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Quarta, 17 Agosto 2022

Abate de jacarés no Lago do Cuniã

A Reserva Extrativista do Lago do Cuniã está localizada no município de Porto Velho, no Estado de Rondônia, e fica a cerca de 130 Km da área urbana da cidade. É uma unidade de conservação do governo federal de uso sustentável e constituída por famílias que dependem da pesca, agricultura, extrativismo dos produtos da floresta e manejo do jacaré. Vivem cerca de 495 moradores, 85 famílias distribuídas em cinco núcleos: Bela Palmeiras, Silva e Lopes, Neves, Pupunhas e Araçá, sendo o principal meio de acesso via fluvial.

A comunidade conta com o projeto de manejo e beneficiamento do jacaré, tendo sido instalado em 2011 o abatedouro de jacarés no núcleo comunitário Silva e Lopes, o que é essencial para a manutenção do equilíbrio da cadeia alimentar, renda e segurança dos moradores, principalmente do pescador durante à sua atividade pesqueira.

Jacaretinga. Foto: Reprodução/ICMBio

O abate do jacaré ocorre, uma vez por ano, com o monitoramento de uma equipe técnica, composta por moradores da reserva, que faz a contagem das espécies jacaretinga e jacaré-açu destinadas ao manejo. Os meses de junho, julho e agosto são para a contagem dos jacarés e dos ovos, verificação dos ninhos, realização de censo, visando a elaboração de um relatório contendo a quantidade de animais que serão abatidos. É proibido o abate dos jacarés nos meses de junho a agosto porque estão na fase do acasalamento, fazem ninhos e puxam grande quantidade de folhas e galhos para depositarem os seus ovos.

Limpeza do jacaré. Foto: Acervo Coopcuniã

A Cooperativa dos Agricultores e Pescadores do Lago do Cuniã - Coopcuniã é responsável por este trabalho técnico e geralmente os cooperados pedem ao IBAMA e ICMBio para serem abatidos, por ano, em torno de 900 animais. Depois da autorização desses órgãos, o abate começa no mês de setembro e conta com o trabalho de várias equipes, com funções diferenciadas, para garantirem toda segurança e manipulação segura dos animais.

A etapa de captura ocorre à noite porque os animais estão mais vulneráveis, conta com equipes treinadas e possuem a missão de capturar seis jacarés de acordo com os protocolos estabelecidos, não sendo autorizado o abate de jacaré-fêmea, apenas os machos. No lago, há mais machos do que fêmeas e na leitura dos ribeirinhos mais experientes tal fenômeno pode estar atrelado à mudança climática, com a intensificação do calor, o que favorece nascer mais machos do que fêmeas.

Saber identificar o sexo do jacaré é importante porque se for capturada uma fêmea, faz-se o registro dela, verifica às suas medidas e depois a solta para melhor controle da atividade sustentável.

Etapa da captura do jacaré. Foto: Acervo Coopcuniã

Há uma equipe responsável pelo transporte dos jacarés até o curral, onde o animal será no dia seguinte higienizado antes do abate, o que garante segurança aos trabalhadores, monitoramento por parte dos órgãos de fiscalização, como a SEMAGRIC e controle sanitário para quem irá consumir a carne.

O protocolo de orientações é seguido de forma rígida, tendo em vista que se manipula um animal perigoso e vivo. Logo, os equipamentos de proteção individual utilizados na fase da captura quanto no frigorífico são exigidos para a autorização da licença junto aos órgãos fiscalizadores.

Trabalho no frigorífico. Foto: Acervo Coopcuniã

Depois do abate, faz-se a retirada do couro e das vísceras dos jacarés. Esse trabalho envolve técnicas para salvaguardar os homens e mulheres que atuam nessa atividade. Em seguida, a etapa da desossa corresponde aos cortes que serão embalados a vácuo e, posteriormente, congelados para serem destinados ao mercado consumidor de Porto Velho.

Todas as partes do jacaré são aproveitadas, com exceção das vísceras e ossos, sendo que esse processo do abate vai de junho até outubro, sendo três meses para o monitoramento e dois meses para a captura e trabalho no frigorífico.

A Coopcuniã espera fazer o aproveitamento dos ossos dos jacarés e obter uma licença federal (SIF) para comercializar essa carne exótica fora de Porto Velho. Uma boa ideia para o aproveitamento dos ossos seria o beneficiamento para produção de farinha de osso, rações para peixes, cachorros e gatos.

Ao longo dos anos, o abate vem sendo aprimorado e agregou mais moradores nesta atividade sustentável. Este projeto significa muito para a comunidade como afirma Antônio Edinaldo, morador da RESEX do Lago do Cuniã e ex-presidente fundador da Coopcuniã:

O projeto tem uma importância muito grande, não somente pela questão do dinheiro, mas pela segurança do pescador e com garantia de retorno à sua família sem nenhum risco. Antes do abate, corria riscos de não voltar em segurança para casa, depois do primeiro abate (2011) as coisas melhoraram.

 Essa atividade é muito importante para os moradores que já trabalhavam com o extrativismo vegetal, agricultura e pesca artesanal. Em razão da superpopulação de jacarés, os moradores não conseguiam mais pescar com segurança e estavam em situação de risco permanente, inclusive uma criança na faixa etária veio à óbito devido a um ataque de jacaré, assim como outros moradores que sofreram acidentes.

Como diz Antônio Edinaldo Fernando, morador da RESEX Cuniã e muito conhecedor dessa atividade sustentável:

O jacaré matou uma criança e a partir disso começou um processo de como a gente iria tirar essas espécies de animais. A comunidade chegou a fazer um movimento que matasse jacaré e deixar aí jogado na beira do lago para o urubu comer para que os órgãos competentes vissem que a gente estava correndo riscos todos os dias. Depois desse acidente já começou a ter um estudo para que se pudesse abater esse jacaré.

 O estudo foi necessário para a garantia da segurança da comunidade e controle da superpopulação de jacarés, sendo que o abate experimental de três jacarés ocorreu em 2010. Contou com a participação dos moradores que puderam fazer a degustação da carne de jacaré, com receitas deliciosas feitas pelo morador Jorge, sendo destaque o prato jacaré ao molho de tucumã que foi apresentado em um evento de Gastronomia em São Paulo.

Atualmente, em média 70% da comunidade consome carne de jacaré, mesmo esporadicamente, sendo uma carne de grande valor nutricional e tida como antibiótico pela população ribeirinha.

Os ribeirinhos aprendem, com o manejo do jacaré, a importância de uma atividade sustentável, evitando a caça ilegal das espécies e garantem uma renda para a subsistência da família, além do bem-estar e segurança dos moradores.

Que esta experiência de Olhar Amazônia, com pertencimento e valorização de uma atividade sustentável, possa ser multiplicada para a definição de campos possíveis de ação nas políticas públicas destinadas às populações ribeirinhas. Continue nos acompanhando e envie suas sugestões no e-mail:

Sobre a autora

Lucileyde Feitosa é professora, Pós-Doutora em Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho/Portugal), Pós-Doutora em Geografia pela Universidade do Minho/Portugal, Doutora em Geografia/UFPR, Integrante do Movimento Jornalismo e Ciência na Amazônia e colunista da Rádio CBN Amazônia/Porto Velho.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 


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