Medicina tradicional e ciência: a importância do estudo químico das plantas

O estudo demandou várias etapas de trabalho coletivo e uso de tecnologias apropriadas para a análise, incluindo a coleta,  que foi feita no município de Moju, no Pará

Quem nunca ouviu falar em tomar chá de boldo para má digestão? Ou passar bálsamo de andiroba em áreas do corpo que estão inflamadas? Essas, e muitas outras, plantas são velhas conhecidas da cultura popular por suas propriedades medicinais. Mas investigar a química dessas espécies e comprovar a eficácia das suas substâncias também é importante para o tratamento efetivo de doenças e desenvolvimento de medicamentos, tanto naturais como semissintéticos.

Para contribuir com as pesquisas desenvolvidas nessa área, a estudante Alice Carvalho, do curso de Farmácia da Universidade Federal do Pará (UFPA), iniciou um estudo para traçar o perfil químico das folhas de Costus arabicus (Costaceae). A planta, popularmente conhecida como canarana, cana-do-brejo e canaficha, aguçou a curiosidade da pesquisadora sobre as suas propriedades.

Foto: Alexandre de Moraes

“A espécie foi escolhida por ser pouco estudada quimicamente, o que possibilitaria a obtenção de resultados inéditos. Em paralelo, outro parâmetro utilizado foi o quimiotaxonômico, isto é, a planta pertencer a um gênero de espécies que apresentam classes químicas de grande interesse farmacológico”, 

relata Alice.

A sua principal motivação é entregar respostas científicas sobre a química da espécie, de forma a justificar o uso da planta na medicina tradicional.

A pesquisa, orientada pela professora Consuelo Yumiko Yoshioka e Silva, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (ICBio/UFPA), ressalta o potencial existente na diversidade vegetal do Brasil, a exemplo da própria planta Costus arabicus, objeto do estudo, que é encontrada na região amazônica. 

A população local a utiliza para tratamento de problemas renais, inflamações e até câncer. Segundo o trabalho, o método de preparo mais utilizado é a decocção, um processo similar ao preparo de chás, em que as folhas ou raízes são fervidas em água e depois coadas.

O potencial da canarana, a Costus arabicus 

O estudo demandou várias etapas de trabalho coletivo e uso de tecnologias apropriadas para a análise, desde a coleta, feita no município de Moju, no Pará, até as investigações realizadas no Laboratório de Cromatografia Líquida do Departamento de Química da UFPA. A identificação do local ideal de coleta, por exemplo, foi feita em parceria com o Herbário IAN, vinculado à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Após a coleta, as folhas selecionadas foram cortadas em partes menores, então lavadas em água corrente, submetidas à secagem e só então trituradas. “É importante mencionar que a escolha de estudar as folhas se deu em virtude do relato do uso dessa parte da planta por comunidades tradicionais”, explica Alice. 

Obtidos os extratos necessários, aplicaram-se as técnicas que fornecem informações precisas sobre a estrutura química da folha. Os dados recolhidos foram, então, processados por ferramentas de bioinformática e de análise molecular.

A pesquisa revelou que há potencial farmacológico nas folhas de Costus arabicus, pois os compostos naturais encontrados são de considerável interesse científico e terapêutico, como é o caso dos flavonoides. Segundo a pesquisadora, os flavonoides pertencem a uma classe de compostos que tem sido amplamente estudada nas últimas décadas. Os estudos apontam que eles possuem potencial antioxidante e anticarcinogênico (que reduz a frequência ou taxa de manifestações de tumores espontâneos ou induzidos), além de efeitos protetores aos sistemas renal, cardiovascular e hepático.

“Dos seis flavonoides anotados, cinco apresentam relatos na literatura de atividades farmacológicas comprovadas cientificamente. Ademais, o ácido pirocatecuico, um ácido graxo encontrado na folha, possui numerosas funções biológicas, tais como propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e anti-influenza”, 

explica Alice.

Os resultados reforçam positivamente os relatos das populações tradicionais que utilizam as folhas de Costus arabicus, ou canarana, para tratamento medicinal, mostrando que a técnica possui fundamento devido à alta relevância das propriedades farmacológicas encontradas nos compostos reconhecidos na pesquisa que demonstra a importância da observação da cultura tradicional, da qual partem investigações que proporcionam avanços significativos em vários campos, como o da farmacêutica.

Sobre a pesquisadora

Alice Rhelly Veloso Carvalho tem 24 anos e é concluinte do curso de Farmácia. Possui experiência em Iniciação Científica no Laboratório de Cromatografia Líquida (Labcrol), exercendo também atividades em técnicas avançadas de cromatografia líquida, com utilização de ferramentas de bioinformática para prospecção de compostos químicos com potencial atividade farmacológica advindos de plantas medicinais da região amazônica. 

Atua como voluntária no Projeto de Extensão “Adote um Sorriso” e é colaboradora do Projeto “Açaí com Ciência”. Alice tem interesse em fazer pós-graduação e seguir na pesquisa científica. O seu passatempo preferido é ler livros de ficção, principalmente romances. Também pratica yoga e gosta de andar de patins. A sua dica para mulheres que desejam ingressar na pesquisa é: “procure um laboratório em sua área de interesse, enriqueça seu currículo, estude bastante, não tenha medo de pedir ajuda ou de errar, seja curiosa, persistente e não desista diante das dificuldades, pois o seu esforço será recompensado”.

Sobre a pesquisa

O trabalho intitulado ‘Traçar o perfil químico das folhas de Costus arabicus (Costaceae) foi realizado sob orientação da professora Consuelo Yumiko Yoshioka e Silva (ICBio/UFPA), com financiamento Pibiti/CNPq. A pesquisa foi apresentada durante o XXXIV Seminário de Iniciação Científica da UFPA, realizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp), e premiada pelo Edital Pibic Verão Destaque na Iniciação Científica da UFPA (edição 2023), como representante da grande área de Ciências da Vida.   

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 169, escrito por Julia Ladeira

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