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Domingo, 21 Abril 2024

Ribeirinhos de comunidade no oeste do Pará se unem para preservar tartarugas na Amazônia

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Um dos montinhos de areia parece se movimentar. Fábio abre caminho com as mãos e um filhote de pitiú emerge do ninho. Com cerca de 4 centímetros, o quelônio passa a nadadeira no olho direito e depois repete o gesto do lado esquerdo. É preciso desembaçar os olhos para enxergar o novo mundo. Segundos depois, emerge outro filhote.

Num dos biomas mais biodiversos em quelônios do mundo, moradores de Juruti viram a abundância de tartarugas e outras espécies despencar ao longo das últimas gerações. Relatos dos antepassados e as próprias observações sobre a drástica redução levaram ribeirinhos de 32 comunidades no município de Juruti, no Pará, a se organizar, de forma independente e voluntária, para preservar espécies como tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), tracajá (Podocnemis unifilis), pitiú (Podocnemis sextuberculata) e irapuca (Podocnemis erythrocephala).

Beira de rio no município de Juruti, Pará. O calor excessivo e o período intenso de seca esquentou as águas e baixou o nível de lagos e rios amazônicos, gerando dificuldades para as tartarugas fazerem a postura. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

 O trabalho consiste em vigiar as praias durante a noite a partir de setembro, quando inicia o período de desova e as fêmeas ficam mais vulneráveis. Depois, os comunitários coletam os ovos de cada ninho, transportando-os para um berçário ou chocadeira — área cercada na areia, onde os ovos ficam protegidos até o nascimento dos filhotes, quando são colocados em tanques até a soltura, que no último ano ocorreu no início de março.

"Se as espécies hoje estão conseguindo aumentar a população silvestre nos rios da Amazônia, é graças ao trabalho de base de manejo comunitário. Hoje nós temos na Amazônia brasileira 21 espécies de quelônios descritas. Nessa região [Juruti], nós já conseguimos catalogar 14 espécies, sendo uma endêmica. A gente considera o Brasil um 'turtle hotspot, uma área prioritária para conservação do grupo",

diz Fábio Andrew Cunha, jurutiense especialista em quelônios.

Entre tartarugas e estrelas

Os antigos moradores diziam que havia mais tartarugas nos rios do que estrelas no céu. "Em alguns rios da Amazônia, era impossível a navegação de grandes barcos devido à concentração de fêmeas, sobretudo nesse período da postura em que elas formam os grandes cardumes para subir e formar os tabuleiros, que é a desova conjunta nas praias", conta Fábio.

No entanto, a quantidade de tartarugas diminuiu drasticamente na região. Segundo Fábio, biólogo e doutor em Ecologia Aquática e Conservação na Amazônia, nas décadas de 1970 e 80 Juruti tornou-se um centro de coleta de ovos e caça de fêmeas adultas. Tradicionais na alimentação, os ovos chegaram a ser usados como pagamento de contas bancárias e a carne da tartaruga já foi considerada a segunda principal fonte de proteína animal na dieta local, atrás somente dos pescados. 

Ovos de tracajá são realocados e vigiados por ribeirinhos na chocadeira do Lago Tucunaré. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay
Fábio Andrew Cunha, especialista em quelônios, acompanha o trabalho de ribeirinhos em 32 comunidades de Juruti. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

 Atualmente, leis que protegem a fauna silvestre proíbem o consumo tanto dos ovos quanto dos quelônios, mas entre agosto e setembro os ares jurutienses contam uma outra história:

"É muito comum você sentir o cheiro do casco [assando] quando você anda pelas ruas da cidade. Estou falando sobre a realidade de um único município, mas isso acontece em quase todas as cidadezinhas no interior da Amazônia",

diz Fábio.

É verdade que uma parcela significativa da população já se conscientizou sobre a importância da preservação das tartarugas, mas uma pesquisa mostra que aproximadamente 1,7 milhão de quelônios foram consumidos em áreas urbanas do Amazonas em 2018.

Além da caça ilegal, os quelônios sofrem outros tipos de ameaça. "Quando há grandes projetos de mineração sendo implantados na Amazônia, isso afeta a paisagem tanto do ponto de vista do local para desova quanto da área de abrigo e de alimentação", aponta Fábio. Em Juruti, a extração de bauxita realizada pela mineradora Alcoa desde 2009 gerou acordos financeiros sem precedentes por danos socioambientais.

O desmatamento, a exploração de petróleo e a instalação de barragens nos rios para a ampliação da matriz energética representam outros perigos. "São várias alterações atuando de forma conjunta que, em última escala, reduzem o número e estrutura populacional, tanto de fêmeas quanto de machos."

Tendo como base os relatos dos antepassados, e observando a quantidade de quelônios minguar, comunitários se inspiraram em projetos já existentes na Amazônia, como o Projeto Quelônios da Amazônia e o Projeto Pé-de-Pincha, e se organizaram, de maneira independente e voluntária, para proteger seu entorno.

Quelônio albino, raridade nascida na comunidade Capiranga.Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

Guerreiros do Miri

"O nosso grupo é formado por jovens. Tem menino com 25 anos que começou com 8 acompanhando o trabalho", conta Marunei Guerreiro de Mesquita, líder do projeto na comunidade Miri, zona rural de Juruti, que reúne 20 voluntários na Associação dos Guerreiros Ambientais do Miri (Agam). "Tem eu de velho e o resto juventude."

Há 15 anos, quando começaram a fazer o manejo, os comunitários conseguiam realocar cerca de 50 ninhos na chocadeira a cada temporada. Nos últimos anos, chegaram a mais de 270.

Em frente à casa do seu Marunei, às margens do lago de várzea que se junta ao Rio Amazonas, está o cercado que abriga os ovos coletados. Nesta temporada são 225 ninhos, número inferior ao dos anos anteriores — provavelmente por conta da seca severa que atingiu a região, mudando o regime das águas e deixando as cabeceiras dos lagos e rios secas ao extremo.

Marunei Guerreiro de Mesquita lidera 20 voluntários na proteção aos quelônios na comunidade Miri. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay
A Amazônia brasileira é um “turtle hotspot”, com 21 espécies de quelônios descritas pela ciência. Juruti conta com 14 espécies, sendo uma endêmica. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

Desde o início do projeto, os números só faziam crescer a cada ano. Não sem dificuldades.   

"Criei problema com comunitário, criei problema com a Secretaria [Municipal do Meio Ambiente], criei problema com coordenador de comunidade por causa do trabalho que eu faço. Mas esse trabalho que eu faço não está me dando açúcar, nem café",

desabafa Marunei.

Apesar dos desafios em conseguir recursos para seguir adiante, Marunei sente-se recompensado pelo aumento de quelônios na região, pela admiração que muitos sentem pelo projeto, e pelas novas gerações que se juntam no voluntariado.

"A gente aprende muito e vai levando isso para frente até a geração dos nossos filhos, dos nossos netos", conta Jelso Santarém, de 20 anos, que começou no projeto com 13.

É no quintal de Marunei que fica o tanque, onde vivem por alguns meses os quelônios recém-nascidos. No último mês de novembro, o tanque já abrigava uma pequena multidão de quelônios.

Fábio, recém-chegado da Bolívia, onde participou de uma reunião da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) para avaliação do status de ameaça dos quelônios da Amazônia, pega um filhote de pitiú na mão, uma de suas espécies favoritas e das mais ameaçadas: "ela é a mais linda do mundo, parece que ela te pede um abraço".

No berçário, nascem mais filhotes de pitiú. Henry Mesquita Santarém, de 2 anos de idade, acompanha o acontecimento. "Bota na caixa", diz o menino, referindo-se ao isopor. Henry sobe a ladeira do quintal junto ao avô Marunei, ajudando como pode a levar o isopor até o tanque de cria.

Ednaldo Lima de Sousa, coordenador do projeto no Lago Capiranga, carrega quelônios recém-nascidos. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay
Filhotes de tracajá (marrons) e um filhote de pitiú (cinza); a pitiú é a espécie mais procurada pelos predadores. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

Um olho no peixe, outro no quelônio

"A pitiú é a espécie mais procurada pelos predadores. Se a gente não cuidar desses bichos que estão aqui, mais tarde a gente não vai ver mais",

diz Ednaldo Lima de Sousa, coordenador do projeto que funciona desde 2005 na comunidade Capiranga. 

Além do manejo dos quelônios, muitas comunidades também cuidam dos peixes. "Nós temos um acordo de pesca. Não é dar a liberação para qualquer um; a gente tenta preservar para a comunidade. Esse é o nosso acordo", explica Ednaldo.

Na comunidade Capiranga, o aumento de quelônios é notado e já houve safra com 300 ninhos protegidos. "Os bichinhos começaram a chegar mais pra banda onde já está preservado", diz Edir Lima de Sousa, que atua junto com o irmão Ednaldo e mais oito ribeirinhos.

Dentro do berçário, que neste ano abriga quase cem ninhos com vista privilegiada para o Lago Capiranga, filhotes de tracajá despontam na areia. Ednaldo ajuda, abrindo espaço na saída do ninho, mas nem tudo ocorre como o planejado. Poucos filhotes saem, alguns ovos estão parcialmente ou totalmente cozidos dentro do ninho e alguns filhotes não conseguiram se desenvolver e eclodir.

"A gente vinha tendo um resultado muito positivo, mas o período muito intenso de seca atrapalha o contexto de uma forma geral", afirma Fábio. 

Ovos cozidos e filhotes de tartaruga mortos pelas altas temperaturas. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

Com a medição de 43 graus Celsius de temperatura na areia, relatos sobre fêmeas mortas às margens dos rios também têm sido comuns. "Elas iam subir para fazer postura e não conseguiram, ou pela distância ou pela temperatura muito elevada."

Outra preocupação do momento é que a temperatura tem influência na determinação sexual de diversas espécies de quelônios de rio. "Pode ser que temperaturas elevadas produzam mais fêmeas do que um equilíbrio normal para a população. A gente precisa que haja um equilíbrio entre o número de machos e de fêmeas, então estamos falando de um processo de feminização".

Numa noite de lua cheia e de estrelas invisibilizadas pela fumaça das queimadas, a reportagem da Mongabay acompanhou as incursões de rabeta lago adentro em busca de fêmeas adultas: sem sucesso.

"Num cenário perfeito, nesse momento estaríamos medindo e fotografando e marcando umas 50, 60 fêmeas", diz Fábio. "A gente colocou as redes na água e nós não conseguimos capturar nenhum animal. Ainda não se sabe o motivo. Acredito que a intensificação da seca e a captura ilegal tenham afugentado ou levado as fêmeas a escolherem outros locais." 

Ninhos protegidos em chocadeira no Lago Capiranga. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

Espelho da natureza

Domingos transporta o isopor nos braços, como se fosse uma criança. Ali dentro estão 29 ovos de tracajá que ele acabou de coletar num ninho às margens do Lago Tucunaré. Os ovos serão realocados e vigiados no berçário, metros adiante. "Para levar para a cova, tem que levar com jeito para não sacudir", avisa.

Adentrando o alambrado da chocadeira, Domingos Pereira Campos, que participa do projeto desde seu início em 2012, escolhe uma vaga e cava um buraco com uma curva mais acentuada de um dos lados, como se fosse uma barriga.

"É assim que a natureza faz. A gente faz mais ou menos que nem ela, mas não é igual", mostra. "Do jeito que a gente tira, a gente coloca lá de volta na outra cova. Aquele que saiu por último, vai primeiro para o fundo."

"Se puder observar o cuidado que a fêmea tem para fazer o ninho… é emocionante demais. É uma câmara que consegue manter a temperatura", conta Fábio.

Realmente, nem tudo pode ser copiado da mesma forma que é elaborado na natureza. "Claro que, com o deslocamento dos ovos do ambiente natural para a chocadeira, há uma perda, porque a gente não consegue de forma literal escolher o mesmo microclima como é o da natureza. Então é esperado que uma porcentagem mínima seja inviável", explica Fábio.

O aumento de quelônios em Juruti está diretamente ligado ao trabalho dos ribeirinhos, que vigiam as praias durante o período de desova, coletam os ovos e cuidam dos quelônios recém-nascidos. 

Fim de tarde na comunidade Miri. Foto: Julia Lemos Lima/Mongabay

Toda interferência tem seus efeitos. Não apenas a mudança de local do ninho, mas também os meses em que os filhotes crescem nos tanques até a soltura geram impactos, podendo comprometer sua capacidade de fugir de predadores, a agilidade natatória e a habilidade em procurar o próprio alimento.

Especialistas sugerem que uma parte dos filhotes seja direcionada imediatamente para a água após o nascimento para incentivar as fêmeas adultas a voltarem ao local de desova.

"Com a descoberta da vocalização, descobriu-se que há um cuidado parental das fêmeas com os filhotes", relata Fábio. Estudos têm mostrado que os filhotes emitem sons ainda como embriões, alertando as fêmeas do seu nascimento. Se as fêmeas estão no aguardo do nascimento e não recebem nenhum filhote, podem considerar o local pouco seguro para uma futura desova.

Ainda que a proteção dedicada dos comunitários não seja exatamente um espelho da natureza, é possível perceber dentro do município o impacto real positivo das ações de conservação nas comunidades rurais, com o crescimento populacional das espécies e o aumento do número de ninhos.

Numa tarde quente de novembro, caminhando pelas margens do Lago Tucunaré, Fábio encontra mais um ninho. Esse será o de número 183 a ser levado para dentro da chocadeira.

"Quando a gente começou em 2012, a gente conseguiu seis ninhos e 212 filhotes já em 2013", conta Jorge Simões, coordenador do projeto no Tucunaré. "Os moradores foram apoiando cada vez mais e hoje é um sucesso muito grande. No ano passado, nós soltamos 4.150 filhotes. Então, cada ano que passa evolui mais".

*O conteúdo foi publicado originalmente na Mongabay, escrito por Sibélia Zanon (texto) e Julia Lemos Lima (vídeo e fotos)

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