Bioplásticos com amido de mandioca: uma alternativa sustentável para novas embalagens

Alternativa sustentável, os bioplásticos contam com propriedades físicas e químicas semelhantes, ou até superiores aos comuns, por serem renováveis e abundantes.

Foto: Marcos Santos/USP

Sabe aquele plástico que utilizamos para embalar alimentos? Seu tempo de decomposição é de 400 a 1000 anos. O descarte irregular desse filme é preocupante, pois, além de acentuar a poluição ambiental, também é um problema de saúde pública para quem vive nos arredores de onde ele é descartado.

Como alternativa sustentável, surgem os bioplásticos com propriedades físicas e químicas semelhantes, ou até superiores aos plásticos comuns, por serem renováveis e abundantes. Podendo ser feitos com matérias-primas como a celulose e proteínas naturais, os plásticos biodegradáveis feitos com o amido de mandioca também seriam grandes aliados para uma produção sustentável.

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É o que explica a pesquisa intitulada ‘Filme de Amido de Mandioca Reforçado com Compostos Amazônicos e Vanadato de Bismuto’, conduzida pela aluna de graduação Manuelly Cassila Castro Sousa, vinculada à Faculdade de Ciências Exatas e Tecnologia (Facet/Campus Abaetetuba) da UFPA.

O relatório compõe o Plano de Trabalho Síntese de Compostos utilizando os Polímeros Naturais da Amazônia, coordenado pela professora e orientadora da pesquisa, Cleidilane Sena Costa.

“Estimativas indicam que já foram produzidos oito bilhões de toneladas de plástico convencional e apenas 9% desse total foram reciclados. Isso prejudica vidas como a minha, de ribeirinhos que veem seus rios poluídos. Então, procuramos uma alternativa econômica, com elementos plastificantes, alguns presentes na natureza, para diminuir os impactos ambientais”, ressalta Manuelly Sousa, autora da pesquisa.

Foto: Alexandre de Moraes/Jornal Beira do Rio

A estudante construiu sua pesquisa em duas etapas: uma com revisão bibliográfica sobre compostos favoráveis para produzir filmes biodegradáveis e outra com testes de aparência e concentração desses elementos.]

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Produzindo e caracterizando o bioplástico no laboratório

Para construir o bioplástico, Manuelly Castro Sousa utilizou o amido de mandioca por ser um polímero natural e apresentar estrutura química passível de modificação, o que permite ajustar suas propriedades físico-químicas e ampliar sua durabilidade.

Para aprimorar a flexibilidade e resistência do filme, ela adicionou o extrato alcoólico da Vismia guianensis (Extrato Alcoólico de Vismia Guianenis, do inglês, Vismia Guianensis Alcoholic Extract), popularmente chamada de “lacre”, uma seiva vegetal amazônica que age como plastificante natural por sua alta eficiência e boa compatibilidade com amido. Para finalizar, Manuelly utilizou o vanadato de bismuto (BiVO₄), composto inorgânico sólido de coloração amarela vívida.

bioplástico de amido de milho
Exemplo de bioplástico feito com amido de milho. Foto: Crystofher Andradeg

Ela dissolveu o pó do amido de mandioca e manteve em agitação constante, à temperatura ambiente, por alguns minutos. Após deixar a solução homogênea, adicionou 0,2% de Vismia guianensis diluída em álcool isopropílico. Em seguida, adicionou glicerol e, por fim, inseriu o vanadato de bismuto, diluído em álcool isopropílico. As diluições servem para evitar aglomerados do composto no produto final.

A mistura esteve em agitação e depois se aumentou a temperatura até atingir 70º C, quando atingiu aspecto gelatinoso. Após isso, a solução foi centrifugada e dispersada, por cisalhamento, em substrato, secando naturalmente. O resultado gerou duas amostras, uma com baixa e outra com alta concentração de vanadato de bismuto, nomeadas como F1 e F2, respectivamente.

“Para caracterizar cada amostra, usamos a Difração de Raio-X (DRX), para analisar a cristalinidade; a Transmitância Óptica, que fornece a quantidade de luz que as amostras transmitem; a Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV), para analisar os detalhes da superfície e espessura do filme; e o Infravermelho por Transformada de Fourier (FTIR, do inglês, Fourier Transform Infrared Spectroscopy), técnica para investigar as interações químicas por meio da absorção da radiação infravermelha”, explicou Manuelly.

A pesquisadora percebeu que a amostra F1 era pouco cristalina, apresentava transparência parcial e com maior interação com o vanadato de bismuto, resultando em maior transmitância e homogeneidade química. Já a F2 era mais cristalina, opaca e porosa, sendo mais rígida. “Essas diferenças ajudam no ajuste das propriedades do bioplástico com a aplicação desejada, sendo a amostra F1 mais promissora para embalagens que demandam mais inspeção visual e a amostra F2 para embalagens protetoras de produtos sensíveis à luz”, finalizou ela.

Polímero: é uma molécula grande (macromolécula), formada pela união de moléculas menores (monômeros). O polímero do amido é formado pelas macromoléculas amilose e amilopectina e por monômeros de glicose. O polímero seria a estrutura química do amido, o que forma a molécula. Eles podem ser naturais (formados por reações naturais), como o amido, que pode ser encontrado em alimentos como o trigo e o polvilho doce (amido de mandioca), ou sintéticos (reações realizadas pelo ser humano), como o policloreto de vinila (PVC), utilizado em tubos e revestimentos.

Foto: Crystofher Andrade

Sobre a pesquisa

A pesquisa intitulada “Filme de Amido de Mandioca Reforçado com Compostos Amazônicos e Vanadato de Bismuto”, de autoria de Manuelly Cassila Castro Sousa (Facet UFPA/Campus Abaetetuba) e orientada pela professora Cleidilane Sena Costa, foi apresentada no Seminário de Iniciação Científica da UFPA (Seminic), em 2025.

Manuelly Cassila Castro Sousa, 21 anos, cursa o 6o semestre de Licenciatura em Física pela UFPA/Campus Abaetetuba. Com interesse nos estudos da produção de filmes finos biodegradáveis e outros polímeros da Amazônia, planeja realizar pós-graduação na mesma área. Fora da pesquisa, a leitura e o violão são suas paixões.

Para quem deseja entrar na pesquisa, ela aconselha a persistência: “Não desista nas primeiras dificuldades. Muita gente vê nossos trabalhos e pensa que é algo internacional, mas fazemos com o pouco que temos aqui. Na pesquisa, às vezes, pensamos: ‘Será que todo esse trabalho vai gerar algum resultado favorável?’ Mas nada é perda de tempo, cada parte é importante ali”, afirma.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, escrito por Karina Mendes

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