O Movimento Cultural Frente Unida da Capoeira Tradicional no Amazonas realizou a 24ª edição do Projeto Contemplado pela Lei Paulo Gustavo: ‘A Roda de Capoeira da Eduardo Ribeiro como meio de preservação, resistência e salvaguarda da Capoeira no Amazonas’, neste domingo (12). O evento foi realizado na Calçada da igreja da Matriz, próximo ao Relógio Municipal, e reuniu vários grupos que compartilham com a comunidade as tradições da Capoeira no Amazonas.
Contemplado em um dos editais da Lei Paulo Gustavo, executada pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, o projeto celebra 24 anos em 2024 e busca reforçar a importância de preservar e salvaguardar a Roda de Capoeira e Ofício dos Mestres, bens tombados pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
“É uma alegria imensa ter conseguido cumprir rigorosamente todo o calendário anual, sem nenhuma alteração, mesmo em dias de chuvas fizemos as apresentações como oficinas formativas de Berimbau, Caxixi, pandeiro, Atabaque, palestras contra suicídio, prevenção ao câncer de Mama, Próstata, dificuldades da pessoa com deficiência”, destaca o mestre de capoeira Dermilson Freitas, conhecido como Mestre Canário, coordenador da Frente Unida Capoeira Tradicional do Amazonas, responsável pelos eventos.
Marco cultural e histórico
A roda de capoeira da Avenida Eduardo Ribeiro é um marco cultural na cidade de Manaus. Realizada há 24 anos, tornou-se um ponto de encontro de mestres, contramestres, alunos e admiradores dessa prática. O projeto representa resistência histórica e identitária, sendo um elo vivo entre as gerações. Além disso, a iniciativa busca ampliar o acesso da população a manifestações culturais que reforcem o senso de pertencimento e identidade.
“Foi um ano de muito aprendizado e pretendemos renovar o projeto para o ano que vem, pois, a roda completa 25 anos”, conclui Mestre Canário.
35º Batizado & Trocas de Cordas
A cerimônia de entrega de graduações, ’35º Batizado & Trocas de Cordas’, todas no ritmo da capoeira regional, foi realizada no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, entre os dias 14 e 15, pela Escola de Capoeira Luta de Libertação. O evento contou com os mestres Ricardo Camisa Furada e Mestre Canário, e os contramestres Eli, Prateado e Peteca.
Em meio ao fragmento florestal do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), em Manaus (AM), é possível encontrar quatro espécies de macacos que vivem nesse espaço. O macaco-de-cheiro (Saimiri ustus), o parauacu (Pithecia chrysocephala), o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) e o macaco-da-noite (Aotus trivirgatus). Esses animais encantam os visitantes do Bosque da Ciência e aguçam a curiosidade científica. Uma recente descoberta, feita pela pesquisadora japonesa Makiko Take, revelou que duas dessas espécies — o macaco-de-cheiro e o parauacu — apresentam hábitos alimentares distintos.
Conforme a primatóloga, do Instituto de Pesquisa de Primatas da Universidade de Kyoto, no Japão, a pesquisa iniciou na curiosidade instigada pelo seu orientador, Takakazu Yumoto, que convidou Makiko ao Bosque da Ciência e apresentou a diversidade de macacos presentes na área florestal dentro da área urbana de Manaus, o que motivou a pesquisadora a entender como funcionava a interação desses macacos com o ecossistema local.
Intitulada ‘Ecologia alimentar de parauacu-de-cara-dourada em um fragmento florestal em Manaus, Brasil: Comparação com macacos-de-cheiro simpátricos’, a tese de doutorado de Makiko, utilizou um método bastante simples, mas, ao mesmo tempo, muito minucioso. Sentar, observar os macacos e tomar nota. A pesquisadora realizou o estudo por dois anos, período em que passava 12 horas por dia observando os macacos e anotando seus hábitos alimentares. A cada 10 minutos, Makiko verificava o que os grupos de macacos estavam fazendo e de quais árvores estavam se alimentando e registrava o comportamento dos grupos.
“Eu chegava no Inpa às 6 horas da manhã e observava os macacos até às 18 horas da noite. A cada 10 minutos eu registrava o que esses animais estavam fazendo e do que estavam se alimentando”, lembra.
Foto: Igor Souza/Ascom Inpa
Diferença nos hábitos alimentares
Outro método de pesquisa foi a coleta de amostras dos frutos consumidos pelas espécies para medir características como tamanho, dureza e valores nutricionais, incluindo proteínas e lipídios. Essa análise foi essencial para identificar como cada espécie selecionava seus alimentos e para avaliar as diferenças entre elas.
“Eu coletei os frutos que eles consomem e medi o tamanho, a dureza e também o valor nutricional, como as proteínas e lipídios. Isso ajudou a entender como eles selecionam os frutos. Comparei os frutos que o parauacu come com os frutos que o macaco-de-cheiro come e identifiquei diferenças. O parauacu prefere as sementes de frutos verdes para suprir a proteína, já que ele não consome insetos, ao contrário do macaco-de-cheiro, que inclui pequenos insetos em sua dieta”, frisa.
Durante as observações, foi notado a capacidade do parauacu de consumir frutos, tanto verdes como maduros, o que permite que a espécie utilize a mesma árvore por mais tempo, garantindo acesso a recursos mesmo em períodos de escassez. “Essa dinâmica alimentar mostra como essas espécies se adaptaram às condições do fragmento florestal, onde o acesso aos recursos varia ao longo do ano”, explica Makiko.
Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa
O estudo contou com a participação da equipe de veterinária do Instituto. Conforme o veterinário da Prevet, empresa que presta assistência veterinária ao Inpa, Anselmo D’Affonseca, a sua colaboração na pesquisa foi para avaliar a relevância da suplementação alimentar na dieta de primatas dessa área.
“Nosso papel foi processar o alimento fornecido, ou seja, cortá-lo e distribuir nas quantidades determinadas pela pesquisadora, colocando-os em bandejas distribuídas ao longo das trilhas. Além disso, auxiliamos na instalação de balanças nas plataformas onde os alimentos eram disponibilizados, permitindo pesar alguns indivíduos e estimar o impacto da suplementação na dieta geral desses animais que vivem no fragmento”, explica D’Affonseca.
Anselmo ressalta que os resultados são relevantes e podem ser considerados inéditos. “É uma contribuição inédita para o estudo de uma população de primatas relativamente grande que prospera em um fragmento urbano de mata secundária, um ambiente restrito e modificado, os dados podem ser aplicados em estratégias de conservação, como a manutenção de populações em áreas fragmentadas ou até a reintrodução de espécies em locais onde foram extintas”, pondera.
Outra descoberta interessante foi a interação alimentar indireta entre espécies. O parauacu, com sua mandíbula composta de caninos mais fortes que o macaco-de-cheiro, consegue abrir frutos duros. Essa característica beneficia a nutrição de outros animais, como o macaco-de-cheiro e cutias, que aproveitam para se alimentar dos frutos que caem das árvores durante a alimentação do parauacu.
Cooperação Brasil-Japão
Foto: Débora Vale/Ascom Inpa
O estudo de Makiko foi fruto de uma parceria entre o Inpa e a Universidade de Kyoto, com financiamento do Programa de Pós-Graduação em Primatologia e Ciência da Vida Selvagem, Universidade de Kyoto, Japão, e pela Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (JSPS).
O pesquisador Wilson Spironello, orientador no Inpa por parte do Brasil, diz que a pesquisa ressalta a importância da cooperação internacional no âmbito de novas descobertas. “As colaborações internacionais são muito importantes porque é uma troca mútua de conhecimento e facilita o intercâmbio de alunos de um país para outro”, pontua
Makiko participou inicialmente como estudante do Projeto Museu na Floresta, onde se encantou pela diversidade de primatas da região. “Eu sempre admirei o parauacu por sua beleza e comportamento fascinante. Ele foi o foco ideal para meu estudo acadêmico”, comenta. “Eu só tenho a agradecer aos meus orientadores por seus apoios contínuos e pacientes, ao Projeto Museu na Floresta, ao Inpa e aos tratadores que sempre me auxiliaram e faziam companhia”, agradece.
Popularização do Conhecimento
Além do trabalho científico, Makiko desenvolveu um aplicativo voltado para a educação ambiental, o Projeto Making Biodiversity the Norm. “Quero que as pessoas de Manaus conheçam as vidas maravilhosas que existem aqui e entendam a importância de preservar esses fragmentos florestais. Esse aplicativo é uma maneira de conectar ciência e sociedade”, conclui.
Projeto Museu na Floresta
Torre ZF-2 – Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa
Vera Silva, pesquisadora do Inpa e uma das coordenadoras do Projeto Museu na Floresta diz que o projeto foi uma cooperação entre o Brasil e o Japão, com apoio financeiro da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e universidades japonesas, como a Universidade de Kyoto e o Wildlife Research Center (Centro de Estudos de Vida Selvagem do Japão), coordenado pelo professor Shiro Koshima.
Casa da Ciência – Foto: Victor Mamede/Ascom Inpa
“Essa iniciativa foi muito importante porque permitiu várias colaborações, várias trocas de experiência e, principalmente, a formação de recursos humanos, tanto do lado do Brasil como do lado japonês, em técnicas em estudos de biodiversidade e de estudos visando a proteção da Amazônia”, comenta.
A cooperação permitiu 15 estudantes brasileiros, vinculados aos cursos de pós-graduação do Inpa, terem a experiência de estudar no Japão, uma experiência internacional em áreas de campo de biodiversidade do Japão. Além da oportunidade de conviver com colegas de outras nacionalidades, como da Malásia, da Índia e do próprio Japão.
“Eu acho que esse grupo que veio, japonês para o Brasil, e o grupo que foi do Brasil para o Japão, cria uma ligação que vai permitir futuras colaborações, cooperações e são pessoas que se interagem até hoje e vão se apoiar em diferentes momentos em relação às suas pesquisas e aos estudos da Amazônia”, frisa.
O Museu da Floresta possibilitou a construção de uma base de pesquisa e a renovação de estruturas do Inpa, que não eram reformadas há mais de 40 anos, e viabilizou melhorias na torre da ZF-2, localizada no quilômetro 14. Diversas ações foram realizadas no Bosque, incluindo a reforma da Casa da Ciência, que apresenta o formato atual. “Essas iniciativas foram de grande importância para a instituição, para o Inpa e para a Amazônia, sendo todas elas desenvolvidas e apoiadas por meio do Museu da Floresta”, pontua a pesquisadora.
No último 7 de novembro, a advogada Maíra Pankararu, primeira indígena a participar da Comissão de Anistia, saiu emocionada da estreia de ‘Ainda estou aqui‘.
“Fico muito agradecida, porque ainda são poucos os que discutem o que foi a ditadura para nós, povos indígenas”, disse Pankararu à Agência Pública.
O filme recém-indicado ao Globo de Ouro e que, há poucos dias, se tornou a maior bilheteria do cinema brasileiro no pós-pandemia, conta a busca de Eunice Paiva pelo reconhecimento do assassinato de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, pela ditadura militar. Mas, entre as várias batalhas que marcaram a trajetória de Eunice, o filme do diretor Walter Salles destaca também sua atuação como uma das raras advogadas na época especializadas em direito indígena.
Entre 1964 e 1985, período definido por Pankararu como um “banho de sangue” para os povos indígenas, o governo militar perseguiu, expulsou milhares de suas terras e colocou dezenas em campos de trabalho forçado e prisões.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estimou que pelo menos 8.350 indígenas foram mortos no período – “em decorrência da ação direta de agentes governamentais ou da sua omissão”. O número, aterrador, se refere a apenas dez povos estudados pela CNV – são 305 no Brasil. Desaparecidos e mortos políticos, caso de Rubens Paiva, foram 434, conforme a CNV.
“A gente ainda não tem noção sobre o que aconteceu com os povos indígenas na ditadura”, afirma Pankararu.
Foi nessa época brutal que Eunice se especializou na defesa jurídica dos povos indígenas, assinando pareceres judiciais, buscando indenizações e demarcações de terras, publicando artigos e livros e contribuindo para as discussões que resultariam no capítulo “Dos índios” da Constituição Federal de 1988.
“Eunice é de uma expressão tão grande que é impossível contar a história do movimento indígena nos anos 70 e 80 sem fazer referência à contribuição dela, tanto do ponto de vista jurídico quanto do ponto de vista humanitário”, afirmou o líder, ativista e escritor Ailton Krenak em entrevista à CBN.
O foco de Ainda estou aqui, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, é a batalha de Eunice para que o governo ditatorial reconhecesse o que fez com seu marido, levado por policiais à paisana em janeiro de 1971 para nunca mais retornar.
Mas, ao mencionar a dedicação posterior dela ao direito indígena, o longa abre um caminho para que outra memória coletiva seja também recuperada.
“O direito à memória e à verdade é o direito à nossa identidade, o direito de sanarmos as nossas feridas e esses traumas que se tornaram intergeracionais”, resume Daiara Tukano.
Artista e mestre em direitos humanos, Tukano também viu no filme um convite para que as pessoas se somem à luta dos povos indígenas e conheçam as histórias daqueles que Eunice defendeu – entre eles, os Pataxó, da Bahia; os Zoró, do norte de Mato Grosso; os Kayapó, do Xingu; e os Yanomami, de Roraima.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estimou que pelo menos 8.350 indígenas foram mortos no período da ditadura militar. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Eunice e a causa indígena
Dois anos depois de Rubens Paiva ter desaparecido nos porões do DOI-Codi, no Rio de Janeiro, Eunice voltou para São Paulo com a família e entrou na Faculdade de Direito. Os estudos lhe deram mais ferramentas para buscar justiça para o seu e para outros casos de desaparecidos políticos, lutar pela redemocratização do país e entrar na causa indígena.
“A minha mãe tinha uma vida incrível, porque ela ficou viúva aos 41 [anos], com cinco filhos, se formou em direito e virou uma militante muito intensa com relação à anistia, redemocratização, Diretas-Já, Constituinte. Ela começou com o direito de família, mas depois se especializou em direito indígena. Ela era uma das pouquíssimas especialistas em demarcações de terras indígenas e passou a ser requisitada”, contou Marcelo, filho de Eunice e Rubens, em entrevista a Drauzio Varella, em 2016, meses após ter lançado o livro.
Em 1987, ela foi uma das fundadoras do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iamá) , organização não governamental que colaborou para a criação de vários projetos de saúde, educação e política para povos indígenas, na qual atuou até 2001.
Eunice foi uma das fundadoras das fundadoras do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente. Foto: Reprodução/Acervo pessoal
No final da década de 1980, Eunice trabalhou também no conselho consultivo da Fundação Mata Virgem, que geria, no Brasil, os recursos de uma organização fundada pelo músico Sting – convertido definitivamente à causa indígena após ter feito uma turnê mundial ao lado do líder Raoni Metuktire para angariar fundos para a demarcação da Terra Indígena Menkragnoti, dos Kayapó, no Xingu, homologada em 1993.
Antes disso, ainda na ditadura, Eunice participou da Comissão Pró-Índio de São Paulo, grupo fundado por antropólogos em 1978 como reação à tentativa do governo militar de alterar a lei para separar os indígenas em dois grupos: aqueles que seguiam suas “tradições” e, portanto, ainda precisavam ser “tutelados” pelo Estado; e aqueles que tinham se “emancipado” por terem se “aculturado”.
A divisão arbitrária não passava de uma manobra para retirar do segundo grupo o direito à terra – reconhecido desde o tempo do Brasil Colônia e protegido pelas constituições desde 1934. A estratégia não passou despercebida.
“Essa questão de ‘emancipar’ os índios, que era o termo usado, mobilizou a sociedade civil de um modo incrível, porque foi, digamos, o modo de expressar resistência e repúdio à ditadura no fim da década de 1970, quando a oposição estava muito subjugada”, lembra a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das fundadoras da Comissão Pró-Índio e referência em antropologia no país.
A demarcação de terras indígenas se tornou uma palavra de ordem, estampada até em adesivos colados nos automóveis de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, contou a antropóloga.
Naquela época, o ordenamento jurídico do país considerava os indígenas como “relativamente capazes” (mesmo status das mulheres casadas). Assim, eles não podiam fazer negócios, celebrar contratos e entrar com ações judiciais, prerrogativas reservadas ao “tutor” – representado, primeiro, pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, depois, pela Fundação Nacional do Índio (Funai), criada em 1967.
Funai militarizada e a disputa pela terra
Só que a própria Funai, militarizada, era “o inimigo dos indígenas”, explica Carneiro da Cunha, retratada no filme ao lado de Eunice em uma cena de uma aula ministrada por elas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. “Isso fazia com que, na realidade, eles não tivessem acesso à Justiça de forma autônoma.”
Em 1983, as duas assinaram um artigo no jornal Folha de S.Paulo denunciando como a Funai havia agravado o conflito fundiário enfrentado pelos Pataxó do sul da Bahia. Pressionado pelo governo estadual, o órgão que deveria defender os indígenas atuou para remover e dividir a população, deixando-a exposta à violência da Polícia Militar e de fazendeiros.
Reprodução do artigo no jornal Folha de São Paulo.
“Nesta situação, a quem recorrer?”, questionam. “Sejamos claros: a Funai, supondo mesmo que quisesse cumprir seu papel, está atrelada a um sistema no qual os direitos indígenas são a última das preocupações.”
A Comissão Pró-Índio de São Paulo era justamente uma entidade a que os indígenas podiam recorrer, uma organização “para-raio” de conflitos, como define Márcio Santilli, fundador do Instituto Socioambiental (ISA) e presidente da Funai entre 1995 e 1996.
“Indígenas que sofriam processos complicados de violência, tomada de terras, recorriam à Comissão [Pró-Índio] para ter algum tipo de apoio, nem que fosse no plano da denúncia desses fatos. Era um período em que havia pouca gente com formação que pudesse ajudar”, conta.
Eunice era uma dessas pessoas, assim como os juristas Dalmo Dallari (1931-2022), referência em teoria do estado, e Carlos Marés, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Na época, eles desempenhavam o papel que mais tarde seria delegado ao Ministério Público Federal (MPF) pela Constituição de 1988.
“Quando você vê alguém falando que o Ministério Público denunciou, entrou com ação, fez não sei o quê, a Eunice Paiva já fazia isso antes do Ministério Público existir”, disse Krenak à CBN.
Em 1986, Eunice escreveu um parecer fundamental para a demarcação da Terra Indígena Zoró, reconhecida no ano seguinte. Contatados oficialmente em 1977, os Zoró viram sua população se reduzir drasticamente após uma série de surtos epidêmicos trazidos pelos invasores que seguiam o asfaltamento da BR-364 (entre Cuiabá e Porto Velho).
“Os direitos dos índios à posse de suas terras são direitos intransponíveis e que não podem ser negociados, inexistindo qualquer impugnação válida capaz de anular, restringir, extinguir ou modificar os direitos da comunidade Zoró sobre a terra que é seu habitat natural”, escreveu Eunice como avaliadora do impacto do Programa Polonoroeste para os indígenas.
A pavimentação da rodovia entre as capitais de Mato Grosso e de Rondônia foi uma das principais ações do Polonoroeste, criado pelo governo João Figueiredo em 1981, financiado por empréstimos de milhões do Banco Mundial e devastador para os povos indígenas dos dois estados.
Ditadura: grandes obras e violência
Com seus programas de “integração” e grandes obras de infraestrutura, como as rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém, a ditadura exacerbou a opressão, em todos os níveis, contra os indígenas, deixando um legado de violações nunca reparado.
Na raiz dessa violência, que também se perpetua até hoje, estava o direito à terra, classificado por Eunice como o “mais valioso” para os indígenas. Em um livro de 1985, escrito com a antropóloga Carmen Junqueira, ela lembra que o Estatuto do Índio, de 1973, havia dado cinco anos para a Funai demarcar todas as terras indígenas. O prazo havia se esgotado sem que as áreas demarcadas atingissem um terço do total.
“Parece-me que o problema da terra, no Brasil, hoje, é um problema crucial. Observamos uma verdadeira corrida para o oeste, no sentido da ocupação do território, estimulada, inclusive, pelo próprio governo, no sentido da defesa desses territórios contra eventuais invasores estrangeiros. Enfim, essas coisas que os militares muito enfatizaram”, disse ela durante uma reunião da Comissão Pró-Índio em 1986.
“Acho que o problema da terra, indígena ou não, deveria ser tratado de forma harmoniosa, estabelecendo quais são os direitos indígenas e os outros organismos se adequarem a isto. E não o contrário. A adequação tem sido feita com prejuízo dos direitos das terras indígenas”, afirmou.
No livro O Estado contra o índio, publicado em 1985, Eunice e Carmen se debruçam sobre décadas de documentos estatais para reconstituir todo o tratamento dado, ao longo da história legislativa brasileira, aos indígenas e ao direito deles à terra. Na obra, elas criticam a política indigenista e denunciam as seguidas violações de direitos humanos.
Para as autoras, um dos sintomas da “discriminação racial” e “violação aos direitos humanos” enfrentadas pelos indígenas estava na falta de apuração e solução dos crimes cometidos contra as comunidades. Elas listam, então, 15 assassinatos entre 1975 e 1983 que ficaram “sem solução”. Entre eles o do líder guarani Marçal de Souza, que chegou a participar de reunião da Comissão Pró-Índio e foi morto por pistoleiros em Campestre, em Antônio João, no Mato Grosso do Sul.
Em um desses prolongamentos da história, até hoje fazendeiros disputam áreas indígenas no estado, em um conflito fundiário violento que, há anos, deixa mortos e feridos. Recentemente, em setembro, também em Antônio João, o jovem Neri Guarani Kaiowá foi morto a tiros durante uma ação da Polícia Militar contra a retomada dos indígenas em uma fazenda, segundo informações do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
O caminho para a Constituição de 1988
Para Manuela Carneiro da Cunha, o trabalho realizado pela Comissão Pró-Índio deixou um “enorme legado” para a pesquisa acadêmica e para a formulação jurídica dos artigos da Constituição de 1988. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
“Essas pessoas que tomaram o front nesse período [da ditadura] tinham que tirar leite de pedra para conseguir fazer a defesa dos povos indígenas com os instrumentos precários que existiam”, afirma Santilli.
Para Manuela Carneiro da Cunha, esse trabalho realizado pela Comissão Pró-Índio deixou um “enorme legado” para a pesquisa acadêmica e para a formulação jurídica dos artigos da Constituição de 1988 – como o revolucionário texto do artigo 231, que sacramentou o conceito de “direito originário”, recuperado pelo trabalho do grupo.
Os advogados que atuavam na Comissão Pró-Índio foram importantes também em uma das grandes batalhas da Constituinte: o debate sobre mineração em terras indígenas. Segundo Ailton Krenak, advogados como Eunice, Dalmo Dallari e Carlos Marés aconselharam as lideranças envolvidas nas discussões a impedir a autorização ao garimpo no texto constitucional.
Eunice já conhecia o problema por sua atuação como advogada da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), área invadida por milhares de garimpeiros no final da década de 1980, estimulados pelas seguidas investidas do governo e de parlamentares para autorizar a exploração de cassiterita na região. O chamado “ouro negro”, usado na fabricação de vidros e de latas e, atualmente, até de telas de celulares, ainda hoje é extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami.
Além de preparar o caldo jurídico para a Constituinte, a Comissão Pró-Índio de São Paulo também teve um papel relevante ao reunir líderes indígenas que se tornaram referências para o movimento indígena, como o próprio Krenak, Raoni, Marcos Terena, Álvaro Tukano, entre outros.
“Eles foram apoiadores importantes ao promover esses encontros das lideranças que construiriam as propostas para os nossos direitos na Constituinte, a presença indígena dentro dos espaços democráticos do país”, diz Daiara Tukano, filha de Álvaro. Na história pessoal da família da artista, Eunice é lembrada também por ter assinado um parecer para que o cartório de Pinheiros, em São Paulo, aceitasse registrar Daiara como Daiara Hori, em uma época em que nomes indígenas não eram aceitos.
A representação indígena era uma das preocupações da advogada, que já em 1985 apontava como “defeito grave” na concepção da Funai a ausência de indígenas nos quadros do órgão.
Quase 40 anos depois, ela provavelmente ficaria satisfeita em ver Joenia Wapichana na presidência do órgão. Além de um movimento indígena fortalecido, representado juridicamente por suas próprias organizações, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
“Tem agora um movimento indígena tanto de mulheres quanto de homens que é nacional, e isso é de extrema importância”, afirma Manuela Carneiro da Cunha.
“Lembrar da Eunice também é agradecer e celebrar o trabalho de todos aqueles que foram nossos parceiros e continuam de pé do nosso lado”, diz Daiara. “Eu fiquei muito tocada que ela resolveu virar advogada para construir justiça em um momento em que a maior parte da nossa população não tinha condições para isso. Hoje nós temos nossos advogados, nossos professores, nossos doutores, mas precisamos que todos conheçam essa parte da história, que é uma história coletiva, a história de um país.”
Maíra Pankararu faz coro: “A memória dessas violências não é uma memória só dos povos que as sofreram. É uma memória da sociedade brasileira, que precisa entender o que foi a ditadura para os povos indígenas, para daí entender o que de fato foi a ditadura como um todo”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Publica, escrito por Isabel Seta
Amanhecer no Lago do Cuniã em Porto Velho. Foto: Emily Costa/g1 RO
O Governo Federal sancionou uma lei que altera os limites de duas reservas extrativistas em Rondônia. A área da Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto terá o tamanho reduzido para ampliar as terras da Resex do Lago do Cuniã.
De acordo com a Lei nº 15.039, a proposta busca a proteção do ecossistema local, conservar os recursos naturais renováveis e garantir a subsistência das famílias extrativistas. O projeto aponta que a área que será ampliada é rica em biodiversidade e alto grau de conservação.
Com as mudanças, a reserva Ouro Preto, que atualmente tem 204.583 hectares, passará a ter 184.169,55. Já a Resex do Cuniã, quem tem 55.850 hectares, terá 74.659. A área do Cuniã abriga mais de 37 mil jacarés em seu lago, além de ter o turismo como uma das bases sustentáveis da comunidade.
O Rio Negro mantém o ritmo de recuperação em Manaus (AM), com subidas de 12 centímetros (cm) por dia. No dia 10 de deembro, a cota chegou a 15,22 metros, de acordo com o 51º Boletim de Monitoramento Hidrológico do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
A marca ainda está abaixo da faixa de normalidade para o período, mas já sinaliza uma resposta do rio às chuvas, explica a pesquisadora Jussara Cury, superintendente Regional de Manaus: “A regularidade das chuvas na região de cabeceira, nos últimos dias, está contribuindo para o processo de enchente dos rios da bacia, que registram subidas diárias maiores”.
Caso as elevações continuem, a previsão é que o rio chegue aos 16 m até a próxima semana e saia do intervalo das cotas mínimas para o período. Essa marca foi definida como crítica, considerando a cota mínima de segurança definida pelas autoridades locais para a Praia de Ponta Negra. As projeção do SGB mostram o tempo necessário para recuperação dos níveis, com base no comportamento do rio nos anos mais críticos da história.
Cenário similar é observado no Rio Solimões. Na estação de Tabatinga (AM), foram registradas elevações de 15 cm por dia. Em Itapéua (AM), a cota sobe, em média, 18 cm diariamente e, em Manacapuru (AM), a elevação é de 15 cm.
O Rio Madeira já registra subidas de 23 cm por dia em Porto Velho (RO) e de 10 cm em Humaitá (AM). Nessa bacia, os níveis voltaram para a faixa da normalidade para a época.
Os dados atualizados sobre os rios da Bacia do Rio Amazonas podem ser conferidos aqui.
O Restaurante Piti Kuin foi inaugurado no Centro Indígena Huwã Karu Yuxibu. Foto: Maria Fernanda Arival/Sete
Para além da movimentação intensa da capital acreana, no quilômetro 36 da AC-90, conhecida como Transacreana, o Centro Indígena Huwã Karu Yuxibu preparou uma grande celebração para a inauguração do primeiro restaurante de culinária Huni Kuin do Acre.
O restaurante Piti Kuin traz a gastronomia do povo e foi construído em parceria com o Instituto Alok e a empresa Gaslive. O local tem como objetivo atender a gastronomia social e o etnoturismo, promovendo e fortalecendo a identidade cultural e segurança alimentar do povo Huni Kuin em Rio Branco.
O Restaurante Piti Kuin foi inaugurado no Centro Indígena Huwã Karu Yuxibu. Foto: Maria Fernanda Arival/Sete O líder espiritual Mapu Huni Kuin, que também comemorou seu aniversário durante a inauguração, agradeceu a todos os envolvidos no projeto, como o Instituto Alok, empresa Galive, e instituições como o governo do Acre, por meio da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete), representada pela diretora de Turismo, Sirlânia Venturin, e a Prefeitura de Rio Branco, além de outros órgãos presentes.
“Quero expressar minha profunda gratidão a todas as pessoas que se empenharam, acreditaram no nosso trabalho, articularam e se movimentaram para que tudo isso se tornasse realidade. Agradeço as autoridades estaduais e municipais, às equipes que se dedicaram e a cada pessoa que se comprometeu com esse projeto. Também sou muito grato ao Alok, que sempre inspira com suas ações positivas e mesmo não estando aqui fisicamente, ele está presente espiritualmente”, disse o líder Mapu Huni Kuin.
A diretora de Turismo da Sete, Sirlânia Venturin, ressaltou que o povo indígena traz muita cultura e história para toda população do Acre e o apoio do governo do Acre, por meio da Sete e outras instituições, em iniciativas que apresentem ainda mais a cultura indígena para o público.
“Nós estamos aqui para comemorar junto com o aniversário do líder espiritual, a abertura desse restaurante para todas as comunidades. O governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo, tem apoiado essa iniciativa com o intuito de fomentar o turismo e o empreendedorismo da cultura indígena e, acima de tudo, resgatar toda essa importância que nós temos dessa história ancestral da comunidade indígena”, explicou.
O Piti Kuin fica dentro do Complexo Campo da Fartura, que tem toda a área de cultivo e de roçado que abrange as plantas nativas, dentre elas 80% são de reflorestamento. Os alimentos do restaurante serão cultivados dentro do Campo da Fatura e atenderão as crianças, idosos e gestantes atendidos pelo projeto social, com a alimentação tradicional Huni Kuin, além de ser aberto ao público para fomento do etnoturismo.
O diretor do Instituto Alok, Devam Bhaskar, que representou também o DJ Alok, lembrou que a inauguração do restaurante é um sonho de quase três anos. “Estamos muito honrados e emocionados com essa inauguração do restaurante Peti Kuin, pois é um sonho que sonhamos junto com o Mapu. Quando ele começou a gravar com o Alok, a gente começou a conversar sobre que projetos faríamos aqui no Centro Huwã Karu Yuxibu, e de lá para cá, a gente tem vindo com esse projeto. Temos projetos de agrofloresta para começar aqui em janeiro do ano que vem”, disse.
“No restaurante a gente põe muita expectativa que esse projeto ajude a realizar o sonho do Mapu de preservar a cultura culinária Huni Kuin, além de atender os parentes que moram aqui próximos, que vêm pra cá para a cidade. É um momento muito emocionante para a gente”, finalizou Bhaskar.
Mapu Huni Kuin também explicou que o Piti Kuin tem como objetivo colocar alimento de qualidade e resgatar as tradições do povo Huni Kuin que está na cidade, principalmente em Rio Branco, centro urbano mais próximo do restaurante.
“Estamos trabalhando bastante para que possamos voltar a colocar o alimento de qualidade na nossa mesa, que vai garantir a nossa saúde, por isso tudo que a gente for comer aqui é o que está em nossa volta, fruto do Campo da Fartura, e o restaurante é um espaço que celebra essa cultura e gastronomia tradicional do nosso povo”, frisou.
Sirlânia Venturin ao lado do líder espiritual Mapu Huni Kuin e o diretor do Instituto Alok, Devam Bhaskar. Foto: Bruno Morais/Sete
Povos Huni Kuin
Segundo os dados sócio-ambientais da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a etnia Huni Kuin está presente em todo o Brasil, com mais de 14 mil pessoas. As estatísticas da Comissão Pró-Indígena de 2019, apontam que 7.202 indígenas moram na cidade de Rio Branco e muitos deles estão à margem da sociedade em situação de vulnerabilidade social.
O projeto da Associação do Centro Indígena Huwã Karu Yuxibu atende 210 indígenas, dentre os 7.202 que vivem em situação de vulnerabilidade, que estão fora das suas terras indígenas e moram na cidade.
Durante o evento de inauguração, a nutricionista responsável pelo restaurante, a professora do curso de Nutrição na Universidade Federal do Acre (Ufac), Eline Oliveira, conhecida como Mukani, fez uma breve apresenção antropológica e nutricional do menu de inauguração. Além disso, Mapu Huni Kuin também fez a apresentação do Complexo Campo da Fartura, onde funciona o restaurante e está toda a plantação dos alimentos usados no restaurante.
No menu da inauguração os pratos disponíveis eram mandioca com amendoim, mandioca com folha, piau muquinhado, tambaqui assado, tambaqui cozido, farofa de banana verde, açaí, mingau de banana com amendoim e suco de fruta da época.
“Os amendoins vem trazendo toda a parte da proteína dos alimentos e as gorduras saudáveis. A folha da mandioca que vem na própria mandioca é rica em cálcio, potássio e flavonoides, que vão prevenir o câncer, fortalecer também a dentição e dá energia também. Nós temos peixe, que além de dar saciedade, tem essa questão da vitalidade dos indígenas de trabalhar e tem gorduras boas, que nosso organismo precisa. Outros pratos, o açaí, que todo mundo consome, riquíssimo também em antioxidantes. Hoje o prato que a gente vai trazer hoje é riquíssimo em flavonoides, antioxidantes, cálcio, potássio, gorduras saudáveis, gorduras boas para o nosso organismo e bastante carboidrato”, explicou Mukani.
Neste 15 de dezembro, Chico Mendes completaria 80 anos, se em 22 de dezembro de 1988, uma semana depois de fazer 44 anos de idade, não tivesse sido assassinado a tiros de escopeta nos fundos da própria casa, em Xapuri, no Acre (AC), município cravado na Amazônia, região onde o sindicalista e ativista transformou a vida de muitas pessoas, que, como ele, nasceram e viveram na e da floresta.
“Se a gente for olhar pela trajetória de vida do meu pai, com seus 44 anos, jovem e atravessado por tantos desafios, tendo tantas ideias e liderando processos tão complexos e ousados para a época. Se estivesse vivo, eu veria hoje uma Amazônia um pouco melhor de se viver, uma Amazônia mais preservada”, diz Ângela Mendes, a filha de Chico Mendes com a primeira esposa, Eunice Feitosa Mendes.
Nascido no mesmo local de sua morte, Francisco Alves Mendes Filho traçou uma trajetória de vida curta e intensa. Com início duro e de poucas oportunidades no Seringal Porto Rico, onde trabalhou desde os 11 anos de idade, em vez de frequentar a escola.
Só viu oportunidade de transformar a própria realidade nos seringais de condições análogas à escravidão. Até castigos físicos sofreu. Aos 16 anos, foi alfabetizado por Euclides Távora, um militante comunista cearense, refugiado político do governo Getúlio Vargas. Com o conhecimento que o letramento lhe possibilitou, Chico Mendes foi muito além, como recorda o amigo e também militante, Gumercindo Rodrigues, o Guma.
“O próprio Chico dizia, eu pensei primeiro que eu estava defendendo a seringueira, depois eu pensei que eu estava defendendo os seringueiros, que estava defendendo a floresta, de repente eu descobri que eu estava defendendo o planeta, estava lutando pelo planeta”, diz.
Uma luta marcada por inúmeros ‘empates’, uma das primeiras ferramentas usadas por Chico Mendes em suas batalhas diante das constantes ameaças de expulsão. A estratégia, criada pelo também seringueiro, Wilson Pinheiro, garantia a proteção da floresta e das seringueiras, de forma pacífica, por meio da reunião da maior quantidade possível de trabalhadores e suas famílias para ‘empatar’ em número e argumento com os desmatadores e, dessa forma, ‘empatar’, no sentido de impedir, o cumprimento da ordem dada pelos latifundiários.
“Essa prática se tornou bastante forte na região de Brasileia (AC) e foi conduzida com bastante maestria pelo Wilson Pinheiro, a primeira grande liderança de trabalhadores rurais, assassinado dia 21 de julho de 1980. Exatamente por causa de sua grande capacidade de mobilização e de resistência, ele fez parte dessa criação do empate lá atrás”, conta Guma.
Resex
Novas ferramentas de mobilização foram sendo construídas por Chico Mendes, como a Aliança dos Povos da Floresta, um movimento social que reuniu extrativistas, indígenas, ribeirinhos e outros povos tradicionais; na década de 1980. A criação do Conselho Nacional dos Seringueiros e do conceito das reservas extrativistas (Resex) foram outras formas de fortalecer a luta do ambientalista na coletividade e no vínculo com os territórios.
Para Ângela, com a ideia de regularização das áreas onde os seringueiros moravam, em um processo onde o cuidado com o ambiente era associado ao modo de vida dos povos tradicionais, Chico Mendes “abre as portas para uma modalidade que permite a presença das pessoas na floresta. E hoje já está mais do que provado que as pessoas, as populações tradicionais, têm uma relação harmoniosa com o seu território, de guardião desse território, de guardião de uma ancestralidade também. Então é uma outra relação”, destaca.
Inspiração
A chegada das escolas nos seringais, por meio do Projeto Seringueiro, com metodologia para adultos baseada nas ideias de Paulo Freire, também teve, na sua origem, a experiência de alfabetização tardia vivida por Chico Mendes. A iniciativa implantada por universitários liderados pela antropóloga e amiga do ambientalista, Mary Allegretti, ganhou fôlego e resistência com o apoio do Centro de Trabalhadores da Amazônia, organização social estruturada no cooperativismo e que teve, também, participação do líder seringueiro.
Solidariedade
Segundo Ângela, aqueles que conviveram com Chico Mendes o consideram vivo através das ideias que ele deixou e que continuam inspirando iniciativas de proteção às florestas e de quem vive nela. E foram muitas pessoas, diz a filha do ambientalista. “Ele era uma pessoa intensamente carismática e que inspirava a confiança dos seus companheiros, o quanto ele era fraterno”.
A filha recorda que, em uma visita que fez ao pai, encontrou todas as roupas da casa e do seringueiro no chão, até o único terno que tinha, que usou aos ser condecorado, em Nova York, com a Medalha da Sociedade para um Mundo Melhor.
“Eu estranhei aquilo e perguntei, e ele falou que teve uma assembleia no sindicato, nem todo mundo conseguiu ficar lá alojado, e alguns companheiros foram dormir na casa dele. Ele botou tudo que ele tinha no chão para que as pessoas não passassem frio”, disse Ângela.
Futuro
Para o amigo Guma, a Amazônia e todo o planeta pagam um preço alto pela partida precoce de Chico Mendes. “Nós tínhamos um porta-voz que era extremamente eficiente, tranquilo, conversava com todo mundo, mas era extremamente firme nas suas posições. Eu acho que ele teria conseguido aglutinar muito mais gente nessa resistência”, afirma.
Guma, o agrônomo que virou advogado para apoiar os povos da floresta, entende que é necessário avançar na forma como se pensa o desenvolvimento na Amazônia e, para isso, a melhor resposta está no modo de vida tradicional, que sempre precisou da floresta em pé. Ele diz que o Brasil precisa atingir o desmatamento zero em todos os biomas e, para isso, é necessário punir de forma mais efetiva quem desmata e causa queimadas.
“Eu acho que não é cadeia que resolve. Eu acho que, a responsabilização civil, a obrigação de reparar o dano, é a melhor punição. Desmatou mil hectares, tem que plantar dois mil hectares de florestas nativas, de espécies nativas, não de monocultura de eucalipto, que é de deserto verde”, ressalta.
Ângela complementa que também é preciso cuidar do futuro, para que tudo que Chico Mendes construiu, permaneça vivo.
“O que ele deixa de legado foi tão forte, mas, ao mesmo tempo, precisa de ser cuidado. Então, por exemplo, a gente tem olhado com muita profundidade para a juventude desses territórios, porque entende que o jovem é o presente, mas também o futuro. Que a gente precisar manter esses territórios ainda protegidos, a gente tem que proteger e garantir o acesso a direitos, as políticas públicas fortes para manter esses jovens no seu território com uma sensação de bem-estar muito forte”, destaca a filha de Chico Mendes.
A revista norte-americana Science publicou no dia 12 de dezembro um artigo assinado por cientistas indígenas da Região do Alto Rio Negro, no Amazonas. O texto, intitulado ‘Indigenizando a ciência da conservação para uma Amazônia sustentável’ é assassinado por cientistas dos povos Tukuya, Tukano, Bará, Baniwa e Sateré-Mawé, além de pesquisadores não indígenas.
O trabalho, assinado por Carolina Levis, Justino Rezende, João Paulo Barreto, Silvio Barreto, Francy Baniwa, Clarinda Sateré-Mawé, Fábio Zuker, Ane Alencar, Miqueias Mugge, Rodrigo Moraes, Agustín Fontes, Marina Hirota, Carolos Fausto e João Biehl, fala sobre o conhecimento dos indígenas da Região do Alto Rio Negro e como isso pode impactar na ciência e também na conservação da biodiversidade da Amazônia.
“As comunidades científicas devem fazer tentativas sérias para estabelecer procedimentos para colaboração transdisciplinar e intercultural, envolvendo povos indígenas e suas teorias e práticas para efetivamente aumentar e melhorar a pesquisa, a política e a ação de conservação”, diz um trecho do artigo.
A pesquisa também fala sobre a importância da Amazônia como um campo de promoção do diálogo entre as ciências ocidentais e indígenas.
“A Amazônia armazena entre 150 e 200 bilhões de toneladas de carbono em seu solo e vegetação e abriga mais de 410 grupos étnicos indígenas distintos que detêm direitos territoriais sobre 27% da região”, completa o estudo.
“Esses povos diversos desenvolveram um profundo conhecimento ecológico da dinâmica florestal e contribuíram para ecologias florestais sustentáveis por mais de 12.000 anos. A rede existente de territórios indígenas reflete a resiliência dos povos indígenas sobreviventes após séculos de genocídio e epistemicídio”, explica.
Por fim, os pesquisadores também abordam as práticas realizadas pelos indígenas do Alto Rio Negro “para estabilizar o mundo e garantir que ele permaneça o mais equilibrado possível”.
“Nas perspectivas indígenas que apresentamos, os humanos são encarregados de cuidar da terra e criar um ambiente saudável para a coexistência, oferecendo nutrição que pode ajudar todos os participantes do ecossistema”, finaliza.
Mais de 8 mil focos de calor foram atendidos pelas forças integradas da Segurança durante a operação ‘Protetor de Biomas Fogo Controlado‘ em todo o Acre. Os dados foram divulgados durante entrevista coletiva no dia 13 de dezembro em Rio Branco.
De acordo com os números, foram investidos R$ 12 milhões com viaturas, equipamentos, combustíveis e pessoal, sendo 50% da verba disponibilizada pelo Ministério da Justiça e 50% pelo Governo do Acre.
A operação foi encabeçada pelo Corpo de Bombeiros e cerca de 486 militares atuaram nas duas fases, que ocorreram em maio, com a preparação e formação de brigadas, e junho, no período mais crítico. Veja os números abaixo:
-Focos de calor atendidos: 8.500
-Militares que atuaram: 486
-Atendimentos de ocorrências: 7.600
-Animais resgatados: 477
-Animais feridos ou mortos que conseguiram detectar: 53
O coordenador da operação, capitão Francisco Carlos Freitas Filho, o ano de 2024 foi desafiador, principalmente por conta das mudanças climáticas. O comandante operacional do interior citou uma recente pesquisa divulgada pelo centro europeu Copernicus, que definiu 2024 como o ano mais quente já visto na Terra.
“Isso demonstra o tamanho do desafio que nós tivemos e certamente saimos vencedores dessa etapa. Na primeira etapa de conversa com a população, formação de brigadas e fizemos contato no sentido de conscientização e no dia 26 de junho, lançamos a fase de resposta, que é aquela fase um pouco mais incisiva, no combate aos focos de incêndio”, explicou.
Queimadas
De acordo com os dados do Corpo de Bombeiros, o número de focos de calor em relação ao ano passado aumentou em 32%, e o número de atendimentos foi 65% maior.
Foto: Asscom/CBMAC
Além disto, a estiagem das chuvas em 2024 começou no mês de maio, o que ocorre geralmente em agosto. Ou seja, nesse ano iniciou antes do previsto.
“A falta de chuvas, altas temperaturas e outros fatores decorrentes, além disso, tudo isso associado à cultura de queima, algumas pessoas ainda não conseguiram acompanhar e entender a criticidade desses eventos, ainda tendem a insistir nessa prática”, lamenta Freitas Filho.
Bombeiros dão banho em anta durante contenção de incêndio em zona rural do Acre; o secretário de Segurança Pública coronel José Américo de Souza Gaia, disse que essa foi uma operação integrada, onde todas as forças de segurança atuaram juntas.
“Tivemos uma fase de operação mais preventiva com a atuação do Batalhão Ambiental da Polícia Militar, e no segundo momento com a atuação mais efetiva dos Bombeiros de combate aos incêndios florestais. É uma operação conjunta com o Ministério da Justiça”, relatou.
Historicamente, o mês de novembro costuma dar sequência à redução das queimadas no estado registrada a partir de outubro. Em 2023, o número saiu de 1.675 em outubro para os 160 focos registrados. Em dezembro, o número voltou a cair e ficou em 30, até o último dia 12.
*Por Jardel Angelim e Hellen Monteiro, da Rede Amazônica AC
Com foco em promover o Currículo Azul na Região Norte, a Universidade Federal do Pará (UFPA) recebeu o Fórum da Cultura Oceânica, um espaço estratégico de diálogo sobre a integração da Cultura Oceânica nas políticas públicas educacionais. Este conceito, que conecta o oceano à cidadania, formações profissionais e sustentabilidade, é essencial para preparar nossa sociedade frente aos desafios climáticos e ambientais do presente e do futuro.
A programação representa o início de um processo nacional de discussão de como fortalecer e ampliar a inclusão da cultura oceânica nos currículos escolares do Brasil, nos níveis municipal, estadual e federal.
De acordo com o professor Ronaldo Christofoletti, presidente do Grupo Mundial de Especialistas em Cultura Oceânica da Unesco, a ideia é propor subsídios para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) com base nas contribuições geradas nos encontros, que acontecerão em todas as regiões do país.
“O fórum inicia na Região Norte porque aqui está a maior quantidade de Escolas Azuis do país, além disso, a capital paraense vai sediar, em 2025, o maior evento sobre emergências climáticas do planeta, a COP-30”, explica Christofoletti.
O fórum é destinado à elaboração de políticas públicas educacionais, mediante o envolvimento de professores, gestores da área da educação e estudantes, reunindo contribuições e opiniões sobre a forma como esse tema da realidade oceânica deve ser incluído nos currículos escolares.
Segundo Christofoletti, a implementação do Currículo Azul é uma meta estabelecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para todos os países membros iniciarem suas propostas até 2025. Até o momento, em torno de 20 municípios brasileiros e três estados já aderiram a essas políticas públicas (Paraíba, Ceará e Alagoas), sendo Barcarena, no Pará, o primeiro município no mundo a ter 100% de suas escolas públicas municipais na rede Escola Azul.
O fórum é promovido pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, coordenada pelo Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O evento tem o apoio nacional da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM), da Rede Clima, do Impo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceanográficas), da Fundação Grupo Boticário, do Pulitzer Center e do CNPq, e, em Belém, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Especialização em Cultura Oceânica e Sustentabilidade
A Capes ofertará, via Universidade Aberta do Brasil (UAB), um curso de Especialização em Cultura Oceânica e Sustentabilidade. Serão abertas 1.050 vagas para professores graduados das redes públicas de educação básica atuantes em salas de aula nos ensinos fundamental e médio. A carga horária total será de 360 horas, distribuídas ao longo de três semestres, com início na segunda metade de 2025.
As ofertas dos cursos serão distribuídas em sete Instituições de Ensino Superior de quatro regiões do Brasil, com oferta de 150 vagas em cada um dos cinco polos. Entre as instituições participantes, constam as Universidades Federais do Pará (UFPA), de Alagoas (Ufal), de Pernambuco (UFPE), do Rio Grande (Furg), de Santa Catarina (UFSC) e de São Paulo (Unifesp), além da Estadual do Ceará (UECE). São parceiros, ainda, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
O curso está incluído em uma das quatro dimensões de ações previstas para o enfrentamento às mudanças climáticas pelo aperfeiçoamento do conhecimento das relações das pessoas com o oceano: a Educação. Atuar na educação de base é assegurar que, desde crianças, as pessoas estejam cientes de sua relação com o oceano. As outras se darão em múltiplos sistemas de conhecimento, comunicação e conexões culturais.
“É preciso olhar o oceano que temos, entender a ciência que precisamos para termos o oceano que queremos”, afirmou o presidente do Grupo de Especialistas em Cultura Oceânica da Unesco, Ronaldo Christofoletti. “A Capes, ao propor um curso de formação de professores na cultura oceânica, entende seu papel nessa estrutura”, continuou Christofoletti, que também é coordenador do Programa Maré de Ciência, da Unifesp.
Na edição piloto, o objetivo principal será formar professoras(es) e aprofundar os conceitos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e à ciência oceânica na formação continuada deles. A consequência esperada é o aperfeiçoamento do trabalho em sala de aula e na comunidade escolar, com incorporação dos conteúdos às práticas pedagógicas.