Franci Silva é tratadora dos filhotes que chegam ao parque, geralmente resgatados, como a jaguatirica: “São como meus filhos”. Foto: Carla Sequeira/MPEG
O sol ainda não surgiu por inteiro quando Nazareno Dias chega ao Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), na região central de Belém (PA), às 5h da manhã. Da equipe de nove tratadores de animais, acrescida de dois folguistas, ele é o primeiro funcionário a verificar se os oito filhotes dormiram bem no berçário. Com papinhas e néctar nas seringas, Nazareno garante o desjejum de um beija-flor, de dois tamanduás-mirins, de um ratinho e de quatro preguiças. Começa, assim, a rotina destes profissionais que, no calendário internacional, possuem o dia 4 de outubro para demarcar a importância de seu trabalho para o bem-estar animal, mesma data em que se comemora o Dia Mundial dos Animais.
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Com 131 anos em funcionamento, o Parque Zoobotânico é o espaço mais popular da instituição científica que completou 160 anos no dia 6 de outubro. Nele, vivem aproximadamente quatro mil animais, de cerca de 80 espécies, incluindo a “fauna livre”, que estão fora dos recintos, como as cotias, e as espécies visitantes, formadas, em boa parte, por lagartos e aves que não pertencem ao plantel do MPEG. Sob a orientação da bióloga Thatiana Figueiredo e dos veterinários Messias Costa e Mônica Coelho, os tratadores cumprem uma escala que envolve atenção extrema, pontualidade e diversos momentos de afeto.
Considerado um dos tratadores mais experientes da casa, Nazareno segue, depois do berçário, para o recinto da Luakã, a onça-pintada. Desde 2017 na função, o respeito ao território é a principal lição que ele aprendeu. “Com a onça, não se pode vacilar”, resume. Jamais ele fica no mesmo espaço que ela. Dividido por áreas que podem ser isoladas, o recinto é higienizado por partes para garantir a segurança.
Além de sinais que podem indicar problemas de saúde, como presença de vômito, falta de apetite, variações nas fezes, os tratadores estão atentos ao comportamento dos bichos. “Se você ver a Luakã inquieta, de um lado para o outro, é porque ela sabe que os podadores das árvores estão por perto”, explicou Nazareno. A onça não gosta de barulho. Por isso, nos dias de poda, ele a isola na área mais reservada do recinto. Por outro lado, ela adora brincar.

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“Não adianta vir aqui como um robô, limpar, colocar a comida e ir embora. Sempre brinco com um galho de palmeira pela grade, ela se deita com a barriga para cima”, conta, acrescentando que a Luakã também se diverte com o enriquecimento ambiental, quando, na rotina, os animais do Parque Zoobotânico recebem estímulos para exercitar a saúde física e mental.
Assim como a onça, as ariranhas, as antas, as cobras e os macacos-aranha exigem bom conhecimento por parte dos tratadores. Eduardo Santos está na função há mais de 20 anos. “Os macacos não aceitam qualquer um, eles podem morder, e se eu estiver com um perfume diferente, vão me estranhar”, explica.
Contrariando a percepção popular de que as antas são pouco inteligentes e passivas, Eduardo conta que já teve que correr delas. “Todo tratador precisa entender como os animais se defendem. Se algo incomoda as antas, por exemplo, elas vão correr e podem dar cabeçadas”.
Ele também cuida das cobras no Aquário Jacques Huber, o aquário público mais antigo do Brasil. “Estou sempre observando as fezes e a troca de pele. Se a pele sai inteira, as cobras estão bem. Se a pele sai aos pedaços, aviso à veterinária, porque é sinal de algum problema na saúde”, contou.

No dia 1° de outubro, um peixe da espécie oscar estava separado dos outros 90, aproximadamente, que ficam expostos no aquário. O olhar clínico do tratador Rodrigo Gemaque percebeu a barriga inchada e o reservou para análise sob orientação da bióloga Camila Nunes, responsável pelos peixes do parque, incluindo os 33 que habitam os lagos da área externa ao aquário.
“Esse está com um parasita. Todos os dias, precisamos olhar um a um”, comenta. Da mesma forma, a verificação da qualidade da água é essencial. “Vejo se o filtro está saturado, se precisa lavar as esponjas, trocar a água”, detalha, explicando que a limpeza dos vidros para evitar acúmulo de amônia é outra tarefa rotineira, bem como manter a água alcalina.
Diferente do que muita gente possa imaginar, os peixes reconhecem os tratadores, segundo Rodrigo explicou, considerando a própria experiência. Ele está há dez meses no Parque Zoobotânico; antes, trabalhava em lojas de exportação de peixes ornamentais.
“Os peixes conseguem lembrar de ti. Acredito que eles associam a cor da roupa à chegada do alimento. Quando eu me aproximo para alimentá-los, todos nadam em minha direção. Eles não querem carinho, querem se alimentar”, ensina. Na relação diária com os peixes, o tratador conta o que aprende com eles. “Os peixes simplesmente estão satisfeitos, como se não precisassem de grandes objetivos para se sentirem tranquilos. Acho isso muito bacana para pensar a vida”, avalia o tratador.
O carinho é ingrediente da nutrição
O bem-estar dos animais, necessariamente, passa pelo setor operado por Elizete Nogueira e Benedito Barradas. Eles trabalham na cozinha. “Aqui é o ‘ifood’ dos animais”, brincou Elizete, há 15 anos preparando as refeições no Parque Zoobotânico. A produção começa cedo. “Nossa maior preocupação é com a contaminação cruzada. Por isso, em cada dia, quem trabalha na bancada da proteína, não trabalha na bancada das frutas”, justifica. Todo mês, 750 quilos de carnes passam pela bancada da proteína, sendo 150kg de carne vermelha, 300kg de frango, 150kg de peixe e 150kg de camarão. Já a bancada do hortifruti recebe 3,5 toneladas de frutas e tubérculos. A ração mensal chega a meia tonelada.
Quando fala sobre seu trabalho para pessoas externas ao Museu Goeldi, Elizete tem a chance de desconstruir alguns mitos. “Muita gente pensa que a alimentação dos animais é feita de qualquer jeito, que é o resto das feiras ou que vem de doações. As pessoas ficam surpresas quando eu falo que as refeições são todas preparadas no dia, com alimentos de qualidade verificada e acompanhada por biólogas e veterinárias. Cada animal recebe refeições específicas, levando em consideração o peso e a necessidade de nutrientes. A gente observa a aceitação, se precisa picar em tamanhos menores, tudo é controlado”, garante.

A papinha do tamanduá é um orgulho da equipe, uma receita que Elizete comemora. “Outro mito é que os tamanduás só comem formiga e cupim. Não é verdade. Aqui a gente prepara uma papinha com vários ingredientes”, anuncia, revelando os itens: “Para o tamanduá-bandeira, vai uma papa de frango feita por nós mesmos, com uma mistura que leva banana, maçã, ração e um suplemento vitamínico. Outra receita leva acelga, frango, ração e frutas”, especifica Elizete, sempre atenta às quantidades e aos protocolos de higiene.
Barradas é o parceiro de Elizete na cozinha. Está na nutrição depois de mais de 30 anos como tratador de animais, sendo o mais antigo da equipe. Ele começou a trabalhar no parque em 1994. “Na época, eu ainda tinha cabelo”, diverte-se, dizendo que a catarata encerrou suas atividades com os animais. A distância dos recintos é necessária devido ao cuidado para evitar infecções nos olhos. Tímido e sorridente, ele enfatiza que o carinho é o segredo da profissão. “Sem carinho, não adianta nada”, afirma.
Ele recorda de quando cuidou do peixe-boi Mayra, que morreu em 2008. “Quando ela ficava com raiva, era muito difícil. Ela não gostava de sombra, mas não podia ficar direto no sol, porque esturricava as costas. Então, eu ligava a torneira e ficava vigiando. Se mexesse muito com ela, ela se batia todinha. Tinha que fazer com carinho”, lembra.

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As papinhas preparadas por Elizete e Barradas são resultados de adaptações bem sucedidas realizadas no setor veterinário, após observações constantes dos tratadores, entre eles, Franci Silva, que há 16 anos trabalha no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi. Nesse tempo, ela se formou como técnica de enfermagem e, atualmente, desempenha suas funções, prioritariamente, no berçário e na área da quarentena, onde ficam os animais em preparação para a soltura em seus habitats naturais.
A saudade dos animais que partiram parece ser comum entre os tratadores. Em pouco tempo de conversa, os olhos de Franci encheram de lágrimas. Ela lembrou da Aurora, uma tamanduá-mirim, que não resistiu às complicações de saúde e morreu após cerca de dois anos sob os seus cuidados. “Para mim, são como filhos.
Às vezes, acordo de madrugada, pensando no que posso fazer no outro dia para melhorar a qualidade de vida dos filhotes”, revela. Franci já cuidou de filhotes de lontra, jacaré, lagarto, preguiça, jaguatirica, ariranha, entre outros. “Quando a gente não consegue resolver algum problema de saúde, é muito triste. Mas é muito satisfatório quando eu vejo os filhotes ganhando autonomia para comer, até ficarem prontos para voltar ao seu ambiente natural”, alegra-se.

Entre os tratadores mais antigos, também está Magno Ribeiro, com 23 anos de Museu Goeldi, 13 deles na tratação de animais. Ele lembra, saudoso, de alguns bichos que tiveram vida longa no parque: o peixe-boi Mayra, a onça Guma, a ariranha Erê, o jacaré Alcindo são alguns exemplos.
“Do Guma, eu cuidei até a hora da morte. Levava soro na água, botava do ladinho dele, ele lambia, mal olhava, a gente insistia, mas não teve jeito, morreu de velho. Fizemos o máximo que pudemos”, rememora. Pelo saber acumulado, ele passou a cuidar também das ariranhas, da onça, das antas e dos macacos.
Cuidar de animais em extinção: privilégio
Recentemente, num dia qualquer, uma conversa animada, pela manhã, podia ser ouvida no recinto da arara-azul. Era o tratador Jhon Castro chegando com a comida e se preparando para realizar a limpeza do espaço. Ele falava com a ave, que desceu de uma grade para bicar o cabo da vassoura aos seus pés, depois de receber um cafuné. Além da arara-azul, vivem no Museu Goeldi outras duas espécies ameaçadas de extinção: a onça-pintada e o tamanduá-bandeira. Presentes na lista de espécies vulneráveis, moram no parque quatro espécies: anta, tracajá, jacaré-açu e harpia. Jhon é um dos poucos que a arara-azul deixa entrar no recinto.
Como muitos tratadores, Jhon chegou no museu, há 16 anos, para trabalhar nos serviços gerais. Há três anos, ele desempenha a função de tratador. Está no setor das aves e interage com as araras, os papagaios, as corujas, os socó-boi, os guarás e o mutum-cavalo. De todas as vivências que já teve, uma faz brilhar seus olhos: o dia em que conseguiu segurar a arara-azul.

“Eu não pegava nela, então eu fui, fui, fui, até que ela me aceitou. Foi muito gratificante. Falei: égua, legal! Ela era brava. Agora não, é só amor”, disse, sorrindo. Segundo ele, a conquista exigiu mais de um ano de paciência e confiança. “Com o tempo, ela percebeu que eu não apresentava risco, que eu fazia o bem, até que ela me aceitou”, comemora
Roberto Maria é o mais recente na equipe. É tratador há dois anos. Perto dos setores da biologia e da veterinária, ele ajuda a manter os recintos da quarentena limpos e com a alimentação servida. Nestes espaços, vivem sete animais resgatados e em processo de reabilitação, sendo três araras, uma jandaia, um bem-te-vi, um aracuã e uma jaguatirica.
Com o apoio dos colegas mais antigos, ele colabora com a manutenção dos lagos dos quelônios e é responsável por alimentar o tamanduá-bandeira. Ele também cuida do urubu-rei, dos jabutis e dos tamanduás-mirins. Antes de ser tratador, foi auxiliar administrativo, eletricista, auxiliar de carpintaria, vendedor de churros e de coxinha. Hoje, se vê como um privilegiado.
“Eu penso assim: a geração futura talvez nem veja um animal desse, só por foto. Então eu me acho um privilegiado, porque estou vendo o animal bem na minha frente, todos os dias. Sempre tento trazer a minha filha para ver também. Ela tem 11 anos. Ela ama ver os bichos e já fala que quer ser médica veterinária”, contou Roberto, acrescentando que sua meta atual é ganhar a confiança da Haru, a tamanduá-bandeira. “Enquanto eu limpo o recinto, fico de olho. É ela de um lado e eu de outro. Mas quando ela está comendo, aproveito, faço um cafuné para ela gostar de mim”, finalizou.

A importância do descanso
Além dos nove tratadores do parque, dois folguistas, a Tatiana Dias e o Carlos Eduardo Carmo, garantem uma escala de trabalho que preserva o tempo de descanso da equipe. A bióloga Thatiana Figueiredo explica que a rotina é permanente. “Nossa equipe trabalha de domingo a domingo, incluindo os feriados. Por isso, a escala precisa ser bem construída.
O descanso é muito importante para que a atenção seja renovada. É um trabalho que não dá para ser feito no automático”, defende. Somada à atenção, a sensibilidade ao bem-estar dos animais é outro aspecto importante no perfil. “Além do bom caráter, os tratadores precisam ter um olhar apurado para a saúde e para o comportamento dos animais. Muitas vezes, eles trazem as primeiras informações que vão orientar a atuação das biólogas e dos veterinários”, explica.

De acordo com Thatiana, não há, em Belém, cursos de formação profissional específicos para tratadores de animais. “Aqui, ensinamos as técnicas de contenção, as diferenças entre os grupos de animais: como um mamífero se comporta, uma ave, um réptil. O aprendizado é construído no dia a dia. Os mais experientes também auxiliam na formação dos mais novos.
Em outros locais do Brasil, existem treinamentos para tratadores. Na maioria dos zoológicos do centro-sul, os tratadores são veterinários e biólogos. Há uma tendência muito grande dos tratadores se tornarem biólogos e veterinários, principalmente biólogos”, analisa. Para estimular o reconhecimento da importância do trabalho dos trabalhadores de animais, em 2015, foi criado o Dia Internacional dos Tratadores de Animais, coincidindo, propositadamente, com o Dia Mundial dos Animais, instituído desde 1931.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, escrito por Carla Serqueira
