O mundo já conhece as potencialidades alimentícias do açaí, mas cientistas estão empenhados em conhecer novas aplicações para esse fruto que é uma das maiores riquezas da Amazônia. E uma das linhas de pesquisa, desenvolvidas por pesquisadores da Universidade do Estado Amapá (Ueap) em parceria com outras instituições de ensino, identificaram diversas possíveis utilidades do produto, como a geração de energia e a produção de ligas asfálticas e biofertilizantes.
Isso é possível através de um processo chamado pirólise, que carboniza os caroços do açaí e os transforma em carvão ativado. A partir desse material uma série de outros produtos podem ser gerados, entre eles um bio-óleo, que segundo o professor do colegiado de Engenharia Química da Ueap, Menyklen Penafort, se assemelha muito ao petróleo.
“Nós fizemos análises em laboratório e descobrimos que esse óleo tem propriedades químicas muito parecidas com o petróleo, o que pode permitir a produção de subprodutos que esse material também gera, como biogasolina, querosene verde, diesel verde, bioligante asfáltico, biofertilizantes e bioinseticida”, relatou o professor.
A pesquisa faz parte de um projeto mais amplo coordenado pelo professor Nélio Machado, da Universidade Federal do Pará (Ufpa), intitulado ‘Gasolina Verde’ que, além do açaí, também utiliza caroços de tucumã na produção de combustíveis.
O objetivo do grupo é apresentar os resultados na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30) marcada para novembro deste ano, em Belém, no Pará.
Energia Verde
O grande diferencial do projeto é que a produção do insumo é sustentável, já que todo gás carbônico produzido é absorvido pelo processo de fotossíntese dos açaizeiros que eventualmente serão plantados para alimentar o ciclo.
Além disso, o processo aproveita um resíduo que seria descartado no meio-ambiente e que representa 80% do fruto – apenas o restante é aproveitado para o consumo.
Núcleo de Energia e Biorrefinaria Sustentável da Amazônia
Para desenvolver projetos como o do bio-óleo de caroço de açaí, a Ueap está estruturando o Núcleo de Energia e Biorrefinaria Sustentável da Amazônia (NEBSA), que terá suas ações focadas pesquisa, consultoria e inovação em tecnologias limpas, com foco em energias renováveis, biocombustíveis e valorização de resíduos da Amazônia.
Outro projeto que também envolve o caroço do fruto regional é o Açaí Biogás Prime, que utiliza uma miniusina experimental, demonstrando na prática como o caroço de açaí pode ser convertido em biogás, produto que pode ser utilizado para geração de energia elétrica e produção de biofertilizantes.
Cachorros na comunidade de Nazaré, no Baixo Madeira. Fotos: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
As águas do rio Madeira continuam a subir, engolindo espaços, esperanças e histórias. As comunidades ribeirinhas em Porto Velho, em Rondônia, lutam contra essa força implacável da natureza que não distingue, não perdoa. A defesa civil da prefeitura age para atender às pessoas, mas há vítimas silenciosas que também sofrem – os pets e animais silvestres, relegados à sombra da tragédia.
Esses seres, que também experimentam dor, medo e alegria, são agora prisioneiros de um destino cruel. Muitos enfrentam ataques de jacarés, picadas de cobras e o abandono. Sem suprimentos básicos, eles padecem à própria sorte. Alguns, encolhidos em ilhas de lama, esperam por um resgate que talvez nunca chegue. Outros, que outrora eram companheiros leais, agora olham ao redor em busca de qualquer fragmento de esperança.
Mas onde há humanidade, há também solidariedade. Professores, acadêmicos dos cursos de Geografia e Direito da Universidade Federal de Rondônia e voluntários de toda parte lançaram uma campanha com um nome que carrega o peso de sua missão: Direito à Vida: Ajude a Salvar um Pet da Enchente do Rio Madeira. Nos meses de março e abril, essa iniciativa apoia a Associação Voluntário Animal, que trabalha incansavelmente em prol dos animais ribeirinhos. Eles precisam de abrigos, alimentos, medicamentos, cobertores – qualquer coisa que possa devolver dignidade aos que também chamam Rondônia de lar.
Fotos: Divulgação
Carlitos, um cão que sobreviveu ao ataque de um jacaré, arrasta-se com feridas abertas. Belinha, uma gata de olhos grandes e assustados, sumiu de sua família. E tantos outros têm histórias não contadas, mas igualmente urgentes. Quem puder, doe. Não apenas ração E medicamentos – doe um pouco de esperança.
As doações podem ser feitas diretamente à Associação Voluntário Animal, pelo telefone (69) 99349-7742, ou à Clínica Veterinária Paraíso dos Animais, pelo número (69) 99972-8519, ambas em Porto Velho (RO). Nessa corrente de ajuda, cada ato tem o poder de salvar uma vida.
Porque a luta pela sobrevivência não pertence só aos humanos. Que tal ser o próximo a fazer a diferença? Esses pequenos companheiros esperam, e você pode ser a mão amiga que muda o curso do seu destino.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Como tenho dito em textos recentes, acredito firmemente que escrever é uma forma de magia.
Não digo isso como um exagero, eu realmente acho que o ato da escrita se trata de uma maneira de afetarmos a realidade de forma quase sobrenatural.
O primeiro texto literário do mundo, afinal, foi escrito por uma alta-sacerdotisa mesopotâmica, Enheduanna, em honra à deusa Inanna. Trata-se de um texto que combina a criação poética com a experiência religiosa, evidenciando que, desde sua concepção, a escrita tem raízes mágicas.
As runas nórdicas, os ogham celtas e até mesmo os salmos cristãos são exemplos de como a escrita é compreendida como uma maneira de organizar intenções para garantir que a realidade seja transformada, ou para que tenhamos alguma forma de controle sobre ela.
Afinal, todos crescemos com a ideia de que “palavras têm poder”.
No livro de Gênesis, vemos que o Deus hebraico formou todas as coisas, mas coube ao ser humano o último ato criador: nomear cada elemento do mundo recém-feito. Em Língua Portuguesa, nossos enunciados (leiam-se “frases”) mais desenvolvidos são compostos de dois grupos de palavras (chamados de sintagmas), cujos núcleos são sustentados por duas classes de palavras em específico: os substantivos e os verbos. Dessa forma, não é estranho que o ato de nomear, de substantivar, dar substância, seja entendido como um ato mágico.
Dando nome, Adão concede a existência às coisas, chamando-lhes à realidade. Se o ser humano é associado à substância no Gênesis, em João, ao lermos que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, a construção da frase fica completa, pois o verbo é ação, o substantivo em movimento. Dessa forma, o ato de enunciar – produzir frases – traduz em linguagem a ação que é conferida à matéria, em um movimento consciente de criação verbal.
Nessa compreensão, dar nome é dar vida à matéria, mas é o “sobre-natural” – ou talvez, o ato mais natural do mundo – que lhes anima, que lhes confere alma, que lhes põe em movimento. Proferir (“declarar”, “trazer à frente”) é um ato de poder, daí a noção de que o profeta é quem anuncia as palavras de um ser superior, organizando em palavra, em narrativa, a vontade dos deuses.
Sempre achei curioso a quantidade de sentidos na palavra inglesa “spell”, que se deriva de uma versão arcaica da língua germânica. Em inglês, ela tanto se traduz como “soletrar” quanto “feitiço”, mas não qualquer feitiço: trata-se de um feitiço falado, narrado, uma vez que, em suas raízes germânicas, também se associa com “contar”, “narrar”. Entendo “spell” como “amarrar em palavra”, e se levarmos para o contexto esotérico, relaciona-se com todo ato mágico que envolve a enunciação.
O mesmo se dá com a palavra “maldição”. Do latim “maledicere”, “dizer mal”, refere-se à toda palavra “mal-dita”, dita para o mal. Em nosso contexto ocidental, é a forma mais ilustrativa da relação entre pronunciar e enfeitiçar, uma vez que sua ação, ainda que pouco salientada, é profundamente temida. Afinal, há quem diga que “maldição de mãe” é eterna, e temos medo de falar sobre coisas que tememos justamente pelo medo de atraí-las. Não seria esse um ato de invocação?
Os sons e intenções que amarramos em palavras revelam um potencial imenso, tanto de criação quanto destruição. Nesse sentido, qual seria o papel do escritor, senão acionar os dois gumes dessa lâmina?
Quando falamos de representatividade em mídias, em aqui foco especialmente em literatura, falamos em trazer à existência, por meio da palavra, vivências e experiências que Adão não teve no início dos tempos. Ou que adãos, sendo humanos, não conhecem, de modo que não podem pronunciá-las, dar-lhes vida.
Quando um amazônida fala sobre sua realidade, quando transforma em prosa ou poesia aquilo que sente, que enxerga, que vive, dá forma a um mundo que a maioria das pessoas desconhece. Escrever, assim, é um ato consciente de criação, de manifestação, a revelar um Éden que os adãos ignoram.
Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
Não à toa, os povos indígenas celebram a força ativa da oralidade, pois é na palavra falada que se concretiza matéria e movimento.
As paragens amazônicas, lar de tantas gentes, ainda têm uma infinidade de édens a revelar, pois têm uma infinidade de adãos e evas a contar suas histórias. É nesse ponto que, entre criar e destruir, a escrita também revela sua propriedade mais potente: a de curar.
Nosso passado colonial nos impõe um presente tortuoso, pautado pelas vontades de um mundo que há muito tempo deixou de pensar em magia. Presos apenas na matéria sem movimento, em um substantivo morto, que tem preço mas não valor, somos esvaziados também dessa magia, de uma potência criativa que jaz latente em nosso sangue.
Estamos doentes, fracos, amarrados nos dizeres do expediente.
Quando nos calamos, deixamos de bendizer, de maldizer, de atingirmos uma forma mágica de existência. No entanto, há algo mágico em compartilhar histórias, em saber que não estamos doentes sozinhos, e nisso, encontramos possibilidades de cura.
Escancarar as mazelas de nosso passado colonial e oferecer nossas contribuições para curá-lo é como sarjar um tumor. Aceitar a dor da cura é uma sensação que, me arrisco dizer, toda pessoa que escreve deve abraçar para produzir um bom texto, pois, da mesma forma que o ferimento não foi individual, a cura também precisa ser coletiva.
Contemos nossas histórias, cantemos nossas toadas, tragamos à realidade nossas dores e nossos deleites.
Quem escreve sabe que pôr em palavras o que nos assombra é materializar o abstrato, é dar nome ao que nos dói, e, dando nome, damos a essa dor um limite. Verbalizando, damos movimento ao que nos estagna, e podemos, quem sabe, conjurar curas.
Diferente das outras colunas que escrevi, este texto é também minha forma de buscar uma cura, pois, enquanto escritor amazônida, tenho apenas uma crença quando me encontro profundamente desacreditado de tudo:
Palavras têm poder.
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
Angelim Vermelho: maior árvore da Amazônia localizada na fronteira do Amapá e do Pará. Foto: Reprodução/Arquivo GEA
Imagens de satélite divulgadas pelo Ministério Público do Amapá mostram que um garimpo ilegal de ouro está a apenas um quilômetro da segunda árvore mais alta da Amazônia, um Angelim-vermelho de 85 metros de altura.
A árvore foi apontada como 2ª mais alta da Amazônia por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) em levantamentos de 2018 e 2019, em um santuário de árvores gigantes na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, em Porto Grande. A árvore mais alta tem 88,5 metros.
Garimpo ilegal de ouro está a apenas um quilômetro da árvore mais alta do Amapá e segunda maior da Amazônia. Foto: Reprodução/MP-AP
Em outubro do ano passado, a Promotoria do Meio Ambiente do Ministério Público do Amapá recomendou que a Secretaria de Meio Ambiente do Amapá (Sema) monitorasse a região por conta do perigo dos garimpos para o santuário das árvores gigantes.
Foi solicitado ainda que a secretaria criasse mecanismos de proteção no raio de um quilômetro ao redor de cada árvore gigante.
“[Que a Sema] Declare como área de preservação permanente o raio de um quilômetro a partir da localização de cada uma das espécies tornadas imunes a corte, derrubada ou qualquer outra exploração econômica. A necessidade de proteção dessas áreas e de sua área de entorno em razão de sua raridade, beleza e importância para a biodiversidade amazônica”, disse na recomendação o promotor Marcelo Moreira, da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e Conflitos Agrários.
A região abriga pelo menos três grandes garimpos ilegais. No dia 11 de fevereiro deste ano, a barragem de um desses garimpos se rompeu, provocando a liberação de rejeitos de minério no rio Cupixi e graves problemas ambientais na região.
Segundo o MP, as primeiras informações oficiais sobre a presença de garimpeiros e a extração ilegal de ouro na região são de fevereiro de 2022.
O santuário
As árvores na reserva de desenvolvimento sustentável foram localizadas em 2021 por pesquisadores. O Angelim-vermelho encontrado na reserva é a maior árvore do Amapá e mede de 85,44 metros de altura, o dobro da média das árvores na Amazônia – que varia 40 e 50 metros de altura.
Para o pesquisador Eric Bastos Gorgens, do departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), que participou do projeto que identificou a existência das árvores gigantes no Amapá e Pará, a situação é preocupante.
O cientista descreveu que, por não passar por processo de licenciamento, os garimpos ilegais não avaliam os riscos que levam ao meio ambiente.
“O garimpo ilegal é uma ameaça ao nosso patrimônio natural. Quando a gente faz uma intervenção não planejada, não licenciada, a gente nunca tem certeza se os cuidados, sejam eles ambientais ou sociais, estão sendo seguidos”, disse o pesquisador.
Árvore mais alta já mapeada no Amapá tem 85,44 metros de altura e, na Amazônia, tem 88,5 metros. Foto: Divulgação/Ifap
Gorgens destacou ainda que o processo de retirada da vegetação sem os devidos estudos, compromete um patrimônio que é de todos os brasileiros. Descreveu ainda que o principal mecanismo de proteção são as unidades de conservação.
“Você vai ter duas grandes categorias, que são as unidades de proteção integral, onde a gente não pode executar nenhuma atividade nessas áreas de exploração. E nós temos as unidades de conservação de uso sustentável, que são unidades que permitem uma exploração mediante um plano de manejo devidamente aprovado”, explicou o pesquisador.
Árvores gigantes da Amazônia
Os angelins-vermelhos foram detectados inicialmente em 2018 durante uma pesquisa com sensores aeroembarcados do Inpe com a UFVJM.
Em 2019, pesquisadores realizaram a primeira expedição até o santuário, onde existe a maior árvore, com 88,5 metros de altura (equivalente a um prédio de 30 andares). Os pesquisadores consideram gigantes as árvores que têm mais de 80 metros na região, ou seja, o dobro do dossel da floresta.
A diferença na média de altura é estudada pelos pesquisadores que compõem o projeto Monitoramento Integrado das Árvores Gigantes da Amazônia, coordenado pelo Instituto Federal do Amapá (Ifap), em Laranjal do Jari.
As barreiras sanitárias são medidas implementadas pelos governos para proteger a saúde humana, animal e vegetal contra pragas e doenças. Segundo dados de 2017 do então Ministério das Relações Exteriores, essas medidas fazem parte de um conjunto de regras conhecidas como Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (SPS, na sigla em inglês), que regulamentam tanto a produção doméstica quanto o comércio internacional de produtos agrícolas.
Para evitar que essas medidas se tornem barreiras comerciais indevidas, a Organização Mundial do Comércio (OMC) estabeleceu, em 1994, o Acordo sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (Acordo SPS). Esse acordo determina que as medidas sanitárias adotadas pelos países devem ter base científica, ser proporcionais aos riscos envolvidos e não criar restrições comerciais desnecessárias.
Além disso, elas devem seguir padrões internacionais definidos por organizações como:
Codex Alimentarius (que regula a segurança alimentar);
Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA);
Convenção Internacional de Proteção dos Vegetais (CIPV).
Como o Brasil lida com as barreiras sanitárias?
O governo brasileiro, por meio do Itamaraty e do Ministério da Agricultura e Pecuária, trabalha para garantir que as barreiras sanitárias impostas ao país sejam justificadas e não configurem protecionismo comercial. Entre as principais estratégias adotadas estão:
Monitoramento e negociações bilaterais: O Ministério das Relações Exteriores acompanha, em tempo real, restrições indevidas e busca soluções junto a outros governos.
Preocupações Comerciais Específicas (PCEs): Quando um país impõe barreiras sem justificativa científica, o Brasil pode apresentar reclamação formal no Comitê SPS da OMC.
Painéis de solução de controvérsias: Se as negociações falharem, o Brasil pode levar a questão para arbitragem internacional.
Acordos bilaterais e regionais: No âmbito do Mercosul e de outros tratados, o Brasil busca regras mais flexíveis e prazos rápidos para solução de disputas.
Impactos no comércio internacional
As barreiras sanitárias podem ser decisivas para a exportação de produtos agropecuários. Se bem aplicadas, garantem segurança alimentar e proteção ambiental. No entanto, quando usadas de forma protecionista, podem prejudicar o acesso dos produtores brasileiros a mercados internacionais.
Por isso, é essencial que as medidas sanitárias sejam equilibradas, protegendo a saúde sem comprometer o livre comércio global.
A Terra Indígena Uru Eu Wau Wau é demarcada. Foto: Mário Vilela/Funai
Impacto na vida indígena
A barreira sanitária foi além no que diz respeito às populações indígenas e tradicionais na Amazônia. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a pandemia da Covid-19 “afetou dramaticamente a vida de toda a população brasileira”, mas desde o começo a previsão era que “a população indígena seria fortemente impactada”.
A organização criou um site com informações sobre o processo de emergência na saúde indígena, no qual expõe, em uma linha do tempo, dados coletados desde o início da pandemia e as decisões tomadas sobre o caso.
“O diagnóstico feito pela APIB a levou a tomar importantes providências, como fazer seu próprio levantamento independente de dados e a propor a ADPF 709 motivada pela iminência de uma tragédia. No momento em que se decidiu construir a Arguição, o Brasil registrava o já assustador número de 55 mil mortos por Covid-19 e pouco mais de um milhão de contaminados, números que aumentavam aceleradamente a cada dia”, expõe.
A Associação explica: “no dia 29/06/2020, às 20h45, a APIB protocolou a ação que entraria para a história do constitucionalismo brasileiro. Nessa petição inicial a APIB aborda a proteção dos povos indígenas no combate à pandemia do novo coronavírus e, ao final, faz alguns pedidos ao STF. Os pedidos podem ser divididos em três grandes escopos: i) povos indígenas em geral; ii) povos indígenas isolados e de recente contato e iii) retirada de invasores de terras indígenas. No dia 08 de julho de 2020 o Ministro Luís Roberto Barroso, relator da ADPF 709 no Supremo Tribunal Federal proferiu uma decisão monocrática concedendo, cautelarmente, a maioria dos pedidos da APIB”. Leia completo AQUI.
Assim, entre as decisões, no que se referia aos povos indígenas em isolamento ou de recente contato, estabeleceu-se a “criação de barreiras sanitárias, que impeçam o ingresso de terceiros em seus territórios, conforme plano a ser apresentado pela União, ouvidos os membros da Sala de Situação (infra)”.
A APIB então reuniu mapas com as barreiras sanitárias propostas para a região. Confira algumas delas:
Localizado no estado do Pará, o Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas (PESAM) é um dos tesouros naturais da região, abrigando mais de 30 cachoeiras, além de trilhas, cavernas e sítios arqueológicos.
Entre as quedas d’água mais visitadas, destacam-se a Cachoeira das 3 Quedas e a Cachoeira Spanner, que encantam turistas em busca de contato com a natureza e aventura:
Cachoeira das 3 Quedas
Localizada próxima à entrada do PESAM, na BR-153, a Cachoeira das 3 Quedas é um dos principais atrativos do parque. O nome se deve à sua formação, composta por três quedas sequenciais, criando um espetáculo visual. O local é ideal para aqueles que buscam tranquilidade, banhos refrescantes e uma imersão na biodiversidade amazônica.
Outra atração natural do parque é a Cachoeira Spanner, uma das mais frequentadas. Com uma queda d’água imponente com cerca de 70 metros e piscinas naturais propícias para banho (com profundidade entre um a dois metros), a Spanner atrai visitantes em busca de sossego e contato direto com a natureza. Seu ambiente cercado por vegetação torna a experiência ainda mais especial.
Duas novas cachoeiras foram descobertas no PESAM recentemente. O achado foi feito por equipes da Gerência da Região Administrativa do Araguaia (GRA) do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio).
As quedas d’água estão localizadas em uma área montanhosa de difícil acesso na Unidade de Conservação (UC). Elas foram identificadas pelo ex-titular da GRA, Douglas Costa, durante um monitoramento aéreo pela região no ano de 2019, como parte do Programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA), que financia ações e projetos no Parque.
Batizadas como Cachoeira Andorinha e Cachoeira Martírio, as cascatas foram localizadas pelos condutores de trilhas Roberto Cerqueira, Oséias Passos e Francinaldo Alves, dos grupos Raposas da Serra e GAAV.
O local fica a cerca de 10 km da região da Cachoeira Três Quedas, em uma área que pode ser acessada apenas com ajuda de condutores de trilha.
Foto: Ascom Ideflor-Bio
Outras atrações
Além das cachoeiras, o Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas oferece outras opções para os amantes do ecoturismo:
Trilhas: Percursos de diferentes níveis de dificuldade, ideais para caminhadas e observação da fauna e flora local;
Cavernas: Locais com formações rochosas únicas e muitas histórias;
Sítios arqueológicos: Registros de civilizações antigas que habitaram a região;
Formas rochosas: Esculturas naturais curiosas esculpidas pela ação do tempo;
Praias de água doce: Pequenos refúgios propícios para relaxamento e contemplação.
Entre as formações rochosas mais grandiosas, destaca-se a Casa de Pedra, um dos pontos mais altos da Serra das Andorinhas, que proporciona uma visão panorâmica da paisagem ao redor.
Para aproveitar ao máximo a visita ao PESAM, é essencial contar com um condutor de trilha autorizado pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio). O acompanhamento garante uma experiência segura, respeitando as normas ambientais e preservando a beleza natural do parque.
O biólogo do Instituto, Wagner Bastos, ressalta a importância desses profissionais para evitar qualquer intercorrência durante o passeio:
“Contratar um condutor de trilha devidamente autorizado pelo Instituto é fundamental para garantir a segurança dos visitantes ao explorar os pontos turísticos do Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas. Além de conhecerem profundamente a região, esses profissionais estão preparados para lidar com possíveis situações de risco, proporcionando uma experiência segura e preservando a integridade do ambiente natural”, explica.
Como chegar?
A Serra das Andorinhas está localizada no município de São Geraldo do Araguaia, no sudeste do Pará, próximo à divisa com o Tocantins. O acesso pode ser feito por estrada, sendo a capital Belém o ponto de partida mais distante, a 680 km de distância, com uma viagem de aproximadamente 12 horas, seja de ônibus ou veículo particular.
Para quem opta pelo transporte rodoviário, uma alternativa é viajar até Marabá e, de lá, seguir para São Geraldo do Araguaia, que fica a cerca de 135 km.
Matilha de cachorros-vinagre em Cacoal (RO). Foto: Carlos Tuyama/Projeto Harpia
Um registro raro do fotógrafo Carlos Tuyama, através de uma câmera trap, mostra uma matilha de “cachorros-vinagre” caminhando pela floresta na Reserva Água Doce, em Cacoal (RO). No vídeo, pelo menos três animais parecem estar em uma caçada e, logo em seguida, uma paca sai de dentro do buraco.
A cena, que parece enredo de animação, foi postada no Instagram pessoal do fotógrafo e chamou atenção, já que não é comum animais desta espécie serem avistados. Segundo Carlos, o registro ocorreu durante uma atividade do Projeto Harpia, que monitora ninhos dessas aves na região.
A equipe de monitoramento instalou a câmera no local depois de notar um buraco próximo das árvores, que parecia uma toca de tatu-canastra, espécie comum na Amazônia.
“Instalamos uma câmera trap próximo ao que parecia a entrada principal, no intuito de registrá-lo. Ao voltarmos um mês depois para recolher as filmagens e trocar as pilhas da câmera, tivemos uma grande surpresa: na verdade a toca estava sendo usada por uma paca e havia uma filmagem da visita de uma matilha de cachorro-do-mato-vinagre”, conta.
Segundo o biólogo Flávio Terassini, a espécie de canídeos é abundante em todo Brasil, especialmente na Amazônia, mas o registro é raro porque esses animais preferem viver em áreas mais isoladas da floresta.
Diferente dos seus parentes que vivem nas cidades, o cachorro-vinagre tem como hábito andar em grupos de até doze animais e costumam se alimentar de outras espécies pouco convencionais.
“Como um canídeo é também um carnívoro, ele se alimenta de animais da floresta, pequenos roedores, aves e pode comer inclusive anfíbios, cobras e algumas espécies de insetos”, afirma Flávio.
Por que ‘cachorro-vinagre’?
Especialistas explicam que o nome da espécie está relacionado ao forte odor que animal exala no ambiente quando urina, lembrando o cheiro do vinagre de cozinha. Segundo Flávio, o animal é considerado “vulnerável” de extinção devido ao avanço da perda da vegetação em algumas regiões do país.
Para Carlos, que é acostumado a registrar animais em momentos raros, o vídeo dos cachorros-do-mato não apenas surpreendeu a equipe pela raridade, mas também despertou um sentimento de alento diante da degradação ambiental.
“Foi uma grande e alegre surpresa, pois não esperávamos um registro dessa espécie tão rara de canídeo. É alentador saber que matilhas de cachorro-do-mato-vinagre sobrevivam em fragmentos florestais cercadas por áreas de pastagens e lavouras”, afirma o fotógrafo.
Sargassum é uma macroalga marinha flutuante que se forma no oceano e chegou à região costeira paraense. Foto: Edson Vasconcelos
A região do salgado paraense, que concentra algumas das mais populares praias turísticas do estado do Pará, tem também recebido um outro tipo de visita: o Sargassum, uma enorme massa marrom que chegou do oceano e que contrasta com as águas claras da região do estado em que o rio encontra o mar.
Segundo o professor Edson Vasconcelos, doutor em oceanografia e docente no Instituto Socioambiental e dos Recursos Hídricos (ISARH), da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), o Sargassum é uma macroalga marinha flutuante que se forma no oceano. E sua biomassa, de cor marrom, serve de alimento para alguns animais e como abrigo e local de “ninho” para espécies de peixes, moluscos e crustáceos.
Em praias em que há desova de tartarugas, o professor explica que isso pode atrapalhar o fluxo dos animais. E que o encalhe de sargassum na praia e em redes de pesca afetam o trabalho dos pescadores e a economia local.
“Essas algas são oriundas do chamado Mar de Sargassum, no Atlântico Norte e registradas há séculos, desde as grandes navegações. Porém, a comunidade científica notou que de 2011 para cá tem se formado um grande cinturão de Sargassum no Atlântico Central, é essa que está encalhando aqui na nossa região. Todos os anos, parte dessa massa se desprende do cinturão e chega por aqui”, explica.
Salinas
O município de Salinópolis, ou Salinas, como é mais conhecido, é um dos mais afetados da região. No local, o pesquisador diz que a prefeitura municipal retira diariamente toneladas de Sargassum da praia. Ele diz que o município, por sua geografia e posição mais ao litoral, tende a receber esse maior impacto da biomassa, além de maior visibilidade.
“Outra situação é que o litoral de Salinas é habitado e com praias com atividade econômica, então esse monitoramento e maior percepção pela população ocorre com mais frequência e naturalmente”, diz.
Porém ele explica que foram registrados Sargassum em outras localidades, mas em menor quantidade. “Foram registrados também no município de Marudá, nas praias do Crispim e na praia de Marieta. A praia de Ajuruteua, no passado, também foi afetada por grande biomassa, e muito provavelmente será afetada nesse novo evento”, diz.
Quantidade de Sargassum em Salinópolis é a maior registrada nos últimos anos, afirma pesquisador. Foto de Juliane Vasconcelos, em visita no dia 18.03.2025
Edson Vasconcelos diz que a chegada do Sargassum no litoral paraense já ocorreu em outros momentos, o que foi registrado por pescadores e moradores locais nos anos de 2014, 2015, 2017 e 2019. O que preocupa é a quantidade que está sendo registrada esse ano.
“Apesar de não chegar todos os anos em grandes quantidades, registros feitos pela comunidade local e pesquisadores mostram que todo ano temos alguma biomassa de Sargassum chegando na costa paraense. Esse ano estamos vivenciando quantidades maiores do que há 10 anos atrás, quando foi observado o último grande evento de encalhe em Salinópolis”, diz.
Pesquisador alerta para que se evite o contato as algas. Foto de Juliane Vasconcelos, em visita no dia 18.03.2025
Em parceria com os órgão locais, o pesquisador não indica o fechamento das praias afetadas pelo Sargassum, mas alerta para que se evite o contato as algas.
“O contato direto com a alga não apresenta problema, porém é preciso ter cuidado fauna acompanhante, como os cnidários, entre eles as águas vivas, que podem causar acidentes, como queimaduras e urticarias. A outra questão é que esse material em decomposição libera enxofre, o que pode causar alergias e incômodos”, diz.
Ele explica que o relato de pesquisadores e moradores locais é muito importante para compreender o Sargassum. E embora não seja possível traçar uma previsão sobre quando esse fenômeno vai encerrar, relatos de moradores de Salinas atestam que os últimos eventos ocorreram entre os meses de fevereiro e maio. “É pouco provável que perdure mais que isso, mas temos que ficar vigilantes”, alerta.
Pesquisa
Essa vigilância ocorre também via sensoriamento remoto, onde a mancha de Sargassum em deslocamento para a região costeira paraense foi observada pelos pesquisadores. O professor, que atua diretamente com estudos sobre essa alga, está realizando pesquisas voltadas ao crescimento do Sargassum em condições do mar amazônico, além do monitoramento da costa e trabalhos de conscientização junto aos grupos de comerciantes e atores locais, como as secretarias de meio ambiente e associações.
Um dos projetos em atividade faz parte do consórcio “Weeds of Change”, financiado pelas agências de fomento da França (Agence nationale de la recherche – ANR) e do Brasil (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco – FACEPE), que envolve França, Holanda, México e Brasil. O objetivo do projeto é saber qual o papel do mar amazônico na proliferação do Sargassum, um problema de escala transcontinental.
Professor Edson Vasconcelos integra projeto internacional sobre o Sargassum. Foto: Bruno Chaves
Desde 2012, regiões como o México, Caribe e países da costa oeste do continente africano, (como Ghana, Marrocos, Senegal e Nigeria), chegam a ter encalhes anuais de Sargassum, períodos que chegam a durar de seis a nove meses de encalhe. “Nesses países já existe uma gestão costeira para redução dos danos e uma grande quantidade de recurso envolvida. O que inclui pesquisas que estão sendo feitas para que exista o reaproveitamento dessa biomassa, na construção civil, biocarvão e biofiltro”, diz.
Na região do salgado paraense, os primeiros registros de encalhe são de 2014. Para verificar se essas algas estão conseguindo se desenvolver na região amazônica o professor coordena uma série de experimentos no Laboratório de Ecologia Marinha e Oceanografia Pesqueira da Amazônia (LEMOPA/Isarh/Ufra).
A partir da coleta e análise de Sargassum encalhado no salgado paraense, o objetivo é verificar se essas algas estão conseguindo se desenvolver na região amazônica. Até então, o Sargassum não sobrevivia diante na salinidade e das correntes do litoral paraense.
“O Sargassum dessa espécie não é criado aqui. Ele vem do oceano a partir de um complexo sistema de correntes costeiras. Ele não costuma se desenvolver em salinidade abaixo de 20. Ao coletar material e água na região de salinas encontramos, a 10 milhas da costa, uma salinidade máxima de 17. Essa baixa salinidade pode funcionar como uma barreira para impedir o crescimento, mas não a chegada do material através das correntes costeiras”, diz.
Mas estamos diante das mudanças climáticas. “Aumento da temperatura do oceano, modificação na intensidade da direção de algumas correntes marítimas e massas de ar são alguns dos fatores que influenciam diretamente no Sargassum”, afirma o professor.
Mudanças climáticas
“Alguns artigos sugerem que a vazão do sistema estuarino amazônico e o que acontece no continente, como o aumento no uso de fertilizantes, o desmatamento, processos de urbanização desordenada, queimadas e lixiviação, podem ser fatores que implicam na formação dessa grande massa em ambiente oceânico. No entanto é um sistema pouco compreendido e ainda com diversas hipóteses a serem testadas”, explica Edson Vasconcelos.
Entre essas hipóteses o professor cita desde a poeira do Saara que chega aos oceanos, até a redução de velocidade das correntes marinhas em nível global e fenômenos como El Niño e La Niña.
Mudanças climáticas influenciam no Sargassum, afirma pesquisador. Foto: Bruno Chaves
Embora o pesquisador acredite que o Sargassum não consegue se desenvolver na região, já que é uma alga de oceano, as pesquisas esperam confirmar isso.
“Nós temos a questão da salinidade e das correntes que impedem esse crescimento. É muito improvável que ele se desenvolva aqui, mas precisamos observar. Isso porque, se ele crescer, é uma alga exótica, já que não pertence à Amazônia. Seria um vetor de animais exóticos que podem ter potencial invasor na região, modificando toda a dinâmica ecossistêmica”, alerta.
Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançaram a misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados de filhos de Deus.
Manaus, antes do ‘boom’, nada mais era do que um vilarejo perdido na floresta amazônica, centro comercial industrial de pequena importância, vivendo de umas poucas indústrias de transformação e de algum comércio de produto de extração. Ao apagarem-se as luzes do império, a Província do Amazonas e sua capital não pesavam no rol do comércio ou da indústria do país. Como centro urbano, resta-nos o precioso depoimento dos Agassiz que, vislumbrando um futuro de possibilidades ilimitadas para a cidade, como entreposto comercial, não deixaram de se desiludir com sua aparência mais do que modesta. Casebres e partideiros de madeira, ostentando nomes pomposos de palácios ou repartições públicas.
Veio a borracha e a cidade conheceu o surto de progresso, poucas vezes igualado na história da economia universal. Em pouco mais de duas décadas, sanearam-se os rios e igarapés, aterraram-se baixios, abriram-se ruas e estradas, pavimentaram-se avenidas, construíram-se obras importantes – como porto, usina de luz, instalação de água e esgoto -, em um empreendimento algumas vezes superior a construção da nova capital brasileira, se levarmos em consideração que esta teve a sua disposição recursos da técnica moderna, o esforço nacional de um povo em estágio de desenvolvimento. Manaus foi apenas a vontade de uma pequena comunidade pioneira, ainda sustentada por um único produto: a borracha.
Fotos: Reprodução/Acervo da família
É nesse estágio de desenvolvimento da borracha que promoveram o aparecimento de muitos seringais, dentre eles o Ajuricaba, na década de trinta. É nesse espaço de desenvolvimento que o senhor Antônio Venâncio da Silva assume o Seringal Ajuricaba, junto a sua esposa, Francisca Ataíde de Vasconcelos da Silva. Fruto deste casamento nasceram os filhos: Ladir, Elson, Nelson, Maria das Gracas, Raimunda Nair, Francisco, Assis, Marcelino, Genir, Darci, Sulamir, Ângela Regina, Sueli e Luiz Carlos. Embora as dificuldades do seringal, formaram uma família feliz, até 1953, quando o patriarca da família resolveu transferir-se para Manaus.
Um dos filhos proeminentes desta prole é o senhor Raimundo Venâncio de Vasconcelos, que nasceu no município de Manacapuru, no dia 2 de dezembro de 1951, tendo vivido até os quatorze anos no lugar chamado Tuivé. Menino de uma infância feliz, já em Manaus, começa a ter os contatos com as letras no Grupo Escolar Zulmira Bittencourt, espaço esse que guarda na memória, a imagem de sua professora querida, dona Cosma, tendo em seguida continuado seus estudos no Colégio Castelo Branco, dedicado aos estudos guarda na memória, momentos importantes dessa jornada escolar.
Infância e juventude de Raimundo Venâncio de Vasconcelos
Raimundo Venâncio de Vasconcelos até os dias atuais ainda lembra sua professora dona Cosma, guarda com alegria o contato já na cidade de Manaus no Grupo Escolar Zulmira Bittencourt, mais tarde transferindo-se para o Colégio Castelo Branco. A família já residindo em Manaus, sua mãe procurava incentivar e dá apoio na formação de seus filhos, como ocorre até os dias atuais em famílias tradicionais.
Essa história não foi um diálogo emudecido pelo tempo, pelo contrário: construíram pelo saber o caminho para sobrevivência e para as conquistas de que foram e que são merecedoras. Os mitos permanecem no ar, sobrevoando a vida das pessoas. Ancorado na busca do estudo para seus filhos e no trabalho de seu pai para manutenção da família em Manaus, cheio de sonhos por dias melhores.
Apesar das dificuldades enfrentadas pela família em Manaus, sobretudo por trata-se de uma família numerosa, seu pai homem calejado pela dureza do tempo e do seringal, trabalhava incessantemente provendo o sustento da família. Na verdade, seu pai sempre teve esse anseio de mudança para a capital.
Fotos: Reprodução/Acervo da família
Raimundo Venâncio de Vasconcelos já na sua juventude, demonstrava sua maturidade, com a responsabilidade de vencer através dos estudos e do trabalho. A luta de seus pais e tantos momentos enfrentados, proporcionaram maiores experiências, ensejando-lhe um modo diferenciado de ver o mundo. Guarda com apreço os bons exemplos de honestidade deixado por seus pais e que na atualidade transfere para seus filhos. A Manaus de sua época era uma cidade muito tranquila e foi nessa cidade que guardou na memória suas ruas de paralelepípedos e muito urbanizada, cujo silêncio era quebrado pela passagem do bonde ou de um ou outro veículo.
Ainda guarda na lembrança os domingos, que haviam matinês no Cine Guarany e Polytheama, o que nem sempre era permitido frequentar, ou o passeio na Praça da Polícia com a Banda da Polícia Militar tocando no coreto ao centro da praça das 17h até 19h. O jovem Raimundo Venâncio de Vasconcelos foi protagonista desses fatos e até hoje guarda essas lembranças em sua memória.
Transcorria a década de 1969 e 1970, quando o jovem sonhador Raimundo Venâncio de Vasconcelos assume o exército nacional como soldado do Batalhão de Infantaria da Selva (BIS), na função de armeiro devido a sua competência e dedicação no ano de 1979 é transferido para o Centro de Instrução de guerra na Selva (CIGS). No decorrer deste período ainda teve uma atuação importante no processo do Araguaia.
Fotos: Reprodução/Acervo da família
A vida e o sonho de um jovem como chef de cozinha
Levado pelo seu irmão Elson, que já atuava neste campo, foi trabalhar no Troplcal Hotel, o que lhe proporcionou alguns cursos dedicados a hotelaria e chefia de cozinha em São Paulo até 1981. Em 1983 tem o seu primeiro desafio solo: assume como chef de cozinha do importante restaurante no aeroporto Eduardo Gomes.
Continuando neste seguimento, assume a chefia do Restaurante Brasileirinho. Em seguida, convidado pelo empresário Pedro Wilson Viana Leitão, passa a fornecer refeição para as empresas Telamazon e Citibank. Em 1990 assume a direção-geral do Restaurante Othon. Em seguida, na mesma área, assume o Restaurante Planeta Doce e, mais tarde, o Restaurante Puraquê. Ainda no mesmo seguimento, seguiu para o Restaurante Pancaru, em 2014, e hoje recebe seus amigos e convidados no Restaurante Maloca.
Foto: Reprodução/Acervo da família
Em 1990 contraiu matrimônio com a jovem Ermelinda de Oliveira Venâncio. Fruto deste casamento nasceram os filhos: Gisele, Alison e Adson e, depois, o seu neto Zak Venâncio de Castro.
A vida é uma aventura em que os justos e os bons, apesar das provas e desafios, afirmam, com a força de seu caráter e com suas ações, as marcas de sua singularidade e da grandeza de suas atitudes. Eis aí o diferencial que distingue as almas nobres daquelas que vivem nas sombras ou se contentam com pequenez de seus sentimentos.
Foto: Reprodução/Acervo da famíliaFoto: Reprodução/Acervo da família
Raimundo Venâncio de Vasconcelos faz parte dessa linhagem de homens que construíram uma história baseada na dignidade, no trabalho, no compromisso com seus valores para oferecer os melhores pratos aos seus clientes.
A trajetória do Raimundo Venâncio de Vasconcelos é reveladora de seus múltiplos compromissos com a vida e com a possibilidade da construção do seu nome, fundado no respeito aos seus clientes e no desejo de melhor recebê-los. A existência desse chef de cozinha é uma prova do poder da transformação, do saber aprimorar sua cozinha e do triunfo da vontade de ser um grande chef, sua vida vitoriosa foi alicerçada na crença de seus pais, que em plena floresta amazônica soube deixar como exemplo o trabalho e a honestidade, seu maior patrimônio.
Foto: Reprodução/Acervo da família
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Foto: João Gabriel de Almeida/Projeto Dinâmica de Fragmentos Florestais (PDBFF)
Diante da crescente preocupação com a sustentabilidade e a qualidade das experiências turísticas, o Slow Tourism, ou turismo lento, surge como uma alternativa às viagens convencionais. De acordo com Adriana Santos Brito, doutoranda em Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (USP) da USP, o conceito busca desacelerar o ritmo das visitas, proporcionando uma vivência mais profunda e significativa para os turistas, ao mesmo tempo em que valoriza as comunidades locais e minimiza impactos ambientais.
Conforme a pesquisadora, o Slow Tourism se contrapõe ao turismo de massa e às viagens apressadas, promovendo um olhar mais atento às histórias, culturas e tradições dos locais visitados. Inspirado pelo movimento Slow Food italiano, que valoriza a produção e o consumo consciente de alimentos, e pelo conceito de cittaslow, que defende um ritmo de vida mais tranquilo nas cidades, essa modalidade propõe uma relação mais autêntica entre viajantes e destinos.
Princípios
Segundo Adriana, entre os princípios do Slow Tourism, o primeiro é a desaceleração. Ao contrário do turismo tradicional, que privilegia a quantidade de pontos visitados, essa abordagem incentiva um tempo maior de permanência em poucos locais, permitindo uma imersão mais profunda na cultura local.
Outro pilar fundamental é a busca pela autenticidade. O turismo lento prioriza experiências que valorizam a vida cotidiana dos moradores, incentivando atividades como participação em feiras, festivais e oficinas culturais. A intenção é conhecer não apenas os pontos turísticos mais populares, mas também as histórias e tradições que tornam cada destino único.
“A sustentabilidade também é crucial ao Slow Tourism. Práticas que reduzem o impacto ambiental, respeitam a biodiversidade e fomentam o desenvolvimento local são incentivadas. Isso inclui hospedagens sustentáveis, alimentação baseada em ingredientes locais e o apoio a pequenos produtores e artesãos”, destaca.
Proximidade
A interação com a comunidade é outro diferencial dessa abordagem. Adriana explica que, ao participar ativamente da vida local, os turistas têm a oportunidade de estabelecer conexões genuínas, enriquecendo sua experiência e contribuindo para a economia da região visitada.
De acordo com a pesquisadora, a possibilidade de viagens mais relaxantes e enriquecedoras permite experiências com menor nível de estresse. Além disso, o impacto positivo nas comunidades receptoras é significativo, pois o turismo lento estimula a economia local e promove uma distribuição mais justa dos recursos.
No Brasil, essa prática vem ganhando espaço. A Experiência Full Pantanal é um exemplo que combina contato com a natureza, hospedagem em locais sustentáveis e gastronomia típica pantaneira. Outra iniciativa é a Experiência Imersão Amazonas, que conduz viajantes por uma jornada na Floresta Amazônica, chegando à Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, um modelo de turismo comunitário.
O conceito também se aproxima do enoturismo e do turismo de cervejas. No Brasil, a Estrada do Sabor, no Rio Grande do Sul, é uma referência nesse segmento, valorizando vinícolas e a cultura rural. Da mesma forma, a Rota da Cerveja, em Santa Catarina, atrai visitantes interessados na produção artesanal de cervejas.
Desafios
No entanto, para Adriana Santos Brito, alguns desafios ainda precisam ser superados para que o Slow Tourism se expanda no País. Um deles é a conscientização dos viajantes sobre os benefícios dessa modalidade, incentivando uma nova forma de vivenciar o turismo. Além disso, ela diz que é necessário investir na infraestrutura básica e em serviços que atendam a essa demanda de maneira adequada em todas as regiões do Brasil.
“Mais do que apenas visitar destinos, os turistas que adotam essa abordagem se tornam parte da cultura local, contribuindo para a preservação das tradições e fortalecendo as comunidades. Assim, essa modalidade se firma como uma alternativa viável para um turismo mais consciente e significativo”, esclarece.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Julio Silva, sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo