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Terras vizinhas dos Suruí Aikewara mostram importância da demarcação para preservação da floresta 

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Cobertura florestal nas terras indígenas Suruí Aikewara. Foto: MapBiomas

Os dois territórios que aparecem (abaixo) pertencem ao mesmo povo indígena, o Suruí Aikewara. Eles ocupam uma parte das cidades de Marabá e São Geraldo do Araguaia, no leste do Pará. Do lado direito, está a Terra Indígena (TI) Sororó, homologada em 1983, onde existem oito aldeias. Do lado esquerdo, a TI Twua Apekuowera, que há 21 anos aguarda a finalização do seu processo de demarcação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e, por isso, não pode ser habitada por eles.

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A área que hoje compõe a TI Twua Apekuowera, mostra um solo desmatado para a pastagem, segundo dados da rede MapBiomas, que mapeia o uso e cobertura do solo. Em 1985, essa terra tinha 11.707 hectares (ha) de floresta e apenas 48 ha usados para agropecuária. Em 2023, o quadro tinha invertido: apenas 916 ha de floresta, e 10.840 ha para agropecuária. A redução da área florestal é de 92%.

Um cenário diferente é o do território vizinho, o Sororó, que, em 1985, tinha 25.875 ha, e, em 2023, 25.387 ha – uma redução de apenas 1,8%. Apesar de pertencerem ao mesmo povo, somente a Terra Indígena Sororó foi preservada.

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O que aconteceu na TI Apekuowera  

Desde que a TI Sororó começou a ser delimitada, em 1974, os indígenas insistem que os limites não foram corretos e pedem a inclusão da Twua Apekuowera como parte do território. Mesmo assim, a Funai demarcou somente a TI Sororó e, em 1985, iniciou um grupo de trabalho para refazer o perímetro. Essas informações constam no Diário Oficial da União, de 25 de janeiro de 2012.

Na área onde a Funai ainda não realizou a demarcação — a da Twua Apekuowera — a mudança do uso do solo para pasto é a principal causa da perda florestal. Atualmente, há 239 imóveis rurais cadastrados dentro da TI, aguardando regularização, de acordo com dados do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Suruí Aikewara
Povo Suruí Aikewara em manifestação na BR230 pedindo medidas compensatórias pela construção da rodovia Foto: Arquivo pessoal/ Welton Suruí 

A presença desses proprietários se tornou mais um obstáculo ao processo. Enquanto ainda estava instalado o grupo de trabalho, parte da terra chegou a ser destinada aos Projetos de Assentamento Gameleira e Lagoa Bonita. No entanto, essas iniciativas, que pretendiam atender a agricultores, não se sustentaram.

“Os fazendeiros foram comprando lote por lote. Agora, não são mais assentamentos, são grandes fazendas. Hoje, ela [terra] está toda degradada, só tem pastagem”, conta Welton Suruí, cacique da aldeia Itahy, da TI Sororó.

“Os caras [fazendeiros] às vezes me perguntam, e eu explico da melhor maneira possível, dizendo que esse território ficou de fora da primeira demarcação. Eu nasci em 86 e já existia esse erro. Então, eu já nasci herdando esse conflito. Eu sempre falo para as pessoas: se é meu, é de direito. Eu vou lutar e vou querer para mim”, diz o líder indígena.

Welton Suruí diz que nunca houve conflito físico com os não indígenas, mas “sabe que, a qualquer momento, pode surgir um conflito maior quando for publicado um decreto formalizando [a demarcação]”. Ele também afirma que há boatos de que alguns proprietários “querem explorar minério dentro desse território, porque dizem que lá é muito rico para mineração”.

Segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), existem 12 processos minerários para exploração em áreas contíguas à TI Twua Apekuowera. São requerimentos de lavra garimpeira para exploração de quartzo, cobre e ouro, como pode ser visto no mapa do Amazônia Minada abaixo.

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Demarcação como política climática 

Quando qualquer árvore morre, seja por decomposição ou por queima, ela emite carbono. Assim, o desmatamento é a maior causa de emissões de gases do efeito estufa na Amazônia e no Brasil.

Esse caso do povo Suruí Aikewara é simbólico porque ilustra um argumento recente de organizações como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que propõe incluir a demarcação de terras indígenas como uma política, buscando o reconhecimento do papel das populações tradicionais no enfrentamento às mudanças climáticas.

A proposta é que o Brasil estabeleça uma meta de demarcação de terras indígenas até 2035, a ser incorporada à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) — documento apresentado pelos países signatários do Acordo de Paris que define como cada nação contribuirá para a redução das emissões de carbono.

Para conter as emissões e mostrar que as demarcações são importantes como medida de mitigação, o movimento indígena está trabalhando na campanha “A resposta somos nós” para incentivar que a luta territorial indígena esteja dentro da agenda de clima, especialmente na 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), que ocorre em novembro, em Belém.

Os dados de estoque de carbono das terras Twua Apekuowera e Sororó confirmam esse argumento da Coiab. Na primeira delas, em que o processo de demarcação não foi concluído, há uma perda de 96% do estoque, segundo a Calculadora de Carbono (CCAL), do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM). Foram 2,1 milhões de toneladas de carbono emitidas em uma área que, em tese, deveria estar protegida.

Já a TI Sororó, homologada, perdeu apenas 11% do seu estoque de carbono e ainda tem 1,8 milhão de toneladas de carbono preservadas.

Suruí Aikewara
Caciques das aldeias da Terra Indígena Sororó; ao centro o cacique Welton Suruí, da aldeia Itahy. Foto: Arquivo pessoal/Welton Suruí 

Assim como a Twua Apekuowera, há outros territórios que aguardam a finalização do processo de demarcação, mas que continuam emitindo carbono em razão do desmatamento: Cobra Grande (PA), Jauary (AM) e Estação Parecis (MT) perderam, respectivamente, 69%, 66% e 63% de seus estoques de carbono, segundo dados da CCAL.

O Brasil já perdeu 26,6 milhões de toneladas de carbono com o desmatamento em 44 terras indígenas que estão em processos de demarcação na Amazônia, no período de 2013 a 2022, de acordo com dados do CCAL.

A pesquisadora Martha Fellows, do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM), alerta para a urgência da medida. Ela explica que a Amazônia passa por degradação constante, por causa da mudança climática. “Estamos tendo um aumento da temperatura e uma diminuição da evapotranspiração tão significativa que a própria floresta começa a entrar em um processo de autodegradação. Isso torna as demarcações ainda mais urgentes, porque os cenários futuros para a Amazônia são esses”, explica.

Fellows é uma das autoras do estudo “Demarcação é mitigação”, que mostra a importância da demarcação para proteger e preservar ecossistemas ambientais em todo o mundo.

Povo Suruí Aikewara vive na Terra Indígena Sororó, no Pará. Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Marabá 

Para a pesquisadora, o mais importante para que as terras se tornem meta climática é garantir o financiamento, já que os povos indígenas são um dos setores incluídos no Plano Clima, dentro da área de adaptação, e devem receber ações estruturantes com metas voltadas apenas para seus territórios, com garantia de projetos financiados.

“A gente precisa pensar em recursos para garantir que eles [povos indígenas] sejam alcançados. Esse simbolismo de ter uma presidência indígena na Funai, de ter um Ministério dos Povos Indígenas presidido pela Sonia, é importante. Mas, efetivamente, a gente ainda está vendo pouco avanço”, afirma a pesquisadora.

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O processo de demarcação  

Identificação – Estudo técnico e antropológico sobre a ocupação tradicional indígena.
Delimitação – Definição dos limites da terra, com publicação no Diário Oficial.
Declaração – Aprovação da demarcação pelo Ministério da Justiça.
Demarcação física – Instalação de marcos e sinalização no território.
Homologação – Ato final de reconhecimento pelo presidente da República.
Registro – Inscrição da terra como bem da União em cartório e no Serviço de Patrimônio da União (SPU).

Processo da Twua Apekuowera parado  

O processo de demarcação inclui as fases de identificação, delimitação, declaração, homologação e registro em cartório. O processo da TI Twua Apekuowera ainda está na Funai, na fase de delimitação, mas já deveria ter passado pela declaração. Isso ocorre quando o processo é encaminhado para o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), que assina portaria confirmando os limites territoriais e depois envia para o Presidente da República, que assina a homologação do documento.

Em 2019, o processo foi enviado ao MJSP, para que o ministro Sérgio Moro assinasse a portaria declaratória. Naquele ano, Moro devolveu 17 processos demarcatórios para a Funai, alegando a necessidade do enquadramento da tese do marco temporal. Como base, usou um parecer determinado pelo ex-presidente Michel Temer que, em 2017, ordenou que toda a administração federal adotasse a medida. Entre os documentos devolvidos, estava o da Twua Apekuowera. Até hoje, não foi reencaminhado ao MJSP.

A reportagem entrou em contato com a Funai, e perguntou quais os motivos que impedem o processo de caminhar e se há previsão para ele ser novamente entregue ao MJSP. Até a publicação da reportagem, a InfoAmazonia não recebeu uma resposta.

Welton Suruí conta que, agora, o sonho da demarcação é o sonho de reflorestar esse território. O povo Suruí Aikewara deseja criar um projeto para regenerar a terra. Tradicionalmente, eles vivem da caça, da pesca e da produção agrícola em pequena escala. Nas suas roças, cultivam arroz, milho, mandioca, batata-doce, banana, abóbora, melancia, manga, abacate, caju, goiaba, jaca, coco, mamão e abacaxi.

“Neste momento, a gente vê o mundo todo com o olhar focado dentro da Amazônia brasileira, dentro dos territórios indígenas, porque ainda é o único lugar que encontra a floresta em pé. Eu acredito que há uma possibilidade, sem nenhuma dúvida, de se criar, junto com o MPI [Ministério dos Povos Indígenas], junto com os aliados, um projeto de reflorestamento para a nossa terra”, diz Welton.

Recuperar a vegetação perdida será um desafio quando a terra for devolvida aos indígenas e é provável que ela não seja tão rica quanto foi, mas Fellows afirma que reflorestar é a melhor solução para a TI Twua Apekuowera: “o processo de recuperação de uma área que foi degradada traz muitos benefícios para os serviços ecossistêmicos. Você volta a atrair a fauna, você melhora as condições do solo e da água. Você garante a soberania alimentar, além do estoque de carbono”.

*Com informações da InfoAmazônia, escrito por Jullie Pereira.

Sushi de tambaqui: empreendedor de Rondônia usa peixe amazônico em receita japonesa

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Sushi frito de tambaqui. Foto: Valdir Vargas

Um prato típico da culinária japonesa ganhou um toque bem rondoniense pelas mãos de Valdir Vargas, empreendedor de Porto Velho. Usando um peixe amazônico como protagonista do cardápio, ele criou uma receita inusitada: o sushi de tambaqui.

Os ingredientes vêm de produtores locais, e o preparo tem um jeito todo especial. Valdir usa o filé do tambaqui, sem espinhas, empanado em uma farinha crocante. Depois, recheia com sushis, temakis e até tirashi, criando uma mistura que surpreende pelo sabor e pela criatividade.

“O Tambaqui é o elemento crocante, então agregamos a cremosidade do cream cheese, e um sabor agridoce de geleia de pimenta que é finalizada com alho porró frito, que agrega ainda mais sabor nos pratos”, explicou.

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No começo, ele conta que teve dificuldade em substituir o salmão — queridinho dos sushis — pelo tambaqui. Era preciso ajustar o tamanho dos filés, deixar o preparo mais prático e ainda conquistar o paladar do público.

“O salmão nao era o ator principal, ele se ocupou esse espaço com o tempo. Entao é um desafio sim, inserir o tambaqui nesse cenário, contudo, da mesma forma que aconteceu com o salmão acredito que podemos ir inserindo o tambaqui, e ir ocupando cada vez mais espaço no gosto popular”, disse.

De festival à vitrine do cardápio

A ideia do sushi de tambaqui surgiu em 2019, durante um festival gastronômico em Porto Velho. A princípio, o prato seria temporário, apenas para os dias do evento. Mas a repercussão foi tão grande que ele acabou vencendo o festival e entrou de vez no cardápio.

“Caiu no gosto do nosso cliente, e eu fui compelido a manter ele no cardápio definitivamente”, completou.
A escolha do tambaqui também carrega propósito: valorizar ingredientes regionais e tornar o sushi mais acessível a quem não é fã da culinária japonesa tradicional, já que o prato não é cru e tem sabor mais familiar ao paladar amazônico.

“Esse tipo de inovação com a fusão de ingredientes locais com técnicas de outras regiões do mundo, são muito ricas e convidativas”, disse.

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Sushi de tambaqui. Foto: Valdir Vargas

Fortalecendo negócios que alimentam Rondônia

O sucesso do sushi de tambaqui mostra como a criatividade pode abrir espaço até nos cardápios mais tradicionais. Em Rondônia, ideias como a de Valdir encontram cada vez mais terreno fértil para crescer, especialmente em um setor que está em alta: a alimentação fora do lar.

O setor de Alimentação Fora do Lar é um dos pilares da economia brasileira, com mais de 3,5 milhões de negócios em atividade, 24,1% deles formados por micro e pequenas empresas. Em Rondônia, o cenário não é diferente: só nos municípios de Ariquemes (RO), Buritis (RO), Machadinho D’Oeste (RO) e Monte Negro (RO), já são mais de 1.300 empresas ativas na área.

De acordo com o Sebrae, esse segmento tem recebido atenção especial, com o objetivo de fortalecer os empreendedores, oferecendo consultorias, capacitações e apoio à inovação para impulsionar a competitividade e enfrentar os desafios do setor.

“Nós temos várias consultorias voltadas para essa área da alimentação fora do lar. Inclusive, temos ações como participação em feiras, que trazem inovação, tecnologia e novas tendências para aplicar nos negócios locais”, afirma Francineide Câmara, analista de negócios do Sebrae.

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Segundo Francineide, pequenos ajustes, como pensar na apresentação, segurança dos alimentos e embalagem, fazem diferença no resultado final e ajudam a fortalecer quem trabalha com comida fora do ambiente doméstico.

“O empresário tem que acompanhar o mercado, a evolução do mercado. E essa área anda crescendo muito, tanto em Porto Velho quanto no país. Só que requer alguns cuidados. A preocupação com a higiene, as certificações em dia, a qualidade do produto… tem que ter toda uma preocupação também”, completou.

*Por Amanda Oliveira, da Rede Amazônica RO

50 dias na floresta: a história do caçador que ficou perdido após ser encantado pela “mãe da mata”

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Caçador ficou perdido por 50 dias na floresta. Foto: Alexander Lees

O caçador Magnilson da Silva Araújo, de 34 anos, desapareceu no dia 7 de abril, durante uma caçada com outros dois comunitários na região do km 50 da rodovia AM-352, que liga os municípios de Manacapuru a Novo Airão. Segundo os familiares, em determinado momento da caçada, ele decidiu seguir sozinho por um caminho diferente. Desde então, não havia sido mais visto.

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Após mais de 50 dias desaparecido, o caçador, foi encontrado com vida por moradores na manhã do dia 28 de maio, em uma área de mata no Ramal do Tumbira, no km 44 da rodovia AM-352, que liga Manacapuru a Novo Airão, no interior do Amazonas.

Desidratado, visivelmente mais magro, mas consciente, Magnilson recebeu abrigo e alimentação de moradores da região. Eles gravaram um vídeo logo após o resgate e compartilharam nas redes sociais para ajudar a localizar os familiares.

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Local onde o caçador foi encontrado em floresta do AM — Arte: g1 Amazonas

Foi por meio de uma publicação feita pela família que acolheu Magnilson que os parentes do caçador souberam que ele estava vivo. Durante o reencontro, uma familiar emocionada gravou um vídeo relatando o estado dele e agradecendo pelo apoio.

Veja o vídeo completo AQUI

Durante mais de dez dias, equipes do Corpo de Bombeiros atuaram nas buscas com apoio de cães farejadores. Moradores e familiares também ajudaram.

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Abrigo improvisado

Buritizeiro. Foto: Divulgação

Ele contou que, durante o tempo em que esteve perdido, construiu um abrigo improvisado para fugir da chuva.

Ele relatou ainda que, nos primeiros dias, dormia sobre galhos de árvores para tentar se proteger de animais. “Dormia nos galhos por causa de bicho, pra não me pegar durante a noite. Já com quase uns 20 dias, foi onde achei esse buritizeiro”, relatou.

Magnilson contou também que, após encontrar o buritizal, viu ali a chance de montar um abrigo improvisado para se proteger da chuva.

“Vi que tinha buriti embaixo e resolvi ficar ali. Tinha uns galhos. Quebrava palha no dente, na mão mesmo. Fiz uma chopanazinha, cobri. Peguei um bocado de vara — daquelas que eles tinham cortado pra marcar o pique — forrei e entrei debaixo. Era onde eu me abrigava da chuva”, contou.

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Resgate

Por meio de nota, o Corpo de Bombeiros informou que, inicialmente, foi acionado no dia 10 de abril, três dias após o desaparecimento, que ocorreu em uma área de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e no mesmo dia iniciou as buscas. A operação durou 11 dias e fez uma varredura em uma área de 180 km², com o apoio de um cão farejador do Grupamento de Busca, Resgate e Salvamento com Cães (GBRESC).

Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta
Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta no AM recebe alta de hospital. — Foto: Divulgação

No dia 21 de abril, as buscas foram oficialmente encerradas, após decisão conjunta com os familiares, diante da ausência de vestígios.

Na quarta-feira, 28 de maio eles prestaram os primeiros socorros a Magnilson. Ele foi encaminhado para atendimento médico em Manacapuru, onde permaneceu internado.

Já em casa, ao lado da família, o caçador relembrou os dias em que passou perdido na floresta e contou que sobreviveu se alimentando de frutos típicos da região amazônica, como buriti, cacauzinho-do-mato e uxi.

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Mãe da mata

Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta
Caçador que ficou 50 dias perdido em floresta no AM recebe alta de hospital. — Foto: Divulgação

Aos familiares, Magnilson disse que se perdeu após ter sido encantado por uma “entidade da floresta”, que se apresentava como a “mãe da mata”.

O folclorista e historiador, Nonato Torres, explica quem é a entidade. A entidade é descrita como uma jovem mulher de características indígenas que caminha pela floresta. Há quem relate que a entidade usa trajes feitos de folhas secas e pode ser vista como protetora generosa ou uma guerreira mística, dependendo da narrativa.

Segundo o folclorista e historiador, a entidade protege a mata de invasores e de pessoas que desejam fazer o mal ao meio ambiente. Suas histórias são repassadas de geração para geração por ribeirinhos e nativos da região amazônica.

“A ‘Mãe da Mata’ é uma entidade protetora da mata. Quem acredita nisso? São os indígenas e também o caboclo ribeirinho. ‘Mãe da Mata’ é como se fosse um espírito protetor, como o ‘Curupira’, o ‘Boitatá’ e os chamados os ‘Angaturamas’. Eles protegem a mata do caçador, eles protegem a mata dos que querem fazer mal a ela, dos invasores”, explicou Torres.

Para ele, o relato feito pelo caçador após ter passado os 50 dias perdido na mata evidencia as histórias que costumam ser contadas pelos indígenas e ribeirinhos sobre a chamada “Mãe da Mata”.

“Uma pessoa que entra no meio da mata e se perde, em princípio, é porque de alguma forma ele tem um malefício a fazer e aí eles são direcionados (pela entidade), são levados a se perderem. Temos que acreditar nas histórias dos que contam, dos ribeirinhos, dos indígenas. Se o caçador que levou 50 dias perdido fala nesse espírito, é porque ele também nos traz a realidade, essa história de que existe um espírito protetor”, disse.

Encantado pela “Mãe da Mata”

O irmão de Magnilson, o autônomo Francisco da Silva Araújo, contou que o caçador relatou brevemente o que teria acontecido durante o desaparecimento: ele disse que passou a acreditar estar sendo guiado por uma “entidade da floresta”.

“Ele só falou que estava encantado. Tinha uma mulher que chamava, e ele saiu buscando essa mulher que levava ele e dizia que era a ‘mãe da mata’. Ele estava atordoado, andava, andava e voltava para o mesmo lugar. Tentou se matar, mas não tinha mais cartuchos. Então ele orou e disse que Deus o guiou até a casa de uma pessoa evangélica, onde foi encontrado”, disse.

*Com informações do g1 Amazonas

Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas

Torre de Belém, em Portugal. Foto: Reprodução/Museus e Monumentos de Portugal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

No século XIX, estabeleceu-se que a data de falecimento de Camões teria ocorrido à 10 de junho de 1580. O responsável por isso foi o Visconde de Juromenha que descobriu na Torre do Tombo, um documento onde era mencionada a quantia a que a mãe do poeta, senhora Ana de Sá, tinha direito após a morte do filho, cuja data era indicada.

A celebração nacional do tricentenário da morte do poeta, em 1880, pelo impacto que teve na sociedade da época e pelo rastro de orgulho que deixou para a posteridade, permanece até os dias atuais como memória importante a ser festejada.

A monarquia constitucional não voltaria a comemorar a data. Porém a primeira vereação da Câmara Republicana de Lisboa foi que decidiu transformá-la em Município de Lisboa em dias especiais, celebrado em toda capital do país.

Ao sabor das vicissitudes políticas e da instabilidade da primeira República Portuguesa, o dia 10 de junho foi comemorado durante vários anos, num misto de celebração laica e republicana, dominando o grande ideal da instituição pública e de arraial popular dada a proximidade dos festejos de Santo Antônio.

Somente em 1925, na sequência das comemorações do quarto centenário de nascimento do poeta, também festejado na data da morte por se desconhecer a data do nascimento, é que foi consagrada como festa de Portugal. Mas foi a ditadura que, finalmente, a instituiu como feriado nacional.

O Estado Novo manteve o feriado que, depois de um período de esmorecimento, foi recuperado no quadro da mística imperialista do regime e das comemorações do sacrifício de sangue dos soldados portugueses que estavam a lutar nas guerras na África.

Vista aérea de Lisboa, em Portugal. Foto: Reprodução/Câmara Municipal de Lisboa

A designação oficial continuou a ser dia de Portugal, mas a retórica vigente recuperou neste momento uma expressão já utilizada na comemoração do centenário em 1925, o dia da raça. A expressão não tinha um único sentido e tende a ser lida e entendida no contexto em que foi utilizada para se perceber os vários significados que lhe foram atribuídos.

Depois do dia 25 de abril de 1974, num quadro democrático e pós-colonial, o dia 10 de junho se manteve como um dos mais importantes feriados nacionais. A designação foi alterada para ‘O Dia de Camões, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas’. A celebração perdia o cunho imperial, mas não deixava de evocar a diáspora dos portugueses pelo mundo.

O dia 10 de junho e o Príncipe dos Poetas mantém-se, assim, como um dos mais perenes símbolos da nação portuguesa.

Nesta oportunidade quero destacar os maiores vultos da história portuguesa que foram emigrantes: Damião de Góes, Francisco Manuel de Melo, Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Pedro Vaz de Caminha e consequentemente, em uma era mais moderna, Ferreira de Castro, Fernando Pessoa e tantos outros hoje espalhados pelo mundo.

Não há dúvida! Que os nomes mais gloriosos da história de Portugal, desde os navegadores, escritores, historiadores e missionários, todos tinham sangues emigrantes.

Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, por volta de 1577. Imagem: Reprodução/WikimediaCommons

No Amazonas não foi diferente, muitos foram aqueles que perpetuaram seus nomes em nossa história: JG Araújo, José Teixeira de Souza, José Cruz, Antônio Duarte de Matos Areosa e tantos outros da era moderna.

Segundo Conceição Meireles, investigadora especialista em História Contemporânea de Portugal, Camões representava o gênio da Pátria, representava Portugal na sua dimensão mais esplendorosa e mais genial.

Esta comemoração alia-se a “portugalidade” com o gênio do poeta e com o espírito aventureiro e empreendedor dos portugueses, que tal como nos tempos da expansão marítima, de grandiosidade portuguesa em que Portugal deu ao mundo a tarefa da colonização.

Os portugueses continuam espalhados pelos vários continentes, levando consigo o saber, a língua, a cultura, o trabalho e as raízes nacionais. Esses portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo são deveras importantes para a expansão da importância de Portugal.

Quero encerrar a minha fala proferindo uma estrofe da poesia de Camões:

Transforma-se o amador na causa amada,
Por virtude do muito imaginar,
Não tenho logo que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada,
Que mais desejo o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma transformar”.

Bem aja os portugueses espalhados pelo mundo, em especial no Amazonas!

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Quadrilhas se preparam para emocionar no tablado do Boa Vista Junina

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A Arena Junina está grandiosa, com capacidade para receber mais de 5 mil pessoas. Foto: Diane Sampaio/PMBV

O Boa Vista Junina começa nesta terça-feira, 3, na Praça Fábio Marques Paracat e com ele, o tradicional ‘Concurso de Quadrilhas’, que este ano, promete emocionar o público boa-vistense com a celebração de 25 anos do Maior Arraial da Amazônia. A Arena Junina está ainda mais grandiosa, com estrutura coberta, iluminação cênica e capacidade para receber mais de 5 mil pessoas.

A competição contará com a participação de 24 grupos – 12 do Grupo Especial e 12 do Grupo de Acesso. O concurso segue até sexta-feira, 6, com a grande apuração marcada para o dia 7. No domingo, 8, último dia do evento, se apresentam as campeãs do Grupo de Especial e do Grupo de Acesso, que serão contempladas com troféus. A grande vencedora do Grupo Especial também garantirá um pacote com passagens aéreas para representar Roraima no cenário nacional de quadrilhas.

Leia também: Boa Vista Junina 2025 – Arquibancadas montadas na praça Fábio Paracat terão capacidade para receber mais de 5 mil pessoas

O “Giro de Saia” é um dos grandes destaques das apresentações dos grupos juninos. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Maior Arraial da Amazônia repleto de novidades

A estrutura da Arena Junina foi pensada para proporcionar conforto e visibilidade ao público, com um tablado de mais de 700 metros quadrados, um dos maiores já utilizados no evento. A iluminação cênica dará o toque final às apresentações, valorizando ainda mais os detalhes de cada espetáculo.

Entre as novidades deste ano está a premiação técnica individual, com troféus para os três primeiros colocados nas categorias de visagismo, cenografia e iluminação cênica – avaliadas por professores doutores do curso de Artes Visuais da UFRR. A tradicional premiação para os destaques do concurso segue com R$ 6 mil para cada eleito nas categorias Rei Matuto, Rainha Caipira, Rainha da Diversidade e Casal de Noivos.

A premiação técnica individual, com troféus para os três primeiros colocados nas categorias de visagismo, cenografia e iluminação cênica está entre as novidades deste ano. Foto: Giovani Oliveira/PMBV

“25 anos de brilho, tradição e resistência”

Para o diretor executivo do Concurso de Quadrilhas Juninas, Chiquinho Santos, a edição comemorativa de 2025 será um verdadeiro espetáculo da cultura popular.

“O público pode esperar ainda mais brilho e emoção este ano. Ampliamos a capacidade da Arena Junina, atendendo a um pedido antigo da comunidade. Também aumentamos o tablado para mais de 700 metros quadrados, garantindo mais liberdade de criação para os grupos. Tudo isso para celebrar os 25 anos de história do Boa Vista Junina com a grandiosidade que ele merece”, disse.

Chiquinho também destacou o impacto social e econômico do evento. “O Boa Vista Junina não é só um giro de saia ou uma palma de mão. É uma manifestação artística que movimenta a economia criativa da nossa cidade. Isso é identidade cultural gerando desenvolvimento e oportunidade”, garantiu.

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Mais representatividade, mais cultura

Os quesitos a serem avaliados durante as apresentações incluem desde coreografia, repertório, figurino até criatividade e animação. Foto: Giovani Oliveira/PMBV

O corpo de julgadores contará com nove especialistas – sendo três de fora do Estado – com formações e vivências diversas, incluindo representantes indígenas e quilombolas. Os quesitos a serem avaliados vão desde coreografia, repertório e figurino até criatividade e animação. Com tanta diversidade e dedicação, o Concurso de Quadrilhas promete encantar, emocionar e reforçar o orgulho de ser roraimense reafirmando o Boa Vista junina como o maior da Amazônia.

‘Palmares, uma invasão Caprichoso’ e ‘Perrechéologia’: conheça o vocabulário das toadas do Festival de Parintins 2025

Bois Garantido e Caprichoso. Fotos: Divulgação

Em Parintins, cada toada é um grito da floresta e um canto de identidade. No embalo da rivalidade entre Caprichoso e Garantido, surgem palavras que vão além da melodia. Para o festival deste ano, o Garantido traz a ‘Perrechéologia’, mistura de tradição e orgulho vermelho. Já o Caprichoso chega com ‘Palmares, uma Invasão Caprichoso’, toada marcada por força, resistência e raiz azul.

Entender esses termos é se aprofundar no vocabulário criativo de um festival onde música, história e emoção se misturam na voz do povo da Ilha Tupinambarana e, para isso, o Grupo Rede Amazônica mergulhou no universo do Festival Folclórico de Parintins e ouviu quem dá voz a essa poesia: os próprios compositores.

Leia também: Mentes que compõem Parintins: a identidade por trás das toadas do Festival

‘Palmares, uma Invasão Caprichoso’

‘Palmares, Uma Invasão Caprichoso’, composta por Adriano Aguiar, Vanessa Aguiar e Edval Machado, é mais que uma toada — é um grito de retomada. Com versos que exaltam a origem do boi azul e a força do povo que o viu nascer, a canção costura memórias e resistência em cada palavra.

Ao cantar a história do Caprichoso, os compositores resgatam raízes e homenageia a coragem de quem, mesmo sem estrutura ou apoio, construiu um dos maiores símbolos da cultura amazônica.

A toada traz expressões carregadas de identidade local, como “pra lá da placa”, referência ao bairro do Palmares, onde nasceu o boi, além de “lombrigueira”, árvore típica de Parintins, e “Seo Jove”, figura histórica do Caprichoso, entre outras.

conheça o vocabulário das toadas do Festival de Parintins
Boi Caprichoso. Foto: Divulgação

Veja o que significa as expressões utilizadas pelos compositores do boi azul e branco:

🌟 Pra lá da placa: termo utilizado para identificar a comunidade que deu origem ao bairro do Palmares, reduto do Boi Caprichoso;

🌟 Lombrigueira: árvore típica de Parintins que ficava localizada no fim do bairro do Palmares, próximo ao lago do Macurany;

🌟 Canto da porrada: bar popular do Palmares, onde antigamente ocorria a briga de ‘galeras’ (grupo de jovens);

🌟 Seo Jove: morador muito ilustre do bairro do Palmares e fundador do time o ‘Estrela do Norte’. “Ele também chegou a brincar de boi no Caprichoso, inclusive chegou a ser o tripa do boi. É uma grande figura do nosso Palmares”, contou Adriano Aguiar.

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‘Perrechéologia’

A toada ‘Perrechéologia’ é um manifesto em forma de ritmo, que exalta com orgulho a tradição do povo vermelho e a grandiosidade do Boi Garantido, conhecido como a verdadeira realeza da Baixa do São José.

Com melodia marcante e versos cheios de identidade, a composição valoriza as raízes culturais da galera encarnada, celebrando um modo de viver e festejar que atravessa gerações. O termo “perrechélogia” mistura irreverência com sabedoria popular, criando quase uma ciência do boi, da rua, da fé e da resistência.

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Ao longo da letra, os compositores Jaércio Curuatá, Bruno Bulcão, Nazira Marques e Alessanda Reis pintam o retrato de um Garantido que pisa firme no chão da ilha, levando consigo o orgulho do seu povo.

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Boi Garantido. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM

Veja o que significa as expressões utilizadas pelos compositores do boi vermelho e branco:

❤️ Um pirão de gente: pirão é farinha molhada que vira uma massa firme, bem do jeito do Norte. Também é jeito de falar de um povo reunido: um amontoado de gente;

❤️ Tece um tapete encarnado: alusão aos tapetes vermelhos que se estendiam para a realeza passar — o povo reunido tece seu próprio tapete encarnado para o Garantido desfilar;

❤️ Perrechéologia: é a “ciência” que explica o sentimento de ser Garantido, que só quem sente de verdade consegue entender;

❤️ Apofiar: “é como uma criança tentando apostar corrida com um carro. Ela sai correndo do lado e dizem que ela está ‘apofiando’. Então, posso dizer que eu vou apofiar com o Garantido. Eu vou junto, na fé e na coragem”, narrou Bruno Bulcão.

Festival de Parintins 2025

O 58º Festival Folclórico de Parintins acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho, no tradicional Bumbódromo de Parintins, interior do Amazonas. Ao longo das três noites de apresentação, 21 itens de cada agremiação são julgados em apresentações de no máximo 2h30.

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Este ano, o Boi Caprichoso apresenta o tema ‘É Tempo de Retomada’ em busca do tetracampeonato. O tema é inspirado no livro de mesmo nome da escritora indígena Trudruá Dorrico. A escolha tem como objetivo valorizar a cultura indígena e reafirmar o compromisso do bumbá azul e branco com a defesa da Amazônia e dos povos tradicionais.

Já o Boi Garantido leva para a arena o tema ‘Boi do Povo, Boi do Povão’ para tentar alcançar seu 33º título na história do Festival. Com essa temática, o bumbá vermelho e branco promete levar ao Bumbódromo uma celebração da resistência, ancestralidade e força de seus povos, reafirmando sua posição como o mais querido do povão.

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*Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

Quem chora por ti, Amazônia?

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Trecho da BR-319. Foto: Reprodução/Ascom AGU

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Ao comparecer à Comissão de Infraestrutura do Senado Federal, na terça-feira, 27, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva (MMA), foi alvo de severas críticas aos seus posicionamentos divergentes em relação a todo e qualquer iniciativa pública alusiva a interesses autóctones relacionados ao desenvolvimento regional.

A ministra age com extremo rigor, e este é um ponto de alta tensão entre ela, as ONGs que representa e a sociedade brasileira e amazônida, ao mandar prender bois em terras sem a devida regularização fundiária; mandar destruir balsas de mineração clandestina, expulsar madeireiros ou pescadores operando em áreas desprovidas de títulos de propriedade rural comprovantes da posse legal de uma área de terra utilizada em atividades agrícolas, pecuárias ou florestais, essencial à garantia da segurança jurídica do ocupante. Além de passo fundamental para a regularização fundiária, à promoção da cidadania e ao fortalecimento da agricultura familiar das comunidades rurais. Enquanto isso, o país permanece desprovido de políticas públicas voltadas à correção dos atos de degradação florestal.

Marina da Silva é omissa ao não participar in-loco de discussões sobre planos, programas e projetos voltados à implantação de infraestrutura sócio-econômica, à necessidade de correção de crônicos pontos de ineficiência do sistema de ensino, pesquisa e extensão, ao desenvolvimento de tecnologias de processo e produto, à um sistema educacional e de saúde pública ajustado às condições geopolíticas da região. O posicionamento da ministra e de sua tropa de choque, os jurássicos Ibama e Icmbio, é sempre marcado por fortes tensões e divergências entre a gestora, o Congresso e a comunidade amazônica quando defende uma Amazônia em estado natural, como Deus a criou. Esquecendo, mesmo nascida no estado do Acre, que a região, 59% do território brasileiro, abriga uma população de cerca de 30 milhões de habitantes, que, historicamente, depara se com graves adversidades, como desmatamento, pobreza e violência.

Marina Silva. Foto: Fernando Donasci/MMA

Na Comissão, a ministra foi cobrada pela demora na liberação de licenças ambientais, na aprovação da exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira e na conclusão da rodovia BR-319, obra que tem na ministra do Meio Ambiente seu maior pesadelo. Daí hoje ser amplamente reconhecida como inimiga número 1 da Amazônia. Sua presença foi marcada por posicionamentos intransigentes como se o Senado fosse um colegiado de neófitos. A despeito dos defeitos e suspeitas que marcam a instituição, assim como a própria ministra, certamente hão de ser respeitados, mesmo que ela não o faça por merecer. Na verdade, o MMA e o próprio governo federal não têm um projeto de Amazônia, um plano de curto, médio e longo prazo estabelecendo prioridades à promoção do desenvolvimento regional. O presidente Lula, aqui tão bem votado, deve uma palavra de apoio à região.

O MMA não está minimamente preocupado com as reivindicações do Amazonas, das classes empresariais e da própria sociedade sobre medidas de proteção florestal, Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), regularização fundiária ou a conclusão da BR-319. Ignora que o Amazonas detém cerca de 95% de seu território absolutamente preservado e que, conforme dados do governo estadual, 54,73% configuram áreas estaduais protegidas, distribuídas entre Unidades de Conservação Federal (14,97%), Estadual (12,06%) e Terra Indígena (27,7%). Para Silva, entretanto, isso não é suficiente. Ela é adversa a todo e qualquer programa voltado ao desenvolvimento regional, mesmo que tenha como premissas o aproveitamento dos recursos da biodiversidade com preservação ambiental.

Quanto à exploração das reservas petrolíferas em águas profundas na margem Equatorial, a região litorânea entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, o IBAMA aprovou o plano da Petrobras de proteção à fauna local. Essa aprovação é uma etapa importante no processo de licenciamento ambiental da operação, permitindo o avanço à próxima fase envolvendo vistorias e simulações de resgate de animais em caso de acidente. Mesmo assim, Marina da Silva não valoriza esses passos. Tanto que, num passe de mágica, determinou a criação de quatro unidades de conservação na Margem Equatorial sob a alegação de que não impedirão a pesquisa e a exploração econômica da região.

Não leva em conta, entretanto, a distância da foz do rio Amazonas ao poço exploratório, que visa investigar o potencial da região, encontrar-se a mais de 500 km do estuário do rio Amazonas. Distância semelhante à que separa as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, portanto, fora de qualquer possibilidade de virem a causar danos à flora e à fauna pela exploração petrolífera na região. “Quem chora por ti, Amazônia?”, choramos nós que lutamos por um polo industrial integrado à bioeconomia sustentado logisticamente pela BR-319 e vias náuticas sinalizadas e seguras dos rios Madeira e Solimões, por uma infraestrutura, enfim, que permita que o Amazonas, definitivamente, faça parte do Brasil.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Acre tem maior taxa de escolarização de pessoas com TEA no país, diz IBGE

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Em um ano, 200 mil alunos com autismo foram matriculados em escolas comuns. Foto: Mardilson Gomes/SEE

O Acre é o estado com a maior taxa de escolarização entre pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) do país, com 55% desta população escolarizada. Foi o que mostrou um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseado em dados do Censo 2022, divulgado na sexta-feira (23).

A pesquisa de escolarização considerou as pessoas diagnosticadas acima dos 6 anos de idade. O estado ficou acima da média nacional, que foi de 37%.

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Esta taxa também é maior entre homens que entre mulheres: 62% entre o público masculino contra 41% da população feminina com TEA. Os maiores índices segundo o IBGE são do Acre (54,64), Amapá (51,75) e Sergipe (44,35).

Outra tendência revelada pela pesquisa é de que a faixa etária mais baixa, entre 6 e 14 anos, é a mais escolarizada, com 96,3%. O público de 15 a 17 anos tem 80% de escolarização, seguido por 28,17% do público entre 18 e 25 anos, e apenas 7,3% da faixa acima de 25 anos.

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Entre os municípios, o que tem a maior taxa de atualização de pessoas acima de 6 anos diagnosticadas com TEA é Assis Brasil, com 87,3%. O menor índice é de Manoel Urbano, com 4,42% de escolarização.

Taxa de escolarização de pessoas com TEA no Acre

Faixa etáriaTaxaHomensMulheres
6 a 14 anos96,395,5695,63
15 a 17 anos79,982,5973,84
18 a 24 anos28,1731,922,54
25 anos ou mais7,35,469,45

Fonte: IBGE/Censo 2022

*Por Victor Lebre, da Rede Amazônica AC

Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia e dos povos tradicionais

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Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Michel Mello

A ausência de políticas públicas eficazes e de financiamento adequado tem limitado a implementação de estratégias de adaptação climática na Amazônia. Para a diretora de Pesquisa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Patricia Pinho, essa barreira compromete a proteção da floresta e a segurança das comunidades que vivem na região.

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Em policy brief publicado em abril deste ano, Pinho, em conjunto com outras pesquisadoras do IPAM, aponta que eventos climáticos extremos na Amazônia — como inundações intensas, secas prolongadas e queimadas — além de agravarem a vulnerabilidade das populações locais, também ameaçam a biodiversidade da região.

Os impactos recaem sobre a infraestrutura, a economia e o cotidiano das pessoas. Conforme o documento, entre 1991 e 2023, os prejuízos econômicos chegaram a R$ 10,6 bilhões. Esses dados reforçam, segundo o estudo, a urgência de medidas de adaptação.

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A cheia atinge todos os estados da Amazônia. Foto: Divulgação

“A gente sabe que a situação das pessoas é de vulnerabilidade quanto ao acesso à água potável, energia, transporte e alimentação. A saúde também se torna muito desafiadora, por conta do ir e vir e da ausência de assistência médica em comunidades e municípios mais remotos. Isso é só um panorama para entender que, basicamente, os riscos e impactos climáticos têm aumentado substancialmente, enquanto as estratégias de adaptação continuam a desejar”, explica Pinho.

O IPAM vem ampliando a agenda de atuação nos temas de adaptação às mudanças climáticas, com foco nas populações da Amazônia. Os efeitos sentidos por povos indígenas, por exemplo, são monitorados em iniciativas como o SOMAI-ACI (Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena e aplicativo Alerta Clima Indígena, respectivamente) para subsidiar a gestão dos territórios e a produção de dados que serve de base para a criação e o fortalecimento de políticas públicas direcionadas.

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Situação da agenda adaptativa na Amazônia

Na avaliação da pesquisadora, o Brasil deixa a desejar na linha de frente da elaboração de estratégias de adaptação que reduzam impactos e riscos climáticos — especialmente as de origem política ou ligadas à iniciativa privada, que poderiam colaborar com o financiamento de soluções.

De acordo com o policy brief “Acelerando Estratégias de Adaptação Equitativa na Amazônia em Meio às Mudanças Climáticas”, apenas nove municípios brasileiros possuem leis voltadas à mitigação ou adaptação climática. No entanto, segundo Pinho, não há hoje políticas públicas que considerem de forma específica as questões da Amazônia diante das mudanças do clima.

Amazônia Legal registra média de 11 mil km² por ano de área desmatada
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace Brazil

O estudo do IPAM aponta como principal fator para a ausência de ações adaptativas a falta de prioridade política. Segundo o documento, as mudanças climáticas costumam ser deixadas em segundo plano no orçamento, atrás de outras pautas como saúde, segurança pública e economia. Além disso, destaca a escassez de recursos financeiros, a limitada capacidade técnica de muitos municípios e a ausência de dados confiáveis sobre vulnerabilidades e impactos locais. Conflitos de interesse e pressões econômicas também estão entre os obstáculos.

Pinho afirma que o foco por parte do poder público nas medidas de mitigação também é um problema. De acordo com a diretora, atualmente, os recursos públicos são gastos principalmente com as estratégias de recuperação dos desastres. Contudo, ela aponta que, em muitas situações, a depender da gravidade do impacto do evento climático, a recuperação não é fácil — nem mesmo ao longo do tempo. Por esse motivo, a pesquisadora defende uma agenda proativa de adaptação climática, que deve ser tratada como um “seguro”, para que, quando houver impactos, não haja perdas econômicas, sociais e de vidas humanas.

“As estratégias de adaptação têm um custo financeiro e para a mobilização das estruturas de governança e de monitoramento. Mas, quando se compara com o custo dos desastres e seus desdobramentos, vemos que o investimento em adaptação é muito baixo frente aos benefícios que pode gerar”, afirma a pesquisadora.

cheia na Amazônia
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Marcos Vicentti/Secom.

Nesse cenário, o IPAM tem contribuído ativamente para criar soluções de adaptação local. Uma das iniciativas recentes da organização foi a elaboração do Plano Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima de Rio Branco, desenvolvido em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e com a iniciativa ICLEI (Governos Locais Pela Sustentabilidade para América do Sul).

O plano reúne ações prioritárias para enfrentar os desafios climáticos no município e foi construído a partir do diálogo com diversos setores da sociedade. A experiência de Rio Branco exemplifica como a produção científica aliada à articulação institucional pode resultar em estratégias concretas para fortalecer a resiliência local, demonstrando o potencial das parcerias entre governos, centros de pesquisa e a sociedade civil na agenda adaptativa da Amazônia.

Apesar de já contar com esse plano estruturado, até 2023 a capital acreana ainda não havia implementado as medidas propostas. O município foi atingido por enchentes em 41 dos últimos 52 anos, com episódios de grau médio, grande ou extraordinário em quase metade desse período.

Vazante atinge os rios da Amazônia. Foto: Rafa Neddermeyer/Agencia-Brasil

Só em 2023, mais de 20 mil pessoas foram impactadas pelo transbordamento do Rio Acre e de igarapés, levando a prefeitura a decretar situação de emergência. O plano identifica essas enchentes como vulnerabilidades de alto risco e atribui parte do agravamento dos impactos à ocupação desordenada do solo, à negligência com o Plano Diretor e à ausência de infraestrutura urbana adaptada às novas condições climáticas.

Para o IPAM, o caso de Rio Branco mostra que o planejamento, por si só, não é suficiente: é preciso transformar estratégias em ações concretas e contínuas, sob risco de repetição de tragédias anunciadas.

Além do apoio do IPAM no Acre, o Instituto também avança na discussão sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas em Manaus e em Belém.

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Participação das populações na formulação das políticas

Cada impacto climático não tratado por meio da adaptação tende a se multiplicar em severidade e efeitos negativos. Pinho reforça que, ao contrário da mitigação, a agenda de adaptação deve ser implementada em nível local e com envolvimento direto das comunidades afetadas.

Cheia em Parintins, Amazonas. Foto: Divulgação

Graduada em Biologia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Pinho destaca que há amplo consenso científico sobre como o engajamento das populações tradicionais na elaboração de políticas climáticas torna as medidas mais efetivas. O conhecimento tradicional, seja ele ecológico ou culturalmente relevante para o ecossistema, favorece a eficácia, a abrangência e o monitoramento das estratégias de adaptação.

Com a participação local, diz ela, há maiores chances de as políticas serem mais abrangentes, além de terem o monitoramento e o aprendizado adaptativo facilitado, em caso de as ações adotadas não funcionarem, fazendo com que as estratégias precisem ser repensadas.

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Principais soluções

Na visão institucional do IPAM sobre adaptação proteger os territórios naturais — especialmente os indígenas, ribeirinhos, extrativistas e de populações tradicionais — é a estratégia mais urgente. Essa proteção pode ser concretizada , segundo o policy brief, por meio da destinação adequada das Florestas Públicas Não Destinadas e do fortalecimento da autonomia das populações residentes, garantindo acesso a saúde, água potável, energia e infraestrutura básica, reduzindo a dependência da navegabilidade em períodos de seca.

Outro ponto levantado por Pinho é a criação de um sistema que contemple a sazonalidade dos rios amazônicos, considerada um dos principais componentes de risco da região. Ela destaca que a vida das populações amazônidas está profundamente conectada à dinâmica das águas — seja na pesca, na agricultura ou na mobilidade.

O IPAM produziu um documentário, lançado em 2024 durante o Proteja Talks em Manaus, sobre a seca do Rio Negro em 2023 e os impactos sofridos pela população. Além de relatos e entrevistas com moradores e populações tradicionais, o filme convida cientistas a explicar o evento extremo e as saídas para o equilíbrio climático. Assista ao trailer:

Um conjunto de medidas adaptativas consideradas “sem arrependimentos” pode ser adotado de forma imediata e trazer benefícios mesmo diante das incertezas climáticas, indica o estudo do IPAM divulgado em 2025. Entre essas soluções estão: 1) a descentralização da energia com foco em fontes renováveis, como a solar; 2) o fortalecimento da infraestrutura básica e dos serviços de saúde e educação em cidades pequenas; 3) a melhoria da governança dos recursos hídricos; e 4) o incentivo à bioeconomia sustentável, baseada na valorização da biodiversidade e dos saberes tradicionais.

As ações, além de reduzirem a vulnerabilidade das populações amazônicas, também contribuem para conservar os ecossistemas da floresta e evitar perdas socioeconômicas mais graves no futuro.

Além das medidas citadas, o IPAM também propõe estratégias adaptativas voltadas para diferentes setores e territórios da Amazônia. Entre elas estão o apoio à agricultura de baixo impacto, com sistemas integrados e restauração de pastagens degradadas; a gestão sustentável da pesca com tecnologias adaptadas ao clima; e a promoção da piscicultura de baixo impacto ambiental.

O policy brief ainda defende o uso de soluções baseadas na natureza nas cidades, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce para eventos extremos e a ampliação de políticas públicas para proteção dos territórios indígenas e tradicionais, considerados essenciais para manter a floresta em pé e mitigar os impactos das mudanças climáticas.

*Com informações do IPAM

Documentário resgata mitologia Munduruku: mulheres usam câmeras de cinema para proteger a Amazônia

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O documentário ‘MUNDURUKÜYU – a floresta das mulheres peixes’ conta histórias da mitologia do povo Munduruku. Foto: Divulgação/Coletivo Daje Kapap Eypi

Na mesma semana em que Brasília (DF) recebeu o ATL (Acampamento Terra Livre) 2025, mobilização de povos indígenas de todo o país por direitos e políticas públicas, o coletivo audiovisual Daje Kapap Eypi lançou o documentário ‘MUNDURUKÜYU – a floresta das mulheres peixes’ no “É Tudo Verdade”, o principal festival do gênero na América Latina.

Em 2022, o coletivo formado por jovens da Terra Indígena Sawré Muybu, no sudoeste do Pará, lançou um mini documentário em parceria com a Repórter Brasil.

A nova produção gira em torno da mitologia Munduruku e conta a história de mulheres peixes munidas de câmeras de cinema para proteger a Amazônia das forças que destroem a floresta.

Em entrevista à Repórter Brasil, Rilcelia Akai Munduruku, uma das diretoras do documentário, fala sobre o processo de criação e da importância de resgatar as histórias tradicionais do seu povo.

“Em meio de tantos projetos, de tantos ataques que tivemos, veio a ideia de criar um filme que fala da mitologia, que diz onde o rio, a floresta, os peixes, os animais um dia foram nossos antepassados”, afirma Rilcelia.

O filme destaca como a luta pela defesa do território se entrelaça com a mitologia dos povos indígenas.

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Indígenas de várias etnias participam da marcha do ATL (Acampamento Terra Livre) 2025, em Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

“Tudo que hoje a gente defende, tudo que hoje a gente luta para preservar, um dia foram nossos parentes. Então, essa foi a ideia de levar ao público, dizer que um dia nós fomos animais, nós fomos floresta, nós fomos rios, e hoje nós estamos aqui para defender nossos parentes”, complementa a diretora.

Rilcelia Akai é uma das diretoras do documentário lançado nesta semana (Foto: Joana Moncau/Repórter Brasil)
Para Rilcelia, o audiovisual e as redes sociais são ferramentas fundamentais de resistência e defesa dos territórios indígenas. Ela também ressalta o protagonismo das mulheres nessa luta.

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“Nós, como mulheres, que somos mães, estamos sempre na linha de frente junto com nossos guerreiros, com nossos caciques, com nossas lideranças maiores, para trilhar essa luta e batalhar junto com eles”, explica.

A juventude indígena também tem um papel essencial, segundo Rilcelia.“Nós não podemos desistir em nenhum momento da nossa luta, que nós não podemos nos escalar, que nós não podemos nos vender, que nós não podemos nos intimidar contra grandes impactos que vêm para dentro do nosso território”, afirma.

“Devemos ser fortes, seguir firme, e cada dia viver para defender o que tudo já é sagrado para nós, povos originários, que dependemos do nosso meio ambiente, do nosso lugar sagrado”, finaliza.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Repórter Brasil, escrito por Beatriz Vitória, com edição de Carlos Juliano Barros. Leia a publicação completa AQUI.