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Aves resgatadas em Roraima passam por ‘treinamento de voo’ para retorno à natureza

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Foto: Andrezza Mariot/PMBV

Compromisso com a restauração do equilíbrio ambiental, o trabalho de reintrodução de animais silvestres à natureza necessita de planejamento. Diante disso, aves resgatadas abrigadas no Bosque dos Papagaios, bairro Paraviana, em Boa Vista (RR), passam por treinamento de voo, uma das etapas essenciais no processo de reabilitação.

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Atualmente, 48 aves estão no equipamento municipal, dentre elas, arara, papagaio, periquito, maitaca, mariana e tucano. Onze delas passam pelo treinamento, sendo 6 araras e 5 papagaios, com a possibilidade de retorno ao meio ambiente. De acordo com o diretor do bosque, Luciano Ibiapina, a preparação de soltura desses animais garante uma reintegração segura ao ecossistema.

“Aves com a musculatura prejudicada passam por treinamento semanalmente aqui no bosque. O objetivo é fortalecer os músculos das asas para sustentar o corpo do animal durante voos longos. A gente tem aves que já recuperaram 50% da capacidade de voo e a meta é atingir 100% para que estejam prontos para soltura no fim do ano, reintegrando-os de forma eficiente e sem intercorrências”, disse.

Foto: Andrezza Mariot/PMBV

Ao término do treinamento, os animais são entregues ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Com isso, os profissionais mapeiam e programam a reintegração das aves aptas a retornarem para a natureza.

Funcionamento do Bosque dos Papagaios

Com exceção das segundas-feiras, feriados e pontos facultativos, o horário de funcionamento do bosque é das 8h às 18h em dias úteis. Aos fins de semana, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Vale ressaltar que no local não é permitido entrar com animais domésticos, alimentar os animais, entrar com bebida alcoólica, consumir alimentos nas trilhas, fumar e descartar resíduos de forma irregular.

*Com informações da Prefeitura de Boa Vista

Governo federal anuncia investimento de R$ 17 milhões para ciência e inovação no Amapá

Fórum reuniu entidades de todo o país. Foto: João Pantoja/Rede Amazônica AP

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, anunciou no dia 26 de junho um investimento de R$ 17 milhões para a ciência e inovação no Amapá. O anúncio foi feito durante o Fórum do Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (Consecti), em Macapá. O evento reuniu gestores de ciência e tecnologia de todo o país, pesquisadores e estudantes no Museu Sacaca.

A ministra disse que o Amapá tem apresentado resultados significativos nos últimos tempos, se tratando de avanços tecnológicos com recursos regionais.

“Todo mundo hoje tem o conceito de que só é possível um desenvolvimento com emprego de melhor qualidade, que impacte menos no meio ambiente e que entre na nova economia se tiver ciência, tecnologia e inovação. Por isso que o ecossistema do Amapá tem demonstrado muita robustez. Só é possível um ministério como o nosso investir R$ 17 milhões, se tiverem bons projetos”, disse a ministra Luciana.

A ministra Luciana destacou ainda que o recurso deve investir e movimentar projetos como o Parque Tecnológico, Mais Ciência nas Escolas, além do arranjo produtivo no Arquipélago do Bailique.

“O arranjo produtivo local que tem a vocação para o agro, ou seja, toda essa sinergia entre estado, indústria e a universidade é o que faz uma diferença. É por isso que fico feliz de ver casos de sucesso se desenvolvendo e a gente podendo garantir uma melhor qualidade de vida que é o nosso objetivo principal para toda a gente do Amapá e do Norte”, concluiu.

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A programação debateu o fortalecimento de políticas públicas estaduais e nacionais do setor através da troca de experiências, apresentação de boas práticas e articulação entre os entes federativos, além dos rumos do desenvolvimento científico e tecnológico, voltados para a Região Amazônica.

Além disso, como parte das comemorações pelos 40 anos do MCTI, o Amapá também recebeu a Caravana da Ciência, uma iniciativa voltada à popularização do conhecimento científico e à interiorização das ações do governo Federal voltadas à ciência, tecnologia e inovação.

Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

O ministro da Integração e Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, que também esteve presente no evento, disse que todo o processo de desenvolvimento na região, depende de inovação, ciência e tecnologia.

“Logicamente, quando isso se junta à construção do conhecimento feito pela academia e traduzindo na entrega de políticas públicas, é transformador. Nós já conhecemos também uma nova indústria que tem uma pegada de desenvolvimento de tecnologias atribuídas para as vocações amazônicas”, disse.

Waldez destacou ainda que o Amapá lidera o processo de desenvolvimento, com encontros marcantes internacionais que firmam parcerias e contribuem para a e evolução na Amazônia. Ele disse ainda que uma agenda com o potencial ainda maior para o Amapá está por vir.

“Vem uma agenda muito forte, que vai depender disso, que é a agenda do gás e petróleo, que se junta a outras vocações. Quanto mais a ciência, a inovação, a tecnologia estiver próxima, maior a possibilidade de acerto nas decisões do Poder Público”, concluiu.

O governador do Amapá, Clécio Luís, disse que a data se trata de uma história no desenvolvimento científico no âmbito nacional, reunindo órgãos federais e secretários de ciência e tecnologia.

“Se tivermos mais conhecimento, autoconhecimento, desenvolvimento, ou seja, ciência, tecnologia e inovação, temos condições de saltos qualitativos. Isso vai se transformar em melhoria para a vida do povo, o que é o mais importante. O pensamento de todo o nosso governo, é de usar tudo o que é possível e que está a nosso favor, para desenvolver o Amapá”, concluiu o governador.

O secretário de Ciência e Tecnologia do Amapá, Edivan Barros, disse que o valor investido o estado contribui para a popularização da ciência, e para a infraestrutura da tecnologia.

“Esses investimentos irão para fomento de empresas inovadoras. Então são investimentos que fortalecem a pesquisa, mas fortalecem também o setor produtivo, tendo a pesquisa como suporte ao desenvolvimento do setor produtivo”, explicou o secretário.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Vermelho no Palmares e azul na Baixa: conheça quem desafia a divisão dos territórios de Caprichoso e Garantido

Rua dividida em Parintins. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Parintins respira boi-bumbá o ano inteiro, mas nos dias que antecedem o Festival Folclórico, a rivalidade entre Caprichoso e Garantido transborda das arquibancadas para as ruas, as fachadas das casas e até os pequenos detalhes de decoração. A cidade se pinta, literalmente, de azul e vermelho, conforme o território de cada boi. Mas há exceções que desafiam a lógica.

O Festival de Parintins acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho, na cidade de Parintins, interior do Amazonas, e movimenta a ilha com a tradicional disputa entre os bois Caprichoso e Garantido.

Em 2025, o Boi Caprichoso entra na arena com o tema “É Tempo de Retomada”, celebrando a força da cultura popular e a resistência do povo amazônida.

Já o Garantido defende o título com o lema “Boi do Povo, Boi do Povão”, reafirmando suas raízes populares e o vínculo profundo com a alma vermelha da Baixa do São José.

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No bairro do Palmares, reconhecido como reduto do Caprichoso, bem na esquina das ruas Benjamin Rondom e Padre Vitor, um ponto vermelho rompe a hegemonia azul. É uma espécie de encruzilhada Garantido dentro do coração Caprichoso.

O comerciante Elanilson Gomes foi quem puxou esse “piquete” encarnado. Ele e os vizinhos decidiram enfeitar o espaço e “desafiar” a galera contrária. Tudo, é claro, com muito respeito.

“Nós viemos da Baixa e moramos aqui há 25 anos. Costumávamos sempre enfeitar as casas apenas com as bandeirinhas, mas dessa vez decidimos ir além. O pessoal do contrário viu e também começou a se mexer”.

A organização foi tanta que o grupo encomendou um boi Garantido de fibra e colocou o “garrote” bem no coração do bairro. “A gente encomendou o boi ano passado, mas só chegou esse ano. Eles viram e quiseram um pra eles também, mas não chegou há tempo”, disse rindo.

O vermelho ali não passa despercebido. É símbolo de pertencimento — ainda que cercado por um “turbilhão” azul por todos os lados.

Já do outro lado da cidade, na Baixa da Xanda, tradicional bastião do Garantido, a cena se inverte. Entre ruas pintadas de vermelho e branco, há um local que chama atenção justamente pelo silêncio das cores: não tem vermelho, só branco. Mas não é neutra. É uma casa azul. Uma casa Caprichoso, encravada no território do boi contrário.

E por lá essa história fica mais engraçada quando contada. É que na casa em questão mora o seu Edson “da Baixa”, pai da Mãe Catirina do Caprichoso.

Leia também: Você sabe qual a origem do Festival Folclórico de Parintins?

Ao Grupo Rede Amazônica, ele contou que nunca hasteou uma bandeira do Caprichoso em respeito aos vizinhos perrechés.

Já os vizinhos, que usam a escada do seu Edson para pendurar as bandeirinhas e enfeitar as ruas de vermelho e branco, também não provocam o comerciante e toda vez só enfeitam a frente da casa dele com a cor neutra.

Já os vizinhos, que usam a escada do seu Edson para pendurar as bandeirinhas e enfeitar as ruas de vermelho e branco, também não provocam o comerciante e toda vez só enfeitam a frente da casa dele com a cor neutra.

“Nós pertencemos à esse bairro, somos dessa comunidade, da Baixa do São José e, ainda que seja o reduto do contrário, somos uma família Caprichoso”.

Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Ali, o branco é um sinal de respeito — respeito por uma família que não torce para o Garantido, mas que vive no coração vermelho da cidade. É o reconhecimento de que a rivalidade existe, é forte, é cultural, mas que também pode conviver com a liberdade de escolha e com a independência de ser diferente, mesmo cercado pela paixão do outro.

E esses pontos fora da curva revelam que, mesmo numa ilha onde a rivalidade é tradição, há espaço para a convivência — ainda que carregada de provocações saudáveis, olhares curiosos e muito respeito. Porque, no fim, todo parintinense sabe: na ilha da magia, até as fachadas falam.

Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

‘Recicla Galera’ já ultrapassa 5,2 toneladas de resíduos coletados em 2025 e caminha para bater meta histórica no Festival de Parintins

Foto: Mauro Neto/Secom AM

A ação ambiental ‘Recicla Galera’, que ocorre durante a semana do Festival de Parintins, já ultrapassou a marca de 5,2 toneladas de materiais recicláveis coletados apenas em 2025, até a última sexta-feira (27). A meta para este ano é ambiciosa: alcançar 10 toneladas ao longo dos dias de festa. Desde sua criação, em 2022, o projeto já retirou de circulação mais de 22 toneladas de resíduos, contribuindo diretamente para uma cidade mais limpa e sustentável.

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“Em parceria com a iniciativa privada, conseguimos evoluir muito nesse processo, ajudando os catadores, porque só nesse processo são 40 famílias envolvidas. Também conseguimos que as torcidas tivessem esse engajamento, que ao longo dos anos vem crescendo cada vez mais. À medida que o tempo passa, esse ecossistema foi se profissionalizando e se tornando o projeto mais eficiente e fazendo as pessoas perceberem que esse lixo gera renda”, destacou Wilson Lima, governador do Amazonas.

Em sua 4ª edição, o projeto se consolida como referência na gestão adequada dos resíduos sólidos durante grandes eventos, envolvendo diferentes frentes: catadores, torcedores, comerciantes, moradores e visitantes. A ação conta com o apoio da Fundação Rede Amazônica, por meio das máquinas de coleta Retorna Machine, da Ambipar Triciclo, que fazem parte do projeto Consciência Limpa – Recicla Amazônia.

“A proposta das máquinas de coleta seletiva nasce, justamente, da vocação da Fundação Rede Amazônica de atuar de forma responsável, tanto social quanto ambientalmente. A máquina, ajuda e estimula as pessoas a adquirirem ainda mais essa consciência”, destacou Mariane Cavalcante, diretora executiva da Fundação Rede Amazônica.

Leia também: Projeto ‘Parintins para o mundo ver’ conta com transmissão no Amazon Sat; veja a programação

O Recicla Galera opera a partir de um Espaço Sustentável, montado na Praça da Liberdade, que funciona como ponto de entrega e triagem dos recicláveis. No local, também são realizadas atividades de educação ambiental e troca de materiais por brindes, incentivando o engajamento da população.

“Estou achando maravilhoso. É reciclagem, pra cidade não ficar suja, é para receber os turistas e ter uma imagem da nossa cidade maravilhosa, bem limpa. Por isso, nós estamos aqui reciclando e ainda vamos receber o brinde”, destacou Vera Lúcia Alves, comerciante.

Atualmente, cerca de 40 famílias de catadores estão diretamente envolvidas na triagem e comercialização dos resíduos, o que reforça o impacto social do projeto. A mobilização também chega às galeras azul e vermelha, que competem pelo título de Campeão Sustentável — com premiação de R$ 20 mil em investimentos ambientais —, além de bares e pontos comerciais, desafiados a coletar 500 quilos de latinhas e PETs durante a semana.

“Não só veio gerar uma renda a mais para os catadores, mas a quantidade de material que a gente chegou a recolher impressiona. Antes, a gente recolhia em torno de 500 até 800 quilos. Este ano, a meta é 10 toneladas e acredito que a gente já está batendo essa meta. Esse material tem uma destinação correta, gera uma renda para os catadores, e o meio ambiente ganha com isso, a cidade ganha com isso”, destacou Marcivone Casemiro, presidente da Associação de Catadores de Parintins (Ascalpin).

Com impacto ambiental direto, geração de renda para famílias e mobilização comunitária, o Consciência Limpa – Recicla Amazônia, em parceria com o Recicla, Galera, se firmam como um dos pilares sustentáveis do Festival de Parintins, mostrando que grandes eventos também podem ser aliados do meio ambiente.

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Parintins para o mundo ver

O projeto ‘Parintins para o mundo ver’ é realizado pela Fundação Rede Amazônica (FRAM), correalizado pela Rede Amazônica e Amazon Sat, com o apoio de Amazônica Net, Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC), Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC-AM) e Governo do Amazonas.

Dia do Orgulho LGBT+: a jornada de autodescoberta de indígena que saiu do Acre para encontrar a própria identidade

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Ykarunī Costa da Silva Nawa nasceu em Mâncio Lima, no interior do Acre, e luta em Brasília pelos direitos indígenas. Foto: Marcela Jeanjacque

Ykarunī. Um nome com origem em língua indígena que significa ‘pássaro que voa na mata’. Foi esse o nome recebido por um jovem nascido em Mâncio Lima, no interior do Acre, descendente do povo Nawa. O jornalista e antropólogo Ykarunī Costa da Silva Nawa, de 29 anos, é um exemplo de que uma pessoa pode passar por diversas jornadas de autodescoberta durante a vida. Apesar da origem Nawa, sua família imediata não vivia na Aldeia Novo Recreio, de onde vem sua linhagem, e aderiu à fé católica.

Após a infância no catolicismo e a mudança para a capital Rio Branco, em 2009, ele passou a frequentar uma igreja evangélica, que passou a ser seu refúgio religioso. O convívio com as crenças e tradições religiosos formaram boa parte de sua personalidade.

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Neste sábado (28), quando é lembrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, Ykarunī relembra as fases que viveu até se reconhecer como homem homossexual. Foi somente após deixar o Acre, no início de 2015, que ele encontrou uma forma de enxergar melhor esta característica.

A passagem dos anos também levou Ykarunī a abraçar suas raízes enquanto pertencente a um povo originário. Agora, atuando como assessor de comunicação na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), ele também encara um novo papel na valorização da diversidade.

Questionamento e autodescoberta

“Foi todo o processo de primeiro se negar e achar que aquilo tudo era um problema. Que eu tava possuído por algum espírito maligno que estava me conduzindo. E pedir muito a Deus que aquilo fosse extraído do meu corpo. Porque, enfim, eu estava no adoecimento mesmo”, relata.

Foi assim que Ykarunī, que era registrado como José Tarisson, ficou quando passou a se perceber como homem gay.

Nessa época, em meio à autonegação e a busca por uma “solução” religiosa, ele também tinha muito receio de magoar a família. Foi um período de muitas dúvidas e questionamentos.

“Eu acho que o simples processo de viver dentro da igreja e perceber que aquilo não tava sendo alterado, já foi um motivo de perceber que tinha alguma coisa errada, de que a igreja não era o caminho adequado. Pelo contrário, tava me maltratando, me violentando mais. Começou a mudar quando eu entrei na universidade”, relembra.

Para ele, a entrada no curso de comunicação social na Universidade Federal do Acre (Ufac) em 2014 marcou o início do seu percurso de autodescoberta, com o maior acesso à informação. Entretanto, ele ficaria pouco tempo em seu estado natal a partir dali.

Ele voltou a fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e alcançou mais de 900 pontos na redação. Foi aí que o jovem do interior, que viria a ser batizado em alusão ao pássaro que voa longe, viu a chance de alçar voos ainda mais longos.

“Quando eu fui pra Foz do Iguaçu, no Paraná, porque a Unila [Universidade Federal da Integração Latino-Americana], que é a universidade lá, tinha muita discussão de sexualidade, gênero. Foi aí que começou a mudar. Nossa, foi uma transformação de pessoa. E de me aceitar. De me sentir melhor, sabe? Eu me senti realmente muito adoecido por não aceitar isso”, conta.

O então José Tarisson adotou o nome em sua língua materna: Ykarunī, o pássaro que voa sobre a mata. Foto: Ykarunī Costa/Acervo pessoal

Formação e busca pelas origens

Após o interior do Paraná, ele ainda passou por Ceará, Paraíba e Pernambuco, onde se formou em jornalismo. À época, inclusive, o Grupo Rede Amazônica chegou a contar a história do trabalho de conclusão produzido por ele, que contava a história do povo Nawa.

A essa altura, o jovem já havia compartilhado com a família sobre sua orientação sexual, e também estava em busca de uma nova descoberta: de suas origens indígenas.

“Depois que a gente se aceita, tem o movimento de falar com a família. Só que aí no nosso caso, de pessoas indígenas, a gente tem um diferencial. Geralmente as pessoas se assumem pra mãe ou pro pai. A gente se assume pro povo. Principalmente pras lideranças. Fiz também esse movimento de retorno para o próprio território. Eu também precisei conversar com minhas lideranças sobre isso [homossexualidade]. E eu fui super respeitado. Nunca me desrespeitaram”, diz.

Só então ele pôde se sentir completo. A partir desse momento, ele só aprofundou cada vez mais a proximidade com o povo Nawa e com o ativismo pelos povos originários.

No início deste ano, ele conseguiu retificar a certidão de nascimento, com a adoção do nome Ykarunī, que lhe foi dado por uma líder também Nawa. A conquista foi obtida por meio de uma ação da Defensoria Pública da União (DPU), com apoio do governo do Acre, que garantiu a indígenas que vivem na região da Serra do Divisor o nome em língua materna.

“O fato de eu ter ido pra fora [do estado] me fez ver outros mundos possíveis. E perceber que o mundo que eu tava vivendo, era um mundo que eu não cabia. Mas que existiam outros mundos. E que eu cabia nesses outros mundos. Então foi muito isso. Morar fora, perceber a existência de outros mundos”, acrescenta.

Leia também: Futebol ‘queer’ na Amazônia: times LGBTQIA+ do Pará lutam por reconhecimento

Orgulho e dever

Superando as amarras das quais se desenlaçou ao longo da vida, Ykarunī, como um pássaro inquieto, seguiu voando. Além do orgulho, por ter se conectado consigo mesmo, ele também enxerga um dever de contribuir.

“Eles sempre me respeitaram. E hoje eu faço parte das lutas. Estou em Brasília como ponto focal do povo. Então, a partir daqui eu realizo diálogos. Eu acho que eu crio uma outra dinâmica na situação. Não só envolvendo o território. Porque aí, é um parente que é LGBT, e que está no território, mas tem abertura para estar nas principais pautas”, enfatiza.

*Por Victor Lebre, da Rede Amazônica AC

Arraiá do Povo reúne os três principais festivais juninos do Amapá; saiba quais

O arrasta-pé do Arraiá do Povo 2025 na Cidade Junina, em Macapá (AP), acontece no Corpo de Bombeiros Militar (CBM) do bairro São Lázaro, na Zona Norte, e conta com uma programação gratuita. Este ano são mais de 60 apresentações de grupos quadrilheiros de municípios de todo o estado em três festivais juninos.

Leia também: Saiba quais projetos do Arraiá Amazônico unem cultura e inclusão no Amapá

O Governo do Estado reúne em um único espaço o 6º Festival Municipal Sandro Rogério, promovido pela Liga Junina de Macapá (Ligajum); o 7º Forrozão do Primo Sebastian, organizado pela Federação das Entidades Juninas e Folclóricas do Amapá (Fejufap); e o 16º Arraiá no Meio do Mundo, realizado pelo Instituto Sociocultural Arraiá no Meio do Mundo (Fefap). Confira:

Arraiá Amazônico

O Arraiá Amazônico é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM) em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA-Amapá), Associação Casa da Hospitalidade, Lar Betânia – Casa da acolhida Marcello Candia; e apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Amapá (Secult), Governo do Amapá e Tratalix Serviços Ambientais.

Quem são as Majés? Caprichoso homenageia mulheres da floresta no Festival de Parintins 2025

Foto: Matheus Castro/Rede Amazônica AM

Os bois-bumbás levam, todos os anos, para a arena do Bumbódromo, elementos regionais, lendas e características típicas da Amazônia. Em 2025, o Boi Caprichoso homenageou as majés: mulheres da floresta no Festival Folclórico de Parintins em sua primeira noite, nesta sexta-feira (27).

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A Rainha do Folclore do Boi Caprichoso, Cleise Simas, foi quem se transformou em uma majé durante sua apresentação. Mas quem são as majés?

O bumbá explica que elas são mulheres da floresta, detentoras de saberes milenares, curadoras e contadoras das histórias do povo e da natureza. São elas que, com gestos, rezas, puxadas e palavras, transmitem sabedoria que brota das raízes da mata e do ventre da própria terra.

Para o ‘Tempo de Retomada’, o Caprichoso as defende como Figura Típica Regional. “Em cada conselho e palavra de afago, em cada costela ‘desmentida’, em cada puxada e repuxada oriunda do conhecimento ancestral e milenar, mora o saber das Majés — as senhoras da cura”, destaca o bumbá azulado.

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“Na primeira noite, ‘AMYIPAGUANA: RETOMADA PELAS LUTAS’, traremos de volta nossas crenças originárias, desfazendo o trabalho do colonizador sobre nossas deidades e sobre nossos povos originários e comunidades tradicionais. É a retomada do “Legislador”, livre da imagem demoníaca imputada por missionários cristãos; é o sopro de cura das majés; é a retomada da verdadeira face da antropofagia: o massacre promovido contra os Tupinambá por Mem de Sá, na chamada “batalha dos nadadores”, também chamada de ‘massacre dos cururupe'”, descreve o Conselho de Arte do Boi Caprichoso na edição de apresentação do projeto de 2025.

O Festival segue até o domingo (29). O Caprichoso abre as duas próximas noites de apresentações.

Garantido relembra toada dos anos 90 e faz apelo pela Amazônia no Festival de Parintins

Garantido abre festival com clássico dos anos 90 e mensagem pela floresta amazônica. Foto: Matheus Castro/Rede Amazônica AM

O levantador de toadas do Boi Garantido, David Assayag, levou a galera encarnada ao delírio ao interpretar a toada ‘Lamento de Raça’ durante a apresentação do bumbá na primeira noite do Festival de Parintins, nesta sexta-feira (27).

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O momento marcou o início da apresentação do Garantido, que aposta na identificação identitária para conquistar o 33º título.

A toada, dos anos 90, ficou conhecida pelo apelo à preservação da Amazônia e por fazer um chamado contra o desmatamento ilegal do bioma.

Durante a apresentação, o apresentador Israel Paulaim também fez um apelo sobre a COP-30, que será realizada em Belém (PA), neste ano: “Que o que seja discutido ali torne-se algo concreto em defesa do povo da Amazônia”.

O Garantido defende o tema “Boi do povo, boi do povão”, celebrando suas raízes populares, em 2025.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é a COP 30?

*Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

Contrato para elaboração do projeto de ampliação do Bumbódromo é assinado em Parintins

Projeto do novo Bumbodrómo de Parintins. Foto: Alex Pazuello/Secom AM

O Governo do Amazonas, a Prefeitura de Parintins e o Ministério do Turismo assinaram um contrato para a confecção do projeto de ampliação do Bumbódromo da cidade. A assinatura aconteceu durante o intervalo entre as apresentações dos bois Caprichoso e Garantido na primeira noite do 58° Festival Folclórico de Parintins.

Leia também: 8 curiosidades sobre o Bumbódromo, a arena do Festival de Parintins

Segundo o governador Wilson Lima, os projetistas devem chegar a cidade de Parintins logo após a realização do festival, onde devem dar início a confecção do projeto.

“Terminou o festival, os projetistas já desembarcam aqui no município de Parintins para construir todo esse material. A próxima etapa é apresentar para Parintins, prefeitura, Câmara de Vereadores, aos bois bumbás Caprichoso e Garantido, aos artistas e abrir a consulta pública para a população. Depois de superada essas etapas, fechamos definitivamente o projeto de como será o novo Bumbódromo”, disse o governador Wilson Lima.

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Participaram da solenidade o ministro do Turismo, Celso Sabino; o prefeito de Parintins, Matheus Assayag; o presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado estadual Roberto Cidade; e vereadores do município, além de secretários de estado.

O projeto executivo será desenvolvido pela empresa vencedora da licitação, realizada em abril deste ano. O governador Wilson Lima havia anunciado o projeto em junho de 2024. O investimento estimado na elaboração do projeto é de R$ 7,6 milhões, contemplando uma área de 40.116,89 metros quadrados.

A proposta prevê a utilização da tecnologia BIM (Building Information Modeling), que permitirá um planejamento mais preciso e eficiente da obra.

Governo, Prefeitura de Parintins e Ministério do Turismo assinam contrato para confecção do projeto de ampliação do novo Bumbódromo. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM

O projeto inclui maquete eletrônica, planilha orçamentária, relatórios técnicos, cronogramas físico-financeiros e soluções de sustentabilidade e planejamento ecológico. Todo o trabalho deve atender às exigências legais, incluindo o Programa de Integridade, conforme determina a Lei Estadual nº 4.730/2018.

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Entre as próximas etapas previstas estão o início da elaboração do projeto executivo em julho de 2025 e, posteriormente, a realização da licitação da obra, com previsão para 2026. A reforma e ampliação do Bumbódromo se tornam cada vez mais necessárias diante do crescimento do festival, que ano após ano atrai público recorde e maior visibilidade nacional e internacional.

Ainda durante a coletiva de anúncio, o Governo do Amazonas revelou os troféus que devem ser entregues para o boi-bumbá que se sagrar campeão da 58ª edição do Festival Folclórico de Parintins.

*Por Patrick Marques, da Rede Amazônica AM

Pobres também escravizavam indígenas no Vale do Madeira

Selfridge Jr. mediu a extensão do Rio Madeira, principal afluente do Rio Amazonas. Arte: Divulgação

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

O então povoado de Santo Antônio do Rio Madeira — hoje parte de Porto Velho (RO) — localizava-se na margem leste do Rio Madeira, a 661 milhas da foz, segundo medição feita em 1879 sob a supervisão do comandante Thomas Oliver Selfridge Jr. (1836–1924), da Marinha dos Estados Unidos. À frente do navio Enterprise, ele liderava uma missão para investigar e mapear a região amazônica.

“Situados quase inteiramente nos trópicos, os rios Amazonas, Negro e Madeira compõem a mais perfeita rede hidrográfica de qualquer país do mundo”, escreveu Selfridge, que mais tarde se tornaria almirante.

Durante a primeira tentativa de construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o comandante fez registros detalhados sobre aspectos econômicos, sociais e demográficos da região, que era considerada “escassamente habitada”. De acordo com o censo oficial de 1875, o Pará tinha menos de 12 mil habitantes, o Amazonas cerca de 30 mil e o Mato Grosso, 60 mil. Os dados excluíam a população indígena, que não era contabilizada. Em média, havia apenas um habitante para cada 72 milhas quadradas.

Até a introdução da navegação a vapor no Amazonas, em 1854, a comunicação entre o Pará e o interior era esporádica, feita por pequenos veleiros que levavam até seis meses para completar o percurso.

Segundo Selfridge, apenas 25 anos antes o rio Madeira era povoado quase exclusivamente por “índios selvagens”. Em 1749, uma grande expedição portuguesa foi enviada de Belém rumo às minas de Mato Grosso, pelo rio Guaporé, passando pelo Madeira.

Arte: Divulgação

O ‘Boom’ da borracha e os ‘brasileiros preguiçosos’

O que impulsionou a colonização do Vale do Madeira foi a qualidade superior da borracha nativa e sua crescente demanda mundial. “Com base nas melhores informações que consegui reunir, há atualmente cerca de 12 mil pessoas às margens do Rio Madeira — incluindo portugueses, brasileiros, negros e índios domesticados — todos envolvidos na produção de borracha”, afirmou o comandante.

Selfridge avaliava que dificilmente haveria crescimento populacional se o preço do látex não aumentasse significativamente para “estimular os brasileiros preguiçosos a ampliar sua produção”.

Segundo ele, a ocupação da região se estendia por até 15 milhas a partir do rio, com estradas rudimentares que levavam às seringueiras. Para ampliar a produção, os nativos precisavam adentrar o interior da floresta — o que gerava temor de ataques indígenas e exigia esforços físicos que, nas palavras do comandante, “eram evitados pelo brasileiro indolente”.

Indígenas: cativeiro

Até meados do século 19, a população do Madeira era composta majoritariamente por povos indígenas — especialmente das etnias Mura e Caripuna — que viviam da caça, ainda que esta fosse escassa.

No entanto, a presença dos colonizadores mudou a dinâmica local. Selfridge relata que não eram apenas os investidores, seringalista e donos de embarcavas que tinham o ímpeto escravocrático. Ele afirma que, “em cada cabana de um trabalhador brasileiro, há uma ou mais famílias indígenas que, embora aparentemente livres, realizam tarefas como buscar água e cortar lenha”. Isso revela que também os pobres submetiam indígenas à servidão, em um tipo de cativeiro informal e não legalizado.

O termo “tapuia” era utilizado para se referir a indígenas de etnia desconhecida no Baixo Amazonas, os quais, segundo o comandante, eram “industriosos e inteligentes”. Eram preferidos como tripulantes dos vapores da região, em detrimento de brancos ou negros. “As meninas se destacam como serviçais, são hábeis com a agulha e frequentemente criadas desde a infância nas casas de brasileiros das elites”.

Selfridge descreve os povos originários do Madeira como “muito superiores, em aparência, aos nossos índios norte-americanos”, elogiando sua disposição em adotar os costumes europeus, seu cuidado com a higiene e “a beleza singular das mulheres”.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista