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1° do Norte: autor amapaense Gian Danton recebe principal título dos quadrinhos no país

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Gian Danton é o pseudônimo de Ivan Carlo Andrade, que se tornou o primeiro quadrinista da região Norte a receber o título de Mestre do Quadrinho Nacional. Foto: Divulgação

O quadrinista de obras premiadas do Amapá, Gian Danton, pseudônimo de Ivan Carlo Andrade, tornou-se o primeiro da região Norte a receber o título de Mestre do Quadrinho Nacional. A categoria é a mais importante do Prêmio Angelo Agostini, considerado o mais antigo dedicado aos quadrinhos no Brasil.

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A premiação reconhece o conjunto da obra e a contribuição do autor para o desenvolvimento do setor e para a formação de novos artistas. Ao Grupo Rede Amazônica, Gian explicou a importância e os critérios da honraria:

“O prêmio reconhece o conjunto da obra, não um trabalho específico, e segue critérios como tempo de produção e contribuição para novos artistas. Para mim, é uma alegria enorme receber essa honraria, que representa o ápice da carreira de quem trabalha com quadrinhos no país”.

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Representatividade para o quadrinho amazônico

A conquista também marca um avanço para a produção da Amazônia, que historicamente enfrenta dificuldades para a visibilidade no cenário nacional. Danton destacou o impacto simbólico de ser o primeiro nortista a receber o título.

“Sou a primeira pessoa da região Norte a receber esse prêmio, o que já mostra a importância desse reconhecimento. Durante muito tempo, o quadrinho amazônico não era visto, não ganhava prêmios e quase não chegava ao Sul e Sudeste. Agora estamos conseguindo romper essa bolha e mostrar que a Amazônia produz quadrinhos de excelente qualidade”, contou Gian.

Com mais de 30 anos de carreira, Danton relembra o início da trajetória em Belém, em 1989, quando a produção de quadrinhos era ainda mais difícil para quem vivia fora do eixo Sul-Sudeste. Ele descreve um cenário sem internet, com comunicação lenta e poucas oportunidades.

“Comecei a fazer quadrinhos em 1989, em Belém, numa época sem internet. Tudo era feito por carta, o que tornava o processo muito difícil — desde conseguir material até enviar trabalhos para editoras. Mesmo hoje, com internet e redes sociais, ainda existem desafios. No Norte, não temos as mesmas facilidades do Sudeste”, explicou o autor.

Ilustrações que dão vida à história contada por Gian Danton. Foto: Divulgação

Apesar disso, ele afirma que a cena local evoluiu e cita exemplos de produções de qualidade feitas no Amapá.

“Tenho visto publicações impressionantes feitas aqui mesmo, como as do Coletivo AP Quadrinhos. Os artistas estão se profissionalizando, algo que antes era mais raro”.

Obras marcantes de Gian Danton

Danton também destacou dois trabalhos que considera fundamentais em sua trajetória. O primeiro é MSP +50, álbum comemorativo dos 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, do qual participou como um dos 50 artistas selecionados.

“Participar do MSP +50 foi como ser convocado para a seleção na Copa do Mundo”, expressou.

‘Manticore’, quadrinho de terror escrito por Gian Danton. Foto: Divulgação

O segundo é Manticore, obra de ficção científica e terror produzida com artistas de Curitiba (PR). A história se destacou por apostar em uma narrativa ambientada no Brasil.

“Naquele período, muitos artistas queriam imitar o estilo norte-americano. Nós fizemos o contrário: criamos um quadrinho ambientado no Brasil, em lugares reais. Isso teve grande impacto e fez de Manticore uma das histórias mais premiadas do país por mais de uma década”, contou.

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Ao falar sobre formação de novos quadrinistas — um dos critérios do prêmio — Danton reforça a importância da persistência. Ele lembra que, no início da carreira, quase tudo conspirava para que desistisse, mas a insistência fez diferença.

“O conselho que eu dou aos novos artistas é: não desistam. Quando comecei, tudo era muito difícil. Hoje existem redes sociais e internet, que facilitam a divulgação. Se ainda não for possível imprimir, publique online, mostre seu trabalho e conquiste público até conseguir lançar suas obras”, contou o autor.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Atlas da Bioeconomia Inclusiva revela panorama de dados das diversas regiões da Amazônia

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Atlas da Bioeconomia revela dados da Amazônia. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa Amazônia Oriental

Dados do  Atlas da Bioeconomia Inclusiva na Amazônia, publicação lançada pela Embrapa, com o apoio da Secretaria de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, evidenciam informações que mostram um panorama da região amazônica, sob diversos aspectos, que destacam a diversidade de condições socioeconômicas e ambientais nos contextos rurais da Amazônia Legal brasileira. 

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O atlas sistematizou dados sobre demografia, ambiente, estrutura fundiária e produção para subsidiar políticas voltadas ao uso sustentável da biodiversidade.

São “informações valiosas para a compreensão das complexas realidades dos territórios amazônicos”, como resume o editor técnico da obra, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Roberto Porro, citando que o Atlas compila mais de 1.200 variáveis de fontes secundárias em quatro dimensões:

  • demografia e meio ambiente;
  • estrutura agrária/categorias territoriais;
  • produção agropecuária, da extração vegetal e silvicultura;
  • e indicadores sociais.
Atlas da Bioeconomia Inclusiva revela panorama de dados das diversas regiões da Amazônia
Biodiversidade alturas floresta amazônica. Foto: Cecília Bastos/USP

Os dados do atlas são apresentados nos níveis regional, estadual e microrregional. “A obra adota uma abordagem territorial para a apresentação de dados, tendo como referência a diversidade de contextos expressos na extensão geográfica mais ampla associada à Amazônia, que é a Amazônia Legal Brasileira, abrangendo 107 microrregiões geográficas delimitadas pelo IBGE nos nove estados que a compõem”, explica Porro.

O coordenador geral de Desenvolvimento da Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, William Saab, afirma que o Atlas vem em um momento muito oportuno de ampliação e fortalecimento das sociobioeconomias amazônicas.

O atlas, segundo ele, se alinha e serve como base para duas políticas públicas do governo brasileiro, o Plano Nacional de Desenvolvimento da Sociobioeconomia e o Programa Prospera Socioebioeconomia, ambos lançados durante a COP30, em Belém.

“O Atlas é um importante instrumento de planejamento para gestores públicos e vai ajudar no impulsionamento de políticas públicas.  É uma grande entrega que a Embrapa faz para a sociedade brasileira”, finaliza o gestor.

As “Amazônias” e suas realidades

Numa comparação dos dados presentes no documento, por exemplo, em relação aos dois maiores estados da região, o Amazonas e o Pará, o Atlas da Bioeconomia Inclusiva na Amazônia revela que a concentração fundiária e a vulnerabilidade social em ambos os estados são desafios a serem enfrentados para o fortalecimento de modelos econômicos sustentáveis, essenciais para mitigar a crise climática.

Mudanças no clima da floresta tropical: qual o impacto na Amazônia Legal?
Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Chamam a atenção dados que mostram, por exemplo, a pressão de desmatamento no Pará e o crescente avanço da fronteira agropecuária em áreas antes conservadas do Amazonas, estado com maior cobertura florestal do País. Ao mesmo tempo, Amazonas e Pará apresentam oportunidades de bioeconomia com base em seus diversos potenciais, refletindo suas realidades territoriais e econômicas e uso sustentável da biodiversidade.

Um dos principais propósitos do Atlas da Bioeconomia Inclusiva na Amazônia é apresentar a diversidade de realidades socioeconômicas e ambientais existentes nos contextos rurais da Amazônia brasileira, por meio da sistematização de vários conjuntos de dados e informações, assim como  subsidiar estratégias, planos, programas e políticas orientadas a uma agenda de ação em prol da bioeconomia inclusiva na região, conforme explica, na apresentação da obra, a diretora de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Euler. 

Leia também: Atlas da Bioeconomia apresenta dados de 107 microrregiões da Amazônia Legal

A intenção é que essa agenda de ação “se traduza em oportunidades para a promoção da inovação, com valorização das economias da floresta e da sociobiodiversidade, e ampliação da participação nos mercados, com reflexos na renda e na qualidade de vida das populações amazônidas”, escreveu Euler. 

A publicação é fruto de ações e diagnósticos realizados por profissionais de nove Unidades da Embrapa na região Norte e no Maranhão, nos últimos três anos, para a construção de um plano estratégico para atuação da Empresa em uma abordagem de bioeconomia inclusiva na Amazônia. O momento atual de definição de políticas públicas e ações multissetoriais relacionadas à sociobiodiversidade na Amazônia, segundo Roberto Porro, evidencia a necessidade de fortalecer sistemas produtivos eficazes no enfrentamento à crise climática e na promoção de meios de vida locais. 

floresta amazônica no pará
Foto: Agência Brasil

Ações voltadas à bioeconomia inclusiva são capazes de apoiar os modos de vida de 1,5 milhão de famílias de agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais que habitam a Amazônia brasileira.

“Buscamos uma bioeconomia inclusiva fundamentada no uso sustentável da biodiversidade a partir dos saberes tradicionais e no diálogo entre esses saberes e os conhecimentos científicos e tecnológicos, que promova o desenvolvimento inclusivo, justiça social e o bem-viver dos povos amazônicos”, afirma Porro.

A pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus-AM), Rosângela Reis, faz parte da equipe que colaborou com essas ações e destaca que o processo foi importante para conhecer as realidades socioculturais e ecológicas das comunidades amazônicas, que são muito diversas. 

“As oficinas de bioeconomia realizadas no estado do Amazonas tiveram o objetivo de levantar as realidades locais dos sistemas produtivos e as potencialidades para o desenvolvimento de projetos na área de bioeconomia. Para a região não basta apenas levar tecnologias para o desenvolvimento, é necessário conhecer os processos sociais para a adaptação das mesmas e assim fazer sentido no cotidiano das famílias e nos processos de crescimento e desenvolvimento local“, comentou.

Oportunidades em bioeconomia

O Amazonas é o estado mais conservado da região, com 93,22% de cobertura florestal. Essa natureza rica em biodiversidade é um importante ativo para  a bioeconomia. Para isso é necessário viabilizar projetos e atrair investimentos para pesquisa e desenvolvimento (P&D), a partir de espécies nativas e uso da biodiversidade. Nesse sentido, uma oportunidade está também nas iniciativas com potencial de incentivar a prospecção e transformação de ativos da biodiversidade em produtos de alto valor agregado, como insumos farmacêuticos ativos e biocosméticos, entre outros.

Floresta Nacional de Carajás (PA). Foto: João Marcos Rosa

O Pará, por outro lado, se destaca pelo volume de produção de espécies nativas. O estado tem um domínio na produção do açaí (extrativista e cultivado) e do cacau cultivado. Uma das oportunidades para o Pará reside no manejo sustentável de suas Reservas Extrativistas (Resex) e fortalecer suas cadeias produtivas. 

Entre as informações do documento, é considerado que a efetiva descontinuidade de desmatamentos e queimadas na Amazônia depende do aproveitamento parcial das áreas desmatadas, inserindo atividades produtivas adequadas e da recuperação de áreas.  Nesse contexto, ações voltadas para o  fortalecimento de sistemas produtivos pautados no uso sustentável da biodiversidade, que promovam justiça social para as populações locais fazem parte dos desafios para promover a bioeconomia inclusiva.

Leia o Atlas da Bioeconomia Inclusiva na Amazônia na íntegra abaixo:

*Com informação da Embrapa Amazônia Oriental

Abate de búfalos: como será teste para erradicar 5 mil animais invasores em área remota da Amazônia

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Espécie asiática sem predadores naturais, búfalos ameaçam espécies nativas e já destruíram buritizais inteiros em Rondônia. Foto: Acervo NGI Cautário-Guaporé

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vai iniciar uma pesquisa piloto que promete ser um passo crucial na luta contra os impactos ambientais causados por mais de 5 mil búfalos selvagens que se reproduzem sem controle e são alvos de uma ação judicial milionária em Rondônia. A ação prevê o abate de aproximadamente 500 animais, equivalente a 10% do rebanho.

Essa reportagem foi produzida através de uma visita exclusiva do Grupo Rede Amazônica no local. A equipe viu de perto os rastros de destruição causados pela presença dos animais invasores.

Os búfalos são nativos da Ásia e chegaram em Rondônia em 1953 como parte de um projeto do governo estadual voltado para o comércio de carne e leite. A ideia fracassou e os animais foram abandonados se reproduzindo livremente dentro de unidades de conservação.

Leia também: Quase 5 mil búfalos selvagens vivem sem monitoramento em reservas indígenas de Rondônia

Atualmente, os animais vivem entre a Reserva Biológica (Rebio) Guaporé, a Reserva Extrativista (Resex) Pedras Negras e a Reserva de Fauna (Refau) Pau D’Óleo, no oeste de Rondônia, uma região de encontro entre três biomas: a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado.

“É um ambiente único, com várias espécies endêmicas [nativas] e a presença do búfalo vai levar à extinção de várias delas. Algumas espécies que a gente só tem registros aqui, sejam elas residentes ou migratórias”, explica o biólogo e analista ambiental do ICMBio, Wilhan Cândido.

Como o problema se arrasta há décadas sem solução, especialistas reforçam que algo precisa ser feito com urgência. O Ministério Público Federal (MPF) aponta que se nenhuma solução eficaz for colocada em prática, a população de búfalos pode chegar a 50 mil cabeças nos próximos cinco anos.

O analista Wilhan Cândido reforça que o abate dos búfalos é, no momento, a única alternativa viável para resolver a questão. Como a região é isolada e de difícil acesso, não existe logística possível para retirar os animais vivos ou mortos. Além disso, como se desenvolveram sem controle sanitário, sua carne não pode ser aproveitada.

“Ou a gente opta pelas nossas espécies nativas ameaçadas de extinção da localidade ou a gente vai ficar com a espécie exótica invasora e só ela”, comenta Wilhan.

"Cemitério" de buritis em Rondônia
“Cemitério” de buritis em Rondônia. Foto: Vinicius Assis/Rede Amazônica RO

Pensando nisso, o instituto desenvolveu uma pesquisa que envolve três frentes:

  1. o próprio instituto como gestores da área e responsáveis pela logística;
  2. a Universidade Federal de Rondônia com os pesquisadores que vão analisar a sanidade dos animais abatidos;
  3. e uma empresa especializada que se voluntariou para fazer o abate.

“A gente vai abater os animais para saber como a gente chega até eles, qual a nossa capacidade de abate e o que acontece quando a gente deixa essas carcaças lá”, explica.

Desde o início de 2025, o ICMBio coleta amostras de água na área ocupada. O objetivo é analisar a qualidade, antes e depois do abate. Também existem outras perguntas que eles querem responder com a pesquisa:

  • Tem animais que consomem as carcaças?
  • Isso vai beneficiar alguma espécie ou vai prejudicar?
  • As carcaças vão provocar a morte de espécies nativas?

“Nós vamos instalar câmeras traps em uma porcentagem das carcaças abatidas e vamos monitorar se a fauna nativa está chegando lá. Após campanha de controle, a gente vai fazer campanhas de campo, para monitorar e levantar e ver se não está tendo impacto na fauna nativa”, explica o analista.

Os pesquisadores da Unir vão coletar materiais em 15% dos animais abatidos e levar para análise em laboratório.

Danos ambientais

Como não são nativos do Brasil, os búfalos não possuem predadores naturais que controlem sua população. Soltos, provocam graves impactos ambientais, ameaçando espécies da fauna e da flora. Entre os animais mais afetados está o cervo-do-pantanal, considerado vulnerável à extinção.

“Eu passei 10 dias andando aqui embaixo, levantando o drone, filmando. A gente não tem um único registro de cervo junto com o búfalo. Eles [os búfalos] estão empurrando e confinando os cervos em determinados pontos”, explica Wilhan Cândido.

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Cervo-do-pantanal em Rondônia
Cervo-do-pantanal. Foto: Vinicius Assis/Rede Amazônica RO

Mas como isso ocorre? 

Os búfalos são animais grandes e pesados: podem medir quase dois metros de altura e pesar mais de meia tonelada. Com esse porte, eles pisoteiam e destroem a vegetação que serve de alimento para os cervos-do-pantanal.

Além disso, os gigantes têm um comportamento peculiar: andam sempre em filas indianas. Os trajetos que eles fazem acabam se tornando canais que desviam a água do seu curso natural.

Um dos principais objetivos da criação da Rebio Guaporé é a proteção dos campos naturalmente alagados, que fazem parte da biodiversidade local. As lagoas se formam nas áreas mais baixas a partir da água da chuva ou dos rios que atravessam a reserva. No entanto, as trilhas abertas pelos búfalos acabam formando canais que desviam a água para outras regiões.

Outro problema é a compactação do solo. Em alguns trechos, principalmente próximos a lagos, já é possível observar áreas que “afundaram” cerca de um metro. As árvores ficam com raízes expostas e morrem, restando apenas vegetação rasteira ou, em certos pontos, o solo completamente deserto.

Analista do ICMBio mostra onde deveria estar o solo compactado por búfalos em Rondônia.
Analista do ICMBio mostra onde deveria estar o solo compactado por búfalos em Rondônia. Foto: Vinicius Assis/Rede Amazônica RO

Leia também: Atlas reúne pesquisas sobre doenças de búfalos no Brasil

Em visita exclusiva ao local, a equipe da Rede Amazônica registrou um verdadeiro “cemitério” de buritizais: árvores que morreram em razão da presença dos búfalos.

Os buritis, adaptados às áreas úmidas, perderam a capacidade de reter água devido à presença dos búfalos, que compactam o solo, abrem canais de drenagem e destroem as mudas, acelerando a seca e impedindo a regeneração da vegetação; como resultado desse processo de degradação, em 2024 ocorreu pela primeira vez um incêndio intenso o suficiente para queimar até o solo.

“A gente estimava de 70 a 100 anos para recuperar a área. Mas se a gente não tirar o principal fator de impacto, que é o búfalo, eu acho que essa área não volta a ser aquele buritizal”, comenta Wilhan.

No local, também foram encontradas diversas carcaças de animais, provavelmente vítimas de caça ilegal. “A presença dos búfalos funciona como um vetor de caça para a região. O caçador vem para caçar o búfalo e vê outras espécies nativas. Em diversas operações de fiscalização para combate à caça, nós pegamos caçadores com uma grande quantidade de búfalo, mas com várias espécies nativas: cervo, jacaré, tatu, o que eles encontram”, comenta o analista ambiental.

Ação judicial

Essa pesquisa ocorre em paralelo a uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), que busca obrigar o ICMBio e o Estado de Rondônia a implementar medidas urgentes voltadas ao controle do búfalo asiático.

Em 24 de novembro, o juiz Frank Eugênio Zakalhuk reconheceu a gravidade do problema ambiental e o risco de que a situação piore com o crescimento acelerado da população de búfalos. No entanto, considerou que não seria adequado ordenar imediatamente o abate dos animais.

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Foi determinado que o ICMBio, em conjunto com o Estado de Rondônia, elabore e apresente um plano de controle e erradicação do búfalo asiático em três meses.

Esse plano deve seguir normas já existentes, incluir metodologia científica, avaliar riscos e impactos ambientais, prever medidas de segurança, cronograma, custos e indicar o destino dos animais e carcaças.

Segundo o ICMBio, a pesquisa que eles já estão fazendo não vai travar ou influenciar de forma negativa na decisão. Ambos podem ocorrer simultaneamente. O órgão aponta que os resultados da pesquisa poderão fornecer subsídios técnicos e científicos para embasar a estratégia que deve ser entregue à Justiça.

Na ação, o MPF pede também que o Estado pague uma indenização de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, a ser destinada a ações de reflorestamento nas unidades de conservação estaduais e federais em Rondônia.

*Por Jaíne Quele Cruz e Vinicius Assis, da Rede Amazônica RO

Bois de Parintins se apresentam em especial de natal no Rio de Janeiro

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Foto: Divulgação/ Prefeitura do Rio de Janeiro

Os Bois-bumbás de Parintins ganham destaque nacional neste domingo (21) ao integrarem a programação da Árvore de Natal da Lagoa, no Rio de Janeiro. Os bois Caprichoso e Garantido se apresentam na Lagoa Rodrigo de Freitas, na altura do espaço Lagoon, em um espetáculo que leva ao público carioca elementos centrais de uma das mais conhecidas manifestações culturais da Região Norte do Brasil.

A apresentação faz parte das atividades culturais promovidas durante o período natalino na capital fluminense e tem entrada gratuita.

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O show dos Bois de Parintins está previsto para as 20h30 e encerra a programação do fim de semana no local. Antes da apresentação, o público acompanha a montagem de “Ópera do Malandro”, encenada por José Loreto, no palco Petrobras, também instalado na área da Lagoa.

A inclusão dos bois-bumbás amazônicos na agenda do evento amplia o alcance da programação natalina e insere no cenário urbano do Rio de Janeiro expressões culturais tradicionalmente associadas ao estado do Amazonas.

Reconhecidos nacionalmente pelo espetáculo apresentado anualmente no Festival Folclórico de Parintins, Caprichoso e Garantido dividem o protagonismo do evento carioca. As duas agremiações são responsáveis por mobilizar milhares de pessoas todos os anos no município de Parintins, no Amazonas. No festival, realizado sempre no fim do mês de junho, os bois se apresentam em noites alternadas no Bumbódromo, em uma disputa marcada por música, dança, alegorias e narrativas inspiradas na cultura amazônica.

Leia também: Ilha da Magia: confira 7 curiosidades sobre Parintins

Bois de Parintins
Foto: Arthur Castro e Alex Pazuello/Secom AM

No Rio de Janeiro, a apresentação dos Bois de Parintins ocorre em formato especial, adaptado ao espaço da Lagoa Rodrigo de Freitas. O espetáculo reúne itens característicos das duas agremiações, como toadas, coreografias e elementos cênicos que fazem referência às apresentações tradicionais do festival. O objetivo é apresentar ao público de outras regiões do país um recorte do que é exibido no Bumbódromo, respeitando as características do evento natalino e do espaço ao ar livre.

A participação dos bois na Árvore de Natal da Lagoa estava inicialmente programada para um fim de semana anterior, mas precisou ser remarcada. A mudança ocorreu em razão de problemas no transporte aéreo nacional, causados por uma tempestade em São Paulo, que registrou ventos próximos de 100 km/h. O fenômeno climático provocou o cancelamento de centenas de voos em todo o país, impactando diretamente o deslocamento de artistas e equipes técnicas envolvidas na apresentação dos Bois de Parintins.

Temporada Bovina dos Bois de Parintins

A apresentação no Rio acontece em um período que antecede o início da chamada temporada bovina, fase em que as agremiações intensificam suas atividades em preparação para o festival em Parintins. Tradicionalmente, essa temporada começa em fevereiro e inclui ensaios semanais, eventos temáticos e apresentações públicas. Esses encontros funcionam como preparação artística e também como forma de mobilização das torcidas, conhecidas como galeras, que acompanham de perto cada etapa do processo.

Leia também: Carnaboi: o início da temporada bovina no Amazonas

Assim, a expectativa em torno do festival também se manifesta em apresentações fora do Amazonas, como a realizada no Rio de Janeiro, que contribuem para ampliar a visibilidade dos Bois de Parintins no cenário cultural nacional. A presença em eventos de grande porte fora da região Norte tem sido uma estratégia recorrente para difundir a cultura amazônica.

Ao longo dos últimos anos, os bois já participaram de programações culturais em capitais como São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, além de eventos internacionais. Essas apresentações costumam adaptar o formato tradicional do festival, mantendo elementos essenciais das encenações realizadas em Parintins.

Em adaptação acelerada, o invasor mexilhão-dourado chega à Amazônia e preocupa cientistas

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Espécie invasora mexilhão-dourado, que tem de 2 a 22 mm de comprimento, e que preocupa cientistas. Foto: Reprodução/Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina

A invasão crescente do mexilhão-dourado na Amazônia acaba de ganhar seus primeiros dados científicos qualiquantitativos. A espécie invasora Limnoperna fortunei, popularmente conhecida como mexilhão-dourado, foi registrada pela primeira vez no rio Tocantins, em 2023, e desde então tem despertado grande preocupação entre pesquisadores, órgãos ambientais e comunidades ribeirinhas. 

O novo estudo, intitulado ‘Golden but not precious: first quali-quantitative data on golden mussels bioinvasion in the Amazon‘, publicado na Acta Limnologica Brasiliensia, traz as primeiras análises populacionais da espécie na região e revela um cenário de dispersão acelerada e de forte potencial de impacto ecológico e socioeconômico na região. 

Leia também: Espécies amazônicas invasoras causam prejuízo mundo afora

O molusco, originário do sudeste asiático, chegou à América do Sul provavelmente no início da década de 1990, por meio da água de lastro de navios mercantes, e rapidamente encontrou nas águas brasileiras condições favoráveis para a sua expansão.

“O registro do mexilhão-dourado na Amazônia é considerado relevante e alarmante devido aos severos impactos socioeconômicos e ambientais que a espécie ocasiona. Modelos de dispersão indicavam alto risco de invasão da bacia amazônica apenas a partir da década de 2030, com consolidação na década de 2050. O fato de já termos encontrado a espécie no rio Tocantins em 2023 destaca um potencial de proliferação muito mais acelerado do que se imaginava”, afirma o engenheiro de pesca Rafael Anaisce das Chagas, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal do Pará e que atua como pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (CEPNOR/ICMBio), e autor principal do artigo. 

As amostragens que subsidiaram o novo estudo ocorreram em outubro de 2024, em três pontos sobre o Pedral do Lourenço, uma formação rochosa entre as cidades de Marabá e Tucuruí, no Pará. As coletas consistiram na raspagem das superfícies colonizadas, seguida de conservação das amostras em laboratório para identificação morfológica e análise genética. A equipe também realizou medição dos indivíduos e estimativas de densidade populacional, um dos principais indicadores do estágio de estabelecimento da espécie.

Invasão acelerada do mexilhão-dourado é alerta

mexilhão-dourado
Mexilhão-dourado: espécie invasora é encontrada na Amazônia. Foto: Reprodução/Golden but not precious: first quali-quantitative data on golden mussels bioinvasion in the Amazon

Chagas explica que os resultados chamaram atenção pelo nível avançado da invasão. “A densidade populacional média encontrada foi de 11.940 indivíduos por metro quadrado, muito superior à registrada em 2023, de 88 indivíduos por metro quadrado. Isso indica que a espécie já se adaptou ao ambiente local e possivelmente já produziu ao menos uma vez, considerando que encontramos indivíduos entre 2 e 22 milímetros”, diz. Segundo o especialista, a presença de diferentes classes de tamanho revela que o mexilhão já completou, pelo menos, um ciclo reprodutivo na região.

A chegada do mexilhão-dourado ao rio Tocantins tem sido confirmada também por relatos de comunidades ribeirinhas e por registros em estruturas aquícolas. Em 2024, piscicultores do estado do Tocantins relataram a presença do molusco em tanques-rede, o que reforçou a hipótese dos pesquisadores de que a espécie havia entrado na região antes do primeiro registro oficial. Em setembro do mesmo ano, moradores de Marabá, Itupiranga e Tucuruí comunicaram ao Ministério Público do Pará o surgimento de bancos de mexilhões no Pedral do Lourenço, acionando uma força-tarefa com participação do Instituto Evandro Chagas (IEC).

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Os efeitos ambientais do mexilhão-dourado são documentados. A espécie altera a transparência da água devido à sua alta capacidade de filtração, modifica a qualidade do habitat ao liberar grande volume de pseudofezes e acumula metais e toxinas. Além disso, pode reduzir a presença de animais que vivem no fundo dos rios, competir com espécies nativas por alimento e espaço, e provocar desequilíbrios na vida aquática, incluindo os peixes. Esses impactos comprometem o equilíbrio dos ambientes de água doce, diminuem a biodiversidade e afetam processos naturais essenciais para o funcionamento dos ecossistemas.

“A presença do mexilhão-dourado gera diversos impactos socioeconômicos na Amazônia. Já temos relatos de pescadores que perderam redes, de piscicultores que registraram prejuízos devido ao acúmulo do molusco em estruturas de tanques e de obstrução de tubulações por excesso de indivíduos em compartimentos hidráulicos, aumentando custos de manutenção”, relata Chagas.

A eliminação da espécie em ambientes naturais é considerada praticamente impossível. O controle, quando ocorre, limita-se a estruturas artificiais, como hidrelétricas e sistemas de abastecimento de água, utilizando combinações de métodos físicos, mecânicos, químicos e, em menor escala, biológicos. “A estratégia mais eficaz é o uso de protocolos integrados, combinando diferentes métodos capazes de manter estruturas livres de incrustações. Apesar de não ser possível eliminar a espécie do ambiente, é viável controlar seus impactos em sistemas construídos com manejo adequado”, explica o pesquisador.

A pesquisa recebeu financiamento do Instituto Evandro Chagas (IEC) e do Ministério da Saúde (MS) e apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (Cepnor/ICMBio).

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Bailarino amapaense celebra 20 anos de carreira com estreia em teatro na França

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Foto: Pablo Sena/Acervo pessoal

O bailarino e coreógrafo Pablo Sena, de Macapá (AP), estreou no Théâtre de Moulins, na França, no dia 16 de dezembro. Ele apresentou o espetáculo ‘Olga, a Pequena Garota da Neve’ em cinco sessões. A ida de Pablo à Europa começou com um intercâmbio durante a Bienal de Dança de Lyon, que destacou a produção brasileira.

Ele participou com o coletivo Original Bomber Crew, do Piauí. Depois de um mês de residência artística, foi escolhido para integrar a Académie Chorégraphique de Moulins, entrando no circuito profissional europeu.

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No palco, Pablo interpreta os principais papéis masculinos e apresenta variações clássicas como ‘O Corsário’ e ‘O Príncipe Désiré’. O espetáculo, inspirado em lendas russas, conta a história de Olga, uma menina feita de neve que sonha em conhecer a Terra. Na jornada, ela descobre amizade e afeto, até se transformar em humana na noite de Natal.

“É um espetáculo que atravessa gerações. Entre danças cintilantes, fogueiras embaladas pelo som da Kalinka e a atmosfera natalina do Palácio de Inverno de São Petersburgo, a obra encanta crianças, jovens e adultos”, disse Pablo Sena.

Trajetória internacional do bailarino

O bailarino Pablo é cofundador do Grupo Âmago e construiu carreira valorizando a cultura amazônica. Foi premiado no Festival Internacional de Dança de Goiás e no Encontro Pan-Americano de Dança da Amazônia. Também participou de intercâmbio no Uruguai e integrou o Palco Giratório 2025, do Sesc, em Porto Alegre.

Leia também: Sairé 2025: os Botos do Amanhã e a infância que dança o futuro de Alter do Chão

Para o artista, a estreia na Europa simboliza mais do que um novo capítulo profissional: é a celebração de duas décadas dedicadas à arte.

“Essa experiência tem um valor imensurável para mim. Marca a celebração de 20 anos de dedicação à arte e à cultura. Sou um artista nascido e criado no Laguinho, bairro tradicional de Macapá, com raízes no samba, carnaval e quadrilhas juninas”, afirma.

Palco histórico

As apresentações do bailarino acontecem no Théâtre de Moulins, um dos mais tradicionais da França. Construído em 1839 e inaugurado em 1847, o espaço tem arquitetura neoclássica, capacidade para 800 pessoas e teto pintado por Séchan, artista da Ópera Garnier, em Paris.

Théâtre de Moulins, em Paris, na França. Foto: Pablo Sena/Acervo pessoal
Théâtre de Moulins, em Paris, na França. Foto: Pablo Sena/Acervo pessoal

*Por Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP

Espaço indígena no Acre reúne saberes tradicionais e acadêmicos para recuperar área degradada pelo fogo

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Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

O Huwã Karu Yuxibu, espaço criado pelo povo Huni Kuin no km 36 da Transacreana, em Rio Branco (AC), segue ganhando força como um território de troca de saberes, reconstrução ambiental e conexão com quem chega para aprender.

Em uma das ações recentes, mais de 30 alunos dos cursos de Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal e Medicina Veterinária participaram de um mutirão que aliou plantio de cerca de 600 mudas a técnicas de restauração e experiências culturais conduzidas pelos próprios moradores.

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Localizado perto da capital, o centro se tornou porta de entrada para estudantes, pesquisadores e visitantes que buscam entender, na prática, como a floresta pode ser manejada, restaurada e vivida em conjunto com os povos originários.

A atividade, desenvolvida no dia 6 de dezembro, integrou iniciativas da SOS Amazônia, da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Instituto Alok e reforçou o trabalho que vem sendo desenvolvido na área desde que um incêndio criminoso devastou parte do território.

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Espaço para o povo Huni Kuin une saberes tradicionais à academia para reflorestar área degradada em Rio Branco. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

Atualmente, o espaço ocupa 11 hectares, abriga um restaurante que atende famílias em vulnerabilidade e oferece vivências durante mutirões e eventos culturais.

Para o líder Mapu Huni Kuin, o espaço nasceu de uma responsabilidade que ele assumiu ao se deparar com famílias do povo em situação de vulnerabilidade.

Sobre a ação de replantio de espécies, Mapu mencionou ainda que a presença dos estudantes no local reforça a importância do que chama de ‘consciência da terra’.

“Esse chamado ao replantio é para que nós possamos ser profissionais, mas também conscientes para garantirmos uma água saudável, um ar mais puro, para que as futuras gerações possam também usufruir uma qualidade de vida melhor”, salientou.

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Espaço busca fornecer conforto e acolhimento, principalmente ao povo Huni Kuin que mora na cidade de Rio Branco. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

Parcerias para o espaço

A restauração da área é acompanhada pela Organização Não-Governamental (ONG) SOS Amazônia, que tem desenvolvido sistemas de irrigação, apoio técnico, capacitações e prepara a construção de um viveiro com capacidade para 20 mil mudas por ano.

O gerente do programa de restauração da paisagem florestal, Adair Duarte, explicou que o espaço tem se tornado também um ponto de educação ambiental aberto ao público, especialmente por estar próximo da capital.

“Nós já fizemos outros mutirões de plantio. O objetivo desse investimento com relação ao sistema de irrigação é para manter a sobrevivência, diminuir a mortalidade [das espécies de mudas] e aumentar a produtividade dessa área, principalmente no período do verão”, complementou.

Ao longo da área, as espécies plantadas têm dupla função: alimentar a comunidade e abastecer o restaurante, sempre com manejo agroecológico. Adair também lembra que o local está dentro da bacia do Igarapé São Francisco e contribui para preservar suas nascentes.

“Esse centro hoje funciona também com um espaço de educação facilita esse fluxo de pessoas pra conhecer, pra interagir com esse processo de restauração […] e produzir alimentos sem uso de adubação química, sem uso de inseticidas”, destacou.

Alunos de Engenharia Florestal, Agronomia e Medicina Veterinária estão envolvidos na segunda ação do projeto da Ufac. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

Experiência extracurricular

Entre os estudantes, a vivência prática reforçou a dimensão do que se aprende em sala de aula. A acadêmica de Engenharia Florestal, Lis Silva, que já havia participado de uma ação anterior, descreveu o impacto da segunda experiência.

“É incrível. Toda vez que a gente vem aqui é uma experiência nova, de ver com os nossos próprios olhos a importância do nosso estudo”.

Para quem esteve no local pela primeira vez, a surpresa foi ainda maior. A estudante Elaine Almeida Fernandes, também de Engenharia Florestal, conta que nunca tinha visto a técnica da cobertura vegetal em ação.

“Eu nunca tinha ouvido falar disso na minha vida em sala de aula. Então, quando eu cheguei aqui, foi totalmente outra coisa”.

Da Agronomia, Vanessa Batista destacou a importância do sistema de irrigação.

“Não é simplesmente só plantar. Tem que cuidar, zelar. Tudo é uma troca de saberes que eles mesmos passaram pra gente”.

O cuidado com a alimentação compartilhada nos mutirões ficou por conta de Ivani Costa Leal, cozinheira do local e moradora antiga da região.

“Eu estou aqui desde quando eles chegaram. Aprendi as receitas. Tem a macaxeira na folha, a macaxeira feita com amendoim e o mingau de banana com amendoim também, sem leite, sem açúcar”, mencionou uma delas.

Peixe na folha da bananeira é uma das especialidades da culinária indígena acreana. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

Entender para conservar

A organização da atividade foi conduzida pela professora Iwlly Cavalcante, que desenvolve ações no espaço desde os tempos em que ela era estudante e hoje mobiliza turmas inteiras para que aprendam na floresta.

“A gente tem os benefícios de aprender sobre regime de chuva, de controle, de erosão, de enriquecimento da área e temos, principalmente, a soberania alimentar, a garantia alimentar. As espécies que aqui são plantadas e desenvolvidas dentro desse sistema agroflorestal é com base na alimentação tradicional Huni Kuin, daquilo que está na mesa”, falou.

No Huwã Karu Yuxibu, plantar não é só recuperar solo. É reconstruir vínculos, retomar histórias e entender, na prática, que a floresta se mantém viva quando as pessoas também se movem junto dela.

“É super importante porque a gente sai da sala de aula e coloca eles no campo para vivenciar a experiência […] aqui é uma sala de aula ao ar livre, uma floresta que se movimenta, que planta e que está aí fazendo extensão florestal na comunidade”, frisou.

O líder Mapu Huni Kuin compartilha do mesmo sentimento.

“Se ninguém está fazendo, nós temos que fazer porque temos que ser esse exemplo”, complementou.

Huwã Karu Yuxibu alia conscientização ambiental a saberes tradicionais do povo Huni Kuin. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

*Por Renato Menezes, da Rede Amazônica AC

Anaconda: 12 mentiras sobre a Amazônia que parecem verdade no filme

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Foto: Reprodução/Frame do filme ‘Anaconda’ (1997)

Os melhores amigos Griff e Doug partiram para a floresta amazônica com um sonho: filmar um reboot de seu filme favorito, ‘Anaconda‘. O que poderia dar errado, não é mesmo? Isso é o que mostra o novo filme da franquia, com estreia para dezembro de 2025.

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O primeiro filme, que inspira o novo lançamento mais de 20 anos depois, estreou em 1997 e retrata uma cobra gigantesca encontrada na Amazônia. Em 1997, a produção acompanha um grupo de documentaristas em expedição pela floresta em busca da tribo indígena isolada Shirishama.

Durante a jornada, uma forte tempestade muda o rumo da viagem, e o grupo acaba encontrando o enigmático Paul Sarone, que promete guiá-los até a tribo, sem revelar suas verdadeiras intenções.

A aventura rapidamente se transforma quando o grupo descobre que está envolvido em uma perigosa caçada à serpente conhecida como “anaconda”, um animal astuto e implacável, que parece agir com um plano cuidadosamente traçado para devorar cada um deles.

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Apesar de ter se tornado um clássico do cinema, o longa retrata uma fantasia cheia de equívocos, que têm como resultado um retrato distorcido da floresta amazônica, fixando no imaginário popular uma Amazônia misteriosa, letal e habitada por serpentes gigantescas que propagam o horror. 

O novo filme promete atualizar a clássica história para uma nova geração, com um viés cômico digno de Jack Black, um dos atores principais da nova produção.

Veja o trailer:  

Dá pra perceber que a nova aventura tem um olhar diferente da primeira produção, mas segue os moldes da anterior, não é?

Pensando em como a Amazônia foi retratada, a equipe do Portal Amazônia revisitou o primeiro filme e listou 12 “mentiras” sobre a região. Confira: 

Anacondas não existem na região amazônica

Na região amazônica, as anacondas não existem. O que de fato habita a floresta e costuma ser associado a esse nome são as cobras sucuris.

Mas, afinal, de onde vem o nome anaconda?

O nome ‘anaconda’ na verdade deriva do país asiático Sri Lanka, antigamente conhecido como Ceilão. O termo surgiu em 1693, quando o ambientalista inglês John Ray, em seu livro ‘Synopsis Methodica Animalium‘, descreveu uma cobra daquele país que ele chamou de ‘anacandaia’, que segundo ele teria a habilidade de esmagar os membros de outros animais. 

Anaconda
Sucuri-verde, associada a anaconda. Foto: Divulgação/Alexandre Almeida

Apesar do termo ter surgido na região da Ásia, lá não existem sucuris e o nome ‘anaconda’, na verdade se refere a espécies de cobras pítons, grandes serpentes que também matam suas presas por constrição, apertando-as até causar uma parada respiratória.

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O termo foi erroneamente associado, por colonizadores europeus, às grandes serpentes da América do Sul. Com o tempo, o nome foi popularizado por estrangeiros e pela cultura pop, especialmente no cinema, passando a ser usado de forma genérica para se referir às sucuris amazônicas.

Sucuris super velozes que atacam como felinos

No filme, a anaconda (que seria uma sucuri) salta, persegue humanos em alta velocidade e demonstra quase ‘ódio’ por personagens específicos.

No entanto, na verdade a sucuri-verde (Eunectes murinus), espécie mais associada à produção, é um animal de movimentos lentos, que caça através de emboscadas e evita o contato com humanos.

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A sucuri engole a presa, vomita e engole de novo?

Logo no início do filme, uma espécie de narrador conta que as ‘anacondas’ engolem, regurgitam e, em seguida, engolem novamente a própria vítima. No entanto, essa ideia não passa de fantasia cinematográfica, já que na realidade, as serpentes até podem regurgitar suas presas quando se sentem ameaçadas ou estressadas, mas não voltam a se alimentar do mesmo animal.

Existência de sucuris de 10, 12 ou 15 metros

A franquia aposta em monstros enormes, gigantescos, mas a realidade é bem diferente e a sucuri-verde geralmente mede entre 3 e 5 metros de comprimento. Além disso, não existem registros científicos confiáveis de serpentes de 10 ou 12 metros como as mostradas no filme, e o maior exemplar comprovado tinha pouco mais de 5 metros.

A sucuri quebra todos os ossos da vítima? 

O filme sugere, por meio de uma fala de Paul Serone, que as cobras conseguem esmagar todos os ossos da vítima durante a constrição. Só que na prática, a morte ocorre pela interrupção da circulação sanguínea, e não por fraturas generalizadas.

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Sucuri-verde matando sua presa. Foto: Daniel Blanco

Sucuris sanguinárias que caçam humanos por vingança

No longa, as sucuris parecem demonstrar ódio por humanos, que qualquer descuido vira morte. Na realidade, essas serpentes evitam humanos e os ataques a eles são raríssimos, já que elas preferem capivaras, antas, veados e jacarés.

Javalis na Amazônia na década de 90

Além do filme retratar a fauna local como perigosa, outro erro que aparece na narrativa é a existência de javalis na Amazônia na década de 90. Essa espécie invasora só chegou à região quase duas décadas após o lançamento do filme. 

Frame do filme que mostra a captura de um javali. Foto: Reprodução/HBO

Serpentes vistas como monstros e a lenda da cobra grande

A produção reduz a sucuri a um demônio da floresta, ignorando sua representatividade na cultura indígena, já que entre os Mawé, por exemplo, ela representa o feminino, a fecundidade, a ancestralidade e não um ser maléfico.

Além disso, o longa cita vagamente a lenda da Boiúna, transformando o mito em uma ameaça literal, mas na realidade a lenda têm apenas uma dimensão simbólica. 

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Amazônia quase inabitada

A Amazônia retratada em ‘Anaconda’ parece praticamente desabitada, com a presença humana limitada. Mostram o antigo Tropical Hotel, um hotel de selva famoso em Manaus (AM) à época, além da tribo perdida Shirishama, que é o que motiva a expedição na região na trama do filme.

No entanto, essa representação é equivocada já que na realidade, essa região abriga dezenas de povos originários, comunidades tradicionais e, claro, cidades urbanizadas. 

Macaco morto como isca para sucuri

Durante o longa, com o objetivo de capturar a grande cobra, um dos personagens utiliza como estratégia um macaco morto como isca. No entanto, sucuris não caçam presas mortas e dependem da captura e constrição de animais vivos para se alimentarem.

Sucuris caçando de dia e se movendo em terra com agilidade total

Ao longo do filme, a gigante cobre caça em plena luz do sol e se movimenta com rapidez pelo chão. Na realidade, esses animais são noturnos e passam a maior parte do tempo na água, onde são mais rápidas.

Frame do filme. Reprodução/HBO

Erros biológicos nas características da cobra 

O filme mostra a serpente amazônica com pupilas oblíquas, semelhantes às de felinos, no entanto, na natureza, elas são redondas. Outro equívoco aparece ao retratar as serpentes botando ovos, sendo que na verdade sucuris são ovovivíparas, ou seja, ela produz ovos, mas a incubação e o desenvolvimento dos filhotes ocorrem dentro do corpo da mãe, sem a necessidade de um ninho externo.

Sucuri (Anaconda) do filme x sucuri da vida real. Fotos: Reprodução/Frame do filme e depositphotos.com-joelfotos

Projeto anuncia investimento de US$ 200 milhões para retorno de mineração em Pedra Branca, no Amapá

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Vista de Pedra Branca do Amapari. Foto: Divulgação / Agência Turismo do Amapá

Após seis anos de recuperação judicial, o Governo do Amapá anunciou no início do mês a retomada da mineração de ferro em Pedra Branca do Amapari. A atividade será reiniciada com a reativação da mina Azteca, de menor porte.

O retorno faz parte do Projeto Ferro Amapá, parceria entre o governo estadual e a empresa DEV Mineração. O investimento previsto é de US$ 200 milhões, além de um pagamento inicial de R$ 5 milhões ao município.

O projeto inclui ainda a construção de uma ferrovia e de um porto para o escoamento da produção. A prefeitura do Amapá recebeu R$ 10 milhões para quitar salários atrasados de funcionários das mineradoras.

O prefeito de Pedra Branca, Marcelo Pantoja, disse que a medida traz alívio para a cidade.

“Vamos retomar a nossa capacidade de investimento, fazer mais obras e ampliar o investimento social. Quem ganha é o Amapá e Pedra Branca”, afirmou.

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Aplicação dos investimentos na mineração

  • Investimento inicial: US$ 6 bilhões para reativar a mina Azteca.
  • Aporte imediato: R$ 10 milhões para dívidas e salários atrasados.
  • Expansão futura: novos aportes que podem ultrapassar US$ 200 milhões, além da ferrovia e porto.

Segundo o governo do Amapá, a mina pode produzir até 6 milhões de toneladas de minério por ano, com vida útil de cerca de 16 anos. A expectativa é que a exploração comece em 2026.

“O investimento busca acelerar a retomada dos empregos em Pedra Branca. A meta é gerar vagas já no primeiro semestre de 2026”, informou o governador Clécio Luís.

A retomada deve seguir técnicas sustentáveis na operação e produção do minério. O município já registrou acidentes ligados à atividade mineral.

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Desmatamento no Amapá para mineração. Foto: Divulgação/Polícia Civil do Amapá

Histórico da mineração no Amapá

A exploração de minério de ferro no Amapá começou na década de 1950, com a Indústria e Comércio de Minérios (Icomi). O projeto passou por diferentes empresas: MMX de Eike Batista, Anglo Ferrous e, por último, Zamin, quando foi interrompido.

Na época de maior produção, Pedra Branca do Amapari, município do Amapá, tinha a maior renda per capita do estado, com a presença de 93 empresas e geração de mais de 15 mil empregos diretos e indiretos.

mineração no amapá
Registro de 2016 mostra parte da estrutura deixada após interrupção da exploração no Amapá. Foto: Abinoan Santiago/Arquivo Grupo Rede Amazônica Amapá

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Pesquisa prevê clonagem de mudas para combater praga vassoura-de-bruxa no Amapá

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Técnica permite recuperar lavouras, garantir produtividade e combater a principal ameaça do estado. Foto: Foto: Márcio Wendell/Arquivo Iepa

Como forma de enfrentar a vassoura-de-bruxa, fungo que ataca galhos e compromete o crescimento da planta, o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (Iepa) aposta em tecnologia e parceria com agricultores. No Amapá, a doença já atinge 10 municípios desde 2023 e ameaça uma das culturas mais tradicionais do estado.

O Iepa está clonando mudas de variedades já cultivadas no Amapá. A técnica permite recuperar plantas livres da praga vassoura-de-bruxa, garantir maior produtividade, preservar a diversidade genética e a manter características conhecidas pelos agricultores.

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Estudo de clonagem in vitro visa garantir plantio saudável da mandioca no Amapá. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP

Sobre a pesquisa

A pesquisa começou em maio de 2025 e tem como foco a clonagem in vitro da mandioca. Com isso, uma única planta pode gerar várias mudas com a mesma segurança e qualidade.

Além disso, a iniciativa melhora a raiz da mandioca, que passa a crescer mais forte e resistente à vassoura-de-bruxa. Na prática, isso significa lavouras mais saudáveis, menor perda e uma alternativa concreta para conter o avanço da doença.

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Clonagem é realizada em laboratórios do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas — Foto: Márcio Wendell/Arquivo Iepa

Resultados no campo

O município de Cutias do Araguari foi o primeiro a receber os experimentos, por concentrar grandes áreas de produção. Os resultados animaram os pesquisadores e produtores locais.

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Agricultores da comunidade participam cedendo áreas e acompanhando o comportamento das plantas. Segundo o Iepa, já há relatos de produtores colhendo até 60 toneladas de mandioca por hectare.

Vassoura-de-bruxa afeta plantações no Amapá desde 2023
Praga da mandioca atinge vários municípios do Amapá. Foto: Divulgação/MPPA

*Por Josi Paixão e Mônica Costa, da Rede Amazônica AP