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Livro póstumo de Dom Phillips propõe esforço coletivo para salvar a Amazônia

Uma foto rara do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira juntos na cidade de Tabatinga, no Amazonas, a caminho do Vale do Javari em 2018. Foto: Gary Calton

“Não se pode parar um importante trabalho jornalístico e de qualidade”. Essa foi a principal motivação de Alessandra Sampaio, viúva do jornalista Dom Phillips, para unir forças com os amigos do marido e finalizar o livro que ele começou a escrever antes de ser assassinado em 2022. “Logo que aconteceu a tragédia, ficou bem claro para mim e eu acho que também com os amigos jornalistas [do Dom], de quem eu tive muito suporte, que era importante finalizar o livro”, diz Sampaio em entrevista por vídeo para a Mongabay.

Em 5 de junho de 2022, Phillips e o indigenista Bruno Pereira foram brutalmente assassinados na região do Vale do Javari, na Amazônia brasileira. Phillips investigava a pesca ilegal na área, numa viagem que, segundo Sampaio, seria a penúltima para concluir seu livro.

Próxima à tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a região do Vale do Javari é uma área dominada pelo crime organizado, tráfico de drogas, extração ilegal de madeira e caça predatória. É a segunda maior terra indígena do Brasil — com 8,5 milhões de hectares, duas vezes o tamanho da Suíça — e abriga cerca de 17 povos indígenas isolados, com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior.

Leia também: Conheça o Vale do Javari, terra indígena com maior concentração de povos indígenas isolados do mundo

A capa da edição brasileira do livro de Dom Phillips, que será lançado no Brasil em 18 de junho.

Três anos depois, o livro Como salvar a Amazônia — Uma busca mortal por respostas, de Phillips com colaboradores, será lançado a partir de 31 de maio no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil, com eventos nos três países.

“Emocionalmente, tem vários sentidos para mim. Primeiro porque é como eu realizar a morte do Dom, porque ali ele ainda escrevia, ele ainda estava vivo”, diz Sampaio, em lágrimas. “E ele me contava algumas histórias que estão no livro, então eu volto no tempo e eu reconheço ali toda a paixão do Dom pela pela Amazônia, a curiosidade dele”.

Para ela, o livro resume a essência e o apelo ao trabalho coletivo e colaborativo para salvar a Amazônia, destacado pelo próprio autor na introdução: “As pessoas precisam aprender com os povos indígenas que só o pensamento coletivo, comunitário — e não a ganância individual — pode salvar a Amazônia. Precisamos nos unir, não nos separar”, escreveu Phillips.

Respeitando o tempo do luto, Sampaio reuniu todo o material que Phillips havia deixado: computador, HDs externos e seus “famosos caderninhos” com as anotações dele. Ele era muito organizado, ela diz, com alguns parágrafos bem definidos; outros ainda em forma de ideias.

“Naturalmente, esse grupo foi sendo articulado e foi muito bom porque eu me senti muito amparada pela experiência, pelo contato cuidadoso deles, pelo entendimento de que eles iam contribuir com o livro do Dom, mas o livro era do Dom. Foi muito bacana”, diz Sampaio. Essa iniciativa também acompanhou uma campanha de solidariedade e de financiamento coletivo para concluir o livro, acrescenta.

Phillips tinha uma “capacidade muito rara de escuta” e abertura para conversar com quem defendia a floresta e também com quem atuava em atividades ilegais, “tentando não pré-julgar”, algo que era “uma enorme inspiração”, segundo Sampaio. Ele também era muito sociável e “conseguia se conectar de uma forma tão bonita às pessoas”. Para ela, o formato colaborativo do livro é a “é a essência da própria afirmação e da própria crença do Dom”.

Leia também: Bruno e Dom: dois anos após o crime, MPF atua para punir responsáveis e melhorar a segurança no Vale do Javari

Phillips deixou cerca de um terço do livro escrito. “Os outros capítulos, por mais que tenham seguido as ideias do Dom, cada um tem um estilo, tem uma vivência, então achei assim um apanhado muito bonito de outras formas de escrever, de outras experiências, experiências, outros estilos”.

Mas, ela admite, não foi fácil ler o livro inteiro. “Quando acabam os capítulos dele, eu demorei um tempo para conseguir ler o livro, foi um choque também”.

Continuidade do trabalho de Phillips e coragem de Sampaio

Em junho de 2022, Phillips e Pereira foram mortos a tiros em uma área remota do estado do Amazonas, onde investigavam pesca ilegal e caça predatória. Seus corpos foram encontrados dez dias depois.

Para Beatriz Matos, viúva de Pereira, a ideia de que a morte de Phillips teria sido um “efeito colateral” do trabalho de Bruno não é verdadeira. Para ela, ambas as mortes representam a “interrupção de um trabalho de proteção, de defesa da Amazônia, de defesa dos povos indígenas”. Ela destaca que o trabalho de Phillips era “muito importante, assim como o do Bruno”, por ser um jornalista que mostrava tudo isso ao mundo.

O lançamento do livro, diz Matos, representa “a continuidade do trabalho do Dom, representa a coragem da Alessandra, representa a força da Alessandra, representa a força do trabalho do Dom”. Para ela, “é muito importante que esse trabalho não seja interrompido. É muito importante que as histórias que ele estava contando sejam contadas”.

Matos diz que o livro também está diretamente conectado com o trabalho de Bruno e também com todos que trabalham para defender a Amazônia e os povos indígenas. “Eu sei que vai ter essa dimensão do trabalho do Bruno ali sendo mostrado também. É super importante”, diz ela à Mongabay em uma entrevista em vídeo. “A Alessandra sempre fala que, desde que o Dom conheceu o Bruno, que ele ficou muito impressionado com Bruno, que o Dom sempre falava do Bruno”.

Por outro lado, diz Matos, Pereira também respeitava muito o trabalho de Phillips, que era uma pessoa importante para ele. Ela se lembra das últimas palavras de Pereira por telefone antes da viagem fatal de barco: “Eu terminei minha missão que eu tinha que fazer, mas eu vou acompanhar o Dom, ele vai fazer umas entrevistas e tal, mas vão ser três, quatro dias só e aí eu volto”.

“O que eu sei é que [Phillips] era um cara importante para ele [Pereira], um cara tão importante que ele fez questão de ele mesmo acompanhar o Dom na reportagem”, diz Matos. Pereira cursou jornalismo, acrescentou, mas abandonou a universidade para ir trabalhar no interior do Amazonas, antes de ir para Funai. “Ele tinha também uma percepção muito clara disso, da importância de procurar bons repórteres, de falar com a imprensa. A gente brincava que ele tinha essa coisa de fazer uma certa assessoria de comunicação dos isolados”.

Matos, antropóloga com mais de 20 anos de trabalho de campo no Vale do Javari — onde conheceu Bruno — diz que também “se vê” no livro. “Eu acho que tem muita coisa do Bruno ali, acho que também do ponto de vista do meu trabalho também. Eu também trabalho na região há muitos anos, então eu também me vejo. Vai ser incrível, assim, estou doida para ler”.

Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, lançou o Instituto Dom Phillips no Vale do Javari em 29 de maio de 2024. Imagem cortesia de Fernanda Macedo/Instituto Dom Phillips.

Continuando o legado de Phillips e Pereira

Tanto Sampaio quanto Matos afirmam que estão comprometidas em continuar o legado de seus maridos.

Desde fevereiro de 2023, Matos coordena o departamento de proteção territorial e de povos indígenas isolados e de recente contato no Ministério dos Povos Indígenas (MPI). “O trabalho, o desafio também mantém a gente viva”, diz ela. Pereira trabalhou por muitos anos na Funai, coordenando o departamento de indígenas isolados e de recente contato.

“A gente se conheceu e se apaixonou lá [ [no Vale do Javari] e por causa de lá também”, diz Matos. “Eu e Bruno, a gente fez uma parceria de vida, de tudo e de trabalho também, sobretudo nessa questão [do Vale do Javari]. Nossos filhos têm nomes de indígenas de lá, a gente tem uma casa lá”.

Ela conta que assumiu o cargo no MPI para continuar defendendo essa causa: “Vai ser uma oportunidade incrível para a gente fazer tudo que a gente estava planejando antes. E quando eu falo a gente, é eu e Bruno”. Tal decisão, acrescenta, também inclui a continuidade do trabalho de parceiros da Funai e de outros órgãos governamentais e do Observatório dos Povos Isolados (OPI). “A gente a gente assumiu esses postos no no governo pensando num trabalho coletivo, num projeto do que a gente vem fermentando há muito tempo. Com certeza, se o governo estivesse vivo, ele estaria na Funai ou no Ministério dos Povos Indígenas”.

Em 29 de maio de 2024, Sampaio lançou o Instituto Dom Phillips, uma ONG dedicada a amplificar as vozes da Amazônia e o saber dos povos originários, por meio da educação. “O caminho que a gente escolheu foi o caminho da educação, nesse movimento de tentar engajar as pessoas pela mudança de pensamento, mudança de consciência”, diz Sampaio. “O compromisso do Instituto Dom Phillips é seguir com o legado dele, tentando ampliar esse legado — porque ele não teve tempo para fazer isso — ecoando as vozes da Amazônia e o conhecimento dos povos, o conhecimento ancestral dos povos e dos defensores da Amazônia”.

Uma foto rara do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira juntos na cidade de Tabatinga, no Amazonas, a caminho do Vale do Javari em 2018. Imagem © Gary Calton.

De acordo com Sampaio, o instituto também está alinhado com a concepção inicial do livro de Phillips de focar em soluções para proteger a Amazônia a partir da própria floresta. Ela conta que Phillips sempre voltava “encantado” de suas viagens de reportagem, dizendo que se as pessoas conhecessem a Amazônia, toda a sua beleza, seu potencial e toda a sabedoria de seus povos, elas se conectariam natural e efetivamente com a Amazônia e se engajariam na causa da proteção. “Esse é o caminho que a gente quer navegar com o instituto: ter mais uma frente para trabalhar esse desconhecimento que ainda se tem sobre a Amazônia, porque a gente só pode cuidar do que a gente conhece”.

O primeiro projeto do instituto, “Amazônia, coisa linda”, leva o nome da última publicação de Phillips nas redes sociais. O projeto está sendo implementado no Vale do Javari com jovens comunicadores da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA).

Sampaio diz estar profundamente impressionada com a cosmovisão dos povos indígenas, que é outra visão de mundo. “Eu acho que, finalmente, que eu estou vivendo tudo isso que eu vi na Amazônia através dos olhos do Dom. Eu não conhecia a Amazônia antes da morte do Dom. E ele sempre voltava muito encantado. Então, esse encantamento eu estou podendo viver agora. Apesar dessa tragédia, eu tenho o privilégio de ter esse contato, essa confiança dos povos, não só amazônicos, mas das comunidades tradicionais e fazer essa troca que a gente tem muito o que aprender com eles”.

‘Tio Dom e tio Bruno’

Em novembro de 2024, autoridades concluíram as investigações, apontando Ruben Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, como mandante do duplo homicídio. Ele é acusado de financiar e armar os executores para matar Phillips e Pereira e ocultar seus corpos. Villar nega as acusações.

Desde o início da investigação, outras oito pessoas foram indiciadas. Três réus — Amarildo da Costa de Oliveira (“Pelado”), Jefferson da Silva Lima e Oseney da Costa de Oliveira — foram reunidos em um único processo. Em setembro de 2024, Oseney foi excluído do processo por decisão judicial, e o Ministério Público Federal recorreu.

Seguindo o sonho de Dom Phillips, sua viúva Alessandra Sampaio diz que o principal objetivo tanto do lançamento do livro quanto do Instituto Dom Phillips, lançado no Vale do Javari há um ano, é dar esperança e tornar protagonistas as pessoas que vêm trabalhando há anos e desenvolvendo projetos incríveis para proteger a Amazônia. Imagem cortesia de Fernanda Macedo/Instituto Dom Phillips.

Segundo o advogado de Sampaio, Rafael Fagundes, Pelado e Lima podem ir a júri popular ainda este ano “se não tiver nenhum fato extraordinário”. Já o caso de Oseney é imprevisível.

“Eu acredito na justiça, realmente. Eu acho que esse caso vai ser julgado exemplarmente, porque tem que ser. O tempo da justiça, infelizmente, não é o tempo das famílias, [e] não sou só eu. Mas eu sigo acreditando na justiça, de que os responsáveis vão ter que responder”, diz Sampaio. E justiça, acrescenta, também está ligada à proteção das pessoas que continuam sendo ameaçadas na região do Javari.

Matos concorda. Para ela, a justiça é mais lenta que o esperado, mas é fundamental que o crime não fique impune não só do ponto de vista da justiça assim, mas também que o crime não seja esquecido porque é “um absurdo que não pode se repetir”.

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O sonho de Sampaio é “continuar firme e forte” através do Instituto, para levar adiante o legado de Phillips. “Acredito muito nesse movimento educacional para mudar a consciência das pessoas”, diz. “O sonho é esse, conseguir através do instituto inspirar as pessoas para que elas tenham mais vínculo, mais afetividade, se entendam como natureza. A gente não está separado dela, a gente é parte dessa rede de vida”.

Mesmo em meio a toda dor e tristeza após a tragédia, ela diz que alguns fatos positivos realmente a tocaram, especialmente o recebimento de mensagens de crianças no Brasil e no exterior mencionando “tio Dom e tio Bruno como protetores da floresta” e como eles se tornaram símbolos de proteção da Amazônia. “Como isso impactou muitas crianças!”.

Phillips e Pereira foram mortos no Dia Mundial do Meio Ambiente. Sampaio diz que há um movimento nas escolas falando sobre “tio Dom e tio Bruno” como “guardiões” que morreram para defender essa causa. “Acho isso super bonito, e que marcou uma geração. A educação vem por esse caminho, que impactou tanto as crianças, e que a gente pode usar o nome do Dom e do Bruno também para trazer esse entendimento da importância da natureza, do que a gente está preservando, cuidando”.

Cruzes em memória de Bruno Pereira e Dom Phillips no local de seus assassinatos no Vale do Javari. Em 5 de junho de 2022, eles foram brutalmente assassinados enquanto investigavam a pesca ilegal e a caça predatória na região. Imagem © Jon Watts.

Matos diz que seu sonho é que seus filhos cresçam “não muito traumatizados e felizes” e possam construir uma vida boa em um lugar agradável, em um ambiente melhor, com diversidade cultural e com a Amazônia em pé.

Ela diz que também sonha que seus filhos aprendam com os povos indígenas tanto quanto ela e Pereira aprenderam. Para ela, esse será o maior legado do pai, pois os filhos tinham apenas 2 e 3 anos de idade quando Pereira morreu. “Tudo que eles vão ter do pai é o que as outras pessoas falam, é o legado do trabalho dele”.

Ao trabalhar pelas terras indígenas e pelos povos indígenas, diz Matos, se está trabalhando pelo futuro do país. “Quando a gente trabalha para as terras indígenas, para os povos indígenas, eu estou trabalhando para o futuro dos meus filhos. Eu quero que eles cresçam em um lugar bom, com diversidade cultura”, diz. “Eu só quero o bem dos meus filhos. Mas o bem dos meus filhos eu entendo que está ligado a tudo isso”.

Segundo Matos, o MPI promoverá um evento em Brasília no dia 5 de junho, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, em homenagem a Phillips e Pereira.

Seguindo o sonho de Phillips, Sampaio diz que o principal objetivo do lançamento do livro e do instituto é dar esperança e tornar protagonistas as pessoas que vêm trabalhando há anos e desenvolvendo projetos incríveis para proteger a Amazônia. Ela se lembra das palavras de Phillips para ela: “Quando eu converso com algumas pessoas, elas já estão muito desesperançadas, como se não tivesse mais o que fazer. Então, abrem mão de se engajar no movimento de proteção porque acham que não tem mais jeito. E tem jeito. Todo mundo pode fazer alguma coisa. Todo mundo pode se comprometer de alguma forma”.

O livro foi finalizado depois de uma campanha de financiamento coletivo e trabalho colaborativo para escrita, revisão e tradução. Os co-autores abriram mão dos direitos autorais; toda a receita das vendas será destinada a Alessandra Sampaio.

Lançamento:

Reino Unido: 31 de maio a 5 de junho

EUA: 9 a 14 de junho

Brasil: 18 de junho, na Feira do Livro do Pacaembu, em São Paulo

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*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Karla Mendes

Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e é membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center. Ela é a primeira brasileira e latinoamericana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no Instagram, LinkedInThreads𝕏Bluesky.

Amapá terá biofábrica do pescado e plano estratégico para fortalecer a pesca e aquicultura

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Ministro Waldez Góes apresentou diagnóstico da pesca e aquicultura durante 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá. Foto: Reprodução/MIDR

O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), Waldez Góes, participou no dia 30 de maio do encerramento do 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá – Desenvolvimento Responsável e Sustentável, onde foi apresentado o Diagnóstico e Plano de Desenvolvimento da Pesca e Aquicultura do Amapá, uma iniciativa do programa Rotas de Integração Nacional, do MIDR.

O ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, o secretário nacional de Desenvolvimento Regional e Territorial do MIDR, Daniel Fortunato, e o secretário nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros do MIDR, Eduardo Tavares, também estiveram presentes no evento.

Segundo o ministro Waldez, o Governo Federal vai construir a biofábrica do pescado e da aquicultura no município de Tartarugalzinho, no Amapá, para servir todo o estado.

“Lá vai ser possível produzir alevinos, desenvolver tecnologias apropriadas para todos aqueles que atuam no mar, no rio, nos igarapés e na piscicultura”, disse o ministro. “Esse evento potencializa e reafirma os compromissos do governo do presidente Lula com o Amapá e, principalmente, com aqueles que produzem”, complementou.

Leia também: Pugmil, Tartarugalzinho, Feliz Natal: saiba a origem dos nomes “diferentões” de 27 cidades da Amazônia Legal

Segundo o secretário Daniel Fortunado, o documento apresentado é importante para ajudar a enxergar mais possibilidades para o setor do pescado no Amapá.

“Esse diagnóstico representa os pescadores e os aquicultores. Sem o trabalho desse importante setor, não teríamos essa análise. Agora, com esse relatório, o Governo Federal e os governos estadual e municipais podem unir esforços em um direcionamento para potencializar as entregas e as políticas para esse setor que trará grandes oportunidades para o desenvolvimento do Amapá”, declarou.

O ministro André de Paula destacou o trabalho transversal do Governo Federal para garantir melhores condições para os pescadores. “Esse é um trabalho conjunto entre o MIDR, o Ministério do Turismo, o Ministério da Pesca e Aquicultura e muitos órgãos públicos que se somaram. Eu tenho certeza absoluta que esse esforço que foi feito aqui vai fazer a diferença. Nós vamos fazer uma pesca e uma aquicultura no Amapá cada vez mais forte e sustentável”, afirmou.

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O diagnóstico produtivo das cadeias da pesca e aquicultura no Amapá buscou proporcionar o melhor entendimento sobre a produção de pescado no estado. Dessa forma, o documento apresenta uma caracterização das atividades desenvolvidas no decorrer dos meses de julho de 2024 a janeiro de 2025, nos 16 municípios do estado, para entender os aspectos sociais e produtivos das atividades de pesca e aquicultura, além de todas as infraestruturas de apoio à produção e à comercialização de pescado.

O documento reúne dados socioeconômicos, produtivos e de infraestrutura, e tem como objetivo subsidiar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da pesca e aquicultura no estado, promovendo o desenvolvimento da economia azul e a inclusão produtiva nas comunidades ribeirinhas e costeiras.

Pescado em feira no Amapá. Foto: Maksuel Martins/GEA

Confira abaixo alguns dos principais resultados levantados pelo Diagnóstico da Pesca e Aquicultura do Amapá:

  • A profissão é exercida, em sua maioria, por profissionais do sexo masculino, na faixa de 50 a 74 anos, com pouca ou nenhuma escolaridade. A maioria está inserida no seguro-defeso e com renda média mensal de 1 salário mínimo, para 42% dos pescadores;
  • No âmbito da geração de emprego e renda, a atividade é responsável por empregar aproximadamente 15 mil pescadores no estado;
  • A cadeia da pesca e da aquicultura pode se tornar uma importante fonte de receitas, desde que sejam trabalhados ordenamento, monitoramento e controle da pesca, os mercados paralelos, a informalidade dos profissionais do setor. As expectativas apontam que a cadeia produtiva do pescado no estado poderá representar 9% do PIB do estado do Amapá em 2035 (Abbud et al., 2024);
  • O amapaense consome em média 25 kg de pescado por ano, tendo uma das maiores médias do país;
  • Os principais produtores de pescado da pesca artesanal do Estado são os municípios de Santana e Macapá, e a principal espécie capturada é Piramutaba, com 13% das 18 mil toneladas de produzidas;
  • A aquicultura é o segmento produtivo com maior viabilidade para crescimento no estado. Em 2024, a produção representou 1.200 toneladas, tendo a espécie Pirapitinga como a mais cultivada. O município com maior produção na aquicultura foi Macapá, com o cultivo de Pirapitinga, Tambatinga e Tambaqui;
  • O estado é um grande exportador de pescado, com mais de 11 mil toneladas, o que comprova a pujança da atividade de pesca artesanal.

Leia também: Pesquisa aponta que pesca artesanal na Amazônia é realizada sobretudo por homens de baixa escolaridade

Plano de Desenvolvimento

O diagnóstico realizado permitiu a proposição de um Plano de Desenvolvimento da Pesca e Aquicultura para o Estado, analisando os entraves ao desenvolvimento da atividade no Estado, mapeando as forças existentes na cadeia do pescado, identificando os riscos e ameaças nos diversos elos das cadeias, conjuntamente com os principais atores estaduais.

No planejamento apresentado foi possível propor as iniciativas regionalizadas de curto, médio e longo prazo, com ações, parceiros potenciais, objetivos, metas e recursos, na busca das melhores alternativas para o desenvolvimento da pesca e aquicultura no Estado do Amapá.

Microcrédito

Em paralelo a apresentação do diagnóstico, o MIDR realizou um mutirão de microcrédito para pequenos produtores e pescadores artesanais, em parceria com a Caixa Econômica Federal. A iniciativa oferece linhas de financiamento com condições facilitadas, voltadas ao custeio da produção, aquisição de equipamentos e investimentos em infraestrutura.

“Nosso objetivo é garantir inclusão produtiva e prosperidade para o povo da Amazônia”, disse o secretário Eduardo Tavares.

Pesca esportiva

A pesca esportiva passa a integrar oficialmente a Rota do Pescado, iniciativa do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) voltada ao fortalecimento das cadeias produtivas no país. O novo eixo foi anunciado nesta quarta-feira (28), durante a abertura do 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá – Desenvolvimento Responsável e Sustentável, realizado no Museu Sacaca, em Macapá. A inclusão da pesca esportiva tem como objetivo fomentar o desenvolvimento regional no estado e na região amazônica.

*Com informações do Brasil61

Greenpeace Brasil aponta que PDL aprovada pelo Senado é retrocesso para demarcações de Terras Indígenas

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Acampamento Terra Livre 2025, que reuniu diversos povos indígenas em Brasília. Foto: Lucas Landau/Greenpeace

Com a aprovação do Senado, no dia 28 de maio, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 717/2024, o Greenpeace Brasil fez um alerta: a proposta “viola direitos dos povos indígenas e apaga todo um histórico de luta e reconhecimento de territórios”. 

De acordo com a publicação, “a justificativa para esse ataque se apoia na Lei 14.701/2023, que instituiu a tese do Marco Temporal como base legal para o reconhecimento de Terras Indígenas. Uma tese já considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, mas que foi ressuscitada e transformada em Lei por um Congresso profundamente alinhado aos interesses do agronegócio”.

Leia também: Portal Amazônia responde: Entenda o que é o ‘marco temporal’ para terras indígenas

Para a entidade ambiental, “não se trata apenas de um ataque jurídico, é um ataque direto à vida, à história e aos direitos originários dos povos indígenas”. 

“O que o Senado aprovou hoje não é só um decreto, é uma sentença grave contra o direito originário. A medida irá afetar todos os povos indígenas e não só o povo Guarani Mbya, da Terra Indígena Morro dos Cavalos e o povo Kaingang, pertencente à Toldo Imbu. É abrir a porteira para mais despejos, mais violência e mais devastação dentro dos territórios, sejam eles demarcados ou não. O Marco Temporal não é um debate jurídico, é um projeto de apagamento cultural, territorial e de genocídio contra os povos originários”, afirma Grégor Daflon, porta-voz da Frente de Povos Indígenas.

Para Dinaman Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o momento exige mobilização total. 

“Estamos vendo um cenário de desmonte da política indigenista, da política de demarcação de Terras Indígenas. O Senado, mais uma vez, afronta o texto constitucional e tenta sustar os efeitos de homologação dos territórios Morro dos Cavalos e Toldo Imbu. Isso é mais um cenário do que essas bancadas que têm interesse sobre os territórios indígenas têm articulado, fazendo lobby dentro da política brasileira e principalmente dentro do Congresso Nacional. Esse PDL, vai refletir inclusive para as próximas homologações, se for aprovado no plenário do Senado”, frisou.

Leia a publicação completa AQUI.

PL da devastação

Além disso, o Greenpeace Brasil também já havia feito uma avaliação sobre a aprovação do que tem sido chamado como “PL da Devastação”, o Projeto de Lei 2.159/2021, que também fragiliza a proteção ambiental.

O Senado Federal aprovou o PL no dia 21 de maio, com 54 votos favoráveis e 13 contrários. Segundo o Greenpeace, este é “considerado o maior ataque à legislação ambiental brasileira das últimas décadas”.

“Entre os pontos mais críticos do PL, está a autorização para que empresas responsáveis por empreendimentos com impactos ambientais relevantes se autodeclararem isentas de licenciamento por meio de formulários online. A partir da autodeclaração, o Estado brasileiro e demais órgãos ambientais, que deveriam analisar os riscos, não serão ouvidos”, avalia.

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Para o Greenpeace Brasil, a decisão representa uma verdadeira “licença para desmatar e destruir” e pavimenta o caminho para novos desastres em um país que conhece de perto as consequências de tragédias socioambientais como as de Brumadinho, Mariana e Cubatão.

“A aprovação deste projeto, sem debate suficiente e sem que a população tivesse conhecimento sobre o impacto real do texto, escancara a pressa dos senadores em desmontar os pilares da proteção ambiental no país”, afirma Mariana Mota, gerente de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil.

Leia a publicação completa AQUI.

*Com informações do Greenpeace Brasil

IA e sons subaquáticos revelam habitat crítico do peixe-boi amazônico

Inteligência artificial (IA) é usada para estudar os peixes-bois. Foto: Sônia Vill

Pesquisadores do Instituto Mamirauá, em parceria com a Universidade Politécnica da Catalunha, revelaram um habitat crítico do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) por meio de uma abordagem inovadora que combina monitoramento acústico passivo e inteligência artificial (IA). A pesquisa foi conduzida por Florence Erbs, Mike van der Schaar, Miriam Marmontel, Marina Gaona, Emiliano Ramalho e Michel André, e publicada na revista científica Remote Sensing in Ecology and Conservation, da Zoological Society of London (ZSL)

Devido à natureza discreta e ao comportamento esquivo do peixe-boi, métodos tradicionais de observação visual têm se mostrado ineficazes para monitorar a espécie. Para superar esse desafio, a equipe aplicou um modelo de Rede Neural Convolucional que detectou com alta precisão (até 98%) as vocalizações dos animais a partir de longas gravações subaquáticas, coletadas durante duas estações de cheia consecutivas nas várzeas da Amazônia brasileira, entre 2021 e 2022. 

O estudo analisou 226 dias de gravações, revelando que os peixes-boi estavam presentes de forma consistente, com vocalizações registradas em até 94% dos dias em 2021 e por até 11 horas diárias nos picos de atividade. 

Leia também: Pesquisadora descobre novo papel do peixe-boi: o de “jardineiro da Amazônia”

Chamados revelam presença de filhotes e uso reprodutivo do habitat 

As vocalizações — caracterizadas por alta frequência e repetição rápida — indicam uma forte possibilidade de interações entre mães e filhotes, reforçando a importância do local para a reprodução da espécie. A identificação da presença de filhotes é especialmente relevante considerando a baixa taxa reprodutiva do peixe-boi amazônico, o que torna qualquer informação sobre sua reprodução valiosa para estratégias de conservação.

Segundo Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, “a identificação de filhotes ao longo do tempo auxilia na compreensão acerca do período reprodutivo, e regiões, como as da Reserva Mamirauá, com presença regular de filhotes, apontam para uma área importante à espécie como local de reprodução e cuidado parental”. Ela destaca que “a proteção de tais áreas é fundamental, tanto para os adultos reprodutivos quanto para os filhotes que se incorporam à população atual”. 

Leia também: Conheça o peixe-boi-da-Amazônia: além de vítima de caça predatória é vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção

Este é o primeiro estudo a oferecer dados diários contínuos sobre a presença do peixe-boi ao longo das estações, fornecendo uma resolução temporal sem precedentes sobre o uso do habitat por esses mamíferos aquáticos. Embora a área monitorada tenha limitações quanto à replicação espacial — ou seja, não se pode garantir que os dados representem toda a população —, as evidências apontam para a importância ecológica do local estudado. 

Peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Foto: Reprodução/AMPA

A análise também sugere que o método pode ser útil para identificar rotas de migração da espécie, especialmente em função do pulso de inundação amazônico (o ciclo natural de subida e descida anual dos rios na Bacia Amazônica), o que permitiria avaliar os impactos da construção de hidrelétricas sobre a sobrevivência das populações. 

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Tecnologia acessível e promissora para a conservação 

A combinação de monitoramento acústico passivo com modelos de aprendizado profundo representa uma solução econômica, confiável e escalável, que pode ser aplicada a protocolos de longo prazo de pesquisa e conservação de espécies aquáticas. Esse tipo de tecnologia é especialmente valioso para regiões remotas e de difícil acesso, como os sistemas de água doce da Amazônia, onde os desafios logísticos frequentemente limitam os esforços de conservação. 

Para Marmontel, o potencial de expansão da tecnologia é significativo: “trata-se de equipamentos de pequeno volume, que podem ser instalados em áreas remotas e, em certos casos, sem necessidade de manutenção periódica. Tem a possibilidade de captar sons de inúmeras espécies aquáticas em diferentes áreas e ao longo do tempo”.

Ela acrescenta que os próximos passos envolvem “gerar uma grande quantidade de registros para alimentar a inteligência artificial e criar o padrão vocal de cada espécie, além de instalar mais equipamentos ao longo da região, inclusive em locais onde não haja pesquisadores ou centros de pesquisa próximos”.

Leia também: Onça-pintada e peixe-boi têm genomas mapeados em alta qualidade, anuncia GBB

Além disso, ao ampliar a capacidade de detecção da espécie em ambientes onde a observação direta é praticamente impossível, o método oferece uma nova janela para compreender o comportamento, a distribuição e as necessidades ecológicas do peixe-boi amazônico. O estudo faz parte do Projeto Providence e contou com financiamento da Fundação Sense of Silence, Fundação Gordon e Betty Moore, do Instituto Rolex e da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

Publicação destaca trabalho de pesquisador que é referência nos estudos de abelhas sem ferrão no Pará

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Apis mellifera em Gorotire, no Pará. Foto: J.M.F. Camargo/Abelhas Sem Ferrão do Pará

O pesquisador João Maria Franco de Camargo foi um grande naturalista e exímio artista e observador. As abelhas indígenas sem ferrão (Meliponini) da Amazônia foram cuidadosamente estudadas por ele, durante as suas expedições à Amazônia realizadas entre 1963-2001, quando percorreu 16.000 km de hidrovias.

Esses registros, que têm como foco as abelhas sem ferrão da região de Carajás, no Pará, estão no livro ‘Abelhas Sem Ferrão do Pará a partir das Expedições Científicas de João M. F. Camargo‘, organizado por Vera L. Imperatriz-Fonseca (Instituto de Biociências) e Denise A. Alves (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), disponível para download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP.

Leia também: Protocolo para manejo de abelhas nativas sem ferrão na Amazônia é lançado no Amazonas

Autodidata e especialista, Camargo conhecia profundamente as abelhas sociais do Brasil. Por isso, em 1976, foi aceito para o mestrado na Universidade Federal do Paraná, orientado nos estudos de taxonomia de abelhas pelo padre Jesus S. Moure. Suas habilidades o definiram como um dos grandes naturalistas das abelhas do século 20, cuja obra incluiu dados obtidos em campo e as publicações subsequentes, assim como a coleção por ele concebida e implementada na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), onde foi docente.

Camargo reuniu uma das maiores e melhores coleções de Meliponini neotropicais (abelhas sem ferrão), grupo no qual era especialista, e descreveu três novos gêneros e 86 espécies em colaboração com outros cientistas ou sozinho. Sua contribuição ficou evidenciada também na seção ‘Meliponini’ publicada no ‘Catálogo de Abelhas (Hymenoptera, Apoidea) na Região Neotropical‘ [em inglês, Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region], quando reviu, com sua colaboradora Silvia R. M. Pedro, toda a literatura científica existente sobre as espécies de abelhas sem ferrão neotropicais até o ano 2004, incluindo comentários sobre as identificações taxonômicas das espécies. O acervo total é estimado em 250 mil espécimes de abelhas. Desses, 150 são de Meliponini neotropicais, especialmente da Amazônia. 

O livro apresenta informações sobre os ninhos, os hábitos de vida e os produtos das colônias, como mel, resinas, cerume e pólen. Também aborda o uso tradicional dessas abelhas por povos pré-colombianos e comunidades locais, destacando aspectos bioculturais recorrentes.

A publicação inclui ainda registros fotográficos das espécies e seus ninhos, digitalizados a partir da fototeca do pesquisador, atualmente preservada na USP – o material auxilia na identificação de espécies em áreas de supressão vegetal (remoção da vegetação) autorizada, como ocorre de maneira legal e responsável na Floresta Nacional de Carajás. Além disso, traz dados científicos e contribuições visuais sobre a diversidade de abelhas sem ferrão na Amazônia.

Páginas do livro apresentam informações categorizadas sobre as abelhas sem ferrão do Pará – Foto: Reprodução/Livro Abelhas Sem Ferrão do Pará

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As abelhas sem ferrão

Camargo realizou várias expedições à Amazônia, onde buscava ninhos de abelhas sem ferrão, que coletava para seus estudos. Mais de 900 ninhos foram estudados com detalhes, entre muitos observados, informam as organizadoras no livro.

“Durante essas coletas, fazia anotações nos seus diários de viagem sobre o local onde o ninho foi encontrado, esboços da paisagem e os relacionava a características bioecológicas (agressividade, associações com outros insetos e microrganismos, números de ninhos encontrados), assim como registrava as imagens, o que gerou rico e extenso material fotográfico, recentemente digitalizado”, contam.

E continuam: quando retornava ao seu laboratório na FFCLRP-USP, os dados reunidos eram consolidados nas ilustrações feitas a bico de pena, algumas das quais apresentadas na obra.

A Coleção Entomológica Prof. J. M. F. Camargo vem sendo reorganizada pelo atual curador, o professor Eduardo A. B. Almeida, em colaboração científica com o Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV-DS), possibilitando a recuperação do material fotográfico e a reorganização do acervo. Segundo as organizadoras, o interesse recai nas abelhas do Pará, uma vez que as espécies que ocorrem na Serra dos Carajás têm sido intensivamente estudadas pela equipe de biodiversidade do ITV-DS.

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“Mas para identificação taxonômica certificada dessas abelhas precisávamos de material de referência, que foi cuidadosamente preparado pelo curador da coleção, de modo que os espécimes aqui (na obra) apresentados estão acompanhados das respectivas etiquetas de identificação: quem e quando coletou, quem identificou e qual a origem geográfica dos exemplares”, explicam.

Ninho em oco de tronco vivo, a 10 m do solo, com favos de abelha do gênero Oxytrigona Cockerell, em Forte da Graça, Rio Juruá, no Amazonas – Foto: Reprodução/Abelhas Sem Ferrão do Pará

As organizadoras afirmam ainda que, embora a diversidade de abelhas sem ferrão na Amazônia seja alta, elas foram pouco estudadas até o momento, e por isso reconhecer a identidade das espécies da floresta e seus ninhos não é “trivial”. “Nas suas atividades como taxonomista e sistemata, Camargo descreveu três gêneros e 89 espécies de abelhas. Além deste trabalho monumental, descreveu hábitos incomuns de muitas dessas espécies, que apresentavam diferenças do padrão geral conhecido até então para as abelhas sociais brasileiras”, destacam.

Segundo José Oswaldo Siqueira, diretor do Instituto Tecnológico Vale – Desenvolvimento Sustentável (ITV-DS), há muitas espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, e em especial na Amazônia, região com carência de mais conhecimento científico sobre esses insetos sociais.

“As expedições científicas realizadas por João M. F. Camargo à Amazônia, em busca de ninhos de abelhas sem ferrão nativas, permitiram identificar informações inéditas sobre um dos ecossistemas mais biodiversos do mundo e suas peculiaridades”, afirma na apresentação da obra, acrescentando que o registro fotográfico dos ninhos dessas abelhas sociais, como compilado na publicação, permite a reflexão sobre novos horizontes bioculturais.

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Para o diretor, a idealização deste livro possibilitou reunir tanto as informações valorizadas pelas publicações científicas, como o cuidado com que esse registro foi feito e organizado em uma coleção entomológica de referência na FFCLRP da USP. “Numa época em que o mundo todo se preocupa com o declínio das populações de abelhas, ilustramos aqui a biodiversidade amazônica de abelhas sem ferrão, em especial de Carajás, no Estado do Pará. É um trabalho relevante para as comunidades da região, que se interessam cada vez mais pela criação e pelo uso sustentável das abelhas sociais, que agregam renda e assim o desenvolvimento socioambiental”, conclui. 

Para ler o livro Abelhas Sem Ferrão do Pará a partir das Expedições Científicas de João M. F. Camargo na íntegra clique aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP

Artistas amazônicos usam versos, danças e corpos em defesa da floresta

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Artista Tiago Hakiy vê a poesia como um instrumento político. Foto: Tiago Hakiy/Arquivo pessoal

“A aldeia toda se incendeia / Na manhã de sol na floresta / Tem peixe assando na fogueira / E suco de cupu para completar a festa”

Os versos escritos por Tiago Hakiy, poeta e escritor indígena, permitem que o leitor entre no coração da floresta amazônica e se sinta parte dela. Durante alguns instantes, somos parte da festa, dançamos, provamos peixes e sucos típicos da região. O trecho acima faz parte do livro ‘Abecedário Poético da Floresta’, lançado em novembro. A obra tanto apresenta os segredos da cultura para os leigos como acolhe os espíritos locais.

“Na escola, eu sempre encontrei livros que não tinham nada a ver com a minha realidade. Eles falavam sobre tubarão e eu nunca vi tubarão. Falavam de frutas, como maçã e morango, que eu nunca tinha comido. Sobre peixes que não eram parte da nossa fauna amazônica. Eu se me sentia perdido nessa literatura. Quando escrevo hoje, penso nos meninos e nas meninas nascidos no meio dos rios e florestas, que andam de canoa. Para que eles possam se identificar com a própria realidade”, diz o poeta.

O poeta indígena Tiago Hakiy tem 17 obras publicadas. Foto: Tiago Hakiy/Arquivo Pessoal

Nem sempre os escritos de Tiago Hakiy seguiram esse caminho. Pertencente ao povo sateré-mawé, ele nasceu na comunidade Freguesia do Andirá, no município de Barreirinha, no Amazonas, longe de espaços editoriais e grandes centros urbanos. Aos 6 anos de idade, um escritor foi até a comunidade e o ajudou a conhecer o universo dos livros. Aos 19 anos se mudou para Manaus, onde entrou na universidade e teve a possibilidade de lançar o primeiro livro de poesias.

Os versos iniciais não falavam da realidade cultural dele e do povo indígena. Eram poemas mais idílicos. Tudo mudou quando ele encontrou o escritor Daniel Munduruku, um precursor da literatura indígena no Brasil.

“Ele me disse assim: ‘Tiago, por que você não escreve sobre o teu povo e a tua origem? Se nós não continuarmos escrevendo sobre nossos povos, o apagamento cultural vai continuar acontecendo’. Ele me instigou a rememorar toda a minha ancestralidade. E a partir daí a poesia passou a destacar nossa riqueza como indígenas da Floresta Amazônica, nossas trocas e cuidados com ela, que é tudo para nós. Ela nos dá alimento, moradia, caminhos e inspirações”, lembra Tiago Hakiy.

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O poeta indígena tem hoje 44 anos e 17 obras publicadas. E participações em diversas antologias, as quais ele valoriza muito, por entender que o trabalho coletivo é uma característica importante das comunidades indígenas. Foi com a antologia Apytama, organizada por Kaká Werá, que ele venceu, coletivamente, o Prêmio Jabuti na categoria Livro Juvenil.

“Os povos indígenas são frutos da oralidade. Eu nasci ouvindo histórias dos mais velhos. Naturalmente, a gente aprende a contar histórias que a gente ouve desde criança, e essas histórias são um instrumento de aprendizagem, não só de entretenimento. São uma forma de ensinar e de transmitir conhecimento”, destaca o escritor indígena.

Tiago Hakiy também entende hoje a poesia como um instrumento político, capaz de gerar empatia de outras pessoas e engajá-las na luta pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação da floresta.

“A literatura serve como uma bandeira para que as pessoas possam nos conhecer melhor. Nossas cultura e tradição, que não são nem melhores, nem piores. Apenas diferentes. E nós queremos ser ouvidos, compreendidos e respeitados”, diz.

“Queremos que essas pessoas também cuidem dos nossos rios, das nossas árvores, dos nossos pássaros. Por isso que, quando nós clamamos pela preservação da floresta, sabemos da importância dela não só para o Brasil, mas para todo o planeta. Precisamos que todos tenham esse olhar de sensibilidade para as pessoas que moram dentro da floresta”.

Festival de Parintins

Junho é mês de festa na Amazônia. Em Parintins, estado do Amazonas, quase divisa com o Pará, o Bumbódromo recebe os desfiles do bois Caprichoso e Garantido. É o duelo do azul e do vermelho, que dura três noites. O espetáculo se destaca pelas cores, luzes, vestimentas, adereços, danças e músicas. Mas os impactos não são apenas estéticos e sensoriais.

“Os dois bois vêm trazendo mensagens importantes, como a emergência da crise climática, o foco na Amazônia, a preservação dos povos tradicionais. Tudo isso tem que estar inserido no festival”, explicou Marciele Albuquerque, indígena do povo Munduruku e cunhã-poranga do Boi Caprichoso, durante o TEDxAmazônia 2024, evento realizado entre o final de novembro e o início de dezembro, em Manaus.

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Segundo a tradição, a cunhã-poranga é “moça bonita, guerreira e guardiã, que expressa a força através da beleza”. Ela é avaliada pelos jurados em critérios como beleza, simpatia, roupas e movimentos. Mas Marciele garante que os atributos dela no festival vão muito além de ser uma mulher bonita.

“Quando a gente vai para a arena, quer fazer mais que uma apresentação, um movimento de dança difícil, algo espetaculoso. A gente quer realmente protestar através da nossa dança, do nosso olhar, da nossa potência e força. É ir muito além da parte física da mulher. A gente carrega essa ancestralidade. Eu não sou apenas uma representação. Eu sou indígena, cunhã-poranga. O meu corpo é político. É força. É ancestralidade”, diz Marciele.

Nascida em Juriti, no Pará, ela mora em Manaus há mais de 13 anos. É formada em administração e tem participado como ativista contra as mudanças climáticas, a fome e o futuro da Amazônia. Já participou da Semana do Clima, da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, Estados Unidos, em 2023. E, no mesmo ano, esteve na Conferência da Juventude pelo Clima, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, na Itália.

“A arte desperta o senso político. Você começa a questionar e buscar respostas. Começa a querer lutar por algo. Foi assim que eu despertei, não foi porque alguém veio falar comigo da política tradicional. Através da arte consegui ter esse senso bem crítico, despertar para essa luta coletiva. Mesmo que eu não sofra por determinada situação, outros podem estar sofrendo e vou lutar por elas. A arte tem a força de união. Isso, de uma forma mais leve e capaz furar bolhas”, defende a cunhã-poranga.

Trans amazônica

O corpo também possui uma dimensão política para Maria Flor, de 25 anos, nascida e criada nas margens do Rio Tapajós, em Santarém. Travesti periférica, artista e ativista ambiental, ela define o próprio corpo como “território e ferramenta de comunicação”. Por meio da moda, de performances de rua, apresentações e desfiles, ela conecta a prática artística com os direitos das pessoas transgêneras e os povos da Amazônia

 Maria Flor em ensaio político em defesa da Amazônia. Foto: Maria Flor/Arquivo Pessoal

“Comecei por volta de 2016 fazendo intervenções corporais sobre uma perspectiva transcentrada. Foi quando eu me entendi enquanto travesti. As primeiras intervenções foram experimentações corporais através da vestimenta, do me reconhecer enquanto identidade feminina”, conta Maria Flor.

“Eu morava perto de uma praia e ali começaram as minhas inquietações. Eu via muita degradação, balsas e navios vindo do exterior, pegando água nos nossos rios. Pela BR-163, que corta o Brasil, eu via saindo de Santarém muita soja, milho, tora de árvore, madeira, bauxita, ferro. Tudo que era extraído dali de dentro da floresta. Foi quando eu comecei a fazer intervenções visuais, através de fotos e vídeos sobre esse território que estava sendo poluído”, conta Maria Flor.

Nesse contexto, surgiu a Mulambra, um dos nomes e identidades artísticas da ativista, que daria nome também à marca de roupas criadas por ela, a Mulambra Grif.

“Eu misturei as questões ambientais com as perspectivas do que era o corpo enquanto território e identidade. Eu entendi que a Mulambra era uma energia ancestral que vinha para questionar as situações que aconteciam ali. O quanto era naturalizada uma casa de garimpo na orla da cidade e um corpo travesti, não. Esse era demonizado, expulso de casa, sem acesso a serviços de saúde e educação, sem espaço no mercado de trabalho formal”, diz.

Um dos versos da artista é bem representativo desse impulso de luta e ativismo conectada à natureza amazônica:

Arte em roupa feita pela artista trans Maria Flor. Foto: Maria Flor /Arquivo pessoal

“Revoltada/
Engerou-se/
De toda a mata se apropriou/
No espinho do cuandú/
No aperto da sucuriju/
No veneno da surucucu/
No cantar do uirapuru/
Na magnitude de seu Rei urubu/
Na força de sussuarana/
No grito de um guariba/
Na desconfiança da cutia/
Nas garras de um gavião”

Maria Flor mora há três anos em Belém. A estamparia manual tornou-se símbolo de resistência, conscientização e empoderamento. Peças únicas, produzidas à mão e inspiradas na fauna e flora da Amazônia, viraram um manifesto contra o desmatamento e a poluição. Além de materiais reciclados, a artista usa elementos reciclados e até materiais encontrados em cascas de árvores.

“Muitas vezes a América Latina é vista como lugar para descartar roupas que não foram vendidas na Europa. Eu parto de uma perspectiva de periferia, da pedagogia do lixo. Tudo o que eu faço é reconstruir roupas já prontas, indo em brechó, pegando coisa de segunda mão, ou em lugares de descarte. Reconstruo os tecidos através da estamparia e conto outras histórias”, explica a artista.

“Faço com que as pessoas saibam de onde vem tudo isso que a gente está vestindo. Muitas, sem perceber, compram coisas que estão financiando o garimpo, o desmatamento da Amazônia. Tudo isso está amarrado de uma certa forma enquanto comunicação e performance artística.”


A reportagem faz parte da série Trilhas Amazônicas, que abre o ano da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a ser realizada em Belém, em novembro deste ano. Nas matérias publicadas na Agência Brasil, povos da Amazônia e aqueles diretamente engajados na defesa da floresta discutem os impactos das mudanças climáticas e respostas para lidar com elas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Rafael Cardoso (a equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024)

Mulheres extrativistas enfrentam preconceito e geram renda na Amazônia

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Mulheres extrativistas, Jesuína Batista e Dionete Silva colhem murumuru. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

Há cerca de dez anos, quando saíam para colher murumuru (fruto de uma palmeira tropical) na Floresta Amazônica, as mulheres da comunidade São José, no norte da Ilha do Marajó (PA), ouviam de seus maridos e vizinhos a pergunta: “As loucas já vão pro mato?”.

Mesmo com as críticas e o preconceito, elas não desistiram e seguiram em frente, como lembra a extrativista Benedita de Oliveira.

“Quando nós começamos a trabalhar, foi muito difícil. Muito difícil mesmo. A gente saía para o mato, deixava tudo em casa e, quando chegava, ainda tinha que fazer janta, ajeitar tudo. E nós fomos muito criticadas pelos homens. Só que nós não ligamos… nós continuamos!”.

Leia também: Coleta de frutos e sementes oleaginosas movimenta economia na Ilha das Cinzas

“Quando a fruta do murumuru cai do pé, ela acumula uma em cima da outra, aí ela vai fermentando e cria um mau cheiro, né? Por isso que a gente era chamada por eles de ‘mulheres fedorentas’, porque eles diziam que aquele mau cheiro entranhava”, acrescenta Jesuína Batista Rosa.

Benedita de Oliveira mostra estufa com amêndoa do murumuru. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

Mas, por baixo da polpa “fedorenta”, até então consumida apenas como alimento por animais selvagens e de criação, há uma semente muito valorizada pela indústria cosmética. À medida que a renda familiar foi aumentando, os homens foram obrigados a reconhecer e respeitar o trabalho de suas companheiras. Antes disso, nenhuma das mulheres que fazem parte do grupo de extrativistas do Maniva – nome do igarapé do Rio Amazonas que banha a comunidade – tinha renda própria.

A grande maioria delas se casou ainda na adolescência e se dedicava exclusivamente aos cuidados da casa e dos filhos, quando a oportunidade de se tornar extrativista apareceu, por demanda da empresa de cosméticos Natura, em parceria com a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), outra comunidade do Marajó. Elas também fornecem ucuuba, fruto de uma grande árvore, que também cai depois de maduro e geralmente é retirado da superfície dos rios.

Lourdes Batista Silva hoje está afastada da colheita por questões de saúde, mas, além de ser uma das primeira extrativistas do Maniva, também foi responsável por integrar muitas das outras participantes.

“Eu falo de boca cheia que tenho orgulho da minha pessoa. Eu me casei com 15 anos, minha primeira filha eu tive com 16, e eu nunca deixei de trabalhar. Mas, quando a gente começou a vender o murumuru, muita coisa mudou, porque aí eu passei a não depender de homem”.

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Benedita também sente o mesmo orgulho: “Nós, mulheres, a gente não era vista, não era reconhecida. Fomos discriminadas, mas agora acabou. Eu até consegui realizar o meu sonho de viajar de avião. Foi a coisa mais incrível do mundo que eu tenho na memória! E agora este ano conseguimos essa casa aqui, né? Cada uma de nós ajudou um pouquinho.”

Centro de Produção das Mulheres do Maniva. Foto: Anderson Águia/Natura/WEG

A casa mencionada por ela se trata do Centro de Produção das Mulheres do Maniva, onde as sementes são quebradas e armazenadas, até somarem uma quantidade suficiente para serem levadas pela Ataic e vendidas para a Natura. Elas explicam o processo: as sementes de murumuru são separadas da polpa ainda na floresta, lavadas no rio e colocadas para secar por alguns dias em uma estufa. Depois, as sementes são quebradas e as amêndoas – tanto do murumuru quanto da ucuuba –, ensacadas para envio.

Recentemente o grupo conseguiu aposentar o martelo que era usado para quebrar as sementes manualmente – e que também acabava machucando alguns dedos durante o processo –, após ganhar uma máquina que agilizou muito o trabalho. Graças às mulheres extrativistas, a comunidade também recebeu painéis de energia solar, que melhoraram muito a qualidade de vida da comunidade.

“Eu sempre tive o desejo de ajudar na renda familiar, e a natureza me ajudou a não ser uma mulher só do lar, a entender que o trabalho não é só para o homem. Não! Nós mulheres somos capazes de nos transformar e transformar o mundo também… juntas, unindo as nossas forças. Porque nós somos fortes e nós damos as nossas mãos”, conta Dionete da Silva Cardoso.

Leia também: Murumuru: semente popular no mundo da beleza pode ser utilizada na construção civil

“Eu sempre digo para minhas filhas, se tiver alguma coisa no nosso caminho, vamos dar um jeitinho de afastar e vamos prosseguir”, completa ela.

O desafio agora é enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, que já estão sendo sentidos pelas populações da floresta, como lembra Dionete: “Este ano, acho que a gente vai conseguir fazer uma entrega boa por causa da chuva. Mas, nos últimos dois anos, foi mais difícil por causa da seca. Quando ela acontece, diminui a produção do murumuru e de todas as espécies de frutos que nós temos aqui”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Tâmara Freire (repórter viajou a convite da Natura)

Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia em abril deste ano, aponta Imazon

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Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia. Foto: Censipam

O Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia em abril deste ano, revelou um estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgado no dia 29 de maio. O levantamento, feito pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), aponta que o estado lidera o ranking com 40% de área desmatada.

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O SAD realiza o monitoramento da região por satélites desde 2008, considerando o chamado “calendário do desmatamento”, que vai de agosto a julho do ano seguinte.

Leia também: Registro de desmatamento e focos de calor cai no Amazonas em março, aponta Ipaam

Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia
Imagem aérea de sobrevoo de monitoramento de desmatamento na Amazônia no município de Lábrea, Amazonas, realizado em 26 de março de 2022 — Foto: Greenpeace/Divulgação

Leia também: Amazonas tem queda de 82% no desmatamento e 65% nos focos de calor, informa Ipaam

O monitoramento indicou que o Amazonas teve 93 quilômetros quadrados da Amazônia desmatados. O município que mais teve registro de desmatamento foi Lábrea, no sul do estado com 32 quilômetros quadrados de floresta desmatada. Outras três cidades do Amazonas compõe o ranking que indica que os 10 municípios com as maiores áreas desflorestadas.

  • Apuí: 22 km² (3º lugar)
  • Maués: 15 km² (4º lugar)
  • Manicoré: 7 km² (8º lugar)

No mesmo período de 2024 o estado teve 52 quilômetros quadrados de área desmatada. Em comparação a este ano, houve um aumento de 78%. O desmatamento detectado em abril de 2025 também ocorreu em outros estado do Norte e do Centro-Oeste:

  • Mato Grosso (38%),
  • Pará (11%),
  • Tocantins (3%),
  • Roraima (3%),
  • Acre (2%),
  • Rondônia (2%)
  • Maranhão (1%).

Leia também: Povo Juma luta para sobreviver em meio a invasões e desmatamento no sul do Amazonas

O município que mais teve registro de desmatamento foi Lábrea. Foto: Divulgação

Em abril de 2025, o SAD detectou 234 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 24% em relação a abril de 2024, quando o desmatamento somou 188 quilômetros quadrados.

O Imazon aponta que 84% do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante do desmatamento foi registrado em assentamentos (12%), Unidades de Conservação (4%) e Terras Indígenas (menos de 1%).

Leia também: Taxa de desmatamento cai 29% em um ano no Amazonas, aponta Inpe

Desmatamento em crescente

O desmatamento na Amazônia Legal registrou um aumento de 17,8% de agosto de 2024 a março de 2025, de acordo com dados do monitoramento do Imazon divulgados em janeiro deste ano. No mesmo período, a degradação florestal subiu mais de 329% e bateu um recorde histórico.

Amazonas é o estado que mais desmatou a Amazônia
O Greenpeace Brasil realizou sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento. Foto: Greenpeace Brasil

Leia também: Amazonas ocupa 2º lugar no ranking do desmatamento em 2022, aponta MapBiomas

O desmatamento é a remoção total da vegetação para atividades como agricultura ou pecuária. Já a degradação ocorre quando há danos parciais na floresta. Isto é, a vegetação permanece, mas sofre impactos significativos, justamente como queimadas ou extração de madeira.

As imagens de satélite do Imazon mostraram que a derrubada passou de 1.948 km² entre agosto de 2023 e março de 2024 para 2.296 km² entre agosto de 2024 e março de 2025.

Somente em março deste ano, o desmatamento atingiu 167 km² da Amazômia Legal, um crescimento de 35% em relação ao mesmo mês de 2024, quando foram destruídos 124 km².

Leia também: Acre, Amazonas e Pará concentram quase 80% do desmatamento na Amazônia Legal, aponta Imazon

Calendário de desmatamento de 2024 e 2025. — Foto: SAD Desmatamento/Imazon

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*Por Lucas Macedo, g1 AM

Estudo mensura valores da Amazônia em pé; 42% das espécies de plantas são utilizadas por comunidades tradicionais

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O trabalho propõe atribuir valor da natureza preservada sem se limitar a valores monetários. Foto: Reprodução/TV Brasil/Agência Brasil

Um estudo de pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) mostra que 83% das espécies da Floresta Nacional de Carajás, no Pará, precisam ser preservadas para manter sua resiliência, ou seja, sua capacidade de continuar funcionando mesmo com eventuais perdas. Entre as plantas, 42% das espécies são utilizadas por comunidades tradicionais da região, com registros de até quatro usos diferentes por espécie.

A floresta ainda oferece serviços como polinização agrícola — beneficiando 13 das 20 culturas locais, como cacau, maracujá e açaí — e regulação do clima. A floresta resiliente tem capacidade de reduzir em até 0,4 °C a temperatura local e aumentar em 21% a evapotranspiração — processo essencial ao ciclo da água, que abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas.

Leia também: Artigo mostra importância de comunidades tradicionais na preservação da biodiversidade

Além disso, o estudo mostra que 60% das espécies são insubstituíveis para a manutenção das funções ecológicas da floresta. A ausência dessas espécies comprometeria de forma irreversível o ambiente, já que nenhuma outra espécie ou tecnologia poderia assumir seus papéis. As conclusões foram publicadas na revista Ecosystem Services na sexta (30), em artigo que apresenta um modelo para avaliar o capital natural com base na importância de cada espécie para a natureza e para as populações humanas.

O artigo é fruto do projeto ‘Capital Natural das Florestas de Carajás’, realizado pelo Instituto Tecnológico Vale entre 2019 e 2023. A iniciativa se baseou em coletas de campo em 14 pontos da floresta. As métricas foram divididas em duas categorias: “natureza para si mesma”, que mensurou as funções ecossistêmicas, ou seja, o papel de cada espécie para a manutenção da floresta; e “natureza para as pessoas”, que analisou os benefícios do ecossistema para as populações humanas. Para as funções, os pesquisadores consideraram elementos como riqueza de espécies, interação entre elas, resiliência, singularidade e presença de espécies ameaçadas. Já os serviços incluíram polinização agrícola, regulação do clima, proteção hídrica, uso por comunidades tradicionais e estoque de carbono.

Flona Carajás. Foto: João Marcos Rosa

Foram registradas no local 467 espécies de animais e 418 de plantas. Destas, 11% das aves e 9% das plantas estão ameaçadas.

O trabalho propõe atribuir valor da natureza preservada sem se limitar a valores monetários, buscando entender quais são os ativos mais importantes do capital natural para manter a floresta viva, saudável e funcionando plenamente.

“Quando você transforma a natureza em dinheiro, você tem uma sustentabilidade fraca, porque você desconsidera que alguns elementos são insubstituíveis”, afirma Tereza Cristina Giannini, pesquisadora do ITV e coautora do artigo.

A polinização agrícola foi o único fator medido em valores monetários, estimado em US$ 4,5 milhões por ano (cerca de R$ 23,3 milhões, na cotação atual) considerando os valores de mercado das culturas produzidas no entorno.

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Segundo a pesquisadora, o modelo permite que tomadores de decisão, como empresas, governos e comunidades locais, compreendam melhor o que está em jogo ao explorar ou proteger áreas naturais. “O valor da floresta é subjetivo e plural. Para um ribeirinho pode ser algo completamente diferente do que para quem está na cidade. Com essa abordagem, se ganha essa nuance do que é de fato valioso para as pessoas em termos da natureza”, frisa Giannini. Complementando o artigo, os resultados do trabalho também estão disponíveis em um livro e em uma série de dez episódios de podcast desenvolvidos pelos pesquisadores do ITV em parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Vale S.A.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Cheia em Manaus deve atingir ápice em duas semanas, mas não supera recorde histórico, aponta Serviço Geológico do Brasil

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Impacto da cheia na cidade de Manaus. Foto: Jochen Schongart/INPA

A cheia do Rio Negro em Manaus deve atingir o ápice dentro de duas semanas, mas não há previsão de que o nível da água ultrapasse o recorde histórico de 30,02 metros, registrado em 2021. A projeção consta no 3º Alerta de Cheias da Bacia do Amazonas de 2025, divulgado no dia 30 de maio pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).

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Além da capital amazonense, o monitoramento hidrológico do SGB abrange os municípios de ManacapuruItacoatiara e Parintins. Segundo o órgão, embora a cheia deste ano seja considerada de grande impacto, o nível do Rio Negro deve permanecer abaixo da cota de inundação severa, fixada em 29 metros. A previsão é de que a cota máxima em Manaus fique em torno de 28,84 metros.

Cheia em Manaus
Registro da cheia no porto de Manaus. Foto: Alberto César Augusto

Em Itacoatiara, o Rio Amazonas já ultrapassou a cota de inundação, mas a probabilidade de atingir os níveis extremos de 2021 é de menos de 1%, conforme destacou a pesquisadora do SGB, Jussara Cury. A expectativa é de que o município atinja o pico da cheia já na próxima semana.

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Confira as previsões da SGB para os municípios:

Manaus – Rio Negro

Em 30 de maio, o Rio Negro está com a cota de 28,53 metros. Ele apresenta 35% de chance de alcançar a marca de inundação severa, mas sem passar de 29,16 metros segundo a projeção. A possibilidade atingir a cota máxima registrada na história é de menos de 1%.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 30,02m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 29,00m
  • 🟡 Cota de inundação: 27,50m
  • ⚪ Cota de alerta: 27,00m
Cheia em Manaus
Rio Negro, em Manaus. Foto: Michel Castro/Rede Amazonica

Manacapuru – Rio Solimões

O Rio Solimões atingiu a marca de 19,34 metros, no dia 29 de maio e, no ápice, deve chegar a 19,67 metros. O SGB projeta que há 65% de chances de ocorrer uma inundação severa e, caso ocorra, o nível máximo a ser atingido seria 19,94 metros. As chances de atingir a cota máxima registrada na história é de menos de 1%.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 20,86m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 19,60m
  • 🟡 Cota de inundação: 18,20m
  • ⚪ Cota de alerta: 17,70m
Cheia em Manaus
Cheia no Rio Solimões. Foto: Divulgação

Itacoatiara – Rio Amazonas

No município, o Rio Amazonas está na marca de 14,35 metros nesta sexta e já ultrapassou a cota de inundação severa. O órgão apontou que há menos de 1% de chance de se atingir a cota máxima registrada e que no pico da cheia o rio fique na média de 14,45 metros.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 15,20m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 14,20m
  • 🟡 Cota de inundação: 14,00m
  • ⚪ Cota de alerta: 13,50m
Cheia do Rio Amazonas. Foto: Agência Brasil

No município, o Rio Amazonas está na marca de 14,35 metros nesta sexta e já ultrapassou a cota de inundação severa. O órgão apontou que há menos de 1% de chance de se atingir a cota máxima registrada e que no pico da cheia o rio fique na média de 14,45 metros.

  • 🔴 Cota máxima registrada (2021): 15,20m
  • 🟠 Cota de inundação severa: 14,20m
  • 🟡 Cota de inundação: 14,00m
  • ⚪ Cota de alerta: 13,50m

Leia também: Governo do Acre decreta situação de emergência por conta da cheia dos rios

Situação de emergência

A cheia que atinge o Amazonas avança e já atinge 85.940 famílias, aproximadamente 343.748 mil pessoas impactadas diretamente, segundo a Defesa Civil do estado, durante a divulgação do 3º Alerta de Cheias, nesta sexta. As nove calhas de rios do Amazonas seguem em processo de cheia, com picos variados previstos entre março e julho.

Cheia dos rios. Foto: Governo de Rondônia

De acordo com os decretos municipais, dos 62 municípios amazonenses, 29 estão em situação de emergência, 28 em alerta, três em atenção e dois em normalidade. No dia 27 de maio, o município de Tefé saiu da situação de alerta para situação emergência.

Confira a lista dos 29 municípios que estão em situação de emergência:

  1. Humaitá – Rio Madeira
  2. Apuí – Rio Madeira
  3. Manicoré – Rio Madeira
  4. Boca do Acre – Rio Purus
  5. Guajará – Rio Juruá
  6. Ipixuna – Rio Juruá
  7. Novo Aripuanã – Rio Madeira
  8. Benjamin Constant – Rio Solimões
  9. Borba – Rio Madeira
  10. Tonantins – Rio Amazonas
  11. Itamarati – Rio Juruá
  12. Eirunepé – Rio Juruá
  13. Atalaia do Norte – Rio Solimões
  14. Careiro – Rio Solimões
  15. Santo Antônio do Içá – Rio Solimões
  16. Amaturá – Rio Solimões
  17. Juruá – Rio Solimões
  18. Japurá – Rio Amazonas
  19. São Paulo de Olivença – Rio Solimões
  20. Jutaí – Rio Jutaí
  21. Careiro da Várzea – Rio Solimões
  22. Maraã – Rio Japurá
  23. Anamã – Rio Amazonas
  24. Carauari – Rio Juruá
  25. Fonte Boa – Rio Solimões
  26. Itapiranga – Rio Amazonas
  27. Nova Olinda do Norte – Rio Madeira
  28. Urucurituba – Rio Amazonas
  29. Tefé – Rio Solimões

Além dos municípios em emergência:

  • Três estão em estado de atenção;
  • 29 em alerta;
  • e dois em normalidade.

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Impactos

A cidade de Anamã, no interior do Amazonas, está com 70% do território alagado pela cheia do Rio Solimões e cerca de 1,7 mil famílias estão sendo afetadas, informou a Defesa Civil Municipal nta terça-feira (27). Anamã é um dos 29 municípios em situação de emergência.

De acordo com a prefeitura, 800 famílias na sede do município já estão sofrendo os impactos causados pelo alto nível do Rio Solimões. Já em 22 comunidades da zona rural, 997 famílias estão sendo afetadas.

“As principais dificuldades são as locomoções. Pra gente sair mesmo de casa fica mais difícil. Para quem tem canoa fica bom, para quem não tem não fica complicado”, relatou o agricultor Leandro Ribeiro.

Por Sabrina Rocha, g1 AM