gerar um maior risco de declínio de populações e até de extinção de espécies.

“Descobrimos que muitas partes do mundo onde vivem anuros correm o risco de ficarem mais áridas e sofrerem com aumento de secas. Também constatamos que a combinação de temperaturas mais altas e ambientes mais secos terá grandes impactos na janela de atividades deles, ou seja, as horas em que o clima não impede os anuros de forragearem e procriarem”, diz o pesquisador.

estudo de Wu, publicado na Nature Climate Change, aponta que até 33% dos habitats dos anuros poderão se tornar mais áridos até 2100. Num cenário de aquecimento global, caso o clima no futuro fique 4 ºC mais quente, 36% desses habitats terão secas mais duradouras, com aumento de até quatro meses por ano.

Ainda de acordo com a análise, a previsão é que o agravamento das secas duplique as taxas de perda de água através da pele desses animais. No futuro, espera-se que a combinação de seca e aquecimento reduza pela metade o tempo em que os anuros ficariam ativos.

E essa é uma realidade que já está sendo sentida por biólogos. “A maioria das espécies não fica ativa o ano inteiro. No Brasil, o comum era perceber maior atividade de muitos anuros nas primeiras chuvas de setembro”, diz Rafael Bovo, pesquisador da Universidade da Califórnia, Riverside, nos Estados Unidos, e um dos coautores do estudo.

“Entretanto, nos últimos anos, quando realizamos trabalho de amostragem no campo, tem sido comum observar o adiamento tanto da estação de chuvas quanto do período de maior atividade desses animais”.

O brasileiro ressalta que, ao entrar em atividade mais tarde, esses anfíbios podem ter menos tempo para seu desenvolvimento biológico – como por exemplo, de seus órgãos sexuais –, realizar o chamado cortejo reprodutivo, encontrar alimento para ter energia e, finalmente, achar seus parceiros.

Preocupação com sapos no sul da Amazônia e na Mata Atlântica

A análise, elaborada a partir de diversos cenários climáticos e da distribuição de mais de 5 mil espécies de anuros, indica que várias regiões do planeta com grandes concentrações desses animais serão afetadas pela aridificação nas próximas décadas, mas com impacto maior em áreas da África e particularmente, da América do Sul.

O que realmente preocupa os envolvidos no estudo é que existem muitas espécies de anfíbios nas florestas do continente sul-americano, como já mencionado anteriormente. E mais do que isso, muitos são endêmicos, ou seja, não existem em nenhum outro lugar, como é o caso da perereca-flautinha (Aplastodiscus leucopygius) e do sapinho-pingo-de-ouro (Brachycephalus pitanga)que só ocorrem na Mata Atlântica.

“O bioma abriga mais de 700 espécies dos anfíbios anuros conhecidos no Brasil, e mais de 50% delas são endêmicas”, ressalta Bovo. “Quando se pensa em um cenário de Mata Atlântica, de perda de quase 90% de sua vegetação original, e agora com uma piora climática ainda mais rápida, boa parte dessas espécies pode desaparecer.”

Já na Amazônia o alerta cai sobre o Arco do Desmatamento, no sul do bioma, onde há maior expansão das atividades agropecuárias. “Essa é a área do nosso mapa onde aparecem manchas críticas em que haverá aumento de seca, sendo que essa região já sofre com um processo histórico de desmatamento, desde a década de 70, inclusive com a construção das estradas, que destroem não só as florestas como também outros habitats importantes para os anuros”, destaca Bovo.

Adaptação e evolução: uma incógnita

Anfíbios são animais essenciais para seus ecossistemas. Entre alguns dos muitos serviços ambientais que eles prestam estão a regulação de populações de insetos – como mosquitos, conhecidos vetores de doenças –, a ciclagem de nutrientes e a sustentação de diversas teias alimentares.

Em um clima mais quente e árido, a dúvida é se haverá tempo para que eles consigam se adaptar ou evoluir ao longo das gerações para sobreviver a essas novas condições.

Leia também: Seca e aquecimento global vão prejudicar anfíbios da Amazônia, aponta estudo

“É possível que os anfíbios se adaptem a um mundo mais quente, mas eles precisam de tempo para tal. Atualmente, a taxa de aquecimento excede sua capacidade de adaptação, razão pela qual muitos sapos correm risco de extinção”, afirma Wu. “Se fornecermos alguma proteção ambiental, por exemplo, restaurando florestas, isso fornecerá microclimas adequados para que os anfíbios se adaptem ao nosso mundo em rápida mudança.”

Os pesquisadores reforçam que estudos como esse são importantes para ajudar na elaboração de políticas públicas de conservação enquanto essas espécies ainda existem, antes que seja tarde demais, após elas já terem sido extintas.

O próximo passo é entender melhor como alguns animais são mais resilientes do que outros. Bovo cita como exemplo espécies com adaptações específicas, como aquelas que produzem cera na pele e conseguem resistir a situações adversas, sem desidratar muito rápido. E outras que se enterram, criando um casulo, com pele morta acumulada, desenvolvendo uma barreira física para reduzir a perda de água.

“Muitos dos estudos feitos nas últimas décadas sobre mudanças climáticas tiveram como foco apenas a mudança da temperatura, e não o efeito separado ou combinado de calor e seca, como esse nosso estudo. Além disso, estamos aprendendo que não é só a média que importa; é preciso levar em conta ainda a variação de temperatura e umidade e a ocorrência mais frequente de eventos extremos”, destaca o biólogo.

“Por isso não é fácil responder à simples pergunta se todos ou apenas alguns grupos de animais que dependem de água, como os anfíbios, irão sobreviver às mudanças climáticas”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo