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Dia da Amazônia: três temas que merecem reflexão sobre o futuro da região

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Indígena com a bandeira do Brasil. Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

A Amazônia concentra alguns dos maiores desafios sociais, econômicos e ambientais do Brasil. A região abriga mais de 30 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e ocupa uma posição estratégica por compartilhar 11 mil quilômetros de fronteiras terrestres com oito países da América do Sul.

Essa localização a torna vulnerável ao tráfico internacional de drogas, à exploração ilegal de recursos naturais e à presença de organizações criminosas. Além disso, comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas convivem diariamente com dificuldades de acesso a serviços básicos como saúde, educação, alimentação saudável e água potável.

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O Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, levanta uma série de questões sobre a região, mas apesar do foco em 2025 ser grande, muito em função da realização da COP 30, três temas poderiam ganhar mais visibilidade nos debates sobre os problemas estruturais amazônicos: segurança pública; alimentação sustentável e água potável; e direitos humanos.

Os temas se interligam e revelam alguns dos principais entraves para o desenvolvimento sustentável e para a preservação da floresta e de seus povos.

Segurança pública

A segurança pública é um dos temas mais críticos na Amazônia. Em 2024, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou que facções criminosas atuam em 260 dos 772 municípios da Amazônia Legal, evidenciando o avanço do crime organizado na região. Essas organizações exploram rotas fluviais e terrestres, utilizadas tanto para o tráfico de drogas como para contrabando e transporte de minérios extraídos de forma ilegal.

Leia também: Conflito por território é principal gerador de violência na Amazônia, aponta estudo

No campo do combate, operações como a operação Ágata Amazônia, coordenada pelo Ministério da Defesa, intensificaram a presença das Forças Armadas em mais de 600 mil quilômetros quadrados de fronteira, com foco no enfrentamento ao garimpo ilegal e ao tráfico de drogas. Já a Polícia Rodoviária Federal informou que, em 2025, realizou a maior apreensão de ouro do garimpo ilegal de sua história, interceptando 143 quilos do minério nas rodovias do Pará e de Roraima.

Leia também: Explosão do tráfico de drogas na Amazônia atrai a atenção do mundo

garimpo na amazônia
Garimpo ilegal em terras indígenas no Pará em agosto de 2021. Foto: Reprodução/Polícia Federal

Um caso emblemático também marcou a pauta de segurança: os assassinatos do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, em junho de 2022, no Vale do Javari. Em 2025, o Ministério Público Federal denunciou Ruben Dario Villar, conhecido como “Colômbia” e que apontado como mandante do crime. Sobre o episódio, Beto Marubo, membro da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) declarou ao jornal The Guardian que “a ausência do Estado possibilita a consolidação de regiões controladas por traficantes”, reforçando a necessidade de maior presença governamental em áreas isoladas.

Leia também: Livro póstumo de Dom Phillips propõe esforço coletivo para salvar a Amazônia

Alimentação sustentável e água potável

A insegurança alimentar e hídrica é outro ponto de destaque. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em 2024 mostrou que 69,3% dos domicílios urbanos de Itapiranga (AM) vivem algum grau de insegurança alimentar, e que 46,2% sofrem insegurança hídrica. A pesquisa concluiu que a falta de acesso à água potável está diretamente associada às formas mais graves de insegurança alimentar.

Em nível regional, dados da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) apontam que apenas 60% da população amazônica tem acesso à água potável e somente 14% dispõe de esgotamento sanitário adequado. Essa precariedade compromete a saúde pública e amplia a dependência de políticas emergenciais.

Para enfrentar o problema, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social informou, em maio de 2025, que ampliou o Programa Cisternas para comunidades ribeirinhas e indígenas, instalando sistemas que captam e armazenam água da chuva.

Outro ponto chave é sobre a caça de subsistência de comunidades tradicionais, necessária para a sobrevivência dessas pessoas, mas que deve ter a atenção de ações educativas, para que não exceda aquilo que a floresta pode oferecer sem ser explorada de modo prejudicial.

Leia também: Estudo aponta que caça de subsistência tem papel importante para segurança alimentar de comunidades tradicionais

Direitos humanos

A violação de direitos humanos na Amazônia está relacionada à exploração ilegal, à violência contra defensores da floresta e à falta de políticas públicas universais. A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece, desde 2010, o acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos essenciais. No entanto, relatórios da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) indicam que esses direitos ainda não são plenamente garantidos para indígenas, quilombolas e ribeirinhos da Amazônia.

A atuação de movimentos sociais tem sido fundamental. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), por exemplo, denuncia constantemente ameaças à vida e ao território de lideranças locais. Isso porque muitas vezes os crimes ambientais (como o garimpo, desmatamento, etc) estão ligados à violações de direitos, principalmente de populações tradicionais na região.

‘Gandula aquático’, uma peculiaridade do futebol amazonense no estádio Afonsão

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Estádio Afonsão, no Careiro Castanho. Foto: Janailton Falcão

O Estádio Antônio Afonso Jacob de Souza, conhecido como Afonsão, está localizado no município de Careiro Castanho, no Amazonas. Inaugurado em 1994, recebeu esse nome em homenagem ao ex-prefeito Antônio Afonso Jacob de Souza. Mas sua fama não é por conta do nome.

O estádio possui capacidade estimada de cerca de 8 mil lugares, o que atende aproximadamente um quinto da população do município (em torno de 30.792 habitantes, conforme o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística – IBGE).

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Sua infraestrutura inclui vestiários, área destinada à imprensa e um campo de futebol para competições locais e regionais. E o Afonsão tem sido utilizado, predominantemente, para jogos amadores e competições como a ‘Copa dos Rios’ e a ‘Copa Afonsão’ — esta última reunindo dezenas de equipes locais anualmente.

O Rio Castanho e o cenário único do Afonsão

A fama do Afonsão surgiu por conta de uma característica peculiar. O estádio foi erguido em rara estrutura: rodeado por corpos d’água, especialmente o Rio Castanho. E ele apresenta uma proximidade tão estreita com as margens que, em alguns setores, o rio envolve três lados da praça esportiva.

Essa configuração geográfica lhe confere certa singularidade: durante os jogos, se uma bola for chutada com força além do gramado, pode parar diretamente nas águas do rio. Nesse cenário, o gandula designado, Dione Santos Souza, conhecido localmente como “Vinte e Um”, utiliza uma canoa e um remo para recuperar os artefatos esportivos. O procedimento o destaca como único “gandula aquático” no âmbito nacional.

Dione descreve sua rotina com entusiasmo:

“Trabalhamos no esporte por amor e quando disseram que precisava ser gandula, eu aceitei na hora. Pra mim é um prazer buscar a bola nas águas de uma das nossas maiores riquezas, que são nossos rios. Pego a canoa e vou remando atrás da bola porque o espetáculo lá no campo não pode ser interrompido”.

Ele acrescenta: “Ser gandula entrou de uma tal forma na minha vida, que agora não consigo me imaginar sem minha canoa, remo e indo buscar as bolas. Sinto muito orgulho de trabalhar no Rio Castanho, que é tão importante para o povo da nossa cidade”.

Leia também: Futebol na Amazônia #1: saiba quais são os principais times e campeonatos que movimentam o Amazonas

gandula aquatico do afonsão
‘Vinte e Um’, o “gandula aquático” do estádio Afonsão. Foto: Yago Rudá/Acervo GE Amazonas

Uso e reconhecimento regional

A Federação Amazonense de Futebol (FAF), responsável pela organização de competições no Amazonas e vinculada à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), recebeu, em 2023, Ednailson Leite Rozenha como seu presidente.

Desde então, a FAF tem promovido eventos com foco regional com mais empenho, como a Copa da Floresta, ligações com comunidades indígenas, inclusão do futebol de base e feminino.

Com essa visão, nos últimos anos, o estádio tem sido avaliado como alternativa para sediar partidas do Amazonas Futebol Clube (Amazonas FC), clube da Série B do Campeonato Brasileiro. A intenção é realizar de duas a quatro partidas no Estádio Afonsão, inclusive contra times como Paysandu e Mirassol, caso o estádio cumpra as exigências técnicas e de segurança da CBF.

Dados resumidos

AspectoDetalhes
NomeEstádio Antônio Afonso Jacob de Souza — “Afonsão”
LocalizaçãoCareiro Castanho, Amazonas — cerca de 100–123 km de Manaus
Inauguração1994
Capacidade aproximada8.000 lugares — cerca de 1/5 da população local
Característica única“Gandula aquático” – recuperação de bolas com canoa no Rio Castanho
Uso principalJogos amadores, eventos locais e estudado para partidas da Série B

Leia também: Primeira partida de futebol do Brasil aconteceu na Amazônia; descubra onde

Tucunaré Vazzoleri rende recorde histórico na pesca esportiva para amazonense

Foto: Salomão Rossy Elgaly/Acervo pessoal

O pescador esportivo amazonense Salomão Rossy Elgaly conquistou mais um feito para o Hall da Fama da pesca esportiva no Brasil. No dia 18 de agosto de 2025, ele registrou um recorde unificado brasileiro e amazonense ao capturar um tucunaré vazzoleri de 78 centímetros, homologado pela BGFA Recordes, entidade responsável pela validação oficial dos maiores exemplares de pesca esportiva do país.

A captura ocorreu no Rio Paratucu, em Nhamundá (AM), durante uma expedição em caiaque. A façanha foi registrada na categoria Caiaque Absoluto Masculino, na modalidade comprimento. O recorde foi certificado tanto no âmbito nacional quanto estadual, confirmando o tucunaré capturado por Salomão como um dos maiores exemplares já catalogados na Amazônia.

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A captura do tucunaré de 78 cm

Segundo os dados oficiais divulgados pela BGFA Recordes, o tucunaré media 78 cm, respeitando todos os critérios de aferição estabelecidos pela entidade. O pescador utilizou carretilha de perfil baixo, linha multifilamento de 65 libras e jig Zoiudo como isca artificial. O guia da operação foi João Maciel, em expedição organizada pela River X Amazon.

Salomão relatou que o momento da captura foi marcado por grandes desafios.

“O rio ainda estava cheio, era o terceiro dia de pesca e havia pouquíssimas ações. Voltei para o lago por volta das 14h, e como a pescaria de caiaque é bem dificultosa, precisei intercalar arremessos e remadas para manter a posição. Quando arremessei o jig para o meio do lago, no segundo arremesso, senti o impacto em cima do gigante”, descreveu ao Portal Amazônia.

O tucunaré, de grande força, levou muita linha para o meio do lago antes de ser controlado. “Parecia uma gigante barra de ouro, com filamentos azuis. O tucunaré vazzoleri é realmente um dos peixes mais incríveis de toda a Amazônia”, acrescentou.

Reconhecimento oficial e recorde homologado

Após a aferição realizada com régua oficial da BGFA, o feito foi homologado e concedeu a Salomão Rossy Elgaly dois certificados: Recorde Brasileiro e Recorde Amazonense na categoria Caiaque Absoluto Masculino.

A BGFA destacou o simbolismo do registro: “A abertura dos recordes brasileiro e amazonense foi marcada por esse exemplar de tucunaré vazzoleri, que se junta ao histórico da pesca esportiva nacional. A homologação confirma os 78 cm de acordo com as regras da BGFA”.

Salomão, que comemorou aniversário no dia 25 de agosto, recebeu antecipadamente a publicação oficial de seu recorde como uma forma de presente. “Foi uma situação especial e por isso antecipamos a divulgação”, declarou a BGFA.

A trajetória de Salomão Rossy Elgaly

Com 46 anos, Salomão já acumula diversos feitos na pesca esportiva. Empresário e recordista, ele é reconhecido como um dos nomes de destaque no cenário brasileiro. Em anos anteriores, seus registros de tucunarés de grande porte também foram homologados pela BGFA, consolidando seu nome no Hall da Fama da Pesca Esportiva.

Leia também: Amazonense está entre maiores recordistas de pesca esportiva do país

Ao longo de sua trajetória, o pescador amazonense destaca a importância da prática do pesque e solte, preservando a biodiversidade da Amazônia. Em entrevista, explicou que o uso da régua homologada pela BGFA é essencial para garantir a lisura dos recordes. “A aferição é feita com uma régua específica, deferida e produzida pela BGFA Recordes no Brasil. Meus recordes de 2022 e 2023 já haviam sido registrados dessa forma”, afirmou.

Além disso, Salomão destacou que a maioria de suas conquistas foi registrada em rios próximos à capital amazonense. “Meus recordes foram todos registrados bem próximo à cidade de Manaus, aqui do lado, no Rio Solimões”, disse.

aém do tucunaré, salomão já pescou outras espécies que também renderam recordes
Foto: Salomão Rossy Elgaly/Acervo pessoal

Pesca esportiva na Amazônia

Bacia Amazônica é também um dos cenários mais ricos para a prática da pesca esportiva. Com centenas de espécies catalogadas, os rios da região abrigam exemplares de grande porte que atraem pescadores do Brasil e do exterior.

Na modalidade esportiva, a prática não tem fins comerciais nem alimentares. Os pescadores utilizam equipamentos específicos para cada tipo de peixe e ambiente, respeitando a natureza e devolvendo os animais ao rio após a captura.

A homologação de recordes como o de Salomão Rossy Elgaly reforça o potencial da Amazônia como palco de conquistas esportivas e como um dos ecossistemas mais impressionantes do planeta.

Leia também: Entenda como funciona a pesca esportiva e como deixar o peixe menos ‘estressado’ durante a pescaria

Compromisso ambiental e futuro da pesca esportiva

Além de seus feitos em rios amazônicos, Salomão também participa de projetos voltados para a conscientização sobre saúde ambiental e biodiversidade. Durante conversa recente, ele ressaltou sua experiência de 10 anos no centro de zoonoses, onde trabalhou em estudos relacionados a aves urbanas e doenças transmitidas.

“O Dudu Monteiro, jornalista de Palmas, queria fazer uma reportagem, mas eu disse que precisávamos abordar isso dentro de um programa mais amplo, voltado à biologia e meio ambiente. A ideia é alertar a população sobre doenças que atingem várias cidades, incluindo Manaus”, contou.

Essa conexão entre ciência, meio ambiente e pesca esportiva reforça o papel dos recordistas não apenas como atletas, mas também como agentes de conscientização ambiental.

Um marco para a história da pesca esportiva

O tucunaré vazzoleri de 78 cm capturado no Rio Paratucu entrou para a história como mais um recorde de Salomão Rossy Elgaly, consolidando o amazonense entre os maiores pescadores esportivos do Brasil.

Os certificados concedidos pela BGFA Recordes garantem a oficialidade do feito e destacam a Amazônia como território privilegiado para a prática da pesca esportiva. Para Salomão, cada captura é uma oportunidade de valorizar a biodiversidade da região e demonstrar a força dos rios amazônicos no cenário mundial da pesca esportiva.

Milton Hatoum: dos prêmios literários à Academia Brasileira de Letras

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Milton Hatoum. Foto: Divulgação

Milton Hatoum, um dos nomes mais proeminentes da literatura brasileira contemporânea, tem sua trajetória marcada não apenas pela profundidade de suas obras, mas também por um notável reconhecimento em forma de prêmios literários. Ao longo de sua carreira, o escritor amazonense conquistou distinções que validam a qualidade de sua prosa e a relevância de sua narrativa no cenário nacional e internacional.

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Milton Hatoum
Escritor Milton Hatoum. Foto: Hamyle Nobre/Menina Miúda Produções Artísticas

Sua escrita, que se debruça sobre temas como a memória, a identidade, a política e a complexidade das relações humanas, ressoou com críticos e leitores, resultando em uma coleção impressionante de honrarias.

A consagração de Hatoum começou cedo, com seu romance de estreia, “Relato de um Certo Oriente”, de 1989. A obra, que tece a história de uma família libanesa em Manaus, foi agraciada com o Prêmio Jabuti de 1990, na categoria de Livro do Ano. O Jabuti, um dos mais tradicionais e prestigiados prêmios literários do Brasil, foi um marco inicial que sinalizou a ascensão de um novo talento na literatura brasileira. A conquista não foi um evento isolado, mas o prelúdio de uma série de reconhecimentos que se seguiram, solidificando o nome de Hatoum no panteão literário.

Foto: Reprodução

O sucesso de “Relato de um Certo Oriente” foi seguido por “Dois Irmãos”, de 2000. Este romance, que narra a história de uma família dividida pelo conflito entre dois irmãos gêmeos, Omar e Yaqub, tornou-se um fenômeno editorial e crítico. A obra rendeu a Hatoum mais um Prêmio Jabuti, desta vez em 2001, na categoria de Melhor Romance.

“Dois Irmãos” também foi agraciado com o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005. O prêmio, que visava a valorização da literatura contemporânea em língua portuguesa, reafirmou a importância da obra de Hatoum para o cenário lusófono. A adaptação da obra para a televisão e o cinema também demonstra a relevância e o impacto cultural do livro.

Leia também: Milton Hatoum: dez livros essenciais do escritor amazonense que transformou Manaus em literatura universal

A Continuidade de Prêmios e a Reconquista do Jabuti

A trajetória de Milton Hatoum é caracterizada pela consistência. A cada novo lançamento, o escritor continuou a colecionar prêmios, confirmando sua maestria narrativa. Seu terceiro romance, “Cinzas do Norte”, publicado em 2005, recebeu diversos reconhecimentos. A obra, que retorna à paisagem de Manaus e explora as transformações sociais e políticas da região, garantiu a Hatoum o Prêmio Jabuti de 2006, na categoria de Livro do Ano de Ficção. O romance também foi vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2006, consolidando a obra como um marco na literatura brasileira e lusófona.

Milton Hatoum. Foto: Ed Figueiredo/instagram cpfsesc

Em 2008, o livro “A Cidade Ilhada”, uma coletânea de contos, foi aclamado com o Prêmio Jabuti, na categoria de Livro do Ano de Ficção. Essa vitória marcou a quarta vez que Hatoum era laureado com o prêmio mais importante da literatura brasileira. A obra, que reúne histórias sobre a cidade de Manaus e seus habitantes, demonstra a versatilidade do autor em diferentes formatos literários. A coleção de prêmios de Hatoum não se restringe apenas ao Brasil. Sua obra tem sido traduzida para diversas línguas, e ele também foi reconhecido no exterior, como com a condecoração de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, concedida pelo governo francês em 2005.

A mais recente conquista notável de Hatoum foi com o romance “O Sol na Cabeça”, de 2018. A obra, que aborda temas como a violência urbana e a amizade, foi finalista de diversos prêmios. A recepção crítica da obra foi amplamente positiva, reforçando a posição de Milton Hatoum como um dos maiores expoentes da literatura contemporânea. A sequência de prêmios literários ao longo de sua carreira atesta a qualidade de sua produção literária e o seu impacto duradouro na literatura brasileira. A extensa lista de honrarias reflete o valor de suas narrativas e sua capacidade de dialogar com o leitor por meio de histórias que exploram as complexidades da vida humana.

Jijukè, a líder indígena que marcou a história da nota de mil cruzeiros

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Jijukè, da aldeia Hãwalo, tinha cem anos. Montagem: Reprodução

A história de Jijukè, uma figura proeminente do povo Iny Karajá, se entrelaça com a história do dinheiro no Brasil. Sua imagem foi estampada no verso da histórica cédula de 1.000 cruzeiros, lançada em 1990, tornando-a uma das primeiras mulheres indígenas a ser homenageada em uma nota brasileira.

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Jijukè, a líder indígena que marcou a história da nota de mil cruzeiros

A cédula de 1.000 cruzeiros e o reconhecimento indígena

A inclusão da imagem de uma mulher indígena em uma cédula de circulação nacional representou um marco simbólico para o reconhecimento e a valorização dos povos originários no Brasil. A cédula de 1.000 cruzeiros, emitida em 1990, foi a segunda na história do país a homenagear a cultura indígena, após uma cédula de cinco cruzeiros em 1962. A imagem no anverso era do Marechal Cândido Rondon, um explorador e sertanista que dedicou sua vida à causa indígena, e no verso, a fotografia de Jijukè.

A fotografia, capturada pelo fotógrafo José Américo, mostrava Jijukè em um momento de sua vida cotidiana na aldeia Hãwalo. Essa representação não apenas destacou a beleza e a dignidade dos povos indígenas, mas também colocou em evidência a importância de sua presença na sociedade brasileira. A cédula se tornou um veículo para a conscientização sobre a riqueza cultural e a diversidade étnica do país, expondo a imagem de Jijukè para milhões de pessoas.

Leia também: Conheça alguns dos animais da fauna amazônica que estão estampados em moedas da Amazônia Internacional

A biografia e a relevância de Jijukè

Jijukè era uma matriarca e uma líder respeitada do povo Iny Karajá, da aldeia Hãwalo, a maior aldeia da etnia, localizada em Santa Isabel do Morro, no estado do Tocantins. Sua sabedoria e conhecimento eram referências para sua comunidade. Ela era uma guardiã das tradições, das lendas e dos costumes de seu povo, desempenhando um papel crucial na transmissão do conhecimento ancestral para as novas gerações.

Além de sua atuação como guardiã da cultura, Jijukè era uma líder ativa no cotidiano da aldeia. Sua participação em rituais e nas atividades de subsistência era essencial para a manutenção da vida comunitária. Sua figura representava a força, a resiliência e a dignidade do povo Karajá, que, assim como outras etnias indígenas, enfrenta desafios na luta pela demarcação de terras e pela preservação de suas identidades.

A morte de Jiju

Jijukè faleceu no dia 11 de agosto de 2025, aos 100 anos de idade. Sua morte representa a perda de uma liderança comunitária e de um elo com a memória indígena brasileira. A causa do óbito não foi divulgada.

O falecimento de Jijukè é um lembrete da finitude dos guardiões da cultura e da importância de registrar e preservar o conhecimento ancestral. Sua vida foi uma jornada de luta e resistência, e sua imagem na cédula de 1.000 cruzeiros a tornou uma figura inesquecível, um símbolo de dignidade e força.

O legado de Jijukè

A cédula de 1.000 cruzeiros teve uma vida curta devido à transição da moeda brasileira, mas o legado de Jijukè permaneceu. Sua imagem, impressa em papel, se tornou uma marca na história do Brasil, um lembrete do reconhecimento da cultura indígena e da luta por seus direitos.

A história de Jijukè é um exemplo de como a representatividade, mesmo que simbólica, pode ter um impacto duradouro. Sua imagem na cédula de cruzeiros abriu portas para um debate mais amplo sobre a participação dos povos indígenas na sociedade brasileira e a necessidade de valorizar e respeitar suas culturas e tradições. O legado de Jijukè é um convite à reflexão sobre a importância da diversidade e da inclusão na construção de um país mais justo e igualitário.

Milton Hatoum é o mais novo eleito para a cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras

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Escritor amazonense Milton Hatoum. Foto: Hamyle Nobre/Menina Miúda Produções Artísticas

O escritor amazonense Milton Hatoum foi eleito, no dia 14 de agosto, para a Academia Brasileira de Letras (ABL), assumindo a cadeira número 6, anteriormente ocupada pelo jornalista Cícero Sandroni (1935-2025). A eleição ocorreu cinco dias antes do aniversário de 73 anos do autor, considerado um dos mais importantes romancistas do país.

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Milton Hatoum. Foto: Divulgação

Além de Hatoum, também concorreram à vaga Eduardo Baccarin-Costa, Cezar Augusto da Silva, Antônio Campos, Paulo Renato Ceratti e Angelos D’Arachosia. O amazonense foi o primeiro a oficializar sua candidatura enviando a carta de inscrição para a instituição.

Trajetória e obras marcantes

Nascido em Manaus, em 1952, filho de imigrantes libaneses, Milton Hatoum cresceu em um ambiente influenciado por narrativas familiares que marcaram profundamente sua literatura. Seu avô paterno chegou ao Brasil em 1904, passando por Rio Branco antes de retornar ao Líbano. Anos depois, seu pai, Hassan Hatoum, estabeleceu-se na Amazônia, onde se casou com Naha Assi Hatoum, também descendente de libaneses.

Milton Hatoum
Escritor Milton Hatoum — Foto: Wanezza Soares

A infância e juventude de Hatoum foram vividas na capital amazonense, onde desenvolveu paixão pela leitura. Ainda adolescente, leu autores como Graciliano Ramos, Machado de Assis e Jorge Amado. Aos 15 anos, mudou-se para Brasília, publicando seu primeiro poema no Correio Braziliense em 1969. No ano seguinte, iniciou o curso de Arquitetura na Universidade de São Paulo (USP), mas também frequentou aulas de literatura e teoria literária.

Sua carreira como escritor consolidou-se com romances premiados, entre eles “Relato de um certo oriente” (1989), vencedor do Prêmio Jabuti, “Dois irmãos” (2000) e “Cinzas do norte” (2005). “Órfãos do Eldorado” (2008), “A noite da espera” (2017) e “Pontos de fuga” (2019) também compõem sua bibliografia. Todos os romances foram publicados pela Companhia das Letras.

“Dois irmãos” foi adaptado para minissérie exibida na TV Globo e no Globoplay, com Cauã Reymond e Matheus Abreu interpretando os gêmeos protagonistas. Em 2024, “Relato de um certo oriente” ganhou adaptação para o cinema sob direção de Marcelo Gomes, com elenco de origem libanesa.

Leia também: 10 lugares reais em Manaus descritos nas obras de Milton Hatoum

Milton Hatoum na ABL e a renovação da instituição

Com a eleição de Milton Hatoum, a ABL segue um ano de intensa renovação. Em 2025, já foram realizadas cinco eleições para preenchimento de cadeiras. Em julho, a mineira Ana Maria Gonçalves tornou-se a primeira mulher negra a ingressar na Academia. No início de agosto, a jornalista Míriam Leitão tomou posse, destacando em seu discurso a importância da representatividade feminina e da diversidade cultural na literatura.

A cadeira número 6, que agora será ocupada por Hatoum, já teve nomes como o diplomata José Carlos de Macedo Soares e o escritor Pedro Nava. Cícero Sandroni, último ocupante, faleceu em junho de 2025.

O escritor amazonense assume a posição com uma trajetória marcada por múltiplos prêmios e reconhecimento internacional. Além de seus romances, Hatoum também publicou coletâneas de contos e crônicas, como “Cidade ilhada” (2009) e “Sete crônicas” (2023). Sua produção literária é caracterizada por temas como conflitos familiares, identidade cultural, imigração e o cotidiano amazônico.

A eleição de Hatoum também reforça a presença da literatura da região Norte na ABL, uma instituição historicamente centrada no eixo Rio-São Paulo. Atualmente, o escritor vive em São Paulo, mas mantém vínculo constante com o Amazonas, cenário e inspiração de grande parte de suas obras. Inclusive, recentemente em uma entrevista a TV Cultura em 2024 falou sobre como aborda a Amazônia em suas obras.

O ano de 2025 marca ainda a posse de outros nomes como José Roberto de Castro Neves e Paulo Henriques Britto. Entre os atuais imortais, estão autores e personalidades como Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, Lilia Schwarcz, Ruy Castro e Paulo Coelho.

A posse de Milton Hatoum será marcada por discurso em que o escritor deve destacar a importância da literatura como ferramenta de preservação da memória cultural e de reflexão sobre a sociedade brasileira.

Estádio Zerão: o único do mundo com linha central na Linha do Equador

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O estádio Zerão é o único estádio cortado pela Linha do Equador. Fonte: Mega Curioso

O Estádio Milton de Souza Corrêa, mais conhecido como Zerão, localizado em Macapá, capital do Amapá, é um dos pontos esportivos mais curiosos e singulares do planeta. A estrutura se tornou um marco internacional por ser o único estádio de futebol do mundo cuja linha central coincide com a Linha do Equador, dividindo o campo entre os hemisférios Norte e Sul.

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A peculiaridade geográfica desperta interesse de torcedores, turistas e estudiosos. Ao longo dos anos, o local se consolidou não apenas como palco de partidas de futebol, mas também como um atrativo turístico e um símbolo cultural do Amapá.

Estádio Zerão
Estádio Zerão voltou a ter as arquibancadas lotadas, após dois anos por causa da pandemia — Foto: Netto Lacerda/Rede Amazônica

O Zerão foi inaugurado em 1990, recebendo o nome em homenagem ao ex-presidente da Federação Amapaense de Desportos, Milton de Souza Corrêa. Desde o início, sua localização despertou atenção por estar exatamente sobre a Linha do Equador, elemento que inspirou o apelido “Zerão”, referência ao marco zero da linha imaginária que divide o globo terrestre.

O projeto original previa um espaço para mais de 10 mil torcedores, mas ao longo dos anos o estádio passou por reformas e adequações, aumentando sua capacidade e modernizando a estrutura. Além do campo de jogo, a arena possui pista de atletismo e áreas destinadas a outras modalidades esportivas, reforçando seu papel multifuncional para a comunidade.

A posição geográfica é precisa: a marca do meio de campo está localizada exatamente sobre a latitude 0º, permitindo que cada equipe, ao iniciar a partida, tenha metade de seus jogadores em um hemisfério e a outra metade no hemisfério oposto.

Curiosidade geográfica e impacto cultural

O fato de o Zerão estar dividido entre os dois hemisférios confere ao estádio um charme especial e único. Em uma partida, um atacante pode avançar do Hemisfério Norte para o Sul enquanto conduz a bola, e o goleiro, na outra ponta, pode estar defendendo no hemisfério oposto. Essa singularidade atrai não apenas amantes do futebol, mas também turistas interessados em geografia e fenômenos incomuns.

O estádio se tornou ponto de visitação constante em Macapá. Muitos turistas buscam registrar fotos na linha central, com um pé em cada hemisfério, vivenciando a sensação de estar literalmente no meio do mundo. Essa característica também já foi explorada em eventos esportivos e culturais, sendo motivo de reportagens e documentários nacionais e internacionais.

A curiosidade também já despertou a atenção de vários apaixonados pelo esporte ‘Bretão’. Há diversos vídeos na internet sobre a característica única desse estádio que foram abordados em vídeos. Um desses vídeos é do criador de conteúdo digital Raphael Dantas do canal futeboldoraphael.

Utilização e eventos marcantes

O Zerão é casa de clubes amapaenses, como o Trem, o Santos-AP, o Ypiranga e outros times que disputam o Campeonato Amapaense. Também já recebeu competições regionais e nacionais, incluindo partidas da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro em divisões inferiores.

Estádio Olímpico do Zerão Milton de Souza Corrêa será sede mais uma vez do Amapazão. Foto: Philippe Gomes/Secom

Ao longo de sua história, o estádio passou por períodos de inatividade devido a reformas estruturais, mas sempre retomou seu papel de centro esportivo da capital amapaense. Além do futebol, a arena já recebeu shows, eventos cívicos e atividades educacionais, aproveitando o simbolismo de sua localização.

O campo, medindo 110 metros de comprimento por 75 de largura, segue os padrões da FIFA, e o gramado passou por melhorias nos últimos anos para atender às exigências de competições oficiais. As arquibancadas oferecem visão privilegiada do campo e, de alguns pontos, é possível observar com clareza a marca que simboliza a passagem da Linha do Equador.

Patrimônio esportivo e turístico do Amapá

O Estádio Zerão é mais do que um espaço para o futebol: é um símbolo de identidade e orgulho para a população de Macapá e do Amapá como um todo. Sua singularidade geográfica coloca o estado no mapa mundial do esporte e do turismo, atraindo visitantes curiosos para conhecer um local onde o jogo ultrapassa a dimensão esportiva e se conecta diretamente com a geografia do planeta.

Estádio Olímpico Zerão oferta 80 vagas para a escolinha de futebol. Foto: Rafael Moreira/Sedel

O apelido “jogar no meio do mundo” ganhou significado real no Zerão. Com um pé no Norte e outro no Sul, jogadores e torcedores vivenciam uma experiência que não pode ser replicada em nenhum outro estádio do mundo.

Assim, o Zerão segue unindo esporte, cultura e turismo, reforçando o papel do futebol como elemento de integração e preservando a memória de um espaço que é, ao mesmo tempo, um campo de jogo e um marco geográfico de importância global.

Capivara late? Biólogo explica como é a vocalização do animal

Foto: Giovani Oliviera/PMBV

Um vídeo que circulou recentemente nas redes sociais, publicado por Paula Ojeda, chamou a atenção de internautas ao mostrar uma capivara emitindo um som muito semelhante a um latido de cachorro. A gravação gerou curiosidade e dúvidas: afinal, capivaras “latem”?

O Portal Amazônia conversou com o biólogo Fernando Pinto, mestre em Ciências Biológicas, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), para esclarecer como é a vocalização desse animal típico da fauna brasileira.

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Segundo Fernando, o som que muitos identificaram como um “latido” é, na verdade, uma vocalização comum entre as capivaras.

“A vocalização da capivara é muito semelhante à vocalização emitida por um cachorro. Então o que, na nossa concepção, parece um latido, na verdade, é a vocalização normal dela”, explica o biólogo.

Ele afirma que, assim como os cães, as capivaras possuem um repertório vocal variado, utilizado para expressar diferentes emoções e se comunicar com o grupo: “Provavelmente, no caso desse vídeo, esse latido aparente — que foi um som mais acelerado — foi para avisar o restante do grupo que tinha um predador perigoso nas proximidades”.

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Assim, além da vocalizações da capivara servir para alertar, também pode ser usada para reunir o grupo ou até se relacionar durante o período de acasalamento. “Elas devem ter um repertório, porque os animais têm um repertório. Não emitem só um tipo de som”, destaca Fernando, comparando com o comportamento de outros mamíferos, como gatos e cães, cujos sons mudam conforme o contexto.

Embora o termo “latido” seja mais comumente associado a cachorros, Fernando explica que ele é usado nesse caso por aproximação.

“A gente pode dizer que é um latido, mas aí seria por falta de um nome melhor, né? Algumas pessoas podem chamar de esturro, outras de urro. Mas o importante é entender que esse som é algo normal para esse animal”, comenta.

E capivara pia?

Além dos sons parecidos com latidos, Fernando explica que filhotes de capivara também emitem um tipo de “piado”, que pode ser reproduzido por pesquisadores em campo com o uso de instrumentos específicos. “O pessoal que trabalha com esses bichos até tem um instrumento para imitar esse ‘piado’, para poder chamá-los e filmar de forma mais direta”, comenta.

A vocalização da capivara, segundo o biólogo, é um exemplo claro de comunicação evoluída entre mamíferos. “Nos mamíferos isso é muito mais evidente, porque os mamíferos estão numa linha evolutiva muito superior. Cada som tem um significado”, completa.

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A capivara é o maior roedor do mundo. Pode medir, no caso dos machos, até 1,5 metro de comprimento, e pesar cerca de 50 quilos. São animais que habitam áreas alagadas, margens de rios e igarapés em toda a América do Sul.

Também são considerados animais sociais, vivem em grupos e possuem comportamento pacífico, o que também contribui para sua popularidade — especialmente em áreas urbanas onde se adaptaram bem à presença humana.

O vídeo viral serviu como oportunidade para divulgar mais informações sobre esse animal emblemático. E, como destacou o biólogo Fernando Pinto, o som curioso da capivara não é motivo de susto: “É apenas uma forma dela se comunicar com o grupo, e por acaso, lembra o latido de um cachorro”.

‘Vermelho’: a cor que virou símbolo cultural nas vozes do povo e na história de Chico da Silva

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Manuscrito de ‘Vermelho’, música de Chico da Silva. Foto: Reprodução/Instagram-chicodasilvaoficial

Muito mais do que designar uma cor, esta palavra virou símbolo cultural nas vozes do povo mundo a fora e na história do compositor amazonense Chico da Silva. A canção que recebe esse nome ganhou vida própria, sendo adotada por gerações de torcedores do Boi Garantido, de Parintins, e ultrapassando os limites da arena para se tornar parte da identidade da região Norte. Mas qual foi a origem dessa música?

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Recentemente, o cantor publicou em suas redes sociais uma relíquia: o manuscrito da canção. Em entrevista ao Portal Amazônia, Chico da Silva relembrou como a música surgiu, ainda nos anos 1990. “Eu não fiz ‘Vermelho’ para ser uma música de boi. Eu fiz como uma toada romântica”, contou o compositor.

A letra e melodia, inicialmente despretensiosas, logo caíram no gosto popular e começaram a ganhar espaço nos eventos ligados ao Garantido, até se consolidarem como símbolo máximo da paixão encarnada.

A canção foi eternizada nacionalmente na voz da cantora Fafá de Belém, que a gravou e ajudou a popularizá-la em todo o Brasil. No entanto, para Chico, o verdadeiro sucesso de ‘Vermelho’ veio das arquibancadas, das ruas de Parintins e dos corações vermelhos e brancos.

“O Garantido é a minha origem. É uma ligação que nunca vai se apagar. Quando ouço o povo cantar ‘Vermelho’, eu vejo ali o coração batendo da nossa cultura”, afirmou.

Vermelho’ e a busca pela valorização regional

Apesar do sucesso com suas canções, o compositor alerta sobre o cenário atual em que muitas produções artísticas da região são avaliadas de forma superficial. Segundo ele, obras com grande profundidade cultural ou social muitas vezes não recebem o reconhecimento merecido por conta de decisões influenciadas por critérios subjetivos ou interesses pessoais.

Um exemplo citado foi a toada ‘Lamento de Raça‘, escolhida pelo Garantido em um dos festivais. A canção abordava questões sociais sensíveis e possuía forte carga emocional, mas, segundo Chico, “não recebeu o devido destaque na arena”.

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O motivo, para ele, está relacionado à forma como certas decisões são tomadas nos bastidores da cultura: “Tem muita coisa que é julgada não pela qualidade, mas por quem fez”.

O compositor também destacou que, por vezes, há resistência dentro dos próprios círculos culturais quanto à inovação e à liberdade criativa. “Antigamente, já se impunham muitas ideias e limitações. Hoje ainda vemos isso, em menor escala, mas presente. Existe influência de determinadas pessoas na escolha e na valorização das toadas”, disse.

O compositor amazonense Chico da Silva. Foto: Divulgação

Ainda assim, Chico da Silva vê esperança no poder do povo. Ele acredita que canções como ‘Vermelho’ sobrevivem e crescem justamente por criarem laços diretos com as pessoas. “A música passou a ser cantada espontaneamente. O povo colocou ela no lugar que tem hoje. E isso não tem júri que apague”, afirmou.

A aceitação popular, segundo ele, é uma das maiores formas de validação artística. Mesmo diante da ausência de prêmios ou reconhecimentos institucionais, algumas músicas conseguem ganhar força por meio da conexão emocional que constroem com o público.

“O sucesso de ‘Vermelho’ veio da rua, veio do povo. É isso que dá sentido à arte que fazemos aqui”, declarou.

Por outro lado, Chico também aponta a necessidade de um investimento maior na valorização da cultura local. Ele afirma que o talento da região amazônica é vasto, mas que ainda falta apoio para garantir visibilidade e sustentabilidade a esses artistas. “O povo do Norte é criativo, é resistente, é brilhante. Mas sem apoio e sem visibilidade, essa luz não chega longe”, observou.

Ao falar sobre o futuro da cultura amazônica, Chico defende um olhar mais justo e plural. Para ele, é fundamental superar preconceitos e interesses particulares para que a produção cultural da região possa se desenvolver plenamente. “A cultura é mais do que aplauso momentâneo. Ela precisa tocar, transformar e representar o povo”, concluiu.

E, para ele, a trajetória de ‘Vermelho’ mostra exatamente isso, como uma música pode se tornar um símbolo de resistência e pertencimento. Composta inicialmente como uma canção romântica, tornou-se hino de um povo, elo entre gerações e bandeira da luta por reconhecimento artístico e cultural. Em cada verso entoado nas arquibancadas, o que se ouve é mais do que uma toada: é a afirmação da força cultural que pulsa na Amazônia.

Sigatoka-negra: uma das principais ameaças à bananicultura na Amazônia

A sigatoka-negra é uma doença que afeta inclusive a produção, reduzindo-a drasticamente. Foto: Reprodução/Embrapa

A sigatoka-negra, uma das doenças mais severas que atingem plantações de banana, tem causado impactos significativos na produção agrícola do Amazonas desde sua introdução na região. Causada pelo fungo Pseudocercospora fijiensis, a doença representa uma das principais ameaças à bananicultura mundial e chegou ao território amazonense no início dos anos 2000, provocando perdas econômicas expressivas para pequenos e médios produtores locais.

No Amazonas, a cultura da banana possui importância econômica e social, especialmente em municípios como Manacapuru, Iranduba, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e Manaquiri, locais em que é uma das principais fontes de renda agrícola. Antes da chegada da Sigatoka-negra, o Estado figurava entre os maiores produtores da Região Norte, com destaque para a banana tipo pacovã, muito consumida em toda a região.

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O primeiro registro oficial da doença no Amazonas ocorreu em 2001, quando produtores começaram a relatar manchas escuras nas folhas das bananeiras, seguidas de rápida necrose foliar e diminuição drástica na produção.

A confirmação da presença da sigatoka-negra gerou uma série de medidas de contenção e monitoramento por parte da Secretaria de Produção Rural (Sepror), da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (Adaf) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O agrônomo e pesquisador na Embrapa, Luadir Gasparotto, fez parte da expedição que identificou a chegada da doença nos bananais em 2001. Segundo Gasparotto, a doença compromete diretamente a fotossíntese da planta ao atacar as folhas, reduzindo a capacidade de produção de cachos e afetando o desenvolvimento dos frutos.

“Com o avanço da infecção, muitos produtores viram suas lavouras serem dizimadas. Em áreas onde a doença não foi rapidamente controlada, os prejuízos chegaram a 100% da produção”, destacou em entrevista ao canal Amazon Sat.

Confira a entrevista:

A dispersão da sigatoka-negra no Amazonas ocorreu de forma acelerada por conta das condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do fungo — alta umidade, temperaturas elevadas e chuvas constantes — comuns em praticamente todo o Estado. A movimentação de mudas contaminadas também contribuiu para a propagação da doença entre municípios e comunidades rurais.

Com o agravamento da situação, o Governo do Amazonas, em parceria com instituições federais e universidades, desenvolveu ações emergenciais de contenção, como o controle químico com fungicidas, a erradicação de plantas contaminadas e a capacitação de agricultores para práticas de manejo integrado. A introdução de variedades mais resistentes ao fungo também passou a ser incentivada por meio de programas de assistência técnica.

Alternativas contra sigatoka-negra

A Embrapa desenvolveu, por exemplo, cultivares como a BRS Platina e a BRS Conquista, bananeiras mais tolerantes à sigatoka-negra e adaptadas ao clima amazônico. Apesar disso, a adesão às novas variedades ainda encontra resistência entre produtores, sobretudo pela preferência do mercado local pela tradicional banana pacovã, que é altamente suscetível à doença, destacou Gasparotto.

De acordo com relatórios da Sepror, nos anos posteriores à introdução da sigatoka-negra, houve redução significativa na área plantada com banana no Amazonas. Em muitos casos, produtores abandonaram a cultura ou migraram para outras lavouras. A cadeia produtiva da banana, que envolvia desde o cultivo até o transporte fluvial e a comercialização em feiras e mercados da capital, também sofreu retração.

Leia também: Produção de banana na Amazônia é impulsionada por técnica de controle da Sigatoka-negra

Bananas são afetadas pela sigatoka-negra e produção é prejudicada no Amazonas. Estudos e pesquisas são realizados para controle da doença. Foto: Reprodução/IDAM

Além dos impactos econômicos, a crise causada pela Sigatoka-negra afetou a segurança alimentar em comunidades do interior, onde a banana é um dos principais itens da dieta diária. Muitas famílias dependiam exclusivamente do cultivo para subsistência, e a perda da produção agravou as dificuldades enfrentadas nessas localidades.

Produção de bananas no Amazonas

Atualmente, o combate à doença continua sendo um desafio constante para os agricultores e para os órgãos de assistência rural. Técnicas como a rotação de culturas, o espaçamento adequado entre plantas, a adubação equilibrada e o monitoramento frequente das lavouras são recomendadas para minimizar os danos e reduzir a pressão do fungo nas plantações. Esses trabalhos vem sendo monitorados por diversos órgãos, como a Sepror e a Embrapa, no Amazonas.

De acordo com o gerente de Produção Vegetal do Idam, Luiz Herval, o Amazonas foi prejudicado pelos problemas gerados pela sigatoka-negra desde a sua detecção. “O Amazonas não é autosuficiente em produção de banana. Saímos de uma produção em 2001 de cerca de 30 mil hectares e estamos hoje em torno de 8 mil e 600 hectares”, afirmou.