Mosquitos capazes de transmitir dengue colocam ovos a mais de 10 metros de altura, mostra estudo em Manaus

Estudo realizado em Manaus identificou ovos de Aedes albopictus, mosquito do mesmo gênero do Aedes aegypti, no topo de uma torre de seis andares.

Imagem da armadilha de coleta de ovos utilizada no experimento (ovitrampa) publicado na revista científica “EntomoBrasilis”. Foto: Divulgação/Acervo pesquisadores

O mosquito Aedes albopictus, capaz de transmitir dengue, zika, chikungunya e febre amarela, pode colocar ovos a mais de 10 metros do solo. É o que indica um estudo publicado nesta sexta (9), na revista científica “EntomoBrasilis”. O trabalho, fruto de uma parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT – HVD) e as universidades Federal do Maranhão (UFMA), Federal do Paraná (UFPR) e Estadual de Londrina (UEL), investigou a presença de ovos da espécie em uma torre de seis andares e os encontrou em todos os níveis avaliados, com maior concentração a até cerca de 4 metros.

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Para avaliar a capacidade de oviposição do Aedes albopictus – primo biológico do Aedes aegypti, que é o principal transmissor de doenças como dengue no Brasil –, a equipe instalou 30 armadilhas em diferentes alturas de uma torre em um fragmento florestal urbano de Manaus, capital do Amazonas.

A espécie é abundante na região, onde transita entre ambientes silvestres e áreas ocupadas por humanos e pode atuar na transmissão de doenças. Durante 10 semanas, divididas entre as estações seca e chuvosa de 2015, as armadilhas foram monitoradas em busca de ovos do inseto. Ao todo, foram encontrados mais de 35 mil.

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Embora os andares mais próximos do solo tenham concentrado a maior parte dos ovos, principalmente até o 4º, eles foram registrados em todos os níveis avaliados, a até 10,8 metros do solo.

“A colonização de andares superiores significa que os moradores de apartamentos não estão isentos do risco de picadas de vetores primários e secundários, estando expostos à transmissão dos vírus da dengue, zika e chikungunya dentro de suas residências”, afirma Adriano Nobre Arcos, pesquisador do Inpa e um dos autores do estudo.

ovitrampa contra mosquitos - dengue - manaus
Foto: Divulgação/Semsa Manaus

Ele explica que os prédios residenciais oferecem condições favoráveis para o mosquito, combinando a presença de locais de descanso, recipientes com água para a postura de ovos — como vasos de plantas e calhas —, humanos e animais domésticos, que podem servir como fonte de sangue.

Arcos afirma que apesar de o Ae. albopictus estar amplamente disseminado no Brasil, especialmente em ambientes rurais e periurbanos, não há registro de transmissão de dengue por ele no país.

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“Já foi registrada uma infecção natural pelo vírus da dengue (sorotipo DEN-1) em Ae. albopictus, o que indica que o mosquito pode se infectar, mas isso não prova que ele seja capaz de transmitir a doença para humanos em condições naturais no Brasil. Além disso, populações brasileiras do mosquito demonstraram capacidade de transmitir o vírus em testes de laboratório, o que mantém o alerta sobre seu potencial”.

Atenção ao comportamento dos mosquitos

Para o pesquisador, os resultados indicam um ponto-cego nas medidas de controle atuais. “Os serviços tradicionais de combate a endemias focam prioritariamente nos quintais e no térreo; assim, a presença do vetor nos andares elevados cria reservatórios ‘invisíveis’ que mantêm a circulação viral na comunidade”, argumenta.

Ele defende a necessidade de reorientar as ações de vigilância entomológica e saúde pública nos centros urbanos. “Em cidades com forte expansão de edifícios residenciais, as equipes de vigilância precisam incluir andares superiores nas rotinas de vistoria e manejo de criadouros”, diz. 

A umidade do ar também esteve relacionada ao número de ovos, mas apenas durante a estação seca. Nesse período, o fator explicou 34% da variação na abundância observada.

“Isso mostra que as estratégias de controle devem manter vigilância rigorosa mesmo em épocas de menor precipitação, quando a umidade varia”, defende Arcos. 

O comportamento de depositar ovos em andares altos de edifícios também já foi registrado em estudos anteriores com o Aedes aegypti. Arcos explica que esse padrão pode estar relacionado à busca por hospedeiros e abrigos, além da eliminação ou redução de criadouros disponíveis no solo. Ele acredita que os achados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias e políticas de manejo mais eficazes para o controle de mosquitos de ambas as espécies, já que apresentam estratégias de reprodução semelhantes.

Um desafio é entender como o inseto chega aos níveis mais altos da torre. “Qual é a contribuição exata do voo ativo em comparação ao transporte passivo, feito por elevadores e pelo deslocamento humano, na dispersão vertical?”, questiona.

Entre os próximos passos, o pesquisador cita o monitoramento contínuo para avaliar os efeitos das mudanças climáticas e da sazonalidade a longo prazo. “Também pretendemos avaliar as taxas de infecção natural por arbovírus em mosquitos capturados em diferentes andares para mapear o risco real de transmissão nas cidades”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

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