Vulnerabilidade alimentar influencia a forma como comunidades amazônicas percebem a natureza

Estudo do programa AmazonFACE analisa como populações do Amazonas percebem os benefícios da natureza: quanto maior a insegurança alimentar, mais a visão se limita à sobrevivência imediata.

Mercado Tikuna, na cidade de Tabatinga, uma das regiões englobadas pelo estudo. Foto: Marko Monteiro/Acervo pessoal

O nível de vulnerabilidade alimentar influi a forma como as populações amazônicas percebem os benefícios gerados pela natureza. Comunidades em situação de insegurança alimentar severa concentram sua percepção quase exclusivamente em serviços ecossistêmicos relacionados à provisão imediata – ou seja, o alimento no prato.

Já grupos menos vulneráveis conseguem reconhecer uma diversidade maior de benefícios, como a regulação do clima, valores culturais, espirituais e lazer. Essa é a conclusão de uma das pesquisas do programa AmazonFACE, publicada no periódico científico Ecosystem Services nesta quarta-feira (28).

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Com abordagem multidisciplinar, o estudo baseou-se em 216 entrevistas semiestruturadas com moradores locais, ribeirinhos e indígenas e cruzou esses relatos com dados secundários sobre o uso e cobertura do solo.

O trabalho de campo foi conduzido em três municípios do Amazonas que representam diferentes níveis de vulnerabilidade alimentar:

  • Manaus, classificada como média;
  • Carauari, como média-alta;
  • e Tabatinga, como muito alta.

Essa comparação permitiu aos pesquisadores observar como as necessidades básicas influenciam a relação das pessoas com o ambiente.

O artigo destaca que a percepção local funciona como um “alerta precoce” para ameaças ambientais, como a poluição da água e a escassez de peixes, que nem sempre são captadas por dados de satélite. “Essa pesquisa pode ajudar a tornar as políticas públicas mais eficazes e mais justas”, pontua a bióloga Ana Luisa de Carvalho Cruz, atualmente analista do Laboratório Nacional de Biorenováveis/CNPEM e líder da pesquisa.

“Ela mostra a conexão entre conservação e segurança alimentar e que as ações relacionadas devem ser pensadas a partir da realidade de quem vive no território, e não apenas baseadas em dados técnicos de literatura. O que as pessoas sinalizam revela a necessidade real delas”.

Leia também: Aquicultura na Amazônia promove segurança alimentar com menos impacto que a pecuária

O Mapa A mostra, em pontos vermelhos, a localização das comunidades entrevistadas, bem como as Áreas Protegidas em Tabatinga - estudo segurança alimentar
O Mapa A mostra, em pontos vermelhos, a localização das comunidades entrevistadas, bem como as Áreas Protegidas (APs) do município: o amarelo indica áreas de Uso Sustentável e o marrom indica Terras Indígenas. Os principais rios estão representados em azul. Fonte: ANA (2010); FUNAI (2021); MMA (2020). Fotos B, C e D: Imagens das comunidades entrevistadas em Carauari. Foto B: Comunidade Barreirinha (sob jurisdição do INCRA). Foto C: Sistema de abastecimento de água da comunidade Nova Esperança. Foto D: Estrada de acesso à comunidade Nova Esperança. Fontes das imagens: membros do projeto (B – Tiago Jacaúna; C e D – Júlia Menin).

Segurança alimentar depende de outros fatores

Para a equipe, os resultados desafiam a ideia de que a alta biodiversidade, por si só, garante segurança alimentar. A segurança alimentar, apontam os autores, depende de fatores frequentemente ignorados em análises puramente biológicas, como a forte sazonalidade dos recursos naturais (com variação da disponibilidade ao longo do ano) e a dependência de mercados externos para suprir necessidades básicas.

Cruz também explica que um aspecto fundamental do projeto, que já vem sendo realizado, é a divulgação dos resultados para a própria comunidade, para que a ciência faça sentido na vida das populações que participaram diretamente da construção do conhecimento.

Esse retorno é realizado por meio de materiais acessíveis e didáticos, como vídeos e folhetos informativos, que sintetizam os benefícios percebidos e as ameaças identificadas pela pesquisa. Além de validar a contribuição dos moradores, esses resumos permitem que diferentes comunidades compartilhem estratégias de adaptação a problemas ambientais.

Os próximos passos da pesquisa incluem investigar de forma mais aprofundada as pressões ambientais e climáticas que geram escassez, além de mapear as estratégias de adaptação já adotadas pelas comunidades.

“Olhar para essas adaptações é fundamental para entender o que funciona, o que não funciona e como tornar as decisões mais inclusivas e eficazes”, destaca Cruz.

A expectativa é que, por meio do AmazonFACE, os resultados fortaleçam a interface entre ciência e tomada de decisão, contribuindo para políticas públicas mais alinhadas às realidades locais.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

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