Por que a fumaça de queimadas piora à noite em Manaus? Especialista explica

De acordo com meteorologista do Inmet, o resfriamento do solo reduz a dispersão de partículas na atmosfera. Especialista também alerta para condições climáticas que podem agravar incêndios na região.

Céu de Manaus encoberto por fumaça densa na Zona Centro-Sul da capital na noite desta quinta-feira (8). Foto: Ianke Sena

Nos últimos dias, o céu de Manaus (AM) tem sido encoberto por fumaça vinda de incêndios na capital e queimadas florestais na Região Metropolitana. O fenômeno costuma se intensificar entre as primeiras horas da noite e o amanhecer. O fato gera questionamento: por que a fumaça piora no período noturno?

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Segundo a meteorologista Andrea Mendes, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), durante o dia, o aquecimento do solo causado pelo sol favorece a movimentação do ar e aumenta a mistura entre as camadas da atmosfera.

À noite, quando a temperatura cai, o processo se inverte: a superfície perde calor, o ar próximo ao chão fica mais estável e a circulação vertical do ar diminui. Com isso, a fumaça e as partículas finas de poluição, como o MP2,5, ficam concentradas nas camadas mais baixas da atmosfera.

Leia também: Com fumaça densa, Manaus registra pior qualidade do ar do Brasil

MP2,5 são partículas de poluição com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, que podem ser inaladas. Sua concentração no ar é medida em microgramas por metro cúbico (µg/m³) e ajuda a avaliar a qualidade do ar. Em Manaus, esse monitoramento é feito por ferramentas como o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

“Em algumas noites pode ocorrer uma inversão térmica mais marcada, que funciona como uma espécie de ‘tampa’, dificultando ainda mais a dispersão dos poluentes”, explicou a meteorologista.

Fumaça encobre o porto do Ceasa em Manaus. Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica
Fumaça encobre o porto do Ceasa em Manaus. Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica AM

Leia também: Fumaça sobre Manaus acende alerta para cuidados que vão além da saúde respiratória

Com o nascer do sol, o solo volta a aquecer e o ar próximo à superfície se movimenta mais. Isso aumenta a dispersão da fumaça e das partículas de poluição na atmosfera.

Por isso, a fumaça pode ficar menos visível e a qualidade do ar melhorar gradualmente durante a manhã, mesmo que os incêndios continuem ativos.

“Não significa necessariamente que estejam ocorrendo mais queimadas à noite; muitas vezes é a atmosfera que perde capacidade de dispersar a poluição nesse período. Esse comportamento é compatível com o padrão observado por redes de monitoramento como o Selva”, acrescentou Andrea.

El Niño não causa incêndios, mas facilita propagação

Além das condições que favorecem o acúmulo de fumaça e poluição durante a noite, o fenômeno climático El Niño pode contribuir para prolongar os efeitos das queimadas na região amazônica. Andrea explica que o El Niño não produz a fumaça nem inicia os incêndios, mas pode favorecer condições que pioram o cenário.

O fenômeno é relacionado a alterações nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. Na Amazônia, períodos com chuvas mais irregulares ou abaixo da média, temperaturas elevadas, vegetação mais seca e menor umidade do solo facilitam a propagação de incêndios já ativos.

Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech

A baixa incidência de chuvas também reduz a lavagem atmosférica, processo pelo qual a água remove parte das partículas suspensas no ar. Quando esse processo não acontece por falta de chuva, a poluição permanece por mais tempo na atmosfera.

“Foi justamente essa combinação de estiagem, calor, baixa umidade e transporte pelos ventos que já utilizamos nas análises anteriores sobre Manaus”, explicou a meteorologista do Inmet.

El Niño continua se fortalecendo

De acordo com a última atualização do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), divulgada em 8 de outubro, o El Niño continua se fortalecendo. Segundo a ONU, o fenômeno pode ser o mais intenso desde 1950.

O índice de temperatura da superfície do mar na região Niño-3.4, uma das principais áreas usadas pelos cientistas para acompanhar o El Niño, chegou a 2,1°C acima da média em setembro.

Para que o El Niño continue se fortalecendo, a atmosfera também precisa responder ao aquecimento do oceano. Isso aparece em mudanças nos ventos, na pressão e na distribuição das chuvas sobre o Pacífico. No novo boletim, a NOAA afirmou que esses sinais continuam presentes, o que indica que o oceano e a atmosfera seguem atuando juntos para sustentar o fenômeno.

A previsão indica, ainda, alta probabilidade de o fenômeno permanecer “forte a muito forte” até o início de 2027.

Fumaça encobre Manaus pelo segundo dia seguido

A fumaça provocada pelas queimadas voltou a encobrir Manaus nesta sexta-feira (9). Moradores relataram problemas para respirar, irritação na garganta, noites mal dormidas e prejuízos ao trabalho. Pelo segundo dia consecutivo, a capital amazonense registrou a pior qualidade do ar do Brasil, segundo a plataforma internacional IQAir.

Avenida do Futuro em Manaus encoberta por fumaça nesta sexta-feira (9). Foto: Michael Anderson

Diante do agravamento da poluição, a Defesa Civil emitiu um alerta severo sobre os riscos à saúde e recomendou que a população evite a exposição prolongada à fumaça. Instituições de ensino também suspenderam atividades presenciais na capital.

*Por Marcela Orquiz, da Rede Amazônica AM

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Universitárias criam biblioteca de grafismos do povo Huni Kuin no Acre

O projeto Biblioteca de Kene reúne tecelagem em algodão, grafismo, registros audiovisuais e uma plataforma digital acessível por celular.

Leia também

Publicidade