Cleise Simas e Lívia Cristina. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM
Um evento que une a energia do carnaval com a magia do boi-bumbá: este é o Carnaboi. A festa, que tem duas edições – uma em Parintins e outra em Manaus, cidades no Amazonas – reúne foliões carnavalescos e torcedores dos bois Caprichoso e Garantido.
O Carnaboi fecha a temporada momesca e marca o início da temporada bovina nas cidades, com foco no Festival Folclórico de Parintins, quando os bois-bumbás Caprichoso e Garantido disputam o título de campeão. A disputa é realizada sempre no fim do mês de junho, por isso a temporada inicia logo após o carnaval, com ensaios e outros eventos tradicionais no calendário bovino.
A 25ª edição do Carnaboi, realizada nos dias 20 e 21 de fevereiro no Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho, o Sambódromo de Manaus, reúne apresentações de artistas amazônidas e dos bois-bumbás Caprichoso, Garantido, Tira Prosa, Corre Campo, Garanhão e Brilhante, a partir das 19h.
Este ano as noites são temáticas e a entrada é gratuita. Confira os horários das apresentações do dia 21 de fevereiro (sábado):
2ª noite – ‘Originários da Terra’
19h- abertura com os bois Garanhão e Brilhante;
19h30- Grupo Toada de Roda e Robson Jr;
20h – Luiz Carlos Kboclos e Jardel Bentes;
20h30 – Carlos Batata e Black Marialva;
21h10 – Paulinho Viana e Márcio do Boi;
21h50 – Leonardo Castelo e Carlinhos do Boi;
22h30 – Prince do Caprichoso e Edilson Santana;
23h30 à 0h50 – show especial Caprichoso e Garantido;
O Governo do Tocantins instituiu oficialmente o Circuito Tocantinense de Pesca Esportiva (CTPE), por meio do Decreto nº 7.100, de 11 de fevereiro de 2026. A iniciativa, coordenada pela Secretaria de Estado da Pesca e Aquicultura (Sepea), integra as ações do Executivo estadual voltadas ao fortalecimento do turismo sustentável e ao desenvolvimento econômico regional.
A expectativa é que o Circuito gere um impacto econômico médio de R$ 15 milhões no estado, com público estimado em mais de 15 mil pessoas e participação mínima de 300 equipes ao longo das etapas.
Essa prática atrai turistas de diversas regiões do Brasil e do exterior, movimentando setores como hotelaria, gastronomia, transporte, comércio e serviços. Para fortalecer esse segmento, o Governo do Estado tem investido em políticas públicas que promovem a valorização cultural, a dinamização da economia local e a consolidação da atividade responsável.
O secretário de Estado da Pesca e Aquicultura, Rodrigo Ayres, destacou que a organização de um calendário estruturado fortalece o planejamento, impulsiona a economia e amplia as oportunidades para o turismo sustentável, estimulando o desenvolvimento local.
“Palmas é reconhecida como a Capital do Tucunaré-azul. Contamos com uma estrutura híbrida de financiamento e com o incentivo à capacitação da mão de obra local para atividades ligadas ao turismo de pesca esportiva”, pontua.
Foto: Alex Silva
O secretário-executivo da Sepea, Jefferson Zêra, explica que o Circuito será composto pelos torneios realizados em âmbito estadual que aderirem oficialmente ao evento e integrarem o calendário anual.
“O CTPE será formado pelos torneios de pesca esportiva realizados no estado que aderirem ao circuito e passarem a integrar o calendário anual. A adesão não dispensa o cumprimento da legislação ambiental e das normas de pesca vigentes. O Tocantins tem grande potencial e este é um mercado nacional em expansão, com base hidrográfica estratégica e espécies de alto valor esportivo”, ressalta.
O lançamento oficial do calendário do Circuito está previsto para o dia 14 de março, no Palácio Araguaia Governador José Wilson Siqueira Campos, após o término do período da piracema.
Para viabilizar as ações, a Secretaria poderá celebrar convênios, termos de cooperação e outros instrumentos com órgãos e entidades públicas ou privadas, inclusive organismos internacionais. Será criado o Comitê de Organização do CTPE, responsável pela coordenação e pelo acompanhamento das atividades do Circuito.
Dados sobre a pesca esportiva em Tocantins
Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), levantamentos de entidades e veículos especializados do setor, como Fish TV, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), a atividade consolidou-se como um dos principais vetores do turismo sustentável no Brasil.
O setor movimenta cerca de R$ 3 bilhões por ano no país. Estimativas mais amplas indicam que o chamado efeito pesca esportiva, considerando toda a cadeia produtiva, pode alcançar até R$ 17 bilhões anuais.
Cientistas juniores e coordenador do projeto, da esquerda para a direita: Pedro Joaquim de Souza Nunes Neto, Matheus Farias Cruz e Davi Silva Martinelli; Professor Me. Samuel Matiazo. Foto: Samuel Matiazo/Acervo pessoal
Um projeto desenvolvido no âmbito do Programa Pesquisa e Inovação na Escola (PIE) resultou na criação de um GeoAtlas Escolar Digital de Cuiabá, ferramenta voltada ao apoio do ensino e da pesquisa em Geografia nas redes municipal e estadual. A iniciativa foi financiada pelo Governo de Mato Grosso, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapemat), no Edital nº 002/2025.
A iniciativa utilizou técnicas de geoprocessamento para a obtenção da cartografia digital, com organização, análise e representação espacial de dados geográficos locais.
Como produto final, foi desenvolvido um site interativo que hospedará a primeira versão do GeoAtlas Escolar Digital de Cuiabá, assegurando acesso online e gratuito ao conhecimento geográfico produzido por alunos e professores da Escola Estadual Souza Bandeira, nos anos finais do ensino fundamental.
Entre os objetivos específicos do projeto, estimular o protagonismo discente na iniciação científica escolar, o mapeamento de dados geográficos do município e a garantia de acessibilidade ao conhecimento produzido no ambiente escolar.
O cronograma foi executado entre os meses de junho e novembro de 2025, iniciando com a coleta online e a criação do banco de dados geográficos, seguida das etapas de geoprocessamento e cartografia digital, e concluindo com a criação, hospedagem do site e apresentação dos resultados à comunidade escolar.
Nos meses de junho e julho, foram realizados o levantamento e a organização de dados cartográficos, imagens de satélite, imagens obtidas por drone e informações oficiais, armazenados em hardware próprio para assegurar padronização e facilitar o uso nas etapas seguintes.
Também foram desenvolvidas atividades introdutórias relacionadas à organização de dados em planilhas digitais e à produção de conteúdos visuais em plataformas online. Entre agosto e outubro, as ações concentraram-se no tratamento, análise espacial, edição e integração dos dados, resultando na elaboração de 15 mapas temáticos que retratam aspectos físicos, ambientais e socioeconômicos de Cuiabá.
Em novembro, o GeoAtlas Escolar Digital foi estruturado e hospedado em plataforma digital, permitindo acesso interativo aos mapas e informações produzidas. Nessa fase, os resultados foram apresentados à comunidade escolar, com foco na socialização do projeto e no incentivo ao uso do GeoAtlas como ferramenta pedagógica.
De acordo com o coordenador do projeto, professor Samuel Matiazo, “as etapas executadas mantiveram articulação direta com os objetivos específicos, ao envolver os estudantes na produção do conhecimento, realizar o mapeamento do território municipal e disponibilizar o material em ambiente digital acessível”.
Encerrando a folia do carnaval no Brasil e oficialmente dando início a temporada bovina no Amazonas, o Carnaboi 2026 conta com transmissão ao vivo pelo Grupo Rede Amazônica, por meio de diversas plataformas, como o Portal Amazônia e o g1 Amazonas, e pela televisão nos canais Amazon Sat e Rede Amazônica, nesta sexta-feira (20/02) e no sábado (21/02), levando a festa para quem não puder comparecer presencialmente ao Sambódromo, em Manaus.
A tradicional festa que une o carnaval e o boi-bumbá conta com mais de 40 atrações e, claro, artistas dos bois Caprichoso e Garantido. As duas noites terão entrada gratuita para um espetáculo que é a cara da Amazônia.
Carnaboi 2025. Foto: Reprodução/Secretaria de Cultura e Economia Criativa AM
A transmissão do Carnaboi será dividida em dois horários na televisão aberta:
Sexta-feira (20/02)
Amazon Sat: 19h30 às 21h Rede Amazônica: 22h20 às 00h15
Sábado (21/02)
Amazon Sat: 21h às 22h30 Rede Amazônica: 23h30 às 00h5
Os canais digitais seguem: Portal Amazônia no horário do Amazon Sat, e g1 Amazonas no horário da Rede Amazônica.
Amazon Sat tem nova apresentadora no comando da transmissão
Esse ano, o evento será apresentado por Juliana Fontes no canal Amazon Sat. A jornalista paranaense mora em Manaus há dois anos e afirma que se apaixonou pela cultura amazonense. Ela é a apresentadora do jornal do Amazon Sat, Amazônia News.
Para Juliana, são vários sentimentos envolvidos, entre eles, ela destaca a alegria de estar à frente dessa transmissão, mas também a consciência da responsabilidade que representa com o público amazonense.
“O Carnaboi é uma celebração que arrasta multidões, movimenta a cidade e traduz a força da cultura popular do Amazonas. Apresentar um evento desse porte é sentir a energia da galera, a vibração das torcidas e a paixão pelo boi-bumbá, já que não é apenas um show, mas a história que faz parte da identidade dos amazonenses”, declara.
Juliana Fontes, apresentando o Carnailha 2026. Foto: Juliana Fontes/Acervo pessoal
A apresentadora afirma ter “mergulhado” na cultura do Festival de Parintins para apresentar o Carnaboi e o Carnailha de Parintins, dois eventos que celebram os bois da “ilha da magia”.
“Assim que me mudei para Manaus, há dois anos, pude entender a grandiosidade da cultura amazonense. Foi uma paixão arrebatadora logo de cara. Desde então acompanho as manifestações culturais, sempre tentando conhecer a fundo, mas em especial o boi bumbá me arrebatou. Fiquei um ano lendo muito para saber a história dos bois, ouvia toadas, acompanhava as notícias dos itens, tudo como preparação para poder viver o Festival de Parintins, o que aconteceu no ano passado. Hoje me sinto totalmente pertencente e grata ao acolhimento e carinho que recebi dessa terra e desse povo”, afirma a jornalista.
Mandioca é o produto mais cultivado do Acre. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC
A produção de safra de cereais, leguminosas e oleaginosas no Acre alcançou 186.972 toneladas em dezembro do ano passado, segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado no dia 12 de fevereiro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A área plantada no estado também chegou a 62.804 hectares. O governador Gladson Camelí destacou os avanços conquistados pelo setor produtivo do estado.
“Esse resultado é fruto de muito trabalho, planejamento e compromisso com quem produz no nosso estado. Ultrapassar 186,9 mil toneladas na safra de 2025 mostra que o Acre está no caminho certo. Estamos investindo em incentivos, assistência técnica, mecanização e apoio direto ao produtor rural, fortalecendo as cadeias produtivas e gerando mais emprego e renda no campo”, disse.
Ele ainda destacou que o governo seguirá ampliando políticas públicas para garantir infraestrutura, acesso a crédito e novos mercados, para que o Acre continue avançando e consolidando sua produção como referência na região Norte.
Incentivos ao aumento das safras
A secretária de Estado de Agricultura (Seagri), Temyllis Silva, afirmou que o governo continuará incentivando os produtores e fortalecendo as cadeias produtivas, conforme previsto no plano de governo e nas metas do Plano Plurianual (PPA).
“Os projetos em execução, os convênios e os recursos que recebemos do governo federal, por meio de emendas parlamentares vão seguir chegando na ponta. Cadeias como a do café, do cacau, do mel, da mandioca e as ações desenvolvidas em terras indígenas serão ampliadas”, disse.
A gestora ressaltou que esse trabalho de colheita da safra ocorre em parceria com associações, cooperativas e prefeituras, com foco especial nos produtores que dependem diretamente do Estado para manter a produção e gerar renda no campo.
“Sabemos que há produtores que se desenvolvem mesmo sem a intervenção do governo, mas também há aqueles que dependem exclusivamente do apoio estatal. Nosso compromisso é dar continuidade ao que vem dando certo, corrigir falhas e alcançar áreas onde ainda não foi possível chegar.”
A Fundação Rede Amazônica (FRAM) realiza, no Acre, as ações do Projeto Consciência Limpa, uma iniciativa que envolve educação ambiental, sustentabilidade e participação da comunidade. O projeto atua há mais de 20 anos na Região Norte e busca ajudar a população a entender melhor os problemas ambientais e adotar atitudes mais responsáveis no dia a dia.
O Consciência Limpa utiliza educação, ações práticas e comunicação para incentivar mudanças de comportamento na Amazônia. Ao longo de sua trajetória, o projeto já tratou de temas como destinação correta de resíduos, arborização urbana, prevenção de queimadas, economia circular e consumo consciente, sempre com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas.
No Acre, essas ações são ainda mais importantes devido aos eventos climáticos extremos. Nos últimos anos, moradores de Rio Branco enfrentaram cheias de rios e igarapés, o que mostra a necessidade de cuidar melhor do meio ambiente e usar os recursos naturais de forma responsável.
De acordo com o coordenador do projeto, Matheus Aquino, o Consciência Limpa busca aproximar a população das soluções ambientais.
“O Consciência Limpa tem como objetivo gerar um impacto direto na consciência ambiental da população, unindo educação, mobilização social e incentivo ao descarte correto de resíduos. O projeto é ainda mais importante neste momento, porque o Acre e toda a Amazônia enfrentam desafios ambientais urgentes, e a participação da população é essencial para a construção de soluções reais”, afirma.
Foto: Larissa Marinho
Ações previstas no Acre
Entre as ações do Consciência Limpa no Acre está a Ação Consciência Limpa, que contará com mais de 20 expositores e será realizada no Lago do Amor, no dia 28 de fevereiro, ao longo de toda a tarde. O evento vai oferecer serviços de bem-estar, cidadania, saúde e orientação jurídica, além de atividades educativas sobre meio ambiente.
Outra atividade importante é a campanha Descarte Consciente – Drive-thru de Resíduos, que será realizada no mesmo dia da Ação Consciência Limpa e vai facilitar o descarte correto de eletrônicos, pilhas, baterias e óleo de cozinha usado. A ação incentiva a reciclagem e ajuda a melhorar a gestão de resíduos sólidos no estado.
Também será realizado, em março, o Painel Consciência Limpa – Educação Ambiental e Sustentabilidade, que vai reunir especialistas, estudantes, ambientalistas, representantes do poder público e da sociedade civil para conversar sobre soluções sustentáveis e formas simples de mudar hábitos no dia a dia.
O projeto também inclui o plantio de mudas, contribuindo para a recuperação de áreas degradadas e para a valorização da biodiversidade local, com a participação da comunidade em atividades educativas.
Para o gerente de conteúdos especiais da FRAM, Anderson Mendes além de informar as ações incentivam a população a realizarem descartes corretos.
“As campanhas educativas reforçam as ações do projeto e visam informar e incentivar a população do Acre para o descarte correto desses itens que se descartados de forma incorreta poluem o meio ambiente e a reutilização pode gerar renda extra”, ressaltou.
Com essas iniciativas, o Projeto Consciência Limpa se consolida como uma iniciativa de impacto socioambiental, promovendo educação, cidadania e responsabilidade ambiental, e reforçando o compromisso da Fundação Rede Amazônica com o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
“É por meio dessas ações práticas que o projeto busca sensibilizar a população e incentivar atitudes responsáveis que contribuam para a preservação do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida das comunidades”, destaca Mariane Cavalcante, diretora executiva da Fundação Rede Amazônica.
Abridores de letras são populares no Pará. Foto: Reprodução/Projeto Letras que Flutuam
Em 2007, durante um período como professora convidada da Universidade de Buenos Aires, a designer paulistana Priscila Farias se encantou pelo filete portenho, estilo ornamental típico da capital argentina. “Além da moldura e do fundo colorido, as placas que seguem essa tradição têm letras ornamentadas que remetem a um tempo antigo”, conta a pesquisadora, que é docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (USP) e estudiosa da forma das letras no espaço público.
Em geral, filetar quer dizer pintar com um pincel fino, como explica a designer. “No Brasil, os pintores também designam como ‘filete’ os ornamentos que fazem nas carrocerias de madeira dos caminhões”, diz.
No caso argentino, a tradição que data da virada do século XIX para o XX veio com os imigrantes italianos. “Eles decoravam carroças e, posteriormente, veículos motorizados como caminhões e ônibus”, prossegue a pesquisadora.
“Na década de 1970, devido a mudanças na legislação argentina, esse tipo de pintura desapareceu dos veículos comerciais e de transporte público, que foram padronizados. Mas o estilo permaneceu, por exemplo, em letreiros e fachadas de lojas.”
O filete portenho é um dos exemplos analisados por Farias no capítulo “Latin American vernacular lettering” (ou Letra vernacular latino-americana), que integra o livro The bloomsbury handbook of global typography. Com lançamento previsto para meados de fevereiro pela editora britânica Bloomsbury, a obra é organizada por pesquisadores da Universidade de Reading e da British Academy, no Reino Unido, e da Universidade St. John’s, nos Estados Unidos.
Além da Argentina, Farias se debruça sobre a tradição das letras populares em outros países como México e Colômbia. A respeito desse último, discorre sobre a chiva, híbrido de ônibus e caminhão que costuma servir de meio de transporte público para populações rurais em direção aos grandes centros. “É um serviço informal, realizado por motoristas particulares, que capricham na decoração multicolorida e nas letras tridimensionais para chamar a atenção dos clientes”, observa Farias. “Nos casos analisados, muitas vezes a letra é uma forma de diferenciação que ajuda a identificar lugares ou meios de transporte mais pelas cores e formas do que pelo que realmente está escrito ali.”
O design popular de letras passou a despertar a curiosidade de pesquisadores no Brasil a partir da década de 1990. “Incluir a produção dos letristas populares na memória gráfica brasileira é uma forma de abrir nosso olhar para o que está acontecendo nas ruas”, defende a designer Fátima Finizola, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que desde 2007 desenvolve o projeto “Abridores de letras de Pernambuco”. Em algumas partes do país, o termo “abrir letras” define a prática dos letristas que utilizam o pincel para traçar letras e executar de forma artesanal as encomendas dos clientes.
A iniciativa rendeu um livro homônimo, lançado pela Editora Blucher, em 2013, organizado por Finizola em parceria com a designer Solange Coutinho, também docente na UFPE, e o fotógrafo Damião Santana. Além disso, foram realizadas exposições, a exemplo da mostra com mesmo título que esteve em cartaz no Sesc Campo Limpo, na capital paulista, em 2016. Uma pequena parcela do acervo fotográfico, que contém ao todo cerca de mil imagens registradas nas cidades de Gravatá, Caruaru, Recife, Arcoverde, Salgueiro e Petrolina, está reunida no site do projeto.
Foto: Priscila Farias/ Revista Fapesp
Finizola começou a investigar o tema, com foco na capital pernambucana, no mestrado em design concluído em 2010 na UFPE. No doutorado, defendido em 2015, na mesma instituição, expandiu o escopo e englobou localidades do interior do estado.
Além dos aspectos formais da linguagem visual dos letristas e do processo de produção dos letreiros, a pesquisadora analisou o perfil dos profissionais. Segundo ela, o ofício em Pernambuco é exercido sobretudo por homens de 30 a 70 anos, que aprenderam a atividade de forma autodidata ou por meio da relação mestre-aprendiz. “Mas essa realidade não é exclusiva do nosso estado e pode ser observada em outras partes do Brasil e da América Latina”, comenta.
Os Abridores de Letras da Amazônia
Esse é o caso dos abridores de letras na região amazônica, como relata a designer paulista Fernanda Martins. Formada em artes visuais pela USP e especializada em tipografia, ela se mudou para Belém em 2004. Ao visitar uma comunidade ribeirinha na região do município de Boa Vista do Acará (PA), ficou fascinada pelas letras que decoravam os barcos atracados no local.
Na sequência, resolveu investigar o que chama de letra decorativa amazônica para o trabalho final da especialização em semiótica e cultura visual, que concluiu em 2008 na Universidade Federal do Pará (UFPA).
O encanto pela temática se desdobrou também no projeto “Letras que flutuam”, criado em 2006, em parceria com a designer Sâmia Batista, para valorizar o ofício desses artistas populares. Isso inclui, por exemplo, zelar para que o trabalho dos pintores não seja apropriado para fins comerciais sem o devido reconhecimento de seus autores.
A iniciativa, que levou à criação do instituto com o mesmo nome do projeto, em 2024, vem mapeando há 13 anos os profissionais em Belém e em outras localidades do estado, como a Ilha de Marajó. “Até agora levantamos 140 nomes”, diz Martins.
Segundo a designer, esse tipo de letreiramento amazônico é caracterizado pelas letras maiúsculas, coloridas, decoradas e com sombra.
“Como é dividida em duas partes, cada uma leva uma cor diferente. O efeito de sombra ou de volume é resultado de uma pintura dégradé, denominada ‘matizado’. Ao final da pintura, os profissionais ainda decoram a letra: é o ‘caqueado’”, escreve a designer no livro Letras que flutuam (Secult/PA, 2021).
Letras decoradas em barcos da Amazônia são obra de pintores como Raimundo Gonçalves da Silva, da Ilha de Marajó (PA) Foto: Arquivo/ Instituto Letras que Flutuam
As letras são encontradas em embarcações de madeira, tanto nas particulares como naquelas que fazem serviço de transporte de carga ou de passageiros, mas elas extrapolam os rios e estão também em murais e letreiros de estabelecimentos comerciais. É difícil definir sua origem.
De acordo com Martins, uma das hipóteses está em um decreto federal de 1925, que obrigou os barcos do país a serem registrados e identificados por um nome em seu casco. “A comunidade ribeirinha passou então a nomear os barcos a princípio com letras simples, que ao longo do tempo ganharam decoração e diversidade de cores”, conta.
A pesquisadora identifica nas letras presentes nos barcos amazônicos traços da tipografia decorativa do século XIX. “As letras daquele período são sempre maiúsculas, grossas, com fios de contorno, o que permite a inserção de enfeites. Uma das técnicas mais populares na ocasião era a simulação da tridimensionalidade por meio de sombras”, enumera.
Segundo Martins, os letreiros dos barcos amazônicos apresentam essas mesmas características, que são reinterpretadas com tempero local e acrescidas do uso de um código cromático específico.
“Muitos dos nossos entrevistados contam que aprenderam a pintar entre os anos 1940 e 1970 e alguns deles citam terem feito cursos por correspondência, em que recebiam catálogos de tipografia clássica. Talvez possa haver uma conexão aí”, considera.
Ao mesmo tempo, ela lembra que esse imaginário visual, das letras decorativas, circulava há muito tempo no Pará. “Com a liberação da navegação na região amazônica, em 1867, e a expansão econômica do ciclo da borracha, entre 1879 e 1912, uma grande variedade de material impresso da Europa e dos Estados Unidos aportou na região, gerando a chamada belle époque belenense. Logo, essa estética passou a influenciar as letras em placas e anúncios publicitários”, relata Martins, autora da tese “Impresso no Pará, 1820-1910: Memória gráfica como espírito de época”, defendida em 2017 na Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Catálogo com tipografia decorativa comum no século XIX, em registro do Instituto Letras que flutuam
O fluxo de barcos ao longo da região amazônica, em especial nas bacias dos rios Amazonas e Tocantins, fomenta, muitas vezes, uma “competição informal” pela letra mais bonita. “Os barcos levam as letras de um lugar a outro. Esse é um saber transmitido pelo fluxo do rio”, constata Martins. Segundo ela, o ofício de abrir letras na Amazônia sofre o risco de desaparecer. “Na Ilha de Marajó, por exemplo, se percebe o crescimento da pintura com pistola, conhecido na região como grafite”, comenta.
“Esse tipo de pintura vem ganhando espaço entre os jovens porque agiliza a entrega do trabalho. O desafio é encontrar formas de como essas linguagens, as tradicionais e as inovadoras, poderão coexistir de maneira construtiva”.
Na avaliação de Farias, da USP, a sobrevivência dessas tradições está ligada à sua valorização. Na Argentina, por exemplo, os filetes portenhos foram reconhecidos como patrimônio cultural de Buenos Aires em 2006, e, mais tarde, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2015. “É fundamental que os letristas valorizem o próprio ofício. Isso ajuda na transmissão da atividade e atrai o interesse dos jovens”, defende.
Finizola concorda. “O interesse dos pesquisadores sobre o tema pode ajudar nesse sentido. Percebo que ao longo desses 18 anos de pesquisa, muitos abridores de letra passaram a olhar para a atividade com outros olhos, estimulados pela curiosidade da academia sobre aquela produção”, conta. “Em geral, esses profissionais não têm uma percepção clara de sua relevância para a cultura visual e a memória gráfica brasileira.”
Letreiros no largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro, em 1903. Foto: Augusto Malta / Coleção Gilberto Ferrez / Acervo Instituto Moreira Salles
Para o designer Vinicius Guimarães, a pesquisa sobre a memória gráfica brasileira é fundamental para superar a ideia de que a atividade do design gráfico no país teria começado a partir da segunda metade do século XX, com a institucionalização da profissão no Brasil. “O uso de ferramentas quase exclusivamente digitais pode contribuir com a falsa impressão de que fazemos algo novo, por isso é importante ter contato com o que foi produzido em uma história muito mais longeva”, observa o pesquisador.
Na tese “Lettreiros e taboleta: Letreiramento público no Rio de Janeiro em fotografias e periódicos de 1860 a 1910”, defendida em 2021, na Uerj, Guimarães utilizou como fontes de pesquisa as imagens dos letreiros comerciais e os anúncios dos serviços dos letristas nos periódicos cariocas da época. Por meio das peças publicitárias, ele conseguiu mapear o perfil dos profissionais na cidade: no grupo, predominavam os imigrantes europeus que vinham para o Brasil já formados nos seus respectivos ofícios, cujo conhecimento era transmitido aos aprendizes nas oficinas.
De acordo com Guimarães, cerca de 60% dos letreiros feitos artesanalmente eram compostos por modelos de letras semelhantes aos encontrados em manuais de pintura de letras publicados nos Estados Unidos.
No entanto, os profissionais que atuavam no Rio de Janeiro na época também modificavam os modelos dos manuais, indicando a existência de um estilo local. Um exemplo é a letra “E” com a barra horizontal central mais curta, e o “G” com a barra horizontal posicionada abaixo do centro da letra. “É o que podemos chamar de um sotaque tipográfico carioca”, conclui o pesquisador.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Ana Beatriz Rangel
Palco do maior espetáculo folclórico à céu aberto do planeta, a cidade de Parintins (AM) é conhecida mundialmente pela grande festa cultural dos bois bumbás Caprichoso e Garantido, que disputam o título de campeão anualmente no Festival Folclórico.
A Ilha da Magia, no entanto, também é dona de um berço de artistas que percorrem todo o Brasil espalhando suas técnicas e habilidades artísticas em outros estados.
Um grande exemplo é a crescente presença de profissionais parintinenses dos dois bois compondo as equipes das escolas de samba no carnaval de outras cidades brasileiras.
Em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, a Mocidade Alegre e a Viradouro, respectivamente, conquistaram os títulos de campeãs de 2026 em seus estados com a participação de artistas parintinenses em suas equipes.
Postagem de parabenização dos artistas Alessandro Oliveira e Fabson Rodriguez, do Garantido, campeões pela escola Mocidade Alegre. Foto: Divulgação/Instagram-Marialvobrandao
Começando pela capital paulista, o título da escola Mocidade Alegre conquistou o 13º troféu da sua história com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, em homenagem à atriz Léa Garcia, falecida em 2023, aos 90 anos.
A vitória teve a contribuição de Alessandro Oliveira e Fabson Rodriguez, artistas do boi Garantido, e da dupla Kelson Matos e Estevão Gomes, que atuam no Caprichoso.
Já no Rio de Janeiro, a Unidos do Viradouro faturou o quarto campeonato com o enredo “Pra Cima, Ciça”, que homenageou os 70 anos do mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto.
O título deste ano contou com a participação dos parintinenses Nildo “Naruna” Costa e Alex Salvador, ligados ao boi Caprichoso, onde foram responsáveis pela construções das alegorias.
Equipe de Nildo Costa (o quinto da esquerda para direita) na campeã Viradouro, do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação/Boi Caprichoso
Mais PIN no eixo RJ-SP
Além das campeãs, outras escolas de samba também contaram com a experiência de outros artistas parintinenses ligados aos bois Caprichoso e Garantido.
Em São Paulo, os azulados Nei Meireles (Império da Casa Verde), Eddi Dude (Mancha Verde), Rayner Pereira (Gavião da Fiel), Zico Almeida (Tom Maior), Nonôca Alfaia (Águia de Ouro) e Márcio Gonçalves (Acadêmicos do Tatuapé) atuaram no carnaval paulista.
Do lado da Baixa, os profissionais Adriano Paketá (Tom Maior), Luiz Sampaio (Império da Casa Verde), Sorin Senna (Colorado do Brás), Juciê Souza (Camisa 12), Wendel Miranda (Águias de Ouro) e o grupo Gandhicats (Tom Maior) estiveram presentes no Sambódromo paulista.
Já no RJ, Jucelino Ribeiro (Salgueiro), Kennedy Prata (Beija-Flor de Nilópolis), Brás Lira e Marlucio Pereira, (ambos da Unidos da Tijuca e Mangueira) representaram o Touro Negro na folia carioca, enquanto que Netto Barbosa e Anderson Rodrigues (ambos pela Acadêmicos da Grande Rio e Portela), Leandro Oliveira (Salgueiro), Kemerson Guerreiro (Beija-Flor de Nilópolis) levaram a inspiração vinda do boi vermelho e branco.
Reconhecimento
Nas redes sociais, os bois Caprichoso e Garantido destacaram a atuação dos artistas de Parintins no carnaval das principais cidades do país.
Um evento que une a energia do carnaval com a magia do boi-bumbá: este é o Carnaboi. A festa, que tem duas edições – uma em Parintins e outra em Manaus, cidades no Amazonas – reúne foliões carnavalescos e torcedores dos bois Caprichoso e Garantido.
O Carnaboi fecha a temporada momesca e marca o início da temporada bovina nas cidades, com foco no Festival Folclórico de Parintins, quando os bois-bumbás Caprichoso e Garantido disputam o título de campeão. A disputa é realizada sempre no fim do mês de junho, por isso a temporada inicia logo após o carnaval, com ensaios e outros eventos tradicionais no calendário bovino.
A 25ª edição do Carnaboi, realizada nos dias 20 e 21 de fevereiro no Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho, o Sambódromo de Manaus, reúne apresentações de artistas amazônidas e dos bois-bumbás Caprichoso, Garantido, Tira Prosa, Corre Campo, Garanhão e Brilhante, a partir das 19h.
Este ano as noites são temáticas e a entrada é gratuita. Confira os horários das apresentações do dia 20 de fevereiro (sexta-feira):
1ª noite – ‘Boi Bumbá, Brinquedo de São João’
19h – abertura com os bois Tira Prosa e Corre Campo;
19h30 – Grupo A Toada, Kamayurá e Itamar Benarrós;
20h10 – Gean Figueira, Adriano Aguiar e Vanessa Alfaia;
20h50 – Márcia Novo e Helen Verás;
21h30 – Fabiano Neves e Klinger Jr.;
22h10 – David Assayag e Erick Juan;
23h à 0h20 – show especial Garantido e Caprichoso;
A FAPESP lançou uma chamada de propostas em conjunto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) para o financiamento de pesquisas em ciência, tecnologia e inovação em bioeconomia amazônica, a partir da articulação de colaborações entre pesquisadores dos Estados de São Paulo e doAmazonas.
A chamada – a terceira no âmbito do acordo de cooperação entre as instituições – visa apoiar a criação e o aprimoramento de tecnologias, processos e produtos inovadores para a valorização da sociobiodiversidade amazônica, a transição para uma economia de baixo carbono e a inclusão social.
A FAPESP e a Fapeam também pretendem fomentar pesquisa em inovação e tecnologia avançada com potencial de gerar cadeias de valor sustentáveis e que contribuam com a inserção mercadológica de bioprodutos e biotecnologias amazônicas em cadeias de valor nacionais e globais, incluindo a criação ou o aprimoramento de mecanismos de certificação e rastreabilidade.
Sede da Fapeam em Manaus. Foto: Divulgação / Fapeam
Para quem é a chamada?
A chamada está aberta a pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior e pesquisa de São Paulo e do Amazonas. As propostas devem ter como representantes dois coordenadores, um de cada Estado, e devem ser elaboradas conjuntamente entre as metades paulista e amazonense do consórcio.
Serão apoiadas propostas que se atenham às quatro linhas temáticas da chamada:
Linha 1 – Governança, Instrumentos Regulatórios e Modelos de Negócios Sustentáveis em Bioeconomia, tendo como foco principal a estruturação, a viabilidade e a competitividade do ambiente bioeconômico;
Linha 2 – Descarbonização, Energias Renováveis e Economia Circular na Amazônia, cujo objetivo predominante é o impacto ambiental e energético da tecnologia/processo/serviço proposto;
Linha 3 – Desenvolvimento de Bioprodutos, Bioprocessos e Biotecnologias da Sociobiodiversidade, com foco na geração de soluções tecnológicas inovadoras derivadas da biodiversidade amazônica;
Linha 4 – Valorização do Capital Humano e Economia Criativa para a Bioeconomia, instrumentalizando identidades culturais como vetores estratégicos para o desenvolvimento da bioeconomia e incluindo ações de empreendedorismo social.
A FAPESP e a Fapeam apoiarão projetos por até 36 meses. Serão selecionados até dez projetos. A Fapeam destinará um total de R$ 2 milhões para a chamada. A FAPESP reservou um valor global de R$ 6 milhões e aplicará à chamada as normas de apoio e condições de elegibilidade da modalidade de fomento Auxílio à Pesquisa Regular.
Cada coordenador deverá submeter proposta à Fundação de Amparo à Pesquisa de seu respectivo estado, por meio do SIGFapeam, do lado amazonense, e do Sistema de Apoio à Gestão (SAGe), do lado paulista. O prazo para submissão é 23 de março.