Nesta terça-feira (14/10), a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) realizou a cerimônia de posse da Professora Jacqueline, primeira suplente do partido União Brasil, como deputada estadual da 20ª Legislatura. A parlamentar assume a vaga deixada pela deputada Joana Darc (União Brasil), licenciada do cargo para comandar a Secretaria de Estado de Proteção e Bem-Estar Animal (Sepet).
A solenidade, conduzida pelo presidente da Aleam, deputado Roberto Cidade (UB), aconteceu no plenário Ruy Araújo. Seguindo o rito regimental, Professora Jacqueline prestou o juramento oficial e assinou o termo de posse, formalizando sua entrada no Parlamento Estadual.
“Assumo hoje o mandato de deputada estadual com o mesmo compromisso que orientou minha atuação na Câmara Municipal de Manaus: trabalhar com seriedade, presença e buscando sempre resultados concretos em favor do nosso Estado”, afirmou a nova parlamentar, lembrando de sua atuação como vereadora de Manaus, cargo do qual se licenciou para assumir a vaga na Aleam.
O presidente Roberto Cidade destacou a importância da chegada da nova deputada e reafirmou o apoio da Mesa Diretora ao seu mandato. “É uma honra conduzir esta cerimônia de posse. Tenha certeza, deputada Jacqueline, de que está sendo recebida de braços abertos por este Parlamento, para juntos trabalharmos pelo povo do Amazonas”, declarou Cidade.
A deputada afirmou que seu mandato será voltado aos professores, servidores públicos, mulheres e comunidades rurais do interior do estado. “Lutarei para que esses grupos tenham voz, respeito e políticas públicas de valorização”, disse, ressaltando que seu trabalho se pautará na escuta das comunidades e na transformação de suas demandas em ações concretas.
Com a posse, a Aleam volta a contar com 24 parlamentares, mantendo o número de cinco mulheres na composição legislativa, marca histórica alcançada nas eleições de 2022, que representa um avanço na representatividade feminina na política amazonense.
Em nome do Parlamento, a deputada Alessandra Campelo (Podemos) fez um pronunciamento destacando a importância da presença feminina na política. “A Professora Jacqueline é a 21ª mulher, na história do Amazonas, a tomar posse como deputada estadual”, informou Campelo.
Segundo ela, essa sub-representação reflete barreiras estruturais e culturais enfrentadas pelas mulheres e limita a diversidade de perspectivas no processo democrático.
“A presença de mulheres na política é fundamental para garantir a diversidade e a eficácia democrática, além de assegurar que políticas públicas atendam às necessidades específicas das mulheres”, completou Alessandra, enfatizando que a 20ª Legislatura da Aleam tem trabalhado pela criação de leis e políticas de fortalecimento das mulheres.
Professora Jacqueline permanecerá na função pelo período em que a deputada Joana Darc ocupar a titularidade da Sepet.
Árvores gigantes concentram carbono e água; Amapá desponta como refúgio climático. Foto: Divulgação/UEAP
Um estudo divulgado na terça-feira (14) pela revista britânica New Phytologist revelou, pela primeira vez, onde estão as maiores árvores da Amazônia. Com mais de 60 metros de altura, essas gigantes ajudam a manter o equilíbrio da floresta, armazenam carbono e são fundamentais para a biodiversidade.
O artigo, intitulado “Mapping the density of giant trees in the Amazon“, ou traduzido do inglês “Mapeando a densidade de árvores gigantes na Amazônia“, foi liderado pela Universidade do Estado do Amapá (Ueap) e realizado por uma equipe ampla de pesquisadores de outras instituições nacionais e internacionais.
O foco principal foi mapear e modelar a densidade de árvores gigantes em toda a Amazônia brasileira. Para isso, os cientistas utilizaram dados de sensoriamento remoto por LiDAR (Light Detection and Ranging), coletados entre 2016 e 2018 em 900 áreas da floresta, cada uma com cerca de 3,75 km².
Esses dados foram combinados com 16 variáveis ambientais, como clima, relevo, solo, incidência de raios e ventos, para construir um modelo de floresta aleatória (Random Forest), uma técnica de inteligência artificial que permite prever padrões com alta precisão.
Os resultados mostram que a distribuição dessas árvores é desigual: cerca de 14% estão concentradas em apenas 1% da área da Amazônia.
Maior árvore da Amazônia está localizada na fronteira do Amapá e do Pará. Foto: Rafael Aleixo/GEA
As maiores densidades foram encontradas em Roraima e do Escudo das Guianas — que inclui parte do estado do Amapá — onde há alta disponibilidade de água e baixa incidência de raios e ventos fortes.
Árvores gigantes são peças-chave
Segundo Robson Lima Borges, pesquisador da Ueap, o estudo reforça como poucas árvores gigantes podem concentrar grandes estoques de biomassa e carbono acima do solo, o que as torna peças-chave no equilíbrio ecológico da floresta.
“O artigo é um importante desdobramento das pesquisas nossas sobre as árvores gigantes. Em especial, nossa pesquisa traz um importante insight que é sobre como poucas árvores grandes podem impactar diretamente os maiores estoques de biomassa e carbono acima do solo”, informou o pesquisador.
O estado do Amapá teve papel importante na pesquisa. Instituições como a Ueap e o Instituto Federal do Amapá (Ifap) participaram ativamente do estudo. Parte dos voos com sensores LiDAR foi realizada sobre áreas do Amapá, contribuindo para o mapeamento da vegetação local.
Com grande cobertura vegetal e baixa taxa de desmatamento, o território amapaense se destaca como uma das regiões com maior potencial de conservação da floresta, segundo o artigo.
O estudo identificou que fatores como temperatura amena, boa luminosidade, solo com alta retenção de água e baixa frequência de distúrbios naturais favorecem o crescimento das árvores gigantes. Já eventos extremos, como secas prolongadas, ventanias e descargas elétricas, aumentam a mortalidade dessas espécies.
Alterações ambientais afetam fungos aquáticos e a decomposição de matéria orgânica. Foto: Lacia/Inpa
Em meio a folhas submersas nos igarapés da Amazônia, fungos microscópicos regulam o equilíbrio das cadeias alimentares e transformam a matéria orgânica em nutrientes para insetos, peixes e, indiretamente, milhões de pessoas. Um estudo publicado em junho, na revista científica Science of the Total Environment, aponta, no entanto, que esses discretos organismos podem ser impactados pela combinação de microplásticos e das mudanças do clima, alterando a sua reprodução, a diversidade e a decomposição mediada por eles.
Conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com colegas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o trabalho utilizou câmaras climáticas capazes de simular em tempo real cenários previstos para a região amazônica até o ano 2100. Nessas condições, os cientistas expuseram organismos responsáveis pela decomposição de folhas a diferentes níveis de microplásticos e variações de temperatura e gás carbônico.
“Observamos que houve uma alteração da reprodução desses fungos”, destaca a bióloga Viviane Caetano Firmino, da UFPA e primeira autora do artigo. “O impacto foi ainda maior quando as concentrações de microplásticos e os cenários climáticos extremos atuaram em conjunto”.
A riqueza total de espécies não diminuiu, mas houve substituição de espécies das comunidades fúngicas. Algumas mais tolerantes ou competitivamente superiores surgiram no ambiente e se tornaram dominantes, enquanto outras praticamente desapareceram.
Além disso, a capacidade de decomposição da matéria orgânica sofreu impacto, sugerindo riscos diretos à ciclagem, que é o processo de decomposição que devolve nutrientes ao ambiente, permitindo seu reaproveitamento por outros seres vivos.
“Os microplásticos já estão presentes nos igarapés amazônicos. Com isso, alguns serviços ecossistêmicos essenciais podem ser perdidos, e essa é nossa maior preocupação”, destaca o biólogo Leandro Juen, da UFPA. Ele é um dos autores do artigo e líder do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Síntese da Biodiversidade Amazônica (SinBiAm).
A apreensão do pesquisador se deve ao risco de que mudanças na base da cadeia alimentar provoquem efeitos em cascata, atingindo não apenas insetos e peixes, que dependem diretamente da ciclagem promovida pelos fungos, mas também a segurança alimentar de milhões de pessoas.
“Os fungos tornam o material vegetal mais palatável para outros organismos e por isso funcionam como engrenagens invisíveis na manutenção dos riachos amazônicos”, explica Juen. Quando a decomposição da matéria orgânica perde eficiência, a água tende a se tornar mais ácida e menos potável.
O estudo foi conduzido em câmaras de simulação climática instaladas no Inpa, em Manaus, capazes de reproduzir em tempo real diferentes cenários previstos para a floresta (ver mais detalhes no box). No cenário extremo, a temperatura da água foi elevada em 5,1 °C e a concentração de dióxido de carbono (CO₂) alcançou mais de 1.080 ppmv (partes por milhão por volume), enquanto no cenário intermediário o aquecimento chegou a 3,3 °C e o CO₂ a cerca de 700 ppmv. Esses cenários seguem as projeções estabelecidas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU (Organização das Nações Unidas).
Paralelamente, os fungos foram submetidos a distintas concentrações de microplásticos, variando entre a ausência completa e níveis considerados baixos (1,8 × 10 partículas por mililitro) e médios (1,8 × 10² partículas por mililitro). Para avaliar o efeito combinado desses fatores, os pesquisadores utilizaram discos cortados de folhas de louro-preto (Nectandra cuspidata), uma planta amplamente distribuída na Amazônia, preparados para permitir a colonização natural dos fungos decompositores de igarapés amazônicos.
Durante 15 dias de experimento, o grupo monitorou parâmetros como a produção de esporos, a diversidade de espécies presentes e a eficiência na decomposição da matéria orgânica, indicadores-chave da saúde e do equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
Para a ecóloga espanhola Luz Boyero, da Universidade do País Basco, investigar múltiplos estressores de forma combinada é fundamental, pois mostra que os efeitos interativos entre eles não são simples e podem se reforçar mutuamente (efeitos aditivos) ou se comportar de forma mais complexa (efeitos não aditivos). “No caso dos fungos amazônicos, a produção de conídios [os esporos responsáveis pela reprodução] reagiu de forma diferente aos microplásticos dependendo das condições climáticas. Isso pode estar ligado ao fato de que algumas espécies são mais sensíveis que outras e variam em suas taxas de reprodução”, explica.
Boyero não participou do trabalho, mas um de seus estudos sobre microplásticos, publicado em 2023 na revista Environmental Pollution, serviu de referência para a metodologia adotada pelos pesquisadores brasileiros.
“Em um de nossos estudos, observamos que o aumento da temperatura, combinado à eutrofização [excesso de nutrientes na água], afetou a forma como organismos que se alimentam de matéria orgânica equilibram os elementos químicos em seus corpos, embora o processo de decomposição não tenha se alterado”.
Na prática, isso significa que os organismos que se alimentam de matéria orgânica em decomposição, como insetos e outros pequenos invertebrados aquáticos, passaram a apresentar diferentes proporções de carbono, nitrogênio e fósforo em seus corpos. Embora a decomposição das folhas continuasse ocorrendo, essa alteração na química interna desses animais pode influenciar a qualidade do alimento disponível para níveis superiores da cadeia alimentar.
O biólogo Adalberto Val, pesquisador do Inpa que não participou do estudo, celebra os resultados obtidos pelos colegas da UFPA, mas lembra o quanto evidenciam o tamanho do desafio imposto pela emergência climática.
“As mudanças climáticas na Amazônia tornam águas que já são quentes, mais quentes; águas que já são hipóxicas [com pouco oxigênio], mais hipóxicas; e águas que já são ácidas, mais ácidas. Daí a importância de estudos como esse sobre o futuro do ecossistema”, resume.
No Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular, pesquisadores expõem organismos a condições previstas de mudanças climáticas. Foto: Leem/Inpa
Uma janela para o futuro da Amazônia
Instalado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem), onde foi realizado o estudo publicado em junho na Science of the Total Environment, abriga um conjunto de quatro salas de cerca de 25 m³ projetadas para testar como organismos amazônicos reagem às mudanças do clima.
A sala-controle reproduz o clima atual da floresta, enquanto as demais simulam cenários previstos até 2100, segundo o IPCC. A umidade relativa é mantida entre 80% e 90%, enquanto sensores instalados em uma torre em uma reserva próxima ao Inpa transmitem dados a cada dois minutos para os computadores do instituto, ajustando automaticamente os parâmetros. Assim, as condições oscilam como na floresta real, variando ao longo do dia e da noite, acompanhando a cobertura de nuvens e a chegada da chuva.
“Essas câmaras permitem simular com precisão o futuro climático da Amazônia, criando uma ponte entre o que está acontecendo hoje na floresta e o que poderá acontecer nas próximas décadas”, enfatiza Adalberto Val, um dos idealizadores do Leem. Pesquisador do Inpa, atualmente ele é coordenador do INCT Adapta-Amazônia.
Ao visitar o espaço, impressiona a atmosfera controlada e silenciosa. O acesso exige protocolos rigorosos para evitar contaminação, além de restrições quanto ao tempo de permanência em cada sala. No ambiente que simula o cenário mais drástico, com a maior concentração de gás carbônico, não é permitido ficar mais do que alguns minutos, e sempre há alguém para monitorar a segurança dos pesquisadores e visitantes.
Dentro das câmaras, também é controlado o ciclo de luz e escuridão, o que garante a reprodução fiel do ritmo diário da floresta. Para evitar interrupções em uma cidade marcada por oscilações no fornecimento de energia, o sistema foi projetado com redundância elétrica, incluindo gerador e banco de baterias capazes de manter os parâmetros estáveis por até duas horas em uma eventual falta de luz.
Essa infraestrutura permite manter não apenas fungos e peixes, mas também insetos, plantas e outros organismos por longos períodos em condições controladas, revelando de maneira dinâmica como eles respondem a cenários climáticos extremos. “É um dos laboratórios mais modernos que temos aqui no Brasil. Seria necessário ter um em cada bioma brasileiro, para fins de comparação entre os resultados e o alcance de padrões gerais sobre os efeitos das mudanças climáticas”, defende Viviane Firmino, da UFPA.
A construção do Leem, em 2016, foi viabilizada pelo programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) do governo federal, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e também com recursos do próprio Inpa.
O laboratório integra o Adapta 3, a nova fase do INCT Adapta-Amazônia. “Recentemente tivemos a aprovação do INCT na qual vamos procurar responder como os organismos amazônicos vão lidar com a intensificação das mudanças globais, avaliando desde mecanismos fisiológicos até implicações ecológicas e sociais”, explica Val.
A reportagem acima foi publicada com o título “Fungos invisíveis, impactos visíveis” na edição impressa nº 356, de outubro de 2025.
Rosa Pereira Maia é fundadora e líder à frente do Rosa Ateliê, uma empresa renomada em Roraima, especializada em fardamentos escolares e profissionais, ativa no mercado desde 1997.
Natural do Ceará, Rosa se encantou pela Amazônia. Morou no Amazonas – nas cidades de Manaus e São Gabriel da Cachoeira. Ela conta que, desde a juventude, teve vontade de empreender e tinha ligação com a costura, uma vez que criava as roupas de suas bonecas.
Com uma sólida tradição no mercado, a empresa utiliza recursos sustentáveis para preservar a natureza e se destaca pela qualidade de seus produtos, além da confiança que conquistou ao longo dos anos. O ateliê é administrado pela sua filha e seu esposo, que atua como designer dos uniformes.
A empresária é uma das convidadas do programa Gente do Norte – Empresas, no Amazon Sat:
O conhecimento sobre a composição nutricional dos feijões amazônicos pode contribuir para a sua valorização no mercado. Foto: Felipe Sá
Um estudo inédito desenvolvido no Vale do Juruá, no Acre, revelou que os feijões-caupi Costela de Vaca e Manteiguinha Branco (Vigna unguiculata(L) Walp.) possuem teores de proteína de até 27%, superiores aos 20% da média das variedades encontradas em outras regiões, e acima da média mundial.
As análises da composição nutricional das amostras foram realizadas no laboratório de Bromatologia da Embrapa Acre. As duas variedades de feijão com maior índice proteico são cultivadas por agricultores familiares que ainda utilizam sistemas agrícolas tradicionais. A maioria foi plantada durante o período seco, nas praias dos rios da região.
Feijões Costela de Vaca, o segundo na linha superior, e Manteiguinha Branco, o primeiro na inferior. Foto: Amauri Siviero
O estudo também quantificou a presença de antocianinas nos feijões, substâncias naturais antioxidantes que, entre outros benefícios, ajudam no combate ao envelhecimento celular e na prevenção de doenças como câncer, problemas cardíacos e Alzheimer. Os feijões Preto de Arranque (P. vulgaris) e Preto de Praia (V. unguiculata) se destacaram com índices que variaram de 420 a 962 microgramas por grama, superiores aos encontrados em variedades brancas e coloridas.
Os feijões podem ter composição diferenciada dependendo da espécie, variedade e local de cultivo. A alteração pode ser em macro e micronutrientes, compostos fenólicos, especialmente em variedades que apresentam características tão diversas em suas cores, tamanhos e formatos, como são os feijões do Juruá. “Essas variedades possuem pouco ou nenhum estudo, o que deixa claro que ainda temos muito a conhecer sobre elas”, afirma a professora.
Segundo ela, o conhecimento sobre a composição nutricional do produto pode contribuir para a sua valorização no mercado e maior geração de renda para os produtores.
“Esses aspectos favorecem a busca por mercados mais justos para os feijões do Juruá”, reforça.
A boa conservação dos grãos é outra característica positiva confirmada pelo estudo. Após 12 meses de armazenamento em diferentes tipos de embalagens, eles mantiveram seus valores nutricionais. “Esse é um ponto muito importante, considerando que as sementes utilizadas são selecionadas e manejadas por agricultores familiares, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais. Ao longo dos anos, elas foram sendo adaptadas às formas de manejo dessas populações e as condições específicas de seus locais de cultivo”, explica Siviero.
Durante três anos, foram avaliadas 14 variedades de feijões cultivados ao longo dos rios Juruá, Breu, Tejo e Amônia, em Marechal Thaumaturgo — município que concentra a maior diversidade de feijões do Acre. O levantamento confirmou a forte ligação da agricultura local com a biodiversidade regional, em especial no Vale do Juruá, que reúne grande número de variedades tanto de feijão-comum (Phaseolus vulgaris) quanto de feijão-caupi (Vigna unguiculata).
Outra parte da pesquisa foi a sistematização da ocorrência de variedades crioulas que ocorrem em todo estado do Acre. Esse trabalho resultou na elaboração do mapa da distribuição de variedades de feijões comum e feijão-caupi cultivados no Acre. Siviero explica que o cultivo dessa leguminosa ocorre em todos os municípios acreanos, mas a maior diversidade de variedades encontra-se no Vale do Juruá.
Em Marechal Thaumaturgo foram constatadas 23 variedades de feijões, revelando ser a região com maior ocorrência de espécies crioulas do Acre. O acesso ao município é realizado apenas por via fluvial ou aérea, fator que reforça a importância da produção local para a segurança alimentar da região.
“Vimos que enquanto o cultivo do feijão-comum é desenvolvido em terra firme, o feijão-caupi é cultivado em áreas de várzeas, em pequenos roçados de um hectare, por agricultores familiares. Já na região do Baixo Acre, a mais populosa do estado, predomina o cultivo de apenas três variedades do grão”, destaca Siviero.
“O Vale do Juruá pode ser considerado um dos principais centros de conservação on farm de feijões caupi e comum do mundo”, afirma o professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) Eduardo Pacca, que também realiza pesquisas sobre agrobiodiversidade da região.
Valorização do grão
De acordo com Siviero, o conhecimento sobre as características das espécies, como a constituição nutricional e a conservação genética, pode incentivar o desenvolvimento de ações com foco em mercados selecionados, nos quais consumidores estejam dispostos a pagar por um feijão diferenciado. Contar com um mercado personalizado contribui para a valorização do produto e o aumento da renda dos agricultores familiares, uma vez que eles estão produzindo variedades de feijão com maior riqueza nutricional e ajudando na conservação de material genético.
Nesse contexto, políticas públicas também têm aberto novas possibilidades. Em setembro, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) lançou o Selo Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil – Identificação de Origem, que visa valorizar alimentos, artesanatos e outros produtos e serviços produzidos por povos e comunidades tradicionais. As associações e cooperativas podem requerer esse reconhecimento para os feijões crioulos da região.
Segundo Pacca, os feijões do Juruá têm potencial de serem incluídos no rol de alimentos orgânicos e também buscar a obtenção de selo de Indicação Geográfica, a exemplo do que já ocorreu com a farinha de mandioca fabricada na região. A cadeia produtiva desses alimentos envolve os produtores rurais, cooperativas de produção e instituições governamentais e não governamentais. A indicação geográfica de procedência e a certificação orgânica trariam benefícios diretos para a população local. “Daí a vantagem de se embalar a vácuo, como forma de evitar o uso de inseticidas contra insetos-praga de grãos armazenados”, destaca.
Em agosto de 2025, a equipe do projeto realizou nova viagem de campo para reconhecimento e registro de comunidades ribeirinhas que praticam a agricultura tradicional. Foram mais de 190 quilômetros percorridos de barco pelo rio Juruá, com visitas técnicas em comunidades ribeirinhas nos municípios do Acre — Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul — e do Amazonas — Ipixuna e Guajará. Essa iniciativa compõe uma das etapas para o reconhecimento e documentação desse conhecimento ancestral acumulado pelas populações da região.
Segundo Siviero, coordenador do projeto, os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) representam mais do que formas de produzir alimentos.
“Podemos dizer que os feijões do Vale do Juruá se perpetuam como herança passada entre gerações e como práticas de conservação da agrobiodiversidade, que também envolvem outros produtos como mandioca, milho, tubérculos, banana, arroz, milho, além das fruteiras e hortaliças. Os agricultores também possuem estratégias de conservação de espécies florestais e extrativismo”, complementa.
As ações do projeto RSAT Alto Juruá têm como base revelar aspectos como a segurança alimentar das comunidades ribeirinhas, sustentada pela diversidade de sistemas de cultivo tradicionais, que abrange grande variedade de espécies agrícolas.
Outra característica marcante dessas práticas culturais são as manifestações e festas regionais, como a farinhada, festival do feijão, milho, banana e coco, que compõem a beleza das paisagens culturais criadas por essas tradições.
Plantio de feijão na praia do Vale do Juruá. Foto: Felipe Sá
Cuidado com a natureza
A região do Vale do Juruá é conhecida pela diversidade de cultivos tradicionais. Os agricultores da região adotam práticas agrícolas sustentáveis, o que contribui para a preservação da biodiversidade local.
A pesquisadora Elisa Wandelli, da Embrapa Amazônia Ocidental, reforça que a agricultura praticada pelos ribeirinhos do Juruá é exemplo de sustentabilidade. “Nas comunidades que visitamos, vimos uma população sábia que mostra que é possível produzir alimento e cuidar da natureza ao mesmo tempo. Essa sabedoria ancestral, muitas vezes esquecida até pelos próprios agricultores, guarda conhecimentos transmitidos pelos avós e bisavós que devem ser protegidos e melhor valorizados”, afirma.
Pedro Bezerra da Silva, agricultor da Comunidade Novo Horizonte, no município de Porto Walter (AC), planta macaxeira, banana e feijão, todo ano. “Grande parte da alimentação da família vem do que plantamos e o que sobra vendo para aumentar a renda. Se eu não plantar, não tenho como comprar todos os alimentos na cidade”, diz.
Ele conta também que chegou à comunidade há mais de vinte anos e muita coisa mudou, principalmente, com relação ao clima. “Nos últimos anos, o verão tem ficado cada vez mais quente. Já teve ano de secar tudo quanto é broto de água até na mata.”, complementa.
Presente na COP 30
Sintonizados com os princípios da agricultura sustentável, um dos eixos centrais da COP 30, os sistemas agrícolas tradicionais serão apresentados na AgriZone, espaço da Embrapa destinado a iniciativas inovadoras e inclusivas.
“Nossa participação na COP 30 reforça a necessidade de valorizar os registros dos sistemas agrícolas tradicionais no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo em que busca sensibilizar formuladores de políticas públicas sobre a necessidade de criar ações específicas para fortalecer e proteger essas comunidades”, enfatiza Siviero.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Gente do Norte Empresas. Foto: Reprodução/Amazon Sat
Egreen Baranda é a CEO e fundadora do Kwati Club, um festival de música em Parintins, no Amazonas. Como médica de formação, ela combina suas experiências em saúde e empreendedorismo para criar experiências aos turistas que visitam a ‘Ilha da Magia’ durante o Festival Folclórico de Parintins.
Gente do Norte Empresas: Egreen Baranda. Foto: reprodução/Amazon Sat
Egreen é especialista em medicina extensiva e radiologia que também estudou gestão de negócios para aperfeiçoar seu método empreendedor. Segundo a empresária, ver a família movimentar sua chácara para patrocinadores que investiam no Festival de Parintins, ascendeu a vontade de também empreender com o local.
O Kwati Club, então, nasceu em 2018 em um tempo que consideram recorde por seus criadores, pois todo seu preparo durou apenas 40 dias. É um clube de eventos, à margem do rio Amazonas, que tem como principal atividade shows de atrações nacionais, além de áreas de lazer. O local também é o anfitrião da Festa dos Visitantes, evento que passou a fazer parte da agenda durante o Festival de Parintins.
A empresária é uma das convidadas do programa Gente do Norte – Empresas, no Amazon Sat:
Aumentar a demarcação de terras indígenas ao redor do mundo é fundamental para enfrentar a crise climática. Foi o que defendeu a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, durante o programa Estúdio COP 30, transmitido pelo Canal Gov, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Para isso, um dos principais objetivos dos povos originários durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que será realizada em novembro, em Belém (PA), é incluir os territórios de povos originários como integrantes das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) de cada país a partir de 2026. As NDCs são compromissos assumidos por cada país para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
“A gente vê muito a comunidade internacional apoiando essa pauta da demarcação das terras indígenas, entendendo que é sim uma das medidas eficazes para enfrentar a crise climática”, disse a ministra
“É lógico que a gente tem aí muitos desafios com relação de força, que acabam impedindo ou fazendo com que esse processo demore ainda muito mais para se concluir os processos demarcatórios. Nós precisamos desses territórios livres para os indígenas terem ali a sua identidade plena, vivida no dia a dia. Nós estamos trabalhando junto ao Ministério do Meio Ambiente e das Relações Exteriores para que a demarcação de terras indígenas entre ainda nesta COP como um anexo do documento oficial, e no próximo ano entre já com esse reconhecimento de ser uma política climática. O território indígena precisa ser reconhecido como uma das medidas de mitigação ao enfrentamento à crise climática”, afirma.
A ministra citou o exemplo do Brasil, que criou o Ministério dos Povos Indígenas, além de reconhecer e homologar 16 TIs e realizar oito desintrusões de territórios desde 2023.
“Aqui, o presidente Lula tem se engajado bastante, tem demonstrado esse compromisso para demarcar territórios indígenas. Ainda no final do ano passado a gente conseguiu superar os 10 anos anteriores em demarcação das terras indígenas. Certamente com a criação do Ministério dos Povos Indígenas, o Brasil sai na frente, porque traz os povos indígenas para a discussão direta, para toda essa construção de políticas públicas. Nós temos um lugar à mesa agora, então isso faz muita diferença”, afirmou.
Participação indígena na COP
Sonia Guajajara disse que a COP 30 terá a maior e melhor participação indígena da história das conferências do clima. Para isso, o Ministério criou um espaço que será alocado na Universidade Federal do Pará (UFPA). Além de alojamento, o espaço contará também com atividades culturais, políticas e espirituais durante o evento. São esperados 3 mil representantes dos povos originários de todo Brasil e do mundo na Aldeia COP.
A delegação brasileira contará com a maior participação indígena da história, com 360 representantes de todas as regiões do país credenciados para a Zona Azul da conferência, espaço oficial e restrito onde ocorrem as negociações diplomáticas entre os países e delegações credenciadas, sendo organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo Guajajara, 1 mil indígenas de todo o mundo são esperados para participar das discussões na Zona Azul.
“Se as pessoas já estão diretamente impactadas com as mudanças climáticas, é justo que as pessoas possam participar, inclusive para trazer as contribuições e participando daquilo que lhes afeta diretamente”, explicou Sonia
Ela destacou que os TIs são comprovadamente os mais preservados e detêm a maior biodiversidade, graças à forma de vida sustentável dos povos originários.
“Os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas contribuem já naturalmente com o modo de vida que exercem junto à natureza. Porque tudo que nós indígenas fazemos traz esse conhecimento do que a natureza oferece, seja para os medicamentos, cultura, alimentação. Nós temos no Brasil uma média de 120 grupos de povos isolados, que vivem sem nenhum contato com outras pessoas, nem mesmo com os indígenas que estão no mesmo território. E eles estão lá e decidiram viver assim. Então a gente busca a proteção dessas áreas que eles vivem, para que eles possam ter ali todos os recursos necessários para continuarem vivendo bem.
“Isso mostra como que o conhecimento dos povos indígenas por si só garante a vida no planeta. Onde está a floresta em pé, onde estão as nascentes, a água limpa. Nós, povos indígenas, temos um uso responsável, sustentável, que utiliza sem destruir, que não precisa desmatar, não precisa acabar com tudo para poder você ter ali o que precisa. É muito mais fácil você valorizar, proteger os modos de vida, o conhecimento ancestral, a bioeconomia que é gerada por esses povos, do que é simplesmente você chegar e destruir tudo. Porque é exatamente a floresta viva, a biodiversidade viva que garante a água limpa e tudo que a gente precisa para continuar vivendo”, disse a ministra.
O programa Estúdio COP 30, do Canal Gov, é exibido na TV aberta (canal digital 2.2 em SP e 1.2 demais estados) às segundas e quartas-feiras, às 13h. Traz entrevistas dedicadas a discutir grandes temas e bastidores da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em novembro, em Belém (PA).
Seca na Amazônia em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
A maior chuva já registrada na história do Brasil; uma seca intensa que reduziu os rios amazônicos aos menores índices de que se tem notícia; uma sequência de temporais que levou o estado do Rio Grande do Sul a bater o recorde de vítimas fatais por enchentes e desabamentos — recorde que seria superado apenas um ano depois, na tragédia de 2024.
Tudo isso ocorreu em 2023, ano que despertou os brasileiros para a dura realidade de que as mudanças climáticas já chegaram, e que pagaremos com vidas humanas pelo nosso despreparo para enfrentá-las. Este ano, um estudo conduzido com a participação de pesquisadores da Unesp elucidou quais foram os fenômenos atmosféricos que contribuíram para ocasionar resultados tão avassaladores.
O estudo envolveu 19 cientistas, todos brasileiros, e apresentou seus resultados em um artigo publicado nos Anais da Academia de Ciências de Nova York. O texto teve como primeira autora Luana Pampuch, professora do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unesp em São José dos Campos.
“Rios voadores” e Atlântico quente abasteceram tragédia no litoral paulista
A chuva que caiu sobre o litoral norte do estado de São Paulo na madrugada dos dias 18 e 19 de fevereiro de 2023 foi a maior da história do país em um intervalo de 24 horas; fez 65 vítimas fatais e 338 desabrigados. O município de Bertioga registrou o recorde nacional, com 682,8 mm de precipitação.
Naquela ocasião, uma massa de ar frio oriunda do Oceano Atlântico encontrou o ar quente sobre o litoral paulista. Massas com temperaturas e umidades diferentes se comportam um pouco como água e óleo, sem se misturar. Quando uma frente fria avança, ela ocupa a parte mais baixa da atmosfera por ser mais densa e empurra para cima o bolsão de ar mais quente.
Conforme o ar quente sobe, ele esfria. E, conforme esfria, perde capacidade de reter umidade — o que faz com que o vapor d’água condense e caia na forma de chuva. A Serra do Mar, que é um degrau íngreme no relevo, ajuda nesse processo, já que o vento não tem como fugir do paredão e só pode mesmo subir. Chuvas causadas por características do relevo são denominadas chuvas orográficas.
Esse é um fenômeno corriqueiro na geografia da região, mas acabou acentuado por condições anômalas no Oceano Atlântico, que estava algo entre 1 e 2 °C mais quente do que o habitual — o que significa mais água evaporando e servindo de combustível para as tempestades. O calor nas águas não é coincidência: em relação à média da era pré-industrial, a temperatura média da superfície dos oceanos já aumentou em 0,9 °C por causa das emissões de gases de efeito estufa. O resultado é que sempre haverá massas de ar mais quentes e mais vapor, o que se traduz em chuvas mais volumosas.
“Existe uma metodologia para atribuir um fenômeno climático extremo às mudanças climáticas de origem antropogênica; para identificar o quanto de um evento está associado à atividade humana”, diz Camila Carpenedo, líder do Núcleo de Estudos sobre Variabilidade e Mudanças Climáticas (Nuvem) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que também assina o artigo. “Não fizemos essas análises de atribuição neste artigo, mas o aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos é compatível com um planeta em aquecimento”, diz ela.
Outro fator que contribuiu para a intensidade das chuvas naquele ano foi o chamado jato de baixos níveis sul-americano, popularmente conhecido como rios voadores. O primeiro passo para entender os tais rios é a constatação de que os ventos que correm ao longo da linha do Equador, denominados ventos alísios, sempre sopram no sentido leste-oeste.
Essa via atmosférica de mão única é resultado de um mecanismo denominado efeito Coriolis, que empurra o ar que chega ao Equador na direção oposta à da rotação da Terra. Normalmente, os alísios tentam levar o ar úmido da Amazônia para o Pacífico, mas, no meio do caminho, deparam-se com a Cordilheira dos Andes. A Cordilheira deflete esses ventos para regiões mais ao sul, o que alimenta chuvas.
Mudanças climáticas pioram estiagem no Norte já esperada durante El Niño
A ocorrência das secas de primavera na Amazônia — como aquela que, em 2023, derrubou o nível do rio Amazonas de seus habituais 15,80 m para apenas 12,70 m na altura de Manaus — está diretamente ligada ao fenômeno El Niño. Trata-se de um fenômeno climático cíclico, registrado na literatura pela primeira vez em 1578, que causa disrupções bem conhecidas e estudadas em todo o planeta.
Sua ocorrência está ligada à dinâmica do Oceano Pacífico. Normalmente, as águas rasas aquecidas pelo sol na costa da América do Sul são sopradas pelos ventos alísios para o Oeste, em direção ao continente asiático. Conforme essa água quente se desloca, ela é substituída por água mais fria, que ascende de partes mais profundas do oceano.
O predomínio de água fria nos arredores da América do Sul também deixa o ar mais gelado, enquanto as águas quentes sopradas para as proximidades da Ásia aquecem a atmosfera naquela região. Como o vento sempre se move de zonas frias e secas (em que a pressão do ar é mais alta) para zonas quentes e com formação de chuvas (zonas de baixa pressão, em que o ar sobe), a diferença de temperatura reforça os próprios ventos Leste-Oeste, que foram responsáveis por gerá-la originalmente. É um processo cíclico, de retroalimentação, denominado célula de Walker. “Atmosfera e oceano estão conectados, a gente não sabe o que acontece primeiro. Mas há um acoplamento entre as duas coisas”, diz Luana Pampuch.
De forma geral, denomina-se La Niña à época em que os ventos alísios estão mais intensos que o normal e criam um gradiente quente-frio acentuado entre o leste e o oeste do Pacífico. O El Niño, por sua vez, ocorre quando os ventos alísios enfraquecem e um bocado de água quente permanece no litoral peruano. Esse pêndulo entre “Menino” e “Menina” é conhecido pela sigla ENOS: El Niño–Oscilação do Sul.
Em anos de La Niña ou anos neutros, a porção do Pacífico próxima ao litoral das Américas torna-se uma zona de pressão alta, com clima mais estável, águas mais frias e pouca chuva. As tempestades ocorrem preferencialmente a leste e oeste desse centro, ou seja, no litoral asiático e na atmosfera acima da Amazônia.
No infográfico abaixo, essas são as partes do planeta em que o ar quente sobe, carregando consigo o vapor de água e formando nuvens, em oposição às áreas de pressão alta, em que o ar frio desce e o céu é limpo.
Já nos anos de El Niño, não há vento para empurrar as águas quentes do Pacífico rumo à Ásia, de modo que o oceano permanece aquecido nas redondezas do litoral das Américas e gera ali uma zona de baixa pressão, propensa a chuvas. Vide, na ilustração abaixo, a formação de nuvens sobre a água, onde normalmente haveria uma zona de alta pressão.
O problema é que, quando essa área chuvosa de baixa pressão se desloca, ela sai de cima da Amazônia, que passa a ter uma atmosfera de pressão mais alta e umidade menor. A seta localizada sobre o norte do Brasil passa a apontar para baixo. Daí decorre o longo período de estiagem.
Todo esse processo é intensificado pelo aquecimento global, pois, quanto maior a temperatura média da Terra, mais as águas do Pacífico se aquecem e mais acentuada é a mudança subsequente nas setas da circulação de Walker. Niños e Niñas que geram variações muito bruscas em relação à fase neutra do Pacífico desencadeiam distorções exageradas no clima mundial, como estiagens mais duradouras nas regiões em que já se prevê secura ou, o oposto: chuvas ainda mais pesadas nos lugares em que o El Niño ou a La Niña normalmente já fariam chover.
A capacidade do El Niño de reverter os padrões do clima terrestre — fazendo chover onde normalmente é seco e causando secas onde normalmente chove — também tem uma parcela da culpa pela zona de alta pressão que se instalou sobre o centro do Brasil na mesma época das secas na Amazônia, e levou à mais alta temperatura já registrada no país: 44,8 °C em Araçuaí (MG), no dia 19 de novembro de 2023.
“O El Niño está associado a um aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico. Se a água está mais quente, por condução ela esquenta a atmosfera adjacente. Esse ar quente sobe, ocupa o lugar do ar mais frio e perturba a troposfera [a camada da atmosfera mais próxima à superfície terrestre, que chega até 16 km de altura]”, explica Camila Carpenedo. “Essa perturbação gera ondas na atmosfera, ondas muito grandes, com um comprimento da ordem de 1.000 km. As cristas produzem áreas com alta pressão, ou vales, áreas de baixa pressão”, diz.
El Niño e águas quentes também acentuam ciclones no sul do país
Ao longo do inverno e da primavera de 2023, o Rio Grande do Sul e seus arredores foram afetados por quatro ciclones extratropicais notáveis, que atingiram seus picos nos dias 16 de junho, 12 de julho, 4 de setembro e 4 de outubro. Segundo os autores do artigo, todos ocorreram na época esperada: em linhas gerais, esses fenômenos se sucedem com mais frequência na primavera e no outono, são mais intensos (ainda que não necessariamente mais frequentes) no inverno e diminuem no verão.
O ciclone de junho derramou mais de 80% da precipitação esperada para o mês em uma área bastante restrita ao Nordeste do território gaúcho, próxima à Região Metropolitana de Porto Alegre. O resultado foi a morte de 16 pessoas e cerca de 10 mil desabrigados. O segundo, em julho, foi mais ameno: atingiu “só” 60% da média de chuvas para o período, desabrigou mil pessoas e causou uma morte.
O fenômeno de setembro também bateu a marca de 60%, fez 54 vítimas fatais e afetou 359 mil pessoas em 106 cidades, especialmente no Vale do Taquari — na época, a dimensão da tragédia pôs a tempestade na primeira página dos jornais. O ciclone de outubro, por sua vez, foi o mais fraco. A precipitação ficou entre 30% e 40% do esperado para o mês.
O clima na Região Sul, localizada em uma latitude mais alta que o resto do país, sofre grande influência de ciclones extratropicais porque se localiza perto da chamada frente polar, onde há condições ideais para a formação desses sistemas giratórios. Eles são uma parte corriqueira do clima entre os paralelos 30° e 60° — e não têm relação com seus primos mais famosos de águas quentes, os ciclones tropicais, batizados de “furacões” nos EUA e “tufões” no litoral chinês.
A frente é um paredão invisível entre o ar polar e o ar dos trópicos, em que ocorre uma mudança repentina de temperatura. No mapa abaixo, centrado sobre a Antártida, nota-se a transição brusca entre a área azul e roxa (mais fria) e a área verde (mais quente). No verão, a frente paira sobre a Patagônia. No inverno, porém, o bolsão de ar frio avança até as redondezas gaúchas, o que explica a vulnerabilidade do estado a esse tipo de fenômeno.
Essa é uma fronteira turbulenta, em constante mutação. O tempo todo, massas de ar frio penetram na região quente, enquanto massas de ar quente avançam sobre áreas frias. A semente de um ciclone extratropical, por sua vez, é uma área de baixa pressão nessa fronteira — baixa o suficiente para atrair o ar ao seu redor como se fosse um ralo. Acompanhe no GIF abaixo.
Em torno do núcleo de baixa pressão, uma frente fria e uma quente giram uma em torno da outra como uma dupla de cães ansiosos para se cumprimentar. Esse é o redemoinho de nuvens visível em imagens de satélite. O ar frio, via de regra, é mais rápido que o quente e completa a volta antes, isolando o centro da tempestade. As chuvas, por sua vez, ocorrem porque a frente fria empurra o ar quente, mais leve, para cima — fazendo com que o vapor de água esfrie, condense e caia.
A tendência é que, com o aquecimento global, “passe a ocorrer um número menor de ciclones, mas os que ocorrerem tendem a ser mais intensos”, explica Luiz Felippe Gozzo, professor assistente do curso de Meteorologia da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp de Bauru, que não participou da elaboração do artigo. “O espaço de tempo entre um e outro vai ser maior, então a atmosfera acumula mais energia. Além disso, quando está mais quente, o ar consegue armazenar mais vapor de água. E aí ocorrem chuvas mais intensas.”
Desastres como os de 2023 serão tendência crescente ao longo do século 21
Quando pesquisadores discutem se vamos ultrapassar 1,5 °C ou 2 °C de temperatura acima dos níveis pré-industriais, o ponto de referência é o meio século entre 1850 e 1900 — quando já havia fábricas e outros emissores, mas não em quantidade suficiente para gerar um impacto perceptível no clima. A humanidade emitiu “só” 12 gigatoneladas (GtC) de carbono da Revolução Industrial até o ano de 1900, contra 380 GtC entre 1901 e 2013, de modo que o grosso do aquecimento aconteceu já durante o século 20.
Um aumento de “só” 1,5 °C na temperatura média da Terra em relação a essa época (e vale lembrar que o ano de 2024 já ultrapassou pontualmente essa marca, com 1,55 °C) já é suficiente para causar alterações significativas no clima mundial. Mas, no ritmo atual das emissões e das políticas públicas para mitigá-las, o mais provável é que o planeta alcance ou até ultrapasse 2 °C até 2100.
Nesse cenário, todos os fenômenos descritos na reportagem se tornarão mais frequentes, mais intensos ou ambas as coisas em um futuro próximo. Chuvas fortes se tornarão 1,7 vezes mais frequentes e 14% mais intensas, enquanto estiagens passarão a ser 2,4 vezes mais comuns. E os ciclones, conforme já mencionado alguns parágrafos atrás, podem até se tornar menos comuns, mas serão mais intensos.
A América do Sul “deve enfrentar eventos extremos mais intensos e contrastantes, com chuvas mais fortes em algumas regiões e secas mais longas e severas em outras, impactando diretamente a agricultura, os recursos hídricos, a biodiversidade e aumentando a vulnerabilidade social das populações”, resumem Luiz Gozzo e Luana Pampuch.
Nem todo evento extremo ocorre por causa do aquecimento global, e é um trabalho intelectual árduo determinar a parcela de responsabilidade do aumento das temperaturas ao analisar cada uma dessas ocorrências. Fenômenos atmosféricos se comportam como uma fileira de dominós: uma mudança sutil em um único parâmetro do funcionamento do planeta é capaz de gerar uma reação em cadeia catastrófica. Os meteorologistas fazem o possível para decifrar esse quebra-cabeça. Mas evitar que coisas piores aconteçam é papel de governos, empresas e todos os demais atores que, infelizmente, falham em enfrentar de forma adequada as mudanças climáticas.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Bruno Vaiano
Professora Marcela Saramela ganhou destaque nacional na Revista Nova Escola, com o projeto “A crise dos plásticos nos oceanos”. Foto: Divulgação/PMBV
Cada sala de aula das escolas de Boa Vista carrega histórias que nascem do compromisso, da criatividade e do amor em ensinar. Nesta semana em que se celebra o Dia do Professor (15 de outubro), a capital roraimense homenageia mais de 3.600 profissionais da Rede Municipal de Ensino, que fazem da educação um verdadeiro espaço de transformação, conhecimento e esperança para o futuro.
Entre eles, está a professora Marcela Saramela, da Escola Municipal Jael da Silva Barradas, que recentemente ganhou destaque nacional em uma reportagem da Revista Nova Escola, uma das mais importantes publicações de educação do país.
A matéria reconheceu o projeto “A crise dos plásticos nos oceanos”, desenvolvido com os alunos do 3º ano, que uniu educação ambiental, mudanças climáticas e inteligência artificial. A iniciativa fez tanto sucesso que virou referência nacional, inspirando outros educadores pelo Brasil.
A paixão pelos oceanos e pelo ensino inspirou Marcela a transformar o aprendizado em uma experiência prática e significativa.
“Quando vi que o tema nacional de ciências era sobre os oceanos, iniciei o projeto como uma proposta de conscientização sobre a importância de nossas ações para preservar a vida marinha e o nosso próprio futuro”, explicou.
Com o curso Professores da Era IA, oferecido pela Nova Escola, ela aprimorou o projeto, relacionando o tema à inteligência artificial. “Fizemos várias pesquisas e atividades para entender como a IA pode nos ajudar a enfrentar a crise dos plásticos nos oceanos. O resultado foi incrível — os alunos se envolveram, as famílias participaram e o projeto foi um sucesso na feira de ciências da escola”, contou Marcela.
Dentre as atividades desenvolvidas por meio do projeto está a produção de brinquedos com plásticos e outros materiais recicláveis. Foto: Divulgação/PMBV
Ensinar é plantar o futuro
Com 16 anos de carreira, Marcela celebra a data com a mesma emoção de quem realizou um sonho de infância. “Ser professora era meu sonho de menina e me sinto realizada. Tenho muitas histórias marcantes, mas nunca esqueço meu primeiro aluno autista. Ele tinha dificuldades para se adaptar à escola e, juntos, conseguimos mudar isso. No fim do ano, ele aprendeu a ler, concluiu o ano e hoje continua estudando, cheio de sonhos. São histórias assim que mostram o poder da educação e do afeto”, disse.
Aprendizado que desperta consciência
Os alunos do 3º ano A, turma em que o projeto foi desenvolvido, aprenderam lições que vão muito além da sala de aula. “Aprendi que cuidar do oceano é cuidar da nossa vida. Mesmo morando longe do mar, nossas ações têm consequências. Se a gente joga lixo na rua, a água da chuva leva para o rio e o rio leva para o oceano”, contou Ravi Souza Matos, de 8 anos.
“O projeto me fez entender que não adianta só falar, tem que agir. Eu comecei a catar o lixo lá de casa e a ajudar mais a natureza, porque quando a gente cuida dela, está cuidando da gente também”, disse Isabela Ariele da Silva Nascimento.
Professor Claudinero é destaque nacional com o projeto premiado “Mandala Educativa”. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Mais destaque para a rede municipal
Recentemente, o professor Claudinero Reis, da Escola Municipal Rujane Severiano dos Santos, venceu o 26° Prêmio Arte na Escola Cidadã, o maior da arte-educação do país, com o projeto “Mandala Educativa: Educando com Arte”. Ele promoveu um ambiente de acolhimento, criatividade e expressão por meio da construção de mandalas com diferentes materiais e técnicas.
A proposta ajudou os alunos a desenvolverem concentração, senso estético e cooperação, transformando a rotina escolar em uma experiência artística e inclusiva.
Com 12 edições, o Prêmio Meritocracia já reconheceu mais de 2 mil educadores em 16 categorias. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Prêmio Meritocracia – Reconhecimento e incentivo à inovação
Em Boa Vista, iniciativas como essas ganham ainda mais força com o Prêmio Meritocracia, promovido pela prefeitura. A premiação reconhece o talento que nasce nas salas de aula da educação básica municipal, valorizando professores que inovam e transformam vidas.
Com 12 edições, o prêmio já reconheceu mais de 2 mil educadores em 16 categorias, que vão desde professores bilíngues em Wapichana e Macuxi até educadores de libras, braille, arte e educação física.
App permite o envio de fotos de áreas afetadas pela praga. Foto: Raylana Dantas/Rede Amazônica AP
Um aplicativo gratuito chamadoGuardião Rural foi lançado para ajudar agricultores do Amapá a identificar e combater a vassoura-de-bruxa da mandioca, doença que ameaça plantações no estado. A ferramenta foi desenvolvida por técnicos do Instituto de Extensão, Assistência e Desenvolvimento Rural do Amapá (Rurap).
A praga, causada pelo fungo Ceratobasidium theobromae, teve os primeiros casos registrados no estado em 2024 e pode inviabilizar a colheita.
“O aplicativo marca uma nova etapa na extensão rural, com mapeamento territorial e busca ativa dos produtores”, disse Kelson Vaz, diretor-presidente do Rurap.
Como funciona o aplicativo?
Disponível para Android e na versão web, o Guardião Rural permite que o agricultor envie fotos e localização da área afetada. Técnicos analisam os dados e oferecem orientação remota ou agendam visitas presenciais.
O cadastro é validado com base em sistemas oficiais como o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e o Cadastro Ambiental Rural (CAR).
O aplicativo pode ser acessado pelo site do Rurap. Para começar, o agricultor deve preencher o cadastro e enviar imagens da plantação.
“A ferramenta amplia a participação de técnicos e lideranças comunitárias no controle da praga”, afirmou Alcione Cavalcante, assessor técnico do Ministério Público do Amapá.