Por que Cuiabá é conhecida como “cidade verde”?

Cuiabá é a capital de Mato Grosso, acolhida por três biomas e é conhecida por ser "cidade verde" no coração dos cuiabanos.

Cuiabá ocupa o ranking das cidades que possuem mais avenidas arborizadas do país. Foto: Divulgação/IPHAN

Capital de Mato Grosso, Cuiabá é considerada uma das capitais mais arborizadas do país. Famosa pelos quintais com mangueiras e cajueiros, a cidade é abraçada por três biomas principais do Brasil – a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal – e ocupa o 8° lugar no ranking nacional de arborização urbana entre as capitais, segundo dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025.

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Com 74,23% de suas ruas e avenidas arborizadas, a capital mato-grossense supera grandes cidades como São Paulo. Veja o ranking das capitais mais arborizadas (%) – por trecho de via com pelo menos uma árvore (dados do Censo Demográfico IBGE/2022):

CapitalRanking NacionalCapitalRanking Amazônia Legal (recorte)
1. Campo Grande (MS)91,41. Palmas (TO)88,7
2. Goiânia (GO)89,62. Cuiabá (MT)74,5
3. Palmas (TO)88,73. Porto Velho (RO)64,9
4. Curitiba (PR)85,24. Macapá (AP)62,9
5. Brasília (DF)84,25. Boa Vista (RR)52,6
6. Porto Alegre (RS)76,56. Manaus (AM)44,8
7. Belo Horizonte (MG)75,37. Belém (PA)44,6
8. Cuiabá (MT)74,58. Rio Branco (AC)39,9
9. São Paulo (SP)66,29. São Luís (MA)34,3
10. Porto Velho (RO)64,9

Segundo pesquisadores, a cidade tem o toque verde por uma série de fatores, sendo eles sociais, culturais e ambientais.

Vista da Ponte Sérgio Motta, entre as cidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Vista da Ponte Sérgio Motta, entre as cidades de Várzea Grande e Cuiabá. Foto: Mtur Destinos / Wikipédia

Cuiabá é a “cidade verde” do Brasil?

De acordo com o geólogo Caiubi Kuhn, o título de “cidade verde” está relacionado com a existência de grandes árvores frutíferas, como a mangueira e o cajueiro, e a região hídrica de Cuiabá, que apesar de ser fraca, tem papel importante na titulação da cidade.

“Áreas que possuem aquíferos, com melhor disponibilidade de água, acabam favorecendo o desenvolvimento da vegetação. Mas, em geral, a área de Cuiabá não é uma área onde tem uma boa disponibilidade hídrica. Então, por isso que a gente acaba observando áreas que possuem uma vegetação mais concentrada, normalmente próximo de rios como o Rio Coxipó”, disse Kuhn. 

Para o Engenheiro Florestal Marcelo Pissurno, a idealização de Cuiabá ser uma cidade verde veio da cultura local, através da letra do rasqueado ‘Cabeça de Boi’, de autoria de Henrique, Claudinho e Pescuma, em que se canta: “Oh Cuiabá, cidade verde, ai, ai, ai / com cheiro de pequizá, ai, ai, ai”.

“Essa letra criou uma memória afetiva e uma identidade associadas à paisagem da cidade, somadas às artes plásticas produzidas por artistas cuiabanos, que retratavam o cotidiano e a paisagem urbana do início do século XX”, explica o engenheiro. 

Além dessa música, Pissurno ressalta que as praças e jardins, os quintais, as festas de santo e a culinária compunham esse cenário esverdeado em Cuiabá: “Os quintais, em especial, sempre foram formados por árvores e plantas frutíferas exóticas, como caju e manga, retratadas nas letras das músicas e nas telas dos artistas, fazendo parte da cultura e da dieta cuiabana. O verde sempre esteve presente”. 

Porém, com a ascensão da urbanização e o desmatamento, Cuiabá tem perdido seus tons verdes. Pissurno destaca que onde antes havia quintais, surgiram prédios, principalmente na área central, e as praças foram perdendo o uso e o verde. ”Assim, o verde permaneceu apenas na memória”, analisa o engenheiro.

Cidadãos ajudam a arborizar Cuiabá. Foto: Divulgação / Poder Judiciário de Mato Grosso

O apagamento do verde na área urbana de Cuiabá

Por isso, de acordo com Pissurno, o título de “cidade verde” é uma denominação antiga, que acredita ter perdurado até meados da década de 1990. “A cidade ainda era pequena, sem um crescimento populacional expressivo. Seu crescimento rápido e desordenado agravou a perda desse título”, comenta.

Segundo dados do IBGE, a área urbanizada de Cuiabá em 2019 era de 160,59 km². Marcelo explica que devido ao crescimento urbano da cidade, há 10 anos, o espaço verde tem se perdido.

“A cidade cresceu muito nos últimos 10 anos, especialmente no período pós-Copa do Mundo. Muitas obras e intervenções foram realizadas, como o sonhado VLT, que nunca saiu do papel, e agora as obras do BRT [referentes ao trânsito]. Nesse período, perdemos muitos indivíduos arbóreos em terrenos baldios, áreas verdes e, principalmente, na malha viária — calçadas e canteiros. Árvores que foram retiradas, morreram por diversos motivos e que nunca foram substituídas”, disse o engenheiro ao Portal Amazônia.

Mesmo com a urbanização se expandindo por Cuiabá, a cidade possui projetos de lei que ajudam a valorizar o meio ambiente que resiste na urbanidade. O “Programa Verde Novo”, por exemplo, é um projeto de autoria do Poder Judiciário, em parceria com a Prefeitura de Cuiabá, do qual o Marcelo participou por dois anos.

O programa é voltado para a educação e conscientização ambiental, além de promover o plantio de árvores em espaços públicos e a distribuição de mudas à população.

Leia também: Cuiabanos que inspiram: cinco personalidades que ajudaram a escrever a história da cidade

Programa Verde Novo atua para arborizar a capital. Foto: Divulgação / Poder Judiciário de Mato Grosso

O “Plano Diretor de Arborização Urbana”, um estudo elaborado a partir do levantamento de todas as questões relacionadas à arborização urbana de Cuiabá, com propostas de melhoria e recuperação, também é uma medida que ajuda a melhorar a área verde da região. “É um documento que realmente precisa ser implementado, criando e executando um projeto efetivo de arborização urbana para a cidade”, defende.

O engenheiro pontua ainda algumas alternativas que os cuiabanos podem adquirir para manter o título de “cidade verde”. Ele propõe que educação ambiental, conscientização e um plano de arborização urbana que todos sigam – moradores, construtoras e condomínios – respeitando suas normas e diretrizes, desde o plantio até o manejo. A poda e a conservação dos indivíduos arbóreos são medidas alcançáveis que a população pode tomar. Além disso, defende o engenheiro florestal, é importante a existência de uma secretaria que realize o monitoramento, o controle e a curadoria da arborização da cidade.

“É frustrante ver a atual arborização de Cuiabá. Temos muitas pessoas preocupadas e interessadas no assunto, mas falta reunir forças e fazer acontecer, como ocorre na grande maioria das cidades brasileiras. Ainda assim, não podemos perder a fé e a esperança”, finaliza Marcelo Pissurno.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Barcellar

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