Home Blog Page 274

Exposição Juvia abre Festival dos Povos da Floresta em Porto Velho com artistas selecionados da Amazônia

0

Exposição Juvia em Porto Velho. Foto: Divulgação

A Exposição Juvia apresenta um recorte artístico múltiplo e sensível sobre os povos da floresta, reunindo fotografias, pinturas, esculturas, documentários e clipes musicais. Ela abre Festival dos Povos da Floresta em Porto Velho (RO). A mostra também inclui obras dos artistas convidados como Paula Sampaio (PA) e Gustavo Caboco (RR), além de uma seleção do Acervo Rioterra, que celebrou 25 anos de atuação na região.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Com patrocínio da Petrobras, realização do Ministério da Cultura e idealização do Instituto Rioterra, o festival tem como proposta celebrar a diversidade cultural amazônica, unindo tradição e inovação por meio das artes visuais, audiovisuais e performáticas.

Responsável pela curadoria da Exposição Juvia, que abre a programação do festival, Rosely Nakagawa ressalta que o projeto busca aproximar o Brasil da diversidade cultural amazônica.

“A proposta une inovação e saberes ancestrais, destacando a pluralidade da Amazônia por meio da arte e das vivências de seus povos”, afirma.

Leia também: ‘Festival Povos da Floresta’ quer conectar cultura amazônica com o Brasil e o mundo

Exposição Juvia em Porto Velho. Foto: Divulgação

A exposição representa a frente de artes visuais e audiovisuais do festival, sendo apenas uma das vertentes do projeto. A outra frente contempla as artes performáticas, com apresentações de dança, música, shows e performances indígenas.

Veja os artistas selecionados pelo edital:

  • Avener Prado – Fotografia | Amazônia pós-moderna
  • Bruno Sousa – Escultura | Pescador de pirarucu
  • Bototo – Pintura
  • Evandro Câmara – Pintura | Uma luz na escuridão
  • Rafael Prado – Pintura | Povos amazônicos não morrem, viram semente
  • Saulo Sousa – Fotografia | Amazonicidade (CABOCLAGEM)
  • Erica Queiroz – Arte Indígena
  • Marcila Diahui – Arte Indígena
  • Anderson Mendes – Documentário | DasilvaDaselva
  • Lígia Neiva – Documentário | Dos jovens de ontem para os jovens de hoje
  • Quilomboclada – Clipe musical | Boicore
  • Regiliano Makurap – Documentário | Nosso conhecimento Makurap
  • Tambores do Pacoval e mestre Dikinho – Clipe musical | Guardião
  • Artistas convidados:
  • Paula Sampaio – Fotografia
  • Will Arehj – Fotografia
  • Graciano Oro Waram – Fotografia
  • Gustavo Caboco – Ilustração

O Festival dos Povos da Floresta é um evento multilinguagens e itinerante que celebra a riqueza cultural da Amazônia, unindo tradição e contemporaneidade por meio das artes visuais e do audiovisual. Sua programação inclui exposições de arte, mostras audiovisuais, apresentações musicais, oficinas, rodas de conversa e performances, valorizando as expressões culturais de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades urbanas da região, além de promover sua integração com a cena cultural nacional.

A primeira edição acontece em Porto Velho (RO), de 29 de maio a 8 de junho de 2025, e seguirá por outras quatro capitais: Boa Vista (RR), Macapá (AP), Belém (PA) e Brasília (DF), promovendo um circuito de trocas culturais entre as comunidades amazônicas e o restante do país.

Família de Rondônia constrói ‘ilha’ particular no quintal de casa

0

Família construiu ‘ilha particular’ no quintal. Foto: Camila Honório/Acervo pessoal

Você já imaginou ter uma ilha no quintal de casa? Foi exatamente isso que a família de Camila Honório decidiu fazer em São Miguel do Guaporé (RO). A ideia inusitada viralizou nas redes sociais depois que a jovem compartilhou vídeos mostrando sua rotina no “paraíso particular”.

Com águas azuladas e coqueiros ao redor, a paisagem chamou a atenção de internautas de todo o Brasil. Ao Grupo Rede Amazônica, Camila contou que a intenção inicial era construir uma represa para a diversão da família, mas o projeto tomou outro rumo por um motivo especial: preservar a natureza.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

“Nosso terreno era uma área já alagada, portanto os coqueiros que estão no meio da ilha já existiam. Meus pais não quiseram derrubar essas árvores e acabar causando uma degradação maior. No caso, a solução foi escavar ao redor das árvores, e surgiu assim a ilha”, explicou.

O vídeo chamou a atenção de milhares de pessoas nas redes sociais, rendendo elogios e despertando curiosidade sobre o “quintal dos sonhos”. Mas, apesar da repercussão, a família prefere, por enquanto, manter o espaço reservado apenas para encontros familiares.

@honoriocami

♬ Baianá (Sped Up Version) – Bakermat

“Geralmente aos finais de semana é costume a família se reunir pra fazer o famoso almoço de domingo e aproveitar pra se refrescar nesses dias quentes. Também alguns vizinhos e amigos da família aparecem pra aproveitar um momento de lazer”, contou Camila.

Leia também: ‘Casa Avião’ em Porto Velho atrai turistas que buscam conhecer de perto réplicas de aeronaves

Do sonho à obra

A construção da pequena ilha no quintal começou de forma simples, com a escavação de uma represa ao redor dos coqueiros já existentes no terreno. Para isso, foi necessário contratar uma empresa de máquinas, que fez o serviço em dois dias. A partir daí, todo o trabalho de modelagem e paisagismo foi sendo feito aos poucos pelos pais de Camila e até hoje ainda está em andamento.

“Pra escavação da represa que rodeia a ilha, foi necessário dois dias de trabalho com a PC, que foi feito com uma empresa de máquinas. A partir da escavação, toda a parte de modelagem e paisagismo está até hoje ainda sendo feito pelos meus pais e outros familiares”, explicou.

A jovem contou que a criação da ilha não foi planejada desde o início, mas nasceu do desejo da família de preservar a natureza do local.

Leia também: Idoso constrói casa com formato de barco em homenagem a ribeirinhos no Acre

“Como não foi um projeto premeditado, e sim uma série de acontecimentos e cedência à natureza, não gastamos um valor específico, mas em média, em mais de um ano de trabalho, foi gasto entre 100 mil a 150 mil”, detalhou.

A ilha improvisada já é conhecida na região e desperta o interesse de muitos moradores. Segundo Camila, a família está agora colocando no papel um projeto para transformar o local em uma pousada.

*Por Amanda Oliveira, da Rede Amazônica RO

Festival Folclórico de Parintins recebe a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, mais alta honraria da cultura brasileira

Bois-bumbás Caprichoso e Garantido disputam o Festival Folclórico de Parintins. Foto: Michael Dantas/Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa

O Festival Folclórico de Parintins foi reconhecido, no dia 21 de maio, com a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, a mais alta honraria da cultura brasileira concedida pelo governo Federal. A cerimônia aconteceu no Palácio Capanema, no Centro do Rio de Janeiro, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Os bois Caprichoso e Garantido foram representados pelos presidentes das agremiações, Rossy Amoêdo e Fred Góes, que receberam a condecoração em nome do festival.

Leia também: 58º Festival Folclórico de Parintins é lançado no Amazonas

A Ordem do Mérito Cultural homenageia personalidades, instituições e manifestações que contribuem para a identidade cultural do país. O reconhecimento reforça a importância do Festival de Parintins, que já é patrimônio cultural do Brasil.

O evento, realizado anualmente no último fim de semana de junho, é uma das maiores manifestações da cultura popular brasileira. A disputa entre os bois Caprichoso e Garantido movimenta a Arena do Bumbódromo, palco das apresentações que celebram a história, o folclore e a arte da região.

Além do Festival de Parintins, outras 124 personalidades e manifestações culturais foram homenageadas, entre elas o Festival Amazonas de Ópera.

Leia também: 7 fatos que somente o Festival Amazonas de Ópera poderia proporcionar para a cultura no estado

Festival Folclórico de Parintins

Localizado a 369 quilômetros de Manaus, o município de Parintins é palco das apresentações dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, que protagonizam o maior festival folclórico do mundo.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Nos três dias de festa, realizada no final do mês de junho, os bois-bumbás entram na arena, chamada de Bumbódromo, para disputar o título de campeão do festival. A cada noite, eles têm até 2h30 para se apresentar.

Na cidade tudo é azul e vermelho – as cores dos bois. O azul do boi Caprichoso e o vermelho do boi Garantido também dividem a cidade na localização geográfica, onde a catedral de Nossa Senhora do Carmo é o ponto de partida.

Leia também: Conheça 6 animais amazônicos nas cores dos bois do Festival Folclórico de Parintins

Reserva Extrativista Lago do Cuniã: resistência e desafios na Amazônia rondoniense

Lago do Cuniã. Foto: Reprodução/Prefeitura de Porto Velho

Localizada à margem esquerda do Rio Madeira, a aproximadamente 110 km de Porto Velho (RO), entre igarapés e uma floresta que muda de paisagem conforme as cheias e secas do bioma amazônico, está a Reserva Extrativista Lago do Cuniã, local que une a resistência comunitária à preservação ambiental.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Criada oficialmente em 1999, a reserva ocupa uma área de 55.850 hectares e abriga cerca de 90 famílias, organizadas em cinco núcleos: Araçá, Neves, Pupunhas, Silva Lopes Araújo e Bela Palmeira, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).

No entanto, a história da reserva começou bem antes disso, em 1980, quando os próprios moradores lutaram e impediram a transformação da área em uma estação ecológica que inviabilizaria a ocupação no território.

A população local é formada por descendentes de migrantes nordestinos que chegaram à Rondônia durante o ciclo da borracha e por indígenas da etnia mura, que ali estabeleceram seus modos de vida e resistem ao tempo com saberes tradicionais e uma relação ancestral com a natureza.

Leia também: Conheça famílias que escolheram viver dentro de reserva ambiental em Rondônia

O cotidiano das famílias é sustentado por atividades extrativistas e pela agricultura de subsistência. A pesca, a coleta da castanha-do-pará, o cultivo de banana e mandioca e a produção artesanal de farinha são os principais pilares da economia local. A caça, embora presente, na maioria das vezes é limitada ao consumo próprio.

Desafios

A reserva enfrenta sérias limitações no acesso a serviços públicos, como a falta de energia elétrica regular em que a iluminação e uso de eletrodomésticos dependem de geradores particulares, que operam por poucas horas ao dia e consomem combustível caro e de difícil transporte. O acesso à educação também é comprometido: as escolas locais sofrem com a falta de professores e com instalações precárias.

Outro desafio constante é o transporte de mercadorias, que é lento, custoso e regulado pelo próprio órgão gestor da unidade de conservação. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o transporte e a comercialização de produtos da reserva precisam seguir normas específicas para garantir a sustentabilidade da atividade e a preservação da biodiversidade local.

Superlotação de Jacarés

Nos últimos anos, os moradores da Reserva do Lago do Cuniã passaram a conviver com um novo desafio: o crescimento descontrolado da população de jacarés. A proibição da caça por mais de 40 anos contribuiu para o aumento expressivo desses animais, o que tem gerado episódios de ataques e restringido o uso dos rios e lagos pela comunidade, tanto para a pesca quanto para o lazer.

De acordo com o ICMBio, a criação de um frigorífico especializado no manejo sustentável do jacaré foi uma alternativa implementada para equilibrar a população da espécie e, ao mesmo tempo, gerar renda para os extrativistas, respeitando os princípios da conservação ambiental.

Leia também: Centenas de jacarés atraem curiosos e ajudam projeto de turismo comunitário em reserva de Rondônia

Manejo de jacarés na reserva Foto: Reprodução/ Acervo ICMBio 

Atrativos na reserva

Embora pouco visitada, a Reserva Extrativista Lago do Cuniã é rica em biodiversidade e atrativos naturais. A região abriga vários igarapés e uma avifauna diversa, com destaque para pássaros aquáticos, o que a torna um potencial destino para o ecoturismo e a observação de aves.

No entanto, a visitação à reserva só é permitida mediante autorização prévia, justamente para proteger os ecossistemas frágeis e o modo de vida das comunidades tradicionais.

Lago do Cuniã e revoada de pássaros aquáticos. Foto: Reprodução/ Prefeitura de Porto Velho

A criação da reserva foi um marco na proteção de territórios ocupados por comunidades tradicionais e se tornou símbolo da convivência harmoniosa entre o ser humano e a floresta. A boa conservação do território é resultado direto do modo de vida sustentável dos moradores, que veem a natureza não como recurso a ser explorado, mas como um lar a ser cuidado.

Leia também: Resex Lago do Cuniã inicia estudo sobre capacidade e fluxo de turistas

*Com informações do ISA e do ICMBio

Jair Candor, o sertanista que busca pela proteção de povos isolados na Amazônia há 36 anos

0

Foto: Reprodução/Instagram-candorjair

“Essa paixão começou quando eu comecei a perceber que, da própria selva, você consegue sobreviver sem precisar destruir”, diz Jair Candor, sertanista da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) há 36 anos, sobre a sua atuação para proteger os povos indígenas da Amazônia.

Aos 64, ele percorre as florestas do noroeste de Mato Grosso para impedir invasores e identificar as comunidades isoladas na região.

Hoje coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Madeirinha-Juruena, Candor e sua família se mudaram para a Amazônia quando ele tinha 6 anos, durante a década de 1960. À época, o regime militar disponibilizava lotes de terra para ocupar a região.

No entanto, com a morte de sua mãe, a família se separou. Candor conta que, por ser “mais grandinho”, não foi adotado, mas passou a viver com seringueiros, já que precisava de um lugar para trabalhar.

“Há várias maneiras de coletar a castanha, borracha, copaíba e outras coisas, para você sobreviver sem precisar desmatar e nem destruir nada, nem seu e nem de ninguém. A floresta amazônica é muito rica”, afirma o sertanista, que, na década de 1980, ingressou na Funai.

Ele explica que a função de sertanista lhe foi dada quando começou a trabalhar na instituição, e que, só no início dos anos 2000, a nomenclatura “indigenista” passou a ser utilizada: “Eu entrei lá atrás, então eu ainda tenho essa função de sertanista”.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a diferença entre os termos índio, indígena e indigenista?

Originalmente, no século XVII, os sertanistas eram homens que adentravam o interior do Brasil com o objetivo de capturar indígenas e explorar metais preciosos. A partir do século XX, a palavra começou a ser usada para definir indivíduos que conhecem bem o território mais afastado das áreas urbanas. Ao falar sobre a atividade, Candor cita grandes nomes, como os irmãos Villas-Bôas, idealizadores da primeira reserva indígena homologada do Brasil, o Parque Nacional do Xingu; e Sydney Possuelo, ex-presidente da Funai e responsável por dezenas de expedições pelas florestas brasileiras.

Ao IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Candor explica que o trabalho para identificar os povos isolados consiste em receber informações de moradores regionais, geralmente, de comunidades extrativistas da floresta. “Esses povos trazem as notícias. Alguém viu alguma coisa ou viu uma pegada, um acampamento. Quando essa informação chega na Funai, a Funai vai lá e vê”, diz.

No momento, a Funai tem 11 frentes baseadas na Amazônia para a identificação das tribos isoladas. Segundo ele, a frente que estiver mais próxima de onde pode ter sido avistada a comunidade, deve ir ao local para averiguar.

De acordo com o sertanista, até a década de 1990, a Funai ainda fazia contato com os povos que não tinham interferência externa. “A nossa missão era entrar no mato, localizar o povo e fazer o contato. Não tinha meio termo”, relembra.

Candor afirma que só no final do século passado é que se chegou ao consenso sobre como o contato forçado era prejudicial às comunidades isoladas. Como as populações nunca tiveram contato com outras pessoas, elas não tinham imunidade para enfrentar doenças como a gripe, o sarampo e até mesmo resfriados. Atualmente, o contato só é feito com os povos em conflito com comunidades tradicionais, outras etnias e fazendeiros.

“A gente tem nossas regras para ir a campo: tem que estar todo mundo vacinado, a gente não se aproxima tanto deles a ponto de transmitir alguma coisa, a gente sabe a hora de ir e a hora de voltar e o contato só é feito nessas circunstâncias: se eles estiverem risco de confronto com outros povos”, declara.

Os perigos de um contato forçado não se limitam, no entanto, às comunidades. Segundo Candor, os profissionais que rastreiam as etnias isoladas também correm risco de vida: “Mesmo sem forçar o contato com eles, só porque a gente passou muito próximo deles, já jogaram flecha na gente”. O sertanista relembra que um de seus amigos, que fazia o mesmo trabalho e começou a atuação na Funai na mesma época que ele, foi morto com uma flecha ao entrar em uma reserva que havia tido uma ocorrência de indígenas isolados.

Candor diz não ter medo de morrer, mas afirma ser cuidadoso. Antes de cada expedição, ele e sua equipe se reúnem para discutir tudo o que tem que ser feito em campo. Questionado sobre ter inimigos, o sertanista responde aos risos: “É só o que eu tenho”. A fala de Candor se refere a grileiros e madeireiros da região, mas ele ressalta que as pressões por parte desses grupos não o atrapalham.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

“Aqui, onde eu trabalho, pelo amor de Deus, é complicado, mas é aquilo que eu falo: alguém tem que fazer. Mas isso também não me inibe, não me atrapalha. Eu não me preocupo muito com isso não. A minha preocupação é com eles [povos indígenas], é manter eles vivos, manter eles tranquilos, para que eles possam caçar, possam pescar e possam ter a vida deles”, diz.

O objetivo principal do trabalho de Candor e sua equipe é monitorar essas comunidades para ter uma “noção” de que elas estão bem e se conseguem realizar suas atividades de subsistência, como a caça e a pesca, sem interferência. Uma das preocupações da Funai com essas etnias é evitar a invasão de seus territórios.

Candor explica que o monitoramento consiste em duas etapas. Na primeira, a equipe faz um levantamento considerando os elementos encontrados ao longo da expedição, como vestígios de caça e pesca. Segundo ele, se o grupo entender que os integrantes da etnia conseguem realizar suas atividades, a equipe recua e retorna para a base. Na segunda etapa, é feita uma fiscalização no entorno do território: de tempos em tempos, os funcionários da Funai percorrem a terra para evitar invasões.

No momento, a frente em que Candor está tem duas comunidades isoladas já confirmadas. Além dessas, a sua equipe também trabalha em outras doze ocorrências sobre possíveis etnias que ainda não foram encontradas. Desde que iniciou a sua atuação como sertanista, ele participou de três contatos.

O primeiro – e um dos mais emblemáticos – foi o contato com os Piripkura, na década de 1980. A busca levou todo o ano de 1988 e rendeu o documentário “Pirikpura”, lançado em 2017. À época, Candor encontrou os três últimos sobreviventes da etnia: dois homens, Tamandua e Pakyi, e uma mulher, Rita.

Posteriormente, o sertanista também confirmou a presença de indígenas Cinta-Larga, em que uma família da etnia se afastou do grupo e estava vivendo isolada na região. Ele ainda participou, em 2019, do contato com os Korubo. À época, o indigenista Bruno Pereira convidou Candor para participar da expedição porque precisava de alguém com experiência no contato com comunidades isoladas. Em 2022, Pereira foi assassinado junto com o jornalista britânico Dom Phillips durante uma viagem pelo Vale do Javari, no extremo-oeste do Amazonas. A morte de ambos foi encomendada pelo líder de um grupo que praticava garimpo ilegal e pesca predatória na região.

Para Candor, a primeira reação ao encontrar uma comunidade isolada é se preocupar: “E, agora, o que nós vamos fazer?”. Segundo ele, a preocupação é ainda maior quando o contato com as etnias é necessário, nos casos de conflito.

Premiado por sua atuação na proteção dos povos indígenas e na preservação da Amazônia na Brazil Conference, evento realizado em Cambridge, Massachussets, nos Estados Unidos, Candor diz estar ciente do preconceito em relação aos povos indígenas no Brasil e que se preocupa em trazer grupos isolados para o “nosso mundo”.

“A minha preocupação é essa: o que vai ser da vida desse povo? A gente está tirando eles lá do sossego deles, vive ali na maior paz do mundo, não precisa de muita coisa. Eles vão ter que aprender um monte de coisa, vão ter que se virar. A preocupação é essa, é trazer eles para o nosso mundo. Até que eles se adaptem a conhecer nossas leis, a conhecer nossos códigos, a entender como a gente vive aqui, é muito difícil para eles”, ressalta.

Leia também: Brasil tem 119 povos indígenas vivendo isolados, aponta publicação do Cimi

Em 2023, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Candor admitiu que pensava em se aposentar dentro de quatro ou cinco anos. Ao IPAM, ele confirmou que este ainda é o seu plano. “Uma hora eu vou ter que parar. Ninguém é insubstituível, a gente sabe que chega a hora”, afirma. Ele diz ter entrado com o pedido de aposentadoria, que deve ser aprovado até o final do ano.

Apesar de estar prestes a se aposentar, Candor afirma que continuará contribuindo com a proteção dos povos isolados. Ele destaca que, como está em um cargo comissionado, pode continuar na função mesmo após a aposentadoria. Quando não conseguir mais carregar sua mochila ou fazer as caminhadas durante as expedições, o seu plano é “passar o bastão” após mais de 30 anos de trabalho, em que ajudou a consolidar uma política de não contato, baseada no respeito aos territórios indígenas e com foco em garantir a sobrevivência e a autonomia desses grupos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Anna Júlia Lopes

Urnas funerárias milenares da Amazônia “retornam à casa” após seis anos

0

Escavações das urnas na comunidade Tauary em 2018. Foto: Acervo GP Arqueologia/Instituto Mamirauá

Após uma longa jornada de mais de 1,2 mil quilômetros por rios da Amazônia, sete urnas funerárias da Tradição Polícroma da Amazônia retornaram, no final de abril, ao município de Tefé (AM), seu território de origem.

A viagem de retorno, feita inteiramente por via fluvial, exigiu duas trocas de embarcação e foi cuidadosamente planejada para preservar os sensíveis artefatos arqueológicos.

Leia também: Arqueologia histórica de Tefé, no Amazonas, é foco de pesquisa sobre construção cultural

As urnas haviam sido levadas em 2019 para a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em Santarém (PA), onde passaram por seis anos de análises aprofundadas do material cerâmico e dos vestígios humanos guardados pelas urnas. O retorno marca um novo ciclo de conservação, pesquisa e valorização desse patrimônio arqueológico amazônico.

As urnas foram escavadas em 2018 por uma equipe arqueólogos do Instituto Mamirauá e organizações parceiras na comunidade Tauary, localizada na Floresta Nacional de Tefé.

O achado é considerado inédito por ter sido o primeiro registro desse tipo de urna encontrado diretamente no solo, sem ter sido previamente removido por moradores — condição rara em um campo onde vestígios costumam chegar às mãos dos pesquisadores já fora de seu contexto original.

Os artefatos estavam enterrados a menos de 40 centímetros da superfície, em uma área de apenas quatro metros quadrados, próxima à escola comunitária. Decoradas com rostos e formas simbólicas, as urnas revelam práticas funerárias complexas e de grande cuidado, que estão sendo interpretadas e estudadas pelos pesquisadores.

Leia também: Pint of Science em Tefé promove palestras acessíveis e gratuitas sobre ciência na Amazônia

Achado inédito impulsiona estudos sobre rituais funerários na Amazônia

“Esse é um momento muito importante e esperado por todos nós, tanto os pesquisadores quanto os moradores de Tauary”, afirma Eduardo Kazuo Tamanaha, arqueólogo e líder do Grupo de Pesquisa Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia do Instituto Mamirauá.

“A pandemia, cortes de gastos e secas extremas dificultaram o andamento dos trabalhos e o retorno das urnas para Tefé. Por outro lado, a equipe coordenada pela professora Dra. Anne Rapp Py-Daniel teve mais tempo para analisar o material e trazer resultados impressionantes”.

A arqueóloga Anne Rapp Py-Daniel, professora e pesquisadora da UFOPA, destaca o ineditismo da descoberta: “Pela primeira vez, tivemos acesso ao contexto completo dessas urnas, desde o sítio arqueológico até o conteúdo interno. Isso nos permite entender melhor os rituais de cremação, preparação dos corpos e os padrões simbólicos envolvidos”.

A pesquisadora Anne Rapp Py-Daniel e uma das sete urnas Tauary que retornaram à Tefé (AM). Foto: Miguel Monteiro

Em uma das urnas, por exemplo, foram identificados vestígios de dois indivíduos — possivelmente cremados em momentos diferentes e com intensidades distintas.

Segundo a pesquisadora, análises feitas nos últimos anos revelaram que o local pode ter sido usado por séculos como cemitério. Ossos queimados, evidências de exposição prolongada das urnas antes do enterramento e variações nos procedimentos funerários indicam uma tradição elaborada, marcada por rituais complexos de transformação e memória.

Uso de tecnologia de tomografia inova o estudo de urnas funerárias

Entre as inovações adotadas na pesquisa das urnas de Tauary, destaca-se o uso da tomografia computadorizada como ferramenta de análise não invasiva pela pesquisadora Cristiane Colares.

O Laboratório de Arqueologia Curt Nimuendaju da UFOPA estabeleceu uma parceria com uma clínica de imagens em Santarém para viabilizar exames em cinco urnas funerárias, que ainda não tinham sido escavadas. O objetivo era identificar os vestígios humanos em seu interior e avaliar o estado de conservação dos artefatos.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A técnica permitiu visualizar estruturas internas invisíveis a olho nu, como rachaduras ou áreas fragilizadas, e foi essencial para estabelecer protocolos mais seguros de escavação e conservação.

“Essas urnas não são apenas objetos frágeis, elas são o equivalente a caixões. Carregam um valor simbólico e ético muito forte. Por isso, toda intervenção precisa ser muito bem pensada e executada com o máximo de cuidado”, explica Anne Rapp Py-Daniel.

O trabalho iniciado com a tomografia está pavimentando caminhos para que novas tecnologias sejam incorporadas à arqueologia amazônica, respeitando tanto o valor científico quanto espiritual dos artefatos. A metodologia contribui para preservar o material e ampliar o conhecimento sobre os rituais funerários da Tradição Polícroma da Amazônia, sem comprometer sua integridade.

Envolvimento da comunidade fortalece a valorização cultural

A iniciativa também se destaca pela participação ativa da comunidade local. Os moradores de Tauary acompanharam todo o processo de escavação e solicitaram apoio técnico assim que perceberam a presença dos vestígios, demonstrando grande interesse e respeito pelo patrimônio ancestral.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que são sítios arqueológicos?

Moradora de Tauary (AM) mostra artefato arqueológico encontrado na comunidade ribeirinha. Foto: Projeto Tauary

No último dia 2 de maio, uma equipe do Instituto Mamirauá e da UFOPA retornou à comunidade para uma devolutiva presencial dos resultados das pesquisas. A atividade, realizada de forma aberta e acessível, incluiu falas da equipe científica, atividades educativas, exposição com fotos e informações da pesquisa e o reconhecimento do sítio arqueológico.

O momento foi bem recebido pela população local, como destacou Paulo Leocadio, presidente da comunidade Tauary. “As pessoas gostam quando (os pesquisadores) chegam e dão uma explicação. Porque, muitas das vezes, não tem essa explicação, que nem teve aqui. Foi muito bom, eu creio que a equipe foi bem acolhida e recebida pela comunidade”, afirma.

Parcerias institucionais fortalecem a ciência na Amazônia

O sucesso das pesquisas envolvendo as urnas de Tauary também é fruto de uma longa e sólida rede de cooperação entre instituições da região Norte.

A arqueóloga Anne Rapp Py-Daniel ressalta o papel essencial das parcerias para a continuidade de trabalhos científicos fora dos grandes centros urbanos:

“Temos parcerias com o Instituto Mamirauá há 14 anos, trabalhando de maneira colaborativa. Isso é superimportante para as instituições da região Norte. Muitas vezes, não temos os recursos, as pessoas, ou a proximidade com grandes centros. Por isso, precisamos dessas redes reais, duradouras, que sustentam as pesquisas e mantêm os acervos vivos ao longo do tempo”, destaca a pesquisadora.

Parte da equipe do Projeto Tauary, responsável pelas pesquisas e transporte das urnas até Tefé (AM). Foto: Júlia Rantigueri

O arqueólogo Eduardo Kazuo Tamanaha, do Instituto Mamirauá, reforça esse pensamento. “Ninguém faz ciência sozinho. É necessária uma equipe compromissada e multidisciplinar. Sem a parceria com as arqueólogas da UFOPA, esse trabalho não teria sido possível. E o apoio de programas como o Mulheres na Ciência também foi crucial para que o projeto existisse. Agora, seguimos com o trabalho, recebendo duas especialistas em Conservação e Restauro para aprofundar o cuidado com as urnas de Tauary”, completa.

Leia também: Conheça três sítios arqueológicos na Amazônia que são considerados patrimônio cultural do Brasil

Pesquisa revela redes de contato milenares na Amazônia

Após a chegada a Tefé, os artefatos passam a integrar o acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá, onde passarão por processos finais de análise e conservação.

A descoberta reforça evidências de que a Amazônia pré-colonial era densamente povoada e culturalmente complexa, contrariando a antiga visão de um território intocado ou esparsamente habitado. “Essas urnas falam de uma cosmovisão partilhada e de uma rede de contatos que se estendia por toda a região, ligando diferentes grupos e tradições há mais de mil anos”, conclui Py-Daniel.

O trabalho segue em andamento, com a análise de outras duas urnas ainda não escavadas e novos estudos programados. A expectativa é que o conhecimento gerado ajude a fortalecer políticas de preservação do patrimônio cultural e inspire novas formas de diálogo entre ciência, memória e comunidades amazônicas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

Povos indígenas do Sudoeste da Amazônia se reúnem para criação de aliança para fortalecimento territorial

0

Cidade de Ji-Paraná recebe a reunião das associações. Foto: Divulgação

Representantes de mais de dez associações indígenas de Rondônia e Mato Grosso se reúnem nos dias 22 e 23 de maio, em Ji-Paraná (RO), para formalizar a criação da Aliança dos Povos Indígenas do Sudoeste da Amazônia. A iniciativa marca um passo decisivo rumo à autonomia dos povos originários na gestão de seus territórios, com foco em Soluções Baseadas na Natureza (SbN).

O encontro tem como objetivo estruturar juridicamente a Aliança, com deliberações sobre a constituição do CNPJ, aprovação do estatuto e eleição da diretoria.

Leia também: Você sabe quais são os povos indígenas de Rondônia? Veja lista

A Aliança foi idealizada pelos próprios povos indígenas da região, com apoio técnico da Rioterra, organização que atua há mais de 25 anos em projetos socioambientais na Amazônia. O objetivo é ajudar com instruções técnicas e orientações legais para a estruturação.

“É uma organização que foi criada pelos povos indígenas pra trabalhar a solução baseada na natureza, pra trabalhar, na verdade, a autonomia dos seus territórios. Mas o que está por trás da base, que vai gerar essa autonomia, são projetos de soluções baseadas na natureza, de todos os tipos”, afirma Alexis Bastos, Gerente de Projetos na Rioterra.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A Aliança dos Povos Indígenas do Sudoeste da Amazônia surge como uma plataforma de articulação para a promoção de iniciativas sustentáveis, valorização da sociobiodiversidade e fortalecimento da governança indígena, respeitando os modos de vida tradicionais e os direitos territoriais.

De acordo com a Rioterra, a reunião em Ji-Paraná representa um momento histórico de união, planejamento e protagonismo indígena, e reforça a importância da articulação regional para a proteção de territórios e culturas.

Produção de açaí cresce 150% no Amazonas

0

Produção de açaí cresce 150%. Divulgação/Idam

Um dos frutos mais apreciados pela população amazonense, o açaí apresentou, entre os anos de 2018 a 2024, o aumento de aproximadamente 150% de produção no estado. A informação foi divulgada pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam) e evidencia o resultado dos serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) realizados, neste período, que propiciaram o crescimento da cultura no Amazonas.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

Os dados do instituto apontam que, nos últimos sete anos, a produção anual saltou de 550,8 mil para 1,3 milhão de toneladas de frutos. Este crescimento de produção é reflexo do aumento de 173% nas áreas plantadas. Em 2018, eram 4,3 mil hectares de açaízeiros e, hoje, são mais de 11 mil ha em todo estado.

Produção de açaí
Fruto do Açaí. Foto: divulgação

O Amazonas avançou no cultivo com objetivo de aumentar a oferta do fruto nos mercados nacional e internacional.  Para isso, em 2019, o Idam deu início a implementação do Projeto Prioritário (PP) do Açaí, a fim de intensificar os serviços de Ater em 12 municípios com maior potencial para a cultura.

Os municípios contemplados pelo PP inicialmente foram: Codajás, Carauari, Borba, Anori, Manicoré, Coari, Rio Preto da Eva, Manacapuru, Lábrea, Tapauá, Nova Olinda do Norte e Benjamin Constant. Neste ano, Tefé e Anamã também foram inseridos no projeto.

Leia também: Protocolo viabiliza mudas em larga escala para cultivo sustentável de açaí-solteiro na Amazônia

Projeto Prioritário

Os produtores rurais agricultores familiares inseridos no PP recebem orientações técnicas sobre boas práticas para cultivo e manejo do açaí nativo, participam de cursos, demonstrações de métodos, palestras, visitas técnicas, entre outras metodologias de Ater.

Produção de açaí
Polpa de Açaí: Foto: Vinícius Braga

De acordo com a coordenadora do PP Açaí, Anecilene Buzaglo, o projeto tem o intuito de aumentar a produção e a produtividade de duas espécies de açaí no estado: Euterpe olerácea, oriunda do Pará (conhecida como açaí do Pará), e a Euterpe precatória, típica do Amazonas (conhecido como açaí do Amazonas).

“Temos quatro Unidades Demonstrativas de Cultivo de Açaí em área mecanizada nos municípios de Borba, Novo Olinda, Codajás e Benjamin Constant, onde estamos implantando sistemas de irrigação dentro nas áreas de plantio para verificar a produção e a produtividade de cada espécie”, contou.

Leia também: Pesquisa vai analisar influência das abelhas sem ferrão no aumento da produção de açaí na Amazônia

Distribuição de mudas

Os 12 municípios inseridos no projeto possuem viveiros para produção de mudas que são distribuídos gratuitamente aos produtores rurais. “Os viveiros têm capacidade de produzir 5 mil mudas por ano, cerca de 60 mil por ano. Com isso, já distribuímos mais de 200 mil mudas de açaí aos produtores”, frisou.

Produção de açaí
Mudas de Açaí: Foto: Aureny Lunz

Além disso, em 2022 e 2023, a Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror), em parceria com a ADS e o Idam, distribuiu cerca de 5,5 mil quilos de sementes de açaí das variedades BRS Pará e BRS Pai d’égua diretamente aos agricultores.

Leia também: Centro busca melhorar qualidade de vida no Marajó com tecnologias digitais para as cadeias do açaí e do mel

Propriedades nutricionais

O açaí tem importantes propriedades nutricionais, além de ser uma excelente fonte de energia para o corpo. Por conta disso, a partir da década de 1990, o açaí consumido pelas comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia começa a ganhar popularidade fora da região Norte do país.

Produção de açaí
Comércio de venda de açaí: Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP

De acordo com a coordenadora, as espécies de açaí cultivadas no Amazonas e no Pará são diferentes. Segundo a técnica, além do açaí amazonense ter mais rendimento de polpa, maior produtividade e longevidade, o fruto local também se destaca por ter um menor teor de gordura.

“O açaí do Amazonas é mais magro. Ele tem um teor de gordura menor e, por conta disso, tem menos calorias. Para quem pretende ingerir o fruto pelos benefícios para saúde com presença bioativos como antocianina, fitoesteróides, ômega 6 e 9 e vitamina E, dentre outros, o açaí do amazonense é mais indicado por ter um valor nutricional (destacadamente de antocianina) superior ao do Pará”, informou.

Leia também: Multifunções? Potencial do caroço de açaí é estudado no Amapá: do asfalto a produção de energia

Reserva Biológica do Guaporé: lugar que resiste às ameaças ambientais crescentes em Rondônia

0

Em meio a uma das regiões mais biodiversas da Amazônia, a Reserva Biológica do Guaporé, em Rondônia, abriga ecossistemas únicos, ameaçados por pressões ambientais crescentes, como o aumento da população de búfalos, ação de madeireiros e a curiosa presença do pirarucu que, apesar de ser uma espécie amazônica, representa um risco para espécies nativas da região.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

Criada em 1982 e com mais de 615 mil hectares, a unidade integra o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA) desde 2017 e, nos últimos anos, tem intensificado ações de educação ambiental para conscientizar moradores locais sobre os impactos destas atividades, devido ao status de proteção integral da reserva. 

De acordo com Lidiane França da Silva Tomazoni, chefe do Núcleo de Gestão Integrada Cautário-Guaporé, “as ações de educação ambiental buscam não apenas informar, mas também envolver as pessoas, criando um vínculo mais próximo entre esses atores, a gestão da unidade de conservação e a natureza”, afirma. 

Reserva Biológica do Guaporé
O pirarucu que, apesar de ser uma espécie amazônica, representa um risco para espécies nativas da região. Foto: Reprodução/Sapopema

Leia também: Versátil, pele de pirarucu manejado da Amazônia é utilizada na confecção de roupas e acessórios

Embora o pirarucu seja uma espécie nativa da Amazônia, ele é considerado exótico invasor dentro da REBIO Guaporé pois o peixe não é originário das bacias localizadas no interior de Rondônia, a jusante da extinta cachoeira de Teotônio, no Rio Madeira. 

Estudos apontam múltiplos fatores para a presença do pirarucu na região, incluindo falhas em pisciculturas que permitiram o escape de alevinos, alterações no curso dos rios causadas por usinas hidrelétricas, eventos de cheias históricas e até introduções acidentais ou intencionais por humanos. 

Apesar de ainda não existir manejo autorizado do pirarucu dentro da REBIO Guaporé, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) tem realizado encontros com as comunidades sobre o tema. Segundo Lidiane, o diálogo e as ações educativas visam explicar os impactos das espécies invasoras e apresentar alternativas sustentáveis inspiradas em outras unidades de conservação, como o manejo comunitário em pequena escala e o ecoturismo. 

Leia também: Diagnóstico socioeconômico é realizado com manejadores de pirarucu na Amazônia

Reserva Biológica do Guaporé
Reserva Biológica do Guaporé. Foto: ICMBIo/divulgação

“É um processo de escuta e sensibilização. Caso haja interesse por parte das comunidades, os projetos precisam ser elaborados e submetidos à análise e aprovação para só então serem implantados”, esclarece a gestora, que complementa: “A parceria com organizações locais, grupos de líderes comunitários e educadores ambientais tem sido fundamental para disseminar conhecimentos sobre os ecossistemas da região, a biodiversidade e os serviços ambientais prestados pela floresta.” 

O ARPA apoia com suporte à infraestrutura e ao funcionamento das UCs, criando as condições necessárias para que essas ações aconteçam com mais frequência e qualidade. Isso inclui apoio a atividades que promovem a sensibilização de comunidades locais para conservação e uso sustentável, capacitações e oficinas para participação comunitária, ações educativas de proteção para manejo e proteção territorial, além de atividades de comunicação para divulgar a importância da UC e aproximar o público de seus desafios e relevância. 

Leia também: Pescador vence “briga” e fisga pirarucu com mais de dois metros e 130 quilos em Rondônia

Expedição quilombola 

Um exemplo recente foi a expedição científica realizada em fevereiro de 2024 nas comunidades quilombolas do Vale do Guaporé. A atividade levou ações socioambientais às populações locais, unindo preservação ambiental, resgate cultural e práticas de educação ambiental. As oficinas envolveram temas como gestão do território, uso sustentável dos recursos naturais e valorização das práticas tradicionais. 

 A comunidade Quilombola de Santo Antônio do Guaporé, enfrenta desafios complexos relacionados à sua sobreposição com a REBIO Guaporé. A comunidade, reconhecida como remanescente quilombola desde 2004, possui um território de 7.221 hectares que se sobrepõe à área da reserva. Um Plano de Utilização foi estabelecido em 2017 para conciliar os interesses da comunidade e da REBIO, definindo regras de uso para a área de sobreposição. 

 A REBIO Guaporé abriga uma diversidade de espécies vegetais e animais, incluindo algumas em risco de extinção. Espécies como a maçaranduba (Manilkara amazonica), o amarelão (Apuleia molaris) e o janité (Brosimum ovatifolium) são parte da rica flora local.  

 A presença de búfalos ferais (selvagens) dentro da unidade também representa uma ameaça concreta à biodiversidade da reserva. Esses animais, introduzidos de forma desordenada na região, causam impactos como o pisoteio de áreas alagadas, destruição de ninhos e alteração do equilíbrio dos ecossistemas naturais. O controle dessa população tem sido debatido por órgãos ambientais e comunidades locais, que buscam alternativas sustentáveis e efetiva.  

 Para Lidiane Tomazoni, a educação ambiental é essencial para transformar a relação das pessoas com o meio ambiente, e superar desafios como a invasão dos búfalos: “A conscientização das novas gerações é um dos pilares para garantir que a preservação ambiental seja entendida não apenas como uma responsabilidade coletiva, mas também como uma ação que pode trazer benefícios para todos, tanto no presente quanto no futuro.” 

 Ao promover o entendimento dos desafios ecológicos e das soluções possíveis, a educação ambiental se mostra um instrumento poderoso para inspirar mudanças de comportamento e atitudes. Para Lidiane, a educação ambiental contribui para construir uma base sólida para o desenvolvimento sustentável da Rebio Guaporé: “Assegurar um legado positivo para as próximas gerações depende da harmonia entre as atividades humanas e os recursos naturais”, conclui. 

Leia também: Resgate de alevinos de pirarucu é realizado em Rondônia para minimizar impactos da crise hídrica

O ARPA

Áreas Protegidas da Amazônia é um projeto do Governo do Brasil, é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e tem o FUNBIO como gestor e executor financeiro. É financiado com recursos de doadores internacionais e nacionais, entre eles o governo da Alemanha por meio do Banco de Desenvolvimento da Alemanha (KfW), o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) por meio do Banco Mundial, a Fundação Gordon and Betty Moore, a AngloAmerican e o WWF. 

Fiocruz e University of Glasgow reúnem pesquisadores para formular propostas para mitigar impacto das mudanças climáticas das populações na Amazônia

Região amazônica. Foto: Michell Mello / Fiocruz Amazônia Revista

Manaus sediará, entre os dias 2 e 6/06, o workshop Amazônia BR/UK, que reunirá 22 pesquisadores brasileiros e estrangeiros que desenvolveram ou estão em fase de conclusão de estudos que abordem questões relativas ao ambiente, às mudanças climáticas e aos impactos sobre a saúde das populações amazônicas.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

A iniciativa é fruto de uma parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz, por meio do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (CIDACS/Fiocruz), e a Universidade de Glasgow, no Reino Unido, com financiamento do Fundo Internacional de Parcerias Científicas (ISPF), do British Council.

Ao todo, 16 jovens doutores ou doutorandos em fase de conclusão de suas teses, foram selecionados por meio de edital lançado em dezembro de 2024, que teve em torno de 30 propostas de adesão ao workshop submetidas, das quais 16 foram aprovadas, sendo 12 jovens doutores e mais quatro candidatos ao título de Doutor, entre brasileiros e estrangeiros.

Leia também: Como as mudanças climáticas afetam os peixes da Amazônia?

Fiocruz e University of Glasgow
Fiocruz e University of Glasgow reúnem pesquisadores para formular propostas para mitigar impacto das mudanças climáticas. Foto: Michell Mello / Fiocruz Amazônia Revista

Leia também: Novas hidrovias na Amazônia podem agravar mudanças climáticas, alertam especialistas

O British Council é uma organização internacional do Reino Unido para relações culturais e oportunidades educacionais nas áreas de língua inglesa. A coordenação geral do evento é do professor Jonathan Olsen, da School of Health & Wellbeing da University of Glasgow” (UK).

A ideia, de acordo com o pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, vice-coordenador do projeto, é promover a troca de experiências e a articulação entre grupos de pesquisa que estão trabalhando em torno dos temas Ambiente, Saúde e Mudanças Climáticas na Amazonia para gerar, a partir daí, novas linhas e grupos de pesquisas que possam preencher lacunas e inspirar estratégias de mitigação dos efeitos da crise climática na Amazônia, com projeções futuras, por exemplo.

“Nosso intuito é gerar um relatório com contribuições de acesso público que possam ser encaminhadas aos participantes da COP 30 e que, de alguma maneira, impactem nas discussões da Conferência, com sugestões aos tomadores de decisão e, ao mesmo tempo, com potencial de criar uma jovem e engajada rede internacional de colaboração, formada por acadêmicos e não-acadêmicos, com alternativas para as pessoas que estão sendo impactadas pela emergência climática na Amazônia”, explica Orellana.

Leia também: Biólogo alerta que mudanças climáticas e modelo econômico ameaçam saúde na Amazônia

Fiocruz e University of Glasgow
Fiocruz e University of Glasgow reúnem pesquisadores para formular propostas para mitigar impacto das mudanças climáticas. Foto: Michell Mello / Fiocruz Amazônia Revista

Os participantes serão acompanhados por uma equipe de seis pesquisadores sêniores, que atuarão como mentores. São eles: Johnathan Olsen (coordenador-geral do evento), Jesem Orellana (Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia da Fiocruz Amazônia), Peter Craig (School of Health & Wellbeing da University of Glasgow), Maria Luiza Garnelo Pereira (ILMD/Fiocruz Amazônia), Helen da Costa Gurgel (Departamento de Geografia da Universidade de Brasília) e Júlia Pescarini (London School of Hygiene & Tropical Medicine).

Orellana destaca, entre os mentores, a contribuição da pesquisadora da Fiocruz Amazônia Luiza Garnelo, que é antropóloga e médica sanitarista com 30 anos de experiência com pesquisas, trabalho político e educacional com diversas sociedades indígenas na Amazônia Brasileira.

“Além de atuar na mentoria, Luiza Garnelo irá traçar um panorama da região amazônica para os participantes, comentando aspectos étnicos, demográficos e da saúde das populações amazônicas, em particular indígenas, para esse público heterogêneo formado por novos pesquisadores, que, apesar de trabalharem com os temas saúde e ambiente e os seus impactos na região, nem sempre conhecem a complexidade de um trabalho de campo na Amazônia e dos perigos contemporâneos existentes, como o da violência em regiões remotas, em particular áreas com mula ou limitada presença do Estado brasileiro”, pontua Jesem.

Orellana explica que, entre os participantes selecionados, haverá recém-doutores ou pessoas que estejam terminando suas teses de doutorado, no Brasil e no Reino Unido.

“Teremos, por exemplo, participantes estrangeiros nascidos em diversos continentes e brasileiros de diversas regiões do país, os quais estão desenvolvendo estudos em 12 instituições diferentes do Reino Unido e Brasil, o que coloca a Fiocruz Amazônia como protagonista na discussão acadêmica e política dessa temática, com possibilidade de quantificarmos o impacto ambiental das mudanças climáticas na Amazônia Legal e seus efeitos na saúde da população do nível local ao nacional, expressando nossa decepção com a condução dada até hoje ao problema”, ressaltou.

*Com informações da Fiocruz Amazônia