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Domingo, 21 Abril 2024

Novo instituto tem a missão de produzir sínteses sobre a biodiversidade amazônica para políticas públicas

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Integrar dados em larga escala, aprimorar a capacidade de síntese e comunicar os resultados para apoiar políticas públicas para a conservação e o manejo da biodiversidade amazônica. Esse é o desafio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Síntese da Biodiversidade Amazônica, o INCT SinBiAm, sediado na Universidade Federal do Pará (UFPA). 

O instituto foi lançado com a presença de 60 participantes, entre pesquisadores, autoridades, representantes de órgãos de meio ambiente federal e estadual, lideranças indígenas e sociedade civil organizada.

"O INCT reúne pesquisadores de várias instituições da região que já acumulam um conhecimento da biodiversidade amazônica e que terão agora a possibilidade de integrar esses conhecimentos e dar novos passos no mapeamento dessa riqueza natural",

disse Emmanuel Tourinho, reitor da UFPA.
Foto: Heloísa Torres/UFPA

O INCT-SinBiAm se constrói com base em uma rede colaborativa e esforços de pesquisa desenvolvidos por meio do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose), com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Inspirado na estrutura do SinBiose, o INCT-SinBiAm organizou diferentes grupos de trabalho atuando em pesquisas de síntese, com foco na biodiversidade e na integração Ciência-Sociedade, no contexto do bioma Amazônia.

Trata-se de um dos 58 novos institutos do CNPq que foram implantados ao longo de 2023, totalizando 162 em todo o Brasil, tendo como objetivos fortalecer e ampliar uma rede de colaboração focada em pesquisas de síntese sobre a biodiversidade florestal e aquática amazônica; informar as práticas e as políticas públicas focadas na educação, na conservação e no manejo sustentável e promover a formação das futuras gerações de tomadores de decisões, educadores e cientistas atuantes na Amazônia.

Parceria

A pesquisa colaborativa é componente basilar do SinBiAm e visa garantir a integração entre as áreas do conhecimento e seus integrantes. Atualmente, a rede reúne 57 membros pertencentes a 32 instituições de pesquisa nacionais e internacionais, 15 delas localizadas na Amazônia. A coordenação é do professor da UFPA Leandro Juen, com cocoordenação dos professores Juliana Schietti e Fabrício Baccaro, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e Filipe França, da Universidade de Bristol.  

Foto: Heloísa Torres/UFPA

"Um dos grandes desafios em fazer pesquisa na Amazônia é conseguir gerar informações significativas e representativas do bioma em virtude de sua escala continental. Temos uma grande biodiversidade que se traduz em um conjunto de oportunidades, mas, ao mesmo tempo, impõe desafios significativos em termos de recursos financeiros, recursos humanos e de acessibilidade às áreas. Somente trabalhando em grandes redes de pesquisa colaborativas é que poderemos gerar conhecimento para tentar garantir a conservação da biodiversidade e da sustentabilidade da região",

pondera Juen.

O SinBiAm vai desenvolver estratégias para a compilação, o armazenamento, a integração e a gestão de diferentes conjuntos de dados. "A distribuição do conhecimento da biodiversidade amazônica é extremamente desigual e muito concentrada nos grandes centros, Manaus e Belém, onde estão a maior parte dos pesquisadores. Por isso um dos principais objetivos do nosso INCT é organizar, sistematizar e integrar estes dados", explica Fabrício Baccaro.

"Incluir [os campi do] interior da Amazônia no INCT auxilia no processo de formação dos estudantes e, ao mesmo tempo, oportuniza aos grupos de pesquisa menores colaborar com as discussões importantes sobre biodiversidade e conservação e participar delas", opina Karina Dias, da UFPA de Altamira.

Foto: Heloísa Torres/UFPA

 Além da sede, em Belém, a UFPA é destaque com a participação de outros quatro campi: Altamira, Marajó, Soure e Bragança. "Nosso objetivo é, ao trabalharmos em rede, conseguirmos ter uma melhor compreensão e conhecimento da biodiversidade existente, o que determina esse padrão de biodiversidade, e principalmente analisar e encontrar respostas para os efeitos das alterações antrópicas e das mudanças climáticas, uma realidade cada vez mais constante no nosso dia a dia. A colaboração e o aumento do conhecimento são fundamentais para assegurar a preservação da riqueza biológica da Amazônia a longo prazo", aposta Juen.

Ciência para a tomada de decisão 

O INCT SinBiAm vai produzir ciência de ponta, mas também será pautado por questões da sociedade. "Além dos cientistas, vamos ouvir diferentes segmentos da sociedade, com o intuito de fazer uma ciência que vai informar os tomadores de decisão e a sociedade", explica Juliana Schietti.

Esta rede promete ser um dos diferenciais do INCT para atuar na interface entre ciência e sociedade. "Queremos trazer os interesses da sociedade, do ponto de vista da biodiversidade e conservação da Amazônia para o meio acadêmico", resume Filipe França. 

"Nunca foi dado um protagonismo para os povos da floresta e são eles que têm experiência secular em se relacionar com ela. Queremos ouvir, aprender com eles e usar o conhecimento coproduzido para tentar informar políticas públicas. Talvez esse seja o caminho correto para mudar o cenário de devastação que assola o bioma amazônico nos últimos anos", complementa Leandro Juen.

"É importante ouvir as pessoas que vivenciam diretamente os efeitos das políticas na Amazônia com diferentes ângulos de visão de uma mesma temática e que têm propriedade para falar do território, com base não apenas em dados científicos, mas também em percepções e vivências", 

comenta Jéssica Oliveira, analista do ICMBio de Altamira.

Segundo Sannie Brum, representante da Associação dos Amigos do Peixe-Boi (Ampa), uma organização da sociedade civil já está familiarizada com o processo, mas sempre retorna com algum aprendizado. "Desta vez, aprendi sobre os incentivos perversos" , lembra Brum, mencionando os incentivos que geram efeito contrário aos originalmente planejados, como tem sido referido o mercado de crédito de carbono.

Mas, para o pleno funcionamento da rede, é preciso ser cuidadoso com os desafios da inclusão. Lideranças jovens de povos indígenas, Amanda Kumaruara (Pará) e Yuri Kuikuro (Mato Grosso), chamaram a atenção para as barreiras da linguagem. "Quando eu chegar na base, vou tentar explicar, traduzir, mas o jeito [dos pesquisadores] de falar é muito certinho. Para quem não participou do processo, é mais difícil", relata Kumaruara.

E, nesse processo, talvez os povos ancestrais tenham muito a ensinar.

"A minha cultura [Kumaruara] é diferente da do Yuri [Kuikuro]. Meu povo é diferente do povo do Yuri. O que é para um não é para o outro. Mas a gente tenta conciliar, afinal estamos todos pela mesma causa",

finaliza Kuamaruara.

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