Extrativismo na Amazônia: floresta em pé também é economia. Foto: Laura Lobato/Projeto Saúde & Alegria
Olímpio Guarany*
A COP passou e a bioeconomia virou palavra de ordem. No pós-COP, porém, a Amazônia precisa de resultados: dinheiro chegando na ponta, valor agregado no território e respeito ao conhecimento ancestral. Sem isso, repetiremos o velho modelo — matéria-prima barata saindo daqui e “Amazônia” vendida caro lá fora.
A palavra da vez — repetida em palcos, painéis e documentos — foi “bioeconomia”. Os holofotes se apagaram e a pergunta que realmente importa aqui no território é simples e direta: bioeconomia vai virar renda, dignidade e permanência para quem mora e vive da floresta — ou será apenas mais um slogan bem embalado?
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Se a resposta for a segunda opção, estaremos diante de um velho roteiro com roupa nova: a Amazônia segue exportando matéria-prima barata e importando produto pronto caro; segue fornecendo insumos e recebendo migalhas; segue sendo celebrada como “salvação do planeta”, mas tratada como periferia econômica.
A bioeconomia que interessa à Amazônia não é a do discurso bonito. É a da vida real.
O pós-COP precisa dar nome ao risco mais antigo: a captura de valor fora do território. A cena é conhecida. Uma empresa chega, compra a andiroba barata, leva embora o valor — e depois devolve ao mundo um produto premium com uma história “amazônica” no rótulo. Um pingo no creme, uma gota no perfume, um selo verde na embalagem. E pronto: vende-se “Amazônia” em prateleiras distantes, enquanto quem produziu continua preso à instabilidade, ao atravessador e à falta de infraestrutura.
Isso não é bioeconomia. Isso é extrativismo comercial disfarçado.
Bioeconomia de verdade é quando a floresta em pé gera riqueza no território, com mais etapas da cadeia produtiva acontecendo aqui: beneficiamento, controle de qualidade, rastreabilidade, marca, logística, acesso a mercado, inovação e industrialização leve. E, acima de tudo, com regras claras de repartição de benefícios quando houver uso de patrimônio genético e conhecimento tradicional associado.
No pós-COP, duas Amazônias disputam espaço. A primeira é a do marketing: bonita, fotogênica. A segunda é a Amazônia real: a do produtor, do extrativista, do ribeirinho, do indígena, da comunidade tradicional — os donos de conhecimentos ancestrais e os guardiões do território, que sustentam, na prática, a floresta em pé. Quando esses atores ficam no fim da fila do financiamento e do mercado, a bioeconomia vira uma promessa vazia.
E é por isso que o pós-COP precisa cobrar uma mudança de rota: financiamento direto e desburocratizado para quem está na base, e não apenas para grandes estruturas que “representam” a Amazônia sem necessariamente viver dela.

O que precisa acontecer agora?
De forma objetiva, a Amazônia precisa ver pelo menos cinco movimentos:
1) Dinheiro chegando na ponta
Linhas de crédito e fundos voltados a organizações comunitárias, cooperativas e negócios da sociobiodiversidade, com assistência técnica e capacidade de elaboração de projetos — para que o recurso não fique concentrado.
2) Cadeias produtivas com valor agregado e mercado
Apoio real a cooperativas, beneficiamento local, rastreabilidade e acesso a compradores — para transformar o “produto da floresta” em produto competitivo.
3) Economia circular como regra, não exceção
Resíduo não pode ser lixo. Resíduo é matéria-prima. A bioeconomia moderna exige aproveitar subprodutos e reduzir perdas, aumentando renda e diminuindo impacto ambiental.
4) Proteção do conhecimento tradicional e repartição de benefícios
Sem isso, o discurso de bioeconomia pode virar uma nova forma de apropriação. É indispensável garantir respeito, consentimento e repartição justa de ganhos sempre que a biodiversidade e os saberes tradicionais entrarem em cadeias produtivas e inovação.
5) Governança com as pessoas no centro
A floresta não é cenário: é território habitado. Bioeconomia não pode ser construída “sobre” as comunidades; tem que ser construída “com” elas — com protagonismo, transparência e justiça.
A Amazônia não precisa de mais promessas; precisa de uma régua simples para medir o que está sendo feito. Se, nos próximos meses, não for possível responder “sim” a estas perguntas, algo está errado:
- O extrativista e o produtor estão ganhando mais?
- A comunidade está vendendo com menos atravessador e mais valor?
- O beneficiamento está acontecendo aqui ou fora?
- O conhecimento tradicional está protegido e remunerado?
- O financiamento chegou direto na ponta?
- A floresta em pé está valendo mais do que a floresta derrubada?

Conclusão: o pós-COP começa na dignidade
A bioeconomia que o mundo diz querer da Amazônia só faz sentido se produzir um resultado básico: dignidade e renda para quem mora e vive na floresta e da floresta. Sem isso, a Amazônia vira apenas uma marca — e o território, um fornecedor barato de riqueza alheia.
A COP passou. Agora é a hora do essencial: menos palco, mais entrega.
Menos narrativa, mais cadeia produtiva.
Menos “pingo no creme”, mais valor no território.
Porque a Amazônia real não pode ser coadjuvante da própria riqueza.

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Sobre o autor
Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). Atualmente é apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.
*O conteúdo é responsabilidade do colunista
