Madeira oriunda da Amazônia perde mercado e gera consequências para construção civil brasileira

A madeira oriunda de florestas naturais amazônicas tem perdido mercado devido à reputação de estar ligada à destruição de florestas e ao desmatamento.

O mais recente estudo publicado pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) sobre o papel das florestas plantadas para suprir madeira sólida à construção civil alerta que o Brasil pode estar a caminho de um “apagão florestal” já nos próximos anos, o que poderá comprometer o desempenho do setor e forçar a substituição por materiais mais poluentes e com maior pegada de carbono, como o concreto. Nesse cenário, o país seguiria em uma direção contrária à tendência mundial de maior uso da madeira para a implantação de cidades mais sustentáveis.

O estudo ‘Desafios e oportunidades para a produção de madeira sólida de cultivos florestais voltada ao desenvolvimento da construção civil brasileira’ é um esforço inicial para compreender as oportunidades e os gargalos da produção de madeira sólida a partir de florestas plantadas e os possíveis cenários futuros para a construção civil. Madeira sólida é o termo usado na construção civil para se referir a um tipo de produto composto inteiramente por material lenhoso, sem ser misturado a outros insumos. É utilizada em diversas aplicações, incluindo estruturas, revestimentos, pisos e móveis.

Segundo a pesquisa, o país passa por um momento de expansão da produção de celulose e papel, sendo esperada para os próximos anos a abertura de diversas unidades industriais para gerar tais produtos. Aliado a isso, o país experimenta também o aumento significativo na demanda por madeira para fins energéticos. Em contrapartida, o estudo aponta que a área sob cultivos florestais avança timidamente. No caso do pinus, essas áreas têm, inclusive, retrocedido nos últimos anos, conforme com o levantamento.

Com poucos investimentos em escala destinados a implantar cultivos florestais para a produção de madeira sólida, o Brasil pode sofrer um colapso no fornecimento desse material. Já a madeira oriunda de florestas naturais da Amazônia – que poderia fornecer madeira sólida, principalmente em centros urbanos importantes localizados no Norte e Nordeste do país –, tem perdido mercados devido à reputação de estar ligada à destruição de florestas e ao desmatamento.

Foto: Ananda Carvalho/Governo de Rondônia

Outro estudo do Imaflora – Acertando o Alvo 4 –, publicado no ano passado, já indicava questões reputacionais em relação à madeira da Amazônia e sua alegada relação com a exploração ilegal e o desmatamento, o que tem afastado os compradores preocupados com a conservação da maior floresta tropical do planeta. O quadro agora fica mais claro, mas não menos preocupante.

A pesquisa atual foi feita com base na coleta de informações cedidas por 40 especialistas de diferentes setores econômicos e técnicos do setor florestal ligado à silvicultura e ao mercado madeireiro no país. Foram analisados também os marcos legais existentes e vasta bibliografia. Além de traçar a atual conjuntura do setor, o trabalho pretende provocar o debate sobre o que falta para alavancar a cadeia da silvicultura voltada à produção de madeira para a construção civil no território brasileiro.

O estudo alerta que, provavelmente, a escassez de madeira sólida afetará não apenas os setores industriais de produtos estruturais, mas todos aqueles que dependem dessa base florestal. Há consenso entre os especialistas consultados de que existe uma carência de informações qualificadas sobre a base florestal para apoiar os segmentos econômicos no planejamento e na tomada de decisão de estratégias para atender ao mercado daqui para a frente.

O fato de os plantios florestais para a produção de madeira sólida serem considerados investimentos de longo prazo, com uma enorme incerteza sobre as projeções de preço futuro da madeira e de mercados dispostos a remunerar de modo atrativo o produtor ou investidor, corrobora para o cenário desfavorável no fornecimento de madeira para a construção civil.

A pesquisa também evidenciou a lacuna de estratégias e de planejamentos setoriais específicos para resolver este problema. “Investimentos de longo prazo necessários para a produção de madeira sólida carecem de previsibilidade, escalabilidade e mesmo de interesse setorial”, avalia Marco Lentini, especialista florestal do Imaflora e um dos autores do estudo. 

Cidades sustentáveis

Para Maryane Andrade, consultora de mercados florestais do Imaflora, a alternativa mais provável para o setor será empregar materiais de alta pegada ecológica e de carbono na ausência de madeira sólida. Um exemplo é o concreto, priorizado nos projetos construtivos, que relega a madeira a uma posição de artigo de luxo em moradias de alto padrão.

Diante desse quadro, os autores advertem que políticas públicas e corporativas são necessárias para a expansão dos cultivos florestais em novos arranjos produtivos e modelos de negócios que estimulem a produção de madeira sólida, incluindo incentivos financeiros e fiscais em regiões-chave, além da implantação de programas de fomento florestal, especialmente junto a pequenos e médios produtores. Essas iniciativas, garantem, ajudariam a resolver passivos em relação ao Código Florestal e ainda abririam frentes para o uso de pastagens degradadas e a diversificação da cesta de produção rural.

Os autores também recomendam ações de conscientização e de comunicação junto aos mercados, uma vez que a madeira tem um estigma de não ser resistente e demandar muita manutenção – fora o problema reputacional.

Pesquisa, desenvolvimento e inovação são essenciais tanto do ponto de vista da silvicultura de espécies nativas quanto de exóticas. Tecnologias relacionadas a novos produtos voltados à construção civil também precisam ser ativadas para evitar que o apagão florestal se torne uma realidade no país, advertem os pesquisadores.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora

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