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Sábado, 25 Junho 2022

Terra Firme: sem água potável, como sobreviver?

A comunidade de Terra Firme está localizada à margem do rio Madeira, principal rio do estado de Rondônia, sendo a única via de acesso. Os moradores do alto dos barrancos observam os comboios de balsa passarem com soja, derivados de petróleo, cargas diversas, produtos inflamáveis, sendo exemplificativos da riqueza transportada nesse importante afluente do rio Amazonas.

Comunidade de Terra Firme. Fonte: Associação dos Moradores

Nessa mesma área geográfica existem riquezas, contradições e desassistências históricas que impactam diretamente a sustentabilidade e o futuro de uma comunidade ribeirinha. É o caso da comunidade de Terra Firme, constituída por 26 famílias que não possuem acesso à água potável, energia elétrica, ou seja, demandas básicas essenciais à subsistência humana.

Muitos direitos estão sendo violados há mais de 12 anos e o fato de não serem atendidos pelas Instituições governamentais evidenciam o distanciamento das políticas públicas que não alcançam a todos, especialmente àqueles que moram no interior da Amazônia.

A Associação dos Moradores, liderada pela Presidente Maria de Fátima, resolveu romper silenciamentos e mostrar o sofrimento da comunidade. As mulheres se uniram nessa causa social e fizeram uma vaquinha online com o objetivo de arrecadar dinheiro para a construção do poço artesiano na comunidade. Maria de Fátima fala de como é viver sem água potável: 

"A dificuldade é imensa, as famílias demoram horas pra pegar uma água no rio Madeira e mesmo assim é muito difícil pra conservar as plantações, pra fazer nossos alimentos e por isso resolvi fazer uma vaquinha online para arrecadar dinheiro para construir esse poço artesiano em nossa comunidade porque nessa época de verão é muito difícil água. Estamos passando por um momento muito difícil por falta de água em nossa comunidade".

De acordo com a Declaração Universal dos Direitos da Água de 1992, no Art. 2º - A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura, ou seja, a água é um dos direitos fundamentais do ser humano.

Em época de vazante, a situação ainda é muito pior porque os barrancos ficam íngremes, dificultam a acessibilidade e bombear a água do rio Madeira é um tormento, além de ser inadequada para o consumo humano por conta de mercúrio, dejetos humanos e resíduos sólidos lançados ao rio, levando a comunidade a viver em estado permanente de contaminação.

Caminho para buscar água no rio Madeira. Fonte: Associação dos Moradores

O acesso à água potável continua sendo um dilema e privilégio de poucos. Associado a isso, prevalece a contradição de se viver na maior reserva de água doce do mundo e a população ribeirinha, que ajuda a manter a floresta em pé, não tem acesso à água boa e de qualidade.

Época de muito sofrimento na comunidade. Fonte: Associação dos Moradores

 A vaquinha online é um grito de socorro, pedido de ajuda de mulheres que vieram às redes sociais protestar contra a falta de políticas públicas essenciais na manutenção da vida. E a repercussão foi imediata, o que levou o Grupo Minhas Raízes da comunidade de Nazaré, jornalistas e pesquisadores abraçaram essa causa social em prol da construção do poço artesiano, chamando atenção da sociedade quanto ao descaso e competência do Estado que não cumpre adequadamente o previsto na Constituição Federal de 1988, dos Direitos e Garantias Fundamentais.

Afinal, quanto custa um poço artesiano aos cofres públicos? E como fica a dignidade da pessoa humana nesse espaço de muita desassistência das políticas públicas? Sensibilizado com essa problemática, o Grupo Minhas Raízes da comunidade de Nazaré, referência na promoção da cultura ribeirinha, fará uma Live no dia 9 de setembro, às 19h30, para ajudar na divulgação e arrecadação de recursos para a construção do esperado poço artesiano. 

Reprodução: Divulgação

Haverá sorteio de brindes e Cds do grupo da comunidade de Nazaré que faz um belo trabalho na área de música, teatro, meio ambiente, dança, o que muito engrandece à produção artística na Amazônia. Acesse o link https://www.vakinha.com.br/vaquinha/agua-para-terra-firme e colabore na sustentabilidade de uma comunidade ribeirinha de Porto Velho.

Que esta experiência de Olhar Amazônia com pertencimento e justiça social possa ser multiplicada para a definição de campos possíveis de ação nas políticas públicas destinadas às populações ribeirinhas. Continue nos acompanhando e envie suas sugestões no e-mail:



Lucileyde Feitosa

Professora, Pós-Doutoranda em Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho/Portugal), Doutora em Geografia/UFPR, Integrante do Movimento Jornalismo e Ciência na Amazônia e colunista da Rádio CBN Amazônia/Porto Velho.

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