Desmatamento se aproxima de povos isolados na última fronteira da Amazônia brasileira

Uma família de indígenas isolados se perdeu de seu grupo e acabou entrando em contato com a sociedade não indígena. Há mais de um mês, membros da Funai estão acampando perto da família, ajudando-os a caçar e pescar.

Agentes indígenas encontraram artefatos deixados na mata pelos indígenas isolados de Mamoriá Grande, como cestarias e um pilão. Foto: Daniel Cangussu/Funai

“Eles são curiosos em relação à gente, e a gente é curioso em relação a eles”. É assim que Daniel Cangussu descreve a recente interação com um pequeno grupo indígena que acaba de entrar em contato com o restante da sociedade no coração da Amazônia brasileira. “Ainda não conhecemos a língua deles, mas a comunicação é feita o tempo todo. Compartilhamos comida, a gente pesca para eles, eles nos acompanham nas caçadas”, disse o servidor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

O grupo vive há séculos em uma das áreas mais preservadas da floresta amazônica, em uma região conhecida como Mamoriá Grande — nome de um afluente do Rio Purus que atravessa o território. O primeiro contato ocorreu no dia 12 de fevereiro, quando um jovem apareceu em uma comunidade ribeirinha da região, que fica entre os municípios de Tapauá e Lábrea, no sul do Amazonas.

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“Ele saiu da mata porque havia perdido o fogo”, disse Cangussu, que coordena a Frente de Proteção Etnoambiental Madeira-Purus da Funai, responsável por proteger os povos indígenas isolados desta área.

Após receberem alimentos e assistência médica, os agentes da Funai ajudaram o homem a retornar ao ponto da floresta de onde ele havia saído. Alguns dias depois, os agentes perceberam que ele ainda estava na mesma área, agora acompanhado pela família: uma mulher e um bebê de cerca de um ano. “Percebemos que eles não só estavam sem fogo, mas estavam em dificuldade”, disse Cangussu.

Segundo ele, essa família faz parte de um grupo maior, cuja existência foi confirmada pela Funai em 2021. Antes do início da estação chuvosa, eles costumam migrar para as áreas mais altas, nas cabeceiras dos rios, onde é mais fácil caçar, pescar e coletar frutas nesta época do ano. Mas por algum motivo essa família ficou para trás, presa nas terras baixas e alagadas onde há menos comida disponível. Diante da precariedade da situação, os agentes da Funai decidiram entrar na floresta para apoiar o grupo.

“Eles tomaram a iniciativa de acampar perto de nós porque estão precisando de apoio”, disse Cangussu. “Estavam um pouco mais magros, aparentemente anêmicos, então uma equipe de saúde está nos acompanhando, fazendo exames e dando vitaminas. E nossa equipe está ajudando com a pesca e a caça”.

Uma família indígena isolada, composta por um casal e um bebê, se perdeu do resto de seu grupo na região de Mamoriá Grande, no Amazonas. Foto: Daniel Cangussu/Funai

Mamoriá Grande está no meio de um mosaico de uma dúzia de unidades de conservação e territórios indígenas, que funcionam como uma barreira ao desmatamento. Não por acaso, há pelo menos outros quatro povos isolados vivendo no sul do Amazonas, segundo Priscilla Oliveira, antropóloga e pesquisadora da organização de defesa dos direitos indígenas Survival International.

“Territórios com uma floresta de pé, saudável e com bastante biodiversidade são os locais ideais para que estes povos possam prosperar”, ela disse à Mongabay.

Por enquanto, as maiores ameaças aos povos indígenas que vivem nessas áreas são caçadores e pescadores ilegais ocasionais. No entanto, derrubadas em grande escala e a especulação fundiária estão cada vez mais próximas, especialmente após a explosão nas taxas de desmatamento registradas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022). O avanço do Arco de Desmatamento para o norte aumenta o risco de a Amazônia atingir um ponto de não-retorno, quando o bioma se transformaria em um ecossistema mais seco, degradado e com menos biodiversidade, que deixaria de ser considerado uma floresta tropical.

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“Somos a última fronteira”, disse Zé Bajaga Apurinã, coordenador da organização indígena local Focimp (Federação das Organização e Comunidades Indígenas do Médio Purus), à Mongabay. “É o nosso cinturão que protege essa região da invasão, porque [os desmatadores] estão entrando com tudo e estamos sendo assediados de todas as maneiras possíveis”.

A expansão da pecuária é uma das principais fontes de pressão, e tem sido impulsionada pela perspectiva de pavimentação da BR-319. A estrada de 880 quilômetros foi construída na década de 1970 para conectar a capital de Rondônia, Porto Velho, com Manaus, capital do Amazonas. No entanto, um trecho de 400 km da estrada, conhecido como “trecho do meio”, se torna intransitável na maior parte do ano, fazendo com que Manaus dependa fortemente do transporte fluvial para o abastecimento de mercadorias.

O asfaltamento desse trecho resultaria em um aumento de quatro vezes nas taxas de desmatamento ao redor da BR-319, segundo um relatório de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Quarenta unidades de conservação e 50 territórios indígenas seriam afetados, incluindo os grupos indígenas isolados que vivem na região do Médio Purus.

O ex-presidente Jair Bolsonaro não conseguiu cumprir sua promessa de pavimentar o trecho durante sua administração. Agora, o presidente Lula se comprometeu a terminar a obra apesar das críticas de ambientalistas e associações indígenas, que afirmam que o projeto contradiz a agenda ambiental do governo.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), produziu vários artigos sobre os impactos da pavimentação da BR-319. Segundo ele, o governo federal está colocando em risco uma parte vital da floresta para atender a interesses econômicos de poucos grupos. “Há muita pressão para abrir esses blocos de floresta, tanto para favorecer a exploração de petróleo e gás quanto os grupos do agronegócio, especialmente os pecuaristas”, ele disse à Mongabay.

A pavimentação da BR-319 levaria a Amazônia a mais desmatamento, afetando a produção de chuvas do Brasil e colocando em risco as comunidades indígenas. Foto cedida pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

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Registro da BR-319 em 2021. Foto: Reprodução/DNIT

Apesar da distância entre a BR-319 e a área de Mamoriá Grande — cerca de 260 quilômetros em linha reta —, Ferrante acredita que a abertura de estradas secundárias floresta adentro pode se tornar uma ameaça para esse e outros povos isolados.

Historicamente, as rodovias oficiais na Amazônia geram dezenas de estradas não oficiais e menores, em um fenômeno conhecido como espinha de peixe; de cima, essas estradas menores podem ser vistas se ramificando da principal, lembrando a espinha de um peixe. Segundo o pesquisador, já existem mais de 6 mil quilômetros de estradas não oficiais nas proximidades da BR-319, seis vezes a extensão da própria rodovia.

“Qualquer abertura e pressão sobre essas áreas é uma ameaça para esses povos indígenas”, disse ele. “Esta é a nova área visada para expansão na Amazônia. O que precisamos fazer é fechar permanentemente esses blocos de floresta”.

As comunidades tradicionais não seriam as únicas vítimas do avanço do desmatamento sobre os últimos maciços florestais da Amazônia. Segundo Ferrante, essa área é o berço dos rios voadores que levam água para outras partes do país, sendo responsáveis por 70% das chuvas no Sul e Sudeste do Brasil.

O avanço de não indígenas sobre essas florestas intocadas também os colocaria em contato com uma variedade desconhecida de vírus e bactérias. Assim como no caso do coronavírus (covid-19), esses microorganismos poderiam se espalhar rapidamente pelo restante do Brasil e até pelo mundo. “Este é um dos maiores reservatórios zoonóticos do planeta”, afirmou Ferrante.

Um processo de demarcação turbulento

A Funai reconhece registros de 114 povos indígenas isolados em todo o Brasil, sendo a maioria na Amazônia. A decisão dessas comunidades de evitar o contato com a sociedade não indígena é uma resposta à violência enfrentada no passado. Durante a ditadura militar no Brasil, mais de 8 mil indígenas foram mortos em massacres, expropriação de suas terras, remoções forçadas de seus territórios, contaminação por doenças infecciosas, prisão, tortura e maus-tratos. A maioria dessas mortes ocorreu durante a construção das grandes rodovias que ligam a Amazônia ao restante do país.

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Ainda hoje, o Brasil é o segundo país mais perigoso do mundo para defensores ambientais, incluindo os indígenas. Muitas vezes, os ataques vêm de madeireiros e pecuaristas que invadem seus territórios.

“Aqui no Purus a gente era mais de mil povos e agora somos uns dez”, disse Zé Bajaga Apurinã. “Eles têm medo dos brancos matarem eles, porque já mataram muitos”.

Desde 1987, a Funai segue a política de não contato, respeitando a decisão daqueles que não desejam entrar em contato com a cultura não indígena.

“Não promovemos o contato. Sempre trabalhamos para entender a área de ocupação e então proteger essa área”, disse Marco Aurélio Milken Tosta, Coordenador Geral de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai, à Mongabay. “Ao mesmo tempo, estamos sempre preparados caso um grupo busque contato conosco, como no caso de Mamoriá Grande”.

Uma vez confirmada a existência de um grupo, uma das primeiras medidas é a emissão de um termo de proteção que estabelece que apenas pessoas autorizadas pela Funai entrem no território. Isso funciona como uma medida emergencial enquanto o processo de demarcação está em andamento. No entanto, os agentes da Funai foram impedidos de realizar seu trabalho durante a administração do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro (2019-2022), que era abertamente contra a demarcação de terras para comunidades tradicionais.

“Desde que o grupo foi confirmado em 2021, nós e outras organizações vínhamos pressionando para que o termo de restrição de uso fosse assinado”, disse Oliveira, da Survival International. “Acreditávamos que essa restrição viria assim que Luiz Inácio Lula da Silva assumisse [em janeiro de 2023], mas infelizmente demorou muito mais.”

O termo de restrição foi assinado em dezembro de 2024, protegendo uma área de 259.783 hectares, quase o dobro do tamanho do município do Rio de Janeiro. Nesse meio tempo, a Funai criou um grupo de trabalho para começar a identificar e demarcar o território, para que a Terra Indígena Mamoriá Grande possa ser oficialmente criada.

No entanto, esse processo pode levar décadas.

“Até conseguirmos a regularização efetiva da terra indígena, é um processo relativamente longo, complexo, e sujeito a muitas pressões”, disse Tosta, da Funai. “Isso nos preocupa muito porque, até que a área seja efetivamente estabelecida como terra indígena, o grupo está vulnerável, ainda mais dentro do contexto político atual.”

O primeiro obstáculo para o grupo de Mamoriá Grande veio do Congresso Nacional, onde os senadores Dr. Hiran e Omar Aziz apresentaram um projeto de lei para suspender o termo de restrição da Funai, argumentando que isso poderia trazer “impactos socioeconômicos” para as comunidades locais.

Eles também afirmaram que o termo contradiz o marco temporal, uma lei controversa aprovada pela bancada ruralista no Congresso, que estabeleceu uma data de corte para a constituição de territórios indígenas. Embora tenha sido considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 2023, a legislação foi aprovada pelo parlamentares poucos dias depois, em um embate legal que levou à paralisia de muitos processos de demarcação.

A Mongabay tentou falar com os senadores Aziz e Dr. Hiran, mas eles não responderam até o momento da publicação (em 28 de março de 2025).

A proteção do grupo Mamoriá Grande também enfrenta a resistência de alguns moradores da Reserva Extrativista Médio Purus, uma unidade de conservação de 600 mil hectares habitada por cerca de 1.500 famílias ribeirinhas. De acordo com a Funai, 20% da área indígena se sobrepõe à reserva.

“A comunidade não pode mais entrar na mata para cortar seringa, para tirar castanha, para pescar, caçar, para fazer nada. Até impedir aluno de ir pra escola estão impedindo”, afirmou José Maria Carneiro de Oliveira, ex-presidente da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Médio Purus (ATAMP), em uma ligação telefônica com a Mongabay.

Diante dessas reclamações, Tosta respondeu que a Funai está trabalhando de perto com as comunidades locais e com o ICMBio, órgão responsável pelas unidades de conservação do Brasil. “A gente não faz trabalho nenhum sem parceria com as comunidades. A gente precisa dessa atuação conjunta”, disse. “Estamos trabalhando para tentar buscar um equilíbrio e fazer o trabalho que precisa ser feito de proteção da área destes indígenas”.

No dia 9 de março, a Funai realizou uma reunião na comunidade Bela Rosa, a mais afetada pela ordem de restrição, para tentar atender às suas demandas e fazer acordos sobre o andamento dos trabalhos.

Os próximos passos da Funai na área de Mamoriá Grande dependerão do comportamento do grupo indígena, disse Daniel Cangussu. “Se o rio secar e eles voltarem para seus parentes — perfeito. Continuaremos a proteger o território. Se no futuro eles permanecerem na área e seus parentes é que descerem [para se juntar a eles] no verão, teremos um grupo maior para proteger”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Fernanda Wenzel

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