Entenda por que a Amazônia é fundamental para atingir metas climáticas globais

Se o atual nível de desmatamento for mantido, grande parte da floresta estará perdida entre 30 a 50 anos.

Se for mantido o atual ritmo de desmatamento, degradação e queimada da Amazônia, algo entre 50% e 70% da floresta estará perdida entre 30 a 50 anos. E a meta do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global em 1,5 ºC até 2100, não será atingida.

A avaliação foi feita por Carlos Nobre, pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, durante mesa-redonda sobre o meio ambiente no Brasil na 74ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF

 De acordo com Nobre, estima-se que as florestas tropicais armazenem nas folhas, troncos e raízes mais de 400 bilhões de toneladas de carbono capturado da atmosfera, sendo que a maior parte está estocada na Amazônia.

Se entre 50% e 70% da floresta amazônica for perdida, a maior parte desse estoque de carbono retornaria para a atmosfera. Isso neutralizaria os esforços, previstos no Acordo de Paris, de reduzir a emissões de gás carbônico ao máximo de 400 bilhões de toneladas, somadas as emissões pela queima de combustível fóssil e as geradas pela agricultura e o desmatamento.

“Só a perda de 50% a 70% da floresta amazônica jogaria na atmosfera 300 bilhões de toneladas de carbono […] Mesmo que, milagrosamente, conseguíssemos reduzir as emissões de CO2 pela queima de combustíveis fósseis até 2050, com a degradação da Amazônia e de outras florestas tropicais o aquecimento global atingiria 2,4 ºC”,

afirmou o climatologista.

Nesse cenário a Amazônia se tornaria um bioma degradado, com poucas árvores e muitas gramíneas e arbustos, e a floresta perderia várias de suas funções, inclusive a capacidade de absorver carbono, segundo Nobre. “A floresta se restringiria a áreas próximas dos Andes, onde a estação seca é muito curta e os volumes de chuva são maiores”, explicou.

Estudos publicados recentemente indicam que algumas regiões da Amazônia, como o sul – que inclui Amazônia boliviana, Acre, Rondônia, sul do Amazonas, norte de Mato Grosso, sul do Pará e até o oeste do Maranhão –, estão prestes a atingir essa condição denominada pelo pesquisador de “ponto de não retorno”, ou tipping point.

Para impedir esse processo é preciso estabelecer uma moratória para o desmatamento e degradação pelo fogo em toda essa região, zerar a derrubada da floresta até 2030 e implementar um programa de restauração de 1 milhão de quilômetros quadrados (km2) em todo o sul da Amazônia, apontou Nobre. O custo desse projeto é estimado entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões.

Desenvolvimento sustentável 

 A restauração das áreas degradadas e a manutenção das áreas preservadas da floresta também são fundamentais para melhorar a qualidade de vida das populações amazônidas, apontou  Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas e membro da coordenação do programa BIOTA-FAPESP.

“Precisamos criar maneiras de melhorar a qualidade de vida dos 23 milhões de brasileiros que vivem na região e, ao mesmo tempo, preservar e transformar a floresta em um grande ativo, combinando conhecimentos das populações tradicionais e indígenas com o científico para identificar soluções que sejam viáveis, tenham escala e tragam uma mudança real de perspectiva”,

alertou Joly.

“Certamente haverá financiamento para trazer de volta o desenvolvimento para a região, mantendo e utilizando produtos da floresta”, afirmou o pesquisador, dando como exemplo iniciativa recente de apoio à pesquisa por meio do edital da iniciativa Amazônia+10, lançado pela FAPESP em parceria com fundações de amparo à pesquisa de outros 19 estados do país. 

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Petrobras amplia ofensiva na Foz do Amazonas e pede ao Ibama licença para explorar mais três poços

Diretora da Petrobras confirma protocolo de licença junto ao Ibama para ampliar campanha exploratória no bloco 59, na Foz do Amazonas, após descoberta de indícios de petróleo.

Leia também

Publicidade