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4 INCTs do Inpa aprovados para desenvolver pesquisas e soluções para desafios da Amazônia

Torre ATTO faz parte de uma das INCTs. Foto: Divulgação/Acervo Inpa

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) aprovou quatro projetos na chamada mais recente do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). O resultado, segundo o instituto, “reafirma” sua posição “como uma das principais instituições científicas do país, com atuação estratégica na pesquisa, formação de recursos humanos e inovação para os desafios enfrentados pela Amazônia”.

Os INCTs são redes de pesquisa de excelência que visam fomentar estudos estratégicos e inovadores em áreas prioritárias para o desenvolvimento do Brasil, promovendo avanços científicos com impacto direto na sociedade. O Programa INCTs é coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e operacionalizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Com as novas aprovações, o Inpa totaliza sete INCTs, fortalecendo atuação estratégica em áreas como biodiversidade, mudanças climáticas, manejo sustentável e conservação de ecossistemas. Juntos, os quatro projetos recentes somam um financiamento de R$49,3 milhões. 

  • Os INCTs aprovados são:
  • ATTO-Equilibrium,
  • Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras (INCT-Wetscape),
  • Madeiras da Amazônia
  • e Adaptação da Biota Aquática da Amazônia (Adapta III).

Os outros três projetos que já estão em execução são BioDossel – insetos na copa das árvores, Valor Ambiental da Amazônia (Valamb) e Biodiversidade Amazônica (Cenbam).

ATTO-Equilibrium

Coordenado pelo pesquisador Carlos Alberto Quesada, o projeto Observatório da Torre Alta da Amazônia – ATTO-Equilibrium – conectando sistemas simbióticos na Amazônia, um dos projetos aprovados pelo INCT, tem como objetivo ampliar a compreensão sobre como a floresta amazônica interage com a atmosfera, contribuindo para a redução de incertezas em previsões climáticas. 

“O ATTO é atualmente a mais sofisticada plataforma de pesquisa em florestas tropicais do planeta. Vamos investigar como os diferentes componentes do sistema terrestre, como solo, vegetação, atmosfera e microbiota, interagem com eventos extremos e influenciam a dinâmica do clima global”, explica Quesada.

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A estrutura do projeto permitirá a coleta contínua de dados sobre troca de gases, emissão de compostos orgânicos voláteis, formação de nuvens e reciclagem de água, além de aprimorar modelos regionais e globais sobre a floresta tropical.

Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras

Outro destaque entre os novos projetos é a Rede de Paisagens Úmidas Brasileiras (INCT Wetscape), liderada pelo pesquisador Jochen Schöngart, que atuará em diferentes biomas do Brasil com foco na conservação e no uso sustentável das áreas úmidas. A iniciativa reúne 76 pesquisadores de 26 instituições e pretende gerar conhecimento técnico e científico para subsidiar políticas públicas e estratégias de adaptação às mudanças climáticas.

“Nosso objetivo é analisar de forma integrada a resiliência dessas paisagens frente a estressores como eventos climáticos extremos, fogo, espécies invasoras e o aumento do nível do mar, entre outros. A missão do Wetscape é apoiar políticas públicas inclusivas e promover ações de conservação junto às populações tradicionais”, destaca Schöngart. 

Árvores mortas de Eschweilera tenuifolia no PARNA Jau. Foto: Divulgação/Acervo Peld Maua

A rede abrange paisagens úmidas estratégicas no Brasil como o Interflúvio Negro-Branco, o Pantanal, o Araguaia, as áreas alagáveis da Amazônia Central, o Complexo Estuarino de Paranaguá e a Restinga de Jurubatiba e o Taim.

Além dessas novas propostas, foram renovados dois projetos já reconhecidos por sua excelência: o INCT Madeiras da Amazônia, coordenado por Niro Higuchi, e o Adapta, coordenado por Adalberto Val. 

INCT Madeiras da Amazônia

Com foco na sustentabilidade da indústria madeireira, o projeto de Higuchi investe no uso de tecnologia para otimizar o aproveitamento da madeira, reduzir desperdícios e gerar produtos com menor impacto ambiental. 

“Hoje, mais da metade de uma tora de árvore é desperdiçada. Nossa proposta é reverter esse quadro com o uso de sensores, drones e algoritmos para mapear e otimizar o manejo, além de desenvolver produtos sustentáveis a partir de resíduos florestais”, conta Higuchi. 

Niro Higuchi na ZF-2 – Manejo Florestal. Foto Paulo Vinicius/Ascom Inpa

Entre os avanços mais recentes, estão iniciativas que reaproveitam madeiras naturalmente caídas ou de pequeno diâmetro em peças para construção civil, setor moveleiro e até painéis interativos que como o instalado no Bosque da Ciência.

Adaptação da Biota Aquática da Amazônia – Adapta III

Com foco na resposta da biodiversidade amazônica às mudanças climáticas, o Adapta III propõe uma investigação inédita sobre os impactos de cenários ambientais extremos projetados para o fim do século.

Laboratório LEEM Adapta. Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa

Em salas experimentais que simulam condições previstas para 2100 – como aumento de temperatura, acidificação da água e baixos níveis de oxigênio – pesquisadores brasileiros, em parceria com grupos internacionais, buscam compreender como a biota aquática será afetada. 

“Trata-se de uma iniciativa única no mundo, voltada à ciência de fronteira, à conservação do bioma e à formação de uma nova geração de especialistas em clima e biodiversidade”, afirma Adalberto  Val.

*Com informações do Inpa

Incêndios criminosos podem estar por trás de novo ‘boom’ de desmatamento na Amazônia

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Tronco de árvore queimada em uma área da floresta amazônica no estado de Rondônia. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 2025, a agenda ambiental brasileira caminha em uma encruzilhada. Enquanto os olhos do mundo se voltam para a cidade de Belém (PA), futura sede da Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), em novembro, vários alarmes soam na Amazônia em resposta a um aumento excessivo nos números de desmatamento.

Apenas no mês de maio, a derrubada de floresta atingiu 960 km², um aumento de 92% em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente.

Leia também: Desmatamento aumenta 18% de agosto a março na Amazônia, aponta Imazon

As cifras, no entanto, pintam um quadro ainda mais chamativo: monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já havia indicado em abril um aumento de 55% nos alertas de desmatamento este ano, dando a entender que uma tendência crescente — e em larga escala — estaria em andamento.

As previsões foram corroboradas em julho em um relatório semestral do governo, também baseado em análises do Inpe: entre janeiro e junho de 2025, um total de 2.090 km² de áreas da floresta amazônica esteve sob alertas de desmatamento, um número que supera as estatísticas do primeiro semestre de 2024 em 27%; o valor também é o mais alto para o período desde 2023.

Em nota, a pasta do Meio Ambiente disse que, durante os primeiros seis meses do ano, “as áreas sob alerta de ‘desmatamento com vegetação’, que correspondem a locais atingidos pelo fogo, cresceram 266%” na comparação ao mesmo período do ano anterior.

Autoridades, agora, tentam desvendar o quebra-cabeça para entender os motivos por trás dos números em alta. O caso intriga especialistas à medida que os relatórios trazem alguns aspectos atípicos: no começo de junho, quando expôs os dados em coletiva de imprensa, o secretário-executivo do Ministério, João Paulo Capobianco, disse que mais da metade (51%) do desmatamento detectado nos primeiros meses do ano se deu em trechos de floresta que já haviam sido queimados.

O problema ganha força de forma acelerada ano após ano: partindo de uma média de 6,6% entre 2016 e 2022, a parcela de área queimada no montante total de floresta perdida saltou para 21% em maio de 2024, até atingir os níveis recordes registrados no início de 2025.

Nas palavras de Capobianco, o governo brasileiro está frente a frente com um “fato novo”. Segundo ele, “o impacto dos incêndios florestais ao longo da história foi relativamente baixo sobre a taxa de desmatamento”. Esse padrão, no entanto, tem se alterado. “Agora, com o agravamento das mudanças climáticas, com a maior fragilidade da cobertura florestal, primária inclusive, estamos começando a assistir a uma mudança de cenário que comprova os alertas que vinham sendo feitos pela ciência (…)”, disse.

Do ponto de vista do poder público, explicar o que ocorre na Amazônia é tão importante quanto encontrar soluções para evitar uma avalanche de más notícias climáticas na antessala da COP30. Mais ainda, o momento atual é particularmente desafiador para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem na conservação ambiental um dos pilares de seu terceiro mandato, iniciado na sequência dos anos de desmonte ambiental sob Jair Bolsonaro (2019-2022).

Embora o desmatamento na Amazônia tenha caído 30% já nos primeiros anos desde a volta de Lula (considerando dados que vão de agosto de 2023 a julho de 2024, no que se tornou o menor nível em nove anos), os últimos relatórios colocam um ponto de interrogação no horizonte do governo. Para aumentar a dor de cabeça das autoridades, a próxima compilação anual deve ser anunciada às vésperas da conferência em Belém — e, caso os números tragam um panorama negativo, questionamentos sobre a situação do maior bioma brasileiro serão inevitáveis.

Como o fogo redefine a crise do desmatamento

Segundo Capobianco, análises técnicas recentes confirmam alertas trazidos pela ciência. “A floresta tropical, que é naturalmente imune a grandes incêndios pela sua umidade, está sofrendo um impacto muito grande das mudanças climáticas, reduzindo a sua resistência a incêndios e se tornando mais vulnerável. Os dados infelizmente começam a aparecer nas estatísticas”, disse o secretário, em junho.

O governo federal já trabalha há um bom tempo com a hipótese de que muitos desses incêndios são criminosos. Muitos desmatadores se aproveitam da baixa fiscalização para incendiar a floresta como forma de acelerar o processo de derrubada e “limpeza” de vastas áreas de vegetação nativa.

Leia também: Florestas tropicais da Amazônia estão perdendo a luta contra o fogo, aponta livro

A Mongabay questionou o Ministério do Meio Ambiente sobre se os incêndios criminosos já são observados por autoridades como uma “nova tática” para a subtração da floresta. A pasta não respondeu especificamente à pergunta enviada, mas reiterou a preponderância inédita de incêndios nos estudos recentes sobre desmatamento.

A luta contra as chamas se tornou uma prioridade para o Brasil nos últimos tempos. Em 2024, uma “guerra” foi anunciada contra uma epidemia de focos de incêndio que ameaçou não apenas a Amazônia, mas também os biomas do Cerrado e do Pantanal — ambos igualmente biodiversos. Estudos mostraram que o fogo também foi o principal agente de destruição em áreas de Mata Atlântica.

Os esforços não pararam em 2025. Entre fevereiro e março, para se antecipar a uma nova temporada de incêndios, o governo decretou emergência ambiental em diversas áreas vulneráveis às queimadas florestais. Em seguida, foi dada a largada a uma campanha nacional de prevenção aos incêndios — essa, com foco em regiões amazônicas e desenvolvida em parceria com estados e municípios. A iniciativa, segundo o documento, tem o objetivo de “conscientizar a população local sobre as consequências das queimadas não autorizadas”.

Fogo tem gerado preocupações. Foto: Christian Braga/Greenpeace

No entanto, nenhum dos alertas recentes foi tão a fundo nas reais dimensões da crise como o Relatório Anual do Fogo, desenvolvido pelo MapBiomas. Divulgado no final de junho, o estudo revelou que a Amazônia registrou, em 2024, a maior área queimada desde 1985 (ano inaugural da série histórica), destacando-se como “o bioma que mais queimou no país” no último ano.

“Foram aproximadamente 15,6 milhões de hectares queimados, um valor 117% superior à média histórica. Essa área correspondeu a 52% de toda a área nacional afetada pelo fogo em 2024, tornando a Amazônia o principal epicentro do fogo no Brasil”, diz a análise.

Os dados e inferências trazidos em junho aumentam a preocupação de especialistas sobre a correlação entre o atual surto de incêndios e o crescimento do desmatamento.

Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), diz que diferentes condições ambientais transformaram a floresta em uma “presa fácil” para incendiários oportunistas.

“Em 2024, como a floresta estava seca, inflamável e propensa à propagação do fogo, o bioma criou uma ‘oportunidade’ para grileiros e outros interessados em invadir a área e mudar o status da floresta usando o fogo”, disse, em entrevista à Mongabay. “As condições climáticas permitiram essa estratégia: usar o fogo como ferramenta direta para converter floresta em ‘não-floresta.’”

Segundo a especialista, queimar a natureza se tornou uma forma mais segura para quem busca limpar os terrenos de mata e escapar impune. “[Usar o fogo nesse contexto] ofereceria aos criminosos menos risco, por exemplo, de ser pego em flagrante. É diferente do caso do desmatamento ilegal [tradicional], que exige que os desmatadores tragam pessoas, maquinário, etc. Muitas pessoas que querem desmatar ilegalmente se beneficiam das condições do bioma — e usarão o fogo para isso.”

Incêndios florestais: novos padrões, novos riscos

Em seu novo relatório, além da enorme extensão de área queimada, o MapBiomas cita uma “mudança em termos qualitativos.” De forma inédita, a vegetação florestal foi a classe de cobertura mais afetada pelo fogo na Amazônia — foram 6,7 milhões de hectares de floresta atingidos diretamente pelas chamas em 2024, o equivalente a 43% da área queimada em todo o bioma; o patamar também supera a quantidade de pastagem queimada (33,7%).

“Historicamente, as pastagens sempre haviam sido a classe mais atingida pelo fogo”, diz a pesquisa.

Para Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, essas alterações chamam a atenção ao revelarem um novo método de degradação florestal. Isso, por sua vez, traz perigos adicionais para um bioma que se torna, nas palavras do especialista, “cada vez menos resiliente.”

“Incêndios [geralmente] ocorrem depois que a floresta é desmatada”, disse. “Alguém entra em uma área, derruba a floresta e a incendeia, dando início ao processo de ‘limpeza’ do local. Agora, o que surpreende em análises recentes é que essas florestas estão sendo queimadas antes mesmo de serem desmatadas”.

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A crise que faz a Amazônia arder não se limita às fronteiras do Brasil. Nos últimos anos, o fogo vem se espalhando, e de forma agressiva, por todos os nove países amazônicos da América do Sul, mostrando a face continental da crise. Em 2024, mais de meio milhão de focos de incêndio foram registrados na porção sul das Américas — os números mais altos em 14 anos.

Astrini diz que essa dinâmica pode manter a floresta em um ciclo de destruição que se retroalimenta.

“Estamos falando de partes da floresta que estão sendo derrubadas ainda vivas, acelerando o processo de desmatamento. E essa ação acelerada, como observado pelas autoridades, acontece à medida que as regiões inteiras se tornam cada vez mais quentes, mais vulneráveis e mais expostas à perda florestal. A agressão contínua à floresta, juntamente com o aquecimento global, torna o bioma menos resiliente. O resultado: torna-se fácil desmatar a Amazônia usando fogo”, diz o secretário.

Fogo e agricultura impulsionam a degradação do solo no sul da Amazônia

Ações, desafios e oportunidades às vésperas da COP

À medida que o desmatamento avança na Amazônia, e enquanto a COP30 se aproxima, o Brasil busca soluções para um problema incômodo.

O primeiro item de um novo pacote de ações foi anunciado em junho, quando o presidente Lula confirmou a liberação de 825,7 milhões de reais do Fundo Amazônia para reforçar a fiscalização da floresta. Foi o maior repasse financeiro já concedido pelo fundo desde a criação da iniciativa, em 2008.

O governo diz que o plano, com duração prevista de 60 meses, visa “ampliar a presença do Estado” na Amazônia, bem como “modernizar a resposta ao desmatamento ilegal.” O programa inclui a compra de grandes equipamentos, como helicópteros e drones, além da instalação de centros de treinamento e monitoramento e o uso de sistemas de inteligência artificial para fiscalizar áreas remotas de difícil acesso.

Ao lado de integrantes do governo, em 2024, o presidente Lula fala sobre um plano para reduzir o desmatamento e os incêndios florestais na Amazônia. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Magno Botelho Castelo Branco, professor de Mudanças Climáticas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, fala em um ajuste de expectativas.

“Em certa medida, sempre há a percepção de que os governos [em exercício] podem fazer mais”, disse. “No entanto, o governo brasileiro conta com alguns elementos que jogam a seu favor: a atual gestão pode mostrar que está investindo mais, que as taxas [de desmatamento] caíram em geral e que a mudança climática é algo que frequentemente foge ao controle. Além disso, os países mais ricos são emissores históricos [de gases de efeito estufa]. Caso notícias ruins [sobre desmatamento] surjam [perto da COP], pode ser o momento de pedir mais apoio”.

Botelho se diz preocupado com a mudança nos padrões de desmatamento na Amazônia. Para ele, isso também reforça a necessidade do Brasil manter suas metas de “desmatamento zero” até 2030 — ainda que o objetivo se mostre desafiador.

“As metas são ambiciosas, utópicas, mas precisam ser buscadas. Enquanto isso, o Brasil precisa dizer ao mundo que a Amazônia é gigante e que lidar com a crise dentro dela não é fácil. E dizer aos países preocupados com a destruição da floresta que eles também têm potencial para contribuir muito mais, inclusive destinando verba ao Fundo Amazônia”, disse.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Lucas Berti

Governo Federal anuncia investimento de R$ 53 milhões na saúde de Belém

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Hospital Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Pará, em Belém. Foto: Reprodução/Site oficial

O Governo Federal anunciou que, por meio do Ministério da Saúde, um investimento de R$ 53 milhões para fortalecer a rede de saúde em Belém (PA). Os recursos, segundo o governo, ampliam a capacidade de atendimento na cidade e deixam um legado duradouro para a população após a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que será realizada em novembro.

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Durante o anúncio na capital paraense, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a importância dos recursos anunciados.

“A COP30 será a primeira realizada na Amazônia, e nosso compromisso é deixar um legado real para Belém. Não estamos preparando a cidade apenas para o evento, mas para o futuro, com investimentos permanentes na saúde pública”, afirmou.

Leia também: Pesquisador da Fiocruz Amazônia alerta para precarização sanitária da região no Atlas da Amazônia

Entre os principais investimentos está a construção de oito Unidades Básicas de Saúde (UBS), com R$ 9 milhões destinados à ampliação, reforma e custeio das equipes. Uma dessas unidades é a UBS Jurunas, que recebeu R$ 2 milhões em investimentos.

“Essa ação visa melhorar o atendimento, valorizar os trabalhadores e garantir cuidados de qualidade para a população antes, durante e depois da COP30”, ressaltou Padilha.

Confira as ações que fazem parte do investimento:

Hospital: Também foi anunciado o investimento de R$ 35,5 milhões para o Hospital Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Pará, que será utilizado para comprar equipamentos, aumentar o número de leitos e reduzir a lotação das UPAs 24h da região.

Especialistas: Ainda no hospital, foi lançado o mutirão do programa Agora Tem Especialistas, que amplia o acesso a consultas, exames e cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A ação prevê a realização de 20 exames de imagem e 86 cirurgias em áreas como cardiologia, angiologia, ginecologia, cirurgia geral, urologia e oftalmologia.

Agentes comunitários: O Governo Federal também vai investir R$ 6,7 milhões na contratação de 554 novos Agentes Comunitários de Saúde em Belém. Esses profissionais irão realizar visitas domiciliares, monitorar famílias e levar informações e cuidados à população. Até 2027, o total previsto para essa ação chega a R$ 23,4 milhões.

Durante a visita de Padilha também foi anunciado o investimento de R$ 35,5 milhões para o Hospital Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Pará, para compra de equipamentos, aumento do número de leitos e redução da lotação das UPAs 24h da região. Foto: João Risi/MS

Recursos aplicados: Desde 2023, o Pará recebeu R$ 4,7 bilhões em investimentos federais, sendo R$ 1,6 bilhão destinados exclusivamente à capital, Belém. Os recursos têm sido aplicados em atenção primária e especializada, vigilância em saúde, assistência farmacêutica, média e alta complexidade ambulatorial e hospitalar, cirurgias e custeio dos serviços.

COP 30: A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) será realizada de 10 a 21 de novembro de 2025, em Belém. É a primeira vez que a Conferência acontece na Amazônia, região estratégica tanto para o clima quanto para a saúde das populações que vivem ali.

Plano de ação

Durante o evento, o Brasil apresentará o Plano de Ação em Saúde de Belém, em 13 de novembro, Dia da Saúde na COP. O plano visa ser uma referência global e foca na resposta aos impactos climáticos sobre a saúde, com destaque para o enfrentamento de eventos extremos, fortalecimento de sistemas de alerta precoce e a implementação de estratégias de adaptação locais.

Além disso, o Governo Federal prepara o Plano + Saúde para a Amazônia, focado em ampliar atendimento especializado, acesso a diagnósticos e a presença do SUS em toda a região da Amazônia Legal. Outros planos nacionais, como o AdaptaSUS, estão sendo desenvolvidos para deixar legados concretos à saúde da população.

Novo PAC

No Pará, estão em andamento 239 empreendimentos de saúde e 126 obras, incluindo UBS, Caps, CER, oficina ortopédica, maternidades, policlínicas e Unidades Básicas de Saúde Indígena.

Além disso, em Belém serão entregues 86 veículos, entre Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e Unidade Odontológica Móvel (UOM). O investimento total das ações pelo Novo PAC chega a R$ 460 milhões.

*Com informações do Ministério da Saúde

Parque Nacional de Pacaás Novos, em Rondônia, recebe expedição científica inédita

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Parque Nacional de Pacaás Novos. Foto: Reprodução/Acervo ICMBio

Servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), pesquisadores, e membros de associações indígenas das etnias Jupaú, Amondawa, Oro Win e Cabixi, além de agentes especializados no turismo de observação de aves realizaram uma expedição científica ao Pico do Tracoá, no Parque Nacional de Pacaás Novos, em Rondônia.

Ao todo, 23 pessoas colaboraram na atividade, que aconteceu entre 28 de maio e 4 de junho de 2025, e teve por objetivo avaliar o potencial atrativo para o turismo de observação de aves.

Leia também: Descubra as belezas naturais do Pico do Tracoá, o ponto mais alto de Rondônia  

“Nós aplicamos três métodos complementares de levantamento de aves: observações diretas com registro fotográfico e sonoro, captura com redes de neblina e coleta seletiva de exemplares”, detalha Thiago Laranjeiras, Analista Ambiental do ICMBio. “Apesar das temperaturas incomuns para a região amazônica, inferiores a 15 °C, nós registramos quase 100 espécies de aves”, observa Glauko Corrêa, guia de observação de aves, baseado em Porto Velho.

“Áreas em topos de montanha na Amazônia não são esperadas para ter uma riqueza muito grande de aves, como nas florestas de terras baixas”, complementa Arthur Gomes, também guia de observação de aves.

Entre os ambientes investigados estavam campinas rupestres arbóreo-arbustivas, florestas de igarapés com alta presença de epífitas e áreas afetadas por queimadas de incêndios passados. Com os novos registros, a expedição acrescenta 25 espécies à lista do parque, que agora soma cerca de 390 espécies de aves registradas (quando inclui florestas e outros ambientes no pé da chapada). 

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A lista de espécies registradas incluiu tanto aves típicas da Amazônia quanto espécies migratórias provenientes do sul do Brasil e da região andina. Entre as espécies registradas, destaca-se o pintassilgo (Spinus magellanicus).

“Coletamos dados valiosos da população isolada dessa espécie na expedição”, comenta Vítor Piacentini, ornitólogo responsável pela curadoria dos exemplares coletados.

O pintassilgo é típico de áreas abertas no Centro-Sul do Brasil ou dos Andes, bem distantes da chapada de Pacaás, onde se mostrou localmente comum. Diversos indivíduos da espécie foram fotografados, gravados e dois foram coletados, e análises futuras deverão investigar a origem e o status da população de Rondônia. 

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Em comparação com áreas intactas, foi constatada pela equipe uma menor diversidade e abundância de aves nas áreas atingidas pelo fogo em 2022. “A vegetação queimada ainda apresenta sinais claros de degradação, e é provável que sua recuperação seja lenta, especialmente quando comparada ao Cerrado, onde as espécies possuem maior resiliência ao fogo”, explica Damião de Oliveira, analista ambiental do ICMBio e coordenador-geral da expedição. 

Equipe que realizou os estudos no Parque Nacional de Pacaás Novos. Foto: Reprodução/Acervo ICMBio

Turismo de Base Comunitária no parque

Além dos resultados científicos, a expedição teve importância estratégica para o monitoramento do território indígena. “A expedição foi a primeira atividade integrada, com a participação de representantes de quatro etnias indígenas que habitam a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau”, ressalta Guilherme Martins, servidor da Funai, responsável pela frente de proteção territorial.

“Nós entendemos que foi uma excelente oportunidade de fortalecer os laços entre os parentes e de marcar presença no nosso território ancestral”, comenta Yampá, representante da etnia Oro Win.

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“Queremos que ações assim tenham continuidade”, complementa Avajupá, representante da etnia Amondawa.

As associações indígenas manifestaram interesse em estruturar um turismo de base comunitária, incluindo atividades de observação de aves, com produção de materiais informativos e capacitações.  

Uma segunda expedição foi proposta para novembro, além da implementação do protocolo avançado de monitoramento de avifauna do Programa Monitora nas estações amostrais já instaladas no Parque Nacional de Pacaás Novos. 

A coordenação da expedição ficou a cargo do ICMBio, enquanto a Funai atuou como articuladora junto às associações indígenas, garantindo sua participação e promovendo o monitoramento do território. Foto: Acervo

*Com informações do ICMBio

Projeto desenvolve a documentação museológica do acervo de Artes Visuais do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas

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Projeto desenvolve a documentação museológica do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. Foto: Arquivo do projeto

Criado com o objetivo de unir instituições de ensino superior com o museu, o Projeto de Pesquisa e Documentação Museológica do Acervo de Artes Visuais do Espaço Cultural Casa Das Onze Janelas busca realizar a atualização do inventário do Espaço Cultural das Onze Janelas, além de gerar políticas públicas para a preservação das obras, com a construção de novos conhecimentos.

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Projeto desenvolve a documentação museológica
Foto: Arquivo do projeto

O Espaço Cultural Casa das Onze Janelas é o museu de referência em Arte Contemporânea na Região Norte, cujo acervo conta com aproximadamente 20 coleções de obras de arte. Cada coleção é plural e reflete, além do imaginário dos artistas, parte da história da região amazônica, por preservar essas histórias.

Em suas primeiras atividades, o projeto buscou realizar a atualização do inventário do espaço em quatro frentes de pesquisa: Museologia, Artes Visuais, Conservação Preventiva e Produção Multimídia. Esse estudo, teórico-empírico, tem como foco a realização do inventário de dez das dezenove coleções existentes no acervo do museu, promovendo a preservação do acervo artístico de Arte Moderna e Contemporânea.

Foto: Arquivo do projeto

“A pesquisa voltada ao acervo/coleções de Arte Moderna e Contemporânea da COJAN [Casa das Onze Janelas] representa uma contribuição das Universidades (unidas em rede colaborativa) para beneficiar os grupos sociais usuários ou não das informações em Artes geradas pela pesquisa, porque a instituição museu de arte é uma instituição museológica, ou seja, social, tem como fim a função sociocultural, educativa e ao mesmo tempo de preservação da memória cultural local e nacional, representada pela obras das(os) artistas das coleções pesquisadas”, explica a professora Rosângela Britto, coordenadora do projeto.

Para ela, existem três pontos da importância do projeto que devem ser destacados: a relação de cooperação entre universidades e o Museu, que contribuem à elaboração de políticas públicas ao setor, com orientação para a preservação de acervos e de acesso dos usuários a informação em artes; a pesquisa da interface epistemológica da Museologia com as Artes/Artes Visuais; e a geração de Bolsas de Iniciação a Pesquisa para estudantes da graduação, que possibilitam o aprendizado e a experiência da pesquisa voltada ao acervo/patrimônio artístico Musealizado.

Saiba mais: Casa das Onze Janelas: conheça um dos marcos da história da capital do Pará

Prêmio nacional

O Projeto de Pesquisa, coordenado pela professora da Universidade Federal do Pará Rosângela Britto, foi agraciado com o Prêmio Emanoel Araújo, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), instituição ligada à Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica).

Foto: Arquivo do projeto

“A premiação é de suma relevância nacional e internacional pelo que a instituição representa no campo do sistema das Artes, ao reconhecer ações, pessoas, instituições e projetos, com  destaque para a pesquisa em Artes Visuais, que envolve preservação de acervos artístico/patrimônio cultural,  e para a cena artística da Região Norte da Amazônia Paraense”, ressalta Rosângela Britto.

Ela acrescenta que o prêmio também possui grande significado para o Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes) e o Instituto de Ciências da Arte (ICA), ambas entidades universitárias às quais está vinculada como docente e coordenadora do projeto. 

“Com a parceria em rede, entre as universidades, o museu e a sociedade civil, o que se espera é que a pesquisa sobre as coleções e sua difusão permita prover métodos e dados para a geração de políticas públicas na área da cultura, especialmente ao Museu de Arte. Os resultados obtidos ressaltam a importância da investigação crítica da Museologia e da História da Arte recente e de sua inserção no museu, com vista a minimizar a informação rarefeita sobre as obras e os artistas, associada a uma reflexão mais horizontal dos perfis identitários das coleções, projetando seus programas de preservação e comunicação e considerando a dimensão ampliada tanto da arte quanto do museu, numa perspectiva decolonial e interseccional”, conclui.

Financiado

Foto: Arquivo do projeto

Financiado pelo Edital Pró-Humanidades/Chamada 40/2022 do CNPq, FNDCT e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, o projeto consiste em uma rede de colaboradores que atuam nas áreas da Museologia, Conservação, Artes Visuais e Multimídia. Essa rede é composta por profissionais e pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade da Amazônia (Unama) e do Governo do Estado do Pará, por meio da Secult.

Ao todo, o projeto documentou e preservou onze coleções do acervo de Artes Visuais do museu, totalizando 1.087 obras de 440 artistas, incluindo nomes como Diô Viana, Fayga Ostrower, Manoel Pastana, Miguel Chikaoka e Luiz Braga. 

Divulgação científica

Foto: Arquivo do projeto

As ações do projeto foram iniciadas em dezembro de 2022 e vão até fevereiro de 2026, mas, mesmo após esse período, todas as informações encontradas continuarão disponíveis ao público no site do projeto de pesquisa, que será transformado em um repositório permanente. 

Também com o objetivo de divulgação científica, o canal do YouTube “Acervo 11 Janelas” lançará uma websérie de seis episódios, no mês de agosto, e o perfil no Instagram do projeto continua em atividade. Segundo a professora Rosângela, a intenção é manter a parceria com o SIMM/Secult-PA e aprofundar as pesquisas voltadas aos acervos, envolvendo estudantes da Pós-Graduação em Artes, do mestrado e do doutorado.

Ruínas de Paricatuba serão cercadas e escoradas para segurança dos visitantes, anuncia Iphan

Ruínas de Paricatuba passam por ações emergenciais. Foto: Mariane Cruz

Com o objetivo de proteger o local após a recente queda de parte de sua estrutura, as históricas Ruínas de Paricatuba (AM) serão alvo de ações emergenciais de cercamento e escoramento provisório. A ação foi solicitada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Amazonas, depois de realizar vistoria técnica no local, no dia 30 de julho.

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A necessidade da ação foi identificada pelo Iphan após a criação do Grupo de Trabalho com órgãos como Prefeitura do Iranduba, Associação Associação de Moradores da Vila de Paricatuba e participantes da ação Viva Paricatuba, Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE/SEDURB), Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SEC), Corpo de Bombeiros, Defesa Civil Estadual e Instituto De Proteção Ambiental Do Amazonas (Ipaam).

“Estamos agindo com urgência para proteger as Ruínas de Paricatuba, um lugar de memória sensível, mas de valor sentimental para os que ainda moram ali. O cercamento e escoramento provisório são passos cruciais para garantir a segurança e a preservação deste sítio histórico, enquanto avançamos para soluções permanentes”, disse a superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiro.

ruínas de paricatuba interditadas
Foto: Mariane Cruz

As intervenções de caráter provisório serão feitas pela UGPE/SEDURB, mas está em andamento um Termo de Ajustamento de Conduta liderado pelo Iphan para que as medidas sejam de caráter permanente.

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Intervenções nas ruínas

O cercamento em madeira será realizado no perímetro externo e no pátio interno do prédio principal para restringir o acesso e garantir a segurança da área. Já o escoramento busca preservar trechos da estrutura com risco de desabamento. Esta medida é crucial para evitar maiores danos e preservar o que resta das ruínas.

A Associação de Moradores da Vila de Paricatuba e participantes da ação Viva Paricatuba serão responsáveis por orientar a visitação turística da ruína ao pátio central com o devido afastamento das estruturas conforme orientações da Defesa Civil do Estado do Amazonas e Defesa Civil do Município de Iranduba.

*Com informações do Iphan

Licença para destruir: o retrocesso do licenciamento ambiental no Brasil

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Foto: Divulgação/Acervo ADS

Por Olímpio Guarany

O que está em jogo não é apenas um conjunto de normas. É o próprio futuro do Brasil. Às vésperas da COP 30 — conferência que colocará o mundo inteiro de olhos voltados para a Amazônia —, soa como um contrassenso, ou pior, como um ato deliberado de irresponsabilidade, a tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental.

É uma proposta que afronta a Constituição Federal, rasga o artigo 225, que garante o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e ameaça diretamente o bem mais precioso que possuímos: a vida. Trata-se, na prática, de uma licença para destruir.

Flexibilizar o licenciamento é abrir caminho para a devastação dos biomas, a contaminação dos rios, a violação dos territórios indígenas e tradicionais, a repetição de tragédias anunciadas. É permitir que interesses econômicos imediatistas se sobreponham ao bem coletivo e à responsabilidade com as futuras gerações. E isso, em plena emergência climática global, é mais do que um erro — é um ato de negação da realidade, um suicídio político e ambiental.

O agronegócio tem papel essencial na economia brasileira, mas sua própria sobrevivência depende da estabilidade climática, da água limpa, do solo fértil e da floresta em pé. O produtor que respeita a terra sabe que não há prosperidade sem equilíbrio. E muitos já trilham esse caminho — integrando inovação, ciência e respeito ao meio ambiente.

O Brasil não precisa escolher entre produzir e preservar. Pode — e deve — liderar uma nova economia verde, comprometida com a vida e com o planeta. Mas isso exige regras claras, fiscalização rigorosa e políticas públicas que fortaleçam a sustentabilidade, não o desmonte da legislação ambiental.

Às vésperas de sediar a COP 30 em Belém do Pará, o Brasil precisa dar o exemplo — não o escândalo. Flexibilizar o licenciamento ambiental nesse momento seria uma traição à agenda climática, um sinal de desprezo à comunidade internacional e às próprias populações brasileiras que convivem, diariamente, com os efeitos da destruição.

Essa proposta não pode prosperar. Porque não há desenvolvimento verdadeiro sem justiça ambiental. Não há soberania onde impera a devastação. Não há paz sem floresta. Se quisermos um futuro possível, é preciso frear esse retrocesso. Precisamos preservar a própria vida.

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). Atualmente é apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Você não cuidou do meu filho

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Havia menos de um ano que Carlinhos se juntara ao grupo de juvenis do clube. Eram os anos 70 e os jovens tinham em torno de 17 ou 18 anos. Eles aspiravam se tornar jogadores profissionais. Quem se destacava recebia oportunidades no time principal. Era comum que, nas preliminares dos clássicos no Maracanã e em outros grandes estádios, fossem programados jogos entre os juvenis, e isso fazia com que, aos poucos, os mais promissores se tornassem conhecidos da torcida. Alguns ficavam famosos antes mesmo de serem testados entre os profissionais. Algumas dessas promessas vingavam e se tornavam grandes ídolos. Outras ficavam pelo caminho. Pode-se dizer que todos os craques da época passaram por esse processo, e alguns foram campeões do mundo e se tornaram os chamados “monstros sagrados”, lendas vivas do futebol nacional.

Carlinhos ainda estava começando, e havia sobre ele uma grande expectativa. O treinador foi buscá-lo no interior do Mato Grosso, atraído pela fama do camisa 10 do time local, que, diziam, tinha tudo para ser um novo Pelé. Até a sua aparência física lembrava o Rei. Não foi fácil convencer o pai a liberá-lo dos afazeres da roça e, principalmente, do convívio com a família. Carlinhos era o primogênito, ajudava com o trabalho no campo, com o pouco dinheiro que ganhava no futebol, e era o líder dos seis irmãos, que tinham nele um exemplo a ser seguido. Seu Carlão ainda via em Carlinhos alguém em quem a família poderia contar na sua ausência. Sua esposa, Maria, mãe de Carlinhos, era uma mulher de fibra, mas analfabeta e não sabia fazer contas.

Professor Ricardo, como era conhecido o treinador, precisou fazer uso de toda a sua persuasão para convencer Carlão a liberar o filho para deixar o interior, ir para o Rio de Janeiro e morar no alojamento com outros 20 ou 30 garotos, todos com o mesmo ideal: tornarem-se craques reconhecidos pelo público e chegarem à seleção brasileira. Na época, os jovens não sonhavam em jogar na Europa, mas na seleção do Brasil. Nem todos chegariam lá, mas o Professor Ricardo, com toda a sua experiência, garantia: Carlinhos será o novo camisa 10 da seleção em alguns anos.

Não foi o que aconteceu. Após alguns meses de clube, começou a crescer em uma das pernas de Carlinhos um tumor de origem desconhecida, que acabou por fazer com que sua perna precisasse ser amputada, em caráter de emergência, para salvar-lhe a vida.

Professor Ricardo, o treinador, não permitiu que ninguém mais fosse o portador da notícia à família. Naquela época, não era fácil a comunicação com o interior, mesmo por telefone. A viagem demoraria alguns dias, mas o Professor Ricardo não teve dúvidas. Ele mesmo iria acompanhar Carlinhos até sua casa e comunicar o fato à família. Era uma semana de decisão de um jogo importante. Seria criticado por não estar com o time, mas tinha algo maior em questão.

— Confiei em você e você não cuidou do meu filho. — Foi a única reação de Carlão, pai de Carlinhos.

O Professor Ricardo poderia dizer muita coisa a seu favor, já que não teria como evitar o surgimento do tumor na perna do menino e que a medicina fez tudo o que estava ao seu alcance. Poderia usar muitos argumentos. Mas não foi o que ele fez. Professor Ricardo apenas abaixou a cabeça e disse:

— Perdão.

Não sei quanto a você, mas a história me leva a duas posições, às quais todos nós estamos sujeitos e que, talvez, as vivenciemos, algumas vezes, sem consciência.

Há momentos em que confiamos a alguém o que podemos considerar como um filho. Pode ser quando deixamos uma criança numa creche, numa escola, ou quando delegamos a outrem um projeto extremamente importante para nós. No meu caso, ocorre hoje quando confio a alguém um dos projetos ou áreas do MCI, um filho para mim. Entregamos porque confiamos.

Em outros momentos, é quando acontece o contrário. Somos nós que recebemos o “filho” de alguém, que confiou em nós. Se algo não der certo, não cabem justificativas, explicações ou defesas. Uma única palavra disse o Professor Ricardo a Carlão: Perdão. Uma única palavra pode dizer mais sobre o quanto puxamos para nós a responsabilidade.

E para você, como é confiar a alguém um “filho”? Como é receber de alguém a confiança de um “filho”?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Santarém tem o pior saneamento entre as 100 maiores cidades do país

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O município paraense caiu duas posições em relação ao Ranking anterior e alcançou a última colocação. Foto: Agência Santarém

Com menos da metade (48,49%) da população com acesso à água potável e somente 3,77% com coleta de esgoto, Santarém (PA) foi o último colocado do Ranking do Saneamento 2025, estudo do Instituto Trata Brasil que avalia os indicadores de saneamento das 100 maiores cidades a partir de dados do SINISA (ano-base 2023).

O município que abriga mais de 300 mil habitantes caiu duas posições em relação ao Ranking de 2024 e figurou como a pior (entre as 100 maiores cidades do país) em infraestrutura básica de saneamento em 2025.

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Além de indicadores precários de acesso à água e coleta de esgoto, o município paraense trata apenas 8,61% do esgoto gerado e perde mais de 48,72% da água potável nos sistemas de distribuição, ou seja, toda essa água é desperdiçada antes de chegar às residências da população.

A precariedade do saneamento em Santarém é reflexo do baixo investimento realizado na infraestrutura. O investimento per capita é de apenas R$ 37,35, distante do necessário para universalização do saneamento de acordo com o que estipula o PLANSAB, que é de R$ 223,82 por habitante. Isso significa que Santarém investe apenas 16,7% do valor necessário para alcançar a universalização do saneamento.

Leia também: Cidades da Amazônia estão há oito anos entre as 20 piores no ranking de saneamento básico do Brasil

Diante desse cenário, de acordo com o Trata Brasil, “o saneamento em Santarém não será uma realidade sem maiores investimentos e planos estruturados para ampliação dos serviços. O saneamento é uma política pública estratégica com o potencial de melhorar a saúde pública, a educação e a produtividade econômica no Brasil”.

Metas

O desafio se estende para além de Santarém. O Pará, estado que sediará a COP-30 em 2025, apresenta indicadores igualmente precários, atendendo 51,6% da população com água potável e somente 17,3% com coleta de esgoto, enquanto apenas 19,3% do esgoto é tratado.

Para cumprir as metas do Novo Marco Legal do Saneamento até 2033, ou seja, atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto, o Pará precisará acelerar os investimentos e implementar estratégias eficazes de expansão do básico.

*Com informações do Trata Brasil

Estudo conclui que zonas úmidas tropicais degradadas emitem gases com efeito estufa potentes

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Estudo internacional registra dados usando sensores instalados em torres de monitoramento e câmeras estáticas localizadas na América do Sul, África e Sudeste Asiático. Foto: Reprodução/IIAP

As zonas úmidas tropicais, quando alteradas pela drenagem ou por alterações no lençol freático, emitem quantidades significativas de óxido nitroso (N₂O), um gás de efeito estufa com um potencial de aquecimento global até 300 vezes maior que o dióxido de carbono (CO₂), de acordo com um recente estudo científico internacional.

O estudo registra dados usando sensores instalados em torres de monitoramento e câmeras estáticas localizadas na América do Sul, África e Sudeste Asiático.

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Na Amazônia peruana, especificamente no departamento de Loreto, os dados foram obtidos perto de Iquitos. A infraestrutura possibilitou o registro das trocas gasosas entre o solo, a vegetação e a atmosfera. Essa área, operada pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP), está localizada nas florestas de várzea de Quistococha.

Os resultados mostram que as mudanças nessas áreas, seja por drenagem ou alterações no lençol freático, aumenta não apenas as emissões de CO2, mas também as emissões de N2O.

Leia também: Zonas Úmidas: guardiãs do equilíbrio ecológico no Peru

Ao contrário do metano, cujas emissões diminuem em solos secos, as emissões de N2O aumentam em níveis intermediários de umidade, quando começa a decomposição da matéria orgânica rica em nitrogênio.

O estudo mostra que essas áreas degradadas contribuem significativamente para as emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Portanto, é crucial preservar essas áreas úmidas em seu estado natural e garantir sua umidade permanente. Dessa forma, as emissões podem ser reduzidas e sua capacidade vital de atuar como sumidouros de carbono, mantida. Leia o estudo completo AQUI (em inglês).

*Com informações da Agência Andina