Pela primeira vez realizada na Amazônia, a COP 30 – conferência que reunirá países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) – encontrará em Belém um cenário promissor na busca por soluções sustentáveis. Uma dessas iniciativas é o Projeto ‘Bioembalagens da Amazônia‘, desenvolvido pelo Laboratório de Biossoluções e Bioplásticos da Amazônia (Laba), da Universidade Federal do Pará (UFPA), com apoio do Governo do Estado, por meio da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e Universidade do Estado do Pará (Uepa).
A partir de dois elementos essenciais na gastronomia paraense – a mandioca e o açaí -, pesquisadores trabalham para reduzir o impacto ambiental causado por resíduos plásticos, que degradam principalmente os oceanos, utilizando os recursos naturais da região.
O Projeto, que também conta com o apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), e intervenção da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp), visa substituir embalagens derivadas de petróleo por alternativas biodegradáveis, produzidas a partir de amido de mandioca e resíduo do caroço de açaí — matérias-primas abundantes no Pará.
Bioeconomia
“O objetivo é criar protótipos de embalagens sustentáveis, alinhados a políticas públicas de inovação tecnológica e sustentabilidade, reduzindo o descarte inadequado de plásticos convencionais. Além disso, valorizamos recursos naturais locais e fortalecemos a bioeconomia regional”, explica o coordenador da pesquisa, professor José de Arimateia Rodrigues.
Foto: Divulgação
O açaí foi escolhido como base devido à sua relevância socioeconômica — o Pará é o maior produtor nacional do fruto, que integra o cardápio diário da maioria da população. Já a mandioca, além de expressiva na agricultura local e também obrigatória na alimentação (principalmente na forma de farinha), é amplamente estudada como matéria-prima para bioplásticos.
O desenvolvimento das embalagens envolve análises físico-químicas, produção de filmes biodegradáveis, testes tecnológicos e criação de protótipos para aplicação industrial.
A pesquisa realizada no Pará busca solução para um problema global. Conforme o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), os plásticos representam 85% dos resíduos encontrados nos oceanos. Até 2040, esse volume pode chegar a 37 milhões de toneladas por ano. No Brasil, mais de 3 milhões de toneladas de plástico têm potencial para poluir o meio ambiente anualmente, e a foz dos rios amazônicos é uma das áreas mais críticas.
Estudos da UFPA apontam que 98% dos peixes analisados na Amazônia possuem partículas plásticas em seus organismos. “Esse projeto contribui diretamente para enfrentar essa realidade, promovendo o uso sustentável de resíduos agroindustriais e fortalecendo cadeias produtivas locais”, destaca José de Arimateia Rodrigues.
O projeto também está integrado aos marcos estratégicos do Governo do Pará voltados ao desenvolvimento sustentável, como a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas (PEMC), o Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA) e a Estratégia Estadual de Bioeconomia (PlanBio). Além disso, atende a diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, como o ODS 12 (Consumo e produção responsáveis), ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima), ODS 14 (Vida na água) e ODS 15 (Vida terrestre).
Foto: Divulgação
“O conhecimento científico pode ser a base para políticas públicas mais sustentáveis e para um futuro climático mais seguro. Nosso projeto mostra que a Amazônia é também um centro de inovação e soluções sustentáveis, contribuindo diretamente para os debates que antecedem a COP 30”, afirma o coordenador.
Além de contribuir para a preservação ambiental e inovação científica, a iniciativa tem um papel importante na formação de profissionais qualificados. Já participaram do projeto 13 estudantes de graduação, três de mestrado, dois de doutorado e três de pós-doutorado, consolidando o “Bioembalagens da Amazônia” como um polo de excelência acadêmica e científica na região.
Pavilhão do Brasil na Bienal de Arquitetura valoriza o saber ancestral. Foto: Divulgação
Um conjunto arquitetônico que celebra os saberes tradicionais e a sustentabilidade da floresta amazônica está entre os destaques da 19ª Exposição Internacional de Arquitetura, a Biennale Architettura, em Veneza (Itália). O projeto foi desenvolvido na Aldeia Sagrada Yawanawá, no Alto Rio Gregório, fruto da parceria entre o cacique Biraci Yawanawá e o escritório Rosenbaum Arquitetura.
As construções, o Centro Cerimonial (Shuhu), a Casa Modelo e a Universidade dos Saberes Ancestrais, foram selecionadas para a mostra, que é realizada entre 10 de maio e 23 de novembro, por representarem uma arquitetura situada, colaborativa e atenta à emergência climática.
A curadoria da Bienal, conduzida por Carlo Ratti, traz o tema “Intelligens. Natural. Artificial. Collective”, destacando práticas arquitetônicas que unem tecnologia, natureza e coletividade.
Construídas com madeira nativa e técnicas sustentáveis, as edificações foram erguidas por uma equipe multidisciplinar com intensa participação da comunidade Yawanawá e construtores ribeirinhos. O processo de construção enfrentou desafios logísticos extremos, como o transporte de um trator desmontado rio acima, em plena floresta.
Edificação carrega em sua estrutura a identidade do povo Yawanawa, sendo composta por áreas abertas de convivência e harmonia. Foto: Cedida
A participação indígena é um fator decisivo da criação arquitetônica, como destaca o cacique Biraci: “Tudo que construímos vem da nossa ancestralidade. Somos um povo conectado às novas tecnologias, mas com as nossas raízes no chão. Cuidamos da natureza à nossa volta e não dá pra fazer isso sozinho, por isso precisamos de alianças e parcerias. Com novos instrumentos, podemos fortalecer cada vez mais o nosso trabalho de preservação da natureza”.
A diretora de Povos Indígenas da Secretaria Extraordinária de Povos Indígenas do Estado (Sepi), Nedina Yawanawa, destaca a relevância do projeto como símbolo de fortalecimento da identidade dos povos originários: “Essas edificações não são apenas estruturas físicas. Elas carregam a essência da nossa ancestralidade, dos saberes antigos, do modo de ser e viver do povo Yawanawá. Desde o início, o planejamento feito pelo cacique foi conduzido com muito cuidado”.
Ela também exalta: “O arquiteto Marcelo Rosenbaum compreendeu com sensibilidade e respeito o que o cacique quis transmitir. Ele materializa uma visão que ultrapassa o físico e atinge o simbólico. Cada linha da arquitetura carrega uma mensagem, uma cosmovisão. Isso é o que queremos levar ao mundo: mostrar que temos uma forma própria de ver, sentir e viver, e que isso também tem valor, tem beleza, tem poder”.
Arquitetura com raízes na ancestralidade
Shuhu localizado no meio da propriedade compreende as principais atividades sociais da Aldeia Sagrada. Foto: Cedida
Com 1.265 metros quadrados, a Universidade dos Saberes Ancestrais é a maior dos três edifícios. Seu desenho em formato de “Y”, proposto pelo cacique, simboliza a união entre diferentes caminhos do conhecimento. O espaço abriga 12 salas de aula, refeitório para 250 pessoas, uma cozinha industrial e área para 150 redes.
A Casa Modelo foi pensada para oferecer conforto térmico e integração com o ambiente. Possui sala e cozinha integradas, quatro quartos, dois banheiros e um pátio central, favorecendo a ventilação cruzada. Já o Shuhu, o Centro Cerimonial, é dedicado a rituais e práticas espirituais. Sua imponente cobertura circular tem 41 metros de diâmetro e 33 metros de vão livre, totalizando 1.150 metros quadrados.
Para Marcelo Rosenbaum, o projeto representa uma nova forma de pensar e fazer arquitetura: “A gente não chega com uma ideia pronta. Nossa função é reconhecer o conhecimento ancestral e integrar esses conhecimentos em um espaço construído com respeito e sentido”.
“Esse projeto é um exemplo de como o encontro de conhecimentos pode responder a problemas globais. Ao lado do povo Yawanawá, aprendemos que a floresta não é um lugar a ser conquistado, mas um lugar com o qual devemos dialogar”, conclui Marcelo Rosenbaum.
Trabalho de Rosenbaum na Aldeia Sagrada é resultado de uma relação de 14 anos com a comunidade Yawanawá, especialmente com o cacique e sua família. Foto: Cedida
Você já parou para pensar em quantas vezes consumiu o cinema produzido no Norte do Brasil? Ou se já teve a oportunidade de prestigiar alguma obra feita na região?
Apesar da riqueza cultural, o cinema nortista ainda é pouco explorado no audiovisual brasileiro. Para enaltecer as obras regionais, reunimos junto ao diretor paraense San Marcelo, oito produções que colocam a Amazônia como protagonista:
Ela mora logo ali (Rondônia)
De que forma a literatura pode impactar o cotidiano da vida das pessoas? O curta-metragem ‘Ela mora logo ali’ aborda exatamente isso: como a literatura tem o poder de transformar a realidade.
O filme, vencedor de diversos festivais de cinema, conta a história de uma humilde ambulante e mãe atípica, cujo cotidiano muda ao conhecer uma jovem leitora no caminho de volta para casa. A partir desse encontro ela embarca em uma jornada de novas descobertas e desafios para encontrar um bom livro para seu filho. O filme está disponível em plataforma de streaming.
O Território (Rondônia)
Vencedor do Emmy 2023, o filme documental conta a história do povo Uru-eu-wau-wau na luta contra o desmatamento causado por grileiros e posseiros ilegais.A obra foi gravado em Rôndonia e coloca o público no centro do conflito através das rotinas da ativista Neidinha e de Bitaté, um jovem Uru-eu-wau-wau, que arriscam suas vidas para salvar a floresta, utilizando da tecnologia e equipes independentes para expor e revidar os crimes cometidos contra a amazônia brasileira. O documentário na plataforma Disney.
Aqui en la Frontera (Roraima)
Umas das maiores crises imigratórias da América Latina, ganha um novo olhar. O documentário filmado na froteira da Venezuela com o Brasil, conta três distintas histórias de venezuelanos que, de certa forma, são guiados pelo mesmo desejo: o recomeço.
O filme retrata as histórias de Stephanny, que precisa retornar a Venezuela para buscar a filha. A versão de Francis uma mulher trans e líder de um abrigo de refugiados militarizado pelo governo brasileiro. E Argenis que organiza uma ocupação com mais de 300 venezuelanos, sob ordem de despejo. A obra está disponível em plataforma de streaming.
O Barulho da Noite (Tocantins)
Uma dramática história envolve uma família da zona rural de Tocantins. Sônia, uma mãe que se sente invisibilizada e castigada pelas lembranças do passado. Agenor, um pai dedicado e afetuoso. E as filhas Maria luiza e Ritinha. A chegada de Athayde, sobrinho e ajudante da roça de Agenor, irá alterar toda a estrutura familiar.
“O Barulho da Noite”, retrata a perda de ingenuidade e o grito por socorro e está disponível em plataforma de streaming.
Terruá Pará (Pará)
“Terrua Pará”, aborda a diversidade da música paraense. O retrato da riqueza cultural do estado, através dos depoimentos de personagens como Dona onete, Manoel Cordeiro e Pio Lobato. O documentário busca representar o espirito do Pará, as origens e diferentes formas da música no estado. O documentário está disponível na Prime Vídeo.
O barco e o Rio (Amazonas)
As irmãs Vera e Josi, cuidam sozinhas de uma simples embarcação herdada pela família em Manaus. Ambas com diferentes personalidades. Enquanto uma é religiosa e se preocupa com o barco, a outra prefere beber e viver sua sexualidade com os homens do porto. Ao mesmo tempo que viam destinos diferentes para o futuro do barco. O curta-metragem está disponível em plataforma de streaming.
Noites Alienígenas (Acre)
Os jovens Sandra, Paulo e Rivelino, amigos de infância que cresceram na periferia de Rio Branco, acabam se reencontrando devido a uma tragédia em comum.O longa utiliza de elementos fantasiosos para retratar a chegada das facções criminosas do sudeste do Brasil à Amazônia urbana.
O filme retrata os impactos causados na vida dos três amigos, que de maneiras distintas sofrem pelo mesmo motivo: a criminalidade. O filme está disponível no Globoplay.
O Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, é uma das mais vibrantes expressões culturais do Brasil. Celebrando a disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido, a festa é movida por emoção, tradição e personagens que se tornaram lendas na história da manifestação.
Entre os nomes que fazem a tradição do boi-bumbá permanecer viva, dois se destacam por terem sido eternizados nos currais das agremiações: Zeca Xibelão, do Caprichoso, e Lindolfo Monteverde, do Garantido.
Quem foi Zeca Xibelão?
Zeca Xibelão como tuxaua. Foto: Reprodução/Facebook-Boi Caprichoso
Azul e branco de corpo e alma, José Thomaz Monteiro Neto, apelidado de Zeca Xibelão, foi o primeiro tuxaua do boi caprichoso. Com um bailado inconfundível e indumentárias luxuosas e ousadas feitas artesanalmente pelo brincante, Zeca marcou a história do bumbá.
Em sua indumentária mais famosa havia desenhado a imagem da padroeira de Parintins, Nossa Senhora do Carmo. O apelido ‘Xibelão’, foi dado a ele pelo grande Bispo Dom Arcângelo Cérqua, já que seu rosto possuía um formato arredondado, parecido com a aparência de quem se alimenta de xibé.
Foto: Lucas Silva/Amazonastur
Mesmo católico, Xibelão adotou a identidade tribal na brincadeira, e foi graças a ele que a estética da arte indígena foi introduzida no Festival de Parintins. O elemento foi inicialmente muito criticado pelo boi contrário, mas aos poucos se adaptou e incorporou também em suas apresentações.
De acordo com informações do site oficial do bumbá, o curral do Caprichoso, local onde os ensaios e eventos são realizados, leva seu nome em uma homenagem sugerida pelo ex-presidente do boi, João Andrade, que reconhece a trajetória do primeiro tuxaua da história do boi negro, além do seu mérito como um brincante marcante na história do bumbá.
Lindolfo Monteverde e o Boi Garantido. Foto: Reprodução/ Instagram Garantido
Lindolfo Monteverde era um homem simples do interior amazônico, pescador, plantador de juta e de roça, criou o Boi Garantido desafiando tradições, tornando-se renomado versador e cantador.
Fundando a agremiação a partir de uma promessa feita a São João Batista, Lindolfo prometeu que, se fosse curado de uma doença grave, criaria um boi para alegrar as festas juninas. Curado, cumpriu sua promessa com devoção, dando vida ao Boi Garantido, símbolo da fé de Lindolfo.
Foto: Lucas Silva/Amazonastur
De acordo com informações oficiais do boi de coração vermelho, Monteverde tornou-se um mestre versador e cantador reconhecido não apenas por sua habilidade musical, mas também pela forma como conduzia o boi com autenticidade e sensibilidade.
Faleceu em 27 de julho de 1979, e em sua homenagem, o curral oficial do boi leva seu nome. Além disso, desde 2012, o dia 2 de janeiro também é marcado como o ‘Dia da Tradição’, uma data especial dedicada a celebrar Lindolfo e tudo que ele representa para o Garantido.
A pesquisa ‘Trajetórias de vida e antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade‘, coordenada pelo professor titular em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sérgio Ivan Gil Braga, inaugura uma nova forma de pensar antropologia no contexto amazônico que está baseada em um conhecimento prático, consubstanciada nas próprias vivências e nas etnografias produzidas.
Esses são os resultados apresentados pelo Grupo de Pesquisa NAURBE – Cidades, culturas populares e patrimônios sobre a pesquisa que aborda o cotidiano amazonense nas produções textuais, fotografias, pinturas e desenhos de dois amazonenses que alcançaram notoriedade a partir de meados do século passado, e os contatos pessoais que mantiveram com outros pesquisadores e escritores.
Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004) e Moacir Couto de Andrade (1927-2016) tiveram um proposito que os levou a Antropologia, ao círculo de relações com folcloristas ou antropólogos, os quais tiveram influência em seus trabalhos, ou na forma como conduziram suas pesquisas de campo, como também as relações com os seus colaboradores sobre os quais reuniram informações, além de características e estilos de escrita encontrados na produção textual de cada um deles.
Sérgio Ivan entende que “ainda há muitos caminhos a percorrer, nas trajetórias de vida e antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade, bem como a outros autores que trabalharam na região. Quando se trata de assumir o desafio de escrever sobre o pensamento antropológico da Amazônia, sob o signo do folclore e da cultura popular. Reconhecemos, que empreendemos os primeiros passos nesse sentido, com vistas a explorar várias perspectivas de estudo e interpretações sobre diferentes temas da cultura amazônica. Com muita satisfação, encontramos em Mário e Moacir, uma antropologia baseada em um conhecimento prático, consubstanciada nas próprias vivências desses autores e nas etnografias que produziram em suas bibliografias”.
De acordo como o coordenador da pesquisa, as elaborações teóricas, no âmbito do folclore e da antropologia, assumiram a feição de um ‘conhecimento prático’, fundamentado na realidade dos autores e nas relações estabelecidas com os seus interlocutores de pesquisa.
Braga acredita que Mário e Moacir podem ser vistos como verdadeiros ‘guardiões’ da cultura local de Manaus e regional, no âmbito do Estado do Amazonas.
“Entendimento esse, nem sempre acessível a um público mais amplo, que não raro atribuiu aos ditos ‘folcloristas’, a pecha de um conhecimento saudosista ou ultrapassado”, completou.
Métodos de pesquisa
A natureza da pesquisa priorizou consultas as bibliografias dos autores e fontes primárias envolvendo documentos, correspondências (no caso de Mário Ypiranga), desenhos e pinturas (no caso de Moacir Andrade), originais de livros, artigos publicados em jornais, objetos pessoais (cadernos e cadernetas de campo, no caso de Mário Ypiranga), fotografias, dentre outros. Foi feito fichamento do material pesquisado, com vistas a análise e produção textual dos resultados da pesquisa.
Os equipamentos utilizados foram computadores, impressora, projetor de vídeo, imprescindíveis para o tratamento das informações de pesquisa. O maior investimento na pesquisa, entretanto, foi o potencial humano, que representou mais de dois anos de dedicação quase que diária, envolvendo consultas as bibliografias, fontes primárias, obras artísticas, fichamentos e escritas das produções antropológicas dos autores.
Influência de autores
Foram pesquisados nos autores, vários temas da cultura regional do Amazonas e da cidade de Manaus, envolvendo expressões materiais e imateriais, como festas religiosas e populares, trabalhadores ou artífices em meio urbano ou rural, mitologias amazônicas, cultivos e beneficiamentos de produtos regionais (mandioca, guaraná), artefatos, grupos folclóricos etc.
Observa-se a predominância dos estudos de campo, com ênfase na observação participante, resultando em elaboradas etnografias. Há certa influência nos autores da Antropologia Cultural de Franz Boas e, de forma mais explícita, em Mário Ypiranga Monteiro, citações textuais do próprio Boas, como também de Ruth Benedict, antropóloga norte-americana, orientanda de Boas.
Sérgio Ivan observa também em Mário Ypiranga, ideias e citações da antropologia clássica inglesa, com destaque para o antropólogo Bronislaw Malinowski. Por outro lado, Moacir Andrade prioriza para descrição, certas memórias vividas no passado, não raro em seu tempo de criança e adolescência, lançando mão do recurso de narrativas de situações e acontecimentos vários, considerados importantes para este autor, na abordagem dos temas amazônicos.
Desdobramentos da pesquisa
A partir da pesquisa, houve o desdobramento em um vídeo documentário de 6m30s, com a participação de toda a equipe da pesquisa, explicando ao público, os objetivos, procedimentos e resultados alcançados. O título do vídeo é o mesmo atribuído ao projeto de pesquisa: “Trajetórias de vida e Antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade”.
Além disso, foram produzidos dois livros, um autoral e outro coletânea de textos:
Trajetórias de vida e Antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade (Editora Valer, 2025)
Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade em perspectiva – organizado por Sérgio Ivan Gil Braga (Editora Valer, 2025)
Os livros serão lançados no dia 4 de julho de 2025, às 17h30, no Salão Verde da Livraria e Editora Valer, localizada no Largo de São Sebastião, Manaus (AM).
A pesquisa recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) – Programa Humanitas CT&I – Edital nº 005/2022 – Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SEDECTI) – Governo do Estado do Amazonas.
Lançado oficialmente nesta segunda-feira (23), primeiro atlas geográfico escolar conta com detalhes sobre o estado do Amapá. Foram impressos 33 mil exemplares que serão distribuídos em escolas públicas e em universidades. A versão digital do atlas está disponível para a consulta por meio do site da Unifap. Confira AQUI.
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (Unifap), da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) e do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa).
“Nós fomos em cada um dos 16 municípios e fizemos uma fotografia de drone. Tentamos contar a história daquele município em que baseia-se a sua economia, a questão das populações tradicionais e as unidades de conservação desses municípios”, disse Orleno Marques, autor do atlas.
O livro conta com 40 mapas que mostram detalhadamente os aspectos das florestas, rios solos, além de outros aspectos como o econômico e o populacional, bacias hidrográficas e muitos outros.
Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica AP
A publicação é dividida por sessões, incluindo:
Cartografia e ensino de geografia: com recursos didáticos, escalas e metodologia de elaboração do atlas;
Mapas políticos e divisões regionais: que explica sobra a evolução dos municípios dando um contexto histórico e político;
Mapas de regiões naturais: que aborda a geomorfologia, geologia, redes hidrográficas, bacias hidrográficas, zona costeira e outros;
Mapas Socioeconômicos: que indicam a população, densidade demográfica, Produto Interno Bruto (PIB), ocorrências minerais, atrações turísticas, faixa de fronteira e outros;
Mapas de unidades de conservação e áreas especiais: que mostra regiões protegidas ambientalmente, além de terras indígenas e quilombolas.
“Nós reunimos vários trabalhos de alguns estudantes do programa, fizemos outras pesquisas e construímos esse material que tem informações sobre vários aspectos do estado do Amapá. Para o professor de geografia, de história, ou de outros componentes que tá lá em sala de aula, para que ele tenha o material organizado e atualizado”, disse Tayane Ferreira Melém, autora do atlas.
O atlas traz ilustrações, dados atualizados e uma parte para exercícios. Incluindo um anexo que pode ser trabalhado por professores em sala de aula.
Tayane explicou ainda, que o livro deve funcionar uma uma ferramenta que vai contribuir para agregar conhecimentos aos estudantes.
Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica AP
“Na minha visão ele traz uma luz para o professor que tá lá em sala de aula, porque ele vai ter um material que os alunos vão ter acesso […] Pra ele chegar em sala de aula, pras bibliotecas da rede pública de ensino e esse aluno conseguir manusear esse material, tá ali perto, olhando essas informações sobre o estado do Amapá”, disse.
Segundo a pesquisadora, o livro possui quatro mapas impressos que podem ser utilizados em sala de aula, um QR code para baixar materiais adicionais e um encarte reproduzível.
O programa de pós-graduação que desenvolve o projeto, conta também com a participação de pesquisadores da Secretaria de Estado da Educação (Seed). Além disso, foi obtida uma emenda junto à professora Marcivânia para realizar a tiragem do material em grande volume.
Área de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Árvores que chegam a 30 metros de altura – como um edifício de dez andares –, com raízes fixadoras que ultrapassam o tamanho de uma pessoa. Os mangues amazônicos são grandes sumidouros de carbono, superando as métricas até mesmo da floresta amazônica. Esse ecossistema é responsável por retirar da atmosfera três vezes mais gás poluente do que florestas de terra firme.
É entre Maranhão, Pará e Amapá que está o maior território contínuo de manguezais sob proteção legal de todo o mundo. Os dados superlativos tornam também mais difícil o monitoramento e a fiscalização desses territórios.
No nordeste do Pará, o projeto Mangues da Amazônia trabalha junto às comunidades locais para mapear tanto a vegetação e a fauna quanto as áreas onde há corte de madeira. O projeto também identifica as áreas mais sensíveis e realiza o reflorestamento desses locais.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
“A gente vai na comunidade, mostra o mapa da região e pergunta onde está ocorrendo corte de madeira. Eles indicam no mapa. A gente visita cada um dos lugares para fazer o georreferenciamento. Tudo é checado e validado, e a gente produz mapas, a partir do mapeamento participativo. Esses mapas, a gente entrega para as prefeituras, associações e lideranças”, explica o professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenador-geral do projeto Mangues da Amazônia, Marcus Fernandes.
De acordo com o professor, há áreas de corte identificadas onde as pessoas já fabricam ali mesmo as tábuas de madeira.
O projeto atua em quatro reservas extrativistas (resex): Resex Marinha de Tracuateua; Resex Marinha de Caeté-Taperaçu; Resex Araí-Peroba; e Resex Gurupi-Piriá. Elas estão localizadas, respectivamente, em quatro municípios: Tracuateua, Bragança, Augusto Corrêa e Viseu. Sua cobertura chega a uma área de 131 mil hectares – o equivalente a 120 mil campos de futebol.
O professor Marcus Fernandes é o coordenador do Laboratório de Ecologia de Manguezal – Lama, da Universidade Federal do Pará (UFPA) Fernando Frazão/Agência Brasil
A extração de madeira, assim como a captura de caranguejos não é ilegal nesses territórios. Mas, no caso do corte, é preciso informar o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
“É área de uso, mas tudo é controlado. Só que eles dão um truque. Têm que dizer quanto de madeira, qual madeira e onde vai cortar. Eles declaram isso, mas vão em outro lugar e tiram tudo que querem. Não tem fiscalização”, diz Fernandes. “Eles conseguem driblar. Muita gente também quer vender para fazer carvão para as padarias, para as olarias, etc. Então, é um problema, de fato, [a extração de] madeira aqui. Mas não é tão grave quanto é no Nordeste, quanto é no Sudeste”, acrescenta.
Além de mapear as áreas de corte, o projeto também mapeia as espécies que vivem nos mangues.“A gente leva os caranguejeiros para o mesmo processo de mapeamento. A gente vai para os lugares e faz o nosso censo para saber quantos machos, quantas fêmeas, o tamanho e o peso, para saber como é que está e mostrar uma figura do que está acontecendo com aquele lugar”, diz. “Tudo precisa de um diagnóstico”.
Filhote de caranguejo em área de manguezal reflorestada pelo projeto Mangues da Amazônia, na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O projeto também realiza o mapeamento genético da vegetação, para ajudar no plantio e recuperação das áreas. “Hoje, já tem todo o mapeamento de onde estão essas árvores. Agora, eu preciso saber qual é a qualidade dos diferentes tipos de mangue, o vermelho, o preto e o branco”, explica.
“Quanto maior a variabilidade genética, melhor e maior a probabilidade dessa planta que for nascer daquela semente e daquela árvore ter melhor qualidade de vida lá na frente ou ser mais adaptável, mais sensível às mudanças que estão ocorrendo. Então, se eu escolher melhores sementes, eu sou capaz promover uma floresta mais resiliente, mais adaptável às novas mudanças que estão vindo por aí. Essa é a nossa proposta com a genética”, diz Fernandes.
Mangues na Amazônia
Os manguezais são áreas úmidas que estão entre o mar e a terra firme. As espécies vegetais e animais que ali vivem são resistentes ao fluxo das marés e ao sal. O ecossistema abriga caranguejos, moluscos como ostras e sururus, peixes, aves e até mesmo mamíferos e répteis.
O projeto também realiza o mapeamento genético da vegetação, para ajudar no plantio e recuperação das áreas. “Hoje, já tem todo o mapeamento de onde estão essas árvores. Agora, eu preciso saber qual é a qualidade dos diferentes tipos de mangue, o vermelho, o preto e o branco”, explica.
O Brasil é o segundo país com maior extensão de manguezal, com 14 mil quilômetros quadrados (km²) ao longo da costa, ficando atrás apenas da Indonésia, com cerca de 30 mil km²; 80% dos manguezais em território brasileiro estão distribuídos em três estados do bioma amazônico: Maranhão (36%), Pará (28%) e Amapá (16%).
De toda a extensão amazônica, a maior parte está em 120 unidades de conservação que abrangem 12 mil km², 87% do ecossistema em todo o Brasil. Isso faz com o que o Brasil tenha o maior território contínuo de manguezais sob proteção legal de todo o mundo, de acordo com os dados do ICMBio.
O gestor do projeto Mangues da Amazônia, John Gomes, com mudas de mangue que serão levadas para reflorestamento. Fernando Frazão/Agência Brasil
“Um dos pontos do projeto é trazer o foco para quando você falar de Amazônia, você falar também dos manguezais amazônicos, porque eles ficam invisibilizados”, diz o gestor do projeto Mangues da Amazônia, John Gomes.
Sumidouros de carbono
Na Amazônia, por conta do maior acesso a recursos hídricos, o mangue na região também acaba se desenvolvendo mais do que nas outras regiões do país, com árvores que chegam a 30 metros de altura. As grandes dimensões dos manguezais amazônicos aumentam também os impactos positivos do ecossistema.
Um deles é a capacidade de retirar gás carbônico da atmosfera e armazená-lo no solo, que, por ser muito úmido e denso, acaba retendo o gás poluente. De acordo com Fernandes, os manguezais da região armazenam 600 toneladas de carbono por cada hectare, de acordo com as medições feitas pelo projeto. “Isso é muita coisa. Então, é mais do que a média mundial”, diz.
Vista de um braço do Rio Caeté em área de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Fernando Frazão/Agência Brasil
Um dos grandes riscos para o manguezal são as mudanças climáticas e a consequente redução de chuvas no local, de acordo com o professor do Instituto de Estudos Costeiros da UFPA Hudson Silva que, no Mangues da Amazônia, é responsável pelo monitoramento das emissões dos gases.
“Se você tem redução nas chuvas, as áreas que se beneficiam dessa condição de alagado para funcionar como sumidouro começam a perder essa função. O solo começa a ser aerado, o oxigênio começa a entrar mais para esse solo, e o processo de decomposição começa a jogar mais gás carbônico para fora”, diz.
Os impactos já são sentidos. Segundo Silva, a taxa de precipitação na região, que chegava a 3 mil milímetros (mm) por ano, atualmente chega a 2 mil mm.
Fernandes complementa que a extinção dos mangues na região pode gerar consequências catastróficas, não apenas locais, mas impactando toda a costa, com avanço do mar e alagamento de regiões costeiras.
“A região amazônica tem um estoque enorme de carbono, então, se a gente corta ou perde esse ambiente, a gente vai jogar isso para fora. É como se você liberasse uma bomba de carbono para o ambiente”, diz. “E tem um efeito nacional absurdo na nossa costa, um efeito que vai ser também para toda a floresta. Se a gente tira o manguezal, tira a proteção costeira”.
Mangues da Amazônia
O Mangues da Amazônia nasce a partir do trabalho de estudo e conservação de manguezais feito no Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA) da UFPA, em Bragança. O projeto, patrocinado pela Petrobras, está no segundo ciclo de execução. O primeiro foi entre 2021 e 2022, quando foram recuperados 14 hectares de mangue. O segundo ciclo começou em 2024 e segue até 2026, com a meta de reflorestar mais 17 hectares.
Cobra jiboia é vista em área de manguezal reflorestada pelo projeto Mangues da Amazônia na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Fernando Frazão/Agência Brasil
O projeto é parte do Programa Petrobras Socioambiental, que patrocina 160 projetos em todo o país, com um investimento previsto de R$ 1,5 bilhão até 2029. De acordo com a gerente de Direitos Humanos da Gerência Executiva de Responsabilidade Social da Petrobras, Sue Wolter, o Mangues é um dos projetos com maior retorno, tanto ambiental, quanto social. A cada R$ 1 investido pela Petrobras, o retorno estimado para a sociedade é de R$ 7.
“O objetivo do Programa Petrobras Socioambiental é implantar os projetos buscando transformação social. Levar valor para a sociedade, para os territórios onde a gente está e, ao mesmo tempo, isso é um valor para a companhia. A gente entende que como uma empresa estatal brasileira, a gente tem uma função social e essa função social é ajudar esse processo de transformação de desenvolvimento”, diz.
*A equipe da Agência Brasil viajou à Bragança entre os dias 11 e 14 de junho para conhecer o projeto Mangues da Amazônia, a convite da Petrobras, patrocinadora do projeto.
Esbanjando muita fofura e carisma, os tripas mirins tem se tornado cada vez mais presentes em eventos bovinos tanto na capital amazonense, Manaus, como em seu berço de origem, na ilha de Parintins. A garotada que tem mostrado cada vez mais gostar do item 10 do Festival Folclórico, em que uma pessoa traz movimento ao boi, tem mostrado também que “brincar de boi” é algo não só para os adultos, é também coisa de criança.
As crianças que tem aderido a este item tem demonstrado interesse e talento ao se apresentarem com suas mini indumentárias e evoluções performáticas que as destacam como verdadeiros itens mirins.
O Portal Amazônia conversou com alguns desses itens que já tem demonstrado que uma nova geração de tripas, no Caprichoso e no Garantido, tem se dedicado a dar vida aos bois com força e dedicação, e com a vontade de ir mais longe: se tornarem um item oficial e dar vida ao seu boi no Bumbódromo de Parintins.
Tripas mirins do Caprichoso: do DNA ao protagonismo
Nonato Júnior, o Nonatinho, é declarado “fã número 1” do atual tripa do Caprichoso, Alexandre Azevedo. Além de fã ele carrega consigo uma carga genética muito forte: é tataraneto do fundador do Caprichoso, Roque Cid.
O pai de Nonatinho, Raimundo Nonato Matos Cid, conta que a primeira apresentação pública do filho brincando de boi aconteceu em um evento paroquial em Manaus, no bairro São José. “Eu achava que ele não iria aguentar, mas ele foi lá e deu conta do recado, dançou igual o tripa, e de lá pra cá foi só evoluindo. Mandei fazer um boi do tamanho dele para evoluir com mais segurança”, lembra o pai.
O músico Hamilton Azevedo Júnior lembrou a primeira vez que viu Nonatinho. Sem saber que ele era tataraneto de Roque Cid, o músico viu no menino uma capacidade impressionante de trazer movimentos ao boi.
“Lá na igreja do São José onde eu toco, tem o boi mirim com todos os itens. Mas um dia me chamaram pra tocar em uma praça que estava sendo inaugurada lá na comunidade e a mulher que me chamou disse que lá tinha um Caprichoso. Então eu já nem me preocupei em providenciar o boi. Quando eu cheguei lá, eu vi um menino pequeno, na época tinha uns três anos, dançando com um boizinho que era de tala. Eu fiquei impressionado”, destacou Hamilton.
Foto: Nathalie Brasil
Outro tripa do Caprichoso que tem chamado atenção é na verdade uma tripa. Sim, uma menina. Heloiza Zumaeta é a primeira tripa mulher a se apresentar como item mirim do Caprichoso. A mãe até brinca que sonhava em ver sua filha como um outro item – como a sinhazinha ou cunhã-poranga.
“Eu sempre levei ela e o irmão dela pro “bar do boizinho” e ela sempre gostou. Aí eu tive um dia a curiosidade de perguntar: ‘filha que item você gostaria de ser?’ e ela disse ‘mãe eu quero ser tripa, me dá um boi de presente?’. Eu sempre sonhei em ver uma filha cunhã, uma sinhazinha, uma rainha do folclore, algo assim. Mas aí eu encomendei um boizinho de presente no aniversário de nove anos e daí ela seguiu como tripa. Uma cunhada minha até brinca que ela quer ser é protagonista”, contou Cristiane Zumaeta.
Cristiane Zumaeta sempre levou a filha pra brincar de boi como tripa. Foto: Hector Muniz/Portal Amazônia
Tripas mirins do Garantido: admiração e dedicação
E do lado vermelho do Festival de Parintins também tem quem goste de ser “tripinha”. Um desses jovens talentos que sonha em ser tripa do Garantido é o Benjamin Gael, de 8 anos, que tem marcado presença em vários eventos em Manaus como tripa mirim do boi do coração vermelho.
O pai, Carlos André, tem sempre acompanhado o filho. Ele disse que ser tripa mirim foi algo muito natural na vida do Benjamim.
“Desde que ele era muito criança, ele pediu naturalmente de mim e da mãe dele que comprássemos um boizinho. Ele ganhou então um boi Garantido da avó dele, menor, e era algo que ele sempre brincou. Conforme ele foi crescendo o boi foi ficando pequeno. Então como vimos que era algo natural dele e fomos arrumando outros boizinhos conforme ele ia crescendo”, destacou Carlos André.
Carlos André, pai do Benjamim Gael, acompanha o filho em todas as apresentações. Foto: Hector Muniz/Portal Amazônia
Também do lado encarnado, outro torcedor obstinado é o tripa mirim Ângelo Aguiar. Do elenco do bumbá, a admiração é por Batista Silva e Denildo Piçanã. No caso de Ângelo, escolher o boi preferido foi um ato totalmente involuntário. “Eu aprendi as danças com o meu pai, que era tripa do Boi Caprichoso, mas a minha escolha foi pro Garantido”, revela.
Há quase dois anos, a escolha do pequeno artista ganhou rumos profissionais. “Foi no aniversário da madrinha dele, apaixonada pelo Garantido, que ele pegou um boizinho que tinha em casa e evoluiu. O pai dele postou no Instagram, o Hamilton viu e começou a chamá-lo para participar dos eventos”, revela a mãe, Patrícia Santos, que é torcedora do Caprichoso.
Que a rivalidade entre os dois bois de Parintins existe isso é um fato. As provocações, sátiras, entre outras peças de apresentações, fazem parte da disputa. Mas entre as crianças, o músico Hamilton Azevedo Júnior garante que as apresentações os tripas mirins é sadia.
“Em momento algum a gente incentiva a rivalidade, até porque eles são crianças. E é legal ver que eles só querem se divertir. É muito diferente dos adultos”, afirmou o músico.
A produtora de eventos Socorro Andrade, responsável por alguns eventos de apresentação de itens mirins, como os tripas mirins em Manaus, garante que não há rivalidades: “É até lindo de se ver, porque sendo de lados opostos é possível até ver um incentivando o outro”.
Troféu Sincretismo Cultural. Foto: Aguilar Abecassis/SEC AM
Além de conquistar o título de campeão do 58º Festival Folclórico de Parintins, o boi vencedor também terá seu nome marcado no troféu Sincretismo Cultural, para celebrar o grande campeão da disputa entre os bois Caprichoso e Garantido.
A peça foi apresentada no dia 21, durante o sorteio da ordem das apresentações do festival. Criado pelo artista parintinense Lucijones Cursino, do CriArt’s Atelier, o troféu foi confeccionado com materiais sustentáveis.
O design do troféu faz referência ao Bumbódromo de Parintins e aos bois Caprichoso e Garantido, além de estampar as placas com os anos em que cada bumbá conquistou o título do festival, desde 1966.
Para o secretário de Estado de Cultura e Economia Criativa, Caio André, o troféu é mais uma peça importante que vai abrilhantar o festival.
“Ele traz história de vitória dos bois e, sobretudo, confeccionado com material sustentável que reforça nosso compromisso com nossa floresta, com o meio ambiente, que é algo levado pelos bois para dentro da arena. Tenho certeza que todos os visitantes, turistas e mesmo quem mora e vive o festival aqui de Parintins, vai gostar muito do troféu”, enfatizou.
Parintinense Lucijones Cursino, o criador do troféu Sincretismo Cultural. Foto: Aguilar Abecassis/SEC AM
Segundo Lucijones, a concepção inicial era desenvolver uma escultura no formato da cabeça de um boi. No entanto, ao longo do processo criativo, e com o apoio na criação de Silvio Pinto Júnior, surgiu a ideia de incorporar o Bumbódromo, por ser o palco oficial da disputa entre os bois.
“A primeira ideia que eu tive foi justamente a cabeça do boi, sem a parte do Bumbódromo. Resolvemos incluí-lo porque é ali que acontece a grande disputa, por isso os dois bois estão surgindo de dentro do Bumbódromo”, explicou o artista.
De acordo com ele, o troféu simboliza a união cultural promovida pelo Festival de Parintins. Por esse motivo, recebeu o nome de Sincretismo Cultural.
“O que eu quis transmitir com esse troféu foi essa união de culturas. Chamamos de Sincretismo Cultural justamente por representar a fusão de crenças, raças e ideologias. Essa foi a principal mensagem que buscamos expressar nesse trabalho”, destacou.
Foi de Silvio a ideia de colocar o registro de cada ano da disputa e a marca de cada bumbá vencedor, com pequenas medalhas com os títulos de campeão conquistados ao longo dos anos.
“A ideia partiu justamente por conta da quantidade de títulos que os bois sempre falam. Então, achei que seria uma curiosidade interessante todos saberem, e nada melhor que criar um troféu que pudesse exaltar os bois, por isso, a cabeça do boi na direção da arquibancada de cada galera, no bumbódromo. Foi criado as placas dos anos que cada um foi campeão, assim como quando teve empate e as lives”, explicou Silvio.
Parintinense Lucijones Cursino, o criador do troféu Sincretismo Cultural. Foto: Aguilar Abecassis/SEC AM
Entre os materiais utilizados na elaboração estão componentes recicláveis, como o PVC. “É muito importante para o artista parintinense ter a oportunidade de mostrar seu trabalho. É um privilégio fazer parte do Festival e estar presente na história ao lado dos bois”, finalizou Lucijones.
Exposição
O troféu Sincretismo Cultural ficará em exposição a partir desta segunda-feira (23/06), na abertura das atividades na Estação da Cultura, na Praça da Catedral.
*Com informações da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas(SEC AM)
Projeto ‘Parintins para o mundo ver’.Foto: Isabelle Lima/Amazon Sat
O canal Amazon Satcelebra a força da cultura popular com o projeto ‘Parintins Para o Mundo Ver’. Com uma programação especial realizada na ilha da magia, entre os dias 21 e 30 de junho serão exibidos flashes, programetes e programas que mergulham no universo parintinense.
No dia 23 de junho acontece a exibição do programa Ponto Alto, especial em Parintins, às 20h (hora Manaus) mostrando um panorama da cidade com depoimentos de quem entende: seus moradores.
Entre os dias 24 e 30 de junho serão exibidos os programetes que exploram a arte, a cultura, a segurança em torno do evento, serviços disponibilizados pelo Governo na cidade e ainda um dos momentos mais aguardados – além da disputa dos bois Caprichoso e Garantido – a festa dos visitantes.
E tem mais! A programação ganha um brilho diferente e bem animado no dia 28 de junho, 12h30, com a exibição do programa Galeria em uma edição que mostra os bastidores da preparação de Parintins para o 58° Festival Folclórico.
Foto: William Marques
Além disso, de 26 a 29 de junho, o público poderá acompanhar ao vivo o programa ‘Toada do Milton’, das 14h30 às 18h30 (horário de Manaus). Com apresentação de Milton Cunha, a exibição do programa no Amazon Sat será uma retransmissão do canal da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Diversos quadros serão realizados com o intuito de debater sobre o Festival Folclórico de Parintins como os itens julgados, participação do público, artistas locais e trabalhadores da cultura.
”Vai ser um quadro bem diversificado, onde o Milton vai comandar tudo e a transmissão acontecerá de uma forma diferenciada. Não é a transmissão das noites da arena, é o que acontece na cidade de Parintins durante o dia e que tem um movimento gigante de conexões com o festival”, afirmou o professor do departamento de arte e cultura da UEA, João Fernandes.
A cobertura completa da festa em Parintins pode ser acompanhada pelas redes sociais do Amazon Sat e do Portal Amazônia, além dos canais oficiais do Amazon Sat: