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Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

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Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas. Imagem: CEN/Universität Hamburg

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra.

O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas. Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

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A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.

Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica”.

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da Amazônia. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade.

“É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.

Circulação de águas do Atlântico pode impactar na Amazônia
Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico. Foto: Stefan Mulitza

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?

O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência.

Leia também: Ponto de não retorno: a Amazônia não tem tempo a perder

Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada.

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 e 21/13129-8.

O artigo ‘Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene’ pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por José Tadeu Arantes

Cabo Maciel solicita ampliação do Crédito Rosa e interiorização de programas da Afeam

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Foto: Paulo Ferraz

O deputado estadual Cabo Maciel (PL) protocolou na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) requerimentos destinados ao fortalecimento da economia e ao apoio às mulheres empreendedoras do Distrito de Santo Antônio do Matupi, no município de Manicoré, por meio da ampliação do Programa Crédito Rosa e da interiorização das ações da Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam).

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O parlamentar destacou que a região é marcada pela força do comércio, da agricultura familiar, da pecuária e do artesanato, mas ainda enfrenta barreiras significativas no acesso ao crédito e em políticas públicas que incentivem o empreendedorismo.

“É preciso garantir mais oportunidades para que mulheres e pequenos empreendedores do interior tenham acesso às mesmas condições que existem nos grandes centros. O Crédito Rosa e os programas da AFEAM representam dignidade, geração de renda e justiça social. Santo Antônio do Matupi tem um potencial enorme e merece esse olhar especial do Estado”, afirmou Cabo Maciel.

Crédito Rosa

No primeiro requerimento, o deputado solicita a ampliação do Programa Crédito Rosa, com a instalação de um ponto fixo no distrito. O objetivo é facilitar o acesso de mulheres empreendedoras ao crédito, eliminando deslocamentos até a sede municipal e ampliando a inclusão econômica. O programa garante autonomia financeira, autoestima e fortalecimento do protagonismo feminino no desenvolvimento comunitário.

Leia também: Direitos dos consumidores e das crianças são reforçados por Projetos de Lei na Aleam

Afeam

Outro requerimento apresentado por Cabo Maciel é voltado para a implementação de programas da Afeam em Santo Antônio do Matupi, assegurando linhas de crédito diferenciadas, apoio técnico e estímulo à formalização de atividades produtivas. A medida visa incluir pequenos produtores, comerciantes, prestadores de serviços e artesãos que hoje encontram dificuldades em acessar políticas de fomento devido à distância geográfica e à falta de presença direta da instituição no distrito.

De acordo com o parlamentar, a chegada dos programas da AFEAM terá impacto direto na geração de emprego e renda, fortalecendo a economia local e ampliando oportunidades de negócios, além de contribuir para o desenvolvimento sustentável de Manicoré como um todo.

“Quando investimos no interior, garantimos que o desenvolvimento chegue a quem mais precisa. Esses programas vão impulsionar a economia, reduzir desigualdades e transformar a realidade de centenas de famílias em Santo Antônio do Matupi”, completou Cabo Maciel.

Primeiro sítio arqueológico do Brasil com sinais de granito lascado é encontrado em Roraima

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Foto: Marta Sara Cavallini

Um sítio arqueológico localizado no município de São Luiz, no Sul de Roraima, foi identificado como o primeiro do Brasil com evidências de granito lascado manuseado por povos indígenas pré-coloniais. Conhecido como Arara Vermelha, o local tem sinais de que a rocha era usada na produção de artefatos. A descoberta inédita faz parte de um estudo da Universidade de São Paulo (USP).

Doutora pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), a arqueóloga Marta Sara Cavallini estuda a região desde 2018 e foi quem chegou à conclusão sobre o uso do granito como algo rudimentar feito para ser utilizado como ferramenta.

A pesquisa focou na documentação das abundantes gravuras rupestres presentes em dezenas de blocos de granito distribuídos numa área de quase 30 hectares, no sítio arqueológico.

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Marta Sara Cavallini chegou ao Brasil em 2008 e estuda arqueologia na Amazônia desde então. Ela destaca que em outros sítios arqueológicos pelo Brasil há indícios de que os povos manuseavam outros tipos de minérios. O Arara Vermelha foi apontado como primeiro com lascas de granito, algo inédito no país.

Granito é uma pedra natural que se forma dentro da terra ao longo de milhões de anos. Ele nasce quando rochas derretidas esfriam devagar, formando cristais reluzentes. Hoje em dia, o granito é uma rocha usada para revestimentos, pisos, bancadas, fachadas e até monumentos. Mas, no período estudado pela pesquisadora, tinha a função de ferramenta.

“Encontramos no Arara Vermelha uma verdadeira indústria de lascamento de granito. Isso não é comum em outros sítios arqueológicos do Brasil, onde normalmente se encontram vestígios em outros tipos de rocha. Essa é uma característica única que torna o local especial”, explica a pesquisadora.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que são sítios arqueológicos?

Foto: Marta Sara Cavallini

O Arara Vermelha — também conhecido como Sítio Pedra do Sol — fica localizado na vicinal 22, em uma região de agricultura no município de São Luiz, distante 62 km da sede da cidade, dentro de uma propriedade rural. A região ocupa uma área de 27,3 hectares, equivalente a 37 campos de futebol.

Os estudos da pesquisadora indicam que o sítio foi ocupado há pelo menos 1.500 anos. Há sinais que podem datar de mais de 9 mil anos, mas essa hipótese ainda precisa ser estudada e confirmada por futuras pesquisas.

“As ocupações mais claras são a partir de 1.500 anos, mas não podemos descartar a possibilidade de que o sítio tenha sido usado por grupos humanos muito antes disso. O que sabemos é que ele foi intensamente frequentado ao longo do tempo e que diferentes povos deixaram suas marcas ali”, afirma.

Gravuras rupestres por todo lugar

O Arara Vermelha é formado por um morro de granito de cerca de 38 metros de altura. Trata-se de um abrigo rochoso que ocorreu de forma natural e foi usado pela população que ali vivia. Também há uma área plana ao redor, onde estão espalhados blocos de pedra com gravuras.

O sítio com gravuras rupestres Arara Vermelha é formado por um morro de granito de cerca de 38 metros de altura e por uma área plana no entorno. No alto do morro há uma área coberta por rochas com 132 m², mas a paisagem rupestre vai muito além dele: a área plana reúne cerca de 17 hectares de rochas gravadas.

Segundo a arqueóloga, a maioria dos sítios de arte rupestre reconhecidos na Amazônia encontram-se às margens dos rios e são poucos os sítios até hoje cadastrados em áreas de terra firme, como é o caso do Arara Vermelha.

Foto: Marta Sara Cavallini

“Estamos diante de um amplo território inteiramente gravado, com matacões [rochas] de até quatro metros de comprimento, apresentando uma significativa variabilidade quanto às formas escolhidas, desde figuras isoladas até superfícies totalmente cobertas”, descreve Cavallini.

Entre os registros, há representações de seres humanos, figuras geométricas, círculos que lembram o sol, animais como calangos – espécie de lagarto presente na Amazônia e formas abstratas. Uma análise preliminar da arte rupestre e os dados levantados durante as escavações arqueológicas sugerem a possibilidade que diferentes povos ao longo do tempo tenham ocupado o local e produzido as gravuras.

“Esse sítio mostra que Roraima tem um patrimônio arqueológico riquíssimo, ainda pouco conhecido. O Arara Vermelha é um exemplo de como diferentes povos ocuparam e transformaram o território ao longo de milênios”.

Segundo ela, o abrigo revela também estruturas de granito organizadas manualmente, que podem ter servido de base para fogueiras, pisos ou armazenamento.

Foto: Marta Sara Cavallini

A descoberta do sítio Arara Vermelha

O primeiro registro de pesquisa no sítio ocorreu em 1995. À época, o professor do ensino médio da escola estadual João Rodrigues, de São Luiz, Waldir Cassiano desenvolveu um trabalho de pesquisa “embrionário” com os alunos.

Essa pesquisa resultou em um relatório que ganhou um prêmio na feira de ciências da região Sul de Roraima, sendo classificado como um trabalho preliminar de arqueologia.

Anos depois, a pesquisadora Marta Cavallini dedicou-se a estudar a região de maneira científica para o doutorado no Museu de Arqueologia e Etnologia na USP. Ela atua na arqueologia pré-colonial amazônica desde 2009 e considera a descoberta como um avanço significativo para Roraima, destacando que o estado carece de pesquisas acadêmicas aprofundadas em arqueologia.

Foto: Marta Sara Cavallini

A área que compreende o sítio foi adquirido pela agricultora Minelvina Silva de Mesquita, de 44 anos e o marido dela em 2003. Ela e a família compraram o terreno em 2003, sem imaginar que, em meio às rochas e ao mato, havia registros arqueológicos milenares.

“Quando a gente comprou não era do nosso conhecimento. Descobrimos no finalzinho de 2004. A gente tenta preservar, mas o fogo vindo de outros lotes atinge a área e fica difícil manter”.

Leia também: Conheça três sítios arqueológicos na Amazônia que são considerados patrimônio cultural do Brasil

“Fazemos o que dá, mas não temos estrutura para cuidar do sítio do jeito que ele merece sozinhos”, disse a proprietária do Arara Vermelha.

Segundo ela, o contato com a pesquisadora Marta ajudou a dar dimensão ao valor da área. No entanto, a falta de apoio institucional pesa no dia a dia. Mesmo diante das dificuldades, Minelvina afirma sentir orgulho por guardar em sua propriedade um pedaço da história dos povos originários da Amazônia.

“É uma riqueza que está ali, no nosso território. A gente só queria ter mais condições de preservar para que outras pessoas também conheçam e valorizem”, completa.

Preservação ameaçada

Apesar da importância histórica, o Arara Vermelha enfrenta ameaças constantes. A região é usada para criação de gado e a prática da queima de áreas de mata para formação de pasto danificou blocos de granito com gravuras rupestres e comprometeu parte do entorno do sítio.

O proprietário do terreno tem buscado apoio junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para preservar a região sem perder a principal fonte de sustento.

O Iphan informou que o Arara Vermelha recebeu recentemente sinalizações indicativas da legislação de proteção e com informações gerais sobre o local. O instituto disse ainda que realiza visitas periódicas para verificar as condições de conservação e ações de georreferenciamento e sinalização dos sítios arqueológicos em todo o estado.

Segundo o instituto, como o sítio está em área privada, cabe ao proprietário realizar medidas preventivas caso tenha interesse em explorar economicamente a região.

“O dono do terreno sempre nos procurou para tentar conciliar a atividade econômica e a preservação do patrimônio. Mas até hoje não há uma política pública que dê esse suporte. Sem isso, os sítios arqueológicos de Roraima continuam em risco”, disse a pesquisadora.

Primeiro sítio arqueológico do Brasil com sinais de granito lascado é encontrado em Roraima
Foto: Marta Sara Cavallini

De acordo com o Iphan, Roraima possui um “enorme potencial arqueológico, com sítios cadastrados em 14 dos 15 municípios, totalizando mais de 300 locais de diferentes tipos (rupestres, líticos, cerâmicos, funerários, etc.)”.

O Arara Vermelha é o que tem a datação mais antiga até o momento. O instituto acrescentou que já existem publicações sobre sítios identificados nas décadas de 1970 e 1980 e estudos feitos no âmbito do licenciamento ambiental. Do ponto de vista acadêmico, quatro pesquisas foram submetidas ao Iphan, sendo duas no Arara Vermelha, uma na Terra Indígena Trombetas-Mapuera e uma na Terra Indígena São Marcos

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

Direitos dos consumidores e das crianças são reforçados por Projetos de Lei na Aleam

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Foto: Danilo Mello/Aleam

É provável que motoristas amazonenses que precisem abastecer seus veículos já tenham se confundido com os preços de combustíveis expostos em painéis e banners de postos locais, que costumam dar mais destaque para valores reduzidos, vinculados a programas de desconto.

Para coibir essa prática, iniciou tramitação na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), nesta quarta-feira (10/9), o Projeto de Lei (PL) nº 750/2025, que proíbe os postos de combustíveis de exibirem valores promocionais em escala maior que os preços reais ofertados.

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De autoria do presidente da Casa, deputado Roberto Cidade (UB), a proposta busca evitar práticas abusivas que geram confusão, induzem ao erro e ferem o direito à informação clara e precisa assegurado pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC).

“Em um Estado de dimensões continentais, marcado por custos logísticos elevados e forte impacto do preço dos combustíveis no orçamento familiar, a clareza na divulgação de preços se torna ainda mais essencial”, afirmou Cidade.

Leia também: Observatório da Mulher da Aleam releva a estatística de mulheres que sofreram violência

O parlamentar lembrou que fiscalizações recentes em postos de Manaus já resultaram em autuações e interdições motivadas por falhas em equipamentos e pela falta de transparência no atendimento ao consumidor.

O PL prevê, ainda, que a informação seja sempre clara e visível, inclusive durante a manutenção ou limpeza dos painéis, além de estabelecer penalidades proporcionais para quem descumprir a norma.

Sanções

Também iniciou tramitação na Casa Legislativa o PL nº 747/2025, de autoria do deputado Cabo Maciel (PL), que institui sanções administrativas a cidadãos e servidores que, por dolo ou culpa, violarem os direitos de crianças e adolescentes no Amazonas.

“Nosso objetivo é cumprir a nossa obrigação de formar cidadãos e proteger o futuro de nossos jovens”, destacou Cabo Maciel.

Orla de Santarém é espaço de divulgação de arte e ganha destaque entre visitantes

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Foto: Reprodução/ Youtube Canal Chácara São Jorge

Na orla de Santarém, no Pará, iniciativas artísticas têm recebido atenção crescente por meio de intervenções visuais que valorizam a identidade regional e ampliam o espaço urbano como ambiente cultural.

Nos últimos anos, a orla — já símbolo do encontro dos rios Tapajós e Amazonas — passou a abrigar pinturas em telas e murais que celebram a fauna, a flora e o patrimônio local, em esforços que buscam ressignificar áreas públicas por meio da arte.

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Uma das iniciativas registradas ocorreu por meio de exposições de pinturas em tela na orla de Santarém, protagonizadas pelo artista plástico Ari Paiva. Essas obras incluem paisagens amazônicas ou representações temáticas que remetem à natureza da região, visíveis no espaço à beira-rio.

A presença dessa arte foi compartilhada em redes sociais por meio de vídeos com trabalhos em acrílico sobre tela exibidos na orla.

Além disso, uma pintura amazônica em muro, também assinada por Ari Paiva, foi destacada como trabalho marcante e elogiado por visitantes e moradores. “Conheci ele na orla de Santarém o trabalho magnífico”, comentou um admirador.

Outros vídeos compartilhados mostram paisagens amazônicas em telas, reiterando o foco temático no patrimônio natural da região.

Restauração de esculturas complementa cenário artístico na orla

A expressão cultural na orla de Santarém vai além da pintura. Em fevereiro de 2023, a Prefeitura iniciou serviços de recuperação e pintura das esculturas, que incluem reproduções de objetos, peixes e mamíferos nativos localizadas ao longo da beira-rio. Essa ação faz parte da manutenção de elementos artísticos e simbólicos já presentes no local.

Panorama das pinturas na orla de Santarém

ElementoDescrição
Exposições de telasRealizadas por Ari Paiva, representam paisagens e temas amazônicos e estão expostas à orla
Mural em muroObra pintada na orla por Ari Paiva, destacada como trabalho de impacto visual
Restauração artísticaInclui pintura e recuperação de esculturas com fauna local, preservando elementos culturais já presentes na orla
Cultura na PraçaProjeto que integra arte, oficinas e mostras culturais na Praça da Fortaleza, promovendo ocupação cultural de espaços públicos
Orla como atrativo turístico e culturalA combinação de paisagem, obras visuais e artesanato fortalece o papel da orla como principal espaço público da cidade

Revitalização da Praça da Fortaleza integra cultura e espaço público

Praça Fortaleza do Tapajós após reforma. Foto: Prefeitura de Santarém

Outro aspecto da valorização da orla é a revitalização de espaços adjacentes ao calçadão, como a Praça da Fortaleza, que foi requalificada por meio do projeto ‘Cultura na Praça’. A iniciativa incluiu programação cultural com oficinas, exposições e apresentações artísticas promovidas pela Secretaria Municipal de Cultura (Semc).

O objetivo, segundo a secretaria, é democratizar o acesso à cultura, promovendo cidadania, pertencimento e fortalecendo a economia criativa para artistas e empreendedores locais.

Assim, a orla de Santarém que já era reconhecida como um dos principais cartões-postais do município, também vem atraindo visitantes pela interação com a arte.

Com maior taxa de analfabetismo do Norte, Acre enfrenta desafio no acesso à educação

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Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

O Acre aparece com o maior índice de analfabetismo da Região Norte de acordo com dados do Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 12,1% da população com 15 anos ou mais não sabe ler e escrever. No Dia Mundial da Alfabetização, o índice leva a uma reflexão nos desafios enfrentados no acesso à educação no estado.

O percentual é bem acima da média nacional de 7%. Tocantins (9,1%) e Pará (8,8%) também ficaram entre os piores índices. Já Amazonas e Roraima registraram 6,9% cada.

Criada em 1967 pela Unesco, a data chama atenção para a importância da leitura. Mais do que decifrar palavras, o processo envolve também habilidades que permitem interpretar o mundo, organizar ideias e conquistar independência.

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Segundo a pedagoga Virginia de Castro, com a leitura e a escrita é possível interpretar o cotidiano. ”Saber usar essas ferramentas de uma forma útil no dia a dia é essencial no cotidiano”, disse.

Ao Grupo Rede Amazônica, a Secretaria de Educação e Cultura (SEE-AC) explicou que a Educação Infantil é de responsabilidade das redes municipais, mas que o estado atua nos anos iniciais do ensino fundamental por meio do Programa Alfabetiza Acre.

Ainda segundo o órgão a iniciativa atende jovens e adultos, com três mil alunos beneficiados pela modalidade EJA, que oferta oportunidades educacionais a todas as idades.

A porcentagem revelada pelo Censo equivale a mais de 73.835 pessoas que não sabem ler nem escrever no estado, e que necessitam de oportunidade para ter acesso

“Paulo Freire traz que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Conseguimos perceber tudo isso que está acontecendo ao nosso redor, organizar histórias e tomar o nosso espaço no mundo, com nossas próprias interpretações”, acrescentou.

Leia também: “Redário” é usado como incentivo à alfabetização por escola paraense

Desigualdade no Acre

No Acre, cerca de 60 mil pessoas têm algum tipo de deficiência, e o estado também apresenta a maior taxa de analfabetismo desse grupo na região Norte.

Ainda segundo o Censo 2022 do IBGE, 30,7% das pessoas com deficiência no estado não sabem ler nem escrever, enquanto entre quem não tem deficiência o índice é de 9,57%. A pesquisa também mostra que a maioria desse público não completou o ensino fundamental, e apenas 7,8% têm ensino superior completo.

Acre enfrenta desafio no acesso à educação
Foto: Divulgação

Cor e gêneros

Além da taxa geral, o Censo também mostra diferenças no analfabetismo quando observados fatores como cor e gênero. No Acre, 85,9% dos analfabetos são pretos ou pardos, o que representa 49 mil pessoas com idade acima de 15 anos. Entre os brancos, o percentual é de 12,3%, cerca de 7 mil pessoas.

Na qualificação por gênero, são 30 mil homens acreanos analfabetos com 15 anos ou mais, número que representa 52,6% do total. Entre as mulheres, o índice corresponde a 47,4%, o que equivale a 27 mil pessoas sem ler e escrever.

Analfabetismo funcional

Quando o assunto é analfabetismo funcional, o Brasil segue no mesmo patamar 2018, com 29% de analfabetos funcionais. O problema é mais comum entre pessoas de 40 a 64 anos, e chega a atingir 51% das pessoas com 50 anos ou mais.

Já em 2024, 59,2% das crianças matriculadas na rede pública de ensino foram alfabetizadas na idade certa. O número vem crescendo, mas ainda está longe do ideal. Para especialistas no tema, os prejuízos da alfabetização tardia vão além de uma questão de tempo.

Além disso, o país também enfrenta um alto índice de analfabetismo funcional. No ano passado, 3 a cada 10 brasileiros de 15 a 64 anos eram analfabetos funcionais.

Ou seja, essas pessoas conseguem apenas ler palavras isoladas, frases curtas, ou apenas identificar números familiares, como contatos telefônicos, endereços e preços.

*Por Jhenyfer de Souza e Giselle Loureiro, da Rede Amazônica AC

Moro-Morí: Projeto de piscicultura avança e chega à comunidade indígena São Marcos

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O processo de limpeza prepara o ambiente para novos ciclos de cultivo de peixes. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Com ações que garantem mais qualidade e segurança alimentar, além de gerar emprego e renda nas comunidades indígenas de Boa Vista, a prefeitura tem atuado diretamente no incentivo à piscicultura, com o projeto Moro-Morí. Em nova etapa da atividade aquícola, o tanque da comunidade São Marcos, localizada na região Baixo São Marcos passa por processo de tratamento da água.

O processo de limpeza prepara o ambiente para novos ciclos de cultivo de peixes, evitando doenças e promovendo um manejo mais eficiente, sustentável e produtivo para os piscicultores. De acordo com o secretário de Agricultura e Assuntos Indígenas, Cezar Riva, o apoio da prefeitura ao Moro-Morí nas comunidades indígenas representa mais do que um incentivo à produção.

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Hoje, 14 comunidades indígenas contam com a iniciativa em andamento. Foto: Diane Sampaio/PMBV

“É uma ação de valorização cultural, geração de renda e sustentabilidade. Oferecemos suporte técnico, escavação do tanque, equipamentos, alevinos, rações e acompanhamento constante e capacitação para que os piscicultores indígenas possam desenvolver uma atividade produtiva, fortalecendo a economia local de forma sustentável, em cada comunidade atendida pelo município”, disse.

Leia também: Prefeitura adquire drones e capacita técnicos para ampliar serviços a produtores e impulsionar a agricultura familiar

Durante todo processo de implantação e desenvolvimento da piscicultura nas comunidades indígenas, técnicos da Secretaria Municipal de Agricultura e Assuntos Indígenas apoiam os produtores com assistência técnica especializada. Segundo o Tuxaua da São Marcos, Cleidson Pereira, seis famílias da comunidade estão envolvidas diretamente no projeto, liderando as atividades.

“Nossa comunidade está muito feliz com o início dos trabalhos voltados para a criação de peixe”, disse o Tuxaua Cleidson Pereira. Foto: Diane Sampaio/PMBV

“Nossa comunidade está muito feliz com o início dos trabalhos voltados para a criação de peixe. Procuramos envolver toda a comunidade, inclusive as crianças para que elas possam dar seguimento a esse projeto e seja difundido cada vez mais na região. Sem o apoio da Prefeitura de Boa Vista, a gente não conseguiria implantar essa atividade, já que o investimento inicial é bem alto”, contou.

Capacitação das famílias

Famílias responsáveis pelo gerenciamento do projeto nas comunidades indígenas participam de curso sobre técnicas de manejo da piscicultura, voltados para a parte teórica e prática. Durante a capacitação, os piscicultores recebem treinamento para a preparação dos tanques, cuidados com a qualidade da água e controle de doenças, da alimentação dos alevinos, o acompanhamento biométrico (medição e pesagem) mensal até o momento da despesca.

No processo, os produtores retiraram cerca de 11 toneladas de peixes dos tanques. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Hoje, 14 comunidades indígenas contam com a iniciativa em andamento e mais três serão beneficiadas até o fim do ano. Até o momento, cinco já fizeram a despesca: Serra da Moça, Darora, Campo Alegre, Vista Alegre e Ilha. No processo, os produtores retiraram cerca de 11 toneladas de peixes dos tanques. Parte da produção é consumida na comunidade e a outra parcela é destinada à comercialização.

Levantamento da Fiocruz Amazônia indica infecção recente de febre Oropouche em parte da população ao longo da BR-319

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Foto: Divulgação/Projeto Rede Pampa BR-319

A Fiocruz Amazônia, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) e o Instituto Evandro Chagas (IEC-PA), está realizando um levantamento sorológico inédito ao longo de um trecho de aproximadamente 800 quilômetros da BR-319 – estrada federal que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) – visando identificar a presença de anticorpos contra patógenos causadores de doenças como leptospirose, hantavirose, febre Oropouche, dengue, febre Mayaro, chikungunya, entre outras.

O objetivo do estudo é avaliar, no contexto do conceito One Health (Uma Só Saúde), como a degradação ambiental pode influenciar a dinâmica de circulação de vírus emergentes e reemergentes na região amazônica. A abordagem considera a saúde humana, animal e ambiental de forma integrada, buscando compreender de que maneira o modo de vida local, a interação com a floresta e as transformações ambientais impactam o risco de doenças.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o ‘trecho do meio’ da BR-319?

Foto: Divulgação/Projeto Rede Pampa BR-319

O trecho em estudo inclui comunidades como Igapó Açu e Realidade, além de diversos pequenos povoados ao longo da rodovia, onde são realizadas expedições periódicas do projeto. Cada expedição dura, em média, 20 dias, tempo suficiente para coletas de sangue, entrevistas com moradores e ações de educação em saúde. Denominado Rede Pampa-BR 319, o projeto começou há três anos e, ao final, pretende apresentar um diagnóstico integrado com dados ecológicos, demográficos e clínicos.

Fiocruz trabalha com parceiros para realizar diagnóstico

O trabalho é coordenado pelo pesquisador em Saúde Pública Pritesh Lalwani, da Fiocruz Amazônia, em parceria com os professores doutores José Luiz Modena (Unicamp-SP), que acompanha o trabalho no Amazonas, e Lívia Martins (IEC-PA), que desenvolve diagnóstico semelhante na região de mineração de Carajás, no sudeste do Pará. O projeto conta com financiamento das Fundações de Amparo à Pesquisa do Amazonas (FAPEAM), de São Paulo (FAPESP) e do Pará (FAPESPA), no âmbito do edital Amazônia+10, do Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap).

Segundo Lalwani, a relevância do projeto está na possibilidade de subsidiar políticas públicas voltadas para a população dessas áreas, a partir do conhecimento direto sobre o estado de saúde das pessoas que vivem nelas.

“A ideia do projeto surgiu de um diálogo sobre o impacto histórico da abertura de estradas no Brasil, que em vários casos esteve associado ao aumento de doenças infecciosas. No caso da BR-319, parte da estrada já é asfaltada, mas há longos trechos sem pavimentação. Queremos entender como as pessoas vivem na região e quais os principais desafios de saúde existentes”, resume.

levantamento da Fiocruz avalia como a degradação ambiental pode influenciar a dinâmica de circulação de vírus
Foto: Divulgação/Projeto Rede Pampa BR-319

Das amostras humanas analisadas até o momento, mais de 50% das cerca de 300 pessoas testadas apresentaram resultado positivo para anticorpos IgM contra o vírus Oropouche (OROV), indicando infecção recente. O OROV é um arbovírus transmitido principalmente por pequenos insetos do gênero Culicoides (maruim ou mosquito-pólvora) e, até poucos anos atrás, sua ocorrência estava majoritariamente restrita ao bioma amazônico.

No entanto, após uma grande epidemia de OROV na Amazônia brasileira em 2023-2024, surtos passaram a ser registrados em diferentes estados do Brasil e até em outros países da América Latina, aumentando a preocupação com seu potencial de dispersão. Por apresentar sintomas semelhantes aos de outras arboviroses, como febre, dor de cabeça e dores musculares, o OROV pode ser facilmente subdiagnosticado.

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O pesquisador ressalta que compreender o impacto das ações humanas sobre o meio ambiente é essencial para antecipar e mitigar riscos sanitários. Embora a relação causal entre degradação ambiental e o surgimento de novas doenças infecciosas ainda esteja sendo investigada, estudos sugerem que mudanças no uso da terra, desmatamento e proximidade maior entre pessoas, animais domésticos e fauna silvestre podem estar associadas ao aumento de doenças zoonóticas.

“Nosso projeto busca gerar evidências concretas para avaliar como esses fatores interagem. Alterações ambientais, como o desmatamento, podem modificar o habitat de vetores e reservatórios, criando condições que favorecem a transmissão de patógenos. Ao entender essas dinâmicas, podemos orientar medidas de prevenção mais eficazes”, explica.

Foto: Divulgação/Projeto Rede Pampa BR-319

O diagnóstico produzido pelo projeto da Fiocruz servirá como linha de base para comparações futuras, especialmente após o recapeamento da BR-319, permitindo avaliar se as mudanças na infraestrutura e no uso da terra vão influenciar o risco e a ocorrência dessas doenças.

“Com esses indicadores, poderemos propor estratégias e fortalecer o acesso do SUS a essas comunidades”, destaca.

Integração institucional

O ILMD/Fiocruz Amazônia vem atuando para ampliar a integração institucional entre grupos de pesquisa em saúde e meio ambiente na Amazônia. Para a vice-diretora de Pesquisa e Inovação da Fiocruz Amazônia, Michele Rocha El Kadri, um diagnóstico organizacional feito entre 2015 e 2016 já apontava a transversalidade dos temas saúde e ambiente nas pesquisas da instituição.

“A análise de vários projetos mostrou que saúde e ambiente eram temas conectados, mas essa conexão nem sempre era percebida de forma explícita. Hoje, essa relação é vivida de forma muito concreta”, avalia.

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Para El Kadri, o estudo sobre o impacto causado pelas mudanças climáticas e a degradação ambiental na saúde é uma das oportunidades de alavancar recursos e dar visibilidade as ações desenvolvidas no ILMD no protagonismo da agenda saúde e ambiente na Amazônia.

“Temos uma diversidade muito potente de expertise nos nossos laboratórios que vai desde a pesquisa clínica ao diálogo com medicina indígena, ou desde o desenvolvimento de novos testes diagnósticos à educação ambiental com comunidades. Além disso, somos reconhecidos como instituição de formação de pessoas para o SUS. A questão é como converter nosso capital político e científico em ações concretas na agenda da saúde nos territórios amazônicos. Nossa capacidade de influenciar políticas públicas de alimentação, saúde, saneamento, cultura de paz, etc, passa necessariamente pela nossa capacidade de trabalhar com as pessoas no território”, avalia. 

*Com informações da ILMD/Fiocruz Amazônia

Estudo aponta que determinação política é chave para conter desmatamento no Brasil e Indonésia

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Área de floresta nativa amazônica. Foto: Eufran Amaral

A determinação política, fortalecida pela pressão da sociedade civil e pela diplomacia internacional, é fator decisivo para proteger as florestas na Amazônia brasileira e na Indonésia. A conclusão é de um estudo publicado na revista Conservation Letters, que analisou os aspectos responsáveis pelo sucesso na proteção florestal no Brasil e Indonésia, países que abrigam algumas das maiores áreas remanescentes de florestas tropicais do planeta.

A pesquisa, baseada na metodologia Delphi, buscou ir além das análises quantitativas tradicionais. O estudo envolveu 36 pesquisadores e outros profissionais dos dois países e investigou fatores estruturais e muitas vezes intangíveis – como vontade política, atuação da sociedade civil e pressão internacional – que foram determinantes para as quedas históricas no desmatamento.

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Quedas expressivas do desmatamento em décadas recentes

O Brasil reduziu o desmatamento em 84% entre 2004 e 2012, enquanto a Indonésia alcançou uma redução de 78% no período entre 2016 e 2021.

“Nosso objetivo foi entender quais fatores colaboram para a manutenção das florestas – apesar do desmatamento desenfreado, ainda temos mais de dois terços das florestas tropicais do mundo. O Brasil e a Indonésia possuem as maiores áreas remanescentes de florestas tropicais e cada um deles reduziu significativamente o desmatamento em décadas recentes”, declara Joss Lyons-White, pesquisador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, e um dos autores principais do artigo.

“O trabalho compara dois contextos distintos, Amazônia e Indonésia, identificando semelhanças, diferenças e combinações ideais de fatores de proteção florestal”, detalha o pesquisador da Embrapa Cerrados, Júlio César dos Reis, um dos coautores do artigo.

Área de floresta e de diversos usos da terra. Foto: Eufran Amaral

Como os especialistas chegaram a um consenso

Para chegar a essas conclusões, o estudo empregou a metodologia Delphi, que envolveu múltiplas consultas interativas com 17 especialistas do Brasil e os 21 na Indonésia (dois participantes têm expertise nos dois países). O processo incluiu rodadas de questionários anônimos e um workshop virtual, permitindo que o grupo refinasse suas visões sem a influência de indivíduos dominantes, comum em discussões presenciais. “Buscamos identificar toda a gama de fatores que mantêm as florestas em pé, a relativa importância de cada um e como eles mudaram ao longo do tempo”, conta uma das autoras, Rachael Garrett, também da Universidade de Cambridge.

A aplicação da metodologia envolveu, inicialmente, uma rodada de perguntas abertas para identificar fatores-chave, seguida da priorização dos cinco mais relevantes entre os 15 mais citados. Na sequência, foi realizado um workshop on-line para discussão e elaboração de modelos regionais. Depois, os participantes responderam a uma nova rodada de avaliação sobre a importância dos fatores nas décadas de 1990, 2000 e 2010. Por fim, foi feita a síntese dos resultados.

O estudo envolveu pesquisadores, agentes públicos e outros profissionais especialistas em conservação florestal na Amazônia Brasileira e na Indonésia com artigos publicados em revistas de alto impacto, participação em painéis ou membros de organizações que atuam na proteção das florestas.

Queimadas normalmente antecedem o desmatamento ilegal. Foto: Eufran Amaral

Pressão social e diplomacia: os motores da vontade política

Os participantes do estudo identificaram a vontade política para fazer cumprir as leis como o fator mais importante para o sucesso na proteção florestal. No entanto, essa determinação não surge no vácuo. “Esse processo é gerado pelos constantes esforços da sociedade civil ao longo do tempo, engajamento público e pressão internacional. Apesar de ser tentador seguir as últimas tendências de conservação, esforços contínuos nessas três áreas são o que fazem a real diferença”, declara um dos principais coautores do artigo: Matthew Spencer, do The Sustainable Trade Initiative (IDH).

Segundo Reis, a expansão agrícola historicamente impulsionou o desmatamento, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980, quando o Estado brasileiro, sob o lema “integrar para não entregar”, incentivou a conversão de florestas, em especial na Amazônia, para fins agrícolas.

“Na Região Amazônica, a intensificação da agricultura e a demanda por commodities continuam associadas à perda florestal. Contudo, políticas públicas como o Código Florestal e o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) mostraram que, com vontade política e fiscalização, é possível reduzir a relação direta entre agricultura e desmatamento”, relata o cientista.

Área de floresta e de agricultura. Foto: Eufran Amaral

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Indonésia: uma combinação complexa de atores

O cenário na Indonésia se mostrou mais complexo, com uma variedade maior de fatores influentes. Iniciativas do setor privado, como políticas de “desmatamento zero” em cadeias de commodities, somaram-se a ações governamentais, como uma moratória para novas licenças de cultivo de palma de óleo.

Segundo os autores, essa combinação diversa reflete um processo de descentralização e recentralização da governança florestal no país, contrastando com a ênfase mais direta em políticas públicas federais observada no caso brasileiro.

“Ao observar a importância relativa de diferentes fatores ao longo do tempo, a diplomacia internacional e a pressão da sociedade civil destacaram-se claramente como fatores importantes para gerar determinação política para a proteção das florestas. Na década de 2010, por exemplo, quando a Indonésia alcançou suas principais reduções no desmatamento, a vontade política foi percebida como o fator mais importante”, explica Spencer.

O papel vital das comunidades tradicionais e indígenas

O estudo destacou que, na Amazônia brasileira, o reconhecimento dos direitos e territórios tradicionais e indígenas foi considerado outro fator importante para a conservação desde a década de 1990, com sua relevância só aumentando ao longo dos anos.

“O reconhecimento desses direitos pelo estado brasileiro desempenhou um papel crucial no desenvolvimento das condições que culminaram com o sucesso da conservação das florestas entre 2004 e 2012 e formarão uma parte vital do quebra-cabeças para conservar as florestas no futuro”, afirma Rachael Garrett.

Os dados do Censo Demográfico (do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, IBGE, 2022) ilustram a dimensão humana dessa realidade: 5,82% da população brasileira, ou 11,8 milhões de pessoas, residem em Unidades de Conservação (UCs).

Desse total, 282,3 mil são quilombolas e 132,8 mil são indígenas. Um desafio crítico: 40,34% dos domicílios nessas áreas apresentam pelo menos uma categoria de precariedade, como a ausência de saneamento básico. Para Judson Valentim, pesquisador da Embrapa Acre e coautor do estudo, a conservação a longo prazo está intrinsecamente ligada ao bem-estar dessas populações.

“Para garantir a conservação das florestas, é importante que haja renda por meio da valorização dos produtos da sociobiodiversidade a fim de assegurar a qualidade de vida dessas populações, guardiãs desse formidável estoque de recursos naturais”, ressalta. 

Foto: Ronaldo Rosa

Um alerta para a COP30

As constatações do estudo chegam às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, que será realizada em Belém (PA) em 2025. Os pesquisadores acreditam que esse trabalho serve como alerta para diplomatas, políticos e líderes globais. Ele deixa a mensagem de que a conservação das florestas tropicais é possível, mas depende, fundamentalmente, de uma decisão política sustentada, que por sua vez é alimentada pela vigilância constante da sociedade e pela cooperação internacional.

“Políticos, diplomatas, representantes da sociedade civil organizada, profissionais e especialistas devem ter isso em mente e continuar com a luta pela conservação das florestas”, finaliza Garret.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa

Isabelle Nogueira é anunciada como enredo de escola de samba de Manaus no Carnaval 2026

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Cunhã-poranga do Garantido Isabelle Nogueira. Foto: Michael Dantas/Acervo SEC AM

A Escola de Samba Presidente Vargas anunciou, na terça-feira (9), que a ex-BBB e influenciadora amazonense Isabelle Nogueira será homenageada no Carnaval 2026 em Manaus (AM). O enredo escolhido leva o título ‘Com Uma Flecha e Um Sonho: Isabelle Nogueira, a Força da Mulher Amazônica’.

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O anúncio foi feito em tom de suspense nas redes sociais da agremiação. “O segredo está guardado… mas não por muito tempo. Uma filha da Matinha, do berço da Presidente Vargas para o mundo. Isabelle Nogueira é a nossa homenageada, símbolo da cultura do Amazonas, uma guerreira amazônica que levou a sua raiz, sua gente e sua história para o Brasil inteiro e para além das fronteiras”, destacou o post.

Isabelle Noguera, a cunhã

Isabelle, que nasceu e cresceu no bairro Presidente Vargas, antiga Matinha, território também da escola de samba, celebrou a homenagem em vídeos publicados nos stories do Instagram.

“Tô muito feliz mesmo com essa homenagem e carinho. É a escola do bairro em que morei muitos anos. A gente tem umas histórias juntos pra contar, um enredo bem forte, bem orgânico, bem verdadeiro. E também de poder mostrar pra todo mundo que no Amazonas, em Manaus, tem um carnaval muito lindo, com muitas escolas e muitos artistas competentes e maravilhosos. Só gratidão no meu coração”, disse.

isabelle nogueira na glocal 2025
Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

A escola também divulgou um vídeo em que Isabelle narra a sua ligação com o bairro. Nele, a manauara fala das memórias de infância no Presidente Vargas, ainda conhecido pelo antigo nome Matinha, da importância da comunidade e do samba.

“Foi aqui, na Matinha, que tudo aconteceu. Essa terra também é o coração da Presidente Vargas, meu berço, minha raiz, parte da minha história. Aqui aprendi que o samba é mais do que dança, é identidade, é resistência e muito amor. Esse chão que me viu nascer hoje me viu honrar minhas raízes. Tenho muito orgulho de dizer que sou parte dessa história”, narrou.

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O anúncio da homenagem acontece em um momento especial para a Presidente Vargas. Em 2025, a escola foi campeã do Grupo de Acesso A, somando 268,20 pontos com o enredo “Águas e Florestas – Os Encantos do Sul de Roraima”. A apresentação, que conquistou jurados e público, garantiu o retorno da agremiação ao Grupo Especial do Carnaval de Manaus em 2026.

Além da ligação com a cultura popular do Amazonas, Isabelle também vem conquistando espaço no Carnaval brasileiro. Cunhã-poranga do Boi Garantido, ela estreou como musa da Acadêmicos do Grande Rio no desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em março deste ano, quando desfilou na Marquês de Sapucaí com uma fantasia em homenagem a Jurema.

*Por Daniel Landazuri, da Rede Amazônica AM