Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Não sei se você é abalado pelo noticiário da nova guerra. Também não sei se é uma nova guerra ou uma nova fase dela. Alguns dizem que a terceira grande guerra já começou. Convivemos com tantas guerras que, às vezes, elas podem cair em um lugar comum, como se fossem algo normal. Quando se inicia uma guerra? Certamente não é no primeiro bombardeio, mas, se fosse, ele já teria acontecido há algum tempo.
Pessoalmente, o noticiário dos últimos dias tem me tocado. As imagens podem parecer de videogames, mas são cidades reais, habitadas por pessoas de carne e osso. Não consigo deixar de me questionar sobre a irracionalidade de seres humanos que ocupam posições de liderança tão importantes. Quem deu a eles a autoridade de nos colocar em risco? Todo o mundo em risco? Algumas pessoas os colocaram onde estão, mas o risco é de todos. As ações e reações deles são humanas ou animalescas, no seu pior sentido? Quanto vale uma única vida? E milhões ou bilhões de vidas?
Minha mente me traz para o nosso dia a dia. No checkout, em um hotel, eu me sinto agredido e desrespeitado pelo tipo de atendimento. Faço valer os meus direitos? Deixo passar como se nada tivesse acontecido? Em uma ou em outra alternativa, estaria eu alimentando a violência? Por todos os lados, é impressionante a quantidade de conflitos, de discussões e de agressões. A violência é uma característica intrínseca do ser humano?
Mokiti Okada que, dentre outros estudos, pesquisou a saúde humana, afirma que todos nós apresentamos um tipo de febre na área da nuca e do pescoço, decorrente de um processo de purificação gradual de toxinas acumuladas. Essa febre, segundo ele, é imperceptível, mas nos mantém em um estado de constante irritação e propensos ao conflito. Sabemos que a irritação tem poder de irradiação e pode afetar muitas pessoas — nossos cônjuges, filhos, subordinados, pares, clientes e todos com quem convivemos ou influenciamos. Se ocupamos a posição de liderança de um país ou mesmo de uma empresa, podemos gerar danos incalculáveis.
Donald Trump declarou nestes dias que ainda não sabe o que vai decidir. Não sabe se vai atacar o Irã, mas diz que sua paciência está no fim. Como assim? A paz do mundo dependerá de seu estado emocional? Há ainda o primeiro-ministro de Israel e do outro lado, o aiatolá iraniano que ameaça com “danos irreparáveis para os EUA”, caso se envolva no conflito. Até onde eles podem ir, sem colocar em risco todos nós?
Voltando ao atendimento do hotel, ele me irrita, mas me contenho. Em seguida, a cobrança exagerada da tarifa dinâmica do aplicativo me faz sentir extorquido. Em seguida, o assento que havia reservado no voo é arbitrariamente modificado, sem qualquer explicação. Nesse momento, eu já estava em “modo guerra”, pronto a reagir a qualquer nova agressão (qualquer incômodo). Estaria eu, naquele momento, em uma frequência de atração de conflitos? Ou seria a tal febre que me fazia desejar cada vez mais fazer justiça com as próprias mãos?
A reflexão sobre o processo que acontecia em mim mesmo me fez, conscientemente, reagir de uma melhor maneira aos acontecimentos externos, sob os quais tenho uma limitada influência. Não tenho gestão sobre eles, mas posso tentar ter sobre mim mesmo. Nesse caso, parece que deu certo. A consciência me fez sair da frequência dos conflitos e da irritação. Muito rapidamente, tudo mudou e voltei a tratar bem o mundo e a ser mais bem tratado por ele. Sinto que, com isso, contribuo com uma frequência de paz, que também tem poder de irradiação.
Reflito, assim, que, na minha esfera de ação, influencio o todo, para o bem ou para o mal, o que me ensina novas coisas sobre guerras que nunca se encerram ou sobre a terceira grande guerra que nem sabemos se já começou. Antes que alguém diga: como é possível falar em felicidade em um mundo de tantas guerras, grandes e pequenas, me antecipo. É justamente por isso que precisamos construir felicidade conscientemente. O mundo, mais do que nunca, precisa.
E você? Como está lidando com as suas próprias guerras? No que você está influenciando a atmosfera do mundo? Frequência de paz ou frequência de guerra?
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
Uma avaliação feita após oito anos de instalação de diferentes estratégias de restauração de reserva legal na Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT), mostrou que em áreas com plantio de mudas a cobertura do solo pelas copas já superou os indicadores determinados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT) para aferir o êxito na revegetação. Porém, no que diz respeito à quantidade de regenerantes e a diversidade de espécies, o cenário observado ainda é insuficiente.
A Sema-MT estabelece três parâmetros que devem ser alcançados em até 20 anos para avaliação de sucesso na recomposição florestal em áreas com mais de quatro módulos fiscais. O primeiro é a cobertura do solo gerada pela copa das árvores com mais de dois metros de altura, que deve ser superior a 80% com espécies nativas. O segundo é a densidade de regenerantes com o mínimo de 3 mil indivíduos por hectare. O terceiro diz respeito à riqueza da diversidade, com ao menos 20 espécies diferentes entre os indivíduos regenerantes.
O pesquisador da Embrapa Florestas (PR) Ingo Isernhagen ressalta que a avaliação foi feita faltando 12 anos para o prazo final para atingir os parâmetros. Porém, os dados já são indicadores importantes considerando-se que se trata de uma área experimental.
“Este é o único experimento com esse nível de monitoramento e com essa idade que tenho conhecimento em Mato Grosso. É importante termos esses parâmetros para se pensar em possíveis intervenções para contribuir para o alcance dos indicadores definidos pela Sema. Mas não quer dizer que se deixarmos de mexer não vai acontecer nada”, avalia o pesquisador.
Aprimorando parâmetros ambientais
Tanto a legislação brasileira que trata sobre a proteção da vegetação nativa, conhecida como Novo Código Florestal Brasileiro (Lei Federal nº 12.651/2012), quanto o Decreto Estadual nº 1.491/2018 que aborda os Programas de Regularização Ambiental (PRA) definidos após análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) são recentes. No caso de Mato Grosso, os parâmetros adotados pela Sema se basearam nos poucos estudos existentes até então, alguns deles em outros biomas. Dessa forma, resultados da pesquisa conduzida na Embrapa Agrossilvipastoril podem contribuir para melhorias nos parâmetros adotados.
Experimento de recomposição de reserva legal na Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop. Foto: Gabriel Faria
“Nosso estudo vem somar ao que a Sema vem recebendo de relatórios das áreas já em recuperação. É mais um tijolinho do conhecimento. É um lugar em que conseguimos analisar com mais critérios, de forma mais controlada, o caminhar desse processo de construção no alcance dos indicadores. É salutar que a Sema avalie agora ou daqui a alguns anos e faça alguma adequação que seja necessária”, sugere Isernhagen.
O estudo completo pode ser conferido na publicação “Avaliação de indicadores de monitoramento em experimento de recomposição florestal de Reserva Legal na Amazônia Meridional, médio norte do Mato Grosso”, disponível para download AQUI.
Como foram feitos os experimentos
Os ensaios sobre restauração de reserva legal da Embrapa Agrossilvipastoril foram instalados em 2012 com o objetivo de gerar informações sobre as diferentes técnicas de adequação ambiental para a região médio-norte de Mato Grosso, considerando a possibilidade de uso econômico das áreas com produção de bens madeireiros e não madeireiros.
Foram feitos tratamentos utilizando plantio de mudas, plantio direto de sementes ou semeadura à lanço e ainda a regeneração natural por meio do isolamento da área. Foram usadas espécies nativas com diferentes propósitos, tanto considerando serviços ecossistêmicos quanto produção de frutos, essências e madeira. Conforme permite a lei, em um dos tratamentos com mudas também foi usado o eucalipto, que é uma espécie exótica, sendo uma fonte de renda a médio prazo que poderia compensar gastos com a recuperação da área. Na avaliação feita aos oito anos conforme parâmetros da Sema-MT só os tratamentos com plantio de mudas foram acompanhados.
Retirada de toras de eucalipto plantado em um dos tratamentos com plantio de mudas. Foto: Gabriel Faria
Os diferentes métodos utilizados
Para se definir a área de cobertura do solo pela copa foram usados diferentes métodos, como forma de comparar os resultados de cada um deles. Além do método recomendado pela Sema, com observação a cada metro em uma parcela de 25m x 2m, foi utilizado o densiômetro de copa e quatro aplicativos gratuitos para esse fim: GLAMA Aplication, Canopy Capture, Canopy App e Canopy Cover Free. A leitura do densiômetro é subjetiva, por isso recomenda-se que uma mesma pessoa faça a avaliação de todos os talhões como forma de manter um padrão. Já os aplicativos utilizam a câmera do celular para calcular a área coberta.
“A percepção em campo é que, de forma geral, a aplicação dos métodos de detecção de cobertura de copa arbórea com o uso dos aplicativos, embora rápida, mostrou-se bastante sensível às variações de luminosidade geradas, por exemplo, pela passagem de nuvens e mesmo a movimentação das copas das árvores”, explica Ingo Isernhagen justificando o alto desvio padrão encontrado na leitura dos aplicativos.
Para todos os tratamentos avaliados, o aplicativo GLAMA e o protocolo Sema foram os que apresentaram os maiores valores de cobertura de copa.
Entre os tratamentos avaliados, aquele que teve menor percentual de cobertura de copa foi justamente aquele com eucalipto. Isso ocorreu tanto pela retirada de árvores no primeiro desbaste feito, quanto pela mortalidade de alguns indivíduos devido ao ataque de formigas.
Regenerantes
A avaliação aos oito anos mostrou que a área experimental da Embrapa Agrossilvipastoril ainda está longe de atingir o indicador estipulado pela Sema-MT aos 20 anos no que diz respeito aos regenerantes. O tratamento que teve maior número de regenerantes teve 1.083 indivíduos por hectare, enquanto o que teve menor número só foram encontrados 483 indivíduos em um hectare.
No que diz respeito à riqueza da diversidade, os dois tratamentos com melhor desempenho possuem dez espécies e o pior desempenho possui apenas cinco espécies.
Esses resultados parciais levam à discussão sobre possíveis intervenções na área, como podas de árvores para maior entrada de luz no sub-bosque, plantio de novas mudas ou semeadura.
“Estamos articulando com potenciais parceiros em busca da viabilização de recursos para insumos e mão-de-obra que possibilitem fazer as intervenções para termos cenários com e sem intervenção ao longo do tempo”, explica Diego Alves Antônio, engenheiro florestal e analista da Embrapa.
Há ainda a possibilidade de os oito anos da avaliação serem pouco tempo para a evolução desses indicadores. Isernhagen lembra que nos próximos anos haverá morte de árvores de ciclo mais curto, como embaúbas, abrindo clareiras e que a serrapilheira depositada seguirá melhorando as condições químicas e físicas do solo. Há também a tendência de maior circulação de animais dispersores de sementes com o bosque formado.
“Nosso objetivo é trazer contribuições para os produtores que precisam recuperar suas áreas, quer seja apenas para atingir os parâmetros exigidos pela Sema, quer seja para obter renda com a exploração econômica de madeira, frutos e essências produzidas na área recuperada”, declara Isernhagen.
Além dos três parâmetros determinados pela Sema-MT, também está sendo avaliado no experimento o aporte de carbono no solo. Uma pesquisa futura, realizada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), irá avaliar o estoque de carbono na biomassa das árvores.
Sub bosque ainda com poucos indivíduos regenerantes. Foto: Gabriel Faria
Restauração em rede
Há décadas a Embrapa imprime esforços visando à restauração de ambientes degradados, que geraram dezenas de projetos para este fim. Em um trabalho recente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), iniciado em 2024, e intitulado Florestas Produtivas, a Embrapa Florestas tem contribuído por meio dos Sistemas Agroflorestais de Referência e sua viabilidade financeira, que visam à mitigação da fome e mudanças climáticas. Esses sistemas agroflorestais estão sendo adaptados às realidades locais e começaram a ser implantados primeiramente no Bioma Amazônia, em assentamentos no Pará e no Maranhão, e seguirão pelo Cerrado, Mata Atlântica, e demais biomas, integrando ações.
Outra ação importante a ser realizada pela Embrapa para recuperar ecossistemas degradados, aliando conservação ambiental e produção agrícola sustentável consistirá no resgate de projetos bem-sucedidos antigos que foram, no entanto, descontinuados com o passar do tempo. Ambos enfatizam a necessidade de viabilidade econômica e inclusão social, garantindo que as soluções sejam aplicáveis em larga escala. Com a organização desses dados e sua disponibilização em rede, será possível integrar as diversas tecnologias já criadas pela Embrapa.
“Estamos chamando este trabalho de restauração produtiva e vamos começar com três estados, Pará, Maranhão e Mato Grosso, para, justamente, em Unidades de Referência Tecnológica (URTs) restaurar áreas degradadas com viés de produção, e utilizar vários métodos e tecnologias já consagrados, pela Embrapa. Com boa gestão, terão produção elevada, mantendo o solo conservado, água limpa, evitando erosão, que vão agregar mais valor e renda àquela propriedade, com a comercialização dos seus produtos. Estes vão gerar as informações com coeficientes técnicos e indicadores financeiros que gerarão subsídios para auxiliar políticas públicas, e assim para ganhar escala. Esse é o viés social, que envolve mais famílias”, explica Marcelo Arco-Verde, chefe-geral da Embrapa Florestas.
Buscando articular pesquisadores e iniciativas como estas, surgiu há menos de um ano o RestauraBio, uma rede colaborativa dentro da Embrapa, que atua no mapeamento de projetos antigos e na estruturação de novos, como as Unidades de Referência Tecnológica (URTs). “A rede é uma facilitadora, integrando projetos como Florestas Produtivas e o resgate de dados antigos. Sua governança ainda está em construção, mas seu papel é vital para evitar a fragmentação do conhecimento”, frisa Arco-Verde.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Na segunda-feira, 16, a Fecomércio-AM realizou a 6ª Reunião de Diretoria da entidade. Na oportunidade, o presidente da FecomércioAM, Aderson Frota, anunciou os últimos dados do Painel da Economia do Amazonas, elaborado pela entidade sobre o desempenho da atividade comercial, da construção civil e de serviços em 2025. Destaque à geração de empregos em que o setor responde 384.689 postos de trabalho, 68,4% de um universo superior a 562 mil postos. Seguido pela indústria (142,4 mil ou 25,3% do total), 30,1 mil da construção civil (5,4%) e 4,7 mil (0,9%) do setor agropecuário.
Em relação à arrecadação do ICMS no mesmo período, os resultados são igualmente positivos para o setor. O Painel da Fecomércio, consolidando dados da Sefaz/Am, mostra que o comércio e serviços mantêm a liderança, respondendo por 52,12% da arrecadação ante 47,88% do setor industrial. Quanto ao PIB estadual, dados do IBGE e Sedecti revelam que o setor responde por 44,44% do total, a indústria por 36,04%, enquanto os impostos e a agropecuária, respectivamente, por 15,86% e 3,66%. Diante de tais indicativos, Aderson Frota entende que o setor precisa de mais apoio do governo, advertindo que, mesmo sem projeções definitivas concretas, todos precisamos estar preparados para o enfrentamento dos efeitos da próxima estiagem, independentemente de sua dimensão.
O evento contou com a presença do governador Wilson Lima, que apresentou os resultados de desempenho alcançados pela economia estadual em relação ao PIB, faturamento e geração de empregos relativos ao período 2024/2025. Na oportunidade, anunciou a adoção de medidas visando dar maior suporte ao setor comercial, com destaque para o enfrentamento de eventuais impactos da enchente deste ano, que vem mantendo comunidades interioranas debaixo d’água, assistência social aos flagelados e estímulos às economias locais. Dentre as medidas imediatas, ressaltou a antecipação do pagamento da primeira parcela do 13º salário dos servidores estaduais, que vai injetar R$1,5 bilhão na economia. Cerca de 82 mil servidores ativos, além de aposentados e pensionistas, serão beneficiados.
Dados apresentados pela Fecomércio.
O governador anunciou também o repasse de R$225 milhões, de janeiro a maio, por meio do Auxílio Estadual Permanente, em favor de milhares de famílias afetadas pela cheia, recursos que igualmente contribuirão para o fortalecimento das atividades de comércio locais. Além do mais, objetivando mitigar eventuais impactos financeiros de nova estiagem, Wilson Lima determinou à Sefaz estudar a ampliação dos prazos para recolhimento de tributos tendo em vista aliviar a carga tributária e garantir a manutenção dos empregos. “Importante termos esse contato, mostrar o que o governo está fazendo e mais uma vez se colocar à disposição para enfrentar, principalmente, os extremos climáticos, a exemplo do que aconteceu em 2023 e 2024, anos em que enfrentamos secas severas, mas, a partir do diálogo pudemos amenizar o sofrimento do empresário e, também, dar melhores oportunidades para o consumidor”, destacou o governador do Estado.
A semana se fechou com a solenidade comemorativa dos 154 anos da Associação Comercial do Amazonas (ACA) realizada na última quarta-feira, 18, no auditório da FIEAM, quando foi empossado o novo terço da Diretoria Plena (2025–2028) e procedida a entrega da Medalha Mérito Empresarial J.G. Araújo aos homenageados deste ano: o secretário Serafim Corrêa, da Sedecti; a professora Michele Aracaty, presidente do Corecon AM/RR e os comerciantes Daniel Rodrigues Siqueira, Francisco Zumaeta Ramirez e Jorge de Souza Lima, presidente da Assembleia Geral da entidade. Segundo o presidente da ACA, Bruno Loureiro Pinheiro, “a entidade segue firme, representando milhares de empresas — pequenas, médias e grandes — com o mesmo propósito de quando nascemos: unir forças para transformar realidades e gerar crescimento econômico para todos”.
CODAM
O governador Wilson Lima anunciou, na terça-feira, 17, durante a 314ª Reunião do Conselho de Desenvolvimento do Amazonas (Codam), a aprovação de 36 projetos industriais com demanda de investimentos da ordem de R$1,29 bilhão e geração de 1.957 postos de trabalho. Ao presidir o encontro, Wilson Lima ressaltou a importância de um ambiente seguro para atrair investidores. “Estamos garantindo segurança jurídica e estimulando o setor produtivo. O Amazonas só cresce se houver retorno e confiança para quem investe”, afirmou.
Foto: Reprodução/Sedecti
De acordo com o secretário Serafim Corrêa, da Sedecti, o Polo Industrial de Manaus (PIM) segue como motor da economia estadual com faturamento, de janeiro a abril de 2025, US$12,9 bilhões, mantendo a média de 131,6 mil empregos diretos. Para 2025, os investimentos previstos no setor somam US$9,3 bilhões. Por outro lado, dados da Sedecti dão conta de que entre 2019 e 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) do Amazonas cresceu 56%, saltando de R$108,1 bilhões para R$169,6 bilhões. No mesmo período, o faturamento do PIM aumentou 95% e o número de empregos subiu 37%.
Além dos projetos aprovados no Codam, o Estado recebe investimentos estratégicos em áreas como energia e mineração, com destaque para o complexo industrial da Eneva, que se encontra à frente de projetos de exploração de gás e petróleo em Itacoatiara e Silves, com geração de mais de 1.000 empregos diretos projetados. Há a salientar que a Petrobras continua incrementando prospecções de petróleo em reservas on-shore, em terra firme, com previsão de 600 novas contratações em Coari e Tefé. Enquanto a Potássio do Brasil, dados divulgados pela empresa, já investiu mais de US$230 milhões em investimentos prospectivos visando a exploração das reservas de silvinita em Silves.
De acordo com informes da Sedecti, o PIM registrou faturamento de US$37,5 bilhões no acumulado de janeiro a dezembro de 2024, um crescimento de 6,4% em relação aos US$35,2 bilhões faturados no mesmo período de 2023. Entre os setores, os bens de informática lideraram com 23,03% do faturamento total, seguidos pelo setor eletroeletrônico (18,01%), duas rodas (17,89%) e termoplástico (14,78%); metalúrgico, químico e outros representaram, respectivamente, 9,89%, 8,83% e 7,56% do total. Os principais produtos fabricados no PIM incluem motocicletas (14,7%), televisores (11,5%), celulares (7,2%), placas e componentes eletrônicos (6,9%), garrafas e embalagens de vidro (5,9%) e aparelhos de ar-condicionado (6,1%). Em 2024, a média anual de mão de obra efetiva do Polo era de 123.489 trabalhadores. Há de se salientar que a evolução do emprego no setor industrial mostra crescimento constante nos últimos anos.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
A história do Boi Rasgadinhosurgiu no sigilo. Em 2010, um grupo de amigos, que alugava a quadra da Escola João Bosco, em Parintins (AM), para jogar vôlei, aproveitava o momento para brincar e dançar como itens dos bumbás famosos, Caprichoso e Garantido. Aos poucos, a brincadeira ganhou um novo sentido e passou a ser uma festa.
No início, o evento acontecia em uma chácara. De acordo com Shirley Marinho, parte do grupo não era assumido como LGBTQIA+, então, o evento acontecia de maneira sigilosa. “Para frequentar as festas do Rasgadinho, as pessoas precisavam receber um convite e não era permitido o uso de telefones dentro da chácara. Afinal, algumas pessoas não eram assumidas para a sociedade”, contou.
Evolução
Aos poucos e com a evolução do grupo, realizaram a primeira festa oficial do Boi Rasgadinho. A partir de então, os eventos de um dos bumbás da diversidade passaram a acontecer com maior frequência, principalmente, para angariar fundos visando o desenvolvimento da agremiação.
O Rasgadinho é um bumbá que carrega as cores lilás e branca como predominantes. Ele tem o corpo em forma humana e na testa possui uma borboleta pintada nas cores do arco-íris. Já o nome surgiu de uma brincadeira entre os amigos que gostavam de “se rasgar”, daí o nome ‘Rasgadinho’.
“Tudo surgiu de uma brincadeira, que evidencia a luta da comunidade LGBTQIA+. Os bumbás da diversidade são leves e divertidos. Que o mundo possa aprender com as nossas agremiações”, detsacou Shirley.
Criado em 2004 e batizado de Boi Boiola, o boi rosa choque nasceu da vontade de um grupo de amigos LGBTQIA+ de fazer parte do maior espetáculo a céu aberto da Amazônia, o Festival Folclórico de Parintins. Com batom, salto alto, cílios longos e muita irreverência, o Boi Boiola desfila pela Ilha Tupinambarana levantando a bandeira da inclusão.
No ano da criação, o espaço dentro dos bois oficiais, Caprichoso e Garantido, ainda era marcado por padrões rígidos de beleza, masculinidade e representação cultural. Sentindo-se à margem desse universo, Tarcísio Gonzaga e seus amigos decidiram dar vida ao que se tornaria o primeiro boi LGBTQIA+ da história da cidade.
“Surgiu como uma festa particular, mas os meus amigos acabaram sugerindo que abrisse para o público. No início, ficamos temerosos com represálias, porém, o boi Boiola conquistou as pessoas e vem crescendo a cada dia”, declarou Tarcísio.
Conhecido como “Boi da Grelhação”, o Boi Boiola possui reinterpretações de todos os itens de avaliação do Festival Folclórico de Parintins. Dentre os itens reinterpretados estão a Rainha do Folclore, a Cunhã-poranga, a Porta-estandarte, a Lenda gay, e o boi bumbá de batom, cílios e salto alto.
Boi Boiola, em Parintins, celebra a diversidade. Foto: Reprodução/Facebook-Boi Boiola
Toadas
A base das apresentações do Boi Boiola são as paródias: versões desconstruídas das toadas dos bois oficiais do festival reescritas com temas que envolvem o universo LGBTQIA+, enfrentamento ao preconceito e celebração da diversidade.
Curral Mundo Rosa
O curral do boi está localizado na chácara Mundo Rosa, na comunidade Aninga, em Parintins. Lá são realizadas as festas, os ensaios e as lives promovidas pela associação do Boi.
Além disso, o espaço também funciona como uma escola artística e de cidadania, pois é onde os integrantes compartilham entre si saberes que vão da maquiagem ao figurino, passando por corte, costura, design e coreografia.
Criado como uma forma de resistência, o boi boiola hoje simboliza inclusão, liberdade e afeto, provando ano após ano que a cultura é mais rica quando se acolhe.
Leia também: ‘Bumbá Arco-íris’: Boi Rasgadinho é um dos bois da diversidade parintinense; saiba qual é o outro
O governo do Peru aprovou a criação da Área de Conservação Regional (ACR) Velo de la Novia (Véu da Noiva), localizada em Padre Abad e Boquerón, na província de Padre Abad, no departamento de Ucayali. Essa área recebeu apoio do Serviço Nacional de Florestas e Vida Silvestre (Serfor) por estar localizada em um ecossistema frágil.
Nos últimos meses, a Serfor coordenou esforços para atender às solicitações de governos regionais para declarar Áreas de Conservação Agrícolas (ACRs) em ecossistemas frágeis.
Esse procedimento não estava incluído no protocolo de ação multissetorial assinado por cinco ministérios, que estabelece a estrutura de gestão para esses ecossistemas. Por isso, o Serfor coordena os mecanismos administrativos e regulatórios necessários como parte de um processo de desenvolvimento conjunto com o Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas (Sernanp), o Ministério do Meio Ambiente (Minam) e outras instituições peruanas.
O ACR e o frágil ecossistema são categorizados como zona de proteção e conservação ecológica de acordo com o zoneamento florestal do departamento de Ucayali e constituem áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade.
O modelo de gestão abrangente para ecossistemas frágeis promovido pela Serfor busca a coordenação com as partes interessadas locais que detêm concessões de conservação, concessões de ecoturismo, concessões de exploração de recursos não madeireiros e agora também com as ACRs.
Esta é a segunda ACR (Área de Conservação Regional) declarada em menos de um mês, com o apoio do Serfor, em ecossistemas frágeis. Em 6 de junho, por meio do Decreto Supremo 010-2025-MINAM, o Poder Executivo também aprovou a criação da Área de Conservação Regional Medio Putumayo Algodón, no departamento de Loreto.
Região de importância ambiental
O ecossistema da área do Véu da Noiva é composto por florestas de baixa montanha, florestas de terraços altos e florestas de montanha, e abriga uma riqueza de flora e fauna nativas, bem como espécies ameaçadas de extinção e endêmicas.
Foto: Reprodução/Serfor Peru
A Cachoeira Véu da Noiva é uma das principais atrações turísticas desta parte do país, e seus arredores são compostos por florestas úmidas e flora e fauna abundantes. Esta área abrange 14.399,75 hectares. Sua criação foi formalizada por meio do Decreto Supremo 011-2025-MINAM , publicado na seção de normas legais do Diário Oficial El Peruano.
Roraima tem pior índice de Democracia Ambiental entre os estados da Amazônia Legal. Foto: Caíque Rodrigues/Arquivo Rede Amazônica RR
Roraima é o estado da Amazônia Legal que menos oferece proteção a defensores ambientais, acesso à justiça, informação e participação da população na definição de políticas públicas, de acordo com o novo Índice de Democracia Ambiental (IDA). O estudo mapeou todos os nove estados da região e foi divulgado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) e a Transparência Internacional – Brasil no último dia 16.
O estado teve a pior nota geral da região: 20,8 pontos de um total de 100. Ele é seguido pelo Acre, que registrou 26,5, e pelo Tocantins, que apresentou 30. O Mato Grosso teve a melhor pontuação, 48,3.
O desempenho de Roraima foi classificado como ruim ou péssimo em todas as categorias do estudo. O índice mais crítico foi em relação a proteção para denunciantes, com apenas 0,8 pontos. De acordo com os pesquisadores, isso reflete “fragilidades institucionais e de políticas públicas”.
A Amazônia Legal é uma área delimitada em 1953 por lei federal com o objetivo de criar políticas para o desenvolvimento socioeconômico da região. É formada por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e por parte do Maranhão, num total de 772 municípios.
Dividido nas categorias de “Acesso à Informação Ambiental”, “Acesso à Justiça Ambiental”, “Acesso à Participação” e “Proteção de Defensores Ambientais”, o IDA mede o grau de compromisso das instituições públicas com a democracia ambiental e a proteção de direitos na região.
A maior pontuação de Roraima foi registrada na categoria de acesso a informação, que avalia se dados ambientais relevantes estão disponíveis e acessíveis ao público, com 39,4 pontos. Nas outras foram:
Acesso a Justiça ambiental: 29 pontos;
Acesso a participação: 13,7 pontos;
Proteção de defensores: 0,8 pontos.
Foto: Vanessa Lima/Rede Amazônica
No âmbito estadual, a Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Roraima (Femarh) disponibiliza uma plataforma com dados sobre multas aplicadas, autos de infração, licenças ambientais, de embarcação, pesca, autorizações de queimadas e de Cadastro Ambiental Rural. Além de orçamentos e boletins hidroclimáticos, de qualidade do ar e de focos de calor.
Há ainda um Grupo de Trabalho Social da Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação para a construção conjunta de espaços de governança e participação da sociedade. O objetivo é coordenar, discutir e consolidar o processo de concepção dos planos, programas e projetos, além de apoiar consultas públicas junto às comunidades roraimenses.
De acordo com o governo, a Polícia Militar também atua na proteção e prevenção ambiental por meio da Companhia Independente de Policiamento Ambiental (Cipa), com operações de repressão e atividades de cunho educacional voltadas para o cuidado com o meio ambiente.
Recomendações
Segundo o estudo, nenhum estado da Amazônia Legal foi avaliado com índice bom. Com 64,8 pontos, a União foi o único ente avaliado desta forma.
Para a coordenadora do Programa de Integridade Socioambiental da Transparência Internacional, Olivia Ainbinder, os resultados são preocupantes e demonstram um longo caminho para garantir o acesso à informação, participação e à Justiça, além da proteção de defensores na Amazônia.
“Em especial no ano em que o Brasil sedia a COP do Clima, esperamos que o diagnóstico contribua para que governos e demais instituições avaliadas realizem reformas e para que a sociedade demande mudanças”, disse Olivia.
O estudo ainda indica que as instituições públicas adotem medidas de urgência na Amazônia Legal. São elas:
Fortalecimento dos programas de proteção a defensores e defensoras ambientais nos níveis federal e estadual na Amazônia, com recursos adequados, e garantia de participação social, capacitação e protocolos de atuação das forças de segurança;
Disponibilização de informações ambientais essenciais em temas como exploração florestal, licenciamento, pecuária, regularização ambiental e fundiária, garantindo sua atualização, completude e formato reutilizável;
Criação e reforço de estruturas especializadas em meio ambiente, questões fundiárias e de povos indígenas e comunidades tradicionais no Judiciário, Ministério Público, Defensorias e polícias, com capacitação de seus membros e iniciativas de Justiça itinerante;
Aprimoramento de instrumentos de participação social em temas ambientais, como conselhos e audiências públicas, com inclusão, equilíbrio de representação e ampla divulgação das atividades.
Entre as diversas histórias que desfilam diante do público, destacam-se Yurupari, pelo Caprichoso, e Tapiraiauara, pelo Garantido, símbolos de força ancestral e poder protetor.
De 27 a 29 de junho, a arena de Parintins será tomada por emoção e encantamento. O Caprichoso apresenta o tema ‘É Tempo de Retomada’, evocando a sabedoria ancestral dos povos da floresta. Já o Garantido traz ‘Boi do Povo, Boi do Povão’, resgatando a memória do boi vermelho e branco, ícone da Baixa do São José.
Entre os 21 itens avaliados pelos jurados, um dos mais aguardados é o Item 17 – Lenda Amazônica, apresentado em cada noite da disputa. Nesse momento, os bois encenam, por meio de alegorias, coreografias, toadas e personagens, uma lenda tradicional da Amazônia.
Mais do que um espetáculo visual, essa apresentação é um mergulho na ancestralidade, revelando os mistérios da floresta e a força simbólica dos mitos que habitam o imaginário dos povos da região.
Yurupari, o legislador azul
“Ao som de flauta é festa, ô-ô-ô-ô, ao som de tambor, guerra, ô-ô-ô-ô. Ao som de flauta é festa, ô-ô-ô-ô, ao som de tambor, guerra, ô-ô-ô-ô…” 🎵
Imagem: Reprodução
O Caprichoso traz ao festival a lenda de Yurupari, o Legislador, figura mítica dos povos indígenas do Alto Rio Negro. Segundo a história, a jovem Ceuci, desobedecendo aos costumes de sua tribo, comeu a fruta sagrada do Pücã durante seu período fértil.
O sumo escorreu por seu corpo, e ela foi fecundada por Guaraci, o Sol. Expulsa da aldeia, Ceuci deu à luz um menino misterioso que desaparecia durante o dia e só aparecia à noite para mamar — um filho invisível, mas presente.
Quinze anos depois, o jovem retornou à aldeia, alto, forte e belo, e foi aclamado tuixaua — líder supremo. Numa época em que as mulheres detinham o poder, Yurupari restabeleceu o domínio masculino e instituiu uma nova ordem.
Reuniu os homens, criou rituais de iniciação, festas sagradas e preceitos rigorosos: jejum para purificação, fidelidade e resistência à dor.
Segundo seus ensinamentos, somente os fortes e obedientes alcançariam a imortalidade. As mulheres eram proibidas de ouvir suas palavras ou participar dos ritos, sob pena de morte. Até Ceuci, por desobedecer, foi transformada em pedra.
Neste festival, o Caprichoso apresenta Yurupari como símbolo da sabedoria implacável e da força que molda a tradição dos povos da floresta.
Ele não é apenas um personagem, mas a lei viva, o espírito que guia e disciplina. A evocação dessa lenda reafirma o compromisso do boi azul e branco com a memória indígena, transformando o ritual em espetáculo.
A Tapiraiauara perreché
“Drenando a seiva encantada, segredos que Tupã deixou. Quimera gigante encantada, estrondam gritos de pavor…” 🎵
Imagem: Reprodução
No Festival de Parintins deste ano, o Boi Garantido invoca o mistério da Tapiraiauara, criatura lendária das águas amazônicas, que vigia os rios com olhar feroz e alma ancestral. Nascida da fusão dos medos e encantamentos dos povos da floresta, ela carrega traços de anta e onça, misturando força bruta com astúcia selvagem.
É vista como um ser gigantesco e quimérico, com patas que nadam e orelhas que tremem à menor ameaça. Sua presença se anuncia antes mesmo que emerja, quando a água turva se agita e os olhos vermelhos brilham entre os galhos.
Segundo os antigos, essa guardiã vive nas sombras dos aningais e nas profundezas dos igarapés, afastada dos humanos — a não ser quando precisa defender os segredos da mata. Ataca sem piedade os caçadores cruéis, especialmente os que ferem fêmeas prenhas ou violam os ciclos da vida.
Dizem que ela vira canoas com o peso de um trovão, assombra os pescadores com um cheiro pútrido e cava a terra sob as árvores onde as presas tentam se esconder. Nem mesmo o topo das árvores é refúgio para quem desafia sua ira.
Mas há quem veja na Tapiraiauara mais do que terror — veem nela a força de Tupã encarnada, uma protetora dos rios e das espécies, símbolo de equilíbrio sagrado. Ao evocar essa fera ancestral, o Garantido canta não apenas a lenda, mas a luta pela preservação da Amazônia, onde o real e o mítico se confundem.
E quando o vermelho da arena se enche de fumaça e tambores, é a Tapiraiauara quem retorna — não como monstro, mas como espírito guerreiro da floresta viva.
Ao trazer Yurupari e Tapiraiauara para o centro do bumbódromo, Caprichoso e Garantido fazem mais que apresentar espetáculos: resgatam e preservam a alma da cultura amazônica. Em cada flauta, tambor, dança e alegoria, o Festival reafirma seu papel como guardião da memória indígena e da força mítica da floresta e dos rios. Neste final de junho, Parintins não será apenas palco — será altar de respeito, resistência e ancestralidade.
O veneno de uma espécie comum de escorpião amazonense pode dar origem a um potencial medicamento para o tratamento de um câncer que é uma das principais causas de morte em mulheres.
Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) identificaram na toxina do Brotheas amazonicus uma molécula com ação contra células do câncer de mama comparável à de um quimioterápico comumente usado no tratamento da doença.
Resultados preliminares do estudo, feito em colaboração com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), foram apresentados durante a FAPESP Week França, que aconteceu entre os dias 10 e 12 de junho na capital da região da Occitânia, no sul do país europeu.
“Conseguimos identificar por meio de um trabalho de bioprospecção uma molécula na espécie desse escorpião amazônico que é semelhante à encontrada em peçonhas de outros escorpiões e com ação contra as células do câncer de mama”, disse à Agência FAPESP Eliane Candiani Arantes, professora da FCFRP-USP e coordenadora do projeto.
Por meio de projetos apoiados pela FAPESP no âmbito do Centro de Ciência Translacional e Desenvolvimento de Biofármacos (CTS), situado no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, os pesquisadores vinculados à instituição têm se dedicado a realizar a clonagem e expressão de moléculas bioativas, como proteínas de peçonha de cobras cascavel e de escorpiões, por exemplo.
O trabalho já resultou no desenvolvimento de um produto patenteado pelo Cevap chamado selante de fibrina – uma “cola biológica” que utiliza uma serinoproteinase extraída de veneno de serpentes, como a Bothrops neuwiedi pauloensis e a Crotalus durissus terrificus, combinada com um crioprecipitado rico em fibrinogênio, extraído do sangue de bubalinos, bovinos ou ovinos.
Esse componentes são combinados no momento da aplicação e formam uma rede de fibrina que imita o processo natural de coagulação e cicatrização. O selante tem sido estudado para colagem de nervos, tratamento de lesões ósseas e até mesmo na recuperação do movimento após lesões medulares e está em avaliação em estudos clínicos de fase 3 – a etapa final de análise de um novo medicamento antes de ser aprovado para comercialização.
Mais recentemente, os pesquisadores conseguiram clonar e expressar outra serinoprotease de cascavel, denominada colineína-1, que apresenta um aminoácido diferente da toxina giroxina, extraída diretamente da peçonha de cascavel e usada na produção do selante de fibrina.
“Nossa ideia, agora, é obter essa serinoprotease por expressão heteróloga [em um fragmento ou gene completo de um organismo hospedeiro que não o possui naturalmente] em Pichia pastoris“, disse Arantes.
Por meio da expressão heteróloga nessa levedura isolada em 1950, na França, os pesquisadores também pretendem obter um fator de crescimento endotelial, chamado CdtVEGF, identificado na espécie de cascavel Crotalus durissus terrificus.
“Esse fator de crescimento favorece a formação de novos vasos. Se juntarmos ele com a colineína-1, podemos criar um selante de fibrina melhorado em relação ao que está sendo desenvolvido no Cevap, com possibilidade de ampliar a escala industrial, uma vez que pode ser obtido por expressão heteróloga”, comparou a pesquisadora.
Ainda por meio da expressão heteróloga, os pesquisadores identificaram em escorpiões duas neurotoxinas com ação imunossupressora. E em parceria com colegas do Inpa e da UEA constataram que o veneno do escorpião Brotheas amazonicus possui uma molécula bioativa, batizada BamazScplp1, com potenciais propriedades antitumorais.
Os resultados de testes do peptídeo em células de câncer de mama revelaram que ele apresenta resposta comparável ao paclitaxel, um quimioterápico comumente utilizado no tratamento da doença, induzindo a morte das células principalmente por necrose – um ação semelhante à de moléculas identificadas em outras espécies de escorpiões. “Também pretendemos obter essas moléculas por expressão heteróloga”, antecipou Arantes.
Novas terapias
Já em Campinas, no interior de São Paulo, um grupo de pesquisadores vinculados a um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID), financiado pela FAPESP – o Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera) –, pretende viabilizar no Brasil uma nova abordagem no combate da doença, que integra diagnóstico e tratamento direcionado.
A nova abordagem, iniciada na Alemanha, consiste em marcar com diferentes radioisótopos moléculas-alvo de vários tipos de tumores e utilizá-las tanto para o diagnóstico por imagem como para o tratamento.
“Dependendo do tipo de radiação emitida pelo isótopo que acoplamos à molécula – se pósitron ou gama –, conseguimos produzir imagens dela por meio de equipamentos de tomografia disponíveis no CancerThera. Ao documentarmos que um isótopo capta muito uma determinada molécula, podemos substituí-lo por outro que emite uma radiação mais intensa localmente e, dessa forma, tratar tumores”, explicou Celso Darío Ramos, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp) e um dos pesquisadores principais do CancerThera.
Um grupo de pesquisa básica do centro tem se dedicado a identificar novas moléculas e avaliar se elas se acumulam em determinados tipos de cânceres. Já uma equipe clínica tem se voltado a identificar novas aplicações para moléculas já conhecidas.
“Temos estudado moléculas conhecidas de cânceres hematológicos, principalmente mielomas múltiplos, além de outras não conhecidas de câncer de cabeça e pescoço, de fígado, sarcomas, de pulmão, colorretal e gástrico, entre outros. Além disso, também temos estudado câncer de tireoide, que já é tratado com material radioativo há muitos anos, o iodo radioativo, mas alguns pacientes têm resistência. Por isso, estamos tentando identificar outra possibilidade de tratamento, com um material radioativo diferente, para esses pacientes”, disse Ramos à Agência FAPESP.
Vacina contra o câncer
Outra nova abordagem em desenvolvimento por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) é uma imunoterapia contra o câncer baseada em células dendríticas.
Esse tipo de célula desempenha um papel único na fisiologia do sistema imunológico e é afetada em pacientes com câncer, explicou José Alexandre Marzagão Barbuto, professor do ICB-USP e coordenador do projeto.
“Há alguns anos se descobriu que é possível pegar monócitos de células do sangue de pacientes com câncer e transformá-las em células dendríticas, no laboratório. Mas as células dendríticas produzidas dessa forma são muitas vezes desviadas para induzir tolerância.”
A fim de contornar esse viés da função dessas células, os pesquisadores produziram células dendríticas de doadores saudáveis e as fundiram com as células de pacientes com câncer a fim de criar uma vacina para imunizá-los contra seus próprios tumores.
Os resultados obtidos em vários tipos de câncer e, mais recentemente, em pacientes com glioblastoma, sugerem que isso pode ser uma abordagem eficaz, uma vez que seja possível conduzir e controlar a resposta imune induzida pela vacina.
“O sistema imune interpreta essa vacina, baseada em células dendríticas de um doador saudável fundidas com as células do tumor do paciente, como um transplante e reage com violência”, afirmou Barbuto. “Fizemos os primeiros estudos em pacientes com melanoma e câncer de rim, cujos resultados foram muito bons, e outros com glioblastoma. Agora, estamos na expectativa de realizar um estudo clínico de fase 3.”
O avanço na compreensão e tratamento do glioblastoma também tem sido o foco de pesquisadores do Instituto Universitário do Câncer de Toulouse, que têm avaliado se a inteligência artificial aplicada à ressonância magnética pode determinar com precisão se pacientes em quimioterapia apresentam uma modificação no DNA que é útil para prever quanto tempo poderão viver e como responderão ao tratamento.
A modificação é conhecida como “metilação da região promotora da MGMT” e também pode afetar a maneira como a proteína MGMT é produzida e modificada.
“O estado de metilação da MGMT é um importante fator prognóstico, mas requer biópsias que não são necessariamente representativas de todo o tumor e podem variar na recidiva”, explicou Elizabeth Moyal, pesquisadora do IUCT-Oncopole e coordenadora do projeto.
A pesquisadora, em colaboração com o cientista da computação Ahmda Berjaoui, da IRT Saint-Exupéry, tem empregado técnicas de inteligência artificial já aplicadas no setor aeroespacial para superar essas barreiras.
“Desenvolvemos um modelo capaz de prever a sobrevida com alta precisão, variando de 80% a 90%, e que supera outras técnicas existentes”, afirmou Berjaoui.
“Pensa-se muito sobre a Amazônia, mas não se pensa com a Amazônia, né?”, questiona o antropólogo Rônisson de Oliveira. Natural de São Paulo do Coraci, uma comunidade da região central do Estado do Amazonas, o pesquisador acredita que muitas políticas públicas não atentam para a complexidade do território amazônico.
Levando esse incômodo para o centro da sua tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Oliveira esmiúça os conflitos em torno da pesca do pirarucu em sua localidade de origem.
No território, situado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (RDS Amanã), os planos de conservação, iniciados no início dos anos 2000, alteraram a relação entre o pirarucu e os pescadores. Parte deles se organizou em torno do manejo, aderindo a regras que visam à conservação dessa espécie.
Já outro grupo não fez o mesmo, perdendo o direito de pescar de forma legal. Diante desse panorama, uma das motivações do estudo, orientado pelo professor do IFCH Mauro Almeida, passou por entender como uma política pública atravessa as relações de uma comunidade.
“Focamos muito o resultado, mas não o impacto [dessas medidas] na vida das pessoas. A gente precisa adentrar nisso. Não para acabar [com a política de conservação], mas para fortalecê-la”.
O retorno ao Coraci
Aos 11 anos, Oliveira saiu de São Paulo do Coraci rumo à cidade de Tefé (AM) para dar seguimento a seus estudos. Na época, era possível cursar apenas até a quarta série do ensino fundamental na comunidade. Em Tefé, o então estudante sentia receio de falar que pertencia a uma comunidade tradicional. Depois de 20 anos de uma trajetória focada nos estudos, o antropólogo conta não sentir mais nenhuma necessidade de ocultar suas origens. Sua tese o fez reconectar-se com sua terra natal.
“Quando eu era adolescente, nem falava que era de lá. Hoje, não. Hoje eu me reconheço como do Coraci. Em qualquer lugar que eu vá e em que eu possa falar que eu sou do Coraci, eu vou falar. Essa tese me faz voltar ao Coraci em diversos sentidos: voltar à história da minha mãe, à história do meu pai, e ver o quanto essa luta deles é potente”.
A educação formal, para o antropólogo, propiciou uma mudança de rumos. “O estudo foi muito importante pra mim. Foi o motivo da minha saída e eu agarrei isso com muita intensidade porque vi uma possibilidade de transformação”.
Enquanto na comunidade, Oliveira gostava mais de brincar no rio ou nos campos com os primos e irmãos. Na cidade, voltou-se às dinâmicas escolares.
“Em Tefé, a vida muda. É uma cidade. Você fica muito mais isolado. Então eu me concentrei muito nos estudos. Sempre fui muito tímido, por isso uma das saídas na escola era justamente ser uma pessoa inteligente. Para mim, você precisa entender como é o funcionamento da escola e eu entendi isso muito cedo. Aí você começa a ser percebido como uma pessoa inteligente”.
Depois de cursar o ensino médio, Oliveira ingressou no curso de história na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), período em que se envolveu pela primeira vez com atividades de pesquisa. Na sequência, fez mestrado em sociologia na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com uma dissertação sobre questões de gênero. Um ano depois, ingressou no Instituto Mamirauá, uma organização social (OS) fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que atua com pesquisa voltada ao manejo de recursos naturais e ao desenvolvimento social.
Por meio do instituto, o antropólogo retornou ao Coraci como pesquisador, em um trabalho de levantamento sobre as práticas tradicionais dos pescadores da região. Nesse período, percebeu um conflito na comunidade entre os manejadores do pirarucu e os não manejadores, considerados invasores. “Eu tinha um incômodo por haver essa divisão. Pensava: ‘Por que as pessoas estão divididas? Por que estão brigando e dando tanta importância a isso?’”. Começou aí uma mudança de foco na sua trajetória de estudo.
Até 1998, data de criação da RDS Amanã, os invasores eram os pescadores vindos de fora. “Até então, não existiam esses invasores de dentro. Vinham barcos, os ‘peixeiros’, como a gente chama aqui, de outras regiões. Vinham de Manaus e até do Pará. Eram barcos grandes, tinham materiais que nem existiam pra cá, no Coraci. Esses eram os invasores até então. Quando se cria a unidade de conservação, começa-se a barrar a entrada de invasores vindos de fora, no final dos anos 90. Até que, em 2001, eles já não conseguem mais entrar.”
Em 1996, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) proibiu a captura do pirarucu devido à diminuição da população da espécie, um fenômeno associado à pesca indiscriminada. Dois anos depois, começou a ser implementado o plano de manejo, que estabeleceu regras, como uma cota de peixes adultos para a captura, a padronização do armazenamento e do transporte e a delimitação das áreas de pesca.
No Coraci, os manejadores se organizaram na Associação de Produtores do Setor Coraci (APSC). “A partir daí, os invasores de dentro começaram a existir, porque nem todos os homens ingressaram no grupo”, conta Oliveira.
Os motivos para não aderir ao manejo ou para o abandono da prática, segundo a pesquisa, são diversos, incluindo a dificuldade de lidar com a burocracia e questões religiosas. Mas isso não significa que os invasores oponham-se às medidas de conservação da área, incluindo aquelas relativas ao pirarucu. “Essas pessoas ainda têm um compromisso com o território porque elas moram ali. Mesmo não cumprindo todos os acordos que têm que ser cumpridos, elas não querem que o território acabe.”
Foto: Jefferson Christofoletti/Embrapa
Invasores e manejadores
Para se aprofundar no conflito entre os invasores e os manejadores, Oliveira viajou até o Coraci dez vezes, permanecendo na região de no mínimo 5 a um máximo de 30 dias. “Tu garante?”, perguntavam-lhe quando participava de atividades nas roças ou nos lagos, querendo saber se ele aguentaria ficar na comunidade. Nesse retorno, houve um processo de adaptação. “Eu sempre afirmava que garantia, mas, para de fato garantir, foi essencial experimentar, reviver e me readaptar. Assim, tive febre após tocar em uma árvore infestada de tachi, uma espécie de formiga que habita certas árvores na região. O mesmo ocorreu quando fui picado por uma caba, uma vespa noturna”, relata na tese.
Durante os períodos de estadia em São Paulo do Coraci, realizou 19 entrevistas, participou de dez reuniões e analisou 53 atas da APSC (lavradas de 2001 a 2010), 18 relatórios do promotor comunitário do Coraci (datados de 2001 a 2002) e 90 documentos do Instituto Mamirauá. Além disso, participou das atividades de manejo com os pescadores.
Apesar das dificuldades enfrentadas no processo de readaptação, o fato de estar em um ambiente familiar contribuiu com a pesquisa, já que Oliveira tinha acesso às rodas de conversa, mesmo as mais informais. A principal dificuldade foi a comunicação com o grupo dos invasores, também porque esse grupo não se reconhece como tal.
“Eles não se veem como invasores. Esse é um dos primeiros pontos que eles faziam questão de colocar: eles sabem que são categorizados como invasores, mas não aceitam porque existe muito estigma”, afirmou.
Apesar da dificuldade para manter contato com esse grupo, Oliveira, em um momento de andanças pelo Coraci, ouviu um relato importante a fim de entender essas pessoas. O antropólogo pegou carona em um barco com um vereador, que precisava fazer uma parada para uma reunião na comunidade Ebenézer – essa comunidade se desligou do Coraci em 2007 para buscar ser reconhecida como território indígena. Lá, durante o almoço, uma pessoa que não o conhecia afirmou: “Eu dou razão para quem é invasor porque ninguém aqui tem uma criação com viveiro, por aqui, tudo é coisa de Deus. Os caras [os invasores] têm direito de tirar”.
Segundo Oliveira, a franqueza revelou-se essencial para que compreendesse um dos motivos a justificar as invasões.
“Ele não teve pudor de falar. Não julgo se é certo ou errado. Ele disse o que estava pensando. E, para mim, foi extremamente importante ele ter essa posição porque talvez seja uma posição também coletiva. Só que as pessoas não vão falar disso para mim, falar que o peixe é da natureza e que, então, todo mundo tem direito de pegar.”
As concepções religiosas também integram o rol das questões investigadas por Oliveira em entrevistas com lideranças evangélicas e católicas. Segundo uma de suas hipóteses, se entre os católicos do Coraci há uma adesão massiva ao ideal de bem comum e de conservação ambiental, entre os protestantes evangélicos há uma adesão menor. Em suas interações, conta o pesquisador, ouviu muitas vezes os católicos acusarem os evangélicos de seguir a filosofia de “o que Deus deixou não acaba”. Portanto, para essas pessoas, não haveria necessidade de preservar a natureza. Além disso, constatou, a maioria dos homens evangélicos não integra o grupo de manejo.
No entanto, nas entrevistas realizadas, não houve registro desse tipo de opinião, talvez pelo fato de o autor da tese ter uma relação de parentesco com lideranças ligadas ao manejo, como Oliveira mesmo cogita. Além disso, “[os evangélicos] carregam vários estigmas negativos, inclusive em relação à conservação e ao manejo dos recursos. Então têm muita dificuldade de abordar o tema, que é muito delicado para eles”.
Laços prevalecem
Os debates em torno da invasão e das regras de manejo por vezes são acalorados. Um dos casos narrados pelo antropólogo diz respeito a um pescador que deixou de participar das atividades da associação por mais de seis meses e, portanto, acabou expulso após envolver-se em discussões em uma reunião.
Há também casos em que o pescador decide sair da associação por conta própria. Um dos entrevistados, por exemplo, contou a Oliveira ter se afastado devido ao excesso de burocracia envolvida no funcionamento do grupo.
Discussões acontecem também entre os próprios manejadores. O antropólogo cita, na tese, uma acusação feita entre colegas. “Tu anda com o arpão armado, na tua canoa. Não tô dizendo que tu arpoa pirarucu, mas eu já vi tu andar com o arpão armado”, disse um pescador a outro, dando a entender que o colega pescava pirarucu fora do manejo.
No entanto, mesmo os embates mais duros, afirma Oliveria, acabam arrefecendo devido às relações de parentesco e de vizinhança. “A coisa às vezes parece que vai explodir e gerar uma grande confusão e que ninguém mais vai conseguir se falar. Realmente ocorrem, às vezes, embates fortíssimos, mas eles vão se dissolvendo a partir de outras conexões, permeadas por essa relação de parentesco e vizinhança e também pela dependência, porque as pessoas dependem umas das outras por estarem naquele território”, resume.
O conceito “grafismo da sustentabilidade” foi desenvolvido na tese para designar os diversos fios que compõem o ideal de conservação no Coraci. Na comunidade, há um grupo de mulheres que faz artesanato com talas (fibras naturais), formando grafismos. As peças inspiraram a formulação. A ideia de Oliveira, ao pensar nas diversas linhas que atravessam o território, baseia-se também nas formulações do antropólogo Tim Ingold.
No Coraci, explica o antropólogo, existem talas perpassando o ideal da sustentabilidade. As talas referem-se às ações institucionais e aos projetos que conectam instituições e pessoas, formando um teçume (palavra local para designar o trançado de fibras).
“Comecei a pensar teoricamente e refletir que o ideal da sustentabilidade foi construído. E como ele se constrói? Institucionalmente com estas duas grandes instituições: o Estado e a Igreja Católica. Primeiro chega a Igreja Católica com a ideia da ecologia e começa a tecer, pensando no grafismo, as primeiras talas em torno desse ideal de conservação que existe no Coraci.”
Nas ações da Igreja, conta, seu pai esteve diretamente envolvido, atuando na Pastoral da Criança e passando a ser uma referência na defesa da criação de uma reserva. Oliveira lembra de muitas reuniões que participou com a família na época e dos debates para a criação da RDS e ressalta que foram discussões acaloradas, com uma forte participação da comunidade e a liderança proeminente de seu pai.
A criação da reserva, afirma, também mostra a ação do Estado na região. “Aí vai se construindo esse grafismo da sustentabilidade. Na minha cabeça, existe um desenho, um grafismo tecido ali, formado a partir dessas instituições e das pessoas. Elas também foram tecendo esse grafismo da sustentabilidade, e hoje elas são o próprio grafismo.”
Um peixe visto como gente
A tese de Oliveira constitui um estudo multiespécie, em que seres humanos e seres não humanos figuram como protagonistas. Aos poucos, o pesquisador conta ter percebido que o peixe representava um elemento central da tese, ao lado dos pescadores. “Na dinâmica do conflito, estavam em embate os manejadores e os invasores e eu estava olhando só para eles. Mas, de repente, percebo que o pirarucu tem uma dinâmica própria e que ele não vai atender nem aos manejadores e nem aos invasores, mas sim à sua própria sobrevivência.”
Além disso, a forma como a comunidade fala do peixe indica a proximidade entre esse ser não humano e os seres humanos. “As pessoas falam do pirarucu como se ele fosse gente, colocando-o no mesmo nível da linguagem, como diz a [antropóloga] Manuela Carneiro Cunha.”
O pirarucu é considerado um ser inteligente, um “sujeito pensante e atuante”. Devido a isso, os manejadores, por exemplo, percebem, observando o comportamento do peixe, ter havido uma tentativa de pesca ilegal. “Eles [os peixes] ficam mais ariscos e arredios. O pirarucu se mostra muito devido à necessidade de vir respirar fora da água. Se um pescador perseguiu o pirarucu e os outros peixes perceberam, eles vão ficar mais longe”, conta.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Liana Coll