Zoonoses no Brasil se concentram em áreas vulneráveis e atingem mais indígenas, negros e pardos, aponta estudo

Embora a mortalidade por zoonoses tenha diminuído entre 2007 e 2023, o número de casos aumentou em diversas regiões, como no Norte, e permaneceu estável em outras.

Foto: Reprodução/Universidade Federal do Acre

As zoonoses, doenças transmitidas entre animais e humanos, não se distribuem de forma aleatória no Brasil: sua ocorrência está associada a fatores sociais e ambientais, como desigualdade de renda, disparidades raciais e étnicas, condições de trabalho e acesso aos serviços de saúde.

É o que indica um estudo feito em colaboração entre a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o Centro Universitário Ingá (UNINGÁ) e o Hospital Universitário Regional de Ponta Grossa.

O trabalho, publicado na última sexta (17) na revista Brazilian Archives of Biology and Technology, reforça que o enfrentamento dessas doenças exige uma abordagem integrada entre saúde humana, animal e ambiental, aliada ao combate das desigualdades que ampliam a vulnerabilidade de determinadas populações.

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A pesquisa analisou padrões de morbidade e mortalidade por zoonoses país com base em dados dos sistemas oficiais de informação do Ministério da Saúde, referentes ao período de 2007 a 2023. Foram incluídas doenças bacterianas, virais e parasitárias. As taxas anuais de incidência e mortalidade foram calculadas e, para cada caso, foram considerados dados sociodemográficos, como idade, sexo, raça e localização geográfica.

Os resultados mostram que as zoonoses apresentam padrões cíclicos e regionais no Brasil. No período analisado, a região Norte liderou o aumento no número de casos, passando de 180 pacientes a cada 100 mil habitantes em 2007 para mais de 220 em 2023. A incidência também aumentou no Nordeste, manteve-se estável no Sul e Sudeste e apresentou variações no Centro-Oeste.

“Municípios com maior privação social e localizados em áreas rurais remotas apresentam os maiores indicadores de incidência e mortalidade”, afirma Giovani Marino Favero, autor do estudo. Populações indígenas, negras e pardas também apresentam uma carga desproporcional da doença. “Vimos que as zoonoses não são apenas um problema biológico”, explica o autor. “Elas estão fortemente associadas a fatores sociais, ambientais e territoriais”, pontua.

acumulo de lixo tambem pode aumentar zoonoses
Acúmulo de lixo também pode aumentar zoonoses. Foto: Reprodução/Acervo Rede Amazônica

Incidência aumenta, mas morte por zoonoses apresenta redução

Em contraste com a incidência, a mortalidade por zoonoses vem diminuindo de forma consistente, especialmente desde 2014. “Essa diferença indica que melhoramos o diagnóstico e o tratamento, mas não enfrentamos adequadamente fatores como pobreza, saneamento precário, ocupação desordenada do território, degradação ambiental e vulnerabilidade social”, defende o pesquisador.

Ele ressalta que, embora o país disponha de sistemas robustos de vigilância, ainda é necessário “transformar informação epidemiológica em ação integrada sobre os determinantes estruturais da doença” para enfrentar o problema de forma efetiva.

Uma estratégia apontada pelo estudo para caminhar rumo a esse objetivo é a adoção mais ampla da abordagem One Health, ou Saúde Única. “Não basta tratar pacientes ou controlar agentes infecciosos; é preciso integrar saúde humana, animal e preservação ambiental, além de enfrentar desigualdades sociais”, argumenta Favero.

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Ele acrescenta que a Saúde Única permite enxergar e atuar sobre todas essas dimensões ao mesmo tempo. De acordo com o pesquisador, o mapeamento realizado na pesquisa pode apoiar a implementação dessa abordagem ao orientar investimentos em saneamento, vigilância integrada, assistência à saúde, educação em saúde e monitoramento ambiental nas áreas de maior risco, contribuindo para políticas mais eficientes e baseadas em evidências.

Para Favero, ainda são necessários avanços importantes. “Nosso estudo identificou onde estão os problemas e quais grupos são mais afetados, mas ainda precisamos entender melhor como fatores como uso do solo, governança ambiental, mudanças climáticas e condições locais de vida influenciam a transmissão”, destaca. Ele ressalta que estudos que integrem dados epidemiológicos, ambientais e sociais também são fundamentais para orientar intervenções mais precisas e sustentáveis.

“Se quisermos controlar essas doenças de forma duradoura, precisamos tratar não apenas os agentes infecciosos, mas também as condições que permitem sua persistência”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

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